27/05/2007

Mulherárvore




Por mais que ela quisesse parecer humana
sua pele quase casca a denunciava
ela era árvore.
A cada manhã mais veios
a seiva suave já lhe percorria toda.
Mulherárvore.
Urgia, o tempo
ela precisava reconhecer sua natureza
a tantos vivendo entre os humanos
uma raça inimiga da sua
e com eles estabelendo alinças de sombras:
__ árvores precisam de terra e não de asfalto,
precisam de água fresca e de sol
para poderem ser árvores.
Ela era de uma espécie rara
híbrida
se descoberta, logo seria alvo
do serrote de algum pesquisador.
Mulher metamorfose
já se sentia brontando
mais um pouco e não poderia mais
esconder-se entre ruges e rendas
Logo teria galhos e folhas
e o assédio dos pássaros
implorando por um espaço para seus ninhos
a denunciaria.
O tempo urge
a mulherárvore
sabe que é chegada a hora
de realizar a sua natureza.

By renata Bomfim

paraiso

Assim que ela surgiu das sombras
fez-se silêncio
até vento parou para escutá-la
primordial, aquele som
não sei explicar como, mas
aquela musica fazia brotar as sementes
fazia também com que os pássaros filhotes
arriscavam seu primeiro vôo
que musica era aquela?
Eu, ali, imóvel, assim como o vento e tudo mais
só pudia mexer os dedos
estava paralizado pela beleza
Desejava estar com ela
Quem era aquela mulher?
o que é o paraíso?
eu a conhecia, lá no meu íntimo,
era ela quem me despertava toda manha
eu a desejava, mas nunca a possuí
ela era de todos e de ninguém
dormia com a lua e despertava com o sol,
copulava com as estrelas
as onças, as cobras, os elefantes , as ranhas, as formigoas
e toda a raça ficava enamorada dela.
Ela é mãe e amante de tudo que vive e respira.
Mulher que verte mel
e toca a musica composta por Deus.
by renata bomfim

07/05/2007

Não há clichês num mundo outro...


Quando cheguei aqui
faz um tempo
sem lembranças
tudo o que vi e ouvi
assim como, as verdades que me disseram,
se tornaram o meu mundo.
Paredes moles da minha casa
jardim com flores carnívoros-vegetarianas
pássaros escam0- douradas e,
aquele sentimento de vazio
que sempre me inquietou.
__as cores não podem ser só estas!
eu sempre pensei assim
de onde vinham os pensamentos- estranhos?
pareciam não serem meus
Meus, os clichês?
um dia acreditei serem meus
todos os clichês,
ferramenta obrigatória para atuar neste
mundo que me intriga e aborrece
odeio clichês,
mas odiar clichê é o maior dos clichês,
na árvore genealógica da saudade
uma tela em branco
espera angustiada e,
quanto mais brancas e puras,
mais dizem nada.
E esperam pelo artista -louco
anseia ser algo mais
dependência misteriosa esta.
A matéria (re)clama
A matéria geme e eu ouço
Ninguém ouve a terra-matéria gritar
eu ouço e
choro-criança
a tela muda
tela cor, tela corpo
lágrimas da terra
(es)correm nas minhas veias
meu sangue chora
ouçam a terra! clichê,
Clichê, clichê, clichê...
Odeio clichês!
O maior dos clichês,
ser eu mesma
Ser só eu, quando eu sou mais
Talvez a somatória- resultado de uma raça ruim,
de gente que pensa não/Ser- gente
Que pensa que
no seu sangue
corre um liquido outro,
não as lágrimas da terra
Já senti na boca o gosto
da saliva da terra- mulher
que beija cada homem que nasce
apaixonadamente,
mas o homem não sente,
Pequenas lembranças sensórias
de quando eu cheguei (aqui) sem lembranças
Lembrei
o vento cura amnésia
Faz o corpo lembrar
lembrei de uma outra gente
de um mundo outro
gente outra que
mora num mundo de clichê
menos comprometido com a ignorância
Sim, eu sei que
o mundo É o mundo e pronto
Nasço, vivo (como posso) e morte
E o mundo continua
Indiferente
Não importa
Contradição?
importa, sim
deixar a marca na pedra
Uma inscrição:
“eu ouço a terra, eu sinto o sabor do seu beijo ”
Só isso.
E viver (como se pode),
E morrer como se deve
Feliz da vida

by renata bomfim

04/05/2007

encantamento

para se espantar as entidades da má sorte
não bastam velas ou incensos
nem mesmo flores jogadas ao mar
sal fino ou grosso, abre- caminho,
espadas de são jorge ou patuás.
o encantamento só funciona se
praticado por alguém que ainda detém
o poder de se encantar
somente um Ser encantado
pode ser encantador.
mas estes seres, a cada dia,
são mais raros,
faltando pouco para serem
encantrados apenas nos contos de fadas
lá nos livros, onde moram todos os encantamentos.
espanto é outro determinante
e funciona para o encantador como chave que
abre a porta da mente e do corpo
Espantosa é a sensação de deslumbramento
frente ao mistério da vida,
e às idéias que, pasmos,
acreditamos serem capazes de mudar o mundo,
a surpresa de poder ano- após- ano aceitar falácias
e alegrias que viajam com o vento
e desabrocham como flores.
esse embruxamento é vital
para quem quer poder para
espantar a má sorte
só se ganha quando se perde,
eis o mistério dos mistérios
sempre há um preço a ser pago
por cada gota de lágrima sorridente
é preciso deixar algo ir para que se possa receber
mistérios?
A má sorte nada mais é que uma fada triste
cuja face o tempo maltratou
pobre fada, seu encanto lhe cegou
o feitiço voltou-se contra o feiticeiro
por isso, para assegurar o sucesso do encantamento,
o encantador deve, sempre, ter às mão o antídoto
de cor verde- viscoso e de cheiro nauseabundo
chamado desencanto
somente uma gota, porém,
para reforçar o poder do encantamento
Mistério dos mistério?
A sorte é uma só, se boa ou má
depende de como se lida com a magia da vida
sempre há conseqüências
seja na ação ou na imobilidade
depende também da mistura
dos ingredientes no caldeirão,
gotas a mais de encantamento, boa sorte
à menos, somada a boa dose de desencanto,
Má sorte...
e a fada chora, e lastima, por tudo ser e tudo poder
no final , descobre-se que a bruxa é uma mestre- cuca,
e que na hierarquia dos elementos
feiticeiro/encantador que se preze não pode esquecer da adição do
amor- gotas, eficaz na cura das feridas da alma e
na cura de fadas tristes.
sabe-se que este ingrediente- chave, o amor, em pedra, pode ferir e matar
mas, maior cuidado,
deve ser tomado com o amor- pó
o resultado da manipulação inconseqüente deste, pode ser catastrófica
ao amor- pó
não resistem nem as fadas e nem as gente.
os banhos são importantes
não podemos esquecê-los
Banho de lua
Banho de sol
Banho de orvalho e chuva
As ervas cantam e brincam na relva
esperam a vez de atuarem na fórmula
anseiam manipular a matéria por dentro
Esse também é um outro mistério
Depois do banho, e da fórmula do encanto/ desencanto
o efeito será sorrir, e chorar, e lamuriar, e ter esperanças...
coquetel de emoções
caem as escama dos olhos
e se pode perceber que
a vida (essa vida) vale a pena.
by renatabomfim

02/05/2007

Alquimia


A entrega foi
deliciosa
do leito
deleite
um cálice inverso
universo
de estrelas, gelo e martini
derramado sobre mim.
E eu que era potencia e força
certeza e tirania
que te concebia uma parte de mim
Minha toda , eu todo, o possuiDor
Que te conduzia pelos caminhos do meu desejo.
Eu, o homem de aço, ouro e mercúrio
Amalgamado no espelho cruel de Narciso
Eu todo poderoso
Tudo, Todo
Eu.
Agora, ébrio, débil e
prostrado, reconheço ser Nada
Frente ao teu corpo de flor
Talvez a nuvem que um menino viu
Mas que o vento carregou
Pra tão longe que
agora, sem forma, derrama-se todo
e em partes chora sobre a terra.
É a história desse homem
homem redução/emoção
Que trocou o poder pela
impossibilidade
Desse pobre que na solidão
conheceu a alegria
sim, na deliciosa dor da entrega renasci
Curaste meus olhos da cegueira
com teu leite, panacéia sagrada.
Entre nós vigorava a lei do silêncio
Eu dizia e tu calavas
e cogumelos brotavam dentro de ti
e corvos comiam os cogumelos
Dos teus buracos rebentavam
As sementes que a nuvem de minhas lágrimas regou
Flores amarelas e beija-flores
Eu vi saírem de ti
Colhi uma margarida no teu ouvido esquerdo.
A vida, amor
O meu não ser potência é a força de amansar
a turbulência do tempo que nos corrói
É colher no corpo do teu jardim
O aDorno que me fará belo
teu semelhante
Eu reduzido, resultante, (re) composto
Combinado
Eu outro
opus.


by renata bomfim

13/04/2007

Documentário sobre o consumo de carne " A carne é fraca"

http://www.ninarosa.org/educacao_humanitaria.htm

Caros, eu não consegui assistir até ao final...
vou continuar tentando ...

Se conseguirem assistam
esse documentário está no site Instituto Nina Rosa que
trabalha em defesa dos animais.

Dona Baratinha

Era uma vez uma dona
Dona baratinha
Saía todo dia à noite em
busca de companhia
saia curta
pernas finas e perebentas
cobertas por meias finas


Não escolhia
Simplesmente ia
A primeira oferta
lhe bastava
E se houvesse algum tipo de problema
Devolvia com juros
os favores
Coitada

Dona baratinha
Não tinha casa
Não tinha amigos
Tudo o que lhe era caro
Era de outro, não era seu
Jogava no campo do impossível
Tecia os fios da carência e
tentava desatar o nó da
Mediocridade

Quando ia ao bar pedia ao garçon uma soda
que bebia delicadamente
com a cara de quem bebe
um cabernet Sauvignon
Todo dia repetia a viagem

Cruzes
Pra lá e pra cá, rabiscos
Palavras cruzadas
Dona baratinha tem um sonho
Se casar
Encontrar um bicho que no silêncio
Pague suas contas
Que não são caras

Quem sabe um porco?
Quem sabe um bode velho?
Quem sabe um hipopótamo?
Um veado?

Ela sonha e suspira
Pensando no bicho que escolherá
e que será a sua companhia definitiva
no menu dos noivos
apenas saladas e
nada de feijoada

Mas se não puder escolher
dona baratinha aceita
qualquer um
aceita dividir as contas
podendo até pagá-las sozinha
afinal
sacrificios são necessários...

Quem quer casar com dona baratinha?

By renata romfim

Pertencimento
Palavra cara
Primorosa
Anula o esquecimento
ameniza a dor
Palavra que une
familiariza
também distingue
singulariza
Milagre
unguento para
a solidão perniciosa
e também para a ira e a fadiga
É certeza de Ser
lembrado
e se esquecido
momentaneamente
não se importar
pois sabe ter lugar
no coração do outro
É ter casa
pra voltar
alguém pra abraçar
um corpo dotado de alma
para amar
é estar
amparado
nesse mundo fragmentado
e ser fragmento
no mosaico cósmico
fazer parte do todo
mesmo sendo
uma poeirinha de estrela
e viajar pelo infinito.

by Renata Bomfim

12/04/2007

A tua sombra

À tua sombra
Descanso
Enquanto o sol causticante
queima ao redor

À tua sombra
Descaso
quando impiedosamente
reinas soberano
E eu, um ninguém

A tua sombra,
Em mim,
Obscuridade...
desespero de quem
quer ver e sentir o sol

À tua sombra
o destempero
a dissonância
Quem sou eu?
Para onde vou?

À tua sombra
Frustração
Quero ir para
a chuva e me molhar

A tua sombra,
o assombro,
fantasma na noite,
Retrato antigo que
guarda segredos

À tua sombra,
Interdito,
me encolho,
estico,
sento e levanto,
Mas não saio do lugar.

A tua sombra,
Prisão dourada
de onde a
"princesa encantada"
espera se auto-resgatar.

A tua sombra
abriga o mundo
O meu, ilusório,
mundo.

by renata bomfim