“Mantenha-se
inabalável diante do sopro dos oito ventos!”, orienta o tratado sobre o Sutra
do Estágio do Estado de Buda. A fartura, a glória, o prazer, assim como a
derrota, o sofrimento e a decadência são descritos na tradição budista como
“ventos” aos quais o ser humano é exposto durante a vida, devendo perante eles
manter-se impassível. Mas, nem sempre a alma resiste, e o ser acaba sendo
arrastado para lugares de onde é difícil retornar. É assim que, muitas vezes, o
mundo das drogas, esse vento bravio e impiedoso, arrasta não apenas a pessoa
dependente da substância psicoativa, mas também familiares, amigos, conhecidos.
Oito Ventos é uma obra capixaba
da gema, digo isso com orgulho mátrio, constatando a qualidade técnica e
estética das produções que vem surgindo no nosso Estado, seja nas artes
plásticas, na literatura, na música, etc. Essa obra híbrida, − produção audiovisual
que mescla música, entrevistas, fotografia, ficção, performance e poesia −, é
um curta-metragem que descortina perante nossos olhos o sensível de um mundo
obscuro, cercado por estigmas e preconceitos.
O videoclipe teve cenas gravadas na Avenida Carlos
Lindenberg, em Vila Velha. Nele foram utilizados os pontos de luz dos postes
para criar uma atmosfera urbana e pouco definida, padrão estético e visual que
segue a linha documental, captando a luz ambiente e incorporando cenas externas
gravadas com lentes próprias. Segundo o diretor Luiz Eduardo Neves, busca-se um
“visual cru, que se aproxima das produções do diretor José Padilha”.
Transformar a dor em poesia é apanágio dos
artistas. É isso que encontramos nessa obra lançada em maio deste ano. O
diretor entrevista mães de dependentes químicos auscultando seus medos,
ansiedades, esperanças. É comovente ver a força e a fé dessas mulheres que vivem
orando, lutando, que se propõe a descer ao inferno para resgatar seus filhos
das garras da morte: luta muitas vezes inglória.
As relações vivenciadas na trama são
conturbadas, conflituosas, mas, num átimo, o caos cede e sentimos, dentro de
nós, raiar um fiapo de esperança, afinal, como diz a composição do rapper
Aliado Jota “Demorou, mas eu dei valor a minha esperança, minha mãe me ensinou
como se enxerga à distância”. O papel das mães, nessa obra, é preponderante.
Depoimentos verídicos das senhoras Maria Deia da Costa, Josefa Maria da Silva,
Doralice Pereira dos Santos e Rita Santos, captam de forma sensível, aflições, medos,
questionamentos e esperanças que são também a de milhares de outras mães
espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.
A letra de Oito Ventos é contextualizada a partir dessas múltiplas vozes femininas
potentes em amor e resiliência. Dona Maria Deia da Costa, de 68 anos,
compartilha com o expectador a luta para manter uma casa, visto que é arrimo de
família, e a apreensão de que algo de pior acontecesse com Joberth da Costa,
seu filho: “Eu sou uma mãe muito preocupada, porque a gente cria um filho
assim, sem um pai presente é complicado. É muito difícil mesmo”; já Dona Rita Santos,
de 51 anos, mãe de Rafael e Rafela, ressalta a importância do perdão após a
decepção: “Depois de pensar onde você errou é hora de dar outra oportunidade.
Filho é sempre filho. Independente que o mundo não acredite nele”.
É
assim, de passo em passo o amor vai rasgando a grossa camada da indiferença
social e do medo e o protagonista passa a perceber que há possibilidade de
recuperação, que “a fé cicatriza as feridas”, que é possível, embora não seja
fácil, outra forma de viver: “Ame a você mesmo, sempre fique de pé, a maldade
está aí pra testar a sua fé. (...) A vitória começa a partir de agora, o que
passou, passou, o mundão tá lá fora”.
Oito Ventos revela um semblante
diferente, e pouco conhecido, da pessoa portadora de dependência química,
geralmente desumanizada pela sociedade, “um lokão no submundo”. Vislumbramos um impulso que surge impelindo-o a
buscar a vida: a parte do seu ser não adoecida. Como bem destacou o sociólogo
Zigmunt Bauman, em uma sociedade narcótica, de consumidores, onde “ninguém pode
se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria” a subjetividade está
constantemente ameaçada, mas, segundo esse pensador, já deveríamos ter aprendido que “o transe existencial humano é
incuravelmente ambivalente, que o bem está sempre combinado ao mal, que é
impossível traçar com segurança a linha entre a dose benigna e a venenosa de um
remédio para nossas imperfeições”.
A arte articula humanidades concretas, por meio dela as
determinações sociais podem ser transcendidas, o caráter da arte é
emancipatório, pois ela evoca imagens e necessidades de libertação que penetram e
tocam a profunda dimensão do nosso ser. É por isso que são bem vindas produções que adejam novos devires,
contestando a “pureza” da civilização contemporânea, criando um “barato”
diferente: o prazer estético que é gerador de uma satisfação artística
integradora. A arte se imbrica na vida, é por isso que o autor do rap que
empresta o nome ao videoclipe declara: “uma nota, uma prece, vamos para a
guerra, meu paraquedas, irmão, não tem reserva. (...) Se eu cair mil vezes, me
levanto mil e uma”.
Renata Bomfim
Poeta e arteterapeuta
Ensaio publicado no Caderno de Cultura "Pensar", do Jornal A Gazeta/ES
dia 26/12/2-15

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