25/07/2016
22/07/2016
Entre Santos e frutos de ouro: Nice Nascimento Avanza (Por Renata Bomfim)

ARTES PLÁSTICAS NO ESPÍRITO SANTO
Amigos,
O primeiro contato que tive com a obra da artista plástica Nise Nascimento Avanza, foi no Museu de Arte do Espírito Santo (MAES) numa exposição retrospectiva de sua obra. Nice nasceu em 1938, em Vitória, ES, no bairro de Caratoíra onde reside até aos 9 anos. Dificuldades financeiras fizeram com que os pais da artista se mudassem para São Paulo em busca de trabalho, sua mãe passou a prestar serviços como lavadeira no Colégio externato Sagrado Coração, das irmãs Vicentinas.
O primeiro contato que tive com a obra da artista plástica Nise Nascimento Avanza, foi no Museu de Arte do Espírito Santo (MAES) numa exposição retrospectiva de sua obra. Nice nasceu em 1938, em Vitória, ES, no bairro de Caratoíra onde reside até aos 9 anos. Dificuldades financeiras fizeram com que os pais da artista se mudassem para São Paulo em busca de trabalho, sua mãe passou a prestar serviços como lavadeira no Colégio externato Sagrado Coração, das irmãs Vicentinas.
Aos 16 anos Nice se casou pela primeira vez, o casamento não dá certo, separa-se e, com dois filhos, retorna para Vitória. Lutando pela sobrevivência, Nice trabalha na Santa Casa de Misericórdia de Vitória, possui uma quitanda no Bairro Alto Caratoíra mas, seu sonho, é ser cantora de rádio.
Nice realiza seu sonho, passa a cantar em programas de calouros e chega a profissional de rádio, se apresentando na Rádio Espírito Santo e firmando contrato com a Rádio Capixaba, nessa época, conhece o segundo marido, com quem terá outros dois filhos.
A incursão da artista pelo mundo da pintura acontece por incentivo dos amigos que a observam, encantados, desenhar sobre papéis de embrulho da lanchonete onde trabalhava. A primeira encomenda de quadro recebida por Nice, foi paga com pinéis e tintas, seu talento logo revelou-se e ela passou a produzir mais e a expôr.
Em1969 o MAES inaugurou a primeira exposição de Nice com cerca de 15 quadro. Nessa ocasião Moa escreve sobre a artista: "Esta artista capixaba. A mulata dos olhos bonitos, tem o dom e a felicidade de ver ingenuamente a beleza da natureza sem contorno, que na sua imaginação o tem".A obra de Nice é primitivista, dentre os temas de preferência da pintora destaca-se o cacau, "fruto de ouro" , e sua obra reflete o movimento de contra cultura de sua época no campo artistico. Cenas religiosas,do dia a dia no campo e dos animais, também povoam o universo artítico de Nice, que deixou uma obra vasta e rica. Enfim, queridos, Nice é uma figura muito importante no cenário artístico capixaba e brasileiro, esperamos ver outras vezes seus trabalhos expostos e, tomara que, ela e tantos outros, se tornem objetos de pesquisa na nossa Universidade.




Fonte: as informações descritas apoiam-se no material desenvolvido pelo MAES na época da retrospectiva de Nice.
A obra Nice s/titulo 85x72, que antes fazia parte do arcevo de Jose Agusto Avanza, pertence agora ao colecionador capixabaJoabi Caldeira, a quem parabenizo pelo cuidado com obra de Nise e agradeço o convite para visitar o acervo.
21/07/2016
As revelações sobre bunker em Carapebus: no limite entre a realidade e a ficção (Romance de Marcos Bubach)
O Sítio Casarão, edificação
suntuosa, em estilo germânico, construído em uma região estratégica guarda
mistérios e segredos que, até hoje, mexem com o imaginário dos habitantes da região em
seu entorno. Aliás, muitos não conhecem o local, pois o casarão é ladeado por mata
atlântica, um extenso bambuzal e uma grande lagoa; e outros nem se atrevem, por
medo.
Há vinte anos atrás tratava-se de medo do idealizador
do casarão, que era um homem excêntrico, de poucas amizades e dizem que recebia
a tiros os que se atrevessem a entrar em sua propriedade, nos dias de hoje, o
medo é por conta de boatos que dizem que esse casarão é mal assombrado, isso devido
a relatos de pessoas que presenciaram fatos curiosos nas dependências deste
valhacouto.
Agora o seu legado, transforma-se em uma ficção: “Os Mistérios do Casarão em Carapebus e a
Fuga de Berlim”, obra que combina minha criatividade de
escritor, unindo todas as lendas e estórias ao contexto histórico da época
de sua construção; de forma a conduzir o leitor a uma viagem
onde realidades e invenções, que norteiam essa que é uma
das mais intrigantes construções existente no Espírito Santo, se
confundem ao preencher espaços na história com pseudos
acontecimentos.
Assim, o provável e o
improvável, entrelaçados em uma trama surpreendente de fatos e
inverdades, levarão o leitor ao final do enredo deixando-o em estado de
irresolução, incerteza e, quem sabe, de perplexidade.
.
Os mistérios e segredos do Sítio Casarão tornam-se
nessa brochura o "elo perdido" de
um tenebroso período da história, no qual o casarão é edificado como um valhacouto para
abrigar europeus que aqui eram perseguidos e também refugiados da Segunda
Guerra que estiveram ao lado de Hitler.
.
O casarão possui 54 cômodos, 11 banheiros, passagens
secretas, armário com porta secreta que leva a outros quartos, calabouços,
túnel com bifurcações sem saída e armadilhas; esse túnel desemboca na Lagoa de
Carapebus que, por sua vez, deságua no mar. Possui também um dos primeiros
elevadores do estado, câmara frigorífica e ainda outros mistérios a serem
desvendados.
A ideia de registrar em livro foi
exatamente para manter vivas essas peculiaridades e curiosidades sobre o
casarão. Em 2012/13 já percebia que o estado da construção só piorava, e, pensava:
se tudo isso desabar, um dia, a história se perderá e ninguém mais saberá o que
esse casarão possuía e o que aqui se passou, pelo menos, segundo relatos.
Por isso, decidi juntar todo o material disponível,
como fotos e depoimentos, desde essa época, para imortalizar em meu 3º livro
essa parte da história que se passou em nossas terras.
Por. Marcos Bubach
Quem quiser a obra deve entrar em contato
com o escritor através dos contatos:
tel.: (27) 99512-2130
La alquimia del ser en Luna Mojada, de Francisco de Asís Fernández (por Renata Bomfim e tradução de Sérgio de Castro)
La obra poética Luna Mojada (2015), edición bolingüe, del escritor nicaragüense Francisco de Asís Fernández, desafía el lector para que se aventure. El libro, con treinta y ocho poemas, le da forma a una especie de Cosmogonía poética donde los valores femeninos, masculinos e instintos básicos se mezclan creando nuevos mundos. Inicio mi mirada a esa obra por la pintura en acrílico sobre tela del artista plástico colombiano Mario Londoño (1954), escogida como portada. En esa obra pictórica observamos una mujer acostada sobre un caballo. El cuero desnudo de la hembra se une al del imponente animal, de modo que no podemos diferenciar los hilos de su pelo de la cola del equino. No hay movimiento entre los elementos de la obra, apenas el silencio ruidoso del eco de las voces que necesitan ser escuchadas. La luna, suspendida, asiste al espectáculo de unión entre seres distintos y afines. Considérese al aviso al lector, entraremos en un mundo de sueños inédito, en él que nada es lo que parece ser, pero que, al mismo tiempo lo es a priori. Mundo arquetipo, nocturno, erótico, dual, preñado de ansiedades, abismos y alboradas. La luna, guardadora de los misterios femeninos de la creación, símbolo de la Gran Madre primordial, está húmeda, lista para el gozo y la procreación. Esa obra nos arremete a un lugar intersticial en el que coexisten el bien y el mal. En el poema de Rubén Darío “Coloquio de los Centauros”, el centauro Ástilo revela la profundidad del misterio poético. Él dice: “El enigma es el soplo que hace cantar la lira”. Así, como informó Ástilo, la enunciación del yo poético en Luna Mojada indica que ese no es un libro de revelaciones, antes, de misterios. Indica que hay un camino que sólo el lector puede recorrer en la intimidad de la lectura, senda iniciática que le permitirá vislumbrar nuevos sentidos y realidades, pues, sondear el verso es ser sondeado por él, es romper con todo, no tener la verdad como horizonte y tampoco el futuro como morada. Es así como el crítico Maurice Blanchot define el poema: “la realización total de la irrealidad”. Deparémonos con el yo lírico expresando la llegada de un tiempo de alegría y gozo posible, apenas, a través del amor. El poema “¿Cómo era las auroras al principio del mundo?” despierta recuerdos de un pasado común y lleno de novedades: “cuando descubrimos el fuego/ y pintamos las cuevas de Altamira”. “Retrato del poeta”, poema que le sigue, indica el surgimiento del principio de la desarmonía, explicitando la existencia de una fisura: “una gotera infame en el techo de mi cabeza”. Pensamientos inundados, ya no hay como resguardar las “memorias, imágenes,/ manías, amores y rencores antiguos,/ que sostenían muchas paredes de papel y de sombras”. Hay también el despertar de una nueva fuerza destructiva y abisal en el cierne de la obra: “En mi cuerpo parece haberse liberado un animal”. Destaco aquí la soledad esencial que emana de la obra literaria. Como afirmó Blanchot (2010), el libro no es la obra, antes, un objeto hecho de palabras estériles. La obra comprende un evento en el cual las palabras se materializan en la intimidad de quien escribe y de quien lee. Así, la palabra tiene su inicio en la inquietud del yo poético. Los sueños fueron derrotados y el escenario es alucinante: “exquisita gota de locura”, los ojos de la mujer hacen recordar la aurora inaugural, “ojos más intensos que las noches del Lower East Side/ y las cataratas del Niágara”. En la duda entre el sueño y la realidad existe apenas una certeza: los ojos de esa mujer “Con tantos sueños derrotados”.
Es en el sueño que el yo poético puede recobrar la antigua unidad. Transportado por el “Ángel de la noche” a lugares espectaculares, vislumbra un “nuevo mundo” donde los seres de las aguas y del aire se juntaban. Ese lugar sin lágrimas y sin dolores no admite el corazón humano, sin embargo, en el poema subsiguiente, titulado “Hay un lugar en el mundo”, vemos la emergencia del nuevo equilibrio entre humanos y no humanos: la intimidad entre el yo poético y los animales revela “la más íntima amistad”, un vínculo de confianza. El yo, solitario, conversa con los pájaros, así se siente que apura sus sentidos y se hacen “más peligrosos que un tigre de Bengala”, por lo tanto, listos para “arrancar la virtud de la vida”.
Hay hambre y sed, necesidades primarias humanas que lanzan el yo en la senda del autoconocimiento, búsqueda que lleva a la epifanía. El yo poético se depara con la belleza de la vida marina y se agita con “el temblor de las estrellas”. Es en el sueño que el deseo de la unidad con el todo se realiza. El poema “Luna Mojada” ratifica el campo onírico como lugar de viabilidad de lo imposible, vivencia arquetípica, primordial, cuna que acoge y trasmuta el muerto, así como la semilla que dormita, preservándole el alma que, en determinado momento, “aflora y parte”. Cumplida esa etapa, el neófito está listo para seguir adelante. Las palabras se extinguieron, la muerte y la vida se extinguieron, resta el despertar y el descubrimiento, “este milagro”.
El ermitaño solitario encuentra el equilibrio dinámico de la vida: “alimentaba su alma con el Don del silencio”, entretanto, por más que el yo se realice en el paraíso de la palabra, existe la tentación del encuentro con el otro: con ella, la mujer que preexiste, resiste, y se hace en inéditos. La hijas de Lót con su belleza y seducción, y la mujer que “era un cadáver antes de morir” revelan rostros del feminismo cuya potencia es capaz de corromper al hombre, hacer pedazos las reglas, desagradar a Dios y dar a luz a nuevos hombres, hijos de un padre/abuelo sin máscaras. Es tiempo de preguntas. ¿A quién dirigírsela? A las estrellas.
El poema “Tamara lírio” expone los instintos, devela de la hembra devoradora, belleza que pisa el suelo sagrado sin ceremonias. El ritual erótico prosigue en “Arcana Fata”. En el centro del paraíso, entre los ríos “Tigris y Éufrates”, el yo poético prepara como ofrenda un “corazón de carbones ardendo”, enseña a hacerse nuevamente uno con la amada al ser devorado y por ella asimilado. Mientras tanto, la consumación antropofágica no fue posible, pues, el yo lírico no supo huis de sí mismo, fue (¿inocentemente?) engañado por sus sentidos.
El elemento fuego surge en el poema “Cloto, Láquesis y Àtropos”. En él, las hilanderas de la vida y de la muerte, señoras del Destino, viajan en un barco en llamas. Ellas chupan “la sustancia esencial” de un cuerpo, prefieren tener como víctimas a los vagabundos y los errantes solitarios. Las hermanas se miran en un pedazo de espejo hecho de mar: juego de imágenes, ilusiones y multiplicidad. El doble especular presente en ese poema reaparecerá en el “Yo también quise la dicha”, en el cual el yo lírico se ve remolcado por una sombre y busca liberarse: “Pero la bala de plata estalló en la cara”. Desfigurado, el yo ve frustrado su ideal de felicidad. ¿Qué hará el hombre con la belleza que abunda? ¿Qué hará Dios en su día de descanso? ¿Dónde estará la imagen real, frente a los escombros del rostro despedazado, de los reflejos y de los fragmentos? Observamos que el poeta emprende una crítica sobre el sentido de la vida, de la creación, de la objetividad de la belleza como metáfora del arte y de la poesía. ¿No sería la duda la quintaesencia de la creación? La Serpiente es la guardiana de ese paraíso de dudas. Perderse en la soledad ee un atributo del poeta, pero, hay un faro, una luz: los ojos de la amada. El poema, “El el íris de tus ojos”, dedicado a la esposa y compañera del poeta, Señora Gloria Gabuardi, vemos la temeridad del instante, el poema enseña que el paraíso no desaparece, cambia continuamente, incluso, concentrándose entero en los ojos y en la palma de, la mano de la mujer. En “Celebración de la Primavera”, las palabras de amor son direccionadas a la amada: “Con ella conocí la agonía de los ríos del desierto”. En “Los hijos de Caín” se establece el embate entre la práctica del bien y la alabanza de los pecados abundante de los “hijos de Caín”. Caín teme ser muerto por Abel y planea asesinarlo. El yo lírico pasa a cultivar obsesiones, se siente una serpiente inútil, sin principio y sin final. El ouroboros, símbolo representado por la serpiente que se devora a sí misma a partir de la propia cola, indica que el yo penetró en el tiempo de la eternidad, del sueño, en el lugar donde encuentra una princesa encantada que alerta sobre la (in)finitud de la vida: “Me fue quedando en todo lo que amé”. En el instante, el yo lírico quiere devorar “estrellas fugaces”, tiene hambre del infinito y comprende que “somos un grano de arena en medio de un desierto azul”, espacios vacíos contemplados por el universo. El yo lírico, “arrancado del silencio de la noche/ del oscuro cielo nocturno lleno de estrellas/ del caos celestial”, contempló la belleza que lo deseaba, necesitando de su mirada.
Observamos que después de la jornada épica de descubrirse a sí mismo a partir del otro, de la alteridad (mujer, animal y elementos celestiales y terrenales), y también siendo visto, el yo poético entona un canto laudatorio a la mujer. No es por un acaso que el poeta dedica los versos a su progenitora, la Señora Rosita Arellano. “Letanías para nuestra señora, la Virgen de la Rosa” cierra el libro de poemas, que es un ruego, una oración por la vida: “Rosa azul que representas milagros y nuevas posibilidades de la vida/ Rosa roja que representas el amor y la pasión”. Así como las Parcas, señoras del Destino y el ouroboros presentes en la obra indican que el poema es una antonimia, instaura lo paradojo, pues, de la misma manera que la vida posee un comienzo y encuentra su final (por la muerte), simbólicamente la serpiente es aplastada por la mujer que hace que ese mismo ser renazca como Otro, trayendo dentro de sí todos los que lo antecedieron: la humanidad entera.
A alquimia do ser em Luna Mojada, de Francisco de Asís Fernández (Renata Bomfim)
A obra poética Luna Mojada (2015), edição bilíngue do escritor nicaraguense Francisco de Asís Fernández desafia o leitor para que se aventure. O livro com trinta e oito poemas da forma a uma espécie de Cosmogonia poética onde valores femininos, masculinos e instintos básicos se misturam formando novos mundos. Inicio o olhar para essa obra pela pintura em acrílica sobre tela do artista plástico colombiano Mario Lodoño (1954), escolhida como capa. Nessa obra pictórica observamos uma mulher deitada sobre um cavalo. O corpo nu da fêmea se une ao do imponente animal, de forma que não podemos diferenciar os fios dos seus cabelos dos da cauda do equino. Não há movimento entre os elementos da obra, apenas o silêncio ruidoso de ecos de vozes que necessitam ser escutadas. A lua, suspensa, assiste ao espetáculo de união entre os seres distintos e afins. Considere-se o leitor avisado, entraremos em um mundo de sonhos inédito, onde nada é o que parece ser, mas que, ao mesmo tempo é à priori. Mundo arquetípico, noturno, erótico, dual, prenhe de ansiedades, abismos e alvoradas. A lua, guardadora dos mistérios femininos da criação, símbolo da Grande Mãe primordial, está úmida, pronta para o gozo e para a procriação. Essa obra nos arremessa para um lugar intersticial onde o bem e o mal coexistem. No poema de Rubén Darío “Colóquio de los Centauros”, o centauro Ástilo revela a profundidade do mistério poético, ele diz: “El enigma es el soplo que hace cantar la lira”. Assim, como informou Ástilo, a enunciação do eu poético em Luna Mojada indica que esse não é um livro de revelações, antes, de mistérios. Indica que há um caminho que apenas o leitor pode perfazer na intimidade da leitura, senda iniciática que lhe possibilitará vislumbrar novos sentidos e realidades, pois, sondar o verso é ser sondado por ele, é romper com tudo, não ter a verdade como horizonte e nem o futuro por morada. É assim que o crítico Maurice Blanchot define o poema: “a realização total da irrealidade[1]”. Deparamo-nos com o eu lírico expressando a chegada de um tempo de alegria e regozijo possível, apenas, por meio do amor. O poema “¿Cómo eran las auroras al pricipio del mondo?” desperta lembranças de um passado comum e cheio de novidades: “cuando descubrimos el fuego/ y pintamos las cuevas de Altamira”. “Retrato del poeta”, poema que o sucede, indica o surgimento do princípio da desarmonia, explicitando a existência de uma fissura: “una gotera infame en el techo de mi cabeza”. Pensamentos inundados, já não há como se resguardar as “memorias, imagines,/ manías, amores e rencores antiguos,/ que sostenían muchas paredes de papel e de sombras”. Há também o despertamento de uma nova força, destrutiva e abissal no cerne da obra: “En mi cuerpo parece que se solto um animal”. Destaco aqui a solidão essencial que emana da obra literária. Como afirmou Blanchot (2010), o livro não é a obra, antes, é um objeto feito de palavras estéreis. A obra compreende um evento no qual as palavras se concretizam na intimidade de quem escrever e de quem lê. Assim, a jornada tem início com a inquietação do eu poético. Os sonhos foram derrotados e o cenário é alucinante: “exquisita gota de locura”, os olhos da mulher fazem lembrar a aurora inaugural, “ojos más intensos que las noches del Lower East Side/ y las cataratas del Niágara”. Na dúvida entre o sonho e a realidade existe apenas uma certeza: os olhos dessa mulher “Com tantos soños derrotados”.
É durante o sonho que eu poético pode recobrar a antiga unidade. Transportado pelo “Angel de la noche” para lugares espetaculares, vislumbra um “nuevo mundo” onde os seres das águas e do ar se juntavam. Esse lugar sem lágrimas e sem dores não comporta o coração humano, entretanto, no poema subsequente, intitulado “Hay um lugar em el mundo”, vemos a emergência de novo equilíbrio entre humanos e não humanos: a intimidade entre eu poético e os animais revela, “la más intima amistad”, um vínculo de confiança. O eu, solitário, conversa com os pássaros, assim ele sente que seus sentidos são apurados e se tornam “más peligrosos que um tigre de Bengala” e, portanto, prontos para “arrancar la virtude de la vida”.
A busca pela reconciliação entre os opostos e pelo apaziguamento do que há de feroz no humano, põe em cena a morte que, assim como a vida, habita o campo do sagrado. É a morte que “arranca los pedazos de memoria” e pressupõe uma quebra da relação com o mundo ordinário, cotidiano, introduzindo na obra um jogo textual sobre o qual não se tem controle. O eu poético enxerga os esquecimentos e as muitas vidas presentes na morte.
Há fome e sede, necessidades primárias humanas que arremessam o eu na senda do autoconhecimento, busca que leva à epifania. O eu poético se depara com a beleza da vida marinha e se agita com “el temblor de las estrelas”. É no sonho que o desejo de unidade com o todo se realiza. O poema “Luna Mojada” ratifica o campo onírico como lugar de viabilidade do impossível, vivencia arquetípica, primordial, berço que acolhe e transmuta o morto, assim como a semente que dormita, preserva-lhe a alma que, em dado momento, “aflora e parte”. Cumprida essa etapa, o neófito está pronto para seguir em frente. As palavras se extinguiram, a morte e a vida se extinguiram, resta o despertar e o descobrimento, “este milagro”.
O ermitão solitário encontrou o equilíbrio dinâmico na vida: “alimentaba su alma con el Don del silencio”, entretanto, por mais que o eu se realize no paraíso da palavra, existe a tentação do encontro com o outro: com ela, a mulher que preexiste, resiste, e se performa em inéditos. As filhas de Lót com sua beleza e sedução, e a mulher que “era ya um cadáver antes de morir” revelam faces do feminino cuja potência é capaz de corromper o homem, estilhaçar as regras, desagradar a Deus e dar a luz a novos homens, filhos de um pai/avô sem máscaras. É tempo de perguntas, a quem endereça-las? Às estrelas.
O poema “Tamara lírio” expõe os instintos, desvela o poder da fêmea devoradora, beleza que pisa o solo sagrado sem cerimônias. O ritual erótico prossegue em “Arcana Fata”. No centro do paraíso, entre os rios “Tigris y el Éufrates”, o eu poético prepara como oferenda um “corazón em carbones ardendo”, ele anseia tornar-se novamente um com a amada ao ser devorado e por ela assimilado. Entretanto, a consumação antropofágica não foi possível, pois, o eu lírico não soube fugir de si mesmo, ele foi (inocentemente?) enganado pelos sentidos.
O elemento fogo surge no poema “Cloto, Láquesis y Àtropos”. Nele, as fiandeiras da vida e da morte, senhoras do Destino, viajam em um barco em chamas. Elas sugam “la sustância essencial” de um corpo, preferem ter como vítimas os vagabundos e os errantes solitários. As irmãs se miram em um caco de espelho feito de mar: jogo de imagens, ilusões e multiplicidade. O duplo especular presente nesse poema reaparecerá no “Yo también quise la dicha”, no qual o eu lírico se vê atrelado a uma sombra e busca libertar-se: “Pero la bala de plata estallo en la cara”. Desfigurado, o eu vê gorado o seu ideal de felicidade. O que fará o homem com a beleza que sobeja? Que fará Deus no seu dia de descanso? Onde estará a imagem real, frente aos escombros da face estilhaçada, dos reflexos e dos fragmentos? Observamos que o poeta empreende uma crítica sobre o sentido da vida, da criação, da objetividade da beleza como metáfora da arte e da poesia. Não seria a dúvida a quintessência da criação? A Serpente é a guardiã desse paraíso de duvidas. O perder-se na solidão é apanágio do poeta, mas, há um farol, uma luz: os olhos da amada. O poema “En el íris de tus ojos”, dedicado à esposa e companheira do poeta, Sra. Gloria Gabuardi, vemos a temeridade do instante, esse poema ensina que o paraíso não desaparece, ele muda continuamente, inclusive, podendo concentra-se inteiro nos olhos e na palma da mão da mulher. Em “Celebración de la Primavera”, as palavras de amor são direcionadas à amada: “Con ella conoscí la agonia de los ríos del desierto”. Em “Los hijos de Caín” instaura-se o embate entre a prática do bem e a louvação dos pecados abundantes dos “hijos de Caín”. Cain teme ser morto por Abel e planeja assassiná-lo. O eu lírico passa a cultivar obsessões, sente-se uma serpentes inútil, sem principio e sem fim. O ouroboros, símbolo representado pela serpente que devora a si mesma a partir da própria cauda, indica que o eu penetrou o tempo da eternidade, do sonho, nesse lugar ele encontra uma princesa encantada que lhe alerta sobre a (in)finitude da vida: “Me fue quedando em todo lo que amé”. No instante, o eu lírico quer devorar “estrelas fugaces”, ele tem fome de infinito e compreende que “somos un grano de arena en medio de un desierto azul”, espaços vazios contemplados pelo universo. O eu lírico, “arrancado del silencio de la noche/ del oscuro cielo nocturno lleno de estrelas/ del caos celestial”, contemplou a beleza a deseja-lo, necessitando de sua mirada.
Observamos que após a jornada épica de descobrir a si mesmo a partir do outro da alteridade (mulher, animal e elementos celestes e terreais), e também sendo visto, o eu poético entoa um canto laudatório à mulher, não é por acaso que o poeta dedica os versos à sua genitora, a Sra. Rosita Arellano. “Letanias para nustra señora la Virgen de la Rosa” encerra o livro de poemas, ele é um rogo, uma oração pela vida: “Rosa azul que representas milagros y nuevas possibilidades de la vida/ Rosa roja que representas el amor y la pasión”. Assim como as Parcas, senhoras do Destino e o ouroboros presentes na obra indicam que, o poema é uma antonímia, ele instaura o paradoxo, pois, da mesma maneira que a vida possui um começo e encontra o seu fim (pela morte), simbolicamente a serpente é pisada pela mulher que faz com que, esse mesmo ser renasça como Outro, trazendo dentro de si todos os que o antecederam: a humanidade inteira.
20/07/2016
Ligeiro menino (poema de Ruth dos S. Santos)
Oh, menino, lá vai ele titubeando,
Caminha por entre pedras
Mas, por entre rosas, sai salteando,
Ligeiro é seu passo, assim como os lábios.
Não se apresse! Devagar! Cuidado com os buracos.
Oh menino, se tu soubesses andar devagar,
Da vida aproveitarias tudo o que ela tem a te dar,
Mas é certo que por longos caminhos trilharás,
Nem mesmo seu passo apressado há de te adiantar.
Tão rápido como tuas canelas, tua juventude findará,
Deixarás de ser o menino para o homem se tornar.
Da morte e velhice, não poderás correr,
O menino que tu és não há de permanecer,
E tão velho como sou, vou antes de você.
18/07/2016
ATOS (IN)TENCIONAIS (poema Renata Bomfim)
I
Ainda não viste a minha cor,
Nem sentiste o meu cheiro,
Nunca me conhecerás por inteiro.
Nem sentiste o meu cheiro,
Nunca me conhecerás por inteiro.
Esta sou.
Sempre outra, outra,
outra,
Desde que o mundo é.
Desde que o mundo é.
Fui e continuarei sendo.
Ainda não viste a curva espinhal
Nem sentiste o abalo dos ventos
O furo seco do punhal: a lâmina.
São de ferro as minhas vértebras.
São de ferro as minhas vértebras.
II
Não sou para ti,
Nem para o teu prazer.
Não sou adorno para a tua casa,
Não sou adorno para a tua casa,
Tempero da tua cama, não!
A mula incansável e obediente
A mula incansável e obediente
É fantasia tua.
Não sou.
Não estou aqui para ti.
Talvez por isso vejas apenas o desejo
E não a mim e nem as coisas do mundo.
Talvez por isso não enxergues
E não a mim e nem as coisas do mundo.
Talvez por isso não enxergues
A vida íntima da minha vida.
Não compreendes:
Sou o vazio grávido.
Sou o vazio grávido.
III
Fértil e pronta.
Nasci formada de ventre,
Nasci formada de ventre,
Vísceras, carne, sangue, cuspindo símbolos.
Estou aqui.
Estou aqui.
Enxergas-me agora?
Sinuosa e cantando lisuras, sigo.
Gestada pelo vazio no interstício,
No entre,
(Lugar que desconheces)
Fui, sou a dona dos espaços ambíguos.
Habitas o centro e não sabes
Do oco e do nem vazio.
No entre,
(Lugar que desconheces)
Fui, sou a dona dos espaços ambíguos.
Habitas o centro e não sabes
Do oco e do nem vazio.
IV
Não pretendo revelar-te esses segredos femininos,
Ignoras as sombras vivas que nos acompanham.
Ignoras as sombras,
Ignoras as sombras,
Pobre de ti!
Não vês que o canto em ondas curtas e longas
faz o tempo ruim.
Pobre de ti!
Mira, o tempo abre fissuras na existência,
Desconheces o canto e suas ondas?
Pobre de ti!
Aprende o caminho de volta.
Pobre de ti!
Mira, o tempo abre fissuras na existência,
Desconheces o canto e suas ondas?
Pobre de ti!
Aprende o caminho de volta.
V
Um motivo para viver.
Um motivo para viver.
Vivo porque o ar se impõe aos meus pulmões.
Porque o meu corpo possui vontade própria.
Embora o sol aqueça a minha existência e torne
tudo luz
Eu prefiro a lua, as sombras, o escuro.
Uma sombra me acompanha.
Ela é espessa e não respeita obstáculos.
A sombra não precisa de motivos.
Eu preciso levantar após a noite mal dormida.
Gostaria de ter alguma certeza aos abrir os olhos.
Nenhuma certeza!
VI
Vozes conflituosas.
Alguém me toca
Despertam os demônios da memória.
Necessito esquecer.
Necessito te esquecer.
Quero ser derrotada na luta dos inocentes.
Fui mulher de muitos homens
Mantenho a pureza
Como o lírio que se abriu sob
O manto da aurora.
VII
O homem que amei se ria dos meus bocejos.
O homem que amei se ria, ia, ia, ia, ia...
Hoje faz um dia que perdi as chaves.
VIII
Você enxerga a vida que se oculta
Dentro de mim?
Reconhece a vida de minha vida?
Dentro de mim?
Reconhece a vida de minha vida?
Normal que não me enxergues,
Normal.
Só enxergas o que teus olhos imaginam,
O teu desejo te cega.
Tive uma paciente chamada Norma,
A vida íntima de Norma era linda, ela era livre.
Mas, quantos remédios,
A vida íntima de Norma era linda, ela era livre.
Mas, quantos remédios,
Faziam de tudo para ela se adequar.
Norma passava a sua vida ordinária
drogada.
A vida secreta de minha vida possui legislação própria.
Vivo drogada de poesia.
Ontem cheirei Walt Whitman,
Depois injetei uns românticos e, por
fim,
Camões, cantos encapsulados.
Talvez as vozes que nos orientam
Na passagem da vida íntima para a vida
revelada
Permaneçam se comunicando através da
mente.
IX
Em segredo plantei um jardim.
Nada de simetria.
Em segredo plantei um jardim.
Nada de simetria.
Cultivo as flores da desordem.
Em segredo, a vida de minha vida se expressa
Em segredo, a vida de minha vida se expressa
Nas entrelinhas de mim, ou dessa que
imagino ser.
Tudo normal, mas, não sou a Norma.
Tudo normal, mas, não sou a Norma.
X
Me achas rude,
Grosseira,
Má.
Sou essa.
Grosseira,
Má.
Sou essa.
Grotescamente rude e desordeira,
Leio as palavras que balbucias
A contrapelo.
Sou barroca, encarniçada
Saturnina, desvairada,
Sou isso.
Hierática, elétrica,
Orgástica, dramática.
Nada Rococó,
Nada Rococó,
Não amenize os fatos,
Gosto dos efeitos,
Vamos debulhar afetos:
Sou barroca,
barroca.
Sou barroca,
barroca.
*** Traduzido para o castellano por Pedro Sevylla de Juana
14/07/2016
13/07/2016
Elogio da sombra em dez atos concretos (Renata Bomfim)
I
É demais!
O que?
Essa dor parece rasgar as entranhas.
Toma um remédio e vai dormir.
Dormiria, sim, se pudesse.
Fecharia os olhos e voltaria a abri-los, apenas,
Quando fosse outro o mundo.
Você só fala bobagens! A gente é o que é, acabou!
Sombras.
Passo pela cidade observando as sombras.
O sol desenhou no pinheiro uma bastante engraçada, parecia
uma peruca de palhaço.
Caminhei pelo centro observando os casarios, vi memórias
Projetadas na rua, nos prédios vizinhos que se erguiam
felizes e fumês.
As sombras.
Elas passam despercebidas aos demais, por que se impõem aos
meus olhos?
Senti um calafrio. Pensei que poderia ser alguém que não
está mais aqui.
Mas como isso pode ser possível?
Claro que é possível.
Mas...
Mas nada, mas tudo. Dissolvemo-nos, entretanto, permanecemos
aqui, é uma desgraça, porém, uma condenação merecida. Precisamos aceitar a
sombra antes que ela nos renegue.
Mexo nos cabelos. As madeixas e as sombras, nesse momento,
se tornaram o centro da minha vida. As sombras não podem ser pintadas, mas os
cabelos sim, por isso eu os coloro sempre, como se esse gesto simples e
estúpido pudesse mudar a cor da mente (densa e cinzenta como as sombras).
II
É preciso coragem para enxergar a sombra. Ela sabe, aproxima-se sorrateira como um crocodilo grande.
Para com essa história de sombra, cansei de escutar.
Tudo bem, mas que as sombras estão vivas, ah! Estão
sim.
Ok, já entendi, vou perguntar para a minha sombra se ela deseja
ir a Camburi, certamente recusará.
Olho para esse ente que enxerga apenas a densidade e sussurro: você é uma sombra!
III
O sol rasgou o céu essa manhã, lindo!
Já não acredito em prelúdios e vivo, agora, no ritmo do
acaso: samba do caos.
Penso em plantar feijões que brotem e se elevem para além
das nuvens, onde existe um castelo cheio de riquezas, e um gigante bobo. Logo
vem à mente a imagem da sombra projetada do gigante. Imagino que ela cobriria
parte da terra (sinto uma excitação), talvez essa sombra toda cubra a Ilha. Direi
ao gigante onde vivo e ele se inclinará da nuvem para ver Vitória: o povo capixaba
não vai entender o fenômeno.
O céu matutino já foi alinhavado, agora é tarde, hora de eu
me desdobrar como um origami, de deixar as leituras fantásticas, me despedir de
Goya: Saturno venceu! Viu, estimado pintor, não adiantou pintar sombras sobre o
muro, a fantasia sempre vence, a tela aprisiona as imagens selvagens
alimentando-as com branco e ocre. Vou cuidar do muro da minha casa, na verdade esse
muro é feito com grades, a sombra pode passar, mas, nunca se projetará inteira.
Vou cozinhar feijão.
IV
Preciso de ti,
De tua mão sobre a minha,
Preciso de ti.
As cantigas de criança rondam o meu coração,
Os ouvidos estão encharcados de melodias saudosas.
Um torrão de açúcar derrete na boca,
A garganta só conhece o amargor.
Preciso de ti sem precisar de ti.
Escolhi te desejar por medo do vazio.
Olho as mãos movidas pelo tempo,
Os dedos ensaiam atos concretos de vazio.
Tuas mãos projetam lindas sombras
Imagino o espetáculo de imagens que se formariam se elas
soubesse bailar, se não fossem tão duras. Sim, não são apenas os pés que
dançam, as mãos são dançarinas natas. As tuas estão endurecidas porque estás
surdo para as cantigas de criança.
O quanto lamento. Perdeste as carnes e o sangue, te
tornaste Carrara.
Lamento, mas, ainda assim, te admiro.
V
Abri a última gaveta do guarda-roupa e achei um lenço rock end roll comprado numa feirinha no Chiado.
Lisboa é considerada uma cidade de luz. As pedras são tão brancas que parecem
templos. Parece que os lisboetas vivem num eterno exercício de adoração ao sol
e exorcismo das sombras.
Sempre fui mulher das sombras, enamorada da luz. Os
cantinhos dos cristais, velas, incensos, orações dobradinhas, cartas queimadas
em oferenda aos senhores do Karma, o espelhinho na parede violeta. Tudo isso de
um lado, do outro, o tercinho, a bíblia, os cânticos: um mimo!
O meu lenço de caveirinhas é lindo: imita seda, é de um
rosa meio século XIX, tem algo de aristocrático e decaído. O lenço é lindo e é
meu! Lembro que passeei com ele na Espanha e no Marrocos, ninguém viu,
acredito, mas passeei com os cabelos pintados, o lencinho rock end roll meio século
XIX e a mente cinzenta e fértil. Gaveta fechada.
VI
A sombra dos poderosos é o desassossego do grande vazio.
Não o vazio prenhe de possibilidades, mas o oco, o buraco, boca que nunca se
sacia. Sim, o poder é a fome insaciável de tudo. Entre quatro paredes, para os
poderosos, a mulher é um banquete, fruição dos sentidos, presa. Fora da
intimidade eles rechaçam a mesma mulher: a fome é a mesma. Pulsão, pulsão,
pulsão... tudo explicado, menos o buraco insondável que arrasta os poderosos
que nos arrastam para o buraco.
VII
Vai buscar o raio de luz,
Vai buscar o pêssego maduro.
Anda e canta pelo caminho,
Os pássaros te acompanharão.
VIII
Sou uma mulher barroca, pictórica e trágica.
Por isso comprei uma matriosca. Sempre quis ter uma dessas
bonecas russa. A minha matriosca é um tanto difícil de abrir,¾ rio enviesado¾, talvez por isso ela se pareça tanto comigo. Pego
delicadamente a bonequinha (eternamente grávida de si mesma) e a torço com um
jeitinho. Eis que ela reaparece, menor, mas igual (filhotinho de si mesma): oca,
oca, oca... Novamente, torção delicada e, opa, que lindinha, outra, depois
outra, depois outra, até que chego a uma versão miudinha e maciça, que não se
abre mais (o sorriso agora é miúdo e maciço como a boneca). Sinto como se
chegasse ao fundo de mim mesma. A razão está imobilizada, percebo algo
profundamente estranho, indefinível (compaixão, talvez), não sei, é como se
essa matriosca fosse eu, ou como se eu fosse essa matriosca, talvez ainda, uma camada
oca gestando outras camadas num sem fim.
IX
Tem um casario antigo no centro da cidade. Sempre que passo
por ele aceno para a moça na janela. Nunca a conheci pessoalmente, ela deve ter
cerca de dezesseis anos. Há mais de vinte anos passo na frente dessa casa, a
moça continua com dezesseis anos. As vezes ela usa um colar de pérolas. Imagino
que a vida deva ser tranquila para essa amiga misteriosa, mas temo que ela se
vá quando o casario for demolido pelo tempo. A imagem dessa desconhecida me
persegue, é como se ela quisesse me dizer algo, mas o que? Será que apenas eu a
vejo? É uma sombra serena, transparece inocência e solidão.
Deve estar cansada de bordar e tocar piano. A sombra por traz
da janela tem algo a dizer, agora estou certa. O casario é antigo como nós.
X
Jorge Luis Borges deu uma matriosca para a namorada bem mais
nova que ele, mas,
deu-a escondido de sua mãe: para evitar ciúmes
desnecessários entre as mulheres.
A jovem (“inocentemente”) esqueceu a bonequinha em cima da
cômoda: incômodo!
A senhora adorou o mimo, sempre admirou o filho.
O "tempo da felicidade" é um mistério!
A felicidade é o raio de luz que atravessa a sombra viva e
pensante, é o momento delicado da torção, da abertura e da exposição. Sorrio
atravessado porque apenas o coração é capaz de dar sorrisos largos. Quando
resta apenas o homem e sua alma, o coração sorri e todas as coisas do mundo
fazem sentido.
Borges nunca conheceu a escuridão. A matriosca, misteriosamente,
milagrosamente, se duplicava sempre que o escritor a desenroscava com um
sorriso enviesado no rosto e outro largo no coração. Foi assim que as mulheres
de Borges ficaram felizes e criaram uma irmandade capaz de construir e
desconstruir labirintos. Borges nunca desvendou o segredo da boneca russa, mas,
sentiu deleite naquilo que deveria aterrorizá-lo.
É preciso coragem para enxergar a sombra. Ela sabe, se
aproxima sorrateira como um crocodilo grande. Eu não temo os animais de sangue
frio, embora corra lava pelas minhas veias. Não temo o dia e nem a noite. Estou
no centro do mundo, oca e maciça como a matriosca, compartilhando amor e
palavras.
Renata Bomfim, Vitória, 2-07-2016
12/07/2016
Transmissão interrompida (Diego Lops)
Pendurado
na torre de TV, Alceu ouve os gritos de “Pula!” vindo lá de baixo, onde um
crescente grupo de pessoas vestidas de verde e amarelo se aglomera em
expectativa. Chegam carros de polícia, uma ambulância e um furgão de canal de
TV. Centenas de celulares apontam para ele. Consegue distinguir Paula entre a
pequena multidão. Ela fala com um policial, gesticulando bastante. Alceu não
consegue pensar direito. Paula olha para cima, e, do alto, ele não consegue
distinguir se sua expressão é de choro e desespero ou se comprime os olhos por
causa da luz do sol. Ele prefere que ela esteja chorando em desespero, quer que
ela se arrependa. Se ela disser que se arrepende, e que eu sou o homem da vida
dela, eu desço, pensa ele. Pega o celular e tenta ligar para ela. Precisa
ouvi-la dizer, entre soluços de choro e numa voz desesperada, que se arrepende
e que ele é o homem da vida dela. Sem sinal. Ouve o som intermitente de
vuvuzelas. O policial que falava com Paula pega um megafone e tenta dizer algo.
Em seguida, faz um sinal para que a plateia silencie. Chama-o pelo nome, alerta
para o transtorno que ele está causando, pois tiveram de desligar a transmissão
da TV, e diz que, se ele descer agora, não vai intimá-lo por perturbação da
ordem pública, que todo mundo ali entende sua situação, mas que é preciso
pensar nos outros também, não pode ser egoísta assim, afinal ele é patriota ou
não é? Alceu mal escuta o policial, novamente pega o celular de dentro da
jaqueta. O policial do megafone ordena que ele não se mova e que largue a arma
imediatamente. Dessa vez está chamando, mas Paula parece não escutar. Ele
empunha o celular e aponta para ela repetidas vezes. O policial dispara dois
tiros. Alceu cai em cima da ambulância. A multidão se dispersa rápido e vai
para suas casas assistir à semifinal entre Brasil e Alemanha. O policial ainda
dá entrevista para uma rádio, via celular, dizendo que felizmente conseguiu
impedir que o meliante concluísse seu plano e atentasse contra a vida.
(Conto do livro
Pessoas partidas, Edufes, 2016)
Sobre o autor
Diego Lops nasceu em Porto Alegre,
onde abandonou o curso de Jornalismo para concluir o de Letras. É contista,
cronista, revisor, tradutor, mau poeta, dicionarista amador, colecionador de
frases e, como se não bastasse, namora uma bibliotecária. Mantém o luxuoso blog
bemfacildelembrar e outros que tem vergonha de divulgar.
Assinar:
Postagens (Atom)





