Nas primeiras décadas do século XX
a arte passou a apresentar como marca uma indeterminação sem precedentes na
história: nada mais seria como antes! A liberdade radical a qual os artistas
modernos foram expostos resultou em estranhamento e angústia. Segundo Ronaldo
Brito[1]
essa “crise na Arte”, para além de refletir um mundo submerso em processos de
transformação e desfiguração, mostrou que a arte é um “isso problemático e
reflexivo” em constante interrogação. A
vanguarda modernista criou inúmeros novos esquemas e procedimentos artísticos que,
ironicamente, abriram caminhos reflexivos para artistas, críticos e publico, e
de repente, o antes era “inaceitável”, passou a ser incorporado pela à
tradição.
Os artistas contemporâneos são herdeiros dessa
geração que fez da experimentação e da exploração o seu lema. É como se o “Anjo da história”, pintado por
Paul Klee, tocasse a trombeta e nos convocasse a juntar os destroços do tempo.
Walter Benjamim, argutamente, percebeu que um amontoado de ruínas crescia em
direção ao céu, e que uma tempestade chamada “progresso” se aproximava.
Olhamos para trás saudosos e
melancólicos, e para o futuro sem saber que caminho tomar; resta-nos os destroços
e, frente aos fragmentos de nossa própria identidade, o que fazer? Na obra Tudo
o que é sólido desmancha no ar, Marchall Berman[2]
alertou que o único jeito de o individuo sobreviver na sociedade, seria
assumindo uma personalidade fluida. A identidade desse sujeito maleável, posto
entre os estados líquido e gasoso, não é fixa, mas muda constantemente. As
existências fluidas e as mudanças ininterruptas marcam a vida desse ente, e a
arte o companha na sua errância. O caráter liquefeito da sociedade contemporânea
não permite que nos voltemos para os mestres do passado em busca de respostas
que nos garantam segurança. Os arroubos revolucionários e ideológicos migraram
para os objetos descartáveis, são revolucionários os cremes anti-idade, o
detergente líquido, a ação do desinfetante, o aparelho eletrônico que promete facilidades
inimagináveis e felicidade.
Sandra Resende é uma artista
contemporânea que não se fixa e nem se permite enrijecer. Nesse sentido a sua
produção se alinha com a de artistas como Beatriz Milhazes, Vik Muniz e Adriana
Varejão. Destaquei, em outro ensaio, que a obra de Sandra Resende transita
entre o acadêmico/ figurativo e o abstrato, bem como, na representatividade da
expressão sacra no seu percurso como artista. Dentro do universo multifacetado
dessa poética as cores desempenham um papel essencial, elemento que encontra
complementariedade no desenho e na gestualidade.
A série “Nova riqueza”, de certa
forma, é uma antinomia, uma tentativa de reconciliar o que aparentemente é
irreconciliável. Ele busca inspiração nos escombros do garimpo de Serra pelada,
trazendo à luz importantes reflexões sobre os modos de ser e estar no mundo do
homem contemporâneo. É possível revertermos a grave crise ambiental na qual estamos
submersos, por sua vez, não é a crise ecológica, a face de um caleidoscópio que
envolve outras dimensões humanas, não menos importantes?
Sandra Resende possui uma obra
versátil, pois a sua plasticidade lhe garante a possibilidade de ocupar
variados lugares no desejo do espectador. A fluidez dessa poética é radical,
nela a mancha de tinta é trabalhada tendo como inspiração o mineral, a pedra
bruta e os metais extraídos da terra, elemento imanente por excelência. A série
é formada por dez telas, de média e grande proporção, pintadas sobre linho ou
canvas que sustentadas por chassis de mogno, ou pinus, tratados com pigmentos
naturais e óxidos sintéticos.
O despertamento para esse
trabalho veio da observação da mutabilidade da natureza. O garimpo de Serra pelada,
situado no Pará, já foi considerado o maior a céu aberto do planeta. A cratera
de onde os homens extraiam ouro a poucos metros atraiu pessoas de todo o Brasil
na década de 1980. Os sonhos de riqueza dos homens simples, logo, cederam lugar
à realidade: uma vida insalubre e marcada pela guerra de forças e tensões entre
poderes. Serra pelada é uma alegoria do estado da arte na série “Nova riqueza”,
nela dialogam o sensível e o bruto/violento, marcados por movimentos de descoberta,
por sonhos, explosões, degradação, ruína e reconstrução.
Nas telas encontramos a força do
amarelo e de uma profusão de ocres e marrons que convidam à garimpagem. É
preciso ir mais fundo, cavoucar novos sentidos, dialogar com as camadas da
terra, penetrar nos mistérios o elemento feminino, — Gaia —,
fonte alimentadora da vida. Há muito o que observar na série de pinturas: a
violência de algumas pinceladas cinza vão, gradativamente, se diluindo e, de
repente, revela-se um veio d’água.
A arte contemporânea abre caminho
entre os escombros do passado e, a despeito da incerteza constante, do consumo desenfreado
e da corrosão dos valores tradicionais, há a renovação e a gestação do novo.
Embora Sandra Resende seja uma artista nascida século passado, e tenha
experimentado a si mesma nos diferentes sistemas acadêmicos propostos pela
arte, ela se abre para o novo e convida o expectador para que aventure nesse
universo de reconstrução paisagística, plantando nas áreas degradadas e criando
devires.
Renata Bomfim
[1] O novo e contemporâneo. Disponível em < http://www.casaruibarbosa.gov.br/arquivos/file/O%20moderno%20e%20o%20contemporaneo%20_ronaldo%20brito.pdf>. Acesso em 15 ago 2015.

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