15/08/2015

A escritora capixaba Renata Bomfim participa do projeto "Viagem pela literatura" no IFES/ Vitória, dia 24/08/2015



Amigos capixabas, quero convidá-los para um delicioso bate papo literário no IFES de Vitória, às 19 horas. Esse evento é promovido pelo projeto Viagem pela Literatura, da Prefeitura de Vitória/ES.

Quero agradecer a PMV, especialmente a Elizethe Caser, coordenadora do projeto, pelo convite e dizer que estou muito feliz em participar, pois, fui aluna do IFES entre os anos de 1990 e 1994, quando se chamava Escola Técnica Federal do ES (ETFES) e tenho um carinho grande pela instituição.

Será uma alegria recebê-los nesse dia,
Abraços fraternais
Renata Bomfim

13/08/2015

Raquel Naveira: a fecunda voz poética do Brasil central (por Angelo Mendes Corrêa)

Por sua vasta produção literária, Raquel Naveira despertou elogios de nomes da envergadura de Antonio Houaiss, Cleonice Berardinelli, Afonso Romano de Sant’Anna, Lygia Bojunga Nunes e Eclea Bosi, dentre tantos outros que têm sabido reconhecer o seu extraordinário talento poético e crítico, permitindo-nos afirmar, sem o menor favor, tratar-se de um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea. Professora universitária há quase três décadas, é doutora em Língua e Literatura Francesas pela Universidade de Nancy, na França, e mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo. 
Nesta entrevista, a escritora sul-matogrossense, que publicou seu primeiro livro, Via Sacra, em 1981, e os mais recentes, Quarto de Artista, em 2013, e Dora, a menina escritora e outros contos de infância, em 2014,  discorre com a sensibilidade que lhe é peculiar sobre o fazer poético e a construção de sua obra.
Raquel Naveira
Conte-nos um pouco sobre sua infância e adolescência e seu envolvimento com Mato Grosso do SulComo disse, a minha vocação para as letras é uma vocação de infância.  Conto um pouco de minha história: nasci em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 23 de setembro de 1957, filha de um oficial do exército, Adahil Pereira da Silva e de Marlene Carvalho. Meus pais se separaram depois de dois anos de casamento e duas filhas e fomos criadas com imenso carinho pelos nossos avós, José Dias de Carvalho, o português Carvalhinho e Emília. Passei a infância, até os doze anos de idade, em São Paulo, num casarão antigo da Vila Mariana. Estudei no Madre Cabrini e no Liceu Pasteur. As lembranças de cantarmos a Marselhesa e hastearmos lado a lado as bandeiras do Brasil e da França fizeram da França minha segunda pátria. A pátria da alma, da poesia, do amor perdido em redemoinhos de folhas à beira do Sena.Voltamos a Campo Grande. Meu avô possuía um sítio chamado Primavera e era necessário cuidá-lo.  Esse sítio marcou-me profundamente. As flores nas cercas, a casa simples com fogão a lenha, as melancias pelo caminho que levava ao córrego, as árvores: laranjeiras, mangueiras, frondosos ingazeiros. Estudávamos no Colégio Auxiliadora, que eu amava. Sempre gostei do ambiente de estudo, dos colegas e professores, das festas, das peças de teatro. A vida sempre me pareceu útil e boa dentro da escola e tudo o que eu queria era sempre estar  ali. Aos quinze anos, passei a dar aulas na Aliança Francesa, dirigida pela professora Glorinha, minha mestra, musa e modelo. E aos dezoito no Auxiliadora, onde fiquei por onze anos, dando início à minha saga no magistério.Paralelamente, fiz o curso de Direito, na antiga FUCMT. Mas a verdadeira vocação eram as letras, a literatura. Pensava, como dizia Rilke, que não poderia viver sem escrever. E sonhava e chorava lendo Castro Alves, Drummond, Augusto Frederico Schimidt: “ Eles me entendem, são meus irmãos”, eu pensava. Casei-me, aos vinte anos, com meu colega Adhemar Portocarrero Naveira, companheiro da juventude e de todos os momentos. E tivemos três filhos: Augusto, Otávio e Letícia. Hoje somos avós de Maria Augusta e de Maria Eduarda e nos sentimos cada vez mais próximos, unidos e testados pelas provas difíceis que vencemos com a ajuda de Deus até aqui.Formei-me, depois, em Letras, ainda na FUCMT, e comecei a dar aulas no Departamento de Letras, onde permaneci por dezenove anos. Além de dar aulas de várias disciplinas, trabalhei na editora UCDB (Univeridade Católica Dom Bosco), apresentei e produzi, por seis anos, o programa Prosa e Verso, na TV Universitária, entrevistando vários escritores como Adélia Prado, Zuenir Ventura e Ignácio Loyola Brandão, entre outros.Durante trinta anos, escrevi no jornal Correio do Estado: crônicas, ensaios, poemas. É sempre uma alegria e uma emoção quando alguém me diz que colecionou poemas meus, que os colocou em cadernos e diários, que algum poema o ajudou a viver e a ter esperança. Pois creio em poesia como ato fraterno. Aos quarenta  e oito anos, logo após a minha aposentadoria, recebi um convite para dar aulas no Rio de Janeiro, na Universidade Santa Úrsula. Meu desejo de ampliar horizontes, de conhecer novas pessoas, principalmente aquelas do meio literário a que eu pertencia de forma espiritual, era muito grande e aceitei. Minha visão de mundo mudou completamente. Viver no Rio é conhecer a realidade brasileira com toda sua dor e delícia. Após dois anos, tivemos que vir para São Paulo. Era preciso unir toda a família: nossos filhos, minha mãe doente e o gato. Hoje estamos em ares bandeirantes. Continuo dando aulas e cursos em universidades e aparelhos culturais,  procurando dar nossa contribuição de experiência e amor.O sonho permanece: viver da literatura, para a literatura, pela literatura.
Que influências foram mais significativas em sua formação? Sempre fui uma leitora apaixonada. Desde criança: Monteiro Lobato, Andersen, os irmãos Grimm, as Mil e uma noites, Malba Tahan. Na adolescência, a poesia: os românticos, o revolucionário Castro Alves, o genial Álvares de Azevedo, o clássico Gonçalves Dias; os modernistas: Mário de Andrade, Drummond, Bandeira. E houve Clarice. Lygia, amiga querida que passou a enviar-me seus livros com lindas dedicatórias. E Nélida, que narra tudo como Homero. A literatura francesa caminhou lado a lado com cada escola literária estudada: Rimbaud, Baudelaire, Verlaine. A literatura latina,  sou fascinada pela Roma antiga, pela mitologia greco-romana, pela filosofia. A literatura latino-americana com o realismo fantástico de um Borges. E hoje, a literatura africana com Mia Couto à frente.Nunca esquecendo que minha leitura de todos os dias é a bíblia. Tudo está lá: oráculos, ensinamentos, poesia pura como ouro de Ofir. Com destaque para os salmos, o Eclesiastes, os Cantares de Salomão e as cartas de Paulo.
Acha que ser poeta ainda traz para muitos a conotação de romântico, de alguém um tanto alheio à realidade do dia a dia? Há sim ainda um estereótipo de poeta nefelibata, que anda nas nuvens. Mesmo depois de Drummond ter dito que queria cantar “a vida presente, o tempo presente”. Todo poeta é muito concentrado e atento em coisas mínimas, naquilo que aos outros passa despercebido. Daí a sensação de que o poeta vive distante. Certa vez, estava andando pela rua 14, rua principal de minha cidade e vi uma antiga loja de turcos, onde se vendia uma mala, daquelas duras, marrons, meio canastra. Perguntei-me: quem compraria essa mala? Pronto: era o primeiro verso de um poema que ficou assim:
MALA

Na loja do turco
Vende-se mala,
Daquela marrom,
Dura,
Com dobradiças de metal;
Uma mala meio baú,
Meio canastra
Que cheira a passado.

Quem compraria essa mala?

Um mágico
Para guardar lenços e pombas?

Um passageiro
Com destino à cordilheira dos Andes?

Um assassino
Para colocar os pedaços do corpo da vítima?

Uma viúva
Para esconder cartas e rosas murchas?

Uma criança
Para colecionar bolitas e tesourinhas de unha?

Qualquer pessoa que carregasse essa mala
Seria suspeita.
 Acredita que o poeta tem alguma função no mundo? O poeta é porta-voz de uma sociedade, de um tempo, é antena do inconsciente coletivo. Fala o que muitos gostariam de falar, leva uma palavra fraterna ao coração de muitos. Mitiga a fome de beleza que todos temos dentro de nós.
Correto afirmar que sua poesia se funda na religiosidade, na memória e no épico? Correto. Vivo em busca de Deus e de mim mesma. Sondo-me. Meu maior interlocutor é o Outro, com quem estou sempre em comunhão.A memória jorra em golfos: ela é a matriz da fraternidade.O épico é meu desejo de ser sujeito da história, de conhecer e compreender a história: os fatos, os sentimentos, as consequências de cada decisão. Escrevi sobre a Guerra do Paraguai, sobre a Guerra do Contestado, sobre a imigração árabe e armênia em Mato Grosso do Sul. Publico semanalmente crônicas na revista eletrônica Top Vitrine, que têm muitas vezes temáticas históricas.  Amo os romanceiros, os romances históricos e as biografias de personagens históricas.
De que forma lida com a ideia de transcendência? Assim como Manuel Bandeira, creio que a vida é uma preparação para a morte. O fim de todos os milagres. Creio na vida eterna, no juízo, no arrebatamento. Ambiciono a salvação.
Qual o seu processo para dar um livro como concluído? Os livros muitas vezes são escritos em poucos dias, mas todos se desenvolveram durante séculos, durante toda a vida, dentro de nós.Os livros de poemas devem possuir um número razoável de poemas, a produção de alguns anos.Outros livros obedecem  a um esquema que precede a escrita. Escrever livros é uma tarefa que não tem fim.
Ainda é um desafio escrever e publicar fora do eixo Rio-S.Paulo? Cada livro é um novo desafio: na criação e na publicação. É preciso bater às portas. Às vezes a resposta é sim, outras é não. A tudo, em toda circunstância, sempre agradecer. Agradeço tudo que consegui realizar até aqui e também  o que não consegui. Minha confiança em Deus é total e sei que tudo contribui para o meu bem. O importante é resistir sempre, perseverar, procurar caminhos, exercer o ofício com disciplina.
Como tem sido sua experiência no magistério? Há meios de despertar em nossos jovens o gosto poéticoÉ muito importante o incentivo à produção literária por parte do poder público: projetos, prêmios, patrocínios, publicações, tudo o que dê recursos e visibilidade à obra e ao artista. Quanto às universidades, os cursos de Letras, de Pedagogia, de Comunicação, de Jornalismo, de Cinema, de Artes em geral, têm o papel de apresentar aos acadêmicos os autores, os livros, os textos, incentivar a literatura comparada. A leitura e a literatura são a base de tudo.Professores bem formados, vocacionados, apaixonados por livros, preparados para a sala de aula, estimulam  os seus alunos através de modelos, os modelos de leitura e os modelos de vida.Conhecemos, claro, as dificuldades do magistério nos dias de hoje, mas sempre haverá o mestre que ama o seu ofício e se dedica a ele.
Poderia fazer um balanço de sua obra até agora publicada? Comecei a escrever muito cedo, ainda criança. Na escola, gostava de criar jornaizinhos, de escrever em diários e cadernos. Na adolescência, escrevi peças teatrais, participei de festivais de teatro. Aos vinte anos, comecei a publicar meus poemas, quase diariamente, no jornal Correio do Estado. Eu levava os poemas em mãos e os lia para o professor Barbosa, diretor do jornal, que ouvia tudo atentamente, com muita paciência, oferecendo-me sempre um cafezinho do bule de prata, naquelas xícaras brancas fumegantes. Em 1981, publiquei,de forma independente, numa gráfica de Campo Grande, o meu primeiro livro de poemas, o Via Sacra. Ali já estavam minhas principais temáticas: a terra, o autoconhecimento, o fazer poético, a natureza, o amor e a morte, o cristianismo, a mitologia greco-romana. O livro recebeu crítica favorável no jornal Verve, do Rio de Janeiro, dirigido na época por Ricardo Oiticica. Em 1990, publiquei Fonte luminosa, em São Paulo, com  Massao Ohno, editor de poesia e arte.Fonte luminosa é uma referência à fonte da praça da 14 e ao próprio Deus, pois o poeta é astro iluminado. Em 1991, veio Nunca-te-vi, poesia, pela editora Estação Liberdade, de São Paulo. Nunca-te-vi é o nome de um bairro de Bela Vista, cidade que faz fronteira com o Paraguai, outro tema de minha poesia: a alma na fronteira. Em 1992, pela mesma editora, o primeiro livro de ensaios, Fiandeira, que fala sobre a gênese da poesia, um livro generoso, inspirado na Filosofia da composição de Edgar Alan Poe, quando explica a composição do poema “O corvo”. Em 1993, o primeiro romanceiro épico, Guerra entre irmãos, poemas inspirados na Guerra do Paraguai, livro que teve uma enorme repercussão, sendo citado por Gilberto Cotrim em livro sobre a história do Brasil. Em 1994, pela editora paulista Scortecci, o segundo romanceiro: Sob os cedros do Senhor, poemas inspirados na imigração árabe e armênia em Mato Grosso do Sul. Esse livro foi citado por Ana Miranda, nas referências de seu livro Amrik, virou espetáculo de dança do grupo folclórico Litani e rendeu-me homenagem, em forma de troféu, oferecido pelo Clube Libanês. Em 1995, o livro de poemas Abadia, editado no Rio de Janeiro, pela Imago, ganhou a primeira indicação ao prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Em 1996, a primeira novela lírico-bíblica,Mulher samaritana, publicada pela editora Santuário e seguida por Maria Madalena e Rute e a sogra Noemi. Em 1996, Caraguatá, poemas inspirados na Guerra do Contestado, publicado pela Fundação Cultural R. Sovierzoski, de Dourados, ilustrações de Poty Lazarotto, livro que se transformou num curta-metragem, Cobrindo o Céu de Sombra, do cineasta Célio Grandes. O infanto-juvenil Pele de Jambo, foi publicado em 1996, pela RHJ de Belo Horizonte e conta a história de Rutinha, uma menina que vive entre dois mundos opostos: São Paulo e Mato Grosso. O livro de ensaios O arado e a estrela foi publicado em 1997, pela editora UCDB. Em 1997, participei do livro Intimidades transvistas, publicado pela editora Escrituras, de São Paulo, com poemas meus ilustrando os quadros do artista plástico Valdir Rocha, ao lado de outros poetas, como Renata Pallottini, Eunice Arruda, Jorge Mautner e Ives Gandra Martins. Em 1998, Casa de Tecla, poemas ilustrados por Ana Zahran e finalista do prêmio Jabuti. Em 1999, o livro de poemas Senhora ganhou o prêmio Henriqueta Lisboa, da Academia Mineira de Letras. Em 2001, no livro Stella Maia e outros poemas, da editora UCDB, conto em versos a conquista do México pelos espanhóis. Também em 2001, Xilogravuras, de Valdir Rocha, ao lado de Eunice Arruda, Álvaro Alves de Faria, Celso de Alencar, com prefácio de Nelly Novaes Coelho. Casa e castelo, em 2002, reuniu os poemas de Casa de Tecla e Senhora. Em 2004, Tecelã de tramas, ensaios sobre interdisciplinaridade, editora UCDB, revela a união entre a poeta e a professora. Em 2006, Portão de ferro, poemas, pela Escrituras. Em 2007,Literatura e Drogas e outros ensaios, pela Nova Razão Cultural, do Rio de Janeiro. O livro, que faz um corajoso relato sobre a confluência das drogas e da literatura nas vidas e nas obras de vários autores e sugere o posicionamento pedagógico do estudo da filosofia nas escolas, como prevenção ao uso de drogas, foi adquirido por várias escolas municipais do Rio de Janeiro. Em 2012, Crônicas de bicicleta foi publicado pela editora Miró. Em 2013, Quarto de artista, pela editora Íbis Libris,   e a coleção de poemas infantis Guto e os bichinhos (volumes I e II), com ilustrações de meu filho, Guto Naveira, pela editora Alvorada. Em 2014, surgiu o Dora, a menina escritora e outros contos de infância, ilustrações de Sandra Lavandeira, também pela Alvorada, nesse mundo de magia que é a literatura infantil.
E o que vem por aí? Atualmente, preparo um novo livro de crônicas e um volume de Poesia reunida.
* Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista.

04/08/2015

XII Festival Internacional de Poesia de Granada (Nicarágua/ 2016)


Amigos, 
Recebi o convite para representar o Brasil no XII Festival Internacional de Poesia de Granada, um dos maiores da América Latina, na Nicarágua. O Festival, em 2016, será em homenagem ao poeta nicaraguense e pesquisador Ernesto Mejía Sánchez e em memória do poeta Luis Cardosa y Aragón, da Guatemala. Será a segunda vez que represento nosso país nessa festa que celebra a poesia e a paz entre os povos. Em 2014, esteve comigo o poeta Antônio Miranda, e nos tornamos grandes amigos. Tenho um carinho especial pela Nicarágua, pois, é a terra onde nasceu o meu poeta do coração: Rubén Darío. Conheci a poesia de Darío durante as pesquisas de mestrado na UFES, quando investigava a poética de Florbela Espanca. No terceiro livro de Florbela, chamado Charneca em flor, há um poema dariano como epígrafe, o poema "Amo, amas", e esse poema foi o germe da  pesquisa de doutorado (inédita) chamada A Flor e o Cisne: diálogos poéticos entre Florbela Espanca e Rubén Darío, defendida em 2014. Será a quarta vez que vou à Nicarágua, terra que possui uma rica cultura, com representações como El Gueguense, e um povo gentil e hospitaleiro. Guardo no coração os passeios que fiz pelo lago Cocibolca, com suas ilhetas, — cada uma mais bonita que a outra —, e os dias passados em León e Manágua. Visitei a Cidade Rubén Darío, que se chamava Metapa quando o poeta nasceu, e pude adquirir um acervo amplo sobre a poesia nicaraguense. É uma honra estar entre poetas de várias partes do mundo compartilhando saberes e poemas.  Meu abraço fraternal e carinhoso ao Sr. Chichi, a Sra. Glória, a toda a junta diretiva do Festival  de Poesia e aos poetas amigos que terei a alegria de reencontrar. Viva Granada! Viva a la poesia!
Renata Bomfim
Visita a cidade onde nasceu Rubén Darío



28/07/2015

Dionysos (Renata Bomfim)

                               À Rubén Darío, In Memoriam

Dans la sacrée forêt
les instincts bourgeonnent.
Chaque plante, chaque animal, l'air,
tout vit, tout parle.
Du vert ils surgissent
serpentantes secousses,
murmures,
rires…

C'est la nymphe que du dieu majestueux
boit le vin.
Elle se transforme dans la propre coupe
débordant de désirs.
Dionisio, perturbé, la désoriente
en la traînant, occulte, par le pâturage,
pour qu'elle s'ouvre, osée et parfumée.

Elle cède à sa sollicitude se soumettant.
Son corps maintenant se fond entre les âpres mains.
C'est une gazelle. Inhumaine,
sa lance la pénètre.
Déclenchée, elle veut plus…
Maintenant les dents du dieu lacèrent la chair
en marquant empreintes dessinées
par les cornes resplendissantes.

La nymphe s'élève entre râles,
la forêt compose une symphonie 
de gémissements heureux.
Extasiés, communient satisfaits.
Elle adore au dieu païen
seigneur des êtres de ce royaume.
Après, il repose en rappelant l'idylle,
jusqu'à ce que la nuit la couvre
avec son manteau d'argent.




(Tradução de Pedro Sevylla de Juana)

La alquimia del ser en Luna Mojada, de Francisco de Asís Fernández (por Renata Bomfim e tradução de Sérgio de Castro)


 La obra poética Luna Mojada (2015), edición bolingüe, del escritor nicaragüense Francisco de Asís Fernández, desafía el lector para que se aventure. El libro, con treinta y ocho poemas, le da forma a una especie de Cosmogonía poética donde los valores femeninos, masculinos e instintos básicos se mezclan creando nuevos mundos. Inicio mi mirada a esa obra por la pintura en acrílico sobre tela del artista plástico colombiano Mario Londoño (1954), escogida como portada. En esa obra pictórica observamos una mujer acostada sobre un caballo. El cuero desnudo de la hembra se une al del imponente animal, de modo que no podemos diferenciar los hilos de su pelo de la cola del equino. No hay movimiento entre los elementos de la obra, apenas el silencio ruidoso del eco de las voces que necesitan ser escuchadas. La luna, suspendida, asiste al espectáculo de unión entre seres distintos y afines. Considérese al aviso al lector, entraremos en un mundo de sueños inédito, en él que nada es lo que parece ser, pero que, al mismo tiempo lo es a priori. Mundo arquetipo, nocturno, erótico, dual, preñado de ansiedades, abismos y alboradas. La luna, guardadora de los misterios femeninos de la creación, símbolo de la Gran Madre primordial, está húmeda, lista para el gozo y la procreación. Esa obra nos arremete a un lugar intersticial en el que coexisten el bien y el mal. En el poema de Rubén Darío “Coloquio de los Centauros”, el centauro Ástilo revela la profundidad del misterio poético. Él dice: “El enigma es el soplo que hace cantar la lira”. Así, como informó Ástilo, la enunciación del yo poético en Luna Mojada indica que ese no es un libro de revelaciones, antes, de misterios. Indica que hay un camino que sólo el lector puede recorrer en la intimidad de la lectura, senda iniciática que le permitirá vislumbrar nuevos sentidos y realidades, pues, sondear el verso es ser sondeado por él, es romper con todo, no tener la verdad como horizonte y tampoco el futuro como morada. Es así como el crítico Maurice Blanchot define el poema: “la realización total de la irrealidad”. Deparémonos con el yo lírico expresando la llegada de un tiempo de alegría y gozo posible, apenas, a través del amor. El poema “¿Cómo era las auroras al principio del mundo?” despierta recuerdos de un pasado común y lleno de novedades: “cuando descubrimos el fuego/ y pintamos las cuevas de Altamira”. “Retrato del poeta”, poema que le sigue, indica el surgimiento del principio de la desarmonía, explicitando la existencia de una fisura: “una gotera infame en el techo de mi cabeza”. Pensamientos inundados, ya no hay como resguardar las “memorias, imágenes,/ manías, amores y rencores antiguos,/ que sostenían muchas paredes de papel y de sombras”. Hay también el despertar de una nueva fuerza destructiva y abisal en el cierne de la obra: “En mi cuerpo parece haberse liberado un animal”. Destaco aquí la soledad esencial que emana de la obra literaria. Como afirmó Blanchot (2010), el libro no es la obra, antes, un objeto hecho de palabras estériles. La obra comprende un evento en el cual las palabras se materializan en la intimidad de quien escribe y de quien lee. Así, la palabra tiene su inicio en la inquietud del yo poético. Los sueños fueron derrotados y el escenario es alucinante: “exquisita gota de locura”, los ojos de la mujer hacen recordar la aurora inaugural, “ojos más intensos que las noches del Lower East Side/ y las cataratas del Niágara”. En la duda entre el sueño y la realidad existe apenas una certeza: los ojos de esa mujer “Con tantos sueños derrotados”.

Es en el sueño que el yo poético puede recobrar la antigua unidad. Transportado por el “Ángel de la noche” a lugares espectaculares, vislumbra un “nuevo mundo” donde los seres de las aguas y del aire se juntaban. Ese lugar sin lágrimas y sin dolores no admite el corazón humano, sin embargo, en el poema subsiguiente, titulado “Hay un lugar en el mundo”, vemos la emergencia del nuevo equilibrio entre humanos y no humanos: la intimidad entre el yo poético y los animales revela “la más íntima amistad”, un vínculo de confianza. El yo, solitario, conversa con los pájaros, así se siente que apura sus sentidos y se hacen “más peligrosos que un tigre de Bengala”, por lo tanto, listos para “arrancar la virtud de la vida”.

Hay hambre y sed, necesidades primarias humanas que lanzan el yo en la senda del autoconocimiento, búsqueda que lleva a la epifanía. El yo poético se depara con la belleza de la vida marina y se agita con “el temblor de las estrellas”. Es en el sueño que el deseo de la unidad con el todo se realiza. El poema “Luna Mojada” ratifica el campo onírico como lugar de viabilidad de lo imposible, vivencia arquetípica, primordial, cuna que acoge y trasmuta el muerto, así como la semilla que dormita, preservándole el alma que, en determinado momento, “aflora y parte”. Cumplida esa etapa, el neófito está listo para seguir adelante. Las palabras se extinguieron, la muerte y la vida se extinguieron, resta el despertar y el descubrimiento, “este milagro”.

El ermitaño solitario encuentra el equilibrio dinámico de la vida: “alimentaba su alma con el Don del silencio”, entretanto, por más que el yo se realice en el paraíso de la palabra, existe la tentación del encuentro con el otro: con ella, la mujer que preexiste, resiste, y se hace en inéditos. La hijas de Lót con su belleza y seducción, y la mujer que “era un cadáver antes de morir” revelan rostros del feminismo cuya potencia es capaz de corromper al hombre, hacer pedazos las reglas, desagradar a Dios y dar a luz a nuevos hombres, hijos de un padre/abuelo sin máscaras. Es tiempo de preguntas. ¿A quién dirigírsela? A las estrellas.

El poema “Tamara lírio” expone los instintos, devela de la hembra devoradora, belleza que pisa el suelo sagrado sin ceremonias. El ritual erótico prosigue en “Arcana Fata”. En el centro del paraíso, entre los ríos “Tigris y Éufrates”, el yo poético prepara como ofrenda un “corazón de carbones ardendo”, enseña a hacerse nuevamente uno con la amada al ser devorado y por ella asimilado. Mientras tanto, la consumación antropofágica no fue posible, pues, el yo lírico no supo huis de sí mismo, fue (¿inocentemente?) engañado por sus sentidos.

El elemento fuego surge en el poema “Cloto, Láquesis y Àtropos”. En él, las hilanderas de la vida y de la muerte, señoras del Destino, viajan en un barco en llamas. Ellas chupan “la sustancia esencial” de un cuerpo, prefieren tener como víctimas a los vagabundos y los errantes solitarios. Las hermanas se miran en un pedazo de espejo hecho de mar: juego de imágenes, ilusiones y multiplicidad. El doble especular presente en ese poema reaparecerá en el “Yo también quise la dicha”, en el cual el yo lírico se ve remolcado por una sombre y busca liberarse: “Pero la bala de plata estalló en la cara”. Desfigurado, el yo ve frustrado su ideal de felicidad. ¿Qué hará el hombre con la belleza que abunda? ¿Qué hará Dios en su día de descanso? ¿Dónde estará la imagen real, frente a los escombros del rostro despedazado, de los reflejos y de los fragmentos? Observamos que el poeta emprende una crítica sobre el sentido de la vida, de la creación, de la objetividad de la belleza como metáfora del arte y de la poesía. ¿No sería la duda la quintaesencia de la creación? La Serpiente es la guardiana de ese paraíso de dudas. Perderse en la soledad ee un atributo del poeta, pero, hay un faro, una luz: los ojos de la amada. El poema, “El el íris de tus ojos”, dedicado a la esposa y compañera del poeta, Señora Gloria Gabuardi, vemos la temeridad del instante, el poema enseña que el paraíso no desaparece, cambia continuamente, incluso, concentrándose entero en los ojos y en la palma de, la mano de la mujer. En “Celebración de la Primavera”, las palabras de amor son direccionadas a la amada: “Con ella conocí la agonía de los ríos del desierto”. En “Los hijos de Caín” se establece el embate entre la práctica del bien y la alabanza de los pecados abundante de los “hijos de Caín”. Caín teme ser muerto por Abel y planea asesinarlo. El yo lírico pasa a cultivar obsesiones, se siente una serpiente inútil, sin principio y sin final. El ouroboros, símbolo representado por la serpiente que se devora a sí misma a partir de la propia cola, indica que el yo penetró en el tiempo de la eternidad, del sueño, en el lugar donde encuentra una princesa encantada que alerta sobre la (in)finitud de la vida: “Me fue quedando en todo lo que amé”. En el instante, el yo lírico quiere devorar “estrellas fugaces”, tiene hambre del infinito y comprende que “somos un grano de arena en medio de un desierto azul”, espacios vacíos contemplados por el universo. El yo lírico, “arrancado del silencio de la noche/ del oscuro cielo nocturno lleno de estrellas/  del caos celestial”, contempló la belleza que lo deseaba, necesitando de su mirada.

Observamos que después de la jornada épica de descubrirse a sí mismo a partir del otro, de la alteridad (mujer, animal y elementos celestiales y terrenales), y también siendo visto, el yo poético entona un canto laudatorio a la mujer. No es por un acaso que el poeta dedica los versos a su progenitora, la Señora Rosita Arellano. “Letanías para nuestra señora, la Virgen de la Rosa” cierra el libro de poemas, que es un ruego, una oración por la vida: “Rosa azul que representas milagros y nuevas posibilidades de la vida/ Rosa roja que representas el amor y la pasión”. Así como las Parcas, señoras del Destino y el ouroboros presentes en la obra indican que el poema es una antonimia, instaura lo paradojo, pues, de la misma manera que la vida posee un comienzo y encuentra su final (por la muerte), simbólicamente la serpiente es aplastada por la mujer que hace que ese mismo ser renazca como Otro, trayendo dentro de sí todos los que lo antecedieron: la humanidad entera.






A alquimia do ser em Luna Mojada, de Francisco de Asís Fernández 

(por Renata Bomfim)




A obra poética Luna Mojada (2015), edição bilíngue do escritor nicaraguense Francisco de Asís Fernández desafia o leitor para que se aventure. O livro com trinta e oito poemas da forma a uma espécie de Cosmogonia poética onde valores femininos, masculinos e instintos básicos se misturam formando novos mundos. Inicio o olhar para essa obra pela pintura em acrílica sobre tela do artista plástico colombiano Mario Lodoño (1954), escolhida como capa. Nessa obra pictórica observamos uma mulher deitada sobre um cavalo. O corpo nu da fêmea se une ao do imponente animal, de forma que não podemos diferenciar os fios dos seus cabelos dos da cauda do equino. Não há movimento entre os elementos da obra, apenas o silêncio ruidoso de ecos de vozes que necessitam ser escutadas. A lua, suspensa, assiste ao espetáculo de união entre os seres distintos e afins. Considere-se o leitor avisado, entraremos em um mundo de sonhos inédito, onde nada é o que parece ser, mas que, ao mesmo tempo é à priori. Mundo arquetípico, noturno, erótico, dual, prenhe de ansiedades, abismos e alvoradas. A lua, guardadora dos mistérios femininos da criação, símbolo da Grande Mãe primordial, está úmida, pronta para o gozo e para a procriação. Essa obra nos arremessa para um lugar intersticial onde o bem e o mal coexistem. No poema de Rubén Darío “Colóquio de los Centauros”, o centauro Ástilo revela a profundidade do mistério poético, ele diz: “El enigma es el soplo que hace cantar la lira”. Assim, como informou Ástilo, a enunciação do eu poético em Luna Mojada indica que esse não é um livro de revelações, antes, de mistérios. Indica que há um caminho que apenas o leitor pode perfazer na intimidade da leitura, senda iniciática que lhe possibilitará vislumbrar novos sentidos e realidades, pois, sondar o verso é ser sondado por ele, é romper com tudo, não ter a verdade como horizonte e nem o futuro por morada. É assim que o crítico Maurice Blanchot define o poema: “a realização total da irrealidade[1]”. Deparamo-nos com o eu lírico expressando a chegada de um tempo de alegria e regozijo possível, apenas, por meio do amor. O poema “¿Cómo eran las auroras al pricipio del mondo?” desperta lembranças de um passado comum e cheio de novidades: “cuando descubrimos el fuego/ y pintamos las cuevas de Altamira”. “Retrato del poeta”, poema que o sucede, indica o surgimento do princípio da desarmonia, explicitando a existência  de uma fissura: “una gotera infame en el techo de mi cabeza”. Pensamentos inundados, já não há como se resguardar as “memorias, imagines,/ manías, amores e rencores antiguos,/ que sostenían muchas paredes de papel e de sombras”.  Há também o despertamento de uma nova força, destrutiva e abissal no cerne da obra: “En mi cuerpo parece que se solto um animal”. Destaco aqui a solidão essencial que emana da obra literária. Como afirmou Blanchot (2010), o livro não é a obra, antes, é um objeto feito de palavras estéreis. A obra compreende um evento no qual as palavras se concretizam na intimidade de quem escrever e de quem lê. Assim, a jornada tem início com a inquietação do eu poético. Os sonhos foram derrotados e o cenário é alucinante: “exquisita gota de locura”, os olhos da mulher fazem lembrar a aurora inaugural, “ojos más intensos que las noches del Lower East Side/ y las cataratas del Niágara”. Na dúvida entre o sonho e a realidade existe apenas uma certeza: os olhos dessa mulher “Com tantos soños derrotados”.  
É durante o sonho que eu poético pode recobrar a antiga unidade. Transportado pelo “Angel de la noche” para lugares espetaculares, vislumbra um “nuevo mundo” onde os seres das águas e do ar se juntavam. Esse lugar sem lágrimas e sem dores não comporta o coração humano, entretanto, no poema subsequente, intitulado “Hay um lugar em el mundo”, vemos a emergência de novo equilíbrio entre humanos e não humanos:  a intimidade entre eu poético e os animais revela, “la más intima amistad”, um vínculo de confiança. O eu, solitário, conversa com os pássaros, assim ele sente que seus sentidos são apurados e se tornam “más peligrosos que um tigre de Bengala” e, portanto, prontos para “arrancar la virtude de la vida”.
A busca pela reconciliação entre os opostos e pelo apaziguamento do que há de feroz no humano, põe em cena a morte que, assim como a vida, habita o campo do sagrado. É a morte que “arranca los pedazos de memoria” e pressupõe uma quebra da relação com o mundo ordinário, cotidiano, introduzindo na obra um jogo textual sobre o qual não se tem controle. O eu poético enxerga os esquecimentos e as muitas vidas presentes na morte.
Há fome e sede, necessidades primárias humanas que arremessam o eu na senda do autoconhecimento, busca que leva à epifania.  O eu poético se depara com a beleza da vida marinha e se agita com “el temblor de las estrelas”. É no sonho que o desejo de unidade com o todo se realiza. O poema “Luna Mojada” ratifica o campo onírico como lugar de viabilidade do impossível, vivencia arquetípica, primordial, berço que acolhe e transmuta o morto, assim como a semente que dormita, preserva-lhe a alma que, em dado momento, “aflora e parte”. Cumprida essa etapa, o neófito está pronto para seguir em frente. As palavras se extinguiram, a morte e a vida se extinguiram, resta o despertar e o descobrimento, “este milagro”.
O ermitão solitário encontrou o equilíbrio dinâmico na vida: “alimentaba su alma con el Don del silencio”, entretanto, por mais que o eu se realize no paraíso da palavra, existe a tentação do encontro com o outro: com ela, a mulher que preexiste, resiste, e se performa em inéditos. As filhas de Lót com sua beleza e sedução, e a mulher que “era ya um cadáver antes de morir” revelam faces do feminino cuja potência é capaz de corromper o homem, estilhaçar as regras, desagradar a Deus e dar a luz a novos homens, filhos de um pai/avô sem máscaras. É tempo de perguntas, a quem endereça-las? Às estrelas.
O poema “Tamara lírio” expõe os instintos, desvela o poder da fêmea devoradora, beleza que pisa o solo sagrado sem cerimônias. O ritual erótico prossegue em “Arcana Fata”. No centro do paraíso, entre os rios “Tigris y el Éufrates”, o eu poético prepara como oferenda um “corazón em carbones ardendo”, ele anseia tornar-se novamente um com a amada ao ser devorado e por ela assimilado. Entretanto, a consumação antropofágica não foi possível, pois, o eu lírico não soube fugir de si mesmo, ele foi (inocentemente?) enganado pelos sentidos.
O elemento fogo surge no poema “Cloto, Láquesis y Àtropos”. Nele, as fiandeiras da vida e da morte, senhoras do Destino, viajam em um barco em chamas. Elas sugam “la sustância essencial” de um corpo, preferem ter como vítimas os vagabundos e os errantes solitários. As irmãs se miram em um caco de espelho feito de mar: jogo de imagens, ilusões e multiplicidade.  O duplo especular presente nesse poema reaparecerá no “Yo también quise la dicha”, no qual o eu lírico se vê atrelado a uma sombra e busca libertar-se: “Pero la bala de plata estallo en la cara”. Desfigurado, o eu vê gorado o seu ideal de felicidade. O que fará o homem com a beleza que sobeja? Que fará Deus no seu dia de descanso? Onde estará a imagem real, frente aos escombros da face estilhaçada, dos reflexos e dos fragmentos? Observamos que o poeta empreende uma crítica sobre o sentido da vida, da criação, da objetividade da beleza como metáfora da arte e da poesia. Não seria a dúvida a quintessência da criação? A Serpente é a guardiã desse paraíso de duvidas. O perder-se na solidão é apanágio do poeta, mas, há um farol, uma luz: os olhos da amada. O poema “En el íris de tus ojos”, dedicado à esposa e companheira do poeta, Sra. Gloria Gabuardi, vemos a temeridade do instante, esse poema ensina que o paraíso não desaparece, ele muda continuamente, inclusive, podendo concentra-se inteiro nos olhos e na palma da mão da mulher. Em “Celebración de la Primavera”, as palavras de amor são direcionadas à amada: “Con ella conoscí la agonia de los ríos del desierto”. Em “Los hijos de Caín” instaura-se o embate entre a prática do bem e a louvação dos pecados abundantes dos “hijos de Caín”. Cain teme ser morto por Abel e planeja assassiná-lo. O eu lírico passa a cultivar obsessões, sente-se uma serpentes inútil, sem principio e sem fim. O ouroboros, símbolo representado pela serpente que devora a si mesma a partir da própria cauda, indica que o eu penetrou o tempo da eternidade, do sonho, nesse lugar ele encontra uma princesa encantada que lhe alerta sobre a (in)finitude da vida: “Me fue quedando em todo lo que amé”. No instante, o eu lírico quer devorar “estrelas fugaces”, ele tem fome de infinito e compreende que “somos un grano de arena en medio de un desierto azul”, espaços vazios contemplados pelo universo. O eu lírico, “arrancado del silencio de la noche/ del oscuro cielo nocturno lleno de estrelas/ del caos celestial”, contemplou a beleza a deseja-lo, necessitando de sua mirada.
 Observamos que após a jornada épica de descobrir a si mesmo a partir do outro da alteridade (mulher, animal e elementos celestes e terreais), e também sendo visto, o eu poético entoa um canto laudatório à mulher, não é por acaso que o poeta dedica os versos à sua genitora, a Sra. Rosita Arellano. “Letanias para nustra señora la Virgen de la Rosa” encerra o livro de poemas, ele é um rogo, uma oração pela vida: “Rosa azul que representas milagros y nuevas possibilidades de la vida/ Rosa roja que representas el amor y la pasión”. Assim como as Parcas, senhoras do Destino e o ouroboros presentes na obra indicam que, o poema é uma antonímia, ele instaura o paradoxo, pois, da mesma maneira que a vida possui um começo e encontra o seu fim (pela morte), simbolicamente a serpente é pisada pela mulher que faz com que, esse mesmo ser renasça como Outro, trazendo dentro de si todos os que o antecederam: a humanidade inteira.
Renata Bomfim

27/07/2015

Livro artesanal e papeis marmorizados (Renata Bomfim)

Amigos, compartilho um dos projetos que venho realizando pelos campos 
da arte da encadernação artesanal. Espero que curtam. Abraços...*RB.

24/07/2015

Sobre modos e moda: a escritura de Emilia Pardo Bazán e Ilza Etienne Dessaune (Defesa de tese de doutorado de Karina De Resende Tavares Fohringer, na UFES)

Parabéns, Karina, por apresentar uma tese que contribui  para com os estudos da literatura produzida por mulheres no Espírito Santo e iberoamericanos. 
Na sequência a banca de defesa de doutorado: Profª Dr.ª Maria Beatriz Nader, Prof.ª Dr.ª Cláudia Paulino de Lanis Patrício, Prof.ª Dr.ª Josina Nunes Drumond, DOUTORA KARINA DE RESENDE TAVARES FOHRINGER, Prof.ª Dr.ª Renata Oliveira Bomfim, Prof.ª Dr.ª Maria Mirtis Caser (Co-orientadora)Prof.ª Dr.ª Ester Abreu Vieira de Oliveira (orientadora). 

22/07/2015

O poeta adâmico (Renata Bomfim)


No paraíso da linguagem,
o poeta zeloso se inclina
para amar a letra.
Nesse momento ele é Adão
no topo da hierarquia,
exigindo que Ela se submeta.

A letra mulher primeva,
dissimula
dribla a lei,
se agita.
Vê  homem, bicho, Deus,
quer comer tudo
quer conhecer tudo
provar de tudo muito
principalmente do fruto.

Cometidos todos os pecados,
Nua e ambígua
ouve do outro lado a pena:
"Ganharás o pão com o suor do teu corpo".

O homem, caído, se depara com o desconhecido,
A vida de agora é labor e sacrifício
Ela pari aos gritos
conhece a dor
Mas estava escrito, tinha que ser assim,
para puderem seguir  nomeando as coisas e
enchendo a terra de Abéis e Cains.

21/07/2015

Eduardo Giannetti da Fonseca: filósofo de nosso tempo (por Angelo Mendes Corrêa)

Eduardo Giannetti da Fonseca nasceu em Belo Horizonte. Formou-se em Economia e em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) , onde por duas décadas foi professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA). PhD pela Universidade de Cambridge, lá lecionou entre 1984 e 1987. Atualmente é professor do Insper São Paulo. Em sua bibliografia destacam-se obras como Vícios privados, benefícios públicos?; Auto-engano; Felicidade; O mercado das crenças; O valor do amanhã; O livro das citações e A ilusão da alma, além de inúmeros artigos para revistas científicas e a grande imprensa. Ganhador de dois prêmios Jabuti nos anos 90,  atualmente é um dos conferencistas mais requisitados do país.


Ser mineiro tem algum significado especial para você? Poderia nos contar um pouco sobre sua infância em Minas e as origens italianas de sua família?
Principalmente, nasci em Minas. Cresci, porém, desde menino vivo em São Paulo. Considero-me mineiro, porque venho de duas famílias com raízes profundas em Minas e porque o ambiente dentro de casa, nosso estilo de convivência e modo de sentir e falar as coisas, era marcadamente mineiro. Sempre considerei o espaço interno da casa de minha infância e juventude como um pequeno enclave de mineiridade dentro da metrópole paulistana. Recordo aquela “Prece do mineiro no Rio”, de Carlos Drummond: “Espírito de Minas, me visita, e sobre a confusão desta cidade, onde voz e buzina se confundem, lança teu raio ordenador.” O espírito de Minas lá em casa era especialmente a presença do meu pai, Justo, um mineiro conversador e espirituoso, suave e austero, da velha cepa, desses que, suspeito, já quase não existem mais. Quanto ao lado italiano, descendo de um jovem casal de imigrantes, Pietro e Tereza, que vieram da zona rural da Toscana para o Rio Grande do Sul tentar a vida no final do século 19.  A mudança da família Giannetti, de Rosário do Sul para Belo Horizonte, deu-se em 1913. O meu avô materno, Américo, tornou-se político da UDN, em Minas, e morreu como prefeito de Belo Horizonte. Ele foi um líder empresarial respeitado em seu tempo, um pioneiro da indústria do alumínio no Brasil.

Quando aconteceu seu primeiro contato com o universo dos livros e que autores mais o marcaram na infância e juventude?
A primeira emoção literária de que me recordo foi ouvir A chave do tamanho, de Monteiro Lobato, contada por minha mãe. Aquilo me pegou em cheio, mergulhei na história como se estivesse vivendo intensamente aquilo tudo. Porém, nunca fui de ler muito na infância e primeira juventude. Os meus pais me incentivavam ao modo deles e, às vezes, reclamavam que eu lia pouco. Uma vez meu pai ficou bravo comigo ao descobrir que eu nunca tinha lido Robinson Crusoé. Mas eu tinha preguiça. A leitura me era fisicamente penosa, gostava mesmo era de revistas em quadrinhos e seriados americanos na TV. O grande divisor de águas foi um curso de filosofia que fiz no segundo colegial, no limiar de uma preguiçosa e tardia puberdade, no qual fomos submetidos a uma dieta de leituras que incluía Kafka, Sartre, Camus, Hesse e, principalmente, Dostoievski, com os Irmãos Karamazov. De algum modo, essa experiência de leitura na fase da vida em que eu estava fez nascer em mim a vontade de habitar o mundo da literatura e da reflexão. Eu já sabia, obscuramente a princípio, mas com razoável clareza hoje, que aquele curso duraria para o resto da minha vida. Nunca me recuperei dele.

A que se deveu a busca da dupla formação como sociólogo e economista?
Às vezes tenho me perguntado o que me fez cursar economia e não seguir a minha paixão de estudo, que era a filosofia. E creio que a resposta principal é: a razão prudencial. Temia fazer filosofia e ficar desempregado, não ter como me sustentar, não conquistar a muito desejada independência financeira. Além disso, eu sonhava com uma pós-graduação no exterior e logo percebi que as chances seriam ínfimas se eu optasse por filosofia, ao passo que a economia poderia abrir essa porta, o que acabou acontecendo. Outra coisa que pesou foi uma professora de história no colegial, dona Zilda, figura marcante em minha formação, que sempre insistia em dizer que a economia era “a base de tudo”, que não dava para entender a história e a cultura sem conhecer a estrutura econômica da sociedade, o modo como se trabalhava, produzia e consumia. O curso de economia, contudo, revelou-se uma decepção. Acabei me interessando pelo marxismo, a religião de minha juventude, e pelo movimento estudantil de oposição à ditadura – daí a opção pela sociologia, onde as coisas que me interessavam estavam acontecendo. Como aluno de Ciências Sociais, na USP,  pude cursar algumas cadeiras optativas na filosofia, e tive a sorte de ser aluno de um brilhante professor francês, então radicado no Brasil, Gerard Lebrun. Suas aulas eram verdadeiros espetáculos de erudição, paixão pelo conhecimento e vigor argumentativo. Foi o professor mais impressionante que vi em ação até hoje.

É possível apontar diferenças significativas entre o exercício docente no Brasil e fora dele?
A principal diferença me parece ser a postura de professores e alunos em relação às aulas e ao que significa fazer um curso superior. O aluno brasileiro, com raras exceções, faz a faculdade como se fosse a continuação do ensino médio. Ele acredita que vai aprender tudo o que precisa em sala de aula, que a obrigação do professor é dar a matéria que está no livro-texto e que se ele reproduzir direitinho nas provas o que foi visto em aula e consta do manual, então ele passa de ano e tudo estará resolvido, a missão cumprida. O que prevalece é uma ritualização do aprendizado. O aluno não sai em busca do conhecimento, não vai à biblioteca, mas espera receber a matéria mastigadinha em aula, na colher do professor. E o sistema educacional preenche essa expectativa. O único problema é que isso não tem nada a ver com uma genuína formação superior. O estudante brasileiro, como já observara o físico Richard Feynman em sua passagem pelo Brasil nos anos 50, é imbatível quando se trata de memorizar e repetir nos exames o material contido nos manuais didáticos. Mas se você pedir a ele algo que o obrigue a pensar por conta própria, algo que fuja das fórmulas e definições decoradas, ele fica completamente perdido, não é capaz de dar um passo com as próprias pernas. No fundo, há um acordo tácito, uma acomodação confortável para todos, em prejuízo de uma real formação universitária. Uns fingem que aprendem, outros fingem que ensinam – e termina tudo em diploma. Eu sempre digo aos meus alunos que prefiro uma resposta errada, mas que tenha partido de um ato de pensamento genuíno por parte deles, a uma resposta certa, mas que não passa da reprodução mecânica e ritual do que foi dado em aula ou decorado do manual.

Concorda com a idéia de que parte significativa das instituições privadas de ensino superior no país são verdadeiros consórcios de diplomas, dirigidas por empresários descomprometidos com a educação?
Muito do que se passa como ensino superior no Brasil – e não só em instituições privadas, mas também em boa parte das universidades estatais, por exemplo, em cursos noturnos – não teria a menor condição de legitimar-se como tal num país onde a educação é levada à sério. Há uma tremenda inflação de títulos e diplomas no Brasil, com papéis sem nenhum lastro. É um pouco o que acontece com as nossas estatísticas de analfabetismo que, tenho certeza, estão longe de refletir a real extensão dessa realidade em nosso país. O Brasil tem hoje uma proporção de jovens matriculados em ensino superior equivalente à dos Estados Unidos no final do século 19. Mas se a qualidade do ensino e o real aprendizado fossem de algum modo levados em conta, suspeito que ficaríamos ainda pior na foto. A proliferação de diplomas e credenciais não quer dizer absolutamente nada.

Que caminhos podemos seguir para o resgate de um ensino público fundamental e médio de qualidade?
Alguns anos atrás, participei de um simpósio, com outros especialistas, em que nos foi proposta a seguinte questão: “Caso fosse eleito Presidente da República, quais as cinco grandes ações/iniciativas transformacionais que tomaria para efetivamente resolver o problema da qualidade do Ensino Público Básico, para que o país possa atingir os níveis educacionais dos países desenvolvidos até o ano de 2022?” Eis o que respondi:
1) implantação de um Exame Nacional Unificado para a obtenção do grau correspondente ao ensino fundamental completo. A prova seria aplicada a todos os alunos egressos das escolas públicas e privadas, na metade e no final do ciclo básico, e somente os aprovados na segunda prova obteriam o certificado de conclusão do ensino fundamental. Ampla publicidade dos resultados por escola;
2) programa de valorização dos professores da rede pública de ensino básico. Política de carreiras com promoção por mérito, baseada em avaliação feita por quem acompanha o trabalho dos professores; progressivo aumento do piso salarial; programas de formação e reciclagem permanente; concursos para ingresso na carreira que incluam, além dos testes acadêmicos de praxe, uma avaliação da aptidão pedagógica e da experiência em sala de aula; política de redução da rotatividade dos professores;
3) maior autonomia das escolas públicas nas decisões sobre alocação de recursos, grade curricular, contratação de funcionários, procedimentos escolares e atribuição de tarefas e responsabilidades aos professores. As escolas cujos alunos alcançam índices positivos e crescentes de aprovação no Exame Nacional Unificado seriam recompensadas, ao passo que aquelas com elevada ou crescente proporção de alunos reprovados passariam por um processo de análise criterioso, visando apurar as causas desse resultado e a correção das deficiências verificadas;
4) ampliação da margem de escolha das famílias na seleção da escola que seus filhos irão frequentar. Adoção de um programa de voucher ou vale-educação, que viabilize o acesso de crianças e jovens oriundas de famílias de menor renda a escolas particulares de qualidade, por meio do financiamento total ou parcial do custo da mensalidade. Ampla publicidade dos resultados do exame para a obtenção do grau de ensino fundamental completo, visando estimular a competição saudável entre as escolas para atrair os melhores alunos;
5) programa de ampliação da cobertura da rede de creches e universalização do acesso à pré-escola. Política pró-ativa de redução e prevenção da gravidez precoce e de apoio às crianças vivendo em famílias de baixa renda, chefiadas por mulheres. Aumentar a prontidão das crianças nascidas em famílias desestruturadas, visando reduzir as taxas de reprovação e evasão escolar nos primeiros anos do ensino fundamental.

Como avalia sua colaboração na campanha da ex-senadora Maria Silva à presidência da República em 2010 e 2014?
Desde que retornei da Inglaterra, em 1987, passei a debater questões da vida pública brasileira, mas sempre evitei o engajamento político-partidário e busquei preservar a máxima neutralidade e independência diante dos embates eleitorais. Levei isso a tal ponto que passei a manter o meu voto em absoluto sigilo, não obstante a repetida pressão de jornalistas para que eu declarasse minhas preferências. Buscava encarar as coisas da política com o mesmo distanciamento que um astrônomo diante dos corpos celestes ou um botânico na floresta. A candidatura de Marina Silva à presidência, em 2010, me animou a mudar de atitude. Uma liderança desse quilate, baseada na força do compromisso ético e na fé na capacidade humana de superar obstáculos, é um evento raro em qualquer tempo ou nação. Ainda por cima num país como o nosso, com seu extraordinário patrimônio ambiental e uma responsabilidade verdadeiramente planetária nesse quesito.  Arregacei as mangas e me coloquei à disposição da campanha para colaborar naquilo que fosse possível. Aprendi muito e sinto-me privilegiado por ter dado minha contribuição na construção de uma liderança que será fundamental para o Brasil no século 21. Marina saiu das campanhas maior do que entrou. Creio que ela ainda terá um papel de enorme relevo na política brasileira. O exemplo de Marina me faz ter vontade de repetir o que Carlos Drummond disse uma vez sobre Milton Campos: “Ele é o político que a gente gostaria de ter sido”.

Se, por um lado, as buscas de regimes políticos mais igualitários naufragaram em várias partes do mundo com as experiências socialistas, o capitalismo ainda mantém na indigência imenso contingente humano. Que caminhos percorrer contra tal realidade?
Prefiro discutir problemas em vez de recorrer a conceitos nebulosos e saturados de mal-entendidos como “capitalismo” e “socialismo”. Se alguém falar de economia de mercado ou de planejamento central saberei exatamente o que está sendo dito. Mas se disser que “o capitalismo ainda mantém na indigência imenso contingente humano”, realmente não sei do que se trata. Faz sentido usar o mesmo termo para se referir ao sistema econômico vigente na Europa desde o século 17 até hoje? Já é mais que tempo de aposentar a mobília conceitual herdada da auto-estrada dos modos de produção inventada pelo marxismo. A desigualdade e a privação material são problemas seríssimos, mas culpar o capitalismo não avança um milímetro a discussão. Por que há mais miséria na Índia do que no Canadá? Será porque a Índia é “mais capitalista” que o Canadá? Mesmo a questão da desigualdade precisa ser qualificada: igualdade do quê? O meu lema é: “a igualdade de resultados oprime, a igualdade de oportunidades liberta”. É injusto impor a igualdade na chegada, independente do esforço e do mérito, até porque felizmente nem todos dão o mesmo valor ao sucesso financeiro. Mas é ainda mais injusto não garantir um mínimo de igualdade na partida, de modo que muitos começam já derrotados, independente do esforço e do mérito que possam demonstrar. O que deve ser perseguido é a máxima equalização nas dotações iniciais, especialmente no que diz respeito a condições de saúde e acesso a oportunidades de se educar e desenvolver capacitações. O economista inglês Alfred Marshall falava do drama do “Shakespeare analfabeto”, o sujeito que teria sido um gênio literário se tivesse tido a chance de se alfabetizar. Imagine o que não há de situações parecidas, em todas as esferas de realização humana, num país absurdamente desigual como o nosso?

Em que sentido um de seus livros mais recentes, A ilusão da alma, pode ser visto no conjunto de sua obra?
Se alguém se desse ao trabalho de olhar, perceberia uma clara afinidade de temas e inquietações percorrendo os meus livros. O problema da relação mente-cérebro tem sido uma nota constante em praticamente tudo que escrevi. Às vezes chego a me surpreender quando constato como certas preocupações e possibilidades estavam já despontando em livros mais antigos, mas só vieram à tona tempos depois. O embrião de Auto-engano, por exemplo, está no prefácio de Vícios privados, benefícios públicos?, embora na época eu não estivesse ciente do que faria anos depois. No caso de A ilusão da alma, a inquietação em torno da relação mente-cérebro e do fantasma do fisicalismo – que tipo de ser, afinal, é o bicho-homem? – percorre um fio contínuo que veio se tecendo desde O mercado das crenças, um livro pesadamente acadêmico e que foi publicado originalmente na Inglaterra em 1991, mas que só saiu traduzido no Brasil em 2003. Em Felicidade, por exemplo, há um diálogo inteiro sobre a conjectura de uma “pílula da felicidade instantânea”. E por aí vai. Imagino que todo autor carrega suas obsessões. Eu também tenho as minhas.

Acredita que o ser humano sempre tenha vivido num autoengano cósmico?
A conjectura do autoengano cósmico, no contexto de uma discussão da relação mente-cérebro, aparece já em Auto-engano: “O avanço do saber científico no autoconhecimento humano poderá revelar que muito – ou, no limite, a totalidade – do que imaginamos estar fazendo por vontade e iniciativas próprias em nossas vidas está, na verdade, sendo feito em nós pelo funcionamento autonômico do sistema nervoso e por uma sucessão de configurações físico-neurológicas em nossos cérebros” (capítulo 2, item 3). A ilusão da alma radicaliza e explora essa ideia: a desmontagem da fantasia de consciência que nos induz a exercitar a mentira de passear quando, na verdade, passeados somos pelo passeio (vide o belíssimo poema “A suposta existência” de Carlos Drummond). O livro acolhe o desafio proposto pelo poeta norte-americano Wallace Stevens na “Estética do mal”: “O aventureiro entre os humanos não concebeu ainda a possibilidade de uma raça inteiramente física em um mundo físico”.  O credo fisicalista, no entanto, agride de tal modo tudo aquilo que sentimos e estamos habituados a crer sobre nós mesmos que não há como internalizá-lo e enraizá-lo em nossa autocompreensão. Seria como pedir a um Neandertal que acredite na chegada do homem na Lua ou na tabela periódica. A noção de um eu-unificado fica seriamente abalada pelo fisicalismo: o cérebro é um agregado de peças e órgãos funcionando de modo assincrônico, e não há nenhum eu-soberano em seu trono, no palácio da mente, supervisionando e ditando decretos, alvarás e ordens régias. Podemos, em suma, estar tão equivocados sobre nós mesmos – imersos na mais espessa névoa de enganos, ilusões e fábulas sobre o que nos faz quem somos e agir como agimos – como, digamos, o ianomâmi amazônico ou o aborígine australiano nos parecem equivocados acerca do relâmpago, do arco-íris e do trovão.

José Saramago costumava dizer que Deus é uma criação humana. No entanto, a idéia de transcendência tem sido objeto de freqüentes pesquisas científicas. Julga possível equacionarmos todas as questões humanas apenas no âmbito material?
A questão é até onde o método científico pode nos levar. Para os pioneiros da ciência moderna, o avanço do conhecimento tornaria o universo cada vez transparente e inteligível aos olhos da humanidade. Mas, em vez de banir o mistério do mundo, o progresso da ciência tem feito exatamente o oposto: deixa-o cada vez mais misterioso, opaco e inexplicável. Se o fisicalismo for provado, por exemplo, isso em nada diminui o mistério da condição humana. Ao contrário, o absurdo e o mistério só fazem crescer. A ciência revelou-se uma máquina imbatível na destruição de ilusões, fantasias e causas imaginárias; mas ela também foi solapando, uma a uma, todas as possibilidades de conferir sentido ao universo e à nossa frágil e efêmera existência como seres individuais e como espécie. A ciência destrói qualquer possibilidade de sentido, mas não põe nada no lugar. Ela ilumina, mas não sacia. É preciso lembrar, porém,  que todo o nosso conhecimento é por definição finito, ao passo que a nossa ignorância é inescapavelmente infinita. Mesmo assim, cabe a pergunta: quanta verdade suporta o espírito humano? Suspeito que não muita. Como reconhece o heterônimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, “O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se! [...] A razão de haver ser, a razão de haver seres, de haver tudo, deve trazer uma loucura maior que os espaços entre as almas e entre as estrelas. Não, não, a verdade não!” O remédio mais popular para anestesiar essa angústia demasiado humana é o aconchego  dos credos religiosos.

Numa entrevista que concedeu ao programa Sempre um Papo,da TV Câmara,  você  fez menção ao livro A vida dos animais, de J.M.Coetzee,  como uma das obras que mais o marcaram nos últimos tempos. Já não é chegada a hora de abolirmos os abusos que historicamente temos praticado contra os animais e da instauração de uma ética em relação a eles?
Quanto olhamos para o passado, percebemos práticas que nos parecem aberrantes e moralmente inaceitáveis, mas que eram toleradas e perfeitamente legais aos olhos de nossos antepassados. É o caso da escravidão, da punição física de crianças nas escolas, da prisão por homossexualismo, entre tantos outros exemplos. A pergunta que temos de nos fazer é: pelo que as gerações futuras nos condenarão de um ponto de vista ético? Estou seguro de que o modo como tratamos os animais criados para a indústria alimentar será uma das grandes aberrações morais aos olhos de nossos descendentes. “Como podiam tolerar tamanha crueldade, tão monstruoso abuso de seres vivos e dotados de sensibilidade?”, é o que eles perguntarão sobre nós, incrédulos de que tal coisa pudesse ter existido e se prolongado por tantos séculos. O livro de Coetzee é uma pequena obra-prima. Ele faz um trabalho primoroso de sensibilização ética por meio de uma narrativa ficcional – o mais afiado que conheço em relação a esse tema.

Concorda com Adorno, para quem “nada é verdadeiro em psicanálise, exceto os exageros”, citação presente n’O livro das citações?
Como a minha mãe é entusiasta da psicanálise e foi também psicanalista, hoje aposentada, tive um contato intenso com as ideias de Freud e seus seguidores desde a juventude. Acho divertida a boutade de Adorno, por isso a inclui nas Citações. O que acho difícil engolir é a ideia de que Freud “descobriu o inconsciente”, como ele tantas vezes alegou, chegando ao ponto de se colocar em linha direta com Copérnico e Darwin, como responsável pela terceira grande “ferida narcísica” na história da humanidade. Santa pretensão! Seria difícil rivalizar o narcisismo dessa genealogia. Como se Leibniz, Schopenhauer e Nietzsche, para não falar nos iluministas escoceses, jamais tivessem existido! Em Auto-engano, tomei o cuidado de evitar cuidadosamente o jargão psicanalítico, a começar pelo termo inconsciente, na tentativa de evitar os mal-entendidos que assombram essas expressões. Impus-me a disciplina de dizer tudo que tinha a dizer da forma mais clara e cristalina de que sou capaz, sempre ilustrando as ideias gerais com exemplos da natureza, da literatura e da vida prática. “A filosofia é uma batalha contra o enfeitiçamento da inteligência pela linguagem”.

Como pensador da condição humana que possibilidades aponta para um mundo mais fraterno onde o individualismo esteja menos presente?
Não tenho vocação para profecias, mas por tudo que sei e observo ao meu redor duvido que possamos contar com alguma forma de transformação ou regeneração moral da humanidade no futuro. Os séculos se desenrolam e a natureza humana permanece a mesma. A mudança em nosso modo de vida, se e quando vier, não será produzida por lideranças iluminadas ou por um processo de aperfeiçoamento ético baseado em educação e exortação. A mudança, creio, virá de fora para dentro, por conta dos limites que a biosfera impõe à corrida armamentista do consumo em escala planetária, alimentada pela ganância e pela voracidade desenfreada do animal humano. A humanidade parece-me viver atualmente na condição de um fumante inveterado que recebeu um diagnóstico de enfisema pulmonar, mas insiste em persistir no vício. Onde vai dar tudo isso? Há quem acredite que a inovação tecnológica dará conta do recado – certamente não me incluo entre eles. Ou a mudança virá por bem, de forma preventiva, e temos o dever de buscar esse caminho; ou ela virá por mal, de forma impositiva, por meio do trauma, e com o provável sacrifício de liberdades às quais estamos acostumados. Torço e me empenho pelo primeiro caminho, mas como analista e observador frio da realidade temo que o segundo seja o mais provável.

Novos projetos literários em pauta? A filosofia continuará sendo sua principal matéria-prima?
Não tenho nada definido, apenas o vislumbre de possibilidades. Pretendo dedicar-me cada vez mais à literatura, trabalhar no apuro da forma e da linguagem, mas sem me prender às divisões convencionais entre gêneros, disciplinas ou escolas. Por que resignar-se a essas amarras – ficção ou não-ficção, popular ou erudito, prosa ou poesia? O importante é ter algo a dizer, algo que se torna imperioso compartilhar, e não poupar esforços para dizê-lo tão bem e tão belo quanto se é capaz. É pensar por conta própria e ter a coragem de correr riscos. Quero conquistar uma liberdade que me escapa – na vida e na obra. É isso que me faz sentir vivo.




Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista.