18/11/2009

QUEM SÃO O VAMPIRO E A DEBORAH DE MIGUEL MARVILLA

Resumo do trabalho apresentado no XI Congresso de Estudos literários da UFES, que este ano homenageou o poeta Miguél Marvilla. Autoria: Eduardo Selga
Certa vez um dos maiores nomes da literatura praticada no Espírito Santo, Miguel Marvilla, essencialmente poeta, pretendeu a prosa. E nos legou Os mortos estão no living. Trataremos aqui dos personagens de O vampiro, Deborah, um dos contos abrigados no livro do saudoso Marvilla.
À semelhança de Drácula de Bram Stoker, o vampiro, em visita à personagem Deborah, estabelece com ela um colóquio pautado pela sedução em diversos graus de explicitude. Esse exercício de intertextualidade refere-se diretamente ao perfil estabelecido pelos ultrarromânticos que apropriaram-se das narrativas orais pertencentes às tradições milenares espalhadas pelas mais diversas culturas do Planeta acerca da entidade, nas quais ela nada tem de apaixonada ou apaixonante, por estar fortemente vinculada ao conceito cristão de Inferno (VAMPIRISMO, 2009).
Observando as tradições transmitidas pela oralidade, poderíamos considerar despropositada a atmosfera lírica que se dá durante a evolução da trama Tal lirismo desconstrói, paulatinamente, uma possível expectativa de terror. Mas o paradoxo nem chega a se constituir se atentarmos para uma característica em particular da referida escola literária, a junção do grotesco com o sublime e, nas palavras de Vítor Manuel e Silva, numa aprofundada análise das raízes da estética literária romântica, o fato de que
[...] A meditação sobre a noite, os sepulcros e a morte insere-se na temática pessimista [...], e traduz a nostalgia do infinito e a funda insatisfação espiritual que já angustiam os pré-românticos e que hão-de revelar-se mais exacerbadamente nos românticos (SILVA, 1976, p. 468).
Deborah, conforme uma das interpretações possíveis, pode não ser vítima, no sentido estrito do termo. A mesma ambiguidade se dá com o vampiro, uma vez que se ele entregue à paixão é conjectura plausível na perspectiva da escola romântica, não menos o é presumir seu discurso encantador estratégia hábil em pormenores concebida visando a saciar-se em dose dupla: carente de sangue, que é criatura hematófaga, assim nos diz a tradição oral; carente de sexo porque ainda mantém consigo a essência humana, não rigorosamente morto nem exatamente vivo.
Um dos motivos que contribuem para a solidez do vampiro e de Deborah enquanto personagens reside no fato de ambos preexistirem ao texto de Marvilla. Se o primeiro é um bem-sucedido exercício intertextual, Deborah pode ser lida como representação arquetípica do mito Perséfone. Portanto, a intertextualidade, compreendida enquanto prática que alia o texto escrito ao texto oral, aliada ao arquétipo, demonstram a preexistência dos personagens do conto. Como nos diz Wolfgang Iser,
[...] o texto ficcional contém muitos fragmentos identificáveis na realidade, que, através da seleção, são retirados tanto do contexto sócio-cultural, quanto da literatura prévia ao texto. Assim retorna ao texto ficcional uma realidade de todo reconhecível, posta entretanto agora sob o signo do fingimento (ISER, 1983, p. 400).
Considerando que na trama existe um jogo de dupla sedução a envolver ambos os personagens de tal modo que o estado emocional deles se altera à medida que o diálogo, afetuoso e em certa medida melodramático, evolui, parece-nos razoável conjeturar tal elemento da narrativa (quem seduz quem) uma referência à passagem do mito de Perséfone na qual, embora sequestrada pelo Hades a fim de tornar-se soberana do seu reino, a personagem mitológica cria certo vínculo afetivo com ele. Alegoricamente, temos que o vampiro “sequestra” a personalidade de Deborah, que se mostra emocionalmente dependente dele e se apaixona por quem, em tese, seria seu algoz.
Referências
BARROS, Maria Teresa Mendonça de. Mitos e arquétipos femininos na comunicação. NPP Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas. Disponível em: . Acesso em: 17 julho 2009.
BIAGI, Orivaldo Leme. Drácula, de Bram Stoker – o horror e o romantismo de Francis Ford Coppola. Boca do Inferno. Disponível em: Acesso em : 18 fevereiro 2009.
BLANC, Cláudio. O mito do vampiro. Conhecer Fantástico, São Paulo, 2009. Vampirismo, p. 4-7.
BOECHAT, Walter. Arquétipos e mitos do masculino. In:______. Mitos e arquétipos do homem contemporâneo. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. p. 19-40.
ESTUDANDO vampiros. Conhecer Fantástico, São Paulo, 2009. Vampirismo, p. 41-43.
ISER, Wolfang. Os atos de fingir ou o que é fictício. In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da literatura em suas fontes. Vol. II. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983, p. 417-441.
MARVILLA, Miguel. O vampiro, Deborah. In:______. Os mortos estão no living. 2. ed. Vitória: Floricultura, 2006. p. 21-26.
SILVA, Victor Manuel de Aguiar e. Rococó, pré-romantismo e romantismo. In: ______. Teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1976. p. 463-488.
SODRÉ, Paulo Roberto. Carta aos mortos. In: MARVILA, Miguel. Os mortos estão no living. 2. Ed. Vitória: Floricultura, 2006. p. 131-138.

Sobre o autor:
Eduardo Selga é graduando em Letras/Português pelas UFES. Nascido no Rio de Janeiro. Seus primeiros contos surgiram na década de 80, em "A Gazetinha", suplemento infantil de "A Gazeta", jornal de maior influência na sociedade capixaba. O conto "O Estranho Homem de Nossa Sinhorinha dos Incréus" foi premiado com medalha de bronze em concurso promovido pela Revista Brasília e editado em coletânea em 1994. Outra coletânea de contos na qual se faz presente é a "Livres Pensadores", lançada em abril de 2004 pela editora Scortecci na XVIII Bienal Internacional do Livro, em São Paulo. Em 2005 lançou seu livro de contos "A Morte de João Mocinha" pela Papel E Virtual Editora. Durante todo o ano de 2006 foi cronista convidaddo do jornal "Opinião", de Serra (ES). O conto "Breve História do Pretérito do Futuro" foi publicado na edição de estréia da revista cultural capixaba Intelecto, em 2002. Também na publicação A’Angaba, cuja proposta é a mesma da revista anterior, possui, desde 2008, textos publicados. Em abril de 2008 conquistou Menção Honrosa no Primeiro Concurso Cantigários de Letras de Música e Textos de MPB (Editora Guemanisse)com o artigo "A Música Incômoda". Em 2009, pela mesma editora, teve seu conto “Contrato de Namoro” publicado em função de menção honrosa em concurso nacional.

09/11/2009

IV Seminário de Pesquisa e Prática Pedagógica Saberes

Olá amigos, gostaria de convidá-los para o IV Seminário de Pesquisa e Prática Pedagógica da Faculdade Saberes, nos dias 10 e 11 de novembro. Estarei no dia 10 apresentando um minicurso sobre poesia, no qual  proponho estabelecer um dialogo com os pensadores Mikhail Mikhailovich Bakhtin e Carl Gustav Jung, trabalhando questões referentes ao eu poético e a polifonia arquetípica, e no dia 11, às 20:15h, ministrarei uma palestra sobre a Vivência socioambiental realizada no Mosteiro Zen Morro da Vargem. As inscrições podem ser feitas no site: http://semanasaberes.blogspot.com/
Foto: Karina Fleury, coordenadora do curso de Letras da Saberes e moi.

07/11/2009

XI CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: PESSOA , PERSONA, PERSONAGEM- UFES (Dias 05 e 06 de nov. 2009)

O XI Congresso de Estudos Literários desse ano foi dedicado ao poeta, historiador e amigo Miguél Marvilla, falecido no dia 10 de outubro desse ano. Os participantes do evento tiveram acesso a um menu variado, com  trabalhos que revisitaram desde Ovídio e sua obra Metamorfoses e a poesia amorosa latina,   à estudos que abordaram variadas facetas da contemporaneidade, na poesia, no romance e na música, o rap, por exemplo. Vale ressaltar a ótima organização do evento e a qualidade das comunicações. Foi Muito bom rever amigos queridos do tempo do mestrado como Thiago, com quem tive a alegria de compartilhar a mesa, Eduardo, Luciana, Maria Amélia, entre outros, e os queridos pofessores Wilberth, Paulo Sodré, Raymundo, Lino e Luis Eustáquio, que foi meu orientador de pesquisa.




A programação completa do evento e os resumos das apresentações podem ser conferidas no site:

31/10/2009

O drama da (in)sustentabilidade

As cidades ocupam apenas 2% da superfície da terra mas consomem 75% dos seus recursos. Esta estatística me deixou estarrecida, eu a li no Pegada Ecológica, de Genebaldo Freire Dias. Este livro é esclarecedor pois apresenta artigos com estatísticas atualizadas que mostram como o modelo de  desenvolvimento que construímos é suicida e replica-se, infelizmente, por quase todo o mundo.
As cidades possuem um megametabolismo energético e material que demanda, cada vez mais, grandes quantidades de matéria, ao passo que produz uma grande quantidade de lixo, além da emissão de gazes causadores do efeito estufa. Segundo Dias, "estamos destramando os fios de uma complexa rede de segurança ecológica", e a maioria dos seres humanos, ainda desconhece a importancia vital dessa rede. O escritor é claro quando afirma que, ou assumimos uma economia que respeite os limites da terra, ou continuamos como estamos, postura que indica que nos envolveremos numa grande tragédia evolutiva.
Bem, as cidades são hoje responsáveis pela emissão de 3|4 do gás carbônico mundial e elas continuam crescendo em todo o mundo, a população urbana mundial cresce em média 70 milhões de habitantes ao ano, e para sustentar esse crescimento, a cada dia, os sistemas naturais são mais sacrificados, e a sede de consumo contemporânea apresenta-se insaciável. Casais apaixonados não iamginam que, para produzir duas alianças de ouro, gera-se em torno de duas toneladas de resíduos, um exemplo simples que nos faz refletir como deve ser devastador o impacto do crescimento material da sociedade.
O pensador Miller Jr. afirma que as cidades representam o maior impacto do ser huamno sobre a natureza, ela depende de áreas fora de suas fronteiras para manter seu metabolismo, dispensando assim, suas influências por todo o globo, ou seja, "ela importa tudo, e exporta calor e resíduos".
Resolver estes problemas e muitos outros referentes às cidades requer muito esforço, cooperação e visão siatêmica, que dêem conta de seus variados aspectos: população, organização, meio ambiente e tecnologia, não podemos esquecer do aspecto cultural, que também possui metabilismo próprio e peculiar. A cidade moderna é um parasita do ambiente rural, ela produz pouco ou nenhum alimento, polui o ar, recicla pouco a água e os materiais inorgânicos, a terra possui limites para acomodar a tecnologia humana, por exemplo, a Gran Bretanha explora no mundo uma área três vezes maior que a sua para a extração de madeira, 75% dessa madeira vem de países subdesenvolvidos, já na Amazônia, cerca de treze mil hectares de floresta são destruídas anualmente para sustentar o consumo de madeira, inclusive para a produção de papel.
Bem, amigos, o resultado é que 1,1 bilhão de pessoas dos países ricos da terra, consomem 3/4 de seus recursos naturais, enquanto os 4,8 bilhões restantes, que corresponde a 80% da população, sobrevive com 1/4.

27/10/2009

Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias

se tem um cara que, na minha opinião, conseguiu descrever com precisão variados fenômenos contemporâneos,  foi o  Zigmunt Baumam. Já li alguns de seus livros, entre eles o Modernidade líquida, que considero, até agora, o melhor. No livro intitulado Vida para consumo, ele mostra as vicissitudes da nossa sociedade, cada vez mais "plugada", ou seja, "sem fio". esse joguinho de plugado e sem fio foi um achado do escritor que relata a loucura que pode se tornar o consumismo extremo que elimina os fios que ligam os seres humanos entre si alienando-o. Bauman destacou que as redes sociais deixaram de ser uma opção para se tornarem o endereço "default",  de um número crescente de pessoas, especialmente dos jovens. A "morte social" espreita aqueles que não cedem aos apelos do cibermercado e da cultura "mostre e diga". Se na primeira modernidade os lugares estavam pré-determinados, na contemporaneidade eles vão se dissolvendo, misturando e confundindo e as barreiras entre o público e o privado estão cada vez mais fracas.
as pessoas revelam o mais íntimo de suas vidas, seus desejos, taras,  e aqueles que zelam por sua invisibilidade, segundo o autor, "tendem a ser rejeitados", como se fossem "suspeitos de um crime".
A "liquidez", pilar da tessitura teórica baumiana pode  ser aplicada as empresas. Os empregadores optam por empregados "flutuantes", ou seja, "descomprometidos", "flexíveis", "generalistas", e em última instância "descartáveis". Estes empregados desobrigados de família e descomprometidos, são classificados, por exemplo, no Vale do Silício, como "empregados chateação zero", assim, o empregado ideal seria uma pessoa sem vínculos. Concordo com o Bauman quando diz que a sociedade de consumidores, ou seja, nós, nunca seremos sujeitos sem primeiro virarmos mercadorias. Sonhamos em ser mercadorias desejáveis, necessárias, estudamos muito para isso, nos deformamos muito para alcançar este objetivo, mas eu pergunto para quê? no que resultará tudo isso? Como é difícil nos desvencilharmos do apelo da mídia, acreditamos que não podemos passar sem o celular da hora, sem provar novos sabores, novas emoções, tudo novo, tudo novo... e é assim que vamos sendo consumidos...

26/10/2009

impre(visibilidade)




Recebi estas imagens e repasso para vocês, nem mesmo na natureza tudo tem que ser como geralmente é, estas imagens me lembraram o Mangabeira Unger que diz: "se as instituições são assim, é porque foram feitas assim". A gente é muito conformado com as coisas, precisamos abraçar a impre-visibilidade.

23/10/2009

Mote

Mote
o trote
o xote
vou seguindo
Sou essa alma que grita
cobra pronta à dar o bote
Sou a nuvem punida pelo vento
arrastada, banida
pro norte
pra morte
viro chuva
água bonita
Vejo o arco-íris e
re-nasço
parte dessa cadeia vital
dando energia
pra roda gigante azul
Salve a vida!


bairenatabomfim

17/10/2009

Maus tratos de animais sempre envolve outros crimes...

Amigos, primeiramente quero parabenizar o belissimo trabalho feito pela policia militar ambiental do ES, é que o osso é bem duro de roer, a extração ilegal de areia é uma atividade ilegal que envolve muito dinheiro,  materiais de construção e carroceiros daquie e de outros estados. Os cavalos são maltratados, muitos trabalham com feridas abertas, éguas grávidas, enfim.... até quando minha gente? Vamos denunciar...

15/10/2009

Florbela Espanca por Vanda Luiza...

Olá caros, Vanda é responsável pelas capas dos livros da coleção Roberto Almada, que trata do resgate e divulgação da obra de escritores capixabas de variados tempos. Essa é uma publicação da Academia Espíritosantense de Letras e conta com a seleção, biografia e estudo critico da obra de autores como Lídia Besouchet, Rubem Braga, Maria Antonieta Tatagiba, entre outros. Eu não publiquei nessa coleção mas, como quem tem amigo, tem tudo, ganhei uma capa de presente com a minha "Flor(mais)Bela"... eheheh...  Obrigada Vandinha!