26/12/2025

96 ANOS DE HISTÓRIA LITERÁRIA: FOTOBIOENTREVISTA COM NEIDA LÚCIA MORAES (Renata Bomfim e Vitor Cei)

 


Neida Lúcia Moraes nasceu em Vitória (ES), em 12 de junho de 1929. Segunda mulher a ingressar na Academia Espírito-Santense de Letras, começou a escrever ainda na infância — histórias e poemas que recitava na escola — e, ao longo de quase um século de trajetória, que alia estética literária e historiografia documental, destacou-se entre os grandes nomes da nossa literatura. 

Historiadora formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e professora aposentada da instituição, consolidou-se como referência na historiografia do estado, com livros didáticos como O Espírito Santo é assim: panorama histórico, econômico e geográfico do Estado (Artenova, 1971) e Espírito Santo, esta é a sua terra no Brasil (Lisa, 1973), este último adotado em toda a rede oficial de ensino do antigo 1º grau.

Como escritora de ficção, publicou Olhos de ver (romance, Editora Pongetti, 1967), obra premiada pelo Instituto Nacional do Livro; Sete é número ímpar (romance, com prefácio de Austregésilo Athayde, Artenova, 1971); O mofo no pão (Lisa, 1984); O sentido da distância (Lisa, 1985); Simbiose (Lisa, 1987); À sombra do holocausto (2010), que reúne O mofo no pão e O sentido da distância; em 2016, entretanto, a autora substituiu o título À sombra do holocausto por O tempo entre sombras, e A fúria do vento (2018). Também publicou crônicas e artigos em jornais capixabas e portugueses.  

No conjunto de sua produção, observa-se um projeto ético-estético que combina a imaginação narrativa ao exame de documentos e fatos históricos, especialmente relacionados ao Espírito Santo. Essa articulação entre literatura e história confere às suas obras um lugar singular, tanto no panorama da ficção brasileira quanto no da literatura regional, ampliando horizontes de recepção e problematizando silenciamentos de gênero, classe e região.

Revista Fernão- texto integral.

Escritora e ambientalista fundadora do Instituto Ambiental Reluz recebe a Comenda Augusto Ruschi, na ALES/ ES.


A Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) realizou, na noite desta quarta-feira (10), uma sessão solene em homenagem a ambientalistas que se destacam na defesa da natureza, em iniciativa do deputado Gandini (PSD). A solenidade reconheceu a contribuição desses profissionais para a proteção dos ecossistemas, promovendo conhecimento, conservação e sustentabilidade.

A Presidente do Instituto Ambiental Reluz, Renata Bomfim, foi agraciada com a Comenda de Mérito Ambiental Augusto Ruschi, pelos serviços que vem prestando à sociedade capixaba na defesa da Mata Atlântica e difusão das RPPNs. Foram agraciadas com a comenda autoridades ambientais, pesquisadores, representantes de entidades profissionais, lideranças da conservação marinha e membros de organizações de reciclagem. 

A cerimônia celebra o legado do renomado naturalista e ambientalista brasileiro, cuja trajetória simboliza dedicação, coragem e compromisso profundo com a proteção do meio ambiente. Instituída pela Resolução 3.171/2012, a comenda é concedida a profissionais que atuam na ciência, na pesquisa, no cultivo e no estudo de plantas, bem como a especialistas dedicados à fauna e à flora brasileiras que se destacam em projetos e ações de preservação ambiental.

Reportagem site do Reluz

Literatura e Meio Ambiente no lançamento do livro A revolução dos colibris, de Renata Bomfim, em Vitória/ES.

No dia 28 de novembro de 2025 o livro de poesias A REVOLUÇÃO DOS COLIBRIS. A temática do livro é atravessada por variadas questões socioambientais e objetiva mobilizar leitores, em vários níveis, para a questão ambiental. Foi uma noite muito agradável, entre amigos e parceiros das causas culturais e ambientais. Minha gratidão a todos e todas que, de alguma forma e amorosamente, fizeram parte desse projeto. 


01/12/2025

UMA VOZ INQUIETANTE: Entrevista com Juliana Sankofa Por Francis Kurkievicz*


Juliana Sankofa é uma escritora mineira, pretativista, pesquisadora, educadora agora com residência fixa em Vila Velha/ES onde veio trabalhar para a Secretaria de Educação da cidade. Nascida como Juliana Cristina Costa, veio ao mundo no dia dois de fevereiro de 1990, na cidade de João Monlevade–MG. Ela é Doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Uberlândia, pesquisadora de literatura preta brasileira e mestra em estudos literários pela UFJF. Além disso, é escritora fundadora da articulação literária nacional Pretas das Letras. Escreve nos Blogueiras Negras e tem muitos dos seus poemas publicados em diversas revistas e blogs literários no Brasil.  Como escritora, iniciou sua jornada  em 2014, participando das tradicionais antologias dos Cadernos Negros. Em 2019, Juliana publicou o livro "Comovida como o Diabo" de forma independente, lançando-o, também, no formato e-book. 


Francis Kurkievicz - QUEM é Juliana Sankofa e quem é Juliana Cristina Costa? A que veio? O que quer? Qual  o seu Ori? Quais os seus sonhos e projetos?

Juliana Sankofa – Juliana Sankofa é a minha autodefinição, pois carrega, no sobrenome, a filosofia do tempo não linear, em que o passado precisa ser revisado enquanto força vital, para que eu possa me projetar em futuros melhores e viver o presente da melhor forma possível. Juliana Cristina Costa é o nome dado, que eu não escolhi, e cujo sobrenome paterno eu recuso, pois meu genitor não cumpriu o seu papel, foi só mais um opressor.

Sobre o meu Ori, ainda não sei o nome, não joguei os búzios; apenas sinto sua presença feminina desde a infância, protegendo-me e orientando-me para boas escolhas. Meu sonho é poder viver, no mínimo, 24 horas sem ter que lidar com o racismo.

Entre os meus projetos, em nível pessoal, quero estar mais presente na vida das minhas amizades. Embora cada pessoa resida em diferentes lugares do país e do mundo, quero que o afeto esteja mais presente do que a luta, pois estou cansada de ter que lutar só porque a sociedade nos esmaga se não lutarmos.  Em nível profissional e na carreira literária, pretendo, em 2026, publicar meu primeiro livro impresso, o qual escrevi em Vila Velha (ES), enquanto me recuperava do luto e, ao mesmo tempo, atendia às exigências acadêmicas do doutorado. Escrever é minha profissão e é minha arte, mas é na arte que consigo fortalecer minha Ori, meu corpo e minha mente.

FK – O que significa para você a celebração da Consciência Negra? Quais impactos sociais, políticos e culturais estão implicados nesta data?

JS -É uma data que surge devido a muita luta por reconhecimento, mas que tem sido banalizada pelas dinâmicas do capitalismo e pelo contexto de extrema ignorância e retrocesso que estamos experienciando em termos de sociedade.  A data é para lembrar que a construção do país, nação, também se deu pelas mãos africanas, expropriadas de seu continente, estigmatizadas e violentadas desde 1500 por uma Europa que se chamou, e ainda se chama, de civilização.

          A inserção dessa data no calendário nacional é de relevância histórica, porém isolada, sem a inserção do letramento racial no currículo escolar ou em projetos ligados a sociedade, pode ser banalizada.

FK – A Literatura Negra é uma afirmação identitária e uma reivindicação de cidadania através da Poesia e das Narrativas, como você ocupa este espaço e por que é tão salutar hoje?

 JS – A literatura negra brasileira não é só uma afirmação identitária, é uma expressão estética do nosso ponto de vista acerca do mundo e é nossa possibilidade de questionamento de imagens de controle, estereótipos, que nos desumaniza e nos subordina. Seu teor reivindicatório é um dos elementos que a compõe. Eu comecei minha carreira literária em 2014, pelos Cadernos negros, antologia paulista tão relevante para divulgação da literatura negra brasileira no Brasil e no exterior.  Não sei dizer exatamente como eu ocupo este lugar, mas um dos meus objetivos é que minha palavra literária possa atravessar quem ler, desassossego, puro desassossego, pois quem naturaliza uma sociedade não consegue desnaturalizá-la apenas se receber uma conversa amigável. Quando escrevo sobre racismo não tenho o interesse de ser amigável. No entanto, o que eu escrevo não se resume só a isso, escrevo sobre a vida acadêmica, sobre o amor, sobre a saúde mental, sobre gordofobia etc.  

FK – Como você lida com o racismo, o preconceito, o patriarcado, o negacionismo vigentes e vicejantes na sociedade brasileira? Ser afrodescendente com voz, poder e lucidez atrai oposição?

JS – Eu lido com ironia (risos). A oposição é gratuita, eu chamo de desfã club. Eu gosto do meu desfã club, trato até com respeito e escuta, mas é o meu fã club que me faz querer escrever cada dia mais, porque demonstram o quanto que eu escrevo os blinda socialmente dos efeitos psíquicos das violências raciais. O Brasil é afrodescendente, assim como é indígena e europeu,  a minha ascendência é brasileira nesse sentido, porém, ninguém vê meu sangue europeu, vê a cor da minha pele preta. Então, ser mulher preta gorda em uma sociedade como a nossa é conviver diariamente com a violência gratuita nos espaços públicos ou até mesmo em casa, a depender onde mora.  Querem pessoas do meu perfil em condição de subalternização, isso não é só esfera de trabalho, é nas relações interpessoais também, só que eu não ando como se as pessoas fossem minhas donas, eu ando como dona de mim, consciente do que eu sou e exigindo respeito.

FK – O que é Poesia para você? O que representa a Poesia em sua vida? A Poesia tem o poder de transformar a realidade e ressignificar a existência humana?

JS – A poesia, para mim, é tudo aquilo que consegue tocar sentimentalmente a nossa reflexão. Ela é uma prática comunicativa instantânea. A poesia pode mudar o sujeito e, assim, o sujeito pode mudar a realidade, caso tenha recursos simbólicos disponíveis para isso. Quando não os tem, pode ainda fortalecer sujeitos para o enfrentamento das mazelas sociais e para a afirmação de sua humanidade diante de uma civilização que nos desumaniza constantemente.

FK – Como poeta, ativista, professora que conselho ou argumento você defenderia a partir da Celebração da Consciência negra? Os pontos fundamentais desta data têm poder de transvalorar costumes e hábitos, transformar a plasticidade mental do brasileiro e criar uma nova percepção justa, clara e real do povo negro?

JS O conselho que eu dou é que o letramento racial, como os outros tantos que precisamos ter frente às experiências sociais que não sentimos em nossa pele, deve ser uma busca individual, além das políticas públicas de promoção desse letramento. A nossa sociedade é estruturada pela colonialidade que, junto com a dinâmica neoliberal, faz com que as desconstruções dos paradigmas coloniais sejam pouco de interesse para as pessoas. Nossa sociedade tem como costume o egoísmo quando se pensa em acessos e oportunidades, o que se sustenta pela ideia de meritocracia em um contexto social desigual.

FK - Qual a importância dos Cadernos Negros para a Literatura Nacional e para os escritores afrodescendentes? Qual a dívida a Literatura Canônica deve aos escritores negros?

JSCadernos Negros é reconhecido internacionalmente como uma antologia que proporciona a inserção de escritores e escritoras negros(as) na cena literária brasileira há mais de 40 anos. É, para muitos artistas negros(as), a opção mais viável de publicação e de ter seus textos visibilizados. A literatura canonizada pelo sistema social brancoeurocentrado não nos deve nada; quem nos deve é o próprio sistema social que se beneficiou com séculos de exploração do sujeito africano e da estereotipação de seus descendentes. Esse sistema nos deve reparação histórica e condições de existir sem genocídio e sem nossa constante pauperização.

Quem representa esse sistema é a hegemonia que ocupa o poder desde o início, independente de ser de esquerda ou de direita; o contexto permanece centrado no mesmo perfil hegemônico: homens brancos.

FK – O seu poema CORPO-ÁFRICA é o mais famoso e o que melhor define a sua poesia e voz lírica, tal como aconteceu com Conceição Lima e o poema Afroinsaluridade. Como este poema aconteceu e quais opiniões você colheu dessa repercussão?

JS – No contexto dos Cadernos Negros, esse é o meu mais famoso poema. Ele surgiu enquanto eu fazia o mestrado na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Enfrentava o racismo acadêmico que colocava o meu corpo como objeto sem voz a partir dos estereótipos de como eu deveria me comportar: sempre concordando com o que é imposto, isto é, subordinação epistêmica. Após uma série de situações em que eu me via sendo alvo constantemente de imagens de controle, eu fiquei desgastada psicologicamente e foi esse poema que surgiu quando eu não aguentava mais e precisava espairecer a mente. Corpo-África é um poema que fala de como todo corpo negro é saqueado nas relações sociais e também como há uma associação instantânea entre nosso corpo e o continente de origem, que muitas vezes é feita para menosprezar, porém, no poema, eu faço para nos engradecer e lembrar que nós somos e viemos do continente berço da humanidade.

 

FK – Todo poeta e escritor possui referências literárias, sociais, históricas etc., livros essenciais, ideais cultivados, utopias íntimas, quais as suas?

JS – Minha referência mor é a escritora Miriam Alves, cuja escrita literária me alivia e me faz pensar, e cujo estilo me atrai. Ela também é a minha referência enquanto intelectual e a ela eu devo muito da pesquisadora e escritora que me tornei. Depois dela, admiro a escrita de Machado de Assis, menos do livro Americanas, devido ao seu discurso preconceituoso em relação a população indígena, verdadeiros donos dessa terra; gosto do Saramago, Cuti, Cristiane Sobral, Irmãos Passos, Luana e Leandro, Jovina Souza, enfim, fazer uma lista é difícil, porque há muitas vozes em que sou leitora.

 

FK - Quais os marcos políticos, direitos, valores, bens culturais etc. a comunidade afrodescendente ainda não alcançou? O que fazer para que a justiça social seja efetiva, abrangente e verdadeira?

JS – Há quem diga com mais propriedade que eu, pois é conhecedor(a) e age de frente nessas questões; muitos ativistas e intelectuais negros(as) estão trabalhando nisso há anos. A meu ver, sem muita familiaridade com todo o debate, pois só tenho uma experiência fora das dinâmicas políticas institucionais, eu acho que nos falta, principalmente aos jovens negros, alcançar a liberdade de ir e vir sem a violência gratuita e desmedida da polícia. Antes que alguém diga que eu estou defendendo a criminalidade ao pensar dessa forma, eu digo que não: nem todo jovem negro periférico é bandido e não é só esse perfil de bandido que existe no Brasil; o crime de colarinho branco está gerenciando tudo há séculos. Penso que, para assegurar uma equidade jurídica e de direitos, ainda falta muito.

 

FK – Que pergunta você faria para si mesma que este pobre entrevistador branco não conseguiu contemplar?

JS -  Sobre o meu próximo livro? Então, em 2026, pretendo lançar meu primeiro livro de poemas inéditos, pois há uma cobrança para que eu lance livros, embora eu prefira publicar nas redes sociais e no blog pessoal. O livro está pronto e serviu como instrumento para lidar com o luto da perda de uma das minhas irmãs. Agora, assim que eu concluir o doutorado e puder respirar um pouco, lançarei meu livro, e outros tantos virão logo em seguida.

 

 

CORPO-ÁFRICA

 

Meu corpo é uma África

e o mundo, um navio negreiro.

Enquanto cantos que não entendo

oscilam dentro de mim,

eu vejo as atrocidades que ainda não tiveram fim.

“Vivemos tempos de Lei Áurea” − assim nos dizem

enquanto socialmente nos constrangem

pelo cabelo crespo que adoramos

pela coroa simbólica que levantamos

e se ofendem quando nos amamos.

 

Meu corpo é uma África

que ainda grita

todos os crimes contra sua terra

e contra sua gente.

O racismo de nossa era

vem junto com uma boca sorridente

que dissimula

e tudo que é negro anula

como contribuição social.

 

Meu corpo é uma África

meu Ori vive comigo a resistir

Já que não podemos mais permitir

o silêncio a nos chicotear,

nem os discursos com outros termos a inferiorizar o que somos. 

 

*Francis Kurkievicz é poeta.

14/11/2025

A escritora capixaba Renata Bomfim lança "A revolução dos colibris", seu novo poemário.

 

A escritora e ativista ambiental Renata Bomfim lançará, no dia 28 de novembro, às 19 horas, na Biblioteca Municipal Adelpho Poli Monjardim, o livro de poesias A Revolução dos colibris. A obra propõe uma reflexão poética sobre temas socioambientais.

Renata elabora um percurso poético compondo paisagens e elementos que buscam desterritorializar o antropocentrismo, ou seja, deslocar o ser humano do centro exclusivo do sistema de valores para que possa coexistir com outros seres.

Andressa Zoi Nathanailidis desta que a escritora mergulha na história humana, buscando compreendê-la como um mistério passível de múltiplas cosmogonias, tecendo fios que evocam a narrativa da origem, costurando o tempo em bordados de experiência e pertencimento. Para o poeta e historiador Fernando Achiamé, o livro é movido por uma “força imaginativa” que guia o(a) leitor(a) por “páginas e páginas de assombros”, a partir de “uma jornada feita pela Terra com seus predicados naturais os minerais diversos, as plantas nossas irmãs, a bicharada toda. Assistimos ao nascimento e desenvolvimento dos seres feitos de húmus... os humanos, nós”. Procede a analogia com a Divina Comédia – infernais destruições infringidas à Mãe Gaia; purgações de antigos males sociais; paradisíacos êxtases pelos cheiros dos matos, pelos voos dos colibris, pelas florestas recuperadas. A felicidade se encontra no futuro que poderemos criar com o que nos foi legado, cabe a nós decidirmos o que fazer.

Renata é ativista ambiental implicada com a preservação da Mata Atlântica e o seu livro propõe suscitar reflexões por meio da poesia. A autora afirma que o livro trata de “uma revolução que começa dentro do ser e se expande, avançando silenciosa e rasteira com a serpente.  “É sobre não sucumbir em tempos de ódio e pavor”.

A Revolução dos colibris desvela que é no amor, em corpo e espírito, que a poética feminina de Renata Bomfim alcança a redenção. O Crítico literário Francisco Aurélio Ribeiro destaca que Renata é “essencialmente, poeta e ativista ambiental” e que “amalgamando mitos cosmogônicos e escatológicos, histórias e ciência, Renata vai recriando a história do nosso planeta” e “aprendemos com a poeta que “O amor precede a palavra”.

Doutora em Letras pela UFES, a escritora atua como terapeuta e, em 2007, criou a Reserva Natural Reluz, uma RPPN reconhecida pela UNESCO como um Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

O livro conta com o patrocínio do Governo do Estado do Espírito Santo e será distribuído gratuitamente em bibliotecas públicas e nos projetos socioambientais do Instituto Ambiental Reluz, visando fomentar a emergência de um pensamento crítico alinhado às forças do devir e ao plano das multiplicidades, capazes de traçar caminhos de afeto e cuidado com as vidas humanas e não humanas que habitam a Terra, nossa casa comum.

No lançamento, o valor da venda do livro será integralmente revertido para o Programa “Reluz na Estrada”, que trabalha pelo fim do atropelamento de animais nas rodovias do Espírito Santo.

 

Lançamento: dia 28/ 11/ 2025

Local: Biblioteca Pública Municipal Adelpho Poli Monjardim. Rua São Gonçalo, 23. Centro. Vitória/ ES (ao lado do Teatro Sônia Cabral).

Contato: (27) 9 9574-7410


01/09/2025

CARMÉLIA MARIA DE SOUZA: ESTA ILHA É UMA DELÍCIA (RENATA BOMFIM)

 

Carmélia Maria de Souza: desesperada e lírica 
 Vento Sul- Seleção, organização e estudo crítico Renata Bomfim 
 Arte da capa:  Attílio Colnago 

No Programa Biografia, da TV- ALES, Milson Henriques, que foi um amigo muito próximo a Carmélia, afirmou que a cronista, quando criou a frase “Essa ilha é uma delícia”, o slogan poderia, à primeira vista, “parecer um elogio”, mas que estava “repleto de ironia”, e, na realidade, a frase queria dizer que, em Vitória, “tudo é proibido, tudo é provinciano, tudo não pode”. Ele acrescentou, ainda, que a despeito da ironia, nada impediu Carmélia de amar verdadeiramente a cidade de Vitória e de defendê-la nas suas crônicas.

Com relação à criação do slogan, “Esta Ilha é uma delícia”, o jornalista Pedro Maia declarou que é de autoria de Acyr Monteiro. Quem traz esse dado é José Irmo Gonring. Segundo Maia, Carmélia o teria adotado para a sua coluna: “Carmélia veio de Barbacena, onde tinha uma coluna chamada Os Pardais, para fazer coluna social no lugar do Hélio Dórea, que tinha ido para o jornal A Gazeta. A ideia de colocar na coluna o nome Essa Ilha É Uma Delícia foi do Acyr Monteiro, que realmente gostava muito de Vitória. Carmélia queria colocar na coluna o nome Os Pardais, mas Acyr achava muito provinciano”. [...] Ela escreveu durante dez anos a coluna”. 

A despeito de quem foi o criador do slogan, Glecy Coutinho destacou “Olha, Carmélia foi a pessoa que, eu acho, mais amou Vitória! Ela escrevia muito sobre Vitória, muito mesmo, e ela defendia Vitória, assim, viu, de unhas e dentes”. Esse amor da cronista pela cidade atravessa todo o livro Vento Sul. O texto “Com vistas ao cronista”42 fala sobre uma viagem que Carmélia fez ao Rio de Janeiro. Nele, a cronista declara que ficou feliz ao encontrar a Revista Vida Capixaba em uma banca, entretanto, ao ler, observou que o cronista Eugênio Sette, seu amigo, “espinafrava” a cidade: “Reconheço que nem sempre é possível a gente se lembrar que roupa suja deve ser lavada em casa”. Carmélia declara ter percebido um certo prazer, por parte do escritor, em “contar para os quatro ventos os pecados da Ilha”, uma intimidade que, para ela, era “sagrada”. Então, de forma humorada, passou a descrever o absurdo de alguém dizer que “os nossos telefones são uma droga”, que “as senhoras da Tradicional Família Capixaba [TFC] são fofoqueiras”, que “quando chove, fica tudo alagado”, e pergunta ao Eugênio: “em que mundo você estava quando inventou essas bobagens?”43 Em diversas crônicas é possível observar que há momentos em que Carmélia se torna porta voz da Ilha de Vitória: “A Ilha está pedindo para que vocês a deixem crescer”, “a Ilha quer saber se lá fora o seu nome é pronunciado com admiração e respeito”, e há outros, nos quais ela se funde à cidade: “Eu sou a Rua Duque de Caxias”. Carmélia afirmou que “gostava do jeito gozador com que os capixabas encaram as coisas da vida” e, no mesmo texto, ela pede ao Eugênio que, quando for escrever, “pense nas tardes de maio, [...], nas noites de serestas, nas estrelas da madrugada {...] e depois escreva uma crônica cheia de doçura, lembrando dela, “alguém que sempre entendeu (com amor e ironia) que esta Ilha é uma delícia”, especialmente por “abrigar os amores que a gente tem”.

Na parte dois de Vento Sul: “Cartas do meu redemoinho”, Carmélia se referirá a Vitória como “preguiçosa e bonita”, uma cidade que parece ter sido feita para abrigar as pessoas de boa fé e os homens de boa vontade”. Nesse texto, o que à primeira vista soa como sarcástico, vai sendo justificado poeticamente e vemos surgir aos olhos uma cidade humanizada “onde o milagre da poesia vai transformando todas as estrelas em perdão, a fim que se perdoem todas as mágoas de amor”46. Outro exemplo interessante que fala sobre os capixabas está na crônica “O deletério do povo capixaba”, onde a cronista diz: “confesso que não encontrei outra [palavra] mais expressiva para dizer o que penso do honrado povo capixaba [...]. É, decididamente, um povo deletério, este”. O povo mais deletério do mundo, talvez”. No texto, a escritora sai em defesa do amigo Marien Calixte que buscava empreender na gestão municipal de Vitória e estava recebendo muitas críticas. Carmélia acrescenta: “é bastante alguém pensar em fazer alguma coisa que preste nessa Ilha (ô Ilha!), para que os chamados “pés-frios” comecem logo a engrossar. Ao invés de darem o necessário incentivo [...]. E vão em frente os deletérios do inferno, apostando a própria mãe como ninguém será capaz de fazer coisa nenhuma. É uma desgraça, enfim”47. Carmélia não tinha papas na língua e fica claro que ela se posicionava com relação aos acontecimentos e às figuras públicas da cidade. A cronista, como bem disse Santos Neves, se dava bem com pessoas de diferentes grupos sociais, possuía amigos da classe trabalhadora e da alta sociedade e mantinha o hábito de passar temporadas nas casas desses variados amigos, como, por exemplo, na da colunista social Maria Nilce. Carmélia tinha consciência da potência das palavras, e de que a forma como representamos algo ou alguém, revela ou confere valor e grau de importância ao representado.

Renata Bomfim.


CARMÉLIA MARIA DE SOUZA: CRITICIDADE, POLÍTICA E RELIGIOSIDADE (RENATA BOMFIM)

 

Maria Nilce, Milson Henriques e Carmélia Maria de Souza.

Carmélia enxergou a sociedade capixaba sem filtros, ela não se inseriu no campo do discurso para agradar, ao contrário, buscou “espinafrar”, questionar verdades, desvelar preconceitos e o que mais pudesse estar camuflado sob o verniz da conveniência, tudo isso ela fez ciente do seu papel como intelectual e escritora. O seu trabalho cimentou caminho para outras pessoas na escrita, como observamos na crônica “Minha Félia”: “Quando nada, vou cumprindo a tarefa de aperfeiçoar a ferramenta para os outros, que certa mente virão. Quando nada, é possível que eu me saiba um pedaço desta ponte que deverá conduzir a humanidade até um mundo melhor. Tenho pena de não haver esperado para nascer no ano de 2050. Porque até lá, a imortalidade seja possível e a vida seja feita de colaboração e não de competição. Todavia, isso não passa de uma conjetura, apenas desejável. No momento, a disputa por um pedaço de pão atirado no lixo, a dura luta contra a escravidão [...] é o que constitui a presente e amarga realidade que me foi dada para contemplar [...] Mas ela passou a ser minha preocupação maior, a minha verdade, a minha poesia. Ela é hoje a minha consciência – a minha clara e nítida consciência, minha promessa única de realização nessa vida”.

A cronista foi alguém que viveu a cidade e conviveu com os seus personagens. Reinaldo Santos Neves afirmou que “Carmélia não fixava fronteiras para a troca de calor humano. Se dava bem com a esposa do magnata e com o pescador fodido que afogava as mágoas na pinga, não tinha preconceitos: não fazia distinção de sexo, credo, cor, nem pedigree social ou econômico — nem muito menos de idade”31. Carmélia fez da escrita um instrumento de diálogo e espaço para a fruição de afetos. Para a cronista, havia sacralidade no contato humano, mas ela abdicava “dos mistérios da divindade” e clamava por um Cristo “com a simplicidade dos mansos”: “O meu Cristo é assim: leal, compreensivo, solidário, fala gíria, frequenta o mesmo bar da corriola, lê poesia, e acha essa ilha uma delícia. Adora Chico Buarque, não suporta Proust, expulsa os chatos da mesa e se faz respeitar e amar como amigo que está em todas as coisas que eu amo e é por isso que está comigo”.

Carmélia tinha amigos importantes, entre eles o governador. O Jornalista Álvaro Silva contou que, na época da dita dura, Élcio Alvares ascendeu ao cargo de Governador do estado por indicação, sem eleição direta.  Silva relatou que, em uma ocasião, no Cine Juparanã, viu Carmélia chegar e saudar em auto e bom som o Governador Élcio Alvares, que se encontrava longe dela, e que este saiu de onde estava e veio cumprimentar a cronista.  A jornalista Glecy Coutinho, em entre vista, contou que na época da ditadura, Carmélia “respondeu processo” porque “escondeu umas pessoas na casa dela”, e que quando veio o AI-5, “então a barra pesou muito”. Essa é uma imagem da escritora que se opõe a de uma pessoa apolítica. A crônica “E me vieram perguntar, originalmente publicada sem título no jornal A Tribuna do dia 18 de fevereiro de 1968, diz assim: “Chegou um tempo, aqui no Brasil, em que todos os poetas — principalmente os mais humildes, os mais limpos — estão sendo encarados como elementos perigosíssimos à segurança da nação. Tenho um amigo poeta que passou seis meses trancafiado na prisão. [...] Como se ele pretendesse enfrentar sozinho as forças armadas e avacalhar com a revolução”. Nos seus escritos, a cronista se afirmou como livre pensadora, ela se posicionou junto àqueles com os quais tinha afinidade na defesa dos valores que acreditava e, defendeu o estilo de vida que escolheu viver: “Sou livre para fazer isto, [...] enquanto não me prendem eu vou bebendo o meu vinho  todas as noites, entre os supostos e alegres solda dos que compõem esta ingênua e inofensiva esquerda festiva. Na verdade, mesmo, não me prenderei mais a nenhum grupo e a ideologia nenhuma”34. Na crônica “Considerações ou tonais e chatas”, vemos Carmélia ironizar as “gloriosas” forças nacionais e debochar do histórico símbolo de liberdade nacional que é o grito do Ipiranga: “Há muito cansei de ouvir dizerem a mim que as coisas estão ruins e vão melhorar, pois, o Presidente da República e as Gloriosas Forças Armadas estão tomando as providências para botar essa joça no seu devido lugar. [...] Para mim isso acabou de uma vez por todas, não vem que não tem:[...] “Independência ou Marte!”, “sim, quero me mandar para Marte, com a maior urgência”.

Política e Poética são temáticas que se imbricam. Se pensarmos que Carmélia viveu em uma sociedade estamental e religiosa, podemos perceber que os seus textos criticam os grupos da elite, um exemplo desse olhar está na crônica “Os dez mais idiotas”, na qual a cronista, por meio do humor, chama a atenção para o uso do suplemento do jornal para o “fora de moda”. Ela se referia às listas dos ‘dez mais’, uma irrelevância que encobria “o tempo que passa na janela e só Carolina não vê”36. Em uma época em que o colunismo social foi muito forte em Vitória, a cronista não deixava de “espinafrar” esse e outros gostos da pequena burguesia. Carmélia debocha das ‘listas’, afirmando logo de entrada que isso era coisa que teria começado com “o finado Adão”, que havia se elegido “um dos dez mais do paraíso e deixado a pobre Eva na reserva”. Ela afirma que seria difícil fazer uma lista de chatos, pois, “esta ilha tem chato que não acaba mais”, mas, para não escandalizar a “carneirada”, resolveu escrever a sua própria lista: “Coisas que eu detesto; caviar, champanha, festa estilo soçaite, soçaite, Jorge Amado, programa “um instante maestro”, praia, telenovela, reunião com muita mulher, mulher (em geral), livro best-seller, dona bibi ferreira, muqueca de peixe, o samba “apelo”, homem bonito (só abro exceção para o alain delon — ele é demais) e almoço em família. Coisas que eu adoro: inverno, vento sul, café sem açúcar, frescura, desgraça alheia, jiló, música clássica, noite, irmãos metralha ltda., trocadilho infame, homem feio, simplicidade, pinga, gripe e sogra”37. O crítico e poeta Octávio Paz defendeu que “atividade de poética é revolucionária por natureza”. O pensamento do filósofo francês Jacques Rancière caminha na mesma direção na obra Políticas da escrita, onde consta: “a escrita é coisa política, pois ela alegoriza a constituição estética de uma comunidade, apontando a forma como essa comunidade partilha o sensível e delimita os seus espaços reais e simbólicos”. A partir desse entendimento, compreendemos que a política e a escrita se inscrevem, de forma radical, no campo da comunidade. 

Carmélia não foi uma escritora panfletária, mas usou a escrita para ocupar espaços relevantes na sociedade, e abrir outros, igualmente relevantes, especialmente para as mulheres. A reescrita da ‘lista’ foi feita de forma paródica, de forma a desnudar os valores esvaziados da “soçaite”, aos quais, agora sabemos, ela afirma que “detesta”. A crônica mostra também ser um espaço para experimentações com a linguagem e a subvertendo valores e gostos, com a cronista se colocando como apreciadora do que esse grupo não aprecia. Carmélia apontou que leitores capazes de a compreender eram o seu público ideal: “escrevemos para um grupo fechadíssimo, inteligente, de bom gosto, merecedor do nosso talento redacional em toda linha. Um grupo que ainda encontra sentido nas coisas mais simples e que entende a doçura e a poesia que a gente tira de dentro do coração”. Amylton de Almeida declarou que Carmélia seguiu firme trabalhando no jornal, enfrentando com senso de humor as asperezas e grosserias da cidade.

Renata Bomfim.