28/06/2007

Blue chip

Ela
(em)cena multiplos papéis
moeda (in)certa
no mercado da fantasia

Blue chip
da mesa à cama
veneno e
liquidez

A desejada

Seduz
No movimento
(des)a- fiante
de suas ações
inesperadas.

by renata bomfim

22/06/2007

Separação

Deter o tempo entre os dedos
que em tudo se repete
se reparte
e de tudo se separa
(Wilbet Oliveira- Sêmen, p.22)


Separar o meu daquilo que é teu
divórcio do nosso
surpresa
cindidos e agonizantes
destilamos o tempo que passa.
Gotejamos promessas
desejamos nascer de novo
nos parir sem parar
trazidos ao mundo pelas próprias mãos
Condensamos lembranças
dos dias e noites vividos
entre sorrisos e lágrimas
Sorvemos na taça do tempo
a bebida amarga do adeus.


by renatabomfim

04/06/2007

Xamã

Azeviche,
Dança
Serpente- crepitando
no circulo sagrado
ao redor do fogo.
Livre,
Corpo nu
Celebra a terra
com
cânticos e oferendas
deposita sobre o altar
objetos mágicos.
Energias sutís emanam
dos seus pés-tambores
Cadência do despertar.
Fêmea,
Completude no seu nada
Tudo no tempo e no espaço
da fenda brota o sangue sagrado
interstício do amor sem culpa.
Braços abertos
invoca
á deusa-mãe adorada
reverencia Bast e Neith.
Recadeira do tempo
fiandeira
carpideira
parca
sereia
Ela é o próprio tempo encarnado
Devorando e gerando
aos outros e a si mesma.

By Renata Bomfim

03/06/2007

amor no éter

sete foram os padecimentos da moça
ousou amar
um homem, um deus
amor de anjo
etério e sublime
que em sonhos ardentes
lhe ofertava promessas
já não queria acordar
pesadelos da alma
chorou as lágrimas do adeus
e nunca mais dormiu

by renatabomfim

A flor


sim
seus pistilos eram doces
perturbam-na insetos e pássaros
e ela, objeto, se ofertava em dores
cálice divino a derramar-se
em pleno jardim das delícias
fruição e pavor em perfeita harmonia
sacrifício
estigma
Sua assinatura sinistra.

by renata bomfim

02/06/2007

sonho

O rio passa nos fundos da casa que fui visitar esta noite, transbordava mas não senti medo, eu queria estar ali, queria viver alí. Ao longe ví árvores, uma escolinha pequena, a terra era toda batida, chão duro, mas tinha muito verde ao redor. Vi pessoas tão diferentes de mim, especialmente diferentes, que tinham as cores da terra, que tinham os pés no chão.
Certa hora estava a esperar um ônibus desses arredondados, muito vistos em filmes da década de 60, destes que passam de duas em duas horas levantando poeira, e transitam entre o paraíso e o inferno. que lugar seria este? O poeta chamou ao seu canto, Pasárgada, este meu lugar, ainda não sei nomear, ainda busco encontrá-lo, imagino que não fique por aqui, acredito ser um pouco mais longe, longe de onde estou agora. Mas sei que lá, neste lugar, está a minha felicidade.
Tudo isso no meu sonho, desta noite.
by renatabomfim

01/06/2007

Moqueca Capixaba

Ela vai sendo aquecida, lenta e
delicadamente, em fogo brando.
Sobre a mesa, o namorado,
temperado com amor, espera.

Pretinha de barro, filha de indio
seu colo acolhe o fruto do mar
fervilhante, emana seu odor
Esperam-na todos, deleitantes.

Um bom vinho, à mesa,
um silêncio respeitoso,
as bocas anseiam e marejam
como velas errantes ao mar.

E o namorado vai sendo devorado,
transubstanciação, pode-se sentir o
Espírito Santo no ceu da boca.
Divina moqueca capixaba!

by renatabomfim

28/05/2007

Impossibilidade


Tentei construir um poema de amor,
Ou sobre o amor.
Busquei inspiração em imagens de afagos e beijos,
Casais de mãos dadas,
Pores de sol, luares, estrelas,
E nada!
O poema não saiu,
Ficou encravado dentro de mim,
Mas, conheço este sentimento,
Conheço bem o amor
E o amor me conhece.
Você sabe o que é olhar nos olhos de alguém 
E ver lá dentro a sua imagem,
Reluzente e melhorada?
 Isso faz com que você se sinta cópia
E deseje, ardentemente, ser o original... 
Sabe o que é sentir segurança, amparo,
pertencimento?
Já sentiu as mudanças corporais
O clássico frio na espinha?
Desejo, dor, lágrimas,
A cama é o templo do amor!
Lá pagamos nossos tributos, fazemos oferendas
e recebemos as bênçãos.
Penso que o amor não deveria se chamar assim,
Antes, ele teria um nome secreto, chave, senha...
É precioso demais o amor!
O amor que sinto e conheço me vem em lampejos,
Vejo, ouço, esqueço, e penso que não existe
A vida sem o amor!
A luta cotidiana num mundo cão
e a fome da alma,
Mas, basta o menor gesto de doçura,
Um aceno, ou aquela mirada 
Para eu lembrar que sou íntima do amor
E ele de mim.


by renata bomfim

27/05/2007

Tecendo a espera


Sempre ela e seus bordados
tecendo a espera
tecendo esperança
tecendo sonhos
desde criança
fio a fio no tempo
negros fios vertendo em lágrimas
fios da navalha
Delgados
retorcidos
fios da fibra do girasol
O rosto corado e a boca encarnada
a rosa que ficava no jardim
sintéticos, flexiveis materializam
a casa amarela
Resistente corrente fina
que enciuma a aranha
Fio da vida
que não espera e acelera
e borda incansávelmente a mulher
à janela
mas surgem os nóz
sentença de morte
e a bordadeira esperançosa
passa a desatadora
do tempo que passa
e não perdoa
E novos fios serão precisos
encarnados, azuis, amarelos, verdes
para reavivar o desejo da mulher
de tecer
desejo que o tempo afrouxou
representação
Traçado firme e o bordado
volta a brotar da agulha
em busca de novos desenhos
de novos sonhos
é a lei do oficio de tecer
filha de Pandora, a tecelã
sua mãe lhe contou que
um dia abriu uma caixa
que não podia
e dali sairam muitos pesadelos
seu castigo, tecer até a morte
e desatar nóz
mas ela sabia que ainda havia um sonho
preso dentro da caixa
e pediu pra filha
libertá-lo
caixa de fios/ sonhos de mãe/morta
abre a caixa a filha
mudanças acontecem.

by renata bomfim

Mulherárvore




Por mais que ela quisesse parecer humana
sua pele quase casca a denunciava
ela era árvore.
A cada manhã mais veios
a seiva suave já lhe percorria toda.
Mulherárvore.
Urgia, o tempo
ela precisava reconhecer sua natureza
a tantos vivendo entre os humanos
uma raça inimiga da sua
e com eles estabelendo alinças de sombras:
__ árvores precisam de terra e não de asfalto,
precisam de água fresca e de sol
para poderem ser árvores.
Ela era de uma espécie rara
híbrida
se descoberta, logo seria alvo
do serrote de algum pesquisador.
Mulher metamorfose
já se sentia brontando
mais um pouco e não poderia mais
esconder-se entre ruges e rendas
Logo teria galhos e folhas
e o assédio dos pássaros
implorando por um espaço para seus ninhos
a denunciaria.
O tempo urge
a mulherárvore
sabe que é chegada a hora
de realizar a sua natureza.

By renata Bomfim