Carmélia Maria de Souza chegou até mim pelas mãos do amigo poeta Sérgio Blank.
O ano era 2002. Na ocasião, Sérgio havia participado da produção da terceira
edição de Vento Sul. Eu não tinha ideia de quem era Carmélia e nem
tinha proximidade com o mundo literário. Embora tenha sido sempre uma leitora
persistente, dou a Carmélia e ao seu Vento Sul, o crédito pela guinada que dei das artes plásticas, campo no qual já atuava profissionalmente,
para a literatura, essa reviravolta redesenhou o meu caminho, mudando o
percurso da minha vida.
O
primeiro texto que escrevi sobre Carmélia foi “Carmélia Maria de Souza, a
cronista do povo”. Esse estudo alcançou grande circulação no Espírito Santo,
possivelmente por ter sido publicado na época do boom dos blogs. O meu blog
pessoal, intitulado Letra & Fel, firme e forte, online há dezessete anos, fez com esse
e outros ensaios chegassem mais longe e a mais pessoas, o ano era 2008. O texto
foi apresentado ampliado, mas com o mesmo título, no III Seminário sobre o
Autor Capixaba: Bravos Companheiros e Fantasmas, em 2013. Em 2016 publiquei,
também no Letra & Fel, um outro estudo intitulado “Amor e humor em Vento
Sul”. Nesse intervalo, meu interesse literário estava posto nas
literaturas portuguesa e nicaraguense, devido
às pesquisas de mestrado e doutorado. Carmélia retornaria para a minha vida no pós-doutoramento, depois de uma rica e longa viagem pelos estudos
ibero-americanos.
Era
tempo de voltar para casa. Entre os anos de 2017 e 2018 atuei como professora
adjunta no Centro de Letras da UFES, período no qual ministrei as matérias
previstas pela grade curricular do curso, mas propus oferecer um laboratório
sobre “Literatura do ES”. Havia seis semestres que esse conteúdo não era
ofertado, pelo menos na perspectiva da periodização. Ministrei também o
laboratório de “Literatura feminina produzida por mulheres em língua
portuguesa: Portugal, Angola e Brasil”, ocasião na qual introduzi para os
estudantes o estudo de variadas escritoras, naturais e radicadas no Espírito
Santo, entre elas, adivinhem quem?
Essas
experiências como docente me aproximaram novamente de Carmélia. No ano de 2023
a Cronista do povo se tornou objeto de pesquisa do meu pós-doutoramento
que, entre outras publicações, culminou no livro Carmélia Maria de Souza:
desesperada e lírica, publicado em 2025. Conto essa história para mostrar como
a literatura tece redes de afetos em variados níveis na vida de quem se aventura nesse caminho de letras e para as letras. Carmélia,
Florbela, Darío, Hilda Hilst, Clarice, e tantos e tantas outras são pessoas de
papel que, com certeza, tornam a minha vida mais plena de sentido.
Carmélia
possui uma escrita que se assemelha a uma colcha de retalhos, ela alinhava com
amor múltiplos sentimentos, tornando lírico até mesmo o sentimento de "fossa". Os
textos carmelianos não são complexos, mas nem por isso são simples, eles exigem
do leitor que baixe a guarda, que abra o coração para comungar entendimento, como quem entende a piada e sorri de soslaio, ou como quem bebe junto em uma mesa de bar. Carmélia se doou sem limites e
desafiou os limites de uma época cheia de preconceitos, a sua maior arma foi o
DEBOCHE. A ironia e o humor foram utilizados com estratégias linguísticas para
driblar a dureza de uma sociedade baseada na aparência, a TFC- Tradicional
Família Capixaba.
Para
quem não conhece ou conhece pouco a Carmélia, vale dizer que ela nasceu na
Fazenda Rodeio, em Rio Novo do Sul, no dia 15 de maio de 1937 e faleceu no dia 13 de fevereiro de 1974, aos 38 anos. Filha de Pedro Dias de Souza e
Etelvina de Souza, teve uma infância e uma adolescência marcadas por
acontecimentos que moldaram a sua vida e a sua escrita, primeiramente, o
falecimento de sua mãe, quando ela tinha dois anos de idade, e o afastamento da
família aos quinze anos, quando precisou ser internar em um sanatório em
Barbacena, MG, devido a tuberculose.
Carmélia
disse em um texto que gostava de bem-me-quer, mas ela escolheu as rosas como
adorno último na sua despedida. É por isso que oferecemos a ela rosas-afeto,
rosas-resgate memorialístico, rosas-luzes sobre sua vida e obra, rosas-alegria,
com a novidade de que a escola de samba Chega Mais vai dançar, vibrando e cantando a sua história e o seu nome no carnaval de 2027.
A
SINCERIDADE DAS ROSAS
No
texto “Crônica da DDC”, Carmélia constrói para o leitor um rico cenário, quase
fílmico. Nele, “os discos rolam de leve na vitrola” enquanto, “na sala ao lado,
um grupo conversa”. Carmélia sugere que seus amigos mudem de assunto e pede que
alguém recite os versos que mais ama, versos de Fernando Pessoa, que dizem assim: “Coroai-me
de rosas/ Coroai-me em verdade de rosas/ rosas que se apaguem/ Em frontes, a
pagar-se tão cedo/ Coroai-me de rosas/ E folhas breves/ E basta”. O
texto descreve ainda que Carmélia se juntou a “juventude que se junta para não ficar
sozinha”, mas ao invés de conversar, ela pensa, e à cabeça vem “uma peça de
Garcia Lorca” que acabara de ler. Um emaranhado de referências e sentimentos a
fazem perguntar se “alguém está ficando doido, ou será que todos estão
doidos?”.
O poema pessoano preferido voltaria a perfumar a crônica
“Testamento”, um dos textos mais conhecidos de Carmélia, no qual ela dialoga
com Dindi, seu Alter ego, sobre a sua morte e deixa explícitas as recomendações
do que deve ser feito após o seu passamento: “Mande escrever isto sobre a terra
que me cobrir — é de Fernando Pessoa: “Coroai-me de rosas. Coroai-me em
Verdade de rosas. Rosas que se apagam em frontes a apagar-se tão cedo!
Coroai-me de rosas, e de folhas breves e basta”. Carmélia
ressalta: “Dindi, não se esqueça de que não quero lágrimas, e sim a
sinceridade das rosas sobre mim”, e é a sinceridade expressa pela flor que
ela ofertou a todos que cruzaram o seu caminho, como consta no texto
“Autocrítica”, quando declara que tem orgulho de si, “destes [seus] 84 quilos
de sinceridade, de erros, de sonhos, de poesia... e outros pecados menores”.
CARMÉLIA
E O “POETA DAS ROSAS E DAS ORLAS MARÍTIMAS”
“Prefiro rosas meu amor, à pátria/ E
antes magnólias amo/ Que a glória e a virtude” (Ricardo Reis)
Tomei
como mote o poema pessoano de que tanto Carmélia gostava para tentar
compreender a filosofia que norteou a sua vida e produção. A mulher negra, que
caminhou na direção posta do ideário feminino de sua época e que respondeu as
agruras do seu tempo com deboche e ironia, fez da poesia e da música mote para
suas reflexões e fontes de inspiração. No texto “Autocrítica” a cronista dirá
que descobriu em Fernando Pessoa o seu “Poeta maior”, poeta das “rosas e das
orlas marítimas”.
O
poema que Carmélia escolheu para ficar gravado no seu túmulo reflete um jeito
de pensar e sentir a existência, responde a uma filosofia na qual a rosa, por
sua beleza e fugacidade, emerge como metáfora da vida. O texto de dezembro de
1967, “De uma certeza”, fala sobre um mundo em mudanças, no qual um grupo de
sonhadores se irmana “no ideal e na dor, [...] prolongando a conversa,
misturando esperanças, tornando uma só a solidão que era antes uma solidão
desesperada de todos e de cada um”. O abrigo é o barzinho, “trincheira que nos
esconde ainda, onde falamos de amor, enquanto nos afogamos em vinho e poesia. A
única certeza que conhecemos e que existe”.
Através
de Fernando Pessoa, mas especificamente do seu heterônimo neoclássico, Ricardo
Reis, Carmélia dialogou com variados temas relacionados à brevidade e a
finitude da vida, como que buscando conforto para as angústias da vida. Ideais
clássicos como o estoicismo, o epicurismo e o carpe diem horaciano,
ofereceram um contraponto à modernidade emergente. Ricardo Reis, discípulo de
Alberto Caeiro, outro heterônimo de Fernando pessoa, serviu como inspiração
para variados escritores, um deles o português José Saramago, Nobel de
literatura, que o transformou em personagem central do romance O ano da
morte de Ricardo Reis (1984).
No
pensamento filosófico grego há o conceito de Eudaimonia, que
significa “ser habitado por um daimon”, ou divindade inferior,
vinculando o ser a um estado de plenitude. Tanto Aristóteles, quanto os
estoicos, valorizavam esse conceito que pressupõem o cultivo dos valores e da
ética, ecoando em obras modernas como as de Immanuel Kant. Outro conceito grego
é o de ataraxia, que significa tranquilidade da alma, ausência de
perturbações. Esses conceitos atravessam os textos de Fernando Pessoa e podem
ser sentidos nos escritos daqueles que leram e dialogaram com a sua obra.
A
efemeridade da vida, na dimensão simbólica, pode ser expressa pelas flores que,
belas, rapidamente morrem. Ricardo Reis, amparado por essa filosofia, sugere em
suas odes que a vida deve ser transcorrida de maneira plácida, pois, sobre as
aspirações mundanas haverá uma coroa de rosas. Nesse sentido, há também uma
ausência de ideias, uma entrega à contemplação: “Circunda-te de rosas, ama,
bebe/ E cala. / O mais é nada” (Ricardo Reis). Foi assim que Carmélia construiu
um percurso literário inspirado e inspirador, como se a essência da vida se
assemelhasse à das rosas.
Renata Bomfim