Na selva sagrada
os instintos afloram.
Cada planta, cada bicho, o ar,
tudo é vivo, tudo fala.
Do verde brotam
movimentos sinuosos
sussurros, risos...
É a ninfa que, do deus imponente,
bebe o vinho.
Ela se torna a própria taça
transbordante de desejos
Dionísio, a enreda, em desalinho,
arrastando-a, furtivo, por entre a relva,
para que desabroche caprichosa e perfumada.
Ela cede aos seus apelos e se deixa possuir.
Seu corpo agora é fluidez
entre suas mãos ásperas.
Ela se torna gazela, impiedosa,
a sua lança a transpassa.
Fustigada, ela quer mais...
Agora os dentes do deus a carne macia
adentram e marcam, signos são criados
com seus chifres reluzentes.
A ninfa ascende entre agonias
a selva orquestra gemidos de prazer.
Em êxtase comungam contentes.
Ela reverencia o deus pagão
pai dos seres desse reino de beleza
depois, descansa recordando o idílio,
até que a noite lhe cubra
com seu manto de prata.
renatabomfim
15/06/2010
Despedida (poema para Lili)
Você está aqui comigo,
mas aos poucos,
como uma vela brilhante,
se apaga...
Quanta luz você fez, chama perfumada!
Quanta luz vertida sobre mim em cascata
sob forma de amor.!
Temo não ter mais fluidos
quando você se for,
apenas poemas encharcados.
Esta é a nossa despedida!
Amar é se esvair, eu acho,
É se esgotar devagarzinho...
me sinto reduzida.
Uma dor lancinante, querida,
parte daqui de dentro e se lança
do meu peito, raios errantes.
O que restará de mim depois de tudo isso?
Matéria seca?
Oh! Deus, por que comigo?
Por que com ela ?
Por que agora?
Porque assim, dessa forma?
Por quê? Por quê? Por quê?
Por que perdemos um amor
e precisamos agüentar, firmes, fortes,
quando a estrutura é frágil e ameaça ruir?
Estou olhando para você,
com doçura e atenção,
arrancando de dentro tudo o que é luz
para te ofertar com alegria,
em agradecimento
pelo tempo que você me dedicou,
pelos sorrisos que fez brotar no meu jardim.
Mesmo em meio à dor
eu te acolho nos meus braços
e canto: “fica, fica, fica...”
Mas o meu poder vai, somente, até aí:
cantar, cantar, cantar...
sou poeta.
Mas ponho no tempo ainda não cantado,
esperanças e novas letras, banho os versos
não criados com utopia e crio um não-canto:
“Vai em Paz, amor”.
renatabomfim
mas aos poucos,
como uma vela brilhante,
se apaga...
Quanta luz você fez, chama perfumada!
Quanta luz vertida sobre mim em cascata
sob forma de amor.!
Temo não ter mais fluidos
quando você se for,
apenas poemas encharcados.
Esta é a nossa despedida!
Amar é se esvair, eu acho,
É se esgotar devagarzinho...
me sinto reduzida.
Uma dor lancinante, querida,
parte daqui de dentro e se lança
do meu peito, raios errantes.
O que restará de mim depois de tudo isso?
Matéria seca?
Oh! Deus, por que comigo?
Por que com ela ?
Por que agora?
Porque assim, dessa forma?
Por quê? Por quê? Por quê?
Por que perdemos um amor
e precisamos agüentar, firmes, fortes,
quando a estrutura é frágil e ameaça ruir?
Estou olhando para você,
com doçura e atenção,
arrancando de dentro tudo o que é luz
para te ofertar com alegria,
em agradecimento
pelo tempo que você me dedicou,
pelos sorrisos que fez brotar no meu jardim.
Mesmo em meio à dor
eu te acolho nos meus braços
e canto: “fica, fica, fica...”
Mas o meu poder vai, somente, até aí:
cantar, cantar, cantar...
sou poeta.
Mas ponho no tempo ainda não cantado,
esperanças e novas letras, banho os versos
não criados com utopia e crio um não-canto:
“Vai em Paz, amor”.
renatabomfim
14/06/2010
Transição
Degradação: planeta devastado,
valores corrompidos, a fé só enxerga $.
Milênios de evolução tecnológica
Milênios de involução da consciência
Desaprendemos com as experiências
e depois dizemos: Oh! Deis, por quê?
Trememos frente a verdades simples
Nossas ações constroem o mundo.
Há fuga em massa para a terra da ignorância
Mas esta também já se abala.
Quando os pólos, experimentais, se inverterem
e o dia chover raios luminescentes:
Vai nascer uma nova gente
Gente da era da luz!
Essas crianças benditas resgatarão o que perdemos
Saldarão as nossa dívidas.
Essa luz de esperança e esclarecimento
rebentará novas sementes.
renatabomfim
13/06/2010
LusoMundo: Entrevista: Maria Lúcia Dal Farra (UFS) fala sobre Florbela Espanca e a primeira república
Amigos, Dal Farra fala sobre a presença de Portugal nos poemas de Florbela, a simbologia da República na sua obra, as correspondências que manteve com intelectuais republicanos como Raul Proença. A crítica fala também da relação de Florbela com Antônio Guimarães, seu segundo marido, que era alferes da guarda republicana. 40 minutos de informação e encamento... IMPERDÍVEL!
2010-06-13 Jornal da República nº 22
12/06/2010
Cicatriz
Meu mundo é violento e com razão:
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.
(Diferença. Poema de Leila Míccolis)
Marca de Caim
De mulher
Sua e de mim
Colher
Flor
Bordado
Filha da puta
Filha da mãe
Clichê
Pavor
Porvir?
renatabomfim
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.
(Diferença. Poema de Leila Míccolis)
Marca de Caim
De mulher
Sua e de mim
Colher
Flor
Bordado
Filha da puta
Filha da mãe
Clichê
Pavor
Porvir?
renatabomfim
10/06/2010
ARCANO DEZENOVE
Despi-me de tudo!
Foi difícil abrir mão da dor,
esquecer a solidão, o banimento.
Estava olhando o mar...
no horizonte, uma linha perfeita
como jamais serei.
Sou tortuosa!
Com esta visão, garatujei,
tornei-me esboço, cálice.
Estou pronta para a incerteza,
para assumir a imperfeição.
Este despertar é tão misterioso,
não sei como começou,
acho que foi escutando o silêncio.
Inunda a minh’alma
um sol de quinta grandeza,
eu te desejo toda, íntegra,
Terra amada, santa, Natureza!
Despi-me toda, sim!
para recebê-la.
Veste-me de lírios
Lilases e caprichosos,
respiro profundamente.
Quasares, buracos negros, estrelas,
tudo, tudo no céu me leva até você.
Conceda-me o dom de conhecer,
o desejo de saber um pouco mais,
a habilidade de agrupar e conceber,
a paciência para esperar,
e a paz, sim, a paz tão necessária.
Terra amada, a minha matéria,
de você toda feita, vibra e espera.
Não preciso mirar o céu para compreendê-la
chega de esperar redenção de tão longe,
há no teu leito descanso, frescor,
há promessas de amor, esperança, encanto...
Alguns homens não entendem isso.
Por esta razão, sem lógica,
que te oferto meu canto
e por todos nós peço teu perdão.
bairenatabomfim
Foi difícil abrir mão da dor,
esquecer a solidão, o banimento.
Estava olhando o mar...
no horizonte, uma linha perfeita
como jamais serei.
Sou tortuosa!
Com esta visão, garatujei,
tornei-me esboço, cálice.
Estou pronta para a incerteza,
para assumir a imperfeição.
Este despertar é tão misterioso,
não sei como começou,
acho que foi escutando o silêncio.
Inunda a minh’alma
um sol de quinta grandeza,
eu te desejo toda, íntegra,
Terra amada, santa, Natureza!
Despi-me toda, sim!
para recebê-la.
Veste-me de lírios
Lilases e caprichosos,
respiro profundamente.
Quasares, buracos negros, estrelas,
tudo, tudo no céu me leva até você.
Conceda-me o dom de conhecer,
o desejo de saber um pouco mais,
a habilidade de agrupar e conceber,
a paciência para esperar,
e a paz, sim, a paz tão necessária.
Terra amada, a minha matéria,
de você toda feita, vibra e espera.
Não preciso mirar o céu para compreendê-la
chega de esperar redenção de tão longe,
há no teu leito descanso, frescor,
há promessas de amor, esperança, encanto...
Alguns homens não entendem isso.
Por esta razão, sem lógica,
que te oferto meu canto
e por todos nós peço teu perdão.
bairenatabomfim
08/06/2010
Jesus Cósmico
Eu sou Dele e Ele é meu!
Nos conhecemos há muitas eras
quando eu era uma plantinha inquieta
fazendo sombra e alimentando bois.
Nessa época, cada estrela eu conhecia
eu girava, girava...
a cada volta que sol fazia.
Lembro que cada célula vegetal do meu corpo
vibrava com a sua presença angelical.
*
Depois, por entre mistérios e forças,
me encontrei dura e brilhante, pedra,
me chamavam diamante.
Eu precisava aprender tantas coisas...
mas algo em mim resistia,
estranhamente, essa bruteza
encantava e seduzia.
*
Muitas sombras, fluxo, vertigem,
sentia meu corpo flutuando, bailarina,
conheci o mar, entre criaturas irmãs
que cantavam na maré: Água-Viva!
Em sintonia com os ciclos lunares,
seguimos juntos a poderosa voz do oceano,
e conhecemos muitos lugares.
*
Um menino fui também, pobre e alegre.
Nasci na seca, filho do agreste,
não sei bem do verde,
nem ouvi barulho de fonte.
Mas a barriga vazia conheci
aprendi que lutar é preciso,
quando escolhemos viver.
Acho que foi nesse lugar
que comecei a entender o perdão
Então, perdoei a mim mesmo
por ser fraco, coberto de poeira e solidão,
Sob o sol, me acariciavas os cabelos
Em códigos celestiais sussurrava:
jamias te abandonarei!
Estavas sempre comigo
mesmo que o chão tremesse,
Ardesse o sol ou chovesse,
estavas alí, comigo...
*
Fui tantos e tantas que desconheço...
Trago gostos adquiridos,
alguns procuro esquecer.
Me lembro de coisas que preciso rever
Viva! posso fazer novas escolhas.
*
Anseio decodificar esta existência.
Qual o sentido da busca?
Veja que, a muitos séculos,
fui uma linda moça e passava
horas à esperar, por alguém à janela,
alguém que nunca chegava.
Outra vez, achei um tesouro,
com ele aprendi que a felicidade,
não se compra nem se vende
vale mais que prata e que o ouro.
*
Hoje sou os vestígios dessas vidas
e dessas mortes, vidas e mortes, e vidas...
e vivo e morro a cada dia.
Que privilégio, Ser amado!
Que honra ser este mosaico
ainda em construção,
obra do teu capricho e cuidado.
*
Me reúnes em partes conflitantes,
Me fazes sombra e luz,
assim reflito tudo o que existe
Não sou alegre e nem triste,
apenas sou!
Mistério dos mistérios!
*
Te amo pura e santamente,
Jesus Cósmico!
-Que meu corpo e mente sejam, ainda,
mil vezes plasmados,
que eu seja um rio caudaloso
cujos afluentes invadam outros mosaicos,
regando outras plantinhas e
saciando boi que tem sede.
*
Sinto você aqui, agora, ao meu lado.
De dimensão em dimensão,
seguimos, unidos por este laço sagrado
Me guias!
Te sigo, viajamos pelo infinito,
vou cantando!
Nos conhecemos há muitas eras
quando eu era uma plantinha inquieta
fazendo sombra e alimentando bois.
Nessa época, cada estrela eu conhecia
eu girava, girava...
a cada volta que sol fazia.
Lembro que cada célula vegetal do meu corpo
vibrava com a sua presença angelical.
*
Depois, por entre mistérios e forças,
me encontrei dura e brilhante, pedra,
me chamavam diamante.
Eu precisava aprender tantas coisas...
mas algo em mim resistia,
estranhamente, essa bruteza
encantava e seduzia.
*
Muitas sombras, fluxo, vertigem,
sentia meu corpo flutuando, bailarina,
conheci o mar, entre criaturas irmãs
que cantavam na maré: Água-Viva!
Em sintonia com os ciclos lunares,
seguimos juntos a poderosa voz do oceano,
e conhecemos muitos lugares.
*
Um menino fui também, pobre e alegre.
Nasci na seca, filho do agreste,
não sei bem do verde,
nem ouvi barulho de fonte.
Mas a barriga vazia conheci
aprendi que lutar é preciso,
quando escolhemos viver.
Acho que foi nesse lugar
que comecei a entender o perdão
Então, perdoei a mim mesmo
por ser fraco, coberto de poeira e solidão,
Sob o sol, me acariciavas os cabelos
Em códigos celestiais sussurrava:
jamias te abandonarei!
Estavas sempre comigo
mesmo que o chão tremesse,
Ardesse o sol ou chovesse,
estavas alí, comigo...
*
Fui tantos e tantas que desconheço...
Trago gostos adquiridos,
alguns procuro esquecer.
Me lembro de coisas que preciso rever
Viva! posso fazer novas escolhas.
*
Anseio decodificar esta existência.
Qual o sentido da busca?
Veja que, a muitos séculos,
fui uma linda moça e passava
horas à esperar, por alguém à janela,
alguém que nunca chegava.
Outra vez, achei um tesouro,
com ele aprendi que a felicidade,
não se compra nem se vende
vale mais que prata e que o ouro.
*
Hoje sou os vestígios dessas vidas
e dessas mortes, vidas e mortes, e vidas...
e vivo e morro a cada dia.
Que privilégio, Ser amado!
Que honra ser este mosaico
ainda em construção,
obra do teu capricho e cuidado.
*
Me reúnes em partes conflitantes,
Me fazes sombra e luz,
assim reflito tudo o que existe
Não sou alegre e nem triste,
apenas sou!
Mistério dos mistérios!
*
Te amo pura e santamente,
Jesus Cósmico!
-Que meu corpo e mente sejam, ainda,
mil vezes plasmados,
que eu seja um rio caudaloso
cujos afluentes invadam outros mosaicos,
regando outras plantinhas e
saciando boi que tem sede.
*
Sinto você aqui, agora, ao meu lado.
De dimensão em dimensão,
seguimos, unidos por este laço sagrado
Me guias!
Te sigo, viajamos pelo infinito,
vou cantando!
06/06/2010
Lilás
Explosões de tons de lilás.
Ela é exibida, invade as retinas
domina os sentidos,
começamos a sentir, a cheirar lilases,
a delirar de estranheza ao seu sabor.
Tudo, tudo, tudo agora é lilás:
a casa, o rio, a montanha,
a árvore, o passarinho, o gato...
Mas é no jardim que ela impera.
Vence o poderoso verde dos arbustos
com a singeleza de seu manto
com o perfume suave extraído pelo vento.
Ela é legião, uma diaba de mil flores.
Excita os desavisados
com seus micro-pistilos
coloridos e açucarados
não dá paz à grama sobre a qual
se precipita, pois ela jamais cai.
Eis a flor insurrecta do Éden que,
plantada ao lado da árvore da sabedoria,
incitava Eva a provar do fruto proibido:
come, come danada e enxerga o mundo.
A rosa ela despreza, ao cravo ignora,
é amiga do joio, mas, o bambú ela adora.
A Hortência é assim, excêntrica,
cheia de vontades e manias.
Decifra-a se fores capaz!
Ela é exibida, invade as retinas
domina os sentidos,
começamos a sentir, a cheirar lilases,
a delirar de estranheza ao seu sabor.
Tudo, tudo, tudo agora é lilás:
a casa, o rio, a montanha,
a árvore, o passarinho, o gato...
Mas é no jardim que ela impera.
Vence o poderoso verde dos arbustos
com a singeleza de seu manto
com o perfume suave extraído pelo vento.
Ela é legião, uma diaba de mil flores.
Excita os desavisados
com seus micro-pistilos
coloridos e açucarados
não dá paz à grama sobre a qual
se precipita, pois ela jamais cai.
Eis a flor insurrecta do Éden que,
plantada ao lado da árvore da sabedoria,
incitava Eva a provar do fruto proibido:
come, come danada e enxerga o mundo.
A rosa ela despreza, ao cravo ignora,
é amiga do joio, mas, o bambú ela adora.
A Hortência é assim, excêntrica,
cheia de vontades e manias.
Decifra-a se fores capaz!
Erisíchton, um mito contemporâneo ( A fome vêm aí...)
Ovos recolhidos para alimentar restaurantes finos
Erisíchton era um homem grosseiro, que desprezava os deuses (existem muitos assim na contemporaneidade). Certa ocasião, resolveu profanar com o machado um bosque consagrado a Ceres (Ceres é a deusa dos cereais, da abundância e da fartura). Ali erguia-se venerável carvalho, tão grande que ele sozinho dava a impressão de uma floresta inteira. Em seu velho tronco, que dominava as outras árvores, freqüentemente eram colocadas guirlandas votivas e entalhadas inscrições manifestando gratidão à ninfa da árvore. Muitas vezes tinham as dríades dançado de mãos dadas em torno do carvalho. Seu tronco media quinze côvados de circunferência e sobrepujava as outras árvores como estas sobrepujavam os arbustos.
Erisíchton, contudo, não viu motivos para poupá-lo e ordenou a seus servos que o cortassem. Ao vê-los hesitantes, arrebatou o machado das mãos de um deles e exclamou, impiedosamente: - Não quero saber se esta árvore é ou não amada pela deusa. Fosse ela a própria deusa e eu a abateria se se interpusesse em meu caminho. Assim dizendo, ergueu o machado e o carvalho estremeceu e deu um gemido (as árvores são seres vivos, elas sentem dor, medo, angústia, e só não ouvimos sua voz porque fomos ensurdecidos pela ignorância). Quando a primeira machadada o atingiu, o tronco começou a deitar sangue pela ferida. Todos os circunstantes ficaram horrorizados e um deles aventurou-se a censurar e segurar o machado fatal. Com um olhar de desprezo Erisíchton disse-lhe: - Recebe a recompensa de tua piedade! E voltou contra ele a arma que afastara da árvore, crivou-lhe o corpo de ferimentos e cortou-lhe a cabeça. Do meio do carvalho, veio então uma voz: - Eu que moro nesta árvore sou uma ninfa amada de Ceres e, morrendo por tuas mãos, predigo que o castigo te aguarda. (Juro pra vocês que nessa parte eu tremi, pois o Erisichton somos todos nós, e essa praga nos persegue!!!!) Erisíchton não desistiu de seu crime e afinal a árvore, atingida por repetidos golpes e puxada por cordas, caiu com estrondo e esmagou sob o seu peso grande parte do bosque. As dríades, muito tristes com a morte de sua companheira e sentindo ultrajado o orgulho da floresta, dirigiram-se a Ceres, vestidas de luto e pediram que Erisíchton fosse castigado. A deusa acedeu ao pedido e, ao curvar a cabeça, também se inclinaram todas as espigas maduras para a colheita. Imaginou um castigo tão cruel que despertaria piedade, se acaso tal malvado merecesse piedade: ENTREGÁ-LO À FOME. Como a própria Ceres não podia aproximar-se da Fome, pois as Parcas haviam ordenado que essas duas deusas jamais se encontrassem, chamou uma Oréade da montanha e assim lhe falou: - Há, na parte mais longínqua da gelada Cítia, uma região triste e estéril, sem árvores e sem campos cultivados. Ali moram o Frio, o Medo, o Tremor e a Fome. Vai àquela região e dize à última para tomar posse das entranhas de Erisíchton. Que a abundância não a vença, nem o poder de meus dons a afaste. Não te assustes com a distância - (pois a Fome mora muito longe de Ceres) -, mas toma meu carro; os dragões estão atrelados e são obedientes, e levar-te-ão através dos ares, em pouco tempo. Assim, a ninfa partiu e em breve atingiu a Cítia. Chegando ao Monte Cáucaso, parou os dragões e encontrou a Fome num campo pedregoso, arrancando a escassa erva com os dentes e as garras. Tinha os cabelos hirsutos, os olhos fundos, as faces pálidas, os lábios descorados, a boca coberta de poeira e a pele distendida, mostrando todos os ossos. Olhando-a de longe (pois não se atrevia a aproximar-se), a Oréade transmitiu as ordens de Ceres. E embora se tivesse detido o menor tempo possível e se mantido à maior distância que pôde, começou a sentir fome, e voltou à Tessália. A Fome obedeceu às ordens de Ceres e, avançando velozmente pelos ares até à morada de Erisíchton, entrou no quarto do criminoso, que encontrou adormecido. Envolveu-o com suas asas e penetrou ela própria pela sua respiração, destilando veneno por suas veias. Tendo executado sua missão, apressou-se em deixar a terra da fartura e voltou à sua costumeira desolação. Erisíchton ainda dormia, e em seus sonhos, ansiava por alimentos e movia a mandíbula, como se estivesse comendo. Ao acordar, a fome o devorava. A todo momento queria ter diante de si iguarias de qualquer espécie que produzissem a terra, o mar ou o ar, e queixava-se de fome, mesmo enquanto comia (esse episódio me lembra os infelizes que comem tudo e nada lhes sacia: não basta comer o boi, o frango, o coelho, comem os animais silvestres, alimentam uma indústria criminosa que dizima com as florestas, aniquilam com os mares e os rios, basta atententarmos para o fato de que 90% dos grandes peixes do oceano foram extintos, e muitos estão em via de extinção, como por exemplo, o atum e o cação). Não lhe era suficiente o que teria sido bastante para uma cidade ou uma nação.(Não é este o consumismo marca do nosso tempo?) Quanto mais comia, maior era sua fome. Era uma fome semelhante ao mar, que recebe todos os rios e, no entanto, não se enche, ou como o fogo que consome todo o combustível que tem junto de si e continua pronto a destruir outros. Seus bens diminuíram rapidamente em face das incessantes exigências de seu apetite, mas a fome continuava insaciada. Afinal gastou tudo o que tinha e restou-lhe apenas uma filha, uma filha que merecia um pai melhor. Vendeu-a também. [...] Afinal, a fome o obrigou a devorar seus próprios membros e procurou destruir o corpo para alimentar esse mesmo corpo, até que a morte o libertou da vingança de Ceres."
Texto retirado do Livro de Ouro da Mitologia.
05/06/2010
Dom Casmurro e a personagem do romance
Renata Bomfim
Dom Casmurro é um dos romances mais conhecidos de Machado de Assís e foi publicado em 1899. O cenário é um Brasil escravagista, clerical, em processo de laicização, os personagens são ambíguos membros de uma sociedade estamental e falocrata. Dentre os muitos personagens presentes em Dom Casmurro lançaremos o olhar sobre Dom Casmurro, que na infância se chamava Bentinho e na vida adulta Bento Santiago. O pensador Mikail Bakhtin desveveu as especificidades dos personagens do romance, a partir das pesquisas que fez dos personagens da obra de Distoiévisk. Para Bakitin, a personagem interessa como um ponto de vista específico sobre o mundo e sobre si mesma, e não dotada de traços típicos sociais. A partir deste olhar toda a característica da personagem dá forma a sua autoconciencia e o autor reserva a personagem a última palavra. No livro Estética da criação verbal, Bakhtin fala sobre o romance biográfico, e que este "nunca existiu de forma pura". Toda construção biográfica é construída com a enumeração de vitórias e fracassos e possui elementos basilares: nascimento, infância, aprendizagem, casamento, afazeres, morte, etc. No romance biográfico os instantes, o dia, a noite, perdem o significado e a construção da personagem culmina para o desaparecimento da heroificação. Em Dom Casmurro o narrador, em primeira pessoa, é Dom Casmurro, um advogado viúvo que julga, cheio de ressentimento, pelo viés da memória, fatos que deseja destacar do passado. O texto é um convite ao leitor, que aos moldes de um juri, é levados a acreditar que sua história é verdadeira e que Capitu, a esposa falecida, é adúltera. Esta é a estratégia da narrativa que busca, através de um discurso pretensamente verossímil, provar a traição da esposa Capitu com seu melhor amigo, Escobar: "Capitu era a fruta dentro do caroço", uma tese que antes de ser estética é moral. Na narrativa, Machado não descuida dos detalhes e detém o controle da obra. O leitor não se deve deixar iludir com a manupulação narrativa, é um jogo metalinguistico entre narrador e leitor. No capitulo I do romance o termo "dom" é utilizado para dar ao personagem ares de fidalguia, o que reforça o seu discurso autoritário. "Casmurro" quer dizer teimoso, ensimesmado, fechado em si mesmo. Em A personagem do romance, Antônio Cândido destaca que a personagem não é o essencial do romance, e sim o seu suporte, o contexto, juntamente com o enredo, o que lhe confere significado. Silviano Santiago afirma que tanto críticos quanto leitores se debruçaram na busca da verdade sobre Capitu, enquanto a única verdade a ser buscada era a de Dom Casmurro. Este pensador destaca que, antes de tudo, o romance machadiano é ético, e pede , ou melhor, exige do autor reflexão e distanciamento dos personagens e/ou narrador , a mesma distância que precisa ser guardada pelo escritor. A questão dos personagens em Dom Casmurro refletem , não só, as problemáticas do amor, do casamento, do ciúmes, etc., mas as dificuldades de se viver numa sociedade asfixiante de fim de século. O advogado-narrador, Dom Casmurro, sabe de antemão que está conduzindo o leitor, por meio do discurso verossimel, ao resultado que ele ambiciona. Ele estrutura os fatos à sua maneira, apresentando-os do seu jeito, utiliza o que sabia de Capitu na infância para deduxir sobre a Capitu adulta: "a fruta dentro da casca". Helen Cadwel destaca que o personagem de Dom Casmurro gasta dois terços da narrativa descrevendo suas impressões sobre Capitu na infância e um terço sobre a Capitu adulta. Esta estudiosa destaca a sagacidade com que Machado estrutura os personagens dos romances, a noção preconceituosa de que um adulto já está contido dentro de uma criança, provaria a tese de Dom Casmurro. Um outro argumento do narrador é de que o filho se parece com Escobar, suposto amante de Capitu. Dom Casmurro persuade o leitor, este convencimento, não objetiva levar o leitor à reflexão, mas que conclua, logo, de acordo com sua vontade, seguindo o status quo. Dom Casmurro isenta-se da responsabilidade pelo que diz, se colocando como vítima na narrativa. O discurso ordenado e lógico é a ferramenta utilizada por Dom Casmurro para dar conta de sua angústia existencial, depois de persuadir a si mesmo, quer fazê-lo também com os outros. Para Santiago, Machado põe em evidência, com Dom Casmurro, dois equívocos da cultura brasileira , o primeiro é o de sempre viver sob a proteção dos bacharéis e o segundo, sob o beneplácido moral dos jesuítas.
bairenatabomfim
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