05/03/2010

Imagens do caleidoscópio de Jorge Luiz Borges em Ficções


autora: Renata Bomfim
(resumo do artigo)

Jorge Luis Borges (1899- 1986) inovou a narrativa contemporânea pela singularidade de sua escrita ficcional, que influenciou significativamente o movimento vanguardista argentino, como também a escritores, cineastas e críticos de todo mundo. Sua obra está inscrita na primeira etapa do século XX, tempo de problematização e negação de todos os conceitos. Bella Josef, estudiosa que conheceu Borges pessoalmente, no Livro Jorge Luiz Borges, nos esclarece que: “A formulação estética de Borges desconstrói o modernismo: transforma a realidade e fragmenta o tempo relativisando a forma em sua crítica do sujeito. Com isso, anuncia a pós-modernidade” (JOSEF, 1996).
Borges é instigante, através da escrita o autor cria outros mundos regidos por leis próprias, abalando as realidades objetivas, concretas e fixas, presas às leis do tempo, para tal, ele utiliza elementos variados como o labirinto, vastos espaços que se desdobram infinitamente, caminhos sem fim, rodas e labirintos lineares e cíclicos.
O livro Ficções (editado em 1944) brinda o leitor com contos que desfazem os limites entre o real e o fantástico e, entre tempo e realidade, fazendo emergir um mundo de multiplicidade de sentidos que possibilita ao leitor inúmeras interpretações. Borges afirmou certa vez:“durante toda a minha vida cheguei às coisas depois de havê-las transitado nos livros” (JOSEF, 1996), para ele o livro é uma metáfora do universo.
O Conto intitulado A Biblioteca de Babel, por exemplo, apresenta-nos uma biblioteca labiríntica infinita de galerias que se repetem e a metáfora do labirinto redesenha a trajetória do homem. A imprevisibilidade expressa no conto mostra o homem preso ao labirinto do tempo, peregrino, labirinto que é, também, uma metáfora da tessitura textual, que é inesgotável:
Afirmo que a biblioteca é interminável. Os idealistas argúem que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto ou, pelo menos, de nossa intuição do espaço. Alegam que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (BORGES, 2001)
[...] A Biblioteca existe ab aeterno. [...] Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um viajante atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que reiterada seria uma ordem: a Ordem). (BORGES, 2001)
Nesse mesmo conto percebemos o ser humano buscando respostas para problemas que não têm solução, para questões impossíveis de se responder:“[...] também se esperou, então, o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da biblioteca e do tempo”. A narrativa de Tlön , Uqbar, Orbis e Tertius apresenta a descoberta, ao acaso, de um mundo paralelo e desconhecido, construído por meio da linguagem, chamado Uqbar, nascido da conjunção de um espelho e de uma enciclopédia. Este mundo é a imagem inversa do mundo real, é uma imagem refletida em um espelho imaginário, onde as coisas se projetam e duplicam. Acerca desse planeta imaginário criado pelo conhecimento humano, o texto nos diz:
[...] quem são os inventores de Tlön? O plural é inevitável, pois a hipótese de um único inventor [...] fora descartada unanimemente. [...] Esse plano é tão vasto que a contribuição de cada escritor é infinitesimal. [...] Conjectura-se que este breve new Word é obra de uma sociedade secreta de astrônomos, de biólogos, de engenheiros, de metafísicos, de poetas, de químicos, de algebristas, de moralistas, de pintores, de geômatras, dirigidos por um absoluto homem de gênio. (BORGES, 2001)
Em Tlön , Uqbar, Orbis e Tertius, Borges cria uma nova realidade que nega o tempo e nos mostra a visão do autor acerca da angústia do homem que pretendem encontrar uma explicação racional para o universo, e a realidade vê-se ameaçada de ser tragada pela fantasia: “O mundo será Tlön”.
Outro conto intrigante intitula-se As ruínas circulares, este conto aborda temas variados e recorrentes na obra borgeana, dentre os quais, a circularidade captada nos níveis do tempo e do espaço. O conto narra a história de um homem velho, um “mago”, que se refugia nas ruínas circulares de um templo que foi consumido pelo fogo. Seu intento era criar outro homem: “O propósito que o guiava não era impossível, ainda que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade”. Este homem percebeu que moldar a matéria de que é feita o sonho é tarefa árdua, ele reviu o seu fracasso e buscou outra tática para realizar seu intento, “abandonou toda premeditação de sonhar” e, para retornar a tarefa, executa um ritual de purificação, [...] e quase de imediato sonhou com um coração que pulsava, [...] cada noite percebia-o com maior evidencia”.
A ambição de criar um homem tão perfeito que se impusesse à própria realidade, revela a busca de Borges por vencer o tempo e a sucessão a que estamos imersos, de alcançar a eternidade. Para o estudioso Pommer (1991), “a eternidade seria uma invenção humana capaz de dar sentido às nossas vidas fugazes, já que o tempo, é algo que nos escapa por completo à compreensão”.
Ao final do conto o mago descobre que também é ele a criação do um sonho de um outro. Bella Josef (1996), afirma que Borges recorre ao tempo cíclico em suas narrativas para justificar a permanência de um mesmo fato ou objeto em muitos lugares. Ele busca a intemporalidade do tempo, anulado em sua unicidade. [...] a simultaneidade ou repetição cíclica, que leva ao tema da criação e ao tema do labirinto. [...] A fantasia é mais real que a própria realidade e nela tudo se repete. [...] Se o tempo é cíclico deixa de existir o tempo cronológico.
O filho sonhado pelo mago vai gradualmente acostumando-se a realidade, mas não sabe que é um simulacro, um fantasma. O mago consegue realizar o intuito de sua vida, e numa espécie de êxtase entrega-se ao fogo para ser consumido. As ruínas circulares mistura planos: “Não ser homem, ser a projeção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem. [mas o mago] com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era a aparência, que outro o estava sonhando. O mago ao descobrir-se também uma projeção, um simulacro sonhado por um terceiro, sente um alívio, pois há uma desconstrução da individualidade, o sujeito tendo sua individualidade diluída, torna-se parte de algo maior que ele, de um tempo fora do tempo, de um tempo mítico.
Nos conto A forma da espada, o protagonista dirá: “O que faz um homem é como se todos o fizessem”. Ao serem abolidos passado e futuro, resta ao homem o tempo presente. Santos (1996) nos diz que “a destruição do tempo, anula conseqüentemente o individuo e dá ao universo um caráter eterno”. Este conto mostra a busca do homem borgiano pela imortalidade, lutando incessantemente contra o tempo.
Enquanto a realidade for regida pelo tempo, e este for o limitador da realidade humana, não haverá nunca uma possibilidade do homem retirar a máscara e descobrir seu verdadeiro rosto. A possibilidade de encontrar-se só pode ser vislumbrada num mundo atemporal, em um mundo não limitado pelo tempo sucessivo e temporal. (SANTOS, 1996)
Já Cerqueira (2006), destaca que na obra de Borges o tempo é um eterno retorno, e por isso não se pode afirmar que este mundo é real, mas um simulacro, uma máscara. [...] por isso não podemos decifrá-lo. Sendo assim, o homem que o habita é também um simulacro, pois repete os mesmos atos mecanicamente há séculos. Por ser prisioneiro do tempo, o eu, que é Borges, só se pode experimentar no fluir deste, que devora toda a realidade. Fruto de uma imaginação privilegiada, o livro Ficções é uma aventura imaginativa que busca discutir a pretensão da linguagem em ser a expressão fiel da realidade. Nele Borges constrói um caleidoscópio, cujos espelhos, a cada momento nos surpreende com novas possibilidades de desdobramento de imagens.

Referências:

CERQUEIRA, Dorine. Joege Luis Borges e a narrativa fantástica. Disponível em: < www.hispanista.com.br>. Acesso em: 30 nov.2006.
JOSEF, Bella. Jorge Luis Borges. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S. A., 1996.
JOSEF, Bella. Uma estética da inteligência. In: Jornal do Brasil, 1999.
POMMER, Mauro Eduardo. O Tempo Mágico em Jorge Luiz Borges. Florianópolis: Editora da UFSC, 1991.
PINTO, Júlio Pimental. Uma memória do mundo: Ficcção, memória e história em Jorge Luis Borges. São Paulo: FAPESP, 1998. p. 167- 175.
SANTOS, Ana Cristina. Algumas reflexões sobre o infinito na obra borgiana. In: anuário brasileiro de estudos hispânicos, n. 6, 1996. p. 71 – 81.
SANTOS, Ana Cristina. O Tempo e a Morte em Borges: “As Ruínas Circulares”. In: América Hispânica. Ano V, n. 7. 1992.

04/03/2010

Hora do Planeta 2010

Esse ano a Hora do Planeta será no dia 27 e março, entre as 20h30 e 21h30. Em 2009, 40 mil cidades de 88 países, 113 cidades brasileiras participaram da campanha promovidqa pela WWF.É isso aí, vamos desligar tudo minha gente e repensar nosso consumo.

GENTE, FOI MARAVILHOSOS FAZER PARTE DESTA CORRENTE TAMBÉM ESTE ANO!

02/03/2010

Verinha

 

Verinha

Verinha, querida, preciosa
Você ensaia a partida e eu
com o coração partido vejo
esvaziar um pouco o meu mundo.
É um conforto saber que
durante os doze anos que estivemos juntas
nossos espíritos, alados e selvagens,
estiveram em comunhão.
Sempre te amarei, filhotinha.
Tão pequena, uma jóia, e mesmo assim
me ensina com secular sabedoria.
Quem sabe em outra vida estivemos juntas
e eu fui a sua gata preferida?
Não importa a forma que temos,
gente, gato, pedra, flor, importa sim,
as nossas energias unidas, em harmonia.
Acredite gatinha, ainda vamos nos encontrar,
quem sabe na minha hora, você vai me esperar?
Lá, do outro lado do arco-iris...
onde vão morar criaturas como nós.
Nunca vou te esquecer, dançarina,
mas espero esquecer a tristeza desse dia
que chegou com nuvens pesadas e chuva fria.
Meus olhos estão encharcados,
meu coração, prenhe de saudades,
é dificil abrir mão do que mais amamos.
Preciso te liberar, dizer adeus,
só Deus sabe o quanto me custa,
o quanto é dificil!
Mas, por amor também deixamos ir,
Segue em paz minha flor e obrigada
por tudo, por sua existência, que deu cor a minha:
que os anjos te guiem na jornada,
que o céu felino te acolha com flores,
músicas portuguesas, lagos com peixes,
muitos arranhadores, arbustos baixos e
uma grande passarada.
com amor,
sua mamaezinha.

01/03/2010

8 de março

Mais um dia internacional da mulher se aproxima e continuamos sendo queimadas, enclausuradas, espancadas, cortadas, violentadas, mal remuneradas, discriminadas, enfim. Não há muito o que comemorar, cada conquista feminina tem peso de sangue e é feita às custas de muita abnegação. O sucesso profissional, esse  vem na garupa de jornadas duplas e  triplas e de muito desgaste! Mas a luta por respeito e por um lugar à sombra continua! Temos muito ainda pelo que lutar, bem como a responsabilidade de honrar o sacrificio de muitas mulheres que vieram antes de nós desbravando, ousando, acreditando e sonhando com uma sociedade mais igualitária. Salve as mulheres nesse dia que é todo seu!

28/02/2010

Nada

ccccccccccccccXXTristeza é nada
cccccccccccccXXXX é vazio
XXXXXcccccccccccccc ausência
XXXXXccccccccccccccXquerer voltar no tempo
XXx ccccccccccccccXXavançar no tempo
XXcccccccccccccccccxxxparar
XXccccccccccccccXOco
XccccccccccccccXBuraco
ccccccccccccccXEspaçamento
XccccccccccccccXLonge daqui
Xccccccccccccccccc Longe do agora
XXccccccccccccccXXsem lembranças
XXccccccccccccccXXXbranco total
XXccccccccccccccXXXXnem eu
XXXccccccccccccccXXXXnem você
XXXccccccccccccccXXXNão saber
XXXXccccccccccccccXNão querer
XXXccccccccccccccXNada não
XccccccccccccccXVárzea
ccccccccccccccXCharco
XccccccccccccccXLodo
XXccccccccccccccXChão
XXccccccccccccccXXAtoleiro
XXccccccccccccccXXXVão
XXccccccccccccccXXVácuo
XXccccccccccccccXDespovoamento total
XccccccccccccccXDeserto
ccccccccccccccSem fim.

bairenatabomfim

o poeta adâmico

No paraíso da linguagem,
o poeta zeloso se inclina
para amar a letra.
Nesse momento ele é Adão
no topo da hierarquia,
exigindo que Ela se submeta.

A letra mulher primeva,
dissimula
dribla a lei,
se agita.
Vê  homem, bicho, Deus,
quer comer tudo
quer conhecer tudo
provar de tudo muito
principalmente do fruto.

Cometidos todos os pecados,
Nua e ambigua
ouve do outro lado a pena:
"Ganharás o pão com o suor do teu corpo".

O homem, caído, se depara com o desconhecido,
A vida de agora é labor e sacrífício
Ela pari aos gritos
conhece a dor
Mas estava escrito, tinha que ser assim,
para puderem seguir  nomeando as coisas e
enchendo a terra de Abéis e Cains.

bairenatabomfim

A Academia Feminina Espírito-Santense de Letras convida...


A MULHER NO SÉCULO I:TEMPO E JESUS
Auditório do ICII da UFES- dia 09 de março- 16:00h
com Thelma Maria de Azevedo

25/02/2010

Eco-ninhos

Olá amigos da natureza, pessoas que gostam de ver os pássaros soltos, em liberdade, amigos queridissimos da RECEA (Rede de Educação Ambiental do ES) grupo do qual faço parte. Apresento a vocês o eco-ninho, feito de caixinha reciclada e casca de pinheiro. Eu vi esta idéia na net e achei bem legal, então pensei em recobrir as caixinhas com casca de pinheiro para dar um ar mais natural. Basta saber se os pássaros irão gostar e fazer morada nela, vou testar e conto pra vocês. Ouvi dizer que os pássaros voltam sempre ao mesmo ninhos para criar seus filhotes, será verdade?
Abraços
Renata


1- Recolher e lavar bem as caixinhas de suco e/ou de leite (depois deixe ao sol para secar bem);
2- Pedir a um gato para inspecionar a qualidade do material, afinal, ninguém entende melhor de passarinhos;
3- Começar a montar o mosaico com as cascas, utilizando cola quente;
4- Recobrir toda a caixa;
5- A caixa pode ser colocada em pé ou deitada, na varanda das casas ou em árvores para que os emplumadinhos façam os ninhos.

21/02/2010

NO PRELO...

Queridos, o meu livro (MINA) está no prelo, logo estarei divulgando o dia do lançamento e conto com a presença de vocês!
Este trabalho tornou-se possivel graças a Lei de Incentivo à Cultura da Prefeitura Municipal da Serra (Lei Chico Prego), a Arcelor Mital e a Magnesita.

Deixo aqui meu agradecimento!
Abraços
Renata

20/02/2010

AMAES: Associação de Amigos dos Animais do ES na luta pela ajuda humanitária aos animais do Haití



Amigos, a AMAES surpreende com mais este trabalho de auxilio aos grupos que atendem aos animais que sofreram com os terremostos no Haiti. A AMAES informa que foi criada uma coalisão internacional de ajuda aos animais do Haiti (ARCH), liderada pela WSPA-Sociedade Mundial de Proteção Animal, à qual é afiliada e o FAW (Fundo Internacional de Bem-Estar Animal) cuja sede é nos Estados Unidos. Mais de 13 organizações mundiais de proteção animal participam da coalisão, entre as quais: WSPA, IFAW, American Humane Association, Best Friends Animal Society, Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals(UK), In Defense of Animals, American Veterinary, Antigua and Barbuda Humane Society, American Society for The Prevention of Cruelty to Animals, United Animal Nations, Kinship Circle, One Voice, Swiss Animal Protection e Petfinder.com Foundation.
Desde a chegada da coalisão,02 semanas após a catástrofe, milhares de animais já foram atendidos , principalmente na capital Porto Príncipe. Apoiada por uma Gigante e moderna Clínica Veterinária Móvel, adquirida na Inglaterra, com capacidade para até 10 intervenções cirúrgicas simultâneas, centenas de voluntários vindos principalmente de países da América Central e Caribe oferecem os primeiros socorros e atendimentos aos animais, além de medicamentos, alimentação e vacinas. São veterinários, bombeiros, biólogos, zootecnistas,tradutores,sanitaristas,etc..que formam o batalhão da ajuda humanitária.
Sobre os voluntários internacionais, muitos brasileiros se alistaram para viajarem ao Haiti, inclusive vários capixabas que atenderam à solicitação da AMAES de formação de um cadastro de segurança. O Brasil, entretanto, não teve a oportunidade de enviar voluntários visto a preferência ter sido dada para as pessoas residentes em países da América Central e Caribe, que por ser uma região com constância de desastres naturais, as experiências acumuladas nessa área são grandes.
Como se pode ver, felizmente, existe uma comunidade internacional de humanos que acredita que os animais merecem respeito, solidariedade e têm direito à vida e ao Bem-Estar. Essas mesmas pessoas, das quais a AMAES parte, lutam por um mundo onde o bem-estar dos animais importe e que os maus-tratos contra os mesmos não mais existam.
Algumas fotos de campo mostram o dia-dia de  trabalho de voluntários. Cenas como essas, nos levam a acreditar que uma sociedade mais justa para com os animais ainda é possível, e que um dia, eles poderão desfrutar desse planeta com direitos iguais aos dos humanos: com respeito e dignidade.
A AMAES aproveita para agradecer a todos que nos escreveram aqui no Espírito Santo, se oferecendo para o voluntariado internacional, alguns inclusive dispostos a custear suas próprias despesas.
http://www.amaes.org.br/