06/06/2026

Coração (Poesia Renata Bomfim)

Eu gosto das máquinas:

máquina de lavar,

máquina fotográfica,

máquina de fazer macarrão,

torradeira,

televisão,

Celular.

Mas eu amo quem tem coração.

Amo o olho que espelha

quando me fita 

afirmando que somos viventes,

                                   presentes.

Os bravos e as bravas que estendem

teias de luz por aí,

que derramam o seu amor

oferecendo pão, vida,

tornando o estar aqui suportável.

Amo quem é inteiro mesmo que lhe falte

                                                  uma parte.

Quem pinta com a boca, se maquia com os pés,

são doutores e doutoras sobre o mistério

da ligeira- grande jornada,

Obrigada por existirem e resistirem

fluindo no contra-fluxo.

A força não vem do braço,

estar de pé não vem da perna,

estar aqui não é questão de lugar.

Obrigada bicho, planta e gente,

que tem e oferta

 CORAÇÃO.

(Junho (2026)/ Renata Bomfim)


COROAI-ME DE ROSAS: o affaire entre Carmélia Maria de Souza e Fernando Pessoa (Renata Bomfim)

 


         Carmélia Maria de Souza chegou até mim pelas mãos do amigo poeta Sérgio Blank. O ano era 2002. Na ocasião, Sérgio havia participado da produção da terceira edição de Vento Sul. Eu não tinha ideia de quem era Carmélia e nem tinha proximidade com o mundo literário. Embora tenha sido sempre uma leitora persistente, dou a Carmélia e ao seu Vento Sul, o crédito pela guinada que dei das artes plásticas, campo no qual já atuava profissionalmente, para a literatura, essa reviravolta redesenhou o meu caminho, mudando o percurso da minha vida. 

O primeiro texto que escrevi sobre Carmélia foi “Carmélia Maria de Souza, a cronista do povo”. Esse estudo alcançou grande circulação no Espírito Santo, possivelmente por ter sido publicado na época do boom dos blogs. O meu blog pessoal, intitulado Letra & Fel,  firme e forte, online há dezessete anos, fez com esse e outros ensaios chegassem mais longe e a mais pessoas, o ano era 2008. O texto foi apresentado ampliado, mas com o mesmo título, no III Seminário sobre o Autor Capixaba: Bravos Companheiros e Fantasmas, em 2013. Em 2016 publiquei, também no Letra & Fel, um outro estudo intitulado “Amor e humor em Vento Sul”. Nesse intervalo, meu interesse literário estava posto nas literaturas portuguesa e nicaraguense, devido às pesquisas de mestrado e doutorado. Carmélia retornaria para a minha vida no pós-doutoramento, depois de uma rica e longa viagem pelos estudos ibero-americanos.

Era tempo de voltar para casa. Entre os anos de 2017 e 2018 atuei como professora adjunta no Centro de Letras da UFES, período no qual ministrei as matérias previstas pela grade curricular do curso, mas propus oferecer um laboratório sobre “Literatura do ES”. Havia seis semestres que esse conteúdo não era ofertado, pelo menos na perspectiva da periodização. Ministrei também o laboratório de “Literatura feminina produzida por mulheres em língua portuguesa: Portugal, Angola e Brasil”, ocasião na qual introduzi para os estudantes o estudo de variadas escritoras, naturais e radicadas no Espírito Santo, entre elas, adivinhem quem?

Essas experiências como docente me aproximaram novamente de Carmélia. No ano de 2023 a Cronista do povo se tornou objeto de pesquisa do meu pós-doutoramento que, entre outras publicações, culminou no livro Carmélia Maria de Souza: desesperada e lírica, publicado em 2025. Conto essa história para mostrar como a literatura tece redes de afetos em variados níveis na vida de quem se aventura nesse caminho de letras e para as letras. Carmélia, Florbela, Darío, Hilda Hilst, Clarice, e tantos e tantas outras são pessoas de papel que, com certeza, tornam a minha vida mais plena de sentido.

Carmélia possui uma escrita que se assemelha a uma colcha de retalhos, ela alinhava com amor múltiplos sentimentos, tornando lírico até mesmo o sentimento de "fossa". Os textos carmelianos não são complexos, mas nem por isso são simples, eles exigem do leitor que baixe a guarda, que abra o coração para comungar entendimento, como quem entende a piada e sorri de soslaio, ou como quem bebe junto em uma mesa de bar. Carmélia se doou sem limites e desafiou os limites de uma época cheia de preconceitos, a sua maior arma foi o DEBOCHE. A ironia e o humor foram utilizados com estratégias linguísticas para driblar a dureza de uma sociedade baseada na aparência, a TFC- Tradicional Família Capixaba.

Para quem não conhece ou conhece pouco a Carmélia, vale dizer que ela nasceu na Fazenda Rodeio, em Rio Novo do Sul, no dia 15 de maio de 1937 e faleceu no dia 13 de fevereiro de 1974, aos 38 anos. Filha de Pedro Dias de Souza e Etelvina de Souza, teve uma infância e uma adolescência marcadas por acontecimentos que moldaram a sua vida e a sua escrita, primeiramente, o falecimento de sua mãe, quando ela tinha dois anos de idade, e o afastamento da família aos quinze anos, quando precisou ser internar em um sanatório em Barbacena, MG, devido a tuberculose.

Carmélia disse em um texto que gostava de bem-me-quer, mas ela escolheu as rosas como adorno último na sua despedida. É por isso que oferecemos a ela rosas-afeto, rosas-resgate memorialístico, rosas-luzes sobre sua vida e obra, rosas-alegria, com a novidade de que a escola de samba Chega Mais vai dançar, vibrando e cantando a sua história e o seu nome no carnaval de 2027.

A SINCERIDADE DAS ROSAS

No texto “Crônica da DDC”, Carmélia constrói para o leitor um rico cenário, quase fílmico. Nele, “os discos rolam de leve na vitrola” enquanto, “na sala ao lado, um grupo conversa”. Carmélia sugere que seus amigos mudem de assunto e pede que alguém recite os versos que mais ama, versos de Fernando Pessoa, que dizem assim: “Coroai-me de rosas/ Coroai-me em verdade de rosas/ rosas que se apaguem/ Em frontes, a pagar-se tão cedo/ Coroai-me de rosas/ E folhas breves/ E basta”. O texto descreve ainda que Carmélia se juntou a “juventude que se junta para não ficar sozinha”, mas ao invés de conversar, ela pensa, e à cabeça vem “uma peça de Garcia Lorca” que acabara de ler. Um emaranhado de referências e sentimentos a fazem perguntar se “alguém está ficando doido, ou será que todos estão doidos?”. 

O poema pessoano preferido voltaria a perfumar a crônica “Testamento”, um dos textos mais conhecidos de Carmélia, no qual ela dialoga com Dindi, seu Alter ego, sobre a sua morte e deixa explícitas as recomendações do que deve ser feito após o seu passamento: “Mande escrever isto sobre a terra que me cobrir — é de Fernando Pessoa: “Coroai-me de rosas. Coroai-me em Verdade de rosas. Rosas que se apagam em frontes a apagar-se tão cedo! Coroai-me de rosas, e de folhas breves e basta”. Carmélia ressalta: “Dindi, não se esqueça de que não quero lágrimas, e sim a sinceridade das rosas sobre mim”, e é a sinceridade expressa pela flor que ela ofertou a todos que cruzaram o seu caminho, como consta no texto “Autocrítica”, quando declara que tem orgulho de si, “destes [seus] 84 quilos de sinceridade, de erros, de sonhos, de poesia... e outros pecados menores”.


CARMÉLIA E O “POETA DAS ROSAS E DAS ORLAS MARÍTIMAS”

“Prefiro rosas meu amor, à pátria/ E antes magnólias amo/ Que a glória e a virtude” (Ricardo Reis)

Tomei como mote o poema pessoano de que tanto Carmélia gostava para tentar compreender a filosofia que norteou a sua vida e produção. A mulher negra, que caminhou na direção posta do ideário feminino de sua época e que respondeu as agruras do seu tempo com deboche e ironia, fez da poesia e da música mote para suas reflexões e fontes de inspiração. No texto “Autocrítica” a cronista dirá que descobriu em Fernando Pessoa o seu “Poeta maior”, poeta das “rosas e das orlas marítimas”.

O poema que Carmélia escolheu para ficar gravado no seu túmulo reflete um jeito de pensar e sentir a existência, responde a uma filosofia na qual a rosa, por sua beleza e fugacidade, emerge como metáfora da vida. O texto de dezembro de 1967, “De uma certeza”, fala sobre um mundo em mudanças, no qual um grupo de sonhadores se irmana “no ideal e na dor, [...] prolongando a conversa, misturando esperanças, tornando uma só a solidão que era antes uma solidão desesperada de todos e de cada um”. O abrigo é o barzinho, “trincheira que nos esconde ainda, onde falamos de amor, enquanto nos afogamos em vinho e poesia. A única certeza que conhecemos e que existe”.

Através de Fernando Pessoa, mas especificamente do seu heterônimo neoclássico, Ricardo Reis, Carmélia dialogou com variados temas relacionados à brevidade e a finitude da vida, como que buscando conforto para as angústias da vida. Ideais clássicos como o estoicismo, o epicurismo e o carpe diem horaciano, ofereceram um contraponto à modernidade emergente. Ricardo Reis, discípulo de Alberto Caeiro, outro heterônimo de Fernando pessoa, serviu como inspiração para variados escritores, um deles o português José Saramago, Nobel de literatura, que o transformou em personagem central do romance O ano da morte de Ricardo Reis (1984).

No pensamento filosófico grego há o conceito de Eudaimonia, que significa “ser habitado por um daimon”, ou divindade inferior, vinculando o ser a um estado de plenitude. Tanto Aristóteles, quanto os estoicos, valorizavam esse conceito que pressupõem o cultivo dos valores e da ética, ecoando em obras modernas como as de Immanuel Kant. Outro conceito grego é o de ataraxia, que significa tranquilidade da alma, ausência de perturbações. Esses conceitos atravessam os textos de Fernando Pessoa e podem ser sentidos nos escritos daqueles que leram e dialogaram com a sua obra.

A efemeridade da vida, na dimensão simbólica, pode ser expressa pelas flores que, belas, rapidamente morrem. Ricardo Reis, amparado por essa filosofia, sugere em suas odes que a vida deve ser transcorrida de maneira plácida, pois, sobre as aspirações mundanas haverá uma coroa de rosas. Nesse sentido, há também uma ausência de ideias, uma entrega à contemplação: “Circunda-te de rosas, ama, bebe/ E cala. / O mais é nada” (Ricardo Reis). Foi assim que Carmélia construiu um percurso literário inspirado e inspirador, como se a essência da vida se assemelhasse à das rosas.

Renata Bomfim

07/05/2026

Mobilização e panfletaço na primeira Blitz educativa do Programa Reluz na Estrada.

 Acesse o Instagram e leia a reportagem completa.


MAIO AMARELO: RELUZ NA ESTRADA DESTACA PROTEÇÃO DA FAUNA NAS RODOVIA

Durante o mês do Maio Amarelo, campanha nacional de conscientização para a redução de sinistros de trânsito, o Programa Reluz na Estrada intensifica ações educativas voltadas à relação entre segurança viária e preservação da fauna silvestre. A programação inclui blitze educativas ao longo de maio, com a primeira acontecendo no próximo sábado (12/05) na Avenida Adalberto Simão Nader, onde vários animais são atropelados, na altura da entrada pela Av. Dante Michellini, sentido Aeroporto.

Outras ações incluem blitze na BR-262 e na Região Metropolitana da Grande Vitória, além de ações específicas no dia 12, com atividade em escola de Marechal Floriano; no dia 22, com mobilização em Vitória pelo Dia Internacional da Biodiversidade; e no dia 27, com ação na BR-262, em Viana, no contexto do Dia Nacional da Mata Atlântica.

Criada em 2019, a iniciativa busca sensibilizar motoristas e a comunidade sobre os impactos do atropelamento de animais nas rodovias brasileiras e incentivar práticas de direção responsável.

Dados da Plataforma Urubu indicam que cerca de 17 animais são atropelados por segundo no Brasil, o que representa aproximadamente 475 milhões por ano. Segundo o levantamento, cerca de 50% desses registros ocorrem na Região Sudeste, incluindo trechos da BR-262, rodovia que atravessa o Espírito Santo e outros estados. No contexto do Maio Amarelo, o programa reforça que a segurança no trânsito envolve não apenas motoristas e pedestres, mas também a proteção da biodiversidade.

De acordo com a idealizadora do programa, Renata Bomfim, o Reluz na Estrada surgiu da necessidade de ampliar o debate sobre educação ambiental no trânsito. “Observamos muitos animais atropelados no entorno da Reserva Ambiental Reluz e não encontramos projetos voltados especificamente para essa realidade. O trânsito é um espaço coletivo, e a responsabilidade de quem está ao volante envolve não apenas a própria vida, mas também a de pedestres, ciclistas e animais”, afirmou.

A proposta dialoga com os objetivos do Maio Amarelo, que incentiva atitudes preventivas e comportamentos seguros nas vias. Segundo levantamento da Fundação Dom Cabral divulgado pela CNN Brasil, o número de acidentes em rodovias federais caiu 5% em 2025, com redução de 6% nos casos de feridos graves e 4% nas mortes. Apesar da queda, o país ainda registra cerca de 72 mil sinistros e mais de 6 mil mortes por ano nessas rodovias, indicando a importância de ampliar ações educativas permanentes.

Entre as estratégias adotadas pelo Reluz na Estrada estão mobilizações em rodovias e atividades em escolas da Região Metropolitana da Grande Vitória e da região das Montanhas Capixabas. Durante as ações, motoristas recebem mudas de árvores da Mata Atlântica e livros de autores capixabas, como forma de incentivar a reflexão sobre convivência segura entre mobilidade e meio ambiente.

No dia 12 de maio, o Reluz na Escola realiza uma ação de educação ambiental para o trânsito na Escola Emílio Oscar Hüller, em Marechal Floriano, com foco no engajamento de estudantes e professores na proteção da biodiversidade e na prevenção de atropelamentos de animais.

No dia 22 de maio, data em que é celebrado o Dia Internacional da Biodiversidade, o programa promove uma blitz educativa acompanhada de adesivaço em Vitória, com o objetivo de sensibilizar a população sobre os impactos do atropelamento de animais na biodiversidade e suas relações com a crise climática.

Já no dia 27 de maio, Dia Nacional da Mata Atlântica, está prevista uma mobilização na BR-262, na altura de Viana, em parceria com a Polícia Rodoviária Federal no Espírito Santo (PRF-ES), com orientação a motoristas sobre práticas de direção segura e a importância da preservação do bioma.

O programa utiliza a metodologia Visão Zero, abordagem internacional baseada no princípio de que nenhuma morte no trânsito é aceitável. Com o slogan “Proteger a fauna é salvar vidas”, a iniciativa reforça, durante o Maio Amarelo, a importância da redução da velocidade, do respeito à sinalização e da direção defensiva como medidas que contribuem simultaneamente para a segurança das pessoas e dos animais nas rodovias.

Confira o cronograma de ações do Reluz na Estrada:

 

Mobilização e panfletaço:

Data: 09/05

Local: Av. Adalberto Simão Nader, na altura da entrada pela Av. Dante Michellini (sentido Aeroporto)

Horário: 9h às 11h

 

Reluz na Escola – Educação ambiental para o trânsito:

Data: 12/05

Local: Escola Emílio Oscar Hüller, Marechal Floriano

Horário: A definir

 

Blitz educativa e adesivaço (Dia Internacional da Biodiversidade):

Data: 22/05

Local: Vitória

Horário: A definir

 

Mobilização na BR-262 (Dia Nacional da Mata Atlântica):

Data: 27/05

Local: BR-262, na altura de Viana

Horário: A definir

 

Informações para a imprensa

LORE COMUNICAÇÃO

Ilma Geovanini: 27 98161-9899

João Paulo Oleare: 27 99766-0575

17/04/2026

Lançamento do Reluz na Estrada, programa que busca conscientizar motoristas sobre o problema do atropelamento de animais nas rodovias.

 

O Instituto Ambiental Reluz (IAR) realizou, no dia 15 de abril, o lançamento da edição 2026 do programa Reluz na Estrada, iniciativa de educação ambiental voltada à preservação da biodiversidade e à redução do atropelamento de animais silvestres em rodovias do Espírito Santo. O evento ocorreu na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Oscar Emílio Hülle, no Centro de Marechal Floriano, com a participação de representantes de instituições públicas, educacionais e ambientais.

Criado em 2019, o programa tem como objetivo sensibilizar a sociedade, especialmente motoristas, sobre os impactos do atropelamento de fauna nas rodovias. Dados da Plataforma Urubu indicam que cerca de 17 animais são atropelados por segundo no Brasil, o que representa aproximadamente 475 milhões de ocorrências por ano. Parte desses registros ocorre na Região Sudeste, incluindo trechos da BR-262.

A edição de 2026 prevê a realização de atividades educativas com estudantes e ações de conscientização na Região Metropolitana da Grande Vitória e nos municípios de Marechal Floriano e Domingos Martins. Durante o lançamento, os estudantes participaram de atividades sobre o tema e foram convidados a produzir textos para uma publicação prevista para o final do ano, com contribuições de especialistas da área de ecologia de estradas.


Segundo a diretora-presidente do Instituto Ambiental Reluz, Renata Oliveira Bomfim, o programa foi criado a partir da necessidade de ampliar ações educativas relacionadas à proteção da fauna no contexto do trânsito. De acordo com ela, a iniciativa busca estimular práticas como redução da velocidade, respeito às normas de trânsito e direção defensiva, considerando os impactos das rodovias sobre os deslocamentos de animais silvestres.

As atividades do programa incluem mobilizações em rodovias, ações educativas em escolas e distribuição de mudas de árvores da Mata Atlântica e livros de autores capixabas a motoristas. A iniciativa utiliza a metodologia Visão Zero, abordagem voltada à prevenção de mortes no trânsito e à redução de riscos para pessoas e animais.

Participaram do evento Lucelena Maria Fernandes, diretora da escola e presidente da Academia Florianense de História, Artes e Letras (AFHAL); Erica Alves de Souza Rocha, representante do Detran-ES; Thainá Cristina Pereira de Souza, representante da Secretaria de Meio Ambiente de Marechal Floriano; Reni Klipel Machado, professora e representante da AFHAL; Geovana Schneider, escritora da AFHAL; tenente Guimarães, da Polícia Militar Ambiental; Pedro Henrique Zucon Botacin, representante dos estudantes escritores; e Renata Bomfim e Luiz Bittencourt, diretores do Instituto Ambiental Reluz, além de representantes de outras instituições parceiras.

A edição 2026 do programa Reluz na Estrada é realizada em conjunto com o Fundo Estadual de Meio Ambiente (Fundema) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA), com apoio da Polícia Rodoviária Federal no Espírito Santo (PRF-ES), do Batalhão de Polícia Militar Ambiental do Espírito Santo (BPMA-ES), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), do Centro de Triagem de Animais Silvestres do Espírito Santo (Cetas-ES) e do Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo (Detran-ES).

14/04/2026

Programa Reluz na Estrada aposta em educação ambiental para mitigar o atropelamentos de animais nas estradas


 O Instituto Ambiental Reluz (IAR) lança, no dia 15 de abril, a edição 2026 do programa Reluz na Estrada, iniciativa de educação ambiental voltada à preservação da biodiversidade e à redução do atropelamento de animais silvestres em rodovias do Espírito Santo. 

O lançamento será realizado às 8 horas, na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Oscar Emílio Hülle, no Centro de Marechal Floriano.

Criado em 2019, o programa busca sensibilizar a sociedade sobre os impactos do atropelamento de fauna nas rodovias brasileiras. Dados da Plataforma Urubu indicam que cerca de 17 animais são atropelados por segundo no país, totalizando aproximadamente 475 milhões por ano. Segundo o levantamento, cerca de 50% desses registros ocorrem na Região Sudeste, incluindo trechos da BR-262, rodovia que atravessa os estados do Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Segundo a idealizadora do programa, Renata Bomfim, a iniciativa surgiu a partir da ausência de ações educativas voltadas especificamente para a relação entre trânsito e proteção da fauna. “O Reluz na Estrada nasceu da necessidade de uma ação voltada para a educação ambiental no trânsito. Observamos muitos animais atropelados no entorno da Reserva Ambiental Reluz e não encontramos projetos que atendessem essa demanda. O programa busca alertar que o trânsito é um espaço coletivo e que a responsabilidade de quem está ao volante envolve não apenas a própria vida, mas também a de pedestres, ciclistas e animais”, afirmou.

Resgate de preguiça na BR 262.

Ainda de acordo com Renata Bomfim, o atropelamento de fauna está entre as principais ameaças a diversas espécies, especialmente em áreas cortadas por rodovias. “As estradas atravessam grandes áreas ambientais e os animais precisam se deslocar para sobreviver. O programa trabalha para chamar a atenção da sociedade para essa realidade e incentivar práticas como redução da velocidade, respeito às leis de trânsito e direção defensiva, dentro da filosofia da Visão Zero, que parte do princípio de que nenhuma morte é aceitável”, disse.

As ações do Reluz na Estrada incluem mobilizações em rodovias e atividades educativas em escolas da Região Metropolitana da Grande Vitória e da região das Montanhas Capixabas. Durante as atividades, são distribuídas mudas de árvores da Mata Atlântica e livros de autores capixabas a motoristas. O programa utiliza a metodologia “Visão Zero”, abordagem voltada à prevenção de mortes no trânsito e à redução dos impactos sobre a fauna silvestre. A iniciativa adota o slogan “Proteger a fauna é salvar vidas”.

 


Durante o lançamento, estudantes participarão de uma atividade educativa sobre atropelamento de fauna e serão convidados a produzir textos para uma publicação prevista para o final do ano. “A proposta é reunir reflexões de estudantes e especialistas da área de ecologia de estradas para ampliar o debate sobre a proteção da biodiversidade no trânsito”, explicou Renata Bomfim.

Além disso, o evento de lançamento contará com a presença de representantes de entidades ligadas ao trânsito, educação, cultura e meio ambiente, com o Batalhão de Polícia Militar Ambiental do Espírito Santo (BPMA-ES) e Polícia Rodoviária Federal do Espírito Santo (PRF-ES), e membros da Academia de Letras de Marechal Floriano e da Academia Espírito-Santense de Letras

A edição 2026 do programa é realizada em conjunto com o Fundo Estadual de Meio Ambiente (Fundema) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA), com apoio da Polícia Rodoviária Federal no Espírito Santo (PRF-ES), do Batalhão de Polícia Militar Ambiental do Espírito Santo (BPMA-ES), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), do Centro de Triagem de Animais Silvestres do Espírito Santo (Cetas-ES) e do Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo (Detran-ES).

Serviço

Lançamento do Programa Reluz na Estradas – edição 2026

Data: 15 de abril

Horário: 8 horas

Local: EEEFM Oscar Emílio Hülle

Endereço: Rua Colina da Fé e da Ciência, Centro, Marechal Floriano (ES)

26/12/2025

96 ANOS DE HISTÓRIA LITERÁRIA: FOTOBIOENTREVISTA COM NEIDA LÚCIA MORAES (Renata Bomfim e Vitor Cei)

 


Neida Lúcia Moraes nasceu em Vitória (ES), em 12 de junho de 1929. Segunda mulher a ingressar na Academia Espírito-Santense de Letras, começou a escrever ainda na infância — histórias e poemas que recitava na escola — e, ao longo de quase um século de trajetória, que alia estética literária e historiografia documental, destacou-se entre os grandes nomes da nossa literatura. 

Historiadora formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e professora aposentada da instituição, consolidou-se como referência na historiografia do estado, com livros didáticos como O Espírito Santo é assim: panorama histórico, econômico e geográfico do Estado (Artenova, 1971) e Espírito Santo, esta é a sua terra no Brasil (Lisa, 1973), este último adotado em toda a rede oficial de ensino do antigo 1º grau.

Como escritora de ficção, publicou Olhos de ver (romance, Editora Pongetti, 1967), obra premiada pelo Instituto Nacional do Livro; Sete é número ímpar (romance, com prefácio de Austregésilo Athayde, Artenova, 1971); O mofo no pão (Lisa, 1984); O sentido da distância (Lisa, 1985); Simbiose (Lisa, 1987); À sombra do holocausto (2010), que reúne O mofo no pão e O sentido da distância; em 2016, entretanto, a autora substituiu o título À sombra do holocausto por O tempo entre sombras, e A fúria do vento (2018). Também publicou crônicas e artigos em jornais capixabas e portugueses.  

No conjunto de sua produção, observa-se um projeto ético-estético que combina a imaginação narrativa ao exame de documentos e fatos históricos, especialmente relacionados ao Espírito Santo. Essa articulação entre literatura e história confere às suas obras um lugar singular, tanto no panorama da ficção brasileira quanto no da literatura regional, ampliando horizontes de recepção e problematizando silenciamentos de gênero, classe e região.

Revista Fernão- texto integral.

Escritora e ambientalista fundadora do Instituto Ambiental Reluz recebe a Comenda Augusto Ruschi, na ALES/ ES.


A Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) realizou, na noite desta quarta-feira (10), uma sessão solene em homenagem a ambientalistas que se destacam na defesa da natureza, em iniciativa do deputado Gandini (PSD). A solenidade reconheceu a contribuição desses profissionais para a proteção dos ecossistemas, promovendo conhecimento, conservação e sustentabilidade.

A Presidente do Instituto Ambiental Reluz, Renata Bomfim, foi agraciada com a Comenda de Mérito Ambiental Augusto Ruschi, pelos serviços que vem prestando à sociedade capixaba na defesa da Mata Atlântica e difusão das RPPNs. Foram agraciadas com a comenda autoridades ambientais, pesquisadores, representantes de entidades profissionais, lideranças da conservação marinha e membros de organizações de reciclagem. 

A cerimônia celebra o legado do renomado naturalista e ambientalista brasileiro, cuja trajetória simboliza dedicação, coragem e compromisso profundo com a proteção do meio ambiente. Instituída pela Resolução 3.171/2012, a comenda é concedida a profissionais que atuam na ciência, na pesquisa, no cultivo e no estudo de plantas, bem como a especialistas dedicados à fauna e à flora brasileiras que se destacam em projetos e ações de preservação ambiental.

Reportagem site do Reluz

Literatura e Meio Ambiente no lançamento do livro A revolução dos colibris, de Renata Bomfim, em Vitória/ES.

No dia 28 de novembro de 2025 o livro de poesias A REVOLUÇÃO DOS COLIBRIS. A temática do livro é atravessada por variadas questões socioambientais e objetiva mobilizar leitores, em vários níveis, para a questão ambiental. Foi uma noite muito agradável, entre amigos e parceiros das causas culturais e ambientais. Minha gratidão a todos e todas que, de alguma forma e amorosamente, fizeram parte desse projeto. 


01/12/2025

UMA VOZ INQUIETANTE: Entrevista com Juliana Sankofa Por Francis Kurkievicz*


Juliana Sankofa é uma escritora mineira, pretativista, pesquisadora, educadora agora com residência fixa em Vila Velha/ES onde veio trabalhar para a Secretaria de Educação da cidade. Nascida como Juliana Cristina Costa, veio ao mundo no dia dois de fevereiro de 1990, na cidade de João Monlevade–MG. Ela é Doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Uberlândia, pesquisadora de literatura preta brasileira e mestra em estudos literários pela UFJF. Além disso, é escritora fundadora da articulação literária nacional Pretas das Letras. Escreve nos Blogueiras Negras e tem muitos dos seus poemas publicados em diversas revistas e blogs literários no Brasil.  Como escritora, iniciou sua jornada  em 2014, participando das tradicionais antologias dos Cadernos Negros. Em 2019, Juliana publicou o livro "Comovida como o Diabo" de forma independente, lançando-o, também, no formato e-book. 


Francis Kurkievicz - QUEM é Juliana Sankofa e quem é Juliana Cristina Costa? A que veio? O que quer? Qual  o seu Ori? Quais os seus sonhos e projetos?

Juliana Sankofa – Juliana Sankofa é a minha autodefinição, pois carrega, no sobrenome, a filosofia do tempo não linear, em que o passado precisa ser revisado enquanto força vital, para que eu possa me projetar em futuros melhores e viver o presente da melhor forma possível. Juliana Cristina Costa é o nome dado, que eu não escolhi, e cujo sobrenome paterno eu recuso, pois meu genitor não cumpriu o seu papel, foi só mais um opressor.

Sobre o meu Ori, ainda não sei o nome, não joguei os búzios; apenas sinto sua presença feminina desde a infância, protegendo-me e orientando-me para boas escolhas. Meu sonho é poder viver, no mínimo, 24 horas sem ter que lidar com o racismo.

Entre os meus projetos, em nível pessoal, quero estar mais presente na vida das minhas amizades. Embora cada pessoa resida em diferentes lugares do país e do mundo, quero que o afeto esteja mais presente do que a luta, pois estou cansada de ter que lutar só porque a sociedade nos esmaga se não lutarmos.  Em nível profissional e na carreira literária, pretendo, em 2026, publicar meu primeiro livro impresso, o qual escrevi em Vila Velha (ES), enquanto me recuperava do luto e, ao mesmo tempo, atendia às exigências acadêmicas do doutorado. Escrever é minha profissão e é minha arte, mas é na arte que consigo fortalecer minha Ori, meu corpo e minha mente.

FK – O que significa para você a celebração da Consciência Negra? Quais impactos sociais, políticos e culturais estão implicados nesta data?

JS -É uma data que surge devido a muita luta por reconhecimento, mas que tem sido banalizada pelas dinâmicas do capitalismo e pelo contexto de extrema ignorância e retrocesso que estamos experienciando em termos de sociedade.  A data é para lembrar que a construção do país, nação, também se deu pelas mãos africanas, expropriadas de seu continente, estigmatizadas e violentadas desde 1500 por uma Europa que se chamou, e ainda se chama, de civilização.

          A inserção dessa data no calendário nacional é de relevância histórica, porém isolada, sem a inserção do letramento racial no currículo escolar ou em projetos ligados a sociedade, pode ser banalizada.

FK – A Literatura Negra é uma afirmação identitária e uma reivindicação de cidadania através da Poesia e das Narrativas, como você ocupa este espaço e por que é tão salutar hoje?

 JS – A literatura negra brasileira não é só uma afirmação identitária, é uma expressão estética do nosso ponto de vista acerca do mundo e é nossa possibilidade de questionamento de imagens de controle, estereótipos, que nos desumaniza e nos subordina. Seu teor reivindicatório é um dos elementos que a compõe. Eu comecei minha carreira literária em 2014, pelos Cadernos negros, antologia paulista tão relevante para divulgação da literatura negra brasileira no Brasil e no exterior.  Não sei dizer exatamente como eu ocupo este lugar, mas um dos meus objetivos é que minha palavra literária possa atravessar quem ler, desassossego, puro desassossego, pois quem naturaliza uma sociedade não consegue desnaturalizá-la apenas se receber uma conversa amigável. Quando escrevo sobre racismo não tenho o interesse de ser amigável. No entanto, o que eu escrevo não se resume só a isso, escrevo sobre a vida acadêmica, sobre o amor, sobre a saúde mental, sobre gordofobia etc.  

FK – Como você lida com o racismo, o preconceito, o patriarcado, o negacionismo vigentes e vicejantes na sociedade brasileira? Ser afrodescendente com voz, poder e lucidez atrai oposição?

JS – Eu lido com ironia (risos). A oposição é gratuita, eu chamo de desfã club. Eu gosto do meu desfã club, trato até com respeito e escuta, mas é o meu fã club que me faz querer escrever cada dia mais, porque demonstram o quanto que eu escrevo os blinda socialmente dos efeitos psíquicos das violências raciais. O Brasil é afrodescendente, assim como é indígena e europeu,  a minha ascendência é brasileira nesse sentido, porém, ninguém vê meu sangue europeu, vê a cor da minha pele preta. Então, ser mulher preta gorda em uma sociedade como a nossa é conviver diariamente com a violência gratuita nos espaços públicos ou até mesmo em casa, a depender onde mora.  Querem pessoas do meu perfil em condição de subalternização, isso não é só esfera de trabalho, é nas relações interpessoais também, só que eu não ando como se as pessoas fossem minhas donas, eu ando como dona de mim, consciente do que eu sou e exigindo respeito.

FK – O que é Poesia para você? O que representa a Poesia em sua vida? A Poesia tem o poder de transformar a realidade e ressignificar a existência humana?

JS – A poesia, para mim, é tudo aquilo que consegue tocar sentimentalmente a nossa reflexão. Ela é uma prática comunicativa instantânea. A poesia pode mudar o sujeito e, assim, o sujeito pode mudar a realidade, caso tenha recursos simbólicos disponíveis para isso. Quando não os tem, pode ainda fortalecer sujeitos para o enfrentamento das mazelas sociais e para a afirmação de sua humanidade diante de uma civilização que nos desumaniza constantemente.

FK – Como poeta, ativista, professora que conselho ou argumento você defenderia a partir da Celebração da Consciência negra? Os pontos fundamentais desta data têm poder de transvalorar costumes e hábitos, transformar a plasticidade mental do brasileiro e criar uma nova percepção justa, clara e real do povo negro?

JS O conselho que eu dou é que o letramento racial, como os outros tantos que precisamos ter frente às experiências sociais que não sentimos em nossa pele, deve ser uma busca individual, além das políticas públicas de promoção desse letramento. A nossa sociedade é estruturada pela colonialidade que, junto com a dinâmica neoliberal, faz com que as desconstruções dos paradigmas coloniais sejam pouco de interesse para as pessoas. Nossa sociedade tem como costume o egoísmo quando se pensa em acessos e oportunidades, o que se sustenta pela ideia de meritocracia em um contexto social desigual.

FK - Qual a importância dos Cadernos Negros para a Literatura Nacional e para os escritores afrodescendentes? Qual a dívida a Literatura Canônica deve aos escritores negros?

JSCadernos Negros é reconhecido internacionalmente como uma antologia que proporciona a inserção de escritores e escritoras negros(as) na cena literária brasileira há mais de 40 anos. É, para muitos artistas negros(as), a opção mais viável de publicação e de ter seus textos visibilizados. A literatura canonizada pelo sistema social brancoeurocentrado não nos deve nada; quem nos deve é o próprio sistema social que se beneficiou com séculos de exploração do sujeito africano e da estereotipação de seus descendentes. Esse sistema nos deve reparação histórica e condições de existir sem genocídio e sem nossa constante pauperização.

Quem representa esse sistema é a hegemonia que ocupa o poder desde o início, independente de ser de esquerda ou de direita; o contexto permanece centrado no mesmo perfil hegemônico: homens brancos.

FK – O seu poema CORPO-ÁFRICA é o mais famoso e o que melhor define a sua poesia e voz lírica, tal como aconteceu com Conceição Lima e o poema Afroinsaluridade. Como este poema aconteceu e quais opiniões você colheu dessa repercussão?

JS – No contexto dos Cadernos Negros, esse é o meu mais famoso poema. Ele surgiu enquanto eu fazia o mestrado na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Enfrentava o racismo acadêmico que colocava o meu corpo como objeto sem voz a partir dos estereótipos de como eu deveria me comportar: sempre concordando com o que é imposto, isto é, subordinação epistêmica. Após uma série de situações em que eu me via sendo alvo constantemente de imagens de controle, eu fiquei desgastada psicologicamente e foi esse poema que surgiu quando eu não aguentava mais e precisava espairecer a mente. Corpo-África é um poema que fala de como todo corpo negro é saqueado nas relações sociais e também como há uma associação instantânea entre nosso corpo e o continente de origem, que muitas vezes é feita para menosprezar, porém, no poema, eu faço para nos engradecer e lembrar que nós somos e viemos do continente berço da humanidade.

 

FK – Todo poeta e escritor possui referências literárias, sociais, históricas etc., livros essenciais, ideais cultivados, utopias íntimas, quais as suas?

JS – Minha referência mor é a escritora Miriam Alves, cuja escrita literária me alivia e me faz pensar, e cujo estilo me atrai. Ela também é a minha referência enquanto intelectual e a ela eu devo muito da pesquisadora e escritora que me tornei. Depois dela, admiro a escrita de Machado de Assis, menos do livro Americanas, devido ao seu discurso preconceituoso em relação a população indígena, verdadeiros donos dessa terra; gosto do Saramago, Cuti, Cristiane Sobral, Irmãos Passos, Luana e Leandro, Jovina Souza, enfim, fazer uma lista é difícil, porque há muitas vozes em que sou leitora.

 

FK - Quais os marcos políticos, direitos, valores, bens culturais etc. a comunidade afrodescendente ainda não alcançou? O que fazer para que a justiça social seja efetiva, abrangente e verdadeira?

JS – Há quem diga com mais propriedade que eu, pois é conhecedor(a) e age de frente nessas questões; muitos ativistas e intelectuais negros(as) estão trabalhando nisso há anos. A meu ver, sem muita familiaridade com todo o debate, pois só tenho uma experiência fora das dinâmicas políticas institucionais, eu acho que nos falta, principalmente aos jovens negros, alcançar a liberdade de ir e vir sem a violência gratuita e desmedida da polícia. Antes que alguém diga que eu estou defendendo a criminalidade ao pensar dessa forma, eu digo que não: nem todo jovem negro periférico é bandido e não é só esse perfil de bandido que existe no Brasil; o crime de colarinho branco está gerenciando tudo há séculos. Penso que, para assegurar uma equidade jurídica e de direitos, ainda falta muito.

 

FK – Que pergunta você faria para si mesma que este pobre entrevistador branco não conseguiu contemplar?

JS -  Sobre o meu próximo livro? Então, em 2026, pretendo lançar meu primeiro livro de poemas inéditos, pois há uma cobrança para que eu lance livros, embora eu prefira publicar nas redes sociais e no blog pessoal. O livro está pronto e serviu como instrumento para lidar com o luto da perda de uma das minhas irmãs. Agora, assim que eu concluir o doutorado e puder respirar um pouco, lançarei meu livro, e outros tantos virão logo em seguida.

 

 

CORPO-ÁFRICA

 

Meu corpo é uma África

e o mundo, um navio negreiro.

Enquanto cantos que não entendo

oscilam dentro de mim,

eu vejo as atrocidades que ainda não tiveram fim.

“Vivemos tempos de Lei Áurea” − assim nos dizem

enquanto socialmente nos constrangem

pelo cabelo crespo que adoramos

pela coroa simbólica que levantamos

e se ofendem quando nos amamos.

 

Meu corpo é uma África

que ainda grita

todos os crimes contra sua terra

e contra sua gente.

O racismo de nossa era

vem junto com uma boca sorridente

que dissimula

e tudo que é negro anula

como contribuição social.

 

Meu corpo é uma África

meu Ori vive comigo a resistir

Já que não podemos mais permitir

o silêncio a nos chicotear,

nem os discursos com outros termos a inferiorizar o que somos. 

 

*Francis Kurkievicz é poeta.

14/11/2025

A escritora capixaba Renata Bomfim lança "A revolução dos colibris", seu novo poemário.

 

A escritora e ativista ambiental Renata Bomfim lançará, no dia 28 de novembro, às 19 horas, na Biblioteca Municipal Adelpho Poli Monjardim, o livro de poesias A Revolução dos colibris. A obra propõe uma reflexão poética sobre temas socioambientais.

Renata elabora um percurso poético compondo paisagens e elementos que buscam desterritorializar o antropocentrismo, ou seja, deslocar o ser humano do centro exclusivo do sistema de valores para que possa coexistir com outros seres.

Andressa Zoi Nathanailidis desta que a escritora mergulha na história humana, buscando compreendê-la como um mistério passível de múltiplas cosmogonias, tecendo fios que evocam a narrativa da origem, costurando o tempo em bordados de experiência e pertencimento. Para o poeta e historiador Fernando Achiamé, o livro é movido por uma “força imaginativa” que guia o(a) leitor(a) por “páginas e páginas de assombros”, a partir de “uma jornada feita pela Terra com seus predicados naturais os minerais diversos, as plantas nossas irmãs, a bicharada toda. Assistimos ao nascimento e desenvolvimento dos seres feitos de húmus... os humanos, nós”. Procede a analogia com a Divina Comédia – infernais destruições infringidas à Mãe Gaia; purgações de antigos males sociais; paradisíacos êxtases pelos cheiros dos matos, pelos voos dos colibris, pelas florestas recuperadas. A felicidade se encontra no futuro que poderemos criar com o que nos foi legado, cabe a nós decidirmos o que fazer.

Renata é ativista ambiental implicada com a preservação da Mata Atlântica e o seu livro propõe suscitar reflexões por meio da poesia. A autora afirma que o livro trata de “uma revolução que começa dentro do ser e se expande, avançando silenciosa e rasteira com a serpente.  “É sobre não sucumbir em tempos de ódio e pavor”.

A Revolução dos colibris desvela que é no amor, em corpo e espírito, que a poética feminina de Renata Bomfim alcança a redenção. O Crítico literário Francisco Aurélio Ribeiro destaca que Renata é “essencialmente, poeta e ativista ambiental” e que “amalgamando mitos cosmogônicos e escatológicos, histórias e ciência, Renata vai recriando a história do nosso planeta” e “aprendemos com a poeta que “O amor precede a palavra”.

Doutora em Letras pela UFES, a escritora atua como terapeuta e, em 2007, criou a Reserva Natural Reluz, uma RPPN reconhecida pela UNESCO como um Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

O livro conta com o patrocínio do Governo do Estado do Espírito Santo e será distribuído gratuitamente em bibliotecas públicas e nos projetos socioambientais do Instituto Ambiental Reluz, visando fomentar a emergência de um pensamento crítico alinhado às forças do devir e ao plano das multiplicidades, capazes de traçar caminhos de afeto e cuidado com as vidas humanas e não humanas que habitam a Terra, nossa casa comum.

No lançamento, o valor da venda do livro será integralmente revertido para o Programa “Reluz na Estrada”, que trabalha pelo fim do atropelamento de animais nas rodovias do Espírito Santo.

 

Lançamento: dia 28/ 11/ 2025

Local: Biblioteca Pública Municipal Adelpho Poli Monjardim. Rua São Gonçalo, 23. Centro. Vitória/ ES (ao lado do Teatro Sônia Cabral).

Contato: (27) 9 9574-7410