18/06/2025

O uirapuru canta, mas quem estará disposto a escutá-lo? Carta para irmã Cleusa Carolina Rody Coelho

 


Marechal Floriano, ES, 19 de fevereiro de 2021.

 

Querida Irmã Cleusa Carolina Rody,

Que a paz de Deus esteja com a Senhora. Aqui do vale de provas e expiações, onde me encontro, elevo os olhos até o horizonte e vejo uma luz tênue e difusa. O coração entoa uma prece ao altíssimo e uma onda de calor inunda o meu corpo. Estranho amor esse que grita ansioso dentro de mim fazendo vibrar as entranhas. Que contradição ser bruta, ácida e ansiar a brandura e pureza do lírio. Talvez, haja pureza dentro de mim, talvez sejamos todos puros quando nos colocamos sob os cuidados do amor: amor-tempo, Irmã.

Escrevo para que saiba que sempre é lembrada com carinho por aqui, na terrinha, especialmente pela sua amiga próxima no trabalho do bem, a irmã Maria Josefina. A comunidade que leva o seu nome, segue firme e é interessante que o bairro onde ela se encontra se chame Padre José de Anchieta II. Anchieta foi canonizado pelo Vaticano em 2014, e a senhora, em processo de canonização, poderá se tornar a primeira santa capixaba. Interessante, também, a ligação da Senhora e de São José de Anchieta com o Espírito Santo, refiro--me, nesse caso, ao Estado, e às artes. São José de Anchieta fez for- mação em Letras, em Portugal, antes de vir para o Brasil, ele era um conhecedor do teatro de Gil Vicente. Chegando por aqui, tornou-se dramaturgo, gramático e poeta. A Senhora também tinha inclinação para as letras, pois cursou Letras-alemão na Universidade Federal do Espírito Santo e, fluente em espanhol, inglês, francês italiano e alemão, ajudou a muitos, sobretudo, aos estrangeiros, muitos deles imigrantes sem família, totalmente desassistidos. Conversei com o Wanderli e ele disse que os membros da Paróquia estão bem, seguem driblando a crise com e trabalho duro. Irmã Cleusa, preciso dizer que uma pandemia terrível assola o mundo neste momento e que aqui no nosso Espírito Santo, assim como em todo Brasil, é grande a dor e o desespero de quem perdeu amigos e familiares. À reboque nesta tragédia sanitária, vem a crise política e social, desemprego e desesperança. Mas a caridade tem brotado e se fortalecido, e aquele(a) que pode ajudar ampara os irmãos mais necessitados. Sim, o cenário é de crise, a devastação ambiental ameaça biomas inteiros, sob os olhares complacentes e criminosos dos poderosos. As comunidades buscam se fortalecer e fazem frente a esse horror, especialmente as comunidades tradicionais e os índigenas apurinãs que a Senhora tanto amou. Irmã, o ser humano esqueceu que é feito de terra, que é húmus e agride a Mãe Natureza de forma vil e inconsequente, parece que perdeu endereço de si mesmo, ele viola a sua pátria interior, devastando o seu mundo íntimo. É o medo, camuflado sob a máscara do ódio, que cega as pessoas para a verdade: somos interdependentes!

Lembro ainda, na minha memória de artista, do dia em que um grupo de homens desgarrados chegou à Capitania do Espírito Santo, vi nos seus olhos a mesma fome que devorava as entranhas dos colonizadores dos paraísos, onde o tempo não existia. Chegaram alterados, buscando riquezas e interpretaram a nudez do índio da pior maneira, julgaram que eles eram pobres e desprovidos de tudo. Que arrogância, não é, irmã? E esse menosprezo transformou-se em desrespeito e eles passaram a cometer variados tipos de atrocidades e violações. Um salto temporal me traz de volta ao século XXI, parece que foram apenas alguns dias, pois pouco mudou. Falo ao teu espírito-memória, Irmã Cleusa Carolina, como uma amiga muito próxima fala à outra amiga. Busco forças para vencer o destino e me afirmar humanamente, vivendo na poesia. Conhecestes bem a indiferença produtora de marginais e miseráveis da sociedade, é inacreditável que, nessa terra fértil e ensolarada, quase sempre é noite para aquele que passa fome, e que as estrelas ameacem despencar sobre a cabeça dos desvalidos do mundo. A vergonha foi expulsa do seio da sociedade, vive-se como se nada disso acontecesse. Como transformar a revolta em amor-ação? Jesus, o nosso mestre e guia querido, trouxe-nos a lei do amor e pediu que fizéssemos da vida um ato de devoção ao próximo.

Um dia desses tive um sonho. Uma criança brincava correndo por ruas esburacadas e sem calçamento. A despeito dos buracos, ela sorria exibindo o seu vestido de flores amarelas. Assim que acordei, o primeiro impulso foi pedir a Deus que aquela menininha nunca deixasse de sorrir e que a violência e o preconceito não a alcançassem. São tantas meninas e meninos por este Brasil que necessitam de cuidado, de proteção, pão, lar, amor, são os filhos do calvário. A Senhora foi acusada de “acobertar trombadinhas”, quando passou a levar para casa várias crianças que dormiam nas praças. À noite, dignamente acomodadas, elas tomavam sopa quentinha e estou certa de que algo dentro delas se refazia, assim como sinto algo se refazendo dentro de mim, enquanto teço estas linhas.

Sabe, Irmã Cleusa, eu amo gatos. Tive 50 gatos quando morei no morro da Boa Vista. Na verdade, eu tinha seis gatos, mas a notícia de que tinha uma “mulher doida” que amava gatos fez o morro famoso e, literalmente, passou a chover gatos no meu quintal. Por vezes, eles jogavam os gatos por cima do muro, noutros momentos, deixavam eles em caixas no portão, e assim foi, até que completei 50 gatos. Eu, que me restabelecia de um acidente automobilístico, nem tinha tempo de sentir dor e, entre as sessões de fisioterapia, encontrava um jeito de castrar, alimentar, fazer a limpeza do ambiente, essa rotina durou cerca de um ano. Decorrido esse tempo, precisei mudar para um apartamento, mas consegui encaminhar cada um dos gatinhos para a adoção, ficando com os seis gatos que tinha originalmente. Lembro dessa história porque quando amamos, por vezes, somos considerados loucos e nos sobrevêm responsabilidades que, às vezes, não deveriam ser apenas nossas. A Senhora amou os irmãos indígenas de uma forma intensa, ao ponto de envolver-se irremediavelmente com os seus dilemas, muitos deles seculares como a opressão do mais forte sobre o mais fraco. Quando foste para Lábrea, conhecias o tamanho do desafio, a pressão que os latifundiários exerciam sobre a floresta e sobre as populações originárias era de um furor assassino. Mas fostes.

Fecho os olhos e imagino a beleza do pedaço de chão amazônico, único no mundo, com floresta densa, igarapés, lagos. Lutar pelo índígena e pela floresta contra o desmatamento e o extrativismo predatório fizeram da Senhora uma pessoa mal vista por ali. O seu esforço foi contínuo e a sua entrega, até o momento final, foi marcada pela coragem. Sinto, Irmã, um calafrio e o mover das entranhas quando imagino aqueles momentos assombrosos, terríveis, mas sei que nunca estivestes só, o Altíssimo lhe cobria com as suas asas. E hoje compreendo que algumas almas possuem a capacidade de se entregar de forma ilimitada a um ideal e essas almas nos inspiram, então buscamos ser melhores e mais justos: a humanidade é construção e conquista. Bem, voltando aos felinos, antes dos 50 gatos, eu defendia os animais da temível carrocinha. Quando a carretinha da morte passava pelo bairro, eu dava um jeito para que ela não encontrasse os cães de rua, e quando eram pegos, eu me dirigia à zoonose para resgatá-los e para que não fossem sacrificados. Passados alguns anos, esses cuidados se estenderam para os animais silvestres, e hoje eu e o Luiz cuidamos de muitos animais da floresta, especialmente dos macacos-prego-de-crista e às abelhas Uruçu Capixaba, endêmica e ameaçadas de extinção. Aos gatos e cachorros se juntaram os macacos, as abelhas e pássaros, tatus, jacupembas, lagartos, um mundo de vida e de luz que faz parte da Mata Atlântica. O que faço é nada, uma gotinha no oceano, mas aquece o meu coração essa ação miúda. Não se trata de seres humanos, são animais, mas eles estão sujeitos à opressão semelhante àquela sofrida pelos nossos irmãos indígenas: a perda de seus lares, familiares, da liberdade e, muitas vezes, da própria vida. Eles são retirados do convívio familiar na mata, caçados, mortos, vendidos, explorados e essa violência é silenciosa, pois, para muitos, eles não importam, “são apenas animais”. Mas, para mim, eles são tudo, são os filhos que não gerei. São os meus filhos! É surpreendente a incapacidade humana de lidar com paradoxos e antinomias. É fato que, ainda hoje, matam e morrem pela terra, mas Gaia não pertence a ninguém, ela pertence a todos os seres, vive-se como se a morte não existisse. Acredito que a finitude é o maior segredo da humanidade a ser descoberto. O indivíduo sabe que a morte virá um dia, mas pensa que não virá para ele e, assim, passa a vida construindo castelos para se isolar, cercado de luxo, explora o (des)semelhante, pois julga-se no direito, por acreditar-se esse ser acima da lei da vida, ou seja, não sujeito à morte. Mas esse indivíduo, um dia, descobrirá que os anos passaram e que ele é o mais pobre entre os pobres, pois possui apenas muito dinheiro. Irmã Cleusa, Jesus alertou para isso, ele pediu que não ajuntássemos “tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam”. Quando seremos capazes de compartilhar os nossos tesouros de amor e de solidariedade? A Mata Atlântica é um bioma que resiste mais de cinco séculos à destruição sistematizada e contínua, mas o pouco que resta dele precisa ser preservado, a pressão é muita. Cantam por aqui os sabiás, saíras das mais variadas cores, tucanos e um passarinho especial entre muitos, o meu Trica-ferro. Dizem que ao serem aprisionados, muitos pássaros entram em processo depressivo, é sabido que suas asas atrofiam, acredito que pássaro na gaiola, canta é de desgosto. Durante esses anos, pude observar que os pássaros que chegam para serem soltos na Reserva Natural Reluz levam um tempo para se adaptarem à liberdade, ensaiam pequenos voos e, somente depois de um tempo, entram para mais longe na mata. Deve doer sustentar por muito tempo o voo após anos de paralisação forçada, então, eles passam um tempo experimentando a si mesmos. É lindo ver como eles ficam batendo as asinhas no galho, como fazem os filhotes que estão aprendendo a voar. Nós somos assim também, precisamos abandonar gaiolas como o egoísmo e a ganância e experimentar as asas da liberdade que Deus nos deu. Irmã Cleusa, a Senhora viveu na Amazônia e, pertinho do Rio Purus, os seus olhos se fecharam para esta vida. A Amazônia nos permite vislumbrar o paraíso. Árvores centenárias elevam seus galhos para o céu, como se fossem braços buscando alcançar a eternidade. É milagroso ouvir a melodia que atravessa esse rincão verde- escuro, sentir o perfume das flores mais exclusivas. O uirapuru potente lança o seu grito e não podemos ignorá-lo, o seu grito deve ser o nosso grito! Há 36 anos, a Senhora foi assassinada brutalmente, mas o seu martírio e morte lançam luz sobre a necessidade de que continuemos lutando pela vida, pela democracia, pelo direito de existência do próximo, seja ele humano ou animal. Infelizmente, a desigualdade persiste, muitos irmãos e irmãs se esgueiram pelos becos do craque, vagam como zumbis em busca de uma palavra de amor, de aceitação. Tornamo-nos uma sociedade narcótica e alienada, a percepção da realidade está comprometida e pessoas imaginando que, com armas, promoverão a paz. Aqui na Ilha, o vazio fez da Ponte um trampolim, e das estradas, corredores da morte.

A Senhora deixou um legado de amor na Missão da Prelazia de Lábrea, testemunhamos o poder da simplicidade e de um coração que se entrega sem esperar receber nada em troca: pobres, presidiários, ribeirinhos indígenas, os mais vulneráveis e sofridos da sociedade encontraram, e ainda encontram, forças no seu exemplo de fé.

Um dia era o teu aniversário e pediste a Deus, como presente, que pudesses se doar ao mundo, que pudesses “te comprometer com o índio, o mais pobre, desprezado, explorado”, Deus lhe concedeu a graça desejada, desejos de luz. O pássaro mágico continua cantando, convidando todos e todas para as bodas do Cristo Cósmico. A vida verdadeira se reconhece humanamente falível, mas se fortalece no coletivo.

Irmã Cleusa, tenho bordado: flores, pássaros, pessoas, besouros, casinhas, rios, acredito que seja possível reconstruir o mundo por meio do bordado. A irmã Maria Josefina também borda, e sinto que, juntas, bordamos uma saudade incrível da senhora, do seu sorriso e da energia de amor que emanava do seu coração e contagiava a todos que estavam ao seu redor. Bordamos celebrando a vida. Deus permitiu que estivéssemos aqui, nesse momento, pelo seu amor e pela sua misericórdia, e não precisamos fazer mais nada além de amar. Bem, a senhora soube amar plenamente, mas eu sou, ainda, uma aprendiz.

Daqui onde estou, vale de provas e expiações, os meus olhos de poeta enxergam para além do sofrimento, vejo um horizonte de paz. Sim, ódio, miséria e dor, mas a esperança se renova a cada dia e lutamos e lutaremos contra o ódio e o egoísmo com as armas do amor: fé, perseverança e caridade.

Que a paz de Deus esteja com a Senhora, irmã querida.

O meu coração entoa uma prece ao altíssimo, grata pela vida. Amém!


Renata Bomfim

O uirapuru canta, mas quem estará disposto a escutá-lo? Carta para irmã Cleusa Carolina Rody Coelho. Texto da poeta e ambientalista capixaba Renata Bomfim. Originalmente publicado no livro Cartas femininas: por uma escrita afetiva.

ISBN: 978-85- 7772-550-2.

22/05/2025

REPRESENTAÇÕES DO FEMININO NA POESIA DE RENATA BOMFIM: UM OLHAR SOBRE O EROTISMO CONSTRUÍDO POR AUTORAS MULHERES (por Júlia Bragatto Grobério e Andressa Zoi Nathanailidis)

 


Gratidão a estudante de letras Júlia Bragatto Grobério e a professora Andressa Zoi Nathanailidis, da  Universidade Federal do Espírito Santo, pelo estudo que fizeram dos meus poemas. Lançaram um olhar sensível e arguto para O Coração da Medusa.

Renata Bomfim

26/04/2025

COLÓQUIO DAS ÁRVORES: ENTRE O LIRISMO E A TERRA, a voz visceral de Renata Bomfim ( por Francis Kurkievicz)



Se as palavras são a minha única posse,
Farei com elas o que ninguém mais pode:
Milagres.
Renata Bomfim

Renata Bomfim emerge no Colóquio das Árvores (Chiado Editora, 2015 – Coleção Prazeres Poéticos) como um poeta que não apenas escreve, mas vive a poesia como um ato de resistência, um grito que brota da terra e se eleva aos céus. Capixaba de Vitória, nascida em 21 de novembro [Dia de Nossa Senhora da Saúde] de 1972, ela carrega em sua escrita a herança de uma ilha beijada pelo Atlântico e a sensibilidade de quem fez das árvores não apenas musas, mas aliadas numa luta por um mundo mais vivo, mais autêntico, feminal. Publicado em sua primeira edição em setembro de 2015, este livro é um marco em sua trajetória — um coro polifônico onde a natureza, o feminino e a utopia se entrelaçam numa dança sagrada, como bem apontado por Ana Luísa Vilela no prefácio e Pedro Sevylla de Juana no posfácio.

Dividido em cinco movimentos — “O Grito da Rosa”, “Colóquio das Árvores”, “O Cisne e a Flor”, “Cantos de Vida e de Esperança” e “Hortinha Poética” —, o livro é um organismo vivo, cujas, cerca de cem poemas, pulsam com uma energia que transcende o papel, a tinta e a leitura. Renata, doutora em Letras pela UFES e pesquisadora das vozes de Florbela Espanca e Rubén Darío, não se limita a dialogar com a tradição literária; ela a reinventa, enraizando-a num imaginário visceralmente brasileiro, com cores capixabas. As árvores, símbolo central da obra, não são meras figuras decorativas: são interlocutoras de um colóquio ancestral, como sugere a epígrafe de Darío, que exalta a “selva sagrada” como fonte de vida capaz de vencer o destino. Em poemas como “Brasil” e “A Tupiniquim que me habita”, o poeta canta a terra capixaba e a memória coletiva de um povo que resiste à usura do tempo, fundindo raiz e voo, origem e devir.

A potência lírica de Renata reside em sua capacidade de transformar o concreto em sublime, o cotidiano em epifania. Em “O Grito da Rosa”, sob a tutela de Sylvia Plath e do evangelho de Lucas, ela clama contra a indiferença: “Eu te incomodo, sim! / Te arrasto da zona de conforto, / É por amor!”. Aqui, a rosa não é apenas beleza frágil, mas um grito que rasga o silêncio, um espinho que fere para despertar. Já em “Bífida”, dedicado a Ferreira Gullar, a língua do poeta se bifurca, querendo “explicar o mundo” e “religar com firmeza / Tudo o que se rompeu”. É uma poesia sem pose, como nota Vilela, coloquial e íntima, que transmuta a dor em beleza com um “gáudio feroz” e uma jovialidade irônica, muitas vezes escarninha, mas sempre terna.

O simbolismo ecológico atravessa a obra como um fio verdejante. As árvores — pau-brasil, jacarandá, anil — são mais que metáforas; são protagonistas de uma redenção telúrica. Em “Terra de Santa Cruz”, Renata mergulha e voa, sintetizando uma cosmogonia que renova o espírito ancestral brasileiro: “os gestos simétricos da poeta / — o voo e o mergulho — / sintetizam uma cosmogonia”. Essa conexão visceral com a natureza reflete sua vida fora das páginas: desde 2005, ela mantém a Reserva Natural Reluz, em Marechal Floriano, onde planta árvores e preserva a biodiversidade, um ato concreto que ecoa nos versos de “A transubstanciação do vegetal”: “Deixo de ser eu mesma para me tornar outras coisas. / Coisas com aura e prenhes de inéditos”. Aqui, a ingestão de brócolis, cenoura e bebida é um ritual místico, uma refeição com o sagrado orgânico.

A militância ecológica de Renata não é acessório, mas cerne de sua poética, uma poética ativa. Vegana condenada, ela subverte até o imaginário gótico em “Vampiro vegano”, um monstruoso que “invadirá quitandas e hortifrutis / em busca de clorofila”, preferindo “os orgânicos e os sem-conservantes”. É um humor ácido que desmonta convenções e exalta a vida não-humana, como nos poemas dedicados aos gatos — Elvis, Joaninha —, totens de afeto que habitam sua “comunidade de amigos”. Em “Todo gato”, a frase: “Todo gato é zen e / Oportunidade de amor ilimitado / Para um ser humano”. Essa ternura pelos seres vivos dialoga com sua atuação como arteterapeuta e fundadora do Rosa Rubra e do Espaço Terapêutico Arte (ESTARTE), onde a criação se entrelaça com a cura e a consciência ambiental.

A feminilidade insurgente é outro pilar desta obra singular. Em “Identidade X”, Renata desafia rótulos — “Querem saber se sou feminista, / Marxista, / Crente, / ou Pagã” — e reivindica uma deficiência que é “carnal e transcendente”. Figuras como Joana d'Arc, Salomé e a Viúva Negra são resgatadas em versos que celebram o poder e a ambiguidade do feminino, enquanto “Fogo” reescreve a história: “A MULHER descobriu o fogo. / Um dia, O HOMEM teve uma ideia / Maldita: / Queimar as mulheres”. Um poeta não apenas denuncia; ela redime, transformando cinzas em flores, como faz Joana ao “colher flores” num futuro utópico.

Colóquio das Árvores é, enfim, um convite à ação e à contemplação. Sevylla de Juana, no seu posfácio, o define como “impossível e necessário”, um livro de Renata, “leona que ronronea como gatita”, morde e beija, sangra e balsamiza. É uma obra que não tolera a indiferença, que exige do leitor um mergulho na “selva sagrada” da existência. Para além de sua erudição — evidente nas referências a Blanchot, Darío e Florbela —, há uma simplicidade radical, um apelo à alegria nas coisas mínimas, como o chá entre amigos ou o irmão de heras em “Erosão”. Renata Bomfim não apenas escreve poesia; ela planta sentimentos, literal e metaforicamente, num mundo sedento por sentido.

*Francis Kurkievicz é poeta, professor de Filosofia e, eventualmente, resenhista.