16/07/2010

A mulher na sociedade portuguesa: o caso de duas alentejanas: Florbela Espanca e Adelaide Cabete

O Alentejo, uma das maiores e menos habitadas regiões de Portugal, revela-se, no começo do século XX, (em meio a um grande analfabetismo feminino) com duas grandes figuras alentejanas, no meio cultural português: uma nas Letras e outra na Medicina. Na medicina nos deparamos com a figura de Adelaide de Jesus Damas Brazão (Adelaide Cabete), que nasce na freguesia de Santa Maria de Alcáçova, concelho de Elvas, a 25 de Janeiro de 1867, tornando-se uma defensora pela implantação da República Portuguesa.

Porém, sofrendo com a falta de expressão e liberdade parte para Angola, em 1929, como quem almeja à liberdade nas suas mais profundas raízes. Vale destacar que apesar das poucas condições de sua família alentejana Adelaide Cabete (apelido que herda do marido Manuel Ramos Fernandes Cabete) sempre se mostrou apta aos estudos e desenvolve, mesmo a viver na pobreza, quase como um auto-ditatismo, uma formação escolar, tornando-se uma das primeira médicas a exercer a profissão em Lisboa. Segundo Isabel Lousada , Adelaide Cabete defende que se não for possível à mulher grávida ter uma profissão menos fatigante deveria a sociedade, no mínimo, prover para que as mulheres grávidas pobres tenham repouso durante uma parte da gravidez. Esta defesa faz com quem possamos considerá-la como a pioneira na defesa pela licença de maternidade e assistência pré-natal, na esteira do combate contra a elevada taxa de mortalidade infantil. Republicana fervorosa, feminista consciente, maçónica por opção, Cabete torna-se assim uma das mulheres pioneiras em Portugal e uma alentejana que superou todas as dificuldades para construir uma carreira sólida e de grandes lutas ideológicas, vindo a morrer em pleno Estado Novo, de ataque cardíaco, em sua residência em Lisboa, no ano de 1935.
É justamente no ano de 1930, em Matosinhos, que vem morrer, possivelmente por uma dose excessiva de anti-depressivos, também outra alentejana ilustre: Florbela Espanca.
 Mas o que diferencias essas mulheres alentejanas, além da profissão, é a estabilidade emocional e amorosa. Florbela, como se sabe, nasceu em Vila Viçosa, em 1894, e desde o seu nascimento notamos, através de sua estrutura familiar, as dificuldades e tragédias que permeariam sua vida. Observada a estrutura da família e sociedade alentejana Agustina Bessa-Luís refere-se que a base desse meio parece debater-se sobre dois conceitos de duas sociedades que prevaleceram no inconsciente colectivo da região:
a sociedade céltica, baseada no domínio comum das terras, e a sociedade romana, baseada na posse de terras por um ou vários donos. Ainda que inserida numa sociedade patriarcal, a mulher desfruta duma influência manifesta dentro da lei jurídica celta. Podia escolher marido, e o próprio casamento não tinha carácter sagrado; era um simples contrato, cujas clausuras, uma vez desrespeitadas, permitiam um divorcio fácil. Era a face o que simbolizava o pudor. Actualmente, tanto no Alentejo, como no Algarve, ainda se usa a expressão «perder a cara» como significado de perder a hora. Nas mesmas províncias subsiste certa ausência de preconceitos sexuais, que nos reporta à primitiva moral celta. Hesitantes entre a monogamia e a poligamia, explica-se desse modo a sua propensão ao divórcio. Até uma espécie de casamento colectivo era consentido. Mergulhando nas profundezas dos costumes dos velhos grupos tribais, em que se inscreve possivelmente a tendência duma libido e o que nos parece a heresia duma ética, podemos ver mais claro o círculo familiar dos Espanca.
Ou seja, é exactamente este situação do pai de Florbela: João Maria Espanca, era um “Dom Juan”, e matinha com a mãe de Florbela um relacionamento amoroso, tendo como outro fruto mais um filho, Apeles Espanca (10 de Março de 1897). Este relacionamento extra-matrimonial era conhecido por sua esposa “oficial”, Mariana Inglesa, que não podia lhe dar filhos. Desta forma, Florbela foi criada passando meses com a mãe biológica (que trabalhava como empregada na casa de seu pai) e outros com o pai e a madrasta. A perfilhação só acontecerá após a morte da poetisa, e do seu irmão, em 1949.
Florbela Espanca destacou-se tanto em suas produções que até houve uma suspeita de plágio ao considerarem os seus versos cópias. Assim responde a poetisa numa carta endereçada à directora do Suplemento Modas & Bordados de O Século, Madame Carvalho: “Tenho a consciência absoluta dos versos serem meus, sim, Madame, pois que a meu ver é uma indignidade revoltante firmar, com o próprio nome, versos alheios;” Neste caso fica clara a suspeita de plágio: uma mulher poderia escrever, em Portugal, no começo do século XX, algum texto de qualidade literária?
Entre malogros na vida de Florbela sucede-se três casamentos mal fadados e ao contrário do que aparenta, o casamento para Florbela não se constituía uma leviandade. Basta lembrarmos uma das cartas da poetisa endereçadas ao seu irmão, Apeles, em 1923, na qual relata que seu segundo casamento, com o alferes da artilharia, António Guimarães, se baseava numa relação de convenção social e de muito sofrimento, por isso recusa o papel de submissão que é dado às mulheres e viola as normas sociais vigentes, desejando pela segunda vez a separação:
Eu deixei que tivesses da minha vida certeza de felicidade que ela de forma alguma possuía; nunca me ouviste uma queixa, nunca ninguém me viu uma lágrima, e no entanto a minha vida há 2 anos foi um calvário que me dá direito a ter razão e a não envergonhar de mim. Sofri todas as humilhações, suportei todas as brutalidades e grosseiras, resignei-me a viver no maior dos abandonos morais, na mais fria das indiferenças; mas um dia chegou em que eu me lembrei que a vida passava, que a minha bela e ardente mocidade se apagava, que eu estava a transformar-me na mais vulgar das mulheres, e por orgulho, e mais ainda por dignidade, olhei em frente, sem covardias nem fraquezas.
Apesar de todo o carácter repressivo e preconceituoso da sociedade portuguesa, sua dignidade enquanto mulher, que não quer se sujeitar às brutalidades do marido, e o aparecimento de um novo amor (o seu terceiro marido, o médico Mário Lage) falam mais alto e Florbela se justifica ao irmão da seguinte forma:
Pensei na sociedade, pensei na família, nas relações, nos amigos e principalmente em ti, mas que queres? Eu não podia sacrificar-me a isso tudo que é muito, mas que é nada comparado a isto que eu sinto.
Tanto Florbela Espanca, como Adelaide Cabete foram pioneiras ao enfrentar o preconceito masculino: tanto em relação ao trabalho médico, quanto em relação às produções literárias que eram quase que funções masculinas. As duas alentejanas, cada uma a seu modo, tiram o “véu” com o qual a sociedade veste a mulher, tornam-se assim mulheres activas, pensadoras, produtoras. Florbela foi mais além, ao pôr fim a três casamentos infelizes, não aceitando estar ao lado de um homem sem o amar. Pioneiras tanto na vida, como o que deixaram de herança em escritos, observamos que essas mulheres alentejanas ultrapassaram às barreiras históricas do seu tempo, projectando-se séculos à frente, como quem almeja a busca pelo infinito, pela igualdade entre os sexos, pela justiça da sociedade e pela dignidade feminina.

Referências:

LOUSADA, Isabel, Adelaide Cabete (1867-1935). Colecção fio de Ariana. N.º 6. Lisboa: Comissão para a Cidadania e Igualdade de Gênero, 2010.
SILVA, Fabio Mario da, "A mulher na sociedade portuguesa: o caso de duas alentejanas", in Diário do Sul, ano 41, n.º 11.160, Évora, 18 de março de 2010, p.6.

Fabio Mario da Silva é graduado em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru(Pernambuco), mestre em Estudos Lusófonos e doutorando em Literatura pela Universidade de Évora (Portugal). Também é pesquisador do CNPq, com um projeto intitulado "Aproximações regionais: Alentejo Português e Nordeste Brasileiro - Florbela; romanceiros e romance sergipanos", sediado na Universidade Federal de Sergipe, sob a orientação da Professora Doutora Maria Lúcia Dal Farra. É Membro do grupo de pesquisa - avaliado pela Fundação de Ciência e Tecnologia de Portugal - CEL (Centro de Estudos em Letras), pela Universidade de Évora e Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Atualmente leciona, na Universidade de Varsóvia(Polônia), como Professor Convidado, as disciplinas de Literatura Brasileira, Portuguesa e Africana em Língua Portuguesa. Com uma formação interdisciplinar vem dedicando-se também ao estudo/ensino da história da língua portuguesa e do português instrumental, bem como da pesquisa metacrítica da obra de Florbela Espanca. Atualmente aprofunda-se no estudo da teoria da poesia, da autoria feminina, da literatura africana em língua portuguesa, tendo como objetivos atuais pesquisar a literatura de cordel. É o prefaciador das obras de Florbela Espanca, Basílio da Gama, Mario de Sá-Carneiro e Bocage pela Editora Martin Claret (São Paulo), como também é responsável pelos estudos e biografias de literatura portuguesa da Editora Claret.

TEXTO ENVIADO PELO AMIGO PESQUISADOR EM HOMENAGEM AO DIA DO AMIGO

14/07/2010

Novas acadêmicas da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras/ES

Olá amigos ontem (13/07) foram eleitas três novas acadêmicas para  as cadeiras de n° 16, 39 e 40 da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras,  e tenho a felicidade de ser uma delas. As amigas e escritoras Maria Esther Tourinho  e Sônia Rita Sancio Lóra, que eram acadêmicas correspondentes, foram efetivadas e completaram o quadro. Deixo aqui o registro da minha alegria por integrar este grupo de mulheres que tanto admiro pelo trabalho que realizam produzindo e divulgando a literatura. Meu agradecimento às amigas Karina, a professora Ester, a Thelma, a Silvana, a Fernanda, enfim... grandes incentivadoras . Um agradecimento especial ao elemento masculino (que não pode faltar), a Luiz Bittencourt, esposo querido, que apoia todas as minhas idéias até mesmo as mais loucas, dedico a ele mais essa conquista! A posse será na primeira quinzena de novembro. Na foto da esquerda para a direita: Ester, eu e Soninha

10/07/2010

Terra

Amo a Terra,
 das entranhas ao infinito, 
e aos seus arabescos
conflitantes
divinamente pintados
em aquarela.

09/07/2010

A solidariedade chega aos animais flagelados do nordeste

Humanos e Animais , vítimas de uma mesma tragédia, sofrendo as mesmas dores, sentindo o mesmo frio, o mesmo medo, a mesma fome.... Mais de uma tonelada de ração animal, doada pela Mars,fabricante da marca Pedrigree e 500 doses de vacina Recombitek,doadas pela Merial já chegaram às principais áreas atingidas. Em parceria com a WSPA, entidades de proteção animal das regiões(com destaque para AADAMA) junto com as secretarias de saúdes dos estados, estão fazendo chegar até os animais vitimados, os primeiros socorros. A ajuda humanitária chega atrazada, mas chega. Muitos animais terão mais uma oportunidade de se manterem vivos e aguardarem dias melhores que certamente virão. Tragédias como essas nos levam a pensar sobre a nossa imponderável fragilidade perante uma natureza poderosa e agredida, que na verdade apenas se defende....A AMAES, relatando esses fatos para todo nosso mailing, deseja convencê-los de que nossa civilização ainda tem a chances de construir uma sociedade melhor e justa para Todas as Formas de Vida do Planeta. Temos vivos em nossas entranhas o vírus da fraternidade. E isso é alentador. Todos nós merecemos: Humanos, Animais e Natureza !!!

AMAES-ASSOCIAÇÃO AMIGOS DOS ANIMAIS DO ES
Diretoria de Comunicação
http://www.amaes.org.br/

04/07/2010

Semana de Letras da Faculdade CESV

Olá amigos internautas, parodeando Tzvetan Todorov, "eu amo a literatura porque ela me ajuda a recriar a vida". Bem, nesse encontro na CESV encontrei escritores e alunos de letras/literatura muito empenhados em repensar a literatura sob variados aspectos. Tive a alegria de ministrar uma palestra sobre a importância das narrativas na contemporaneidade, ou seja, repensar a contação de histórias no século XXI? E pude também falar do Mina, meu livro de poemas. Agradeço a Fernanda Hott (Coordenadora do curso de letras da CESV e escritora) pelo convite e espero que espaços desta natureza se abram cada vez mais.
abraços
Renata Bomfim

02/07/2010

CARTA A PILAR

Amigo internauta, este texto me foi enviado por Maria Lúcia dal Farra, amiga e crítica literária, foi escrito por Inês Pedrosa outra estudiosa da literatura. Ele é dirigido à Pilar, viúva de Saramago, e encanta tanto pelo conteúdo, quanto pela forma poética e sensivel com que foi escrito. Espero que apreciem esta maravilha.


CARTA A PILAR
Só isso se guarda: o amor e as palavras

Cariño. Na hora da morte a língua some-se-nos para falar aos vivos mais amados por aquele que acaba de morrer. Ao lado do corpo de José contavas que uma amiga te dissera: «Faltam-me as palavras: Saramago levou-mas todas». A mim sobrou-me uma palavra da tua língua: cariño. Em português esta palavra não é um vocativo, uma declaração de presença – é um sentimento abstracto, uma espécie de amor de segunda, um pedido de desculpas por não ser mais do que isso. Exageramos nos sentimentos fracos e nas desculpas, deste lado da Ibéria. Nisso, o teu José era muito espanhol, mesmo antes de te conhecer. O amor começa sempre antes.

A televisão, que desdenha a literatura, convocou um desfile de escritores para falar de Saramago. Disseram-se coisas belas e verdadeiras: que este escritor recuperou o barroco do Padre António Vieira de uma forma moderna, em alegorias transbordantes de imaginação, instigando o desassessego do pensamento. Mas estas coisas belas eram sempre interrompidas pela pequena história da politiquice e da beatice: o sub-secretário que entendeu vetar um livro do Escritor para um prémio, escandalizado com o seu Cristo demasiado humano. Que interessa a sub-pessoa diante da grandeza da obra? Que interessa a aflição das hierarquias do poder terreno da Igreja – penoso, vergonhoso, o texto do jornal oficial do Vaticano sobre o Nobel português, nesta hora que pedia respeito e compaixão - diante do entusiasmo divino com que milhares de católicos leram O Evangelho Segundo Jseus Cristo e Caim? Que interessa a mesquinhice humana na hora da morte do criador de Ensaio Sobre a Cegueira? Que importa o lugar onde hão-de ficar as cinzas? Os grandes escritores não se desfazem em cinzas, é isso que os pequenos poderes não lhes perdoam: o facto de serem imortais, e de continuarem a apontar-lhes o dedo e a desmanchar-lhes as poses, página a página, palavra a palavra.

José Saramago não tinha medo das palavras. Foi através delas que, como leitor, se fez homem, e depois – muito depois – como escritor, se fez livre. Creio que o facto de morar parte do tempo em Espanha, por amor a ti, o ajudou a ser cada vez mais livre. Mais do que isso: tenho a certeza de que o amor que viveu contigo, em ti, por ti, o tornou mais livre. Via-se nos olhos dele. Via-se que te amava com orgulho e admiração pelo teu percurso humano e jornalístico, pela solidez e autonomia da tua voz – porque tu, Pilar, nunca foste a mulher-sombra. Nem ele, honra lhe seja, alguma vez gostou de mulheres assim. Por isso as mulheres dos seus livros vivem entre nós como heroínas que nos incitam nos momentos de fraqueza – enérgicas, lúcidas, luminosas, buscadoras incansáveis da justiça e da alegria. Admiravas o escritor, correste para Lisboa ao seu encontro depois de leres essa elegia à cidade de Pessoa que é O Ano da Morte de Ricardo Reis. Olharam-se e ficaram um do outro, de imediato e para sempre. Esse vosso romance – que acenderia, de muitas maneiras e através de variados enredos, muitos livros de Saramago – tem-me servido de sol de recurso através dos variados temporais da existência. A própria biografia de Saramago, em particular o seu trajecto de escritor - tardio, lento e feliz – é uma lição e um exemplo, em tempos de pressas sôfregas e génios quinzenais.

Lembro-me desse momento fulgurante em que o Nobel foi anunciado, lá na Feira de Frankfurt – lembro-me das lágrimas de felicidade de Lídia Jorge, abraçando-me. Lembro-me de Agustina pedir lagosta e champanhe para comemorar esse Nobel – Agustina sobre a qual, como tu recordaste publicamente, Saramago escrevera páginas de louvor na Seara Nova, nos idos de sessenta, quando era politicamente incorrecto dizer que ela era uma escritora de génio. Lembro-me da forma como José partilhou o Nobel, dizendo-se herdeiro de uma tradição de grande Literatura e mencionando vários outros nomes de escritores de língua portuguesa seus contemporâneos que o mereceriam. Ele continuará a existir em ti, porque o amor tem o dom de permanecer debaixo da pele e no brilho dos olhos de quem o guarda. Só isso se guarda: o amor e as palavras. A coragem de os viver por inteiro. O amor e as palavras exigem coragem, cariño. Tu sempre o soubeste, como ele.

Inês Pedrosa

01/07/2010

O Evangélio segundo Saramago e Portugal e Saramago

Se o Paraíso for aquele Spa eterno que os seus promotores divulgam, os escritores ateus estarão entre os seus primeiros condóminos – não só pelo inferno que já viveram na Terra por causa dos céus alheios  (Salman Rushdie que o diga) mas também porque não podem, honestamente, confessar-se pecadores. Prevaricadores, insubmissos, revoltados, enganados, equivocados – talvez. Mas nunca pecadores. Sendo o pecado um filho subjectivo da culpa, a culpa uma filha objectiva do verbo pecar, necessitando os verbos de sujeito para se poderem conjugar, aqueles que não se tenham sentido jamais sujeitos do verbo pecar podem declarar-se, em verdade e consciência, livres de pecados na fronteira do Céu – até porque não acreditam nele. Nesse Paraíso possível, José Saramago será condecorado com a medalha de mérito S.Tomé: escrever para crer. Além do avassalador Evangelho Segundo Jesus Cristo e do fulminante Caim, Saramago publicou duas excelentes peças de teatro, hoje muito esquecidas, em torno do tema religioso : A Segunda Vida de Francisco de Assis (Caminho, 1987) e In Nomine Dei (Caminho, 1993).

A primeira destas peças é uma parábola: Francisco funda uma Companhia e lança-se ao mundo, pregando o despojamento. Quando regressa encontra donos em vez de companheiros e uma empresa ferozmente rica no lugar da pobre Companhia. In Nomine Dei anuncia grande tema do início do milénio: o fanatismo religioso. Desta vez, o escritor preferiu recorrer à força metafórica do documental: reconstituiu teatralmente a guerra santa que dizimou a cidade de Münster, na Alemanha, entre 1532 e 1535. O texto demonstra-nos como o Deus Uno pode escaqueirar-se e servir de pretexto à vontade de matar oculta sobre a vontade de poder.

Ateu? Exactamente, com a dor do cruel a – prefixo de negação, instaurador de um sentimento de inacessibilidade – que afasta o arroubo dessa desistência de ser: teu. Os verdadeiros ateus não se proclamam nem se dão ao trabalho de buscar nos olhos dos homens reflexos de céu. Em José Saramago - Entre a História e a Ficção: Uma Saga de Portugueses (Dom Quixote, 1989) Teresa Cristina Cerdeira da Silva anotava que o narrador de Memorial de Convento « não desacredita em milagres, mas são, esses, milagres do homem, e não de Deus.» Todavia, Blimunda via através dos corpos e depois Joana Carda riscou o chão e a terra fendeu-se. Amén.

Em verdade vos digo que Saramago foi – com Vergílio Ferreira, embora por caminhos opostos – o interlocutor literário de Deus no Portugal contemporâneo. Ambos colocaram no centro do seu altar reflexivo as relações do homem com Deus, ou com a sua divina ausência. Não se trata aqui de recordar o postulado romântico segundo o qual a escrita é sempre uma forma de religião. De muitos pecados poderá ter sido José Saramago acusado ( embora acusar, como o próprio Saramago repetidas vezes nos lembrou, seja um acto indigno de cristãos), mas nunca de perfilhar os princípios do romantismo. Os românticos desenham o passado como um mito côncavo onde moram. Saramago era marxista: sabia que a matéria se transforma para sobreviver, que é preciso destruir as correntes da antiquíssima morte que fabrica o presente para criar o fim da História. Saramago era feminista, como acabam sempre por ficar os seres humanos inteligentes depois de lerem a Bíblia com atenção. Elas estão-lhe antes do Verbo, nesse silêncio de liberdade absoluta onde os livros insolentemente principiam. Elas representam sempre a margem da ordem estabelecida; esquecidas pela acção dos homens, tornaram-se guardiãs da inutilidade que é a única balança fiel no pesar de pensamentos e justiças. Não se trata, nunca, em José Saramago, de considerar as mulheres como seres biologicamente programados para a Ética, a Intuição, as Rendas & Bordados e os Grandes Valores. Trata-se sempre de parar o olhar sobre o que resiste ao tempo, o que a velocidade da História esconde. E de verificar, através do simples método intelectual do bom senso, que o poder é o mais eficaz corrosivo. É só por isso que as almas em bom estado de conservação, nos seus livros, pertencem quase sempre a mulheres. Sem paternalismos, graças a Deus.

PORTUGAL E SARAMAGO

A língua é a única pátria que um escritor digno desse nome pode reconhecer como sua – Saramago pertence à Língua Portuguesa, é essa a sua terra. Terra que, aliás, nunca abandonou; mantinha uma casa no centro de Lisboa, onde estava muitas vezes; ainda há meses ali conversei com ele e com Pilar, a sua mulher, que o Escritor amava com esse amor raro e imorredoiro, que é o que inclui a profunda admiração. O encontro com Pilar – fulgurante encontro, que se seguiu à publicação de O Ano da Morte de Ricardo Reis – tornou-o também espanhol, é certo, porque amar alguém é deixarmos que nos entre na pele e no sentimento a inteligência singular dessa outra pessoa, o seu modo de estar no mundo, a sua língua. Muitas vezes Espanha acolheu Saramago melhor do que Portugal. O provérbio que diz: «ninguém é profeta na sua terra» nasceu precisamente dessa sombra perversa que o patriotismo gera, uma espécie de nuvem de afronta, ressentimento e complexo de inferioridade que o génio, por si só, provoca.

Saramago, ainda por cima, fazia de facto sombra, porque não era um escritor ensimesmado, alheado do mundo que o rodeava. Diz-se que foi por causa de O Evangelho Segundo Jesus Cristo vetado para um Prémio Europeu por uma sub-pessoa

( as pessoas censurantes nunca são pessoas inteiras) que fazia de sub-secretário de Estado da Cultura que Saramago se zangou com Portugal. Mas isto é falso: José Saramago nunca confundiu o país com os seus mandaretes, coisa que os mandaretes, aliás, fossem de que cor política fossem, nunca lhe perdoaram. Os políticos estão sempre inchados de si mesmos e dos seus interesses e Saramago sabia-o bem. Por isso nunca se deixou utilizar, nem calar. Dizia o que pensava e pensava com uma liberdade cada vez mais ampla. Os seus romances provam-no. Nos livros que devorou, como autodidacta puro, na juventude, o Escritor aprendeu a conhecer-se e a tornar-se Escritor. Nos livros que escreveu, já homem maduro, aprendeu a conhecer o mundo e a libertar-se de si mesmo e dos limites das suas próprias ideias. Nenhum país aguenta a liberdade dos artistas que gera, quando essa liberdade é inteira – há-de sempre tentar domá-los, domesticá-los, encolhê-los à dimensão das suas fronteiras.

Em Espanha, dizem-me, Saramago era felicitado nas ruas, uma pop-star. Em Portugal não temos o hábito de abordar as estrelas quando nos cruzamos com elas – em grande parte por pudor, o que nos fica bem. A outra parte é feita de inveja e despeito, o que nos fica muito mal. Mas durante a última década, ano a ano, eu vi Saramago receber banhos de multidão na Feira do Livro de Lisboa - para desgosto de outros colegas de letras, muito pouco camaradas, mas isso é igual em todas as geografias. Nunca faltava às Feiras do Livro portuguesas, como nunca deixou de ir onde o chamavam, de Norte a Sul do país, para debater o que quer que fosse com quem quer que fosse. Nunca se recusou a debater os seus livros ditos «polémicos» em termos religiosos com católicos ou padres. E o povo portufuês gosta de quem é frontal e não se furta ao diálogo. Uma mulher anónima que esperava a chegada do seu caixão dizia: «Ainda não li nenhum livro dele, porque me dizem que são difíceis e eu tenho poucas letras, mas era um homem que não tinha medo de pensar sozinho, e isso a mim faz-me bem». A mim também.

Inês Pedrosa
Meus agradecimentos à Maria Lúcia Dal Farra por compartilhar este material precioso

29/06/2010

Cadê o uru?

Cadê o uru ?
sumiu,
caçador pegou,
ninguém viu,
e se viu,
não se importou.
E o peixe-boi?
Desse, só lembranças,
Vi um, dias desse, em um livro.
Morreu, certamente,
para aumentar alguma pança.
E o corocoró?
Nem có, có e nem piu, piu
sumiu também.
Deve estar empalhado
em algum canto da sala de ciências.
E a Cutia, o papagaio-moleiro,
o sagui-da-serra, o guigó,
o macaco-prego, o caititu e o catatau?
Se escondendo por aí, talvez,
em buracos e fendas
de sítios e fazendas pois,
terra sem dona não há.
Rezam, cada um na sua língua,
ensaiando sobreviver
mas, sabem que o caçador
logo vai chegar.

renatabomfim

Oração

Jesus Cósmico,
fonte de misercórdia,
nos ajude a trilhar
o caminho do teu amor.
Desperta os nossos sentidos
para a beleza, abre nossos ouvidos
para teus discípulos:
as árvore e os animais:
emissários divinos que
assassinamos com crueldade,
assim como fizemos contigo,
quando estavas encarnado.
Quebra as certezas arrogantes
nos ensina a desaprender
para que possamos mudar e romper
as barreiras do ódio e da indiferença.
Reaviva a fé em nós mesmos
e a esperança de que podemos
ser e fazer diferente.

renatabomfim

23/06/2010

A Educação pela pedra, de João Cabral de Melo Neto e a engenharia das palavras

João Cabral de Melo Neto é Pernambucano e nasceu em 1920. Parente de do poeta Manuel Bandeira e de Gilberto Freire, o poeta passou a infãncia nos engenhos de açúcar da família, mudando-se para Recife em 1930. Dão forma à sua obra  poética imagens características do sertão e de sua vivência no engenho: os retirantes, a cana de açúcar, as paisagens secas, animais e pessoas, experiências que  foram acrescidas com o seu trabalho como diplomata e por suas amizades. A educação pela pedra, foi publicado em 1965 e apresenta um rigor estético marcado pelas rimas tonantes, bem como como pela  regularidade dos traços visuais. São 48 poemas divididos em 4 partes , cada uma dessas partes com 12 poemas. A arqueitetura dessa obra reflete o seu planejamento, alguns poemas desdobram-se em outros, revelando contradições, como por exemplo, os poemas O mar e o canavial, e O canavial e o mar. JCMN dividiu-se entre o sertão e a cidade Espanhola de Sevilha, que adotou e cantou em muitos poemas. Os poemas Coisas de cabeceira, Recife e Coisas de cabeceira, Sevilha, há a poetização da vida a partir de objetos que dão forma a guardados da memória, ou seja, a própria memória torna-se responsável por organizar tais objetos para que não se percam e resistam à corrosão do tempo. O crítico Antônio Cândido destaca que "a poesia nasce de uma determinada realidade social". Assim, percebemos que o fazer poético de Cabral está intimamente ligado á memória. O símbolo pedra vincula-se a esta resistência ao tempo que é, também, uma obcessão para o poeta, que as reune para criar formas como em uma construção. JCMN estabelceu variados diálogos, tanto com profissionais do campo das letras, quanto de outras áreas, entre eles: Carlos Drummond Andrade. O poeta repudiava a música como modelo para a construção da linguagem e Drummond, com seu verso seco e contido, lhe abriu novos horizontes dentro da poesia. Murilo Mendes foi outra referência importante, com ele Cabral aprendeu o valor e o poder das imagens, optou pelo plástico ao invés da música, mas o poeta não se deixou levar pelo estado emocional, para ele o fazer poético não se submetia à inspiração e sim à construção sistemática. O rigor de mallarmé auxiliou Cabral na construção de uma linguagem organizada , bem como o construtivismo de Pablo Picasso e obra de Juan Miró, seu amigo pessoal. para JCMN "o poema é escrito pelo olho crítico", o que obriga o leitor de sua obra a racionalizar, o que o tira da condição passiva. O crítico José Catello diz que "JCMN soube herdar influências, mas soube com a mesma facilidade as jogar fora". O poeta possui um estilo único e próprio que pode ser observado na obra A educação pela pedra. Esta é tratada como anti-poesia (anti-lira), e mostra a maturidade do poeta e suas experimentações poéticas, obra marca o rompimento deste com o romantismo e o comprometimento com a arquitetura do poema. O poema Catar feijões, por exemplo, utiliza advérbios (ora, pois, certo) e construções para estruturar o texto. O poeta também utiliza como ferramentasno construto poético as aliterações, ou seja, a utilização de sons semelhantes, para dar ritmo ao poema e fugir da necessidade da musicalidade, um exemplo é o poema Tecendo a manhã. No campo do poema as palavras não se esgotam, elas vão sendo redefinidas e o texto ganha novos contornos, remetendo a outros textos. As palavras são dados concretos a serem trabalhados pelo leitor em um procedimento que se chama permutação: O canavial e o mar, O mar e o canavial. cabral rompeu com o mito da inspiração romantica, a poesia deixa de ser escrava do sentimento do poeta, tornando-se matéria prima que se submete a sua organização e ao rigor da sua construção.
Renata Bomfim
Doutoranda em letras-Ufes