No dia 06 de fevereiro de 1916, em León, na Nicarágua,
morria Rubén Darío (1867-1916), representante máximo do Modernismo
hispano-americano. Uma festa cultural com poesia, mesas redondas, apresentações
musicais e de dança celebram, em 2016, o centenário de morte do “Cisne da
América”, como também é conhecido o poeta.
Despertei para a poesia do nicaraguense Rubén Darío durante
as pesquisas de mestrado, enquanto investigava a poesia da portuguesa Florbela
Espanca. Observei que, além de Florbela, Darío marcou uma geração de poetas
hispanos e lusófonos, o seu nome figura entre os mais importantes da lírica de
língua espanhola.
A
Vanguarda hispano-americana, de 1925, e os movimentos continentais que buscaram construir uma poesia contemporânea, encontraram em
Rubén Darío o seu fundamento.
Octávio Paz defendeu o lugar central do poeta no Movimento Modernista, de forma que ele
se tornou uma espécie de
“ponto de partida ou de chegada”, um “limite a
se alcançar ou ultrapassar”. Jorge Luis Borges chamou-o de “libertador” e Federico Garcia Lorca
assinalou: “Pablo
Neruda, chileno, e eu
espanhol, coincidimos
no idioma e no grande poeta nicaragüense argentino chileno espanhol: Rubén
Darío”.
O Modernismo hispano-americano foi a resposta da América
hispânica aos processos de modernização do mundo ocidental e teve características
próprias, diferindo do Modernismo brasileiro (1922) e português (1915). Foi com
o Modernismo que a poesia hispano-americana revelou o seu primeiro traço, a sua
primeira distinção da poesia espanhola. Com a obra Azul... (1888), Darío voltou o olhar para o Simbolismo francês e para o procedimento temático e
estilístico dos chamados “poetas decadentes”. Azul... revelou a rebeldia e a inconformidade do jovem poeta com relação à rigidez linguística que ameaçava
engessar a liberdade de seus versos. Essa obra introduziu variações métricas na poesia, de forma que os versos ganharam maior musicalidade, além de trazer
á luz temas americanos, como o
poema “Caupolicán”, que narra a heroica
façanha do índio Toqui que se tornará chefe de sua tribo. Este poema é
representativo da evolução da consciência poética dariana, indicando uma
transição que se concretizará nas suas obras posteriores, entre elas Prosas profanas y otros poemas (1897) e Cantos de vida y esperanza (1905),
quando os valores hispano-americanos emergirão de forma mais contundente. Rubén
Darío foi intérprete das inquietações continentais, militando pela renovação da
língua e exigindo maior
liberdade para o labor poético. O poeta proclamou que os americanos, de idioma castelhano,
conquistaram
independência mental frente à Espanha, assim, a corrente modernista conseguiu unir
destacados grupos que cultuavam a arte cosmopolita e universal.
Ninfas, faunos, bacantes, marquesas, princesas, deusas e deuses criam uma atmosfera
mítica na obra dariana, que também é marcada pelo sincretismo religioso e por
um erotismo transcendente. Nela, vemos emergir a “selva sagrada” e “suntuosa”,
onde o amor sempre triunfa e onde os prazeres da carne e do espírito vencem os
desgostos da vida ordinária e cotidiana. O paganismo sincrético e variadas doutrinas esotéricas como o budismo, tantrismo, platonismo e pitagorismo permeiam a obra
de Darío, como mostra o poema “Ama
teu ritmo”. Nesse soneto
clássico endecassílabo é possível perceber ecos do pitagorismo, que define o número como a lei do universo. A doutrina pitagórica e
neo-pitagórica, já descrita por Plotino, foi retomada pelos modernistas, que preconizaram que o ritmo interior deveria estar harmonizado com o ritmo
celeste para que a alma pudesse penetrar na
harmonia universal: “Ama teu ritmo e ritma suas ações/ sob sua lei,
assim como teus versos;/ és um universo de universos/ e tua alma uma fonte de
canções.// Escuta a retórica divina/ do pássaro do ar e a noturna/ irradiação
geométrica adivinha”. “Moderno, audaz e cosmopolita”, assim se define o eu
lírico dariano em Cantos de vida y
esperanza.
Darío, que
em 1914 esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo preferindo palestras, se
apresentou como o poeta da
América (“Sou um filho da América e um neto da Espanha”), militando pelo destino e
identidade hispânicos. O eu lírico dariano aspirou compreender a sua natureza híbrida e fragmentária e, mediante a constatação da fragilidade
da vida, tornou-se
contemplativo. Autor de uma obra monumental que abarca poesia, contos,
crônicas, cartas e romance, Darío chega à contemporaneidade sendo apreciado
pelo público leitor e estudado por pesquisadores de todo o mundo. Em 2014
defendi, na UFES, a pesquisa de doutorado intitulada “A flor e o Cisne:
diálogos entre as poéticas de Florbela Espanca e Rubén Darío”, na qual pude
constatar a riqueza e a relevância da poesia dariana também no campo da
lusofonia. No centenário de morte do grande poeta nicaraguense, fica o nosso
desejo de que ele seja cada vez mais lido pelo público brasileiro.
Renata Bomfim

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