07/09/2009

C. G. Jung e a Literatura

A literatura, de forma especial a poesia, faz parte da história tanto familiar quanto profissional de Jung. Conta-nos Bair (2006), sua biógrafa, que ao nascer, Jung foi batizado com o nome Karl Gustav II Jung, uma homenagem ao seu avô paterno, Carl Gustav I Jung.
O avô de Jung era cidadão alemão, conhecido tanto por suas opiniões liberais, quanto pelas histórias que contava e que deram à sua biografia, tons ficcionais, entre elas, a suspeita de que era filho ilegítimo do poeta Goethe.
Na sua juventude, Carl Gustav I havia morado em Berlim, na casa de um editor chamado Geog Andréas Reimer, onde integrou um grupo de intelectuais do romantismo como Ludwig Tieck e os irmãos Schlegel.. A saber, August Wilhelm Von Schlegel foi o responsável pela tradução de Shakespeare para o alemão.
Doutor em medicina e ciências naturais, o avô de Jung, foi também, escritor de poemas e canções, algumas registradas no livro alemão de cantigas. Conta-se que foi muitas vezes persuadido a abandonar a medicina pela poesia, conselho que não seguiu, continuando a publicar suas obras anonimamente, sob o pseudônimo de Mathias Nusser.
O “K” foi uma atualização feitas pelos pais de Jung ao seu nome, mas ele optou manter o nome na forma original familiar, apenas uma das muitas identificações que mantinha com seu “abençoado avô”, que segundo ele, havia posto “um ovo muito estranho na sua mistura” (BAIR, 2006).
Paul Jung, o pai de Jung II, estudara línguas orientais na Universidade de Göttingen, especializando-se em árabe e escreveu uma dissertação acerca dos comentários em hebraico do sábio do século X Jephel Bem Eli sobre o Cântico dos Cânticos de Salomão. Mas, contrariando a vontade do pai, Carl Gustav I, não trilhou uma carreira brilhante como erudito, tornando-se padre numa igreja reformada da Suíça. Este breve histórico familiar mostra o berço intelectual onde foi recebido o jovem Carl Gustav Jung, que estudava idiomas como o latim e o grego e ingressou, aos treze anos de idade, no estudo da filosofia.
Jung era um homem erudito, lera durante a sua vida escritores como A. E. Biedermann, que tratava do dogmatismo cristão, leitura levou-o diretamente a Schopenhauer, Meister Eckhart, santo Tomás de Aquino, a quem “desprezava”, Hegel, Kant e Nietzsche, Shakespeare, Heráclito, “com menor interesse” Pitágoras e Empédocles, mas, a poesia, esta lia “com paixão e prazer”.
A paixão pela obra de arte poética levou Jung a escrever, na maturidade, o livro O espírito na Arte e na Ciência, onde volta à atenção para os movimentos culturais, entre eles as artes plásticas e a literatura. Nessa obra Jung reconhece o desafio de fazer dialogar a psicologia analítica e a arte que, “apesar de sua incomensurabilidade”, compartilham uma “estreita relação” e acrescenta:
[embora a poesia pertença ao campo da literatura e da estética, esta possui grande força imagística] não pretendo de modo algum substituir tais pontos de vista pela perspectiva psicológica. Acaso o fizesse incorreria no pecado da unilateralidade que eu mesmo censurei. Não arrogo também apresentar uma teoria completa da criação poética, isso ser-me-ia impossível. As minhas explanações significam apenas meus pontos de vista, a partir das quais poderia orientar-me uma consideração psicológica do fenômeno poético (JUNG).
Ciente dos perigos de misturar campos diversos de saber sem levar em conta a especificidade de cada um, e de que a essência da atividade artística é inacessível para a psicologia, Jung (1991) advertiu para perigo das leituras reducionistas que, “inopinadamente”, desviam o interesse da obra de arte enredando-a “numa embrulhada labiríntica, [de] pressupostos psíquicos, tornando-se então o poeta um caso clínico”. Sob essa ótica a psicologia pessoal do poeta não explica a obra de arte. Jung acreditava que reduzir a criação artística às relações pessoais que o poeta mantinha com os pais ou a outros fatores como distúrbios psicológicos, não contribuia para a compreensão desta e reinterou:
Um poeta pode ter sido influenciado mais pela relação com seu pai, outro pela ligação com a mãe e finalmente um terceiro pode demonstrar, através de suas obras, traços inconfundíveis da repressão sexual; tudo isso pode ser atribuído tanto a neuróticos, como a todas as pessoas [ditas] normais. E assim nada de específico se apurou para o julgamento de uma obra de arte, na melhor das hipóteses ampliamos e aprofundamos o conhecimento dos pressupostos históricos. [...] Bom senso e parcimônia, podem resultar uma interessante visão geral de como a criação artística está entrelaçada com a vida pessoal do artista, por um lado, por outro, como ela se projeta para fora desse entrelaçamento (JUNG, 1991).
O poeta na visão jungueana satisfaz as necessidades anímicas de um povo através de sua obra, e constitui para o autor, saiba ele ou não, mais do que o seu próprio destino pessoal. A interpretação da obra não compete ao poeta. Segundo Jung (1991, p. 93), “uma obra-prima é como um sonho que, apesar de todas as evidências, nunca se interpreta a si mesmo e nunca é unívoca”, portanto a interpretação não deve ser feita pelo poeta, mas “deve ser deixada aos outros e ao futuro”. O sentido da obra de arte poética só é alcançado quando o indivíduo se permite modelar por ela, assim como o poeta foi modelado, assim a obra tocará as regiões profundas da alma, onde os seres vibram em uníssono e a sensibilidade humana abarca a humanidade. Portanto, a obra de arte é ao mesmo tempo objetiva e impessoal.
pesquisa: renatabomfim

06/09/2009

Curso de pós-graduação lato sensu em pscologia Junguiana/ Vitória-ES

Faculdade Unida de Vitória

O inconsciente coletivo junguiano

O inconsciente para a psicologia junguiana compreende inconsciente pessoal e inconsciente coletivo. São domínio do inconsciente , todos os conteúdos e processos psíquicos que não se relacionam com o ego. Para Jung o inconsciente “é a fonte das forças instintivas da psique e das formas ou categorias que as regulam, os arquétipos”. “Vasto e inexaurível” este campo da psique possui qualidades compensatórias, ou seja, eles compensam o ego consciente pois contém pois possuem elementos de auto-regulação da psique como um todo. Ao inconsciente Jung também designou uma função criativa, visto que é ele que apresenta à consciência conteúdos necessários à saúde psicológica.
O inconsciente pessoal é a camada pessoal do inconsciente. Nesta instância psíquica estão as “memórias perdias, idéias dolorosas que são reprimidas (isto é, esquecidas de propósito), percepções subliminares e conteúdos que ainda não estão maduros para a consciência”, trata-se daquela parte da psique que contém elementos que também poderiam aflorar na consciência. As fronteiras entre o inconsciente pessoal e a consciência são imprecisas e a qualquer momento estes conteúdos podem se tornar conscientes. Quanto aos conteúdos do inconsciente coletivo, segundo Jung (1983), “não se encontram sujeitos a nenhuma intenção arbitrária, nem são manejáveis pela vontade, na verdade agem como se não existissem na pessoa – conseguimos vê-lo em nosso próximo, mas não em nós mesmos”.
O inconsciente coletivo é a expressão psíquica da identidade cerebral independente de todas as diferenças raciais. Jung chegou a este território analisando os sonhos e fantasias de seus pacientes, ele concebeu o seu conteúdo como uma combinação de padrões e forças universalmente predominantes, os arquétipos e instintos . Em sua concepção, nada existe de individual ou único nos seres humanos nesse nível, todos temos os mesmos arquétipos e instintos, e a individualidade deve ser procurada noutras áreas da personalidade. Em Arquétipos do Inconsciente coletivo (2006) Jung esclarece:
A hipótese de um inconsciente coletivo pertence àquele tipo de conceito que a princípio o público estranha, mas logo dele se apropria, passando a usá-lo como uma representação corrente, tal como aconteceu com o conceito de Inconsciente em geral. [...] Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é pessoal. Nós a denominamos, inconsciente pessoal. Este porém repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o que chamamos inconsciente coletivo. Eu optei pelo termo “coletivo” pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal.
A teoria dos arquétipos é de grande importância para a concepção global da psique proposta por Jung. Dra Nise da Silveira em seu livro Jung: vida e obra, chama a atenção para a forma como este conceito junguiano tem sido objeto de confusão. Segundo ela: Há ainda quem continue repetindo que Jung admite a existência de idéias e de imagens inatas. É falso. Incansavelmente [Jung] repete que arquétipos são possibilidades herdadas para representar imagens similares, são formas instintivas de imaginar. São matrizes arcaicas onde configurações análogas ou semelhantes tomam forma. Jung compara os arquétipos ao sistema axial dos cristais, que determina a estrutura cristalina na solução saturada, sem possuir, contudo, existência própria. [...] Seja qual for a sua origem, o arquétipo funciona como um nódulo de concentração de energia psíquica. Quando essa energia em estado potencial, se atualiza, toma forma, então teremos a imagem arquetípica. Não podemos denominar essa imagem de arquétipo, pois o arquétipo é unicamente uma virtualidade. [...] A noção de arquétipo, postulando a existência de uma base psíquica comum a todos os seres humanos, permite compreender porque em lugares e épocas distantes aparecem temas idênticos nos contos de fadas, nos mitos, nos dogmas e ritos das religiões, nas artes, na filosofia, na produção do inconsciente de um modo geral- seja nos sonhos de pessoas normais, seja em delírios de loucos (SILVEIRA, 1997).
Para Jung os arquétipos se manifestam tanto no nível pessoal, através dos complexos, quanto no coletivo, através da cultura. Jung acreditava que era tarefa de cada geração o compreender de novo os conteúdos arquetípicos e seus efeitos ele dizia que “se não podemos negar os arquétipos, ou mesmo neutralizá-los, a cada novo estágio de diferenciação da consciência que a civilização atinge, confrontamo-nos com a tarefa de encontrar uma nova interpretação apropriada a esse estágio, a fim de conectar a vida do passado, que existe em nós, com a vida do presente, que ameaça dele se desvincular.
Os arquétipos estão relacionados aos instintos, assim como mente e corpo estão relacionados. Os instintos humanos têm sua origem no físico e ingressam na psique sob a forma de pulsão, pensamento, memória, fantasia e emoção. O ego é, em parte, motivado por instintos, e em parte por formas e imagens mentais. Os padrões arquetípicos e as pulsões instintivas estão tão intimamente ligados que se pode tentar reduzir uns a outros. O arquétipo tem caráter numinoso e, quando irrompem na consciência, é descrito como “espiritual”. As imagens derivadas dessa constelação arquetípica, têm extraordinário poder para influenciar a consciência de um modo tão evidente quanto os instintos identificáveis, especialmente o ego, podem ser possuídos e sobrepujados, mas mesmo rendendo-se tal experiência pode ser percebida como significativa. Segundo Stein (2006), mesmo “a vida pode ser sacrificada por imagens”, por exemplo a da cruz, a da bandeira, ou por idéias como o nacionalismo, patriotismo e lealdade para com a religião ou país. Assim, “o arquétipo representa o elemento autêntico do espírito, [...] mas de um espírito que não deve se identificar com o intelecto humano, o espírito que rege e orienta o ego e suas várias funções”. Jung falou sem rodeios que “o conteúdo essencial de todas as mitologias, de todas as religiões e de todos os ismos é arquetípico” Os arquétipos não são derivados da cultura, pelo contrário, para Jung as formas culturais é que derivam dos arquétipos.

pesquisa: renatabomfim

A psicologia dos complexos, de Carl Gustav Jung









C. G. Jung observou uma multidimensionalidade na psique que, esta “está longe de ser uma unidade; pois é uma mistura borbulhante de impulsos, bloqueios e afetos contraditórios e o seu estado conflitivo” . Sob a ótica junguiana, o acesso à psique restringe-se até onde a consciência pode chegar, pois a experiência humana é limitada e, “nas margens, onde psique e soma se unem, e psique e mundo se encontram, existem nuanças de ‘dentro/ fora’, a estas áreas Jung chamou psicóides”. Esse mundo se expande com “colisões”, ou seja, conflitos, dificuldades, angústia, sofrimento, algumas dessas colisões são “catastróficas” para a psique, pois geram “tumulto emocional” e, na ausência de uma “estrutura coesa”, há a tendência para a dissociação. As colisões com a realidade desafiam o ego a relacionar-se com mundo. O mundo da consciência é marcado pela estreiteza e é, em si, fruto da percepção e orientação no mundo exterior, que tem seus conteúdos orientados a partir de um ponto de referência designado “ego”.
Derivada do latim, a palavra ego significa eu, e é em primeira instância, o portal de entrada da alma humana pois, a consciência do ego é per se, condição imprescindível para uma investigação psicológica. O ego é um agente individualizante, ele separa os seres humanos de outras criaturas e, estabelece uma intrincada rede de associações com a consciência, território de onde emerge como centro crítico (2006, p. 27- 28). Acerca dessa área da consciência Jung diz:
O que conhecemos é o nosso complexo de ego, que supomos ter o domínio pleno do corpo. [...] O ego é um aglomerado de conteúdos altamente dotados de energia, assim quase não há diferença em falarmos de complexo e complexo do ego. Pois os complexos tem um certo poder. Tudo isso se explica pela chamada unidade da consciência ser pura ilusão. É realmente um sonho de desejo. Gostamos de pensar que somos unificados; mas isso não acontece e nem nunca aconteceu. Realmente não somos senhores dentro de nossa própria casa. É agradável pensar no poder de nossa vontade, em nossa energia e no podemos fazer. Mas na hora H descobrimos que não podemos fazê-lo até certo ponto, porque somos atrapalhados por esses pequenos demônios, os complexos. Eles são grupos autônomos de associações, com tendência de movimento próprio, de viverem sua vida independente de nossa intenção. (JUNG, 1983, p. 67).
O ego é tratado por Jung como uma instância essencialmente psíquica, embora esteja em parte, assentado sobre uma base somática e sua liberdade seja limitada. O ego, especialmente na juventude, experimenta a ilusão de possuir grande autonomia e “livre-arbítrio”, mas o indivíduo está à mercê de sua estrutura de caráter e dos “demônios interiores”, tanto quanto da autoridade externa. “Os demônios da contradição conflitam com o ego” (JUNG, 2006). O “homem racional” base da sociedade ocidental, é impelido por forças psíquicas e motivado por pensamentos que não se baseiam processos racionais. Enfim, os indivíduos são impulsionados por emoções e imagens. Segundo Stein (2006, p. 41), sendo o mundo interior “terra incógnita” no seu tempo, Jung lança mão de ferramentas e métodos científicos para explorá-la, e “ele descobriu que ela está povoada”.
Muitos aspectos do pensamento de Jung estão em consonância com os de pensadores como Terry Eagleton e Stuart Hall no que tange a fragmentação do indivíduo. Pondo em prática a máxima dos estudos da pós-modernidade que, contraria as normas do iluminismo questionando as noções clássicas de verdade,“nós não podemos mais conceber o indivíduo como um ego íntegro, centrado, estável, acabado” (HALL, 1998).
Os complexos
Os demônios interiores a que Jung se refere são denominados por ele “complexos”. Os complexos são “imagens ou idéias carregadas emocionalmente” e, “via régia” de acesso para o inconsciente” (SHARP, 1997). Possuidores de uma força de atração poderosa, os complexos funcionam como imãs, atraindo os conteúdos do inconsciente para a consciência. Mas eles chamam também para si, impressões do exterior que podem se tornar conscientes ao seu contato, caso não haja esse contato, tais impressões permanecerão inconscientes. “Os complexos são , então, personalidades parciais ou fragmentárias” (JUNG, 1983).
O termo “complexo” foi criado pelo psicólogo alemão Zieher, ampliado e enriquecido por Jung. Mais tarde este termo foi adotado e utilizado largamente no meio psicanalítico. A teoria dos complexos foi uma importante contribuição da psicologia analítica para a compreensão do inconsciente e de sua estrutura. Jung definiu os complexos estão localizados no inconsciente e são conteúdos que geram perturbações à consciência, por possuírem muita energia psíquica, eles constelam, ou seja emergem do inconsciente para a consciência, e a pessoa é ameaçada de perder o controle sobre suas emoções, e de certa forma sobre o seu comportamento, assim este mecanismo configura uma espécie de “possessão”. Segundo Sten (2006), “a energia do complexo [...] penetra na concha da consciência do ego e inunda-a” sob essa influencia a consciência perde, por completo, o controle da consciência.
Existem complexos familiares e sociais, que são coletivos, o que implica que, muitas pessoas estão psicologicamente ligadas de forma similar. Traumas são compartilhados e, muitas vezes, fazem parte de uma geração. Com a teoria dos complexos, Jung apresenta a existência de uma camada cultural do inconsciente, em parte individual, e em parte coletivo, por ser compartilhada com outros indivíduos. Mas este ainda não é o Inconsciente coletivo. Foi através da associação verbal que Jung descobriu fortes indícios de padrões semelhantes na formação de complexos entre membros de uma mesma família.
Outro conceito importante na psicologia analítica é o de persona. Este termo é propriedade intelectual especial do próprio Jung, trazido do teatro romano, persona se refere à máscara utilizada pelo ator por meio da qual ele pode assumir variados papéis e identidades dentro do enredo dramático, uma espécie de “pele psíquica” que se interpõe entre o ego e o ambiente. Os vários papéis que uma persona assume no decorrer da vida têm uma base coletiva e, em certa medida, arquetípica. A persona é um complexo que possui alguma autonomia e não está totalmente sob o controle do ego. A Sombra é outro complexo funcional da psique a quem a persona resistirá, é o lado inconsciente das operações intencionais realizadas pelo ego e um problema psicológico, que só poderá ser resolvido se esta for integrada à consciência. Sombra e persona é um par clássico de opostos que figuram na psique como polaridades do ego, a integração de ambos “depende da aceitação pela pessoa de si mesmo, da plena aceitação daquelas áreas ou partes que não pertencem à imagem da persona”. Stein destaca que na psicologia analítica os opostos poderão ser unidos na psique através da intervenção de uma “terceira coisa”. Se os pólos são mantidos em tensão, uma solução surgirá se o ego puder livra-se de ambos e criar um vazio interior no qual o inconsciente possa oferecer uma solução criativa na forma de um novo símbolo que incluirá algo de ambos (STEIN, 2006).
Os complexos são materiais puramente psíquicos, elementos arquetípicos representáveis imageticamente. Essas imagens, variadas vezes referenciadas na obra de Jung como imago, seu correspondente em latim, elas definem a essência da Psique e podem ter alguma correspondência com imagens objetivas, mas, não devem ser confundidas com elas. Os sonhos, por exemplo, são formados a partir dessas imagens inconscientes acionadas pelos complexos. O que une os elementos associados do complexo é a emoção.
Com capacidade para irromperem subitamente na consciência e apossar-se das funções do ego, os complexos são alimentados com energia psíquica ou libido que é distribuída entre vários componentes da psique. A irrupção de um complexo significa que ele ficou mais energizado que o ego, que muitas vezes não é capaz de conter o seu influxo de energia. Esse assunto é tratado com profundidade no livro A energia psíquica de Jung (1999), onde fala que, “hipoteticamente admitida”, a energia vital fosse chamada libido, tendo em vista o emprego que tenciona-se fazer dela em psicologia, e “diferenciando-a de um conceito de energia universal, e conservando-lhe por conseqüência, o direito especial de formar seus próprios conceitos”.
Existem alguns complexos coletivos, gravitando em torno de questões de sexo, religião, dinheiro, poder, e que afetam quase todas as pessoas em menor ou maior grau, e podem redundar em ferozes descargas de energia, até mesmo em guerra, se provocados com bastante severidade. O nível energético de um conteúdo psíquico pode ser indicado por emoções e reações positivas ou negativas. Equiparam-se aos complexos, em termos de atração de energia vital, os símbolos que, segundo a psicologia analítica, emergem da base arquetípica da personalidade, ou seja, inconsciente coletivo, e são grande organizadores da libido. Para Jung o símbolo é a melhor expressão possível para algo que é essencialmente incognoscível, ou ainda não cognoscível, dado o presente estado da consciência. Os símbolos combinam elementos de espírito, instintividade, de imagem e pulsão. Os místicos falam sobre o êxtase da união com Deus como uma experiência orgástica, [...] a experiência do símbolo une corpo e alma num poderoso e convincente sentimento de integralidade.
pesquisado por renata

05/09/2009

A importância do feminismo para a emancipação da mulher e a inserção desta na ordem do discurso

A historiadora Michelle Perrot (1988) chamou a atenção para o fato de o feminismo ser difundido historicamente como um movimento social e não político, o que reproduziu a ideologia de que política não é assunto para mulheres. Outra idéia enraizada é de que a mulher foi excluída do trabalho. Como vimos nas postagens anteriores, a mulher não foi excluída do campo de trabalho, sua ação foi regulamentada pela ideologia dominante e seus lugares de atuação definidos. No século XVIII as mulheres tornaram-se potências produtivas domésticas, ao contrário dos homens que eram trabalhadores mercantis. As mais pobres produziam em casa, artefatos que eram vendidos no mercado, já as burguesas, trabalhavam para seus maridos, muitas vezes realizando os mesmos serviços que seriam muito bem remunerados, caso fossem homens. A condição da mulher desse período era a de prisioneira da família e sua mão de obra era não remunerada. A exclusão feminina do mercado de trabalho dava aos maridos operários, seguridade.
O movimento feminista a partir de 1848, desbobrou- se em muitas direções despertando uma forte onda anti-feminista. Os sindicatos masculinos passaram a lutar para que as mulheres não tivessem acesso ao mercado de trabalho e contestavam a luta operária feminina tentando desarticular os movimentos organizados feministas, chegando a fazer greve quando mulheres eram contratadas. Os homens exigiam que o trabalho feminino fosse extinto, um problema que, segundo M. Guilbert (1982), “se colocava idêntico em todos os lugares”. Não podendo deter o avanço das mulheres, os partidos sexistas, passaram a criar legislações que limitavam a atuação do tempo da mulher no mercado de trabalho.
O movimento feminista foi um divisor de águas na historia de resistência da mulher, lançando base para conquistas que só se consolidariam no século XX. Além da luta por direito a educação e igualdade com o outro sexo, as mulheres do primeiro quartel do século XIX, se engajaram na luta pelos direitos dos menos favorecidos, assim, o movimento feminista se ligou à luta pelos direitos das minorias étnicas e pela paz. O principal veículo de difusão dos ideais feministas das mulheres de classe média foi a imprensa. As mulheres do século XIX “constituíram uma importante vanguarda dos movimentos sociais participando das doutrinas e movimentos revolucionários”. Segundo Karina Fleury, no século XIX a família tornou-se a instituição social “moderadora e modeladora da moral”, não agradava a igreja que as meninas fossem educadas em casa, as famílias de posse, tinham como alternativa, enviar as filhas “casadouras” ao convento, onde receberiam formação diferenciada das destinadas à vida religiosa, e aprenderiam latim e música; bem como a ler, escrever, contar, coser e bordar, educação, educação bem diferente da recebida pelos meninos, as meninas pobres não tinham acesso a educação.
A violência para com a mulher pode ter gerado uma nelas insegurança e medo, fatores que podem ter desencadeado o imobilismo. Percebe-se que algumas mulheres introjetaram os valores falocratas, e se tornaram uma espécie de guardiãs da moral e dos costumes, outras, porém, resistiram e passaram a se fazer ouvir. Reduzida ao âmbito privado a mulher do século XX, passou a defender e a supervalorizando a identidade que lhe foi conferida, de esposa e mãe, e foi desse lugar que ela esperava respeito e aceitação. A valorização do papel de mãe foi uma tática utilizada como mecanismo de controle da mulher do século XX.
Dentro deste panorama, que lugar ocupou a mulher que não se enquadrou nesse modelo? Perrot em Os excluídos da história (1988), relata que no inicio do século XX, a Europa foi tomada por um sentimento anti-feminista, poia a “nova Eva” reivindicava igualdade de direitos civis e políticos, o acesso a profissões intelectuais e recusava, justamente, confinar-se à vocação materna. Ela suscitou o fervor daqueles poucos que sonhavam com companheiras inteligentes e livres, porém, mais generalizadamente, o medo daqueles que temiam ser desbancados e viam nessa ameaça do poder feminino o risco de degenerescência da raça e de decadência dos costumes.
A inserção da mulher na ordem do discurso, fez com que a voz feminina, com seu discurso prenhe de subversão, passasse a ser alvo de normatização, o discurso feminino passou a ter que se submeter a determinadas regras de funcionamento, bem como, àquelas que os o pronunciavam. Sua circulação, e publico também passaram a ser monitorados e restringidos. Como afirmou Foucault (2006), “ninguém entrará na ordem do discurso, se não satisfizer a certas exigências, ou se não for de início, qualificado para fazê-lo. As mulheres burguesas, reivindicaram para si outros lugares, e embora não fossem consideradas qualificadas para outra coisa que não fosse parir e cuidar da casa e do marido, os seus textos, inicialmente escassos, passaram a circular. Um número representativo dessa produção limitava-se a “livros de cozinha, manuais de pedagogia e contos recreativos”. A mulher encontrava dificuldades em se fazer ouvir e, os homens, achavam natural, serem seus porta-vozes.

pesquisa: RenataBomfim

A violencia e o medo inviabilizando o discurso feminino

Morim em Terra Pátria (2005) nos faz saber que a terra tem aproximadamente 4 bilhões de anos. Arqueobactérias evoluíram para bactérias, proliferando na água, na terra, na atmosfera, formando em, aproximadamente, 2 bilhões de anos, a biosfera. Um salto no tempo, leva-nos para cerca de 500 milhões de anos, lá encontramos a terra com toda a sua biodiversidade formada: plantas, invertebrados, e vertebrados, entre esses, nosso ancestral distante, macaco que há cerca de 7 milhões de anos, havia se tornado bípede.
O antropólogo Richard Leakey (1997), explica-nos que o processo evolutivo humano prosseguiu de maneira que a pré-história já estava em marcha acelerada quando há cerca de 2 milhões de anos, surgiu o Homo erectus, primeira espécie da família Homo. Este utilizava o fogo, fabricava instrumentos de pedra e, adotou a caça como forma significativa de subsistência. Eles viviam em uma organização social onde já havia a divisão do trabalho, os machos eram responsáveis pela caça, e a fêmea pela coleta de alimentos de origem vegetal.
Alguns críticos acham ingênuo o argumento de que a divisão sexual do trabalho, onde as tarefas e atuações eram definidas para homens e mulheres, foi a base da subordinação do sexo feminino, bem como contestam a tese dos historiadores dos séculos XVII e XIX, que defendem que a ideologia moderna de esferas separadas, a saber, pública e privada, tenha encarnado completamente na vida social, o que não nega a vinculação da mulher, a vida doméstica.
Leakey (1997) ressaltou que o crescimento do nível de complexidade social e o estabelecimento do homo erectus, antes nômade, marcou, há 35 mil anos, a passagem para o homo sapiens. Este salto evolutivo, não foi ocasionado por fator biológico, e sim produto da evolução cultural.
A escrita foi inventada há 6.000 anos e muito embora o homem andasse ereto a milhões de anos, foi a aproximadamente 25 mil anos que começou a produzir imagens. A análise da arte rupestre, sinais e estatuetas de osso e de pedra encontrados em cavernas, demonstram que a mulher possuía status igual ou superior ao homem nas sociedades primitivas. Mesmo sendo muito contestada, e não podendo ser provada, a teoria do matriarcado foi uma realidade simbólica, a mulher era a única fonte de vida pois, o homem desconhecia sua participação na fecundação, estes são indícios do prestígio mágico do feminino, as Deusas- mães. Vale destacar ainda que, no paleolítico a sociedade era nômade, não havia propriedade privada, cumulação, e embora esses povos já utilizassem armas para caçar, não foram encontrados indícios de guerra (MICHEL, 1982).
A opressão perpetrada à mulher no decorrer da evolução da sociedade, encontra respaldo no pressuposto foucaultiano de que os participantes das relações antagonizam-se, portanto, a violência apresenta-se como um importante dispositivo de poder masculino, do qual a mulher tornou-se alvo em potencial. A cotidianização da violência tem como resultados o terror e o medo. Qualquer que seja a intenção identificada como subjacente à violência, os seus efeitos são os mesmos: mulheres aprendem que devem ficar no lugar que lhes é designado cultural e socialmente. A violência pode engendrar o imobilismo, pelo fato de a experiência traumática passar a guiar ou influenciar as suas decisões. A insegurança, o medo e o imobilismo, técnicas de apropriação [do discurso] da mulher, permeiam a história desta.
Michel (1982), nos faz saber que foi entre 6.000 e 3.000 a.C., período que compreende o neolítico médio, que o status da mulher passou a sofrer profundas mudanças. Os seres humanos saíram das cavernas e se tornaram criadores de gado e fazendeiros, já eram capazes de construir dolmens e complexas cidades, como a Babilônia. Esse avanço tecnológico deve muito á participação feminina pois, atribui à mulher, além da invenção da enxada, a da fiação, da tecelagem, das primeiras cerâmicas, da criação de mós de pedra para triturar os grãos. Estes inventos fizeram com que a agricultura fosse possível e fixaram os nômades a terra, a agricultura gerou um excedente de alimentos e conseqüentemente, uma explosão demográfica. Desde então, a mulher deixou de ser vista como agente de produção agrícola, o fim da vida nômade, que a livrara do confinamento, lhe reservará a exclusão e o confinamento no seio da família patriarcal nascente.
O patriarcado é inegavelmente opressivo, tendo a explorar, roubando do homem a masculinidade madura e da mulher muitos dos seus atributos. O patriarcado, que teve suas bases firmadas no comércio e nas conquistas e na expansão comercial foi deixando para trás a agricultura e a religião matriarcal. A mulher passou a ser valor de troca, facilitando as alianças políticas. Ela perdeu o direito à propriedade e ao seu corpo, passando a ser designada a pertencer a alguém.
O primitivo não tinha conhecimento de sua participação na procriação, esta ciência, fez com que o homem reivindicasse para si o posto de criador da vida, restando à mulher, o papel secundário de receptáculo de sua semente. Foi o fim do monopólio das divindades femininas. A Deusa-mãe que por milênios reinou imperiosa, recebe um parceiro masculino, este deus, inicialmente lhe era subordinado, depois igual e, finalmente, soberano, o “pai do céu”. O fortalecimento do culto ao deus-pai, resultou no Deus onipotente das grandes religiões ocidentais, que trazia no seu bojo o germe da repressão e o entendimento da mulher como ser de segunda classe.
Os valores masculinos já podem ser vistos arraigados na polis grega, berço referencial da cultura ocidental. No Olimpo, Hera e Zeus, , orquestram um jogo de poder que se reproduzirá em todo panteão. Nessa sociedade, a mulher ocupa um papel ambíguo, os gregos julgavam as mulheres “incapazes de philia”, a amizade que nasce do amor, isso era só para os homens, e a passividade na cópula era o grande “pecado feminino”. Com o casamento a mulher preenchia duas funções sociais: servia como bem de troca e de comércio entre famílias, bem como para assegurava ao homem a progenitura. O lugar social da grega era no mais recôndito da casa, longe do público. Platão afirmou que “se a natureza não tivesse criado as mulheres e os escravos, teria dado ao tear a capacidade e fiar sozinho”. Percebe-se que a mulher não foi excluída do trabalho, mas sua participação foi regulada. Xenofontes, historiador e educador grego, discípulo de Sócrates, cujos preceitos influenciam até hoje a cultura ocidental escreveu: “Que [a mulher] viva sob uma estreita vigilância, veja o menor número de coisas possível, faça o menor número de perguntas possível”. O único registro histórico da resistência feminina na Grécia, remonta ao ano 625 a. C., quando a poetisa Safo, um centro para formação intelectual da mulher na ilha de Lesbos.

Em Roma o código penal legitimou a inferioridade feminina. Em 195 a. C. tem-se registro de mulheres recorrendo ao senado protestando a respeito de sua exclusão do transporte público, a defesa do senado Marco Pórcio Catão à recusa do clamor feminino adverte para o perigo de que as leis lhes alcancem com algum direito: “Lembrem-se do grande trabalho que temos tido para manter as nossas mulheres tranqüilas e para refrear-lhes a licenciosidade, o que foi possível enquanto as leis nos ajudaram, Imagine o que sucederá daqui por diante, se tais leis forem revogadas, e as mulheres se puserem, legalmente considerando, em pé de igualdade com os homens!Os senhores sabem como são as mulheres: façam-nas suas iguais, e imediatamente elas quererão subir às suas costas para governá-lo.
A ideologia patriarcal, tem ciência de que seu poder não está garantido ad infinitum, portanto, empenha-se em mantê-lo. Problemas vividos por mulheres de nacionalidade, cultura, religião, classe, raça e etnia, as mais diversas, mesmo vividos como individuais e privados, tem raízes comuns, portanto, vê-se a opressão infligida pelo sistema patriarcal às mulheres e a limitação seus horizontes, extensivo ao mundo hebraico. Moisés, ao receber de Deus- pai as leis, aboliu definitivamente o culto ao feminino e à natureza. Com a derrocada dos valores femininos, através da erradicação do culto das deusas pagãs, a inferioridade da mulher se fortificou no imaginário social desta cultura e religião, que foram as bases da religião cristã ocidental.
Roma triunfou ao derrotar a rainha egípcia Cleópatra. Na Grécia, emergiu helena, rainha de Tróia, sensual, adúltera e transgressora, representante do pecado e do mal, imagem da mulher que o cristianismo se incumbirá de sedimentar nos anos subseqüentes. A natureza instintiva, erótica e dinâmica do feminino, assim como sua natureza maternal representadas pelas poderosas deusas da antiguidade, não tem mais prestigio ou poder, e o deus masculino compartilha características semelhantes a dos homens. O devir histórico mostra como desde o mundo grego e hebraico até os tempos atuais, o sistema feminino vem sendo excluído da ordem do discurso e as mulheres oprimidas e desvalorizadas. Simone de Beauvoir (1961) descreveu como a imagem feminina construída pela cultura durante os séculos, reflete e perpetua a ideologia patriarcal, segundo ela: A literatura infantil, a mitologia, contos, narrativas, refletem os mitos criados pelo orgulho e os desejos do homem: é através de olhos masculinos que a menina explora o mundo e nele decifra seu destino. A superioridade masculina é esmagadora: Perseu, Hércules, Davi, Aquiles, Lançarote, [...] Napoleão, quantos homens para uma Joana d’Arc; e, por trás desta, a grande figura masculina de São Miguel Arcanjo! [...] Eva não foi criada para si mesma e sim como companheira de Adão [...]. As deusas da mitologia são frívolas ou caprichosas e todas tremem diante de Júpiter; enquanto Prometeu rouba soberbamente o fogo do céu, Pandora abre a caixa das desgraças. [...] A Virgem, acolhe de joelhos a palavra do anjo: “Sou a serva do Senhor”, [...] as santas declaram de joelhos o seu amor ao Cristo radioso. [A mulher] aprende que será feliz se for amada e para ser amada é preciso esperar o amor. A mulher é a Bela Adormecida no bosque, Cinderela, Branca de neve, a que recebe e suporta.
Houve momentos na histórica nos quais o feminino resgatou algum poder e autonomia no que se refere a atuação política. No século VIII, por exemplo, um decreto do imperador Carlos Mágno proibiu que meninos fossem instruídos em mosteiros, esse decreto possibilitou que meninas tivessem acesso à educação. A possibilidade de acesso das mulheres à educação culminou que estas tivessem um grau de instrução maior que o dos homens, foi um período em que o feminino voltou a ser valorizado e as mulheres resgataram uma liberdade até então esquecida. A participação dos homens nas guerras foi também um fator determinante para que estas pudessem se reinserir noutra forma de produção, que não apenas, a doméstica. Além das atividades determinadas socialmente como femininas, como tecer, bordar, costurar, as mulheres exerciam funções ditas masculinas como a serralheria e a carpintaria. Nas tribos que habitavam a Gália e a Germânia, sociedade tribais, viviam de forma comunitária, onde homens e mulheres compartilhavam o mesmo status. Este fato revela que a assimetria entre as relações foi reforçada e, perpetuada, a partir da criação de um novo mecanismo de exclusão e controle, o Direito.
O poderio feminino, conquistado por meio da educação incomodou, de forma que a igreja católica promoveu reformas que proibiram o acesso da mulher à educação. Foram universidades exclusivas para a educação masculina, anexas às igrejas, e às mulheres, restavam os precários ensinamentos que eram dados nos conventos. Tendo como únicas opções socialmente aceitas o casamento ou o convento, muitas mulheres optaram por rebelar-se. Algumas mulheres passaram a se agrupar, a morar juntas e a trabalhar nas cidades. A burguesia e a igreja responderam a essa insubordinação, criando leis que as julgavam juridicamente incapazes e simultaneamente, instituindo julgamentos por heresia, onde eram julgadas sob o pretexto de feitiçaria. Mulheres que viviam sozinhas, ou em grupos, viúvas que recusavam um novo casamento, solteiras ou separadas, eram as primeiras a serem acusadas de bruxaria e responsabilizadas, pela inquisição, por “atacar a força sexual dos homens, o poder reprodutor das mulheres e de agir com o objetivo de exterminar a fé”.
No Renascimento o poder era monopólio do clero e da nobreza, e se baseava na posse da terra. O genocídio feminino iniciado na idade média e geralmente descrito como “caça as bruxas”, teve seu apogeu nessa época, século XVI. Milhares de mulheres foram torturadas e assassinadas, o próprio discurso científico nascido nesse período está impregnado por este estigma. Alves e Pitanguy (2007) declaram que é difícil recuperar os traços da resistência feminina, dado o silêncio que encobre o fenômeno. O discurso masculino, buscou respaldo no pressuposto de que a mulher se faz bruxa pela natureza, ou seja, pelo seu sexo, considerado impuro e maléfico. Exemplificamos este dado com o relato de um inquisidor que escreveu em 1583, acerca da menstruação: “mensalmente elas se enchem de elementos supérfluos e o sangue faz exalar vapores que se elevam e passam pela boca, pelas narinas e outros condutos do corpo, lançando feitiços sobre tudo que elas encontram”. O Malleus Maleficarum, documento compilado por frades dominicanos, foi o documento padrão que serviu para julgar e condenar mulheres acusadas de heresia, um fragmento de texto desse documento dizia: As mulheres são basicamente movidas pela intensidade do afeto e da emoção. Seus extremos de amor e ódio são gerados pelo clamor da carne, pela possessividade e pelo ciúme. Mai carnais que os homens, elas são, na verdade, sexualmente insaciáveis, vãs, mentirosas e sedutoras; só buscam o prazer, inclinam-se ao logro premeditado para atingir seus objetivos. Mental e intelectualmente inferiores, deficientes e débeis de corpo e mente, têm memória fraca, intelectualmente são como as crianças, supercrédulas, supersticiosas, exageradamente impressionáveis e sugestionáveis, língua solta, indisciplinadas, na verdade animais imperfeitos.
Cientistas ilustres e médicos renomados passam a descrever a mulher como um ser mutilado, inferior, este discurso encontra ressonância no discurso religioso. Intelectuais e humanistas também a estigmatizaram como inferior e impura. As parcerias dos poderosos foram se ampliando e transformando em rede, a igreja, fortalecida com a exclusão legal das mulheres dos cargos de poder, uniu- se a uma nova classe que surgiu do engendramento das cidades pelo comércio, os burocratas. Foi o golpe final em alguns direitos legais que as mulheres ainda detinham, novas leis foram criadas, foi proibida a sucessão real pela linhagem materna, e a mulher não tinha mais direito algum de gerir seus bens e nem à independência econômica.
O genocídio perpetrado às mulheres pela inquisição, só chegaria ao fim no século XVIII, mesmo século em que, amparados por uma antiga idéia romana de fragilitas sexus, foi decretada a morte civil das mulheres na família e na sociedade. A ética burguesa apoiava-se na idéia de que lugar de mulher era em casa, dedicando-se as funções domésticas, essa mentalidade gerou a filosofia de que as mulheres não são nem indivíduos e nem cidadãs do estado nacional. As produções científicas e artísticas realizadas por mulheres nesse período eram assinadas por pais, maridos, irmãos, que passavam a ter direito sobre toda e qualquer a produção feminina.
O início da era colonial que se ancorava na guerra e na escravidão e baseava sua economia na indústria, foi um processo que se estendeu e solidificou até o século XIX. Nesse período, a condição das mulheres degradou-se ainda mais, principalmente das mulheres dos países pobres e colonizados. A divisão do trabalho acentuou aumentou a distancia entre homens e mulheres, reduzidas ao lar, excluídas da produção mercantil, fossem julgadas “ociosas”, o que gerou um desprezo por parte dos homens. As mulheres que trabalhavam restavam empregos cada vez mais mal pagos, panorama que fez surgir, no século XVII, vários movimentos de resistência feminina no mundo.


pesquisa: renatabomfim

Século XIX: a era do antifeminismo

No século XIX as mulheres se engajaram na luta pelos direitos dos menos favorecidos, eram “voluntárias não- pagas” nos serviços criados pelo governo para dar assistência aos pobres. O movimento feminista ligou sua luta a luta pelos direitos das minorias étnicas e bem como a luta pela paz (MICHEL, 1982, p. 61). A imprensa feminista foi o principal veículo de difusão dos ideais feministas das mulheres de classe média, cuja maior conquista foi o direito a educação para mulheres em todos os níveis. Estes movimentos sempre encontraram muita resistência e o caminho da mulher rumo a sua emancipação, não sido fácil.
A historiadora Andrée Michel (1982) nos diz que “o silêncio da história das mulheres, as advertências hipócritas, as caricaturas grosseiras, são mecanismos que escondem o desejo de mantê-las submissas”.
Na primeira metade do século XX, a mulher continuava reduzida à esfera privada. Outra historiadora, Michelle Perrot (1988) chamou a atenção para o fato de que nessa época, o papel da mulher era extremo, quase delirante no imaginário público e privado, seja no nível político, religioso ou poético. A igreja celebrava o culto à Virgem Maria, cujas aparições geram grandes peregrinações, e a república encarna-se numa mulher, a Marianne. Poetas e pintores cantam a mulher, na mesma proporção de sua misoginia cotidiana.
O antifeminismo acentua-se nesse século
, alimentado pelas conquistas femininas e apela para a restauração da figura do pai e dos valores viris. Em 1909 o manifesto futurista de Marinette apregoava “nós queremos glorificar a guerra- única higiene do mundo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas idéias que matam, o desprezo da mulher”.
Na história as relações de poder encontram-se no centro das relações, as mulheres se por um lado está reduzida ao âmbito do lar e torna-se a guardiã dos valores deste e defensora da dignidade de ser mãe. Maria torna-se o modelo para a santificação da mulher, ela tem a responsabilidade de cultivar a moral.
Na qualidade de esposa e mãe a mulher encontra algum reconhecimento, assim, ela defenderá a instituição do casamento e a família, pois aí se sustenta sua referencia e advêm o seu respeito. Socialmente a maternidade lhe renderá lucros, é o papel mais nobre que pode ser vivido por uma mulher, mas esta faceta limitará sua participação em outros aspectos da vida. Como mãe a mulher exercerá poder sobre o homem, ainda que este poder esteja limitado ao lar. Com seu poder diminuído dentro do lar, o homem é levado a adquirir maior poder fora desse domínio, o seu poder será medido pela capacidade que tem de ganhar dinheiro, ele torna-se provedor.
A valorização do papel de mãe será utilizada como mecanismo de controle e poder sobre a mulher.

A condição da mulher na história: silêncio e enclausuramento

"Que a mulher conserve o seu silêncio” (Apóstolo Paulo)
A historiadora Andrée Michel afirmou que “a história das mulheres é antes de tudo a história da instalação de sua repressão e da ocultação desta”. Segundo esta autora não há nesse fenômeno, acaso, e nem ciência neutra. Este pensamento vai de encontro ao de Simone de Beauvoir (1980) que, com sua célebre frase: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, revelou o pensamento que defenderá em sua obra, de que o papel de coadjuvante da mulher em relação ao homem é uma construção social e não fator biológico ou psíquico. Tanto é cultural que, antes da cultura instituir-se, ou seja, entre 6.000 e 3.000 a.C., período que compreende o neolítico médio, a revolução técnica decorrentes da descoberta de novas fontes de energia como atração animal e a energia gerada pelas águas e pelo vento, de novas técnicas de produção e ferramentas como o arado, o moinho de vento, e o barco à vela, passou a substituir a mulher como agente de produção agrícola, e o status dessa passa sofrer profundas modificações que se perpetuarão por milênios.
Mas qual era a condição da mulher no paleolítico, antes das mudanças acontecidas no neolítico médio? O tema é controverso, muitos pensadores dizem não haver provas suficientes da existência de uma época dominada por matriarcado. Michel chamou a atenção para o fato de serem os referenciais mais antigos nos estudos científicos, também um produto histórico, cujo olhar está comprometido com uma visão de mundo que ratifica mulher como coadjuvante do homem na história, ela diz: “Num mundo em que o poder é masculino, a condição da mulher, quando não ocultada, é descrita por historiadores, etnólogos, sociólogos, de forma androcentrica”.
O paleolítico durou milênios e é um dos mais desconhecidos da história. Estudos feitos a partir de sinais encontrados em cavernas e estatuetas de osso e de pedra, levaram os cientistas a delinear essa sociedade como pacífica não foram encontrados indícios de guerra, embora esses povos já utilizassem armas para caçar. Homens e mulheres participavam de forma equivalente da caça e da coleta, não havia propriedade privada e nem cumulação ou exploração de um sexo pelo outro. Os primeiros signos parietais encontrados nas cavernas datam de 30.000 a. C. e eram signos sexuais femininos e masculinos, mas as únicas estatuetas, em pedra ou marfim, são representações femininas, mulheres com seus atributos destacados, seios fartos, ventre bem desenvolvido.
Estes indícios levam a crer que, nessas sociedades, a mulher tinha papel de destaque. Michel (1982, p. 15), relata que aproximadamente 10.000 a.C., a mulher teve papel preponderante na mudança do paleolítico para o neolítico. O clima foi o gatilho que desencadeou essa revolução, a escassez da caça e a aridez do solo, fez com que surgisse a agricultura de enxada. Vários estudiosos entre eles E. Bouding (1982), atribuem à mulher essa invenção, a partir da observação dos ciclos de germinação e produção dos cereais, e outras invenções como a fiação e a tecelagem, as primeiras cerâmicas, a criação de mós de pedra para triturar os grãos. O estatuto da mulher no neolítico é elevado, e as estatuetas femininas, primeiras divindades, em argila, eram chamadas “deusas mães”, e seu poder vinha da associação entre a mulher e a terra fecunda.
Com o neolítico médio, o estatuto da mulher passa a sofrer modificações, como já citamos anteriormente, os avanços e descobertas desse período fizeram com que a mulher fosse substituída como força de trabalho, a enxada substituída pelo arado o que ocasionou o excedente de alimentos e, conseqüentemente, o sedentarismo e a explosão demográfica. Surge nesse período a propriedade privada e a cumulação de bens, bem como os burgos, embriões das futuras cidades. Na sociedade estatal, baseada na escravidão, rompeu-se o equilíbrio entre o homem e a natureza e inaugurou-se uma nova forma de divisão do trabalho. Os espaços comunitários passam a ser palcos de antagonismo de classes onde variados grupos como artesãos, sacerdotes, militares, passaram a viver a serviço dos mais ricos. As necrópoles indicam o grau bélico dessa sociedade, foram encontradas fossas coletivas com corpos crivados de flechas, o homem agora “agricultor” e “sedentário”, já não tolera a extensão das florestas e nem “rebanhos pastando em seus campos de trigo”. Enfraqueceu-se a base ideológica do matriarcado com o reconhecimento da participação masculina na procriação. A “deusa-Mãe” que durante muito tempo foi o único objeto de veneração foi atribuída um parceiro macho que, inicialmente, lhe era subordinado mas depois igual e, finalmente, soberano, o “pai do céu”.
No seio da nova religião, o patriarcado, está à repressão e o entendimento da mulher como ser de segunda classe. Uma forma de solidificar a imobilidade social da mulher ocorre por meio da clausura. Nos séculos VI e VII às mulheres era vetado o direito ao episcopado, mesmo assim, elas ajudaram a construírem mosteiros, que era a instituição detentora do monopólio da educação. No século VIII um decreto do imperador Carlos Mágno proibiu que meninos fossem instruídos em mosteiros, o que fez com que nos séculos subseqüentes as mulheres tivessem um grau de instrução maior que os homens e, conseqüentemente, voltassem a gozar de uma liberdade esquecida pois podiam gerir negócios, além de herdar e alienas propriedades. Entre os séculos VIII e IX as mulheres conseguem resgatar a autonomia, isso aconteceu em diferentes lugares do mundo, por exemplo, no Islã, as mulheres tinham papel social de destaque e lecionavam nas universidades, em Roma, a imperatriz Teodora e sua filha controlavam o papado, em Bizâncio, as rainhas eram conhecidas por sua instrução, as mulheres eram numerosas nas universidades e exerciam profissões liberais.
A imagem convencional da exclusão da mulher, só viria a nascer após o século XII, com reformas promovidas pela igreja. Os conventos deixam de ser locais de fomento da educação, a hierarquia da igreja constrói universidades anexas às catedrais, cujo acesso era vetado a moças que continuavam a ter uma educação precária nos conventos. A defasagem na educação entre homens e mulheres tirou-as do mercado de trabalho e no século XIV o poder e a cultura já não estão mais ao seu alcance. Fortalecida com a exclusão das mulheres dos cargos de poder, a igreja uniu-se a uma nova classe, produto das cidades engendradas pelo comércio, os burocratas. Da aliança formada entre a igreja e tesoureiros, chanceleres e magistrados, surgem leis que proíbem a sucessão do domínio real pela linhagem materna, as mulheres perderam o direito de gerir seus bens e a independência econômica. A crescente extinção dos direitos das mulheres, principalmente pela via da educação e da divisão do trabalho, faz nascer nasce à contracultura feminina da resistência.
Tendo como únicas opções socialmente aceitas o casamento ou o convento, as mulheres passaram a se agrupam, muitas passaram a morar juntas e a trabalhar nas cidades. A igreja e a burguesia responderam a tal insubordinação com novas leis que, agora, as julgam “juridicamente incapazes”. Simultaneamente foram instituídos os julgamentos por heresia que, sob o pretexto de feitiçaria, tinham poderes sobre a vida e a morte. Durante o século XIII, período que foi instituída a inquisição, as mulheres que viviam sozinhas, ou em grupos, bem como as viúvas que recusavam um novo casamento, as solteiras ou separadas, eram as primeiras a serem acusadas de bruxaria e de “atacar a força sexual dos homens, o poder reprodutor das mulheres e de agir com o objetivo de exterminar a fé”. A inquisição dizimou milhares de mulheres, ela foi sendo extinta gradualmente, no decorrer do século XVIII, mas a sua essência original que era a guarda da pureza e da fé. No século XVI a “normatização” prosseguiu e, amparados na antiga idéia romana de fragilitas sexus, foi decretada a morte civil das mulheres na família e na sociedade.
O enclausuramento no seio da família era o destino da mulher do século XV e XVI. Elas só podiam agir com autorização do pai ou do marido e qualquer ação sem tutela era considerada judicialmente nula. A ética burguesa apoiava-se na idéia de que lugar de mulher era em casa, dedicando-se as funções domésticas, essa mentalidade gerou a filosofia de que as mulheres não indivíduos, cidadãs do estado nacional. As produções científicas e artísticas realizadas por mulheres desse período eram assinadas por seus pais, maridos, irmãos, que passavam a ter direito sobre a produção. Os séculos XVII e XVIII a economia passa a se basear na indústria, ancorada na exploração colonial e na guerra. A condição das mulheres degrada-se ainda mais, principalmente a das mulheres dos países pobres. A valorização da produção faz com que estas sejam julgadas como “ociosas” e portanto tornam-se objeto do desprezo masculino. A invenção de novas máquinas acelerou a divisão do trabalho restando as mulheres empregos cada vez mais mal pagos. Tais condições geraram no século XVIII vários movimentos de resistência feminina no mundo. As bas bleus animavam os salões literários da Europa, na América as quakers, muitas delas foram enforcadas, na França as salonnières ganharam celebridade, e passam a se agrupar em associações que foram o berço do movimento feminista.
No século XIX as mulheres se tornaram uma potencia produtiva doméstica e não-mercantil. As mulheres pobres produziam em casa artefatos que eram vendidos no mercado e as da burguesia, esposas de executivos e multinacionais, exerciam gratuitamente o papel de um empresário bem pago no setor mercantil. Essa mão de obra “não-remunerada” e a exclusão feminina do mercado de trabalho davam aos operários seguridade, as mulheres eram prisioneiras da família. As mulheres do século XIX “constituíram uma importante vanguarda dos movimentos sociais participando das doutrinas e movimentos revolucionários”. Em 1848 o movimento feminista desbobrou-se em muitas direções o que desperta uma forte onda anti-feminista que atingia os sindicatos masculinos que lutavam para que as mulheres não tivesse acesso ao mercado de trabalho, eles contestavam as lutas das operárias chegando a fazer greve quando mulheres eram contratadas, eles exigiam “a supressão do trabalho feminino” e, segundo M. Guilbert,“o problema se colocava idêntico em todos os lugares”. A resistência feminina continua gerando nos homens profunda indignação, não podendo deter o avanço feminino, os partidos políticos sexistas, criaram legislações para limitar a sua atuação e o seu tempo da mulher no mercado de trabalho.
pesquisa: renatabomfim

Bakhtin e Jung: consonância teórica

Assim como Carl Gustav Jung, Bakhtin divergiu da psicanálise freudiana. O conjunto da obra de Bakhtin conta com um livro intitulado Freudismo (1927) , que é assinado por seu aluno V. N. Volochinov, nessa obra Bakhtin lança uma crítica a obra de Freud e, a sua análise, reafirma o pensamento dialógico na medida em que propõe que o estudo de um objeto específico deve ser realizado com maior interatividade, de forma que este dialogue com um número maior de vozes, valores e conceitos.
O objeto de reflexão de Bakhtin é o discurso, e foi a partir deste que ele teceu variadas criticas a análise psicanitica de Freud. Bakhtin observou na prática psicanalítica uma luta entre paciente e terapeuta, ao primeiro cabia a tentaivade esconder experiências emocionais e, ao segundo, impôr seu ponto de vista ao paciente. Bakhtin identificou nessa dinâmica uma similaridade com o processo dialógico, pois, “a voz do paciente é a voz que reage ao discurso do outro, e nesse diálogo, cruzam-se duas consciências, dois pontos de vista”, essa luta de interação com o outro, ou o dialogismo, é o cerne de sua obra.

A motivação de Baktin em tratar do tema relaciona-se ao fato de, na sua época, a Rússia vivia um clima de exarcebação ideológica que determinava o comportamento dos indivíduos pela organização de classe de produção e, como explicitado anteriormente, a psicologia era condizida por fortes correntes biológica e fisiológica, resultado da associação com as ciências naturais (biologia, fisiologia e teoria evolucionista), empenhadas em criar uma psicologia objetiva. A crítica bakhitiniana tem atravessamentos com a realizada por Jung, no que tange ao enfoque demaziado na sexualidade que Freud deu a sua teoria. Bakhtin acreditava que o discurso psicanalitico era um “discurso autoritário”, ou seja, um discurso que se impõe pela autoridade de quem o emite, no caso, o discursos sustentado pela medicina e pelo seu ilustre representante, o médico. Em maior escala ele referia-se ao discurso sustentado pela psicanálise, reducionista segundo seu parecer, pois não privilegiava a interação entre os falantes e principalmente pela crença de que nunhum enunciado verbalizado poderia ser atribuído exclusivamente a quem o enunciou. A partir deste pressuposto, Bakhtin lançou luz sobre a importância do contexto social da enunciação.

Bakhtin apresentou ao século XX, assim como Jung, uma concepção que desafiava soberania do indivíduo. Jung com uma visão multidimensional da psique, para ele. (2006, p. 111), esta “está longe de ser uma unidade; pelo contrário, é uma mistura borbulhante de impulsos, bloqueios e afetos contraditórios” e o seu estado conflitivo pode levar o indivíduo à dissociação. E Bakhtin, no campo lingüístico, pondo em xeque a soberania do autor. Esta horizontalização tanto do poder do indivíduo, quanto do poder do autor, defendida por estes dois pensadores, está em consonância com o pensamento de dois grandes pensadores da pensadores da contemporaneidade, são eles Terry Eagleton e Stuart Hall, e revela a extemporaneidade dos pensamentos junguiano e bakhtiniano, pondo em prática a máxima dos estudos da pós-modernidade, ou seja, o questionando das noções clássicas de verdade.
pesquisa: Renata Bomfim

Carl Gustav Jung: o nascedouro da psicologia analítica


Carl Gustav Jung é um críticos ferrenho da unicidade do individuo. A criação de sua obra teve como pano de fundo o século XX, tempo de passagem do sujeito iluminista, quando a pessoa humana era concebida como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado de razão e, tinha o eu como centro essencial da identidade, para o sujeito sociológico, que questionava a autonomia do núcleo interior do sujeito.
Stuart Hall na sua obra A identidade cultural na Pós-modernidade, esclarece que no século XVIII, “ainda era possível imaginar os grandes processos da vida moderna como estando centrados no indivíduo, sujeito-da-razão”, mas, a complexidade que as sociedades modernas foram adquirindo, lhes concedeu formas mais coletivas e sociais e o indivíduo passou a ser visto como “mais definido no interior das grandes estruturas e formações sustentadoras da sociedade moderna”. Na base que fundamentou o surgimento do sujeito moderno estão: a institucionalização do dualismo cartesiano por meio da divisão das ciências sociais, entre elas a psicologia, que tornou os processos mentais, objeto privilegiado de estudos. O segundo fator foi a biologização do indivíduo, influencia da teoria darwiniana da evolução das espécies, que postulou que a razão tinha uma base na natureza e a mente, um “fundamento” no desenvolvimento físico do cérebro humano.
O pensador francês Michel Foucault pesquisou com profundidade a história das ciências, em especial o nascimento da clínica. Foucault defendeu que a psiquiatria abandonou o delírio e a alienação mental e passou servir como instrumento de controle social, no livro A ordem do discurso (1996) ele especificou os três grandes sistemas de exclusão que atingiram o discurso: “a palavra proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade”.

O neojunguiano James Hillman (1984) nos fornece um panorama do pensamento acerca da psique no final do século XX, quando Jung iniciou a construção de suas teorias. Desde o final do século XVIII, norteados pelo espírito do iluminismo tardio e da confiante idade da razão, os acadêmico passaram a sentir um forte fascínio pela cabeça, que adquiriu o simbolismo de “topo” do homem. Conta-nos Hillman que, até meados do século XVIII, a sede das desordens psíquicas era procurada no estômago, nas entranhas e no diafragma.
A filosofia dessa época contribuiu e preparou caminho para tal migração do interesse científico. Voltaire, por exemplo, havia declarado que a loucura “era uma doença dos órgãos do cérebro”, já Kant, considerava a psicose “uma enfermidade da cabeça”, embora ainda se acreditasse que a sua origem estivesse no sistema digestivo. Se a psicologia moderna nasceu comprometida com o espírito secular do iluminismo e sob a égide da filosofia, pode-se dizer que o pai deste movimento foi o filósofo Johann Friedrich Herbart (1776- 1841), sucessor da cátedra deixada por Kant, e responsável pela criação de mapas e guias psicológicos muito difundidos nas universidades da Europa e da América. A ascensão da psicologia nos meios médicos e o duradouro postulado herbartiano fez com que a “alma” fosse despida de toda sua potencialidade, deixado de ser o centro vivo da individualidade e, até mesmo a palavra “alma”, caiu praticamente em desuso. Herbart escreveu que a alma “não possui conhecimento de si mesma nem de outros objetos”. Ele destacou também que esta não possuía “categoria de pensamento e intuição, nem faculdade de desejos e ação” . A alma, em princípio, não quaisquer teria predisposição, e a sua natureza elementar seria totalmente desconhecida, devendo permanecer desconhecida. Desse modo, “a alma não poderia servir como tema nem para a psicologia especulativa, nem para a psicologia empírica” .

De forma marginal e muito criticado pelos acadêmicos, Freud começou a construir, a partir das experiências com seus pacientes, em consultório particular, a psicanálise. Paralelamente, Jung desenvolvia seus estudos e, embora institucionalizado, pois era estagiário de Eugen Bleuler no Hospital universitário de Burghölzli, passou a direcionar o seu olhar para aquilo que julgava ser “uma rica colheita para a psicologia experimental”, ou seja, o estudo Sobre a psicologia e a patologia dos assim chamados fenômenos ocultos, que se tornou tema de sua monografia de especialização. O Dr. Bleuler era conhecido na Alemanha e na Suíça por seus métodos pouco ortodoxos para a época, como por exemplo, obrigar os médicos a aprenderem os dialetos falados pelos pacientes. Em 1902, Jung foi para Paris estudar com Pierre Janet e Charcot. Como professor universitário e ainda trabalhando no Hospital Burghölzli Jung passou a elaborar, a partir de estudos de casos, especialmente o do Dr. Otto Gross, o que chamou num ensaio de “a importância do pai no destino do indivíduo”. Seus trabalhos anteriores já davam indícios das teorias que estavam por vir e, Jung, ao argumentar que “o destino” e não “Deus ou o Demônio” era “o responsável por nossas infelicidades e suas conseqüências”, já citava Shakespeare, apoiava-se em Schopenhauer, utilizava analogias e referências bíblicas e, no decorrer dos anos, com a incorporação de novas idéias, o conceito de “Destino” tornou-se “o arquétipo”.

Com suas pesquisas Jung buscava mostrar que os poderes psíquicos vinham de estados psicológicos da mente e não tinha ligações com forças espirituais, indo desta forma na contramão da doutrina espírita que florescia. Estes dados esclarecem que Jung sempre separou religião de experiência religiosa, sendo a segunda, para ele, uma expressão da psique e uma construção cultural. Embora com vínculos institucionais, a forma como Jung lidou com temas referentes à alma encontrou pouca aceitação nos meios acadêmicos e clínicos. Jung lera A Interpretação dos Sonhos, de Freud, em 1900, mas, foi em 1906, que iniciaram as correspondências entre ambos e uma relação pessoal que duraria até 1914. Freud era persona non grata no meio acadêmico, mas , com o lançamento do livro A interpretação dos sonhos, passou a ser conhecido como o fundador de uma nova teoria. Jung havia assumido abertamente na comunidade científica internacional, sobre como seu trabalho com as associações de palavras estavam em conformidade com a teoria de Freud sobre os mecanismos de repressão, destacando a importância da obra de Freud nos seus estudos. Na relação com Jung, Freud deixou claro quem era o aprendiz, e que estava confiante que, muitas vezes, Jung estaria em posição de lhe “secundar”.

A relação entre Jung e Freud termina quando Jung expressa suas reservas a respeito da primazia da sexualidade na teoria freudiana. No artigo intitulado Sigmund Freud, um fenômeno histórico-cultural, Jung lança uma dura crítica ao “pomo da discórdia”, afirmando que o iluminismo foi “o chão pátrio” que firmava o pensamento psicanalítico freudiano, e interroga sobre todas as complexas manifestações da alma, como arte, filosofia e religião pareciam-lhe suspeitas, ou melhor, “nada mais do que” repressões do instinto sexual. Essa posição essencialmente limitadora e negativa em relação a reconhecidos valores culturais baseiavam-se num condicionamento histórico. Para Jung Freud via como sua época o obriga a ver. Isso aparece melhor na obra Die Zukunft einer Illusion, onde Freud traça uma imagem da religião que corresponde exatamente ao preconceito da época materialista.

autoria: Renata Bomfim

29/08/2009

Ser poeta

Ser poeta é cantar alto
mesmo com a voz embargada
enquanto o dia refracta toda a luz
É esperar com as mãos estendidas
para doar a vida
É cantar de um quarto escuro
de onde, mais claramente,
se pode sentir as cores e os cheiros
É buscar o outro
e encontrar a si mesmo
Passado, presente e
futuro fragmentado
quando coisas esquecidas
afloram derrepente
Narciso sabia de tudo
e fez um mergulho preciso
nas águas turvas do rio do potencial
Estige
Foi em busca do seu sol
e do sentido que o fará um dia
emergir deus
A solidão é um abismo
e guarda uma paz preciosa!
Sou poeta e canto
Arrisco a Vida
Se a voz embargada irrita
Canto, canto e canto mais ainda
e não ligo

bairenatabomfim

22/08/2009

Defesa de Mestrado da Renata- Leitura da ATA

ATA de aprovação:
RENATA BOMFIM APRESENTOU UM TRABALHO INOVADOR, QUE DÁ CONTA DOS CONCEITOS ABORDADOS INTERCONECTANDO-OS COM INTELIGÊNCIA, CRIATIVIDADE E BRILHO, SEJA EM SUA DISSERTAÇÃO, SEJA EM SUA EXPOSIÇÃO, ASSIM COMO EM SUAS RESPOSTAS. A BANCA ASSINALA O LOUVOR DO SEU TRABALHO.

Florbela Espanca: Defesa da dissertação de mestrado de Renata Bomfim (UFES)

Olá amigos,
Compartilho com vocês a alegria de ter defendido a minha dissertação de mestrado (Vozes femininas: a polifonia arquetípica em Florbela Espanca) com êxito e alcançado o título de mestre. Foi uma tarde mágica, a de ontem (21/08), momentos que ficarão para sempre registrados na minha memória. Choveu muito às 15 horas, hora que iniciei a defesa, como disse a minha co-orientadora, Maria Lúcia Dal Farra (UFSE), "Foi o meu batismo". Foi a coroação de três anos de pesquisa, coletando material, escrevendo, analisando e nesse percurso glorioso, tive a alegria de contar com a ajuda de amigos e de desconhecidos, bem como, com o amor, o carinho e a paciência do Luiz, meu amado esposo, enfim... Eu esperava que desse tudo certo, mas minhas expectativas foram exponencialmente superadas. A apresentação fluiu, eu optei por apresentar cada capítulo da pesquisa individualmente, o público gostou e os professores disseram que, grande parte das perguntas que me fariam, foram respondidas durante a mesma. Assim, cumprindo o protocólo e, com a intenção de enriquecer o trabalho, eles me fizeram algumas sujestões e pediram que eu falasse um pouco mais sobre alguns tópicos.
A banca foi unânime e afirmou que não havia na minha pesquisa nenhuma contradição teórica e que o meu trabalho demonstrava um grande fôlego de pesquisa, eles também destacaram o arrojo da proposta e que fui corajosa ao reunir e dialogar teóricos densos e, até mesmo, contraditórios como BaKhtin, Carl Gustav Jung, Foucault, Fredric Jameson e Raymond Willians.
Quero fazer uma agradecimento especial à CAPES pela bolsa de estudos, OBRIGADA!
Me preparando para começar a defesa momento das perguntas
e das respostas...
Apresentação da pesquisa
Apresentação da banca da esquerda para a direita:
Valdelino Gonçalves dos Santos Filho (doutor em Comunicação e Semiótica- professor adjunto e Coordenador do curso de Artes Plásticas Universidade Federal do Espírito Santo. Dedica-se a pesquisa de temas como multimeios, grafite e semiótica)
Luis Eustáquio Soares (orientador- Poeta e Doutor em Literatura Comparada, Atualmente é Professor Adjunto III, da Universidade Federal do Espírito Santo - Departamento de Línguas e Letras. Dedica-se à pesquisa de temas como alteridade, representação, resistência, dominação, biopoder, biopolítica, experimentação, numa perspectiva, sempre em construção, de crítica à modernidade, mapeada transdisciplinarmente)
Deneval Siqueira de Azevedo Filho (Crítico literário, Doutor em Teoria e História Literária e Pós-doutor em Literatura Comparada e Estudos Culturais pelo Harpur College of Arts, State University of New York in Binghamton e em Letras e Culturas, no International College of Letters and Cultures, Hispanic Research Center, da Arizona State University. É membro da Academia Campista de Letras e coordenador do Grupo de Estudos Interdisciplinares de Transgressão /GEIT)

Jesus integrou a mesa como convidado de honra! Depois da nota (máxima) chegou a hora de comemorar.... YES!
Eu e Luis, meu amor e maior incentivador
bebemos mas não caímos e nem perdemos a pose!
Dedico este poema a todos que, de alguma forma, fizeram parte deste percurso e aos queridos Luis Eustáquio Soares (orientador) e Maria Lúcia Dal Farra (Co-orientadora -UFSE), que foram farois iluminando o meu caminho.

Uma canção sobre a terra que gira e sobre as palavras que estão nela. Julgavas que as palavras fossem aquelas? Aquelas linhas retas? Aquelas curvas, ângulos e pontos? Não, aquelas não são as palavras, as palavras substanciais estão no solo e no mar. Estão no ar, estão em ti. Pensavas que aquelas eram as palavras?aqueles sons deliciosos que saem da boca de teus amigos? Não, as palavras reais são mais deliciosas que as deles. Corpos humanos são palavras, miríades de palavras, nos melhores poemas o corpo ressurge, o da mulher, o do homem, reformado, feliz, todas as partes habilitadas, ativas, receptivas, sem demonstrar vergonha. (Walt Whitman- Uma canção sobre a terra que gira)

Agradeço ao amado Jesus Misericordioso por me proporcionar tantas oportunidades na vida, sei que muitas pessoas não tem acesso à comida, nem a um lar, quanto mais à educação, e isso aumenta o meu compromisso e a minha responsabilidade para com a trasmissão desse saber (pago com dinheiro público).
Resumo da Dissertação:
Esta pesquisa propõe reflexões acerca das vozes sociais e arquetípicas presentes nos livros de soneto Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1921), Charneca em Flor (1930) e Reliquiae (1931), da poeta portuguesa Florbela Espanca. Para tal utiliza-se como arcabouços teóricos básicos, as obras de Mikhail Bakhtin, especialmente os conceitos de dialogismo e polifonia, e de Carl Gustav Jung, os conceitos de arquétipos e inconsciente coletivo. A poética de Florbela Espanca é polifônica por abarcar uma multiplicidade de vozes sociais e seus respectivos discursos, ela é também arquetípica, pois reproduz experiências que extrapolam o âmbito pessoal, encontrando ressonância no coletivo de diferentes épocas. Dentre estas vozes arquetípicas femininas expressas na sua poesia, analisa-se as de Lilith, Eva e Maria, por abarcarem aspectos como a sensualidade, o erotismo, a aspiração sacerdotal e virginal, a dor, a angústia, o desejo, o sonho e a vaidade, temas que refletem certos desejos de fazer dialogar dicotomias, termos opostos que, em uma sociedade patriarcal não conseguem alcançar expressão plena. A dificuldade de realização profissional e pessoal da mulher numa sociedade tradicional e falocrata como a do primeiro quartel do século XX, no caso de Florbela é, possivelmente, a geradora da angústia que levou-a ao suicídio, destino interpretado como “tragédia moderna” aos moldes raymondianos. A dificuldade de enquadramento do feminino na ordem patriarcal do mundo, é poeticamente trabalhada por Florbela que responde com um texto marcado pela inquietação, pela busca e pela errância, e encontra na utopia de Fredric Jameson, um caminho de expressão, a partir da denúncia do paradigma exaurido da dualidade, demonstrado pelo desejo de infinito e de integração com a natureza. A critica literária Maria Lúcia Dal Farra é o aporte fundamental no que diz respeito à obra e a vida de Florbela Espanca, e outros autores auxiliarão na construção dessa pesquisa “mosaico” que, objetiva ser interdisciplinar.

17/08/2009

Geladeira do século XXI: Varanda Viva

Queridos, que bom exercicio é diminuir, diminuir , diminuir, até parar com os sacos plásticos...

A varanda viva nos dá um bom exemplo disso.... E viva à natureza!!!!
Parabéns a Aline Chaves por sua Geladeira do século XXI
Uma inspiração!!!

09/08/2009

Lei 9265 institui a política estadual de educação ambiental do ES

Foi sancionada pelo governador Paulo Hartung, a Lei nº 9.265, que institui a Política Estadual de Educação Ambiental. A lei tem como um de seus princípios a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o socioeconômico, o político e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade.