31/08/2007

Florbela Espanca (1894- 1930)

Florbela nasceu no dia 8 de dezembro de 1894 em Vila Viçosa, distrito de Évora, região do Alentejo, Portugal. Foi batizada como Florbela Lobo, sobrenome de sua mãe (Antônia Lobo), seu pai, João Maria Espanca, não a perfilhou, na sua certidão consta: "filha de pai icógnito".
Aos 8 anos de idade Florbela escreveu seu primeiro soneto, intitulado A vida e a morte.
Florbela Não teve reconhecimento na sua época, publicou seu primeiro livro de poemas em 1919, as próprias custas, numa tiragem de 200 exemplares, o segundo veio em 1923. No início do século houve um verdadeiro surto de poetisa de salão, cuja produção era considerada "um mimo", e este foi um fator que também influenciou que a obra de Florbela se sobressaísse.
Sabemos que uma poetisa, Virgínia Victorino chegou a publicar 12 edições de sua obra, e teve aclamação do público da imprensa, e outras poetisas também se destacaram naquela época, mas hoje caíram no esquecimento e o nome de Florbela ganha cada vez maior reconhecimento. É considerada hoje, pela força de sua poesia, a maior poeta feminina de Portugal.
Vou apresentar para vocês algumas fotos e um poema, espero que gostem:
“Viver não é parar: é continuamente renascer. As cinzas não aquecem; as águas estagnadas cheiram mal. Bela! Bela! Bela! Não vale recordar o passado! O que tu foste, só tu o sabes: uma corajosa rapariga, sempre sincera para consigo mesma” (ESPANCA, diário 12/01/ 1930).
Florbela com 3 aninhos
Florbela e Alberto Moutinho, seu primeiro marido

Florbela em 1914

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendos
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Charneca em Flor- 1930)

Casa onde Florbela viveu parte de sua vida


Festa da Flor- reunião de amigas para ajudar a Cruz vermelha

Diário de Florbela de 23/01/1930:
"Endiabrada Bela! Estranaha abelha que dos mais doces cálices só sabe extrair fel!
Para que quer essa criatura a inteligência, se não há meios de ser feliz?, dizia dantes meu pai indignado".



Florbela, sempre elegante!

26/08/2007

Arte - Espelho Multifacetado do Ser

para os meus amigos, mais um artigo antigo, escrito em 2000 e lá vai bolinha (2003)./ imagem: Orson Welles e Rita Hayworth na antológica cena da casa dos espelhos em The Lady of Shanghai (1947).

O homem não cria apenas porque gosta, e sim porque precisa, ele só pode crescer enquanto humano, coerentemente, ordenando, dando forma, criando.
(Fayga Ostrower)
Ansioso por aplacar sua angústia frente à complexidade do mundo, o homem moderno busca criar definições para tudo, e com a arte não acontece muito diferente. O que é Arte? Certa vez o pintor espanhol Pablo Picasso disse: “Todo mundo quer entender a pintura. Por que as pessoas não tentam entender o canto dos pássaros? Porque gostam de uma noite, uma flor, tudo o que cerca o homem, sem tentar entender essas coisas? Ao passo que quando se trata da pintura (...)”.
Eu acredito que a Arte não deve ser definida. Definir significa dar fim, esgotar. Assim, proponho que reflitamos sobre a arte; refletir significa espelhar, especular, flectir, inclinar-se para ver melhor.
Neste espelho multifacetado, que a arte configura, o homem pode se perceber, ver suas experiências refletidas. A arte não compete nem com a ciência nem com a razão, ela só pode ser explicada por ela mesma e na sua complexidade ela se realiza e se basta e o mais importante, ela se abre para o social.
Como artista plástica, dentre as possibilidades que a Arte oferece, optei pelo viés da Arteterapia. A Arte como instrumento terapêutico não é coisa nova, os gregos já utilizavam a música, a dança, o teatro, a pintura, a escultura, nos seus processos de cura. Estas expressões, inspiradas pelos deuses, possibilitavam ao homem a “Paidéia”, ou seja, originavam o homem 'obra de arte', criador e ético.
A Arte tem sido uma linguagem e um canal universal de expressão da emoção humana, desde os primórdios da cultura, ainda hoje se encontram refletidas nas cavernas, cenas do cotidiano, caçadas, símbolos, deuses e demônios do homem que ali esteve há cerca de 25.000 anos.
Criar para o homem é uma necessidade, dessa forma ele comunica o seu potencial subjetivo. Através da sensação de estar contido num espaço e de ter um espaço contido dentro de si, o homem pode melhor se estruturar; suas criações revelam suas experiências como indivíduo, diante de propostas e valores existentes dentro de sua sociedade.
Materiais plásticos como argila, madeira, tintas, pedras, entre outros, são veículos para que símbolos, muitas vezes vindos de camadas muito profundas do inconsciente se apresentem a consciência como imagens, estas imagens , muitas vezes, surgem carregadas de afeto, e trazem consigo a possibilidade de que os "não ditos" sejam expressos de forma menos ameaçadora e possam ser integrados, assimilados pela consciencia.
A Arteterapia não nega a estética, esta negação resultaria na morte significativa deste produto da criação, a arteterapia apenas mantém o seu foco, no fazer, no produzir.
Após a produção, símbolos individuais e coletivos poderão ser amplificados por quem os produziu. Símbolo vem do grego Symbalem, daí vem também a palavra balística, isso demonstra que o símbolo é algo vivo, dinâmico, certeiro, ele possibilita reunião de opostos e traz possibilidades de transformação pelo encontro do significado.
Assim acontece quando alguém cria, no diálogo com esta criação ela pode “especular” e “flectir” sobre si mesma, se auto-conhecendo e aceitando ou modificando, se re-criando com o objetivo de cunhar uma personalidade melhor adaptada, capaz de administrar melhor seus conflitos e questões.
Para que o indivíduo possa experimentar dos benefícios da arteterapia ele não precisa ter “habilidades artísticas especiais”, mas é preciso coragem na exploração do território sagrado da alma, povoado por aspectos do Ser muitas vezes negados ou negligenciados pela consciência.
Como contou o poeta Milton Nascimento “Nada a temer se não o correr da luta, nada a temer se não esquecer o medo, abrir o peito à força, numa procura, (...) vou descobrir o que me faz sentir, eu caçador de mim”.
É a jornada do herói, que deixa sua terra natal, o colinho quente e seguro da mamãe, e parte para a conquista. No caminho ele enfrenta maremotos, demônios e dragões, muitas vezes ele pensa em desistir, mas algo mais forte o impele a continuar, no fim ele resgatar a pedra de grande valor, que simboliza sua alma.
Nossa cultura vivencia uma neurose, para ser aceito o indivíduo muitas vezes nega aspectos do seu Ser, penso que a arte com cunho terapêutico, ou arteterapia, propõe uma integração, um indivíduo íntegro, ou seja, inteiro, e não perfeito, não se deixa limitar.
Finalizo novamente citando o Milton Nascimento:
Lapidar minha procura, toda trama lapidar o que o coração com toda inspiração achou de nomear gritando: alma(...) Viajar nessa procura toda de me lapidar, Neste momento agora de me recriar, de me gratificar. Te busco, alma.

Referências Bibliográficas:
- AMARANTE, P. Loucos pela vida. A trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: FioCruz, 1995.ARNHEIM, R. Arte e Percepção Visual. Uma psicologia da visão criadora. São Paulo: Pioneira, 1980.
- JUNG, C. G. O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964._________. Psicogênese das doenças mentais. Petropólis: Vozes, 1986.
- MONTEIRO, Dulcinéia da Mata Ribeiro. Mulher Feminino Plural. Rio de Janeiro:Rosa dos Tempos,1998.



Publicado originalmente no site intermídias: http://www.intermidias.com/anterior/categorias/arte_renata.htm

25/08/2007

Qual o sentido dos sonhos?

Povo, segue um artigo que escrevi para a escelsanet em maio de 2002.
QUAL O SENTIDO DOS SONHOS?
Fonte: www.escelsanet.com.br

Por Dra Renata Bomfim

Escutar o que dizem os nossos sonhos é escutar a própria Alma. Uma noite sonhei que recebia uma chave das mãos de uma pessoa desconhecida, e esta pessoa me dizia: -Vê esta chave?- Com ela você pode abrir qualquer porta. Acordei, senti um misto de felicidade e de inquietação, era como se eu tivesse ganho um talismã.

Agora, só dependia de mim, eu podia abrir todas as portas, afinal, tinha a chave. Este sonho serviu como um impulso para que eu pusesse em prática alguns projetos, que a algum tempo estavam engavetados.

Em muitas civilizações e religiões, os sonhos são considerados via de ligação entre o mundo cotidiano e um outro mundo, ao qual nossa consciência não tem acesso. Tanto no Antigo, quanto no Novo Testamento, os sonhos desempenham funções muito importantes. No antigo Egito os intérpretes de sonhos ocupavam posições de destaque na corte e eram solicitados para interpretar os sonhos do Faraó; São José recebeu através de um sonho, a mensagem de que deveria fugir para o Egito com a virgem Maria e o menino Jesus, afim de que não fossem mortos pelo Rei Herodes; a Mãe de Buda teve um sonho que anunciava seu nascimento, e muitos outros registros de sonhos nos foram deixados, provando a importância do mesmo para o homem e a para sociedade.

Por que será que a sociedade moderna negligencia e até mesmo banaliza os sonhos? Na concepção Junguiana, os sonhos são uma representação simbólica do estado da Psique, e pensando a humanidade como um indivíduo, vemos como esta sociedade capitalista e de consumo, valoriza mais o ter que o ser, e negligencia os anseios da alma.

Muitas vezes a expressão de sentimentos como amor, solidariedade e afeto são confundidos como demonstração de fraqueza. C. G. Jung, pensador contemporâneo que desenvolveu uma teoria psicológica voltada para a busca da realização do indivíduo (individuação) foi vítima deste pensamento, e sua psicologia, confundida com “Místicismo”, veja o que ele disse a respeito dos sonhos:

“Os sonhos não são nem criações deliberadas, nem arbitrárias; são fenômenos naturais, e nada mais daquilo que pretendem ser. Não enganam, não mentem, não distorcem ou mascaram... Estão invariavelmente procurando expressar algo que o Ego não conhece e que não compreende. Todo trabalho onírico é essencialmente subjetivo e o sonho é um teatro no qual o próprio sonhador é a cena, o ator, o ponto, o produtor, o autor, o público e o crítico”.

Os Sonhos trazem à tona informações importantes sobre nós mesmos, nossos anseios e desejos mais profundos, nossas alegrias, nossos medos, nossos traumas, nossas projeções,lembranças que (propositalmente) esquecemos, e que são causadoras de angústias, ansiedades, e doenças, eles nos dão uma possibilidade de auto-análise.

A linguagem dos sonhos são os Símbolos. O Símbolo é a expressão de algo desconhecido, e não deve ser definido (a palavra definir significa “dar fim”).

Vemos muitos livros de interpretação de sonhos definindo e matando as possibilidades de transformação do indivíduo, impedindo-o de estar reescrevendo sua história (ex: sonhar com isso, significa aquilo)

Ao analisarmos nossos sonhos, nosso intuito deve ser o de extrair deles a essência, um combustível impulsionador, lembrando que sonhar com morte, por exemplo, não significa que você ou alguém de sua família vai morrer, mas pode ser uma mensagem que traga a lembrança o fato de que morremos e renascemos a cada instante, como nos diz a música do Gil, “O Amor da gente é como um grão, tem que morrer pra germinar”.

Nunca leve um sonho ao pé da letra, lembre-se que sua mensagem é simbólica e individual, afinal você é um ser único, não existe outro igual a você no mundo. Agora te convido a escutar com mais atenção os seus sonhos, coloque um caderninho ao lado da cama, e quando algo do sonho mexer com você, anote ou desenhe, mesmo que a princípio você não entenda nada, nosso inconsciente é atemporal, aespacial, imaterial e plástico, em algum momento tudo fará sentido para você.

Muita Paz, Amor, Saúde e bons Sonhos.


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19/08/2007

verdade

O que queres
com teu sorriso dourado
fogo-fátuo que ludibria
o outro ser, encantado,
e que derrete o gelo
em água que não sacia?
O que buscas
nas noites e dias
em que teu corpo, com frio, chora
e tuas mãos encolhidas, à janela,
onde o vento corta, borda acanhada
o que queres, Penélope aloprada?
tens cobras nos cabelos?
queres impor medo?
Pois saiba que vais morrer!
um dia...
Então vive o hoje
sejas feliz!
Há melodia na catástrofe inaudita
mal-dita ou bem-dita
Dita as regras do teu jogo e
acredita, e joga o dado do teu destino.
Teu estatuto é viver
então viva o hoje
o amanhã, quem sabe?
Sorrirás o dourado-ouro tão buscado
Ópus do teu lótus de mil pétalas
como Santa Tereza D'Avila
canoniza-te
vai!
Seja o teu projeto!
realiza o teu teu mito!
deixa aos outros as vaias e os aplausos
deixa aos outros
um palco vazio.

by renatabomfim

16/08/2007

Com lírio nos olhos

Parar o tempo
barrar os primeiros sinais
do outono que brotam
dos olhos como lírios.

A suavidade de um tempo temperado
e de um corpo que se permite
ser ora sol,ora tempestade
de raios relezentes.

Parar o tempo
voltar no tempo, não!
basta à vivencia, uma vez.

E nesta vida inédita
que se auto-copia apenas em paródia
vejo que o tempo não existe
Portanto,torna-se impossivel (mani)pula-lo.

by renatabomfim

07/08/2007

oração

Deus amado
que está dentro e fora de mim
santificado seja o teu nome
nome numinoso, tremendo, radiante,
inscrito na natureza:
na flor, no inseto, na núvem,
no mar, nos olhos do meu gato,
em mim e no outro, meu irmão,
meu semelhante.
Venha a mim o teu reino de amor
seja feita a tua vontade, sempre,
pois tu és a infinita sabedoria,
que teus designos prevalesçam,
assim na terra como no céu
até aos confins do sem fim, do cosmo,
que reflete a tua amplitude.
O pão de cada dia dá-me hoje e sempre
fazendo da terra o berço de onde brota
o fruto do meu trabalho
Perdoa a minha ignorância, o meu orgulho,
parte fraca da minha divindade,
e ensina-me a arte do perdão verdadeiro
sem mágoas ou cobranças
para que eu possa me perdoar primeiro
e depois perdoar pessoas as que me ensinaram
o sentido da dor e da raiva
Faz-me forte para resistir as tentações
muitas vezes, a tentação de me auto-sabotar
e livra-me do mal, do mal maior
que circula livre por este mundo,a indiferença.
Confio em ti, Deus.
amém!

renatabomfim