22/12/2015

Hilda Hilst: "As pessoas cagam para os poetas, normalmente" (entrevistas com a escritora)








Um ronco um som pastoso, um borbulhar de víscera. E assim podeis notar que this town is full of nobles here and there, que apenas eu caminho pela casa sem certeza de nada, vasculho os cantos, demoro-me sob os arcos, farejo os buracos, que... há muito tempo ando querendo usar o punhal contra mim mesmo, pegar esse rosado intenso que se agita quando amas além de uma certa medida e colocá-lo sobre a mesa frente a frente: coração de Qadós, soturno e tumultuado, que percurso é o teu, que nome dás às coisas, que asa-coisa te faz mais manso, mais viscoso? És tu que procuras o Sem-Nome, o Mudo Smpre, o Tríplice Acrobata? Grande pena de ti, de mim também porque és meu mas não cabes em mim, e porque é tão necessário que eu te coloque dentro de outro peito, de um que seja extremo e descampado e livre, e não dentro do meu, porque até agora persigo a quem não vejo, persigo apenas a idéia que tenho de um grande perseguido e suspeito que ele pode estar em cada canto, que ele por alguma razão, em algum momento será submisso a Um instante, e eu devo estar lá quando esse tempo solitário e ardente se fizer, tempo de mim colado ao Sem-Nome, tempo torvelinho. Coração de Qadós, às vezes digo a esse perseguido que não sei: se fosses todo perfeito eu não seria indigno de ti, se fosses equilíbrio, esplêndida balança, há muito tempo que seríamos um etc. etc. Lamúrias. Basta. Indecências. Devo voltar ao de cada dia, nabos cenouras beterrabas, os ministros depois da festa, arrotos caganeiras, a missão especial foi adiada, até quando devo conviver com tantos? O da Agricultura me pergunta: devo plantar cana ou bocas de leão ou tílias ou goiabas australianas, ou canaleiras ou cerejas das Antilhas?
 (Hilda Hilst)

19/12/2015

Natal, tempo propício para abrirmos olhos e os poros para o sofrimento dos animais!


Amigos, chegou mais um Natal, quando comemoramos o nascimento do Cristo. É chegado o momento de revermos atitudes e hábitos, especialmente aqueles que geram dor e morte. Que nesse Natal todas as famílias (humanas e não humanas) tenham direito a paz e a vida! Abraços dessa poeta... *Renata Bomfim.

¨Feliz aniversário Jesus!"





Assista ao Filme "A carne é fraca: ele pode mudar a sua vida!

16/12/2015

Escritos de Vitória 2015: "Sabores da Ilha"


Estou feliz por participar de mais este projeto literário capixaba, o Escritos de Vitória nº 30: 
Sabores da Ilha

A coleção é publicada pela Prefeitura de Vitória, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, há 22 anos. Durante esse período foram lançadas 30 edições da coleção, que já abordou  diversos temas como bares, restaurantes, museus, parques, Porto de Vitória, Fafi, imprensa , movimentos sociais e cinemas.

Alegria por participar dessa publicação!
Viva a cultura capixaba com suas singularidades e belezas!
Renata


10/12/2015

Noite literária capixaba com Anaximandro Amorim, José Roberto Santos Neves e Renata Bomfim


Noite Literária, reúne em sua primeira edição os escritores Anaximandro Amorim, José Roberto Santos Neves e Renata Bomfim, na quinta-feira (10/12), a partir das 19 horas, no Shopping Jardins. Participação especial do músico Mirano Schuler.
Que noite agradável! Meu agradecimento aos amigos leitores que prestigiaram o evento. Abraços dessa poeta capixaba. Renata Bomfim

03/12/2015

Amor á priori (Renata Bomfim)

Sementes das árvores:
Dados cósmicos
lançados pelo Grande Nada
no momento de lazer.

Sim, o eternamente fora do tempo
se diverte, sorri. 

Desconheço o semblante sombrio,
a barba desconfiada, vingativa.
Gosto de pensar nele assim:

com a cara queimada de Sol,
Negro displicente
na criação da vida.

A consorte, Natureza,
recolhe as pequenas pepitas de luz.

O acaso não existe! Existe sim, 
Amor à Priori. 



Vitória/ES, 03-12-2015

Colóquio das árvores: a natureza em versos (estudo crítico de Andressa Zoi Nathanailidis)


Veio a lume pela editora Chiado, de Lisboa, o Colóquio das Árvores, livro da poeta capixaba Renata Bomfim. Essa obra poética reflete a tentativa estética de captar e, ao mesmo tempo, traduzir a intensidade e o mistério do mundo natural; repleto de forças múltiplas, muitas vezes postas em confronto face ao desrespeitoso exercício humano e capital, presente nos dias de hoje.

O Colóquio das árvores foi publicado, e está sendo distribuído nos países de língua portuguesa. A crítica lusófona Ana Luisa Vilela adverte o leitor para que “não espere dessa obra apenas a sisuda erudição hermética”, pois, há nela textos divertidos e picantes, que por vezes misturam a gulodice com a devoção, buscando harmonizar a raiz com o voo. “Poesia sem pose e íntima na sua dignidade, canto de abertura total do ser á utopia do vir a ser”, completa Vilela. A mirada crítica de Pedro Sevylla de Juana, por sua vez, observa que no Colóquio das árvores a poeta ressurge “metafórica e simbólica: pagã; fogo purificador e cinzas fertilizantes: terrivelmente humana”.

Os cerca de cem poemas epigrafados por Sylvia Plath, Rubén Darío, Hilda Hilst, dentre outros, tocam em questões delicadas, que resgatam a temática socioambiental, ao mesmo tempo em que abordam aspectos inerentes às grandes inquietações humanas-existenciais: o amor, a morte, a solidão e a esperança.

Renata Bomfim dedicou o seu Colóquio das árvores a Dora Vivacqua, a “extraordinária e deslumbrante Luz Del Fugo”, e a Freda Cavalcanti Jardim, “mãe do Mosaico brasileiro”. Natural de Vitória, a escritora trabalha poeticamente o “ser capixaba”, identidade híbrida e multicultural, com suas delícias e contradições. À memória da cronista e poeta Carmélia Maria de Souza ela dedicou o texto poético “Vitória é uma delícia”, que diz: “esta Ilha tem “um que” de Ítaca, Olimpo, Pasárgada.// Que glória e que sina a minha/ nascer e escolher viver numa Ilha/ de Camélias e Carmélia.../ Vitória é uma delícia”. Já o poema “Fantasmas da esperança”, dedicado ao ecologista Paulo Cesar Vinha, assassinado por defender a restinga capixaba contra a extração ilegal de areia, é um chamado ao engajamento. O poema interroga: “Até quando o ferro e o fogo calarão vozes mais esclarecidas?/ Por que no lugar das árvores/ estão sendo plantadas as sombras dessas existências perdidas?/ Morreram Paulo Cesar Vinha,/ Chico Mendes,/ Maria do Espírito Santo,/ Dorothy, irmã querida./ Morreu José Cláudio Ribeiro da Silva,/ defendendo as castanheiras e a nossa humanidade”.

O desejo, talvez utópico, de se ter um espaço pacífico - onde o convívio entre as existências se estabeleça em harmonia e plenitude - é o que constitui o ímpeto enunciativo de Colóquio das Árvores, retrato poético-universal, que externa essências e (des)valores, demonstrando ao público leitor a necessidade de um repensar a própria existência; o que se dá por meio de  versos repletos de mensagens, capazes de associar a apreciação estética à conscientização do exercício ético.

Renata Bomfim é conhecida pelo seu amor pelos animais, especialmente pelos felinos. O Colóquio das árvores se abre para essa paixão com textos como “Todo gato”, que diz: “Todo gato tem alma de santo,/ Todo gato é sacerdote, profeta,/ Arquiteto e malabarista.// Todo gato é zen e/ Oportunidade de amor ilimitado/ Para um ser humano”. O pesquisador Fábio Mário da Silva destacou que na obra em questão “a consciência ecológica desemboca em temas e subtemas como, por exemplo, a origem do cosmo, do ser humano, daquilo que é místico, primevo e erótico”, uma exemplar amostra de ecopoesia.


Dessa forma, quem puder ler esta obra, reconhecerá em Renata a “rosa” que se vê “incômoda” e “assustada”; o dizer do “bicho”; da “planta”; aquela que “grita” e pode “enxergar além”. Colóquio das árvores propicia ao leitor a oportunidade de reconstruir valores materiais e imateriais; de ver nascer diante de si algumas certezas: a de que é preciso tomar uma atitude face ao meio-ambiente; conscientizar-se das atrocidades históricas, envolvendo a exploração de povos negros e indígenas; zelar; pelo amor ao próximo; pela essência-vida, pelo conviver igualitário... Já que todos, em primeira instância, são matérias perecíveis, a percorrer um mesmo caminho, findouro, maior de todas as certezas. 

 Andressa Zoi Nathanailidis  
Jornalista e Dra. Em Letras pela UFES.

02/12/2015

La Tupiniquim que me habita (Renata Bomfim)

En recuerdo de los indios que poblaron la isla de Vitória (ES) antes de la colonización portuguesa y durante ella: y para aquellos que, aún hoy, resisten la opresión y luchan por la ciudadanía. 

En mi interior duerme una noche arcaica
Cuyas tinieblas casi pueden palparse.
Crece también una espesura densa,
Donde los árboles organizan coloquios.
De esa oscuridad oigo ecos de voces, susurros.
Mi cuerpo se estremece con el batir de un tambor,
No puedo ignorar ese ritmo que hace de mí quién soy.

La sangre espiritual de un pueblo porta
El registro de la historia de su resistencia.
Vi chocar  dos mundos. Sentí el embate de creencias y tradiciones.
Vi  mi tierra bañada en sangre.
Descubrí el cortejo de ladrones llevándose muy lejos,
Con el oro y  la madera, la fe, la esperanza y la alegría…
 Todos esos registros permanecen dentro de mí.

Habita mi profundidad marina una india Tupiniquim
de cabellos ondulados y ambarina mirada.  
Posee habilidades para preparar ungüentos,
Cura pesadumbres seculares, resentimientos,
En la noche, devuelve el arrojo al guerrero.
Cuando curo un pájaro que cayó del nido,
O protejo a un animal como si fuera mi hijo,
 No soy yo, es ella, la india de cántico dulce…

Cualquier capixaba refugia un indio en su interior,
 Que le impulsa a oponerse a la esclavitud.
Ese ente posibilita que seamos singulares, especiales…
Necesitamos aceptar esa marca de Caín
(salvoconducto de los libres…)
Ser capixaba es ser heredero de ese pueblo luchador
Es ser presencia, es ser presente, es ser lo venidero…


(tradução para o castelhano por Pedro Sevylla de Juana)