16/12/2009

Fome de ar, água e comida (Revista Veja/ dez 2009)


Antes que você acabe de ler esta frase, terão nascido no mundo quarenta bebês, enquanto vinte de nós terão deixado o plano material para prestar contas a Deus. O saldo é a chegada, a cada dez segundos, de vinte novos moradores da Terra, prontos para crescer, estudar, trabalhar, namorar, casar e ter filhos. Há dez anos, em 1999, o planeta estava na confortável situação de receber cada novo morador com comida e água na quantidade necessária para que ele conseguisse atingir seus sublimes objetivos na vida. De lá para cá, começou a se delinear um novo e desafiador cenário para a espécie humana. A demanda por comida e outros bens naturais passou a crescer mais rapidamente do que a oferta, como mostram as curvas desenhadas no globo da página anterior. Elas não foram parar ali por acaso. Aquele globo esverdeado e translúcido é, até agora, a imagem que melhor identifica a COP15, a reunião de representantes de 192 países que tem lugar em Copenhague, na Dinamarca. Esses senhores e seus assessores científicos têm como missão chegar a um acordo mundial para conter o ritmo do aquecimento global. Esse fenômeno é normalmente benéfico, mas saiu de controle, aparentemente como resultado da atividade industrial humana, e agora pode desarranjar o clima da Terra a ponto de ameaçar a sobrevivência de inúmeras espécies e impor um modo de vida mais áspero e severo à própria humanidade.

A COP15 acaba no fim da próxima semana, e seu encerramento está sendo esperado com tal ansiedade que muitos nem sequer cogitam, por assustadora, a possibilidade de um fracasso. Talvez se deva começar a pensar com mais realismo nessa possibilidade. Por razões metodológicas e ideológicas, e também para não ampliar em demasia a pauta das discussões, dificultando ainda mais um acordo final, a questão populacional está em plano secundaríssimo em Copenhague. É estranho que ela tenha sumido dos debates sobre as soluções do aquecimento global, quando se sabe que esteve na base do seu diagnóstico desde o primeiro momento em que o aquecimento global foi visto como um perigo potencial. Quando o físico sueco Svante Arrhenius concluiu seus cálculos pioneiros sobre o efeito das moléculas de gás carbônico (CO2) no aumento da temperatura média do planeta, em 1896, a Terra era habitada por cerca de 1 bilhão de pessoas. Arrhenius foi o primeiro a perceber que o aumento na concentração de CO2 poderia aquecer demais o planeta. Pouco mais de um século depois do trabalho do sueco, a Terra tem 6,8 bilhões de habitantes e caminha para os 9,2 bilhões por volta de 2050. Serão 2,5 bilhões de pessoas a mais, e, graças ao sucesso da globalização econômica, a maioria delas atingirá um padrão de consumo de classe média. Isso tem um peso extraordinário não apenas na equação do aquecimento global, mas no frágil equilíbrio que a civilização ainda consegue manter em suas relações de rapina com o mundo natural. É enorme o impacto da explosão populacional aliado à emergência social e econômica de imensas massas humanas antes fadadas à miséria. Seus efeitos já se fazem sentir no aumento da demanda de alimentos em ritmo superior ao da oferta, como mostram as curvas do gráfico sobreposto ao globo-símbolo da COP15 nas páginas de abertura desta reportagem.

Vivo estivesse, o sueco Svante Arrhenius enfatizaria em Copenhague o fator populacional no descontrole aparente em que se encontra o efeito estufa global. A cada dia que passa, o mundo tem de sustentar 213 000 pessoas a mais. Cada ser humano adulto produz, em média, 4,3 toneladas de gás carbônico por ano sem fazer nada de mais - apenas ao acender uma lâmpada, andar de carro ou ônibus, alimentar-se e vestir-se. Esses novos passageiros da espaçonave Terra, em conjunto, passarão a responder, então, por 880 000 toneladas a mais de carbono arremessado na atmosfera. As estimativas de aumento de emissões de gases de efeito estufa contemplam o choque populacional. O documento final do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU diz com clareza que "o crescimento do produto interno bruto per capita e o da população foram os principais determinantes do aumento das emissões globais durante as últimas três décadas do século XX". Outro relatório divulgado há menos de um mês pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) chama a atenção para o equívoco de desprezar o aumento populacional no debate sobre o aquecimento: "Os gases de efeito estufa não estariam se acumulando de modo tão perigoso se o número de habitantes da Terra não aumentasse tão rapidamente, mas permanecesse em 300 milhões de pessoas, a população mundial de 1 000 anos atrás". O intrigante é que, nas ações propostas para os próximos anos, o fator aumento da população desaparece.

O tema é realmente explosivo e tem conotações sombrias, por erros cometidos no passado. Com razão ou não, muitas pessoas encaram qualquer sugestão para conter o ritmo de aumento populacional como uma interferência indevida de forças estranhas no livre-arbítrio de países, famílias e das próprias mães. Razões culturais e socioeconômicas contribuem para tirar qualquer efeito prático das assombrosas constatações do crescimento populacional desenfreado. São dois os motivos principais para isso. O primeiro é que existe uma inegável disparidade no volume de emissões individuais quando se comparam cidadãos de países ricos e pobres. Um americano joga, em média, 19 toneladas de gás carbônico na atmosfera anualmente. Um afegão morador das montanhas de seu belo país contribui com modestíssimos 26 quilos de CO2. Como exigir do montanhês afegão que - quando não foi recrutado pelo Talibã para plantar papoula, matéria-prima do ópio - vive do leite de suas cabras e da hortinha no quintal que refreie seus impulsos reprodutivos usando como argumento o peso que o pobre coitado está colocando sobre o planeta? É ridículo. A maior força moral está em convencer o bem-educado e bem nutrido americano médio a repensar seu modo de vida, optando por uma sobrevivência mais frugal. Vale dizer que, embora as conversões ao naturalismo e à alimentação orgânica se contem aos milhares todos os meses nos Estados Unidos, elas são insignificantes do ponto de vista global.

A segunda razão do encalacramento da questão populacional vem da noção, bastante razoável, diga-se, de que os avanços educacionais e os saltos tecnológicos são muito mais eficientes nesse caso do que qualquer política governamental. O dinamarquês Bjorn Lomborg, estrela no grupo dos cientistas céticos quanto aos efeitos do aquecimento global e à responsabilidade humana nele, está entre os que acreditam que a solução virá do avanço tecnológico. Disse Lomborg a VEJA: "Realmente o tema não é tratado aqui. Pela ordem, eu diria que conter o consumo é um pouco mais prioritário, mas, definitivamente, apressar a busca por novas tecnologias limpas é o mais importante de tudo". O economista carioca Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE, que participa da COP15, descrê de qualquer política centralizada que vise a determinar ou influenciar os casais a respeito do número de filhos que devem ter. Ele lembra que a elevação do padrão cultural e educacional da população sempre coincide com a diminuição da taxa de fecundidade. "Quan-do se torna mais amplo o acesso à educação, à cultura e ao conhecimento, as populações passam a crescer em ritmo menor e até a decrescer", diz.

O caso brasileiro é ilustrativo dessa constatação. Há trinta anos, as mulheres brasileiras apre-sentavam taxas de fecundidade que se contavam entre as maiores do mundo, rivalizando com os padrões africanos. No começo da década de 90, a situação apresentava melhoras, mas ainda era preocupante. As mulheres do Brasil rural tinham então, em média, 4,3 filhos - dois a mais do que as mães urbanas. Uma década mais tarde, a diferença entre o número de filhos de mães rurais e urbanas se reduziu para 1,2. Em 2006, a taxa geral de fecundidade no Brasil havia estacionado em dois filhos por mulher. Um avanço cujo progresso só pode ser explicado pelos fatores apontados por Besserman, uma vez que as campanhas de controle de natalidade há muito foram desativadas no Brasil.

Fenômeno semelhante deve ocorrer na Ásia e na África com as melhorias educacionais e com o aumento da proporção da população urbana em relação à rural. Viver em cidades é um grande fator de diminuição do número de filhos. A ONU calcula que o somatório desses fatores terminará por estabilizar a população do planeta na casa dos 9 bilhões a partir do ano 2050. A questão é como chegar até lá sem grandes traumas. O prognóstico não é bom. Estudos científicos mostram que o mundo natural está sendo testado em seu limite para sustentar os atuais 6,8 bilhões de passageiros da espaçonave Terra. Segundo o OPT, organização inglesa que desenvolveu um indicador confiável de sustentabilidade, nos níveis tecnológicos atuais, o máximo que o planeta comporta sem risco de exaustão são 5,1 bilhões de pessoas. No fim da próxima semana, de Copenhague, virá a sinalização se a humanidade captou o dramático pedido de socorro que a Terra está emitindo.

fonte:http://veja.abril.com.br/161209/fome-ar-agua-comida-p-132.shtml

14/12/2009

Um feliz natal ... Frank foi adotado!

Olá meu Povo, ótimas noticias!!!
O Frank (homenagem ao corredor Frank Caldeira) ganhou um lar e uma familia muito amorosa. Ele foi adotado pela corredora capixaba Xuxa e pelo filho dela, o Bruno. Frank foi medicado direitinho e em 30 dias já estará com a pelagem perfeita e recuperado da anemia.
Obrigada Xuxinha, você é demais!!!
abraços dessa amiga.


02/12/2009

Em busca de um lar...


Amigos, Luiz e eu recolhemos este cachorrinho nas ruas de Goiabeiras, procuramos saber se tinha dono mas disseram que não, que estAva vagando perdido por alí e quase fora atropelado várias vezes. Ele é um cão muito dócil, bondoso, e com um olhar que transmite muita ternura, como vocês podem ver nas fotos. 
Ele está baqueadinho, mas nada que um bom trato não cure, em dias estará muito bonito, novinho em folha! Olhem como já ficou melhor depois do banho...
É um cãozinho que já sofreu bastante e precisa de um lar, de pessoas amorosas e responsáveis que cuidem dele. ME AJUDEM A ACHAR UM LAR PARA ELE... Se souberem de alguém, me avisem, infelizmente eu não posso ficar com ele.
meu e-mail: renatabomfim2006@gmail.com
Abraços
Renata

29/11/2009

O corpo barroco de Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, a traição a-Deus




amigos, segue parte da explêndida apresentação do professor Luis Eustáquio Soares (UFES) no XI Congresso de Estudos Literários da UFES.

27/11/2009

História dos Índios do Espírito Santo

Dia 02/12

Parabéns a Klítia e a Kaina pelo lançamento do livro, estava tudo muito bonito, desejo agora, sucesso na divulgação, é um livro que deveria ser adotado nas escolas, pois nós valorizamos muito as nossas raízes por parte dos colonizadores e esquecemos que corre sangue de indio Tupinikim e Guarani nas nossas veias...
abraços da amiga
Renata




A história dos índios Tupinikim e Guarani Mbya foi resgatada e, agora, pode ser conhecida. As autoras Kalna Mareto Teao e Klítia Loureiro lançam o livro História dos Índios do Espírito Santo. A obra tem patrocínio da Lei Rubem Braga, lei de incentivo cultural do município de Vitória. Segundo as autoras, nos livros sobre a história local, os índios são tratados de forma preconceituosa e equivocada. "Os índios ficam restritos ao passado onde são retratados somente no período colonial e invisibilizados nos tempos atuais. Além disso, são considerados como um único povo, enquanto existem no Brasil, aproximadamente, 200 etnias falantes de 188 idiomas", revelam. De acordo com Kalna e Klítia, a imagem do índio no livro didático aparece repleta de estereótipos como índio selvagem, exótico e aculturado. Nos livros de história local, prosseguem elas, confundem-se os dois povos Tupinikim e Guarani como os mesmos, sendo que apresentam culturas muito distintas. "Há uma série de equívocos que não levam em conta as especificidades culturais e os processos diferenciados", sublinham. Para as autoras, História dos Índios do Espírito Santo vai servir de apoio tanto para professores como para pesquisadores, além de funcionar como material didático para os alunos, contribuindo assim para o enriquecimento da historiografia capixaba.

texto:http://sistemas6.vitoria.es.gov.br/diario/noticia.php?idNoticia=2395

26/11/2009

Afins

Somos afins
máscaras que combinam na cor e na forma
Nos esgotamos e  testamos até o limite
Seguimos construindo pontes de bambu
que atravessamos sorrindo e cautelosos
ao sabor do vento balançados
ao sabor das incertezas do amanhã
experimentando doces e amargos

Somos afins, sim
a fome na boca da noite
e no escuro
lascivos e exaltados
nos devoramos até  não sobrar nada
deliramos banhados em lágrimas
de dor, de amor e de frustração
É tanta emoção sem nome
é vontade de cuidar
de preservar e de destruir
com carinho
e delicadeza.

Unhas na seda
Espinho na carne macia
Água e sangue brotando da rocha
Prazer e puríssima perversão
esse amor que se constrói
e  aniquila
nas raias da solidão.

25/11/2009

Uma orquestra esquizofrênica: resumo do texto apresentado no XI Congresso de Estudos Literários-Ufes/2009

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO
XI CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:
PESSOA, PERSONA, PERSONAGEM



Uma orquestra esquizofrênica: a polifonia arquetípica na obra de Florbela Espanca
(autoria de Renata Bomfim)

Este trabalho tem como fontes, dados gerados durante a realização da minha dissertação de mestrado em Estudos Literários, intitulada: Vozes femininas: a polifonia arquetípica em Florbela Espanca, defendida em setembro de 2009, na UFES, bem como, da participação, desde 2007, no grupo de pesquisa do CNPq intitulado: “Aproximações regionais: Alentejo Português e Nordeste Brasileiro- Florbela Espanca; romanceiros e romances sergipanos, da UFS.
A questão da autoria em Florbela Espanca (1894- 1930) nasceu sob o signo da misoginia e da confusão. A crítica literária Maria Lúcia Dal Farra, no livro Trocando olhares (1984) faz um estudo aprofundado sobre a nascente da poética florbeliana, revelando os esforços da poeta junto ao mercado editorial e crítico português, como por exemplo a interlocução que estabeleceu com Madame Carvalho, responsável pelo suplemento feminino da revista Século Diário.
A poeta começou a escrever poesias em 1915, e em 1916 reuniu-as num manuscrito que nomeou: “Trocando Olhares”, ano que Portugal ingressou na primeira guerra mundial. Com 88 poemas e 3 contos, o manuscrito Trocando Olhares foi matriz de outros projetos poéticos como Alma de Portugal, O Livro d’Ele, e Minha Terra, meu amor e das antologias poéticas: Primeiros passos (1916) e Primeiros versos (1917), posteriormente, foi também, matriz de seu primeiro livro publicado em 1919, o Livro de Mágoas.
Em Trocando Olhares pode-se observar que Florbela nutriu sua poesia nascente com a tradição poética popular, através da utilização de quadras. O manuscrito em questão é formado por três conjuntos de quadras em redondilha maior, intituladas, As Quadras d’Ele. Sigismundo Spina (s.d., p. 110) esclarece que as quadras foram as formas matrizes do raciocínio poético dos trovadores populares, assim como o dístico. Rougemont (1998, p. 58) reforça acerca da importância dessa forma poética explicitando que “a poesia européia nasceu da poesia dos trovadores” entre os séculos XI e XII, e falava a língua provençal exaltando o amor infeliz e perpetuamente insatisfeito. Assim, vemos que o diálogo que a poética de Florbela estabelece com as trovas extrapola o campo da forma, estendendo-se para o campo temático.
Para um maior entendimento profundidade do diálogo entre esse gênero poético eminentemente popular e a poética florbeliana, destacaremos algumas de suas características. O trovadorismo exaltou o amor livre das amarras do casamento, pois este pressupunha apenas a união de corpos, enquanto o “amor”, ou seja, o “Eros supremo”, seria a projeção da alma para a “união luminosa”, ou seja, “para além de todo amor possível nessa vida”. O poeta, de joelhos, deve jurar amor eterno a sua dama, tal como se faz a um soberano. Florbela inverterá a vassalagem amorosa e cantará o amado em seus versos, ela será a sua serva. Outra característica importante do trovadorismo é que ele surge trazendo uma nova visão de mulher, contrária à difundida até então pelos costumes tradicionais; ela é elevada acima dos homens, tornando-se assim, o seu ideal nostálgico (ROUGEMONT,1998, p. 58).
Queria ser a erva humilde
Que pisasse algum dia,
Pra debaixo de teus pés
Morrer em doce agonia.
(ESPANCA, 1994, p. 33)
O ímpeto da poeta em experimentar levou-a a misturar gêneros, trocar o masculino pelo feminino, ou seja, ela começou por meio da linguagem poética a promover uma troca simbólica de lugares sociais e, de olhares, como, semanticamente, também sugere o título do manuscrito. Em junho de 1916 Florbela escreveu a amiga Júlia Alves dizendo: “Só o soneto é que me convém; a quadra, dizer muito em quatro versos, torna-se para mim bastante difícil” (DAL FARRA, 1984, p. 28).
O Livro de Mágoas, estréia poética de Florbela, se deu sob o signo da misoginia e do plágio. Florbela Espanca foi acusada de dividir autoria com Antônio Nobre e Américo Durão, influências que nunca foram negadas pela poeta, pelo contrário, eram por ela expostas com orgulho. Diz Dal Farra que:
A jovem poetiza se sabe proibida em seus versos, de levar em conta, como forma poética, a tradição literária, a poesia já produzida, consagrada e apreciada, uma vez que qualquer demonstração de permeabilidade seja à literatura popular anônima, seja a literatura de seus autores preferidos, é sentida como infração. [...] nesse contexto, a intertextualidade é pejorativa e julgada como plágio (ESPANCA, 1994, p. 57, grifo nosso).
O Livro de Mágoas foi visto como “licoroso para homens”, “escrito por um Antônio Nobre de saias” (FERREIRA,1965). Como mulher, ao se apropriar do discurso literário, cuja tradição é, predominantemente, masculina, Florbela recebeu, também, como resposta, para além dos parcos comentários depreciativos, o silêncio. Florbela trouxe para a sua poesia a dor de existir, a saudade e, principalmente a mágoa. Foi também no Livro de Mágoas que a poeta entronizou definitivamente a dor, que passou a ser parte integrante da sua estética.
O Livro de Sóror Saudade veio a lume em 1923 e dialoga, especialmente, com a poética de Américo Durão. Mathias (1998, p. 68) descreve que Florbela “confessa a dominância que a poética do colega e amigo enxerta nela” em uma carta que data de 5 de janeiro de 1920, Esta carta foi cedida pelo próprio Durão à Maria Alexandrina e por ela publicada em 1964, em A vida ignorada de Florbela Espanca. Na carta Florbela diz: “Do seu livro veio o meu livro. Obrigado. Amigo Meu! ”. A estética que marca a poética do Livro de Sóror Saudade é a do saudosismo.
O Alentejo, terra de Florbela, é terra de mulheres poetas, lá viveu, no século XV, Públia Hortência , Mariana Alcoforado e suas cartas de amor, houve também mulheres célebres que fundaram conventos como Margarida Cheirinha ou Maria das Chagas. Estas vozes e suas muitas histórias, de alguma forma, ecoaram a partir do auditório interior de Florbela no Livro de Sóror Saudade. O soneto Alentejo, dedicado à amiga Buja, no fragmento: “A terra prende aos dedos sensuais/ A cabeleira loira dos trigais/ Sob Bênçãos dulcíssimas dos céus.// Há gritos arrastados de cantigas.../ E eu sou uma daquelas raparigas.../ E tu passas e dizes: “Salve-os Deus!”(ESPANCA, 1996, p. 172).
A dor de existir expressa no Livro de Mágoas e no Livro de Sóror Saudade aparece interiorizada e em transformação, a consciência poética de Florbela vai se fortalecendo e “ela adquire estatuto de poetisa”, deixa de ser o “ser sofredor”, abrindo mão de uma postura passiva para uma ativa e recebendo uma ”titularidade merecida”, a partir das escolhas que passa a fazer (MATHIAS, 1998, p. 87).
Charneca em Flor foi o primeiro póstumo de Florbela, lançado em janeiro de 1931 por Guido Battelli. Este livro foi um marco na obra de Florbela Espanca, pois mostra o amadurecimento da consciência poética florbeliana, que encontra a sua voz entre outras vozes e dialoga de forma amplificada tanto com outros autores, quanto com a tradição. O poema de abertura que possui o mesmo título do livro se apresenta como um farol, prenunciando o que se seguirá na obra da poeta:
Enche o meu peito, num canto mago,
O frêmito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosa...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nessa febre ansiosa que me envade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, amel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!
(ESPANCA, 1996, p. 209).
Em Charneca em Flor, a poeta amplia o diálogo, alcançando a tradição hispano americana, através do poeta nicaragüense, Ruben Dario. Em uma carta enviada a Guido Battelli em 3 de agosto de 1930, Florbela diz: “Gosto imenso, imenso do seu grande Ruben Dario. Mas também são dele estes dois belos versos”: Pues no hay dolor más grande que el dolor de ser vivo,/ Ni mayor pesadumbre que la vida consciente” (ESPANCA, 2002, p. 276). Florbela nessa carta diz estar trabalhando muito no Charneca em Flor, o trecho descrito leva-nos a especular que Battelli tenha apresentado a obra de Dario a Florbela. Esta interlocução poética tem início na epígrafe de Charneca em Flor, que traz o poema de Dario, intitulado Amo, Amas, parte integrante do livro Cantos de Vida e de Esperanza, de 1905.
Acreditamos que ao escolher Dario para prefaciar a sua obra, Florbela Espanca ultrapassou o desejo de apenas homenagear ao poeta, até porque seus livros anteriores é possível perceber que os autores escolhidos, para os prefácios, extrapolam este espaço, atravessando toda a obra.
Dentro do livro Charneca em Flor, Florbela separa um bloco formado por dez sonetos os quais ela intitula He hum não querer mais que bem querer, uma referência explicita ao poema do mestre português, Luis de Camões, mais um diálogo que a poeta estabelece, e este com aquele que é considerado o maior poeta português.
A maioria dos estudiosos da poeta concordam que ela é uma persona dramatis e tanto a sua obra, quanto a sua biografia ficcional, trazem como marca a teatralidade. O pensador russo Mikhail Mikhailovitch Bakhtin, diferencia a personagem lírica da do romance, pois no romance a personagem possui inacabamento, possui força, autoridade, a personagem lírica, por sua vez, possui uma “possibilidade virtual de autonomia”. Parece que autor e personagem se fundem numa unidade. O discurso poético tende a ser monofônico (ele nasce da ilusão de individualidade) mas Bakhtin afirma que não há significado literário fora da comunicação social. Para este pensador, a lírica não restringe o personagem e nem lhe dá caráter acabado. O discurso poético mantém o caráter dialógico, mas a forma como a linguagem é utilizada nesse gênero “faz com que o enunciado a sustente e passe a refletir a intenção do eu lírico”.
O poeta é um ser dialógico, ele descobre novos mundos e os manipula no seu reino das palavras, dialoga com a sua realidade e com a realidade do outro, vem daí as vozes que se fazem sentir nos poemas, mas o sujeito poético se comunica sem mediador. Na poesia , o mundo da linguagem está a serviço da voz do poeta, assim, a natureza monológica da autoridade poética está na sua forma, ou estrutura, mas não no seu conteúdo. Bakhtin destacou também que a autoridade do autor é a autoridade do coro, portanto, para que a vivencia do autor ecoe liricamente, ele precisa ouvir o outro nele, ou seja, ele é mais um com o coro.
Buscando desvendar a polifonia arquetípica florbeliana, recorremos ao pensador Carl Gustav Jung , pai da psicologia analítica. No livro O Espírito na Arte e na ciência, alerta para o perigo das leituras reducionistas, que buscam transformar o poeta em caso clínico, importante destacar que Jung considera a formação imagética uma expressão não-patológica, assim, doente ou saudável, o poeta só pode ser compreendido através de seu processo criador. Viu-se o contrário acontecer na comemoração do I centenário de nascimento de Florbela Espanca, em Évora, quando uma pesquisadora especulou: “contraiu uma doença nervosa (seqüelas de sífilis, provavelmente.)”.
Jung concebeu a psique como uma entidade fragmentada, e a realidade psíquica como “o murmúrio de muitas vozes” que produzem contradição da vontade e reflorescimento da fantasia”. O ego não é senhor de si, ele é um complexo. O complexo individual atua no campo da consciência, e complexo coletivo no campo da cultura. Através da teoria dos complexos Jung propôs a existência de uma camada mais profunda da psique, uma cama cultural, o ICS coletivo que é formado por motivos mitológicos. Para Jung toda mitologia pode ser vista como uma projeção do ICS coletivo. É também no ICS coletivo que estão os arquétipos, ou seja, os elementos primordiais e estruturais da psique humana. Os arquétipos são irrepresentáveis, mas seus efeitos podem ser percebidos através de imagens. O arquétipo é uma figura mitológica que expressa milhões de experiências individuais. O mito é a elaboração criativa transcrita de forma compreensível.
Importante ressaltar que, em consonância com o pensamento de Bakhtin, para Jung, uma obra de arte nunca é unívoca e o arquétipo, é uma experiência perturbadora que solta em nós uma voz muito mais poderosa que a nossa. A poesia de Florbela é dialógica, polifônica e prenhe de arquétipos femininos,portanto, arquetípica. Dentre estes arquétipos destacamos em nossas pesquisa os de Lilith, Eva e Maria. Na ânsia de fazer dialogarem aspectos tão díspares do feminino a poeta acaba criando uma criatura síntese, um Frankenstein que deseja mar, (com)viver , mas encontra como devir a morte e a errância. Eis a tragédia moderna, segundo Raymond Willians, a separação que isola e impossibilita a troca, o diálogo.

Amigos, o texto ficou muito grande pra postar inteiro, se alguém se interessar de lê-lo na íntegra é só me escrever que eu envio por e-mail.

18/11/2009

QUEM SÃO O VAMPIRO E A DEBORAH DE MIGUEL MARVILLA

Resumo do trabalho apresentado no XI Congresso de Estudos literários da UFES, que este ano homenageou o poeta Miguél Marvilla. Autoria: Eduardo Selga
Certa vez um dos maiores nomes da literatura praticada no Espírito Santo, Miguel Marvilla, essencialmente poeta, pretendeu a prosa. E nos legou Os mortos estão no living. Trataremos aqui dos personagens de O vampiro, Deborah, um dos contos abrigados no livro do saudoso Marvilla.
À semelhança de Drácula de Bram Stoker, o vampiro, em visita à personagem Deborah, estabelece com ela um colóquio pautado pela sedução em diversos graus de explicitude. Esse exercício de intertextualidade refere-se diretamente ao perfil estabelecido pelos ultrarromânticos que apropriaram-se das narrativas orais pertencentes às tradições milenares espalhadas pelas mais diversas culturas do Planeta acerca da entidade, nas quais ela nada tem de apaixonada ou apaixonante, por estar fortemente vinculada ao conceito cristão de Inferno (VAMPIRISMO, 2009).
Observando as tradições transmitidas pela oralidade, poderíamos considerar despropositada a atmosfera lírica que se dá durante a evolução da trama Tal lirismo desconstrói, paulatinamente, uma possível expectativa de terror. Mas o paradoxo nem chega a se constituir se atentarmos para uma característica em particular da referida escola literária, a junção do grotesco com o sublime e, nas palavras de Vítor Manuel e Silva, numa aprofundada análise das raízes da estética literária romântica, o fato de que
[...] A meditação sobre a noite, os sepulcros e a morte insere-se na temática pessimista [...], e traduz a nostalgia do infinito e a funda insatisfação espiritual que já angustiam os pré-românticos e que hão-de revelar-se mais exacerbadamente nos românticos (SILVA, 1976, p. 468).
Deborah, conforme uma das interpretações possíveis, pode não ser vítima, no sentido estrito do termo. A mesma ambiguidade se dá com o vampiro, uma vez que se ele entregue à paixão é conjectura plausível na perspectiva da escola romântica, não menos o é presumir seu discurso encantador estratégia hábil em pormenores concebida visando a saciar-se em dose dupla: carente de sangue, que é criatura hematófaga, assim nos diz a tradição oral; carente de sexo porque ainda mantém consigo a essência humana, não rigorosamente morto nem exatamente vivo.
Um dos motivos que contribuem para a solidez do vampiro e de Deborah enquanto personagens reside no fato de ambos preexistirem ao texto de Marvilla. Se o primeiro é um bem-sucedido exercício intertextual, Deborah pode ser lida como representação arquetípica do mito Perséfone. Portanto, a intertextualidade, compreendida enquanto prática que alia o texto escrito ao texto oral, aliada ao arquétipo, demonstram a preexistência dos personagens do conto. Como nos diz Wolfgang Iser,
[...] o texto ficcional contém muitos fragmentos identificáveis na realidade, que, através da seleção, são retirados tanto do contexto sócio-cultural, quanto da literatura prévia ao texto. Assim retorna ao texto ficcional uma realidade de todo reconhecível, posta entretanto agora sob o signo do fingimento (ISER, 1983, p. 400).
Considerando que na trama existe um jogo de dupla sedução a envolver ambos os personagens de tal modo que o estado emocional deles se altera à medida que o diálogo, afetuoso e em certa medida melodramático, evolui, parece-nos razoável conjeturar tal elemento da narrativa (quem seduz quem) uma referência à passagem do mito de Perséfone na qual, embora sequestrada pelo Hades a fim de tornar-se soberana do seu reino, a personagem mitológica cria certo vínculo afetivo com ele. Alegoricamente, temos que o vampiro “sequestra” a personalidade de Deborah, que se mostra emocionalmente dependente dele e se apaixona por quem, em tese, seria seu algoz.
Referências
BARROS, Maria Teresa Mendonça de. Mitos e arquétipos femininos na comunicação. NPP Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas. Disponível em: . Acesso em: 17 julho 2009.
BIAGI, Orivaldo Leme. Drácula, de Bram Stoker – o horror e o romantismo de Francis Ford Coppola. Boca do Inferno. Disponível em: Acesso em : 18 fevereiro 2009.
BLANC, Cláudio. O mito do vampiro. Conhecer Fantástico, São Paulo, 2009. Vampirismo, p. 4-7.
BOECHAT, Walter. Arquétipos e mitos do masculino. In:______. Mitos e arquétipos do homem contemporâneo. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. p. 19-40.
ESTUDANDO vampiros. Conhecer Fantástico, São Paulo, 2009. Vampirismo, p. 41-43.
ISER, Wolfang. Os atos de fingir ou o que é fictício. In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da literatura em suas fontes. Vol. II. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983, p. 417-441.
MARVILLA, Miguel. O vampiro, Deborah. In:______. Os mortos estão no living. 2. ed. Vitória: Floricultura, 2006. p. 21-26.
SILVA, Victor Manuel de Aguiar e. Rococó, pré-romantismo e romantismo. In: ______. Teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1976. p. 463-488.
SODRÉ, Paulo Roberto. Carta aos mortos. In: MARVILA, Miguel. Os mortos estão no living. 2. Ed. Vitória: Floricultura, 2006. p. 131-138.

Sobre o autor:
Eduardo Selga é graduando em Letras/Português pelas UFES. Nascido no Rio de Janeiro. Seus primeiros contos surgiram na década de 80, em "A Gazetinha", suplemento infantil de "A Gazeta", jornal de maior influência na sociedade capixaba. O conto "O Estranho Homem de Nossa Sinhorinha dos Incréus" foi premiado com medalha de bronze em concurso promovido pela Revista Brasília e editado em coletânea em 1994. Outra coletânea de contos na qual se faz presente é a "Livres Pensadores", lançada em abril de 2004 pela editora Scortecci na XVIII Bienal Internacional do Livro, em São Paulo. Em 2005 lançou seu livro de contos "A Morte de João Mocinha" pela Papel E Virtual Editora. Durante todo o ano de 2006 foi cronista convidaddo do jornal "Opinião", de Serra (ES). O conto "Breve História do Pretérito do Futuro" foi publicado na edição de estréia da revista cultural capixaba Intelecto, em 2002. Também na publicação A’Angaba, cuja proposta é a mesma da revista anterior, possui, desde 2008, textos publicados. Em abril de 2008 conquistou Menção Honrosa no Primeiro Concurso Cantigários de Letras de Música e Textos de MPB (Editora Guemanisse)com o artigo "A Música Incômoda". Em 2009, pela mesma editora, teve seu conto “Contrato de Namoro” publicado em função de menção honrosa em concurso nacional.

09/11/2009

IV Seminário de Pesquisa e Prática Pedagógica Saberes

Olá amigos, gostaria de convidá-los para o IV Seminário de Pesquisa e Prática Pedagógica da Faculdade Saberes, nos dias 10 e 11 de novembro. Estarei no dia 10 apresentando um minicurso sobre poesia, no qual  proponho estabelecer um dialogo com os pensadores Mikhail Mikhailovich Bakhtin e Carl Gustav Jung, trabalhando questões referentes ao eu poético e a polifonia arquetípica, e no dia 11, às 20:15h, ministrarei uma palestra sobre a Vivência socioambiental realizada no Mosteiro Zen Morro da Vargem. As inscrições podem ser feitas no site: http://semanasaberes.blogspot.com/
Foto: Karina Fleury, coordenadora do curso de Letras da Saberes e moi.

07/11/2009

XI CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: PESSOA , PERSONA, PERSONAGEM- UFES (Dias 05 e 06 de nov. 2009)

O XI Congresso de Estudos Literários desse ano foi dedicado ao poeta, historiador e amigo Miguél Marvilla, falecido no dia 10 de outubro desse ano. Os participantes do evento tiveram acesso a um menu variado, com  trabalhos que revisitaram desde Ovídio e sua obra Metamorfoses e a poesia amorosa latina,   à estudos que abordaram variadas facetas da contemporaneidade, na poesia, no romance e na música, o rap, por exemplo. Vale ressaltar a ótima organização do evento e a qualidade das comunicações. Foi Muito bom rever amigos queridos do tempo do mestrado como Thiago, com quem tive a alegria de compartilhar a mesa, Eduardo, Luciana, Maria Amélia, entre outros, e os queridos pofessores Wilberth, Paulo Sodré, Raymundo, Lino e Luis Eustáquio, que foi meu orientador de pesquisa.




A programação completa do evento e os resumos das apresentações podem ser conferidas no site: