13/09/2010

A literatura portuguesa em foco: Entrevista com a profª Drª Ana Luisa Vilela/ Évora-Portugal

Amigos, realizei esta entrevista com a profª Drª Ana Luisa Vilela, do Departamento de Linguistica e Literatura da Universidade de Évora/ Portugal. Deixo registrado o meu agradecimento a Ana Luisa pela  prontidão com que aceitou o meu convite e pela gentileza que permeou todo o processo.

1- Como a Sra. avalia o cenário e perspectivas do ensino de literatura (mestrado e doutorado) em Portugal?

Estou sinceramente animada, Renata: há muita gente apaixonada por Literatura, com vontade de a estudar mais profundamente, de ler mais e melhor. Muitos dos alunos de mestrado são professores de Português do ensino secundário (no Brasil, ensino médio); mas outros vêm de outras áreas, talvez procurando na Literatura um complemento da sua formação, um domínio que lhes falta… Nas universidades públicas portuguesas, os cursos de mestrado são em maior número, já, do que os cursos de licenciatura! Por um lado, não são excessivamente caros, nem longos. Por outro lado, como as licenciaturas em Portugal, conformes à célebre “Declaração de Bolonha”, são agora todas de 3 anos (e não de 4 ou 5 anos, como eram dantes), os mestrados vulgarizaram-se. E como o desemprego também grassa por aqui, continuar os estudos é uma opção de cada vez mais recém-licenciados… O número de inscrições em cursos de doutoramento também tem, evidentemente, aumentado. Mas ainda é substancialmente menor do que o dos mestrados.

2- Quais as linhas de pesquisa que tem se destacado e quais os diálogos que os estudos literários tem ensaiado e/ou consolidado com outros campos do saber?

É engraçado você perguntar-me isso, Renata, justamente quando acabo de chegar de um congresso de da Associação Internacional de Literatura Comparada (em Seul, na Coreia do Sul), que teve como tema “Expandindo as fronteiras da Literatura Comparada”!... A LC sempre foi provavelmente o campo mais vasto e mais deliberadamente interdisciplinar dos estudos literários. Imagine quando se pede a investigadores de todo o mundo que reflitam sobre como “expandir” esses limites tão amplos e tão flexíveis!...
Bem, a nível global, teremos mesmo de apontar a inevitável miscigenação (ou fertilização) da Literatura com os Estudos Culturais, os estudos sobre literaturas ditas “minoritárias”, os Estudos de Tradução; em complemento à globalização, ganham preponderância a redescoberta e a revalorização das culturas e literturas dos países emergentes, assim como as das questões ambientais, da Natureza e da tecnologia, da raça, género, etnia, cultura, identidade e alteridade, ideologia, ensino, religião, conflitos e sua mediação… Cruzemos ainda a velhinha noção de Literatura com a chamada “Idade Hipertextual” – e temos um quadro estonteante de perspetivas e diálogos!


3- A Sra é pesquisadora da poesia dos séculos XIX, XX e da poesia contemporânea. Quais poetas a Sra destacaria em cada um destes períodos e por quê?

Os maiores, canónicos e mais justamente lidos: Cesário Verde, Camilo Pessanha, António Nobre, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa.
Os que merecem ser mais lidos: João de Deus, António Feijó, Gonçalves Crespo, Eugénio de Castro, José Régio, Albano Martins.

4- Quais aspectos da obra de Eça de Queiroz estão sendo pesquisados pela Sra?

Bem, ando às voltas com a edição crítica d’O Mistério da Estrada de Sintra. Recentemente, tive de estudar mais a sério a vertente “político-ideológica” do Eça e fiquei assombrada. Mas aquilo que mais me atrai, ainda, e sempre, é a forma misteriosa como Eça representa e como magicamente provoca no leitor a sensação “física” do real: a hipotipose. Palavra estranha (parece nome de doença!) mas que designa uma coisa que todo o leitor do Eça reconhece nos seus textos – a impressão que eles dão de serem “realidade viva”. Esse é para mim o mais fascinante traço da escrita queirosiana.

5- Como a Sra avalia a recepção da obra de Florbela Espanca hoje, e o que destacaria como sendo seu legado à poesia produzida por poetas que a sucederam?

A recepção de Florbela é um grande desafio para a crítica académica: continua pujante; é impossível ignorá-la; Florbela é uma escritora hiperpopular; mesmo que o público nada mais conheça dela, conhece-lhe o nome, a pose, a lenda. Essa popularidade de “star” terá feito dela, postumamente, um poeta “de massas”. Irá essa popularidade canonizá-la? Não sei. Sei que ela talvez exija que Florbela ocupe um lugar maior no cânone – mesmo concedido de má vontade, com escrúpulos académicos e teóricos, com dúvidas, com desconforto…
É difícil avaliar o “legado” de Florbela: ela não terá sido propriamente uma precursora, sobretudo a nível técnico-formal. Tematicamente, inovou, sim: com o seu pendor narcísico, um erotismo por vezes escancarado e vulcânico, por vezes místico e sublimado, uma sentimentalidade torrencial, um culto do excesso. Quem “influenciou”? Diria que nenhum autor; mas todos os leitores, sim. Todos aqueles que a leram aos quinze anos. A energia terrível da adolescência está lá toda, nos versos dela, e nós amamo-la por isso. Nunca nos “curamos” de Florbela: ela é, exatamente, incurável. Como nós.


6- Professora, no Brasil, imagino que também em Portugal, existe uma profusão de estudos acerca da obra de poetas como Fernando Pessoa, Camões, Saramago, Eça de Queiroz, escritores estabelecidos pelo cânone. Em sua opinião há ainda algum escritor dos séculos XIX e/ou XX que tenha sua obra pouco estudada e mereça maior atenção por parte dos pesquisadores?

Renata, não é fácil escolher, porque, feliz ou infelizmente, há muitos bons escritores que valeria a pena estudar mais. Mas mesmo assim arrisco dois nomes (além do de Florbela!) – e um é do século XVIII, desculpe:
- Matias Aires (1705-1763), aliás luso-brasileiro, ensaísta brilhante e teorizador sobre a vaidade, as mulheres e o amor;
- e Raul de Carvalho (1920-1984), poeta alentejano que eu, ignorante, só descobri há pouco tempo, e na obra do qual - em versos por vezes fulgurantes, por vezes banais – há uma quase sempre uma poderosa “energia expressiva”, parecida até certo ponto com a da também alentejana Florbela.



ANA LUÍSA VILELA
Professora de Literatura Portuguesa na Universidade de Évora. Ensina e investiga nos domínios da Literatura Portuguesa dos séculos XIX e XX (sobretudo Eça de Queirós, Florbela, Torga, Sophia, Agustina) e da Literatura Comparada (Literatura e Arte, Imagologia e Estudos sobre o Imaginário).

O pisca-pisca e o ensino da Literatura Portuguesa na Universidade de Varsóvia

«O drama a é a espressão literária mais verdadeira do estado da sociedade.» Almeida Garrett, Memória ao Conservatório Real (1843)

A prática (no sentido primordial do termo) da Literatura Portuguesa no Instituto de Estudos Ibéricos e Iberoamericanos da Universidade de Varsóvia e no seu Departamento Luso-Brasileiro criado em 1977 solidifica-se na actividade do pisca-pisca, i. e., do Grupo de Teatro Português da Universidade de Varsóvia (GTP UV; http://iberystyka-uw.home.pl/content/view/160/93/lang,pt/) e na modernização de textos literários. Este grupo de teatro universitário foi fundado no ano lectivo de 1997/98 e tem servido, até hoje, no apoio à aprendizagem de Português Língua Estrangeira. A Literatura Portuguesa continua a ter, também, a sua presença muito bem marcada no pisca-pisca. Por exemplo, no ano lectivo 2001-2002 encenou-se uma comédia romântica A Farsa de Sónia Pereira, baseada na Farsa de Inês Pereira de Gil Vicente. No cartaz do GTP UV, apareceram, entre outros: O Auto da Barca do Inferno e o Auto da Índia do Mestre Gil, Uma História Sem Camisa de A. Pires Cabral, Antes de Começar de Almada-Negreiros, uma adaptação do folhetim Maria! Não me mates que sou tua mãe! de Camilo Castelo Branco, e, na época de Junho – Dezembro de 2007 um Sorteio da Literatura Portuguesa, uma graciosa revista dos maiores mestres da mesma, desde D. Dinis até Fernando Pessoa cujos heterónimos passaram a jogar a bola no desfecho da última cena. Sem postergar Os Filhos do Facebook, uma última produção teatral nossa de livre invenção, realizada em Junho de 2010. Optou-se, destarte, pela continuação da encenação de comédias sendo assegurada, a excelente reacção do público. E pela mais engenhosa combinação do ensino e da prática da Literatura Portuguesa. Deixámos de reflectir sombras do talento literário lusitano numa caverna universitária, mas sim – esperemos que sim – contribuimos para a posterioridade engenhosa pela e com a Língua e Literatura Portuguesas na Polónia. O resultado esperado deste processo será, no nosso entender, um estudante adulto polaco, falante de Português (na versão continental ou brasileira) e leitor activo da Literatura Portuguesa, capaz de analisar obras de autores lusófonos (também no palco), traduzi-las para polaco e enquadrá-las no horizonte dos seus conhecimentos de cultura.


Acreditamos, pois, que «o drama é a expressão literária mais verdadeira do estado da sociedade; a sociedade de hoje ainda se não sabe o que é, o drama ainda se não sabe o que é: a literatura actual é a palavra, é o verbo, ainda balbuciante, de uma sociedade indefinida, e contudo já influi sobre ela; é, como disse, a sua espressão, mas reflecte a modificar os pensamentos que a produziram», citando as imortais palavras de Almeida Garrett da Memória ao Conservatório Real (lida em 6 de Maio de 1843), a despeito de uma opinião alheia que possa afirmar injustamente que «na Polónia nunca chegou a haver teatro português» (para parafrasear as palavras iniciais da Introdução a Um Auto de Gil Vicente do mesmo autor). Chegou, sim, e o pisca-pisca, o grupo de teatro português na universidade de Varsóvia continua a retratar os interesses, as veleidades e as obsessões da comunidade estudantil lusofalante, cada vez mais numerosa na Polónia. Sem exageros, podemos concluir que o drama português é a expressão mais verdadeira do estado da sociedade estudantil na Polónia; a sociedade que hoje sabe cada vez melhor o que é! E assim tem que ser, e assim será. Levante-se o pano.

Grupo de teatro Pisca-pisca

Anna KALEWSKA é Professora Associada do Instituto de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos da Universidade de Varsóvia, Polónia, “doutora de segundo grau (dr. hab.)”, segundo o estatuto da carreira docente polaco. É investigadora quer no âmbito da cultura lusófona, da literatura e do teatro de expressão portuguesas, quer no âmbito da literatura comparada. Publicou dois livros, Camões, czyli tryumf epiki (Camões, ou o triunfo da épica), 1999, e Baltasar Dias e as metamorfoses do discurso dramatúrgico em Portugal e nas Ilhas de S. Tomé e Príncipe. Ensaio histórico-literário e antropológico, 2005, ambos na Editora da Universidade de Varsóvia. Traduziu, entre outros, As Naus de António Lobo Antunes, Editora WAB, Varsóvia 2002. Estudou em Portugal com bolsas do Instituto Camões e da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa. Participou em colóquios e congressos nacionais e internacionais. É vogal da Associação Internacional de Lusitanistas (A.I.L) e membro da CompaRes – Associação Internacional de Estudos Ibero-Eslavos em Lisboa. Publicou mais do que uma centena de artigos e trabalhos de investigação e de inspiração literárias, em polaco e em português, em revistas polacas, portuguesas (Diacrítica, Braga; Revista de Letras, UTAD), brasileiras (Projeções, Curitiba) e na Revista da A. I. L. VEREDAS. Vive em Varsóvia.
Quero agradecer A professora Anna por compartilhar conosco esta experiência e ao amigo Fábio Mário,  correspondente especial do Letra e Fel em Portugal.

IV Encuentro de la Hispanidad: trans-acciones interculturales

Olá amigos, segue informativo acerca do  IV Encuentro de la Hispanidad: trans-acciones interculturales, que se realizará de 07 a 11 de junho de 2011 na UFRR.
Chamada para trabalhos: a primeira circular com chamada de trabalhos de docentes (mesas e minicursos), com prazo de até 08 de novembro de 2010.  O evento tem como objetivo promover a interação e o diálogo entre estudiosos e pesquisadores brasileiros e hispânicos da área de letras hispânicas e demais áreas das ciências sociais e humanas que tenham em comum os estudos da língua, literatura, arte, cultura, antropologia, ciências sociais, geografia, relações internacionais e história dos países hispânicos em suas pesquisas e atividades acadêmicas. Os trabalhos deverão versar sobre estudos hispânicos, podendo ser apresentados em espanhol ou em português, e se filiar a um dos eixos temáticos abaixo:
· Trans-ações linguísticas;
· Trans-ações literárias;
· Trans-ações históricas;
· Trans-ações sociais;
· Trans-ações internacionais;
. Trans-ações teóricas.
O publico alvo da primeira circular é:
· Proponentes (professores e pesquisadores) dedicados aos estudos hispânicos com trabalhos concluídos ou em andamento voltados aos diálogos interculturais.
· Proponentes (professores e pesquisadores) dedicados aos estudos de língua portuguesa como língua estrangeira para nativos de língua espanhola com trabalhos concluídos ou em andamento voltados aos diálogos interculturais.As inscrições deverao ser feitas diretamente com um dos membros da comissao citados abaixo:
Tatiana Capaverde - hispanidadufrr@gmail.com 
Evodia Braz – evodia.braz@yahoo.es 

11/09/2010

O canto da harpia

Cansei de ser sereia.
Cortei os cabelos,
As unhas cresceram.
No lugar das escamas,
indecentes e fortes plumas,
em tons de branco e cinza.
No alto da cabeça,
a crista erotizada,
eriça ao menor ruído.
Abro imensas asas,
Solto um grito.
Os olhos, de repente,
enxergam além.
Cansei de afogar marinheiros,
de cantar para a morte
dos despenhadeiros
e das rochas frias.
Assim como um bebê
saído do ventre,
saúdo a vida.
Mergulho fundo
no azul salpicado de lilases
do fim do dia e,
renasço de manhãzinha,
embriagada pelo amarelo
Ouro
desse universo
selvagemente novo.

renatabomfim

10/09/2010

Despertar

Desperta!
Acorda pleno e olha,
És imagem:
Traços, cores, texturas,
Contornos espetaculares.
Tua tribo anseia e canta,
Nasce a música
Brota a dança
Coreografia de milhares.

O alimento é comum:
Miséria, angústia, esperança...
Desperta!
Acorda pleno e sente
És letra!
Símbolos e marcas
Adornam teu corpus,
te abençoam com a imortalidade.
Recorda teu sonho, mito:
Astros em conjunção,
Rituais de vida e de morte.
Pariste fantasia!
A alma existe?

Desperta e ama o saber: filosofia!
Desperta tudo o que dormita:
Emoção, mímica, interjeição...
Transita no rítmo
Explode e goza num grito
Poesia!

renatabomfim

08/09/2010

Vampiro vegano

Vou ceder aos vampiros
quem sabe assim
vendo algum livro.
Mas imagino uma
entidade diferente:
com sangue quente,
roupas brancas,
resplandescentes,
olhar de cigano.
Amigo das pessoas,
Não cospe na cruz,
Aprecia alho.
Um vampiro vegano!
Ele será o terror dos feirantes e,
na calada da noite,
invadirá quitandas e hortifrutis
em busca de clorofila.
Preferirá os orgânicos
e os sem conservantes.
Sugalos-á com prazer e
sem compaixão,
até que restem somente as fibras.
Esta dieta será o segredo
de seu poder e eternidade.
Nada será mais assutador
e nem mais bizarro
que um vampiro sarado e
com baixo colesteról.

renatabomfim

07/09/2010

Posse na Academia Espírito-Santense de Letras e Palestra na Biblioteca Pública Estadual

A Academia Feminina Espírito-Santense de Letras promove no dia 14 de setembro, na Biblioteca Pública Estadual, na Praia do Suá, às 16 horas, uma palestra com a a Profa. Me. Vanda Luíza de Souza Neto, cujo tema é “Lídia Bessouchet, a embaixadora das artes”.

No dia 16 de setembro, às 19 horas, no auditório da Aliança Francesa de Vitória, Anaximandro Oliveira Santos Amorim tomará posse na cadeira 40 da Academia Espírito-Santense de Letras.  Na ocasião será lançado o livro "A História de um Sobrevivente", quarto na carreira do escritor. Estão todos convidados.

04/09/2010

Renascimento

Cante sobre meus ossos
para que eu reviva.
Empreste-me a tua carne.
Deixe que eu renasça
de tuas entranhas.
Estranha
até mesmo para mim.

Plena.
Conjugada.
Assim misturada
serei o fruto do teu amor

Cante sobre meus ossos
para que todos os ciclos se fechem
e os astros se alinhem.
Banhe com tuas lágrimas
o meu esboço.

Serei argila,
América indígena,
Pedra,
Árvore,
Fonte.
Fera indomável.

Não me possua e nem me cultive.
Deixe-me assim.
Te acolherei amorosamente
Livre.

renatabomfim

03/09/2010

O Mosteiro Zen Morro da Vargem (Ibiraçu/ES) e o programa COMPAZ

Resumo: Mediante os altos índices de violência no Brasil torna-se imperativo que as polícias estejam preparadas para interagir com a sociedade e combater o crime e a violência. A capacitação do policial militar precisa focar a importância da reconstrução dos espaços públicos o que, segundo Bauman (2007), “exige a construção e reconstrução de vínculos pessoais”. A vivência socioambiental de arteterapia integrou o Programa de Educação ambiental do Mosteiro Zen Morro da Vargem denominado COMPAZ: A ética Policial e a Vivência socioambiental com este intuito, conscientizar da importância do diálogo, e da ética para a construção de uma sociedade mais pacifica e sustentável. O COMPAZ/ 2008 foi realizado com alunos soldados da Polícia Militar do Espírito Santo no decorrer dos meses de abril e maio de 2008 e atendeu a 310 alunos soldados tendo também a participação de 6 sargentos e 2 soldados da PM/ES, em 2009 o programa atendeu à equipe da Polícia Militar ambiental do ES, em torno de cento e sessenta e cinco policiais e comando e em 2010 a outra equipe da Policia Militar ambiental. Este trabalho busca mapear a vivência socioambiental de arteterapia desde sua elaboração e desenvolvimento até aos resultados alcançados. Dentro da proposta do COMPAZ/ 2008, buscou-se construir, tendo como aporte teórico a Carta da Terra, uma atividade teórico-prática-reflexiva de sensibilização para as questões socioambientais, buscando despertar para a importância da responsabilidade de cada um para consigo e com o outro, considerando este outro (incluindo a natureza) um ser da alteridade.

O Mosteiro Zen Morro da Vargem- Ibiraçu/ ES

O Mosteiro Zen Morro da Vargem está localizado em Ibiraçu, região norte do Espírito Santo. Único mosteiro budista da América Latina, o Mosteiro Zen Morro da Vargem, compreende um complexo de 150 hectares de Mata Atlântica recuperada, que é resultado de anos de trabalho contra a degradação deixada pelo plantio desordenado de lavouras de café. Em 34 anos de existência esta instituição religiosa traçou um percurso de trabalho marcado pelo comprometimento com as questões socioambientais, com ações sempre pautadas na sustentabilidade, sem perder de vista a missão religiosa que desempenha como pólo de formação monástica e de práticas leigas do budismo soto zen e transformou-se em uma área de relevante interesse ecológico e pólo de educação ambiental da Mata Atlântica.
O reconhecimento pelos trabalhos realizados no campo ambiental rendeu ao Mosteiro Zen Morro da Vargem, por parte do Ministério do Meio Ambiente brasileiro, um lugar entre as cem experiências brasileiras mais bem sucedidas em desenvolvimento sustentável, e títulos como: Posto Avançado da Biosfera, pela UNESCO, e o Prêmio Muriqui, um dos mais importantes da área de conservação do meio ambiente, concedido pelo Conselho Nacional da Reserva Biosfera em 2002.
A educação ambiental com foco na sustentabilidade foi um compromisso assumido pelo Mosteiro Zen Morro da Vargem. O pensador Edgar Morin (2002), preconizou que o reconhecimento e a valorização da multidimensionalidade e complexidade humana e a compreensão de que somos ao mesmo tempo, seres terrestres e cósmicos é um caminho para sairmos da lógica que gerou a crise socioambiental que conhecemos. O mosteiro privilegia olhar para o mundo a partir de uma perspectiva planetária, que pressupõe a inclusão social, não fazendo distinção de raça, cor, credo, etc., e foi buscar parcerias para fomentar o diálogo na busca de soluções e implementação das mudanças que o momento exige.
A parceira com instituições públicas e privadas fortaleceu as ações de recuperação da Mata atlântica degradada que vinham sendo realizadas pelo mosteiro Zen. Era hora de dar um passo a frente na ampliação do diálogo e das ações, e o Mosteiro Zen Morro da Vargem abriu as suas portas à comunidade, disponibilizando os espaços físicos à visitação, oferecendo aos cidadãos atividades culturais, palestras, trilhas ecológicos orientadas, como, a possibilidade destes participarem de variados programas como: cursos gratuitos sobre qualidade de vida e desenvolvimento sustentável oferecidos a agricultores, cursos para professores da rede pública e lideranças comunitárias. O mosteiro também abriu as portas para grupos da terceira idade, de artistas e pessoas que quisessem conhecer o espaço e passar o dia em meio à natureza. Pesquisas indicam que cerca de 30 mil visitantes passam pelo Mosteiro Zen Morro da vargem por ano.

O Programa COMPAZ

O Programa COMPAZ: A ética policial e a vivência socioambiental, pode-se dizer que é “a menina dos olhos do mosteiro”. Um dos programas que vem ao longo dos anos se consolidando e mostrando sua extemporaneidade por acreditar e investir na educação transdisciplinar policiais militares do Espírito Santo. Este Programa surgiu em 1996 objetivando propiciar aos policiais militares, vivências de sensibilização para questões ambientais tendo como aporte, a filosofia oriental.
Em 2005, um Protocolo de Intenções celebrado entre o Mosteiro Zen Morro da Vargem, o Instituto Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (IEMA), a Polícia Militar do Espírito Santo e o Instituto Aracruz, criou uma rede de cooperação que deu novo fôlego ao programa e novos parceiros foram chegando e trazendo consigo contribuições que foram moldando o COMPAZ e transformando-o em um programa diverso e eficaz. Em 2008, o Mosteiro Zen Morro da Vargem, através de seu pólo ambiental, realizou o COMPAZ: A ética Policial e a vivência socioambiental, em parceria com a Escola de Serviços Públicos do Espírito Santo/ ESESP, bem como, a vice-governadoria do Estado do Espírito Santo e com o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos/ IEMA.
O Programa COMPAZ tem por princípio a neutralidade religiosa, o que garante a cada aluno soldado, o respeito para com o seu credo. O mosteiro, segundo as palavras do Abade Daijú, “se orgulha de ser a única instituição religiosa que nunca converteu ninguém”, essa fala corrobora o respeito dessa instituição para com a multiplicidade e a valorização do espírito ecumênico. Nesse Programa os alunos soldados ficam três dias imersos na rotina do Mosteiro, participando de atividades específicas da tradição oriental como a cerimônia do chá, e em contato direto com a natureza, além de participarem de uma programação que conta com trabalhos de sensibilização e educação ambiental e palestras sobre ética, direitos humanos, cultura policial, visão holística de meio ambiente e sustentabilidade.
( texto produzido por mim)

www.mosteirozen.com.br

02/09/2010

Artífice das palavras: um olhar sobre Dédalo, de Miguél Marvilla

Artigo apresentado no seminário Bravos Companheiros e Fantasmas 2010 . Autora: Renata Bomfim- doutoranda- Ufes/FAPES

“Eu encontro a mim mesmo na voz inquieto-emocionada do outro, encarno-me na voz cantante do outro, encontro nela um enfoque autorizado de minha própria emoção interior, pelos lábios de uma possível alma amorosa eu canto a mim mesmo (BAKHTIN, 2003, p. 156).


XXXEm meados de 2009 passei a freqüentar a casa de Miguel Marvilla para acompanhar, por sugestão do mesmo, a revisão e a editoração do meu primeiro livro de poemas. Buscando o editor encontrei o poeta. Na última vez que estive com o novo amigo pedi que autografasse para mim um exemplar de, Dédalo, ele riu e escreveu: “À Renata, com carinho, do amigo e (futuro) editor”. Não houve tempo de Miguel finalizar a revisão do livro, mas, desde que tive contato com sua poesia, especialmente em Dédalo, passei a integrar o grupo de admiradores e leitores de sua obra.
XXXMiguel Marvilla é filho da chamada “geração marginal”, ele despontou no início da década de 80, seguindo o fluxo da produção artesanal em mimeógrafos e xérox, cuja distribuição era ignorada pelo mercado editorial, como nos faz saber Joana d’Arc Herkenhoff (2001), sua biógrafa. Esta produção tem como marca a postura de protesto contra os cânones e a tradição, mas, de certa forma, Miguel representou um desvio frente a esta estética, revelando inclinação para o verso cinzelado e de forte apuro formal.
XXXAnalisar alguns aspectos da obra Dédalo implica adentrar “os labirintos do idioma”, “monumentos diversos”, habilmente estruturados pelo poeta, utilizando “verso em cima de verso” (MARVILLA, 1996. p. 105). Dédalo veio a lúmen no dia 28 de novembro de 1996, com tiragem de mil exemplares. A obra foi patrocinada pela Lei Rubem Braga e pela empresa mineradora Vale do Rio Doce. O ano de 1996 foi profícuo para o poeta, pois, além de Dédalo, ele publicou o livro Sonetos de Despaixão, que marcou a inauguração de sua editora, a Florecultura , bem como, assumiu a edição da Revista Você, da Secretaria de Produção e Difusão Cultural da Ufes.
XXXDédalo possui 120 páginas, a obra está dividida em duas partes, a primeira intitula-se Personae e a segunda, Fons amoris, cada uma delas formada por dezoito poemas. Herkenhoff (2001, p. 25), destaca que é em Dédalo que “o jogo intertextual”, uma marca da escrita de Marvilliana, alcança um “alto grau de refinamento”, nela, “o poeta se apodera do estilo de outros poetas, incorporando-o à sua escritura”.
XXX“Eu me fiz ao léu,/ Sem sombras ou chapéu” (MARVILLA, 1996, p. 15). Este fragmento de poema nos remete à questão da nascente poética de Miguel Marvilla. Na revista Você (1997, p. 19), com uma auto-ironia que lhe era peculiar, o poeta escreveu: “Onde é que entra a tão ansiosa parte da construção do poeta?”, e responde: “aí é que está. Não entra. Deixo isso aos meus biógrafos, se houverem. Tomara que nenhum deles me pegue vivo”. Mas na mesma reportagem podemos vislumbrar um pouco de suas leituras e do impacto destas sobre o mesmo:
XXXAntes de desaguar, impávido colosso, nos braços de Shakespeare, Bernard Shaw e Joyce (No original! No original! ─ graças ao Mário); dos românticos ingleses (graças a Aurélia) e de Edward Albee, Arthur Miller e Tenessee Williams (graças ao Carrozzo), pois, antes disso, eu já estava impregnado de Umberto Eco, Fernando Pessoa, Camões, Günter Grass, Machado de Assis, José J. Veiga, Drummond, Gilberto Mendonça Teles (o poeta) e arredores.
XXXO poeta fala ainda de Brigitte Monfort, a “heroína formidável”, [...] filha de Gisele, a espiã nua que abalou Paris e instigou suas fantasias adolescentes, e da importância de ter lido, aos 14 anos de idade, a obra Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez.
XXXA literatura comparada esclarece que o poeta não é responsável, apenas, por mudar a direção, refratar ou contradizer a experiência, ele é capaz de suplantá-la ou mesmo substituí-la tanto na vida quanto na obra de arte, é dessa forma que o poema torna-se o resultado de um processo de suplantação da experiência. (COUTINHO, CARVALHAL, 1994, p. 162). Este pensamento está em consonância com o postulado bakhitiniano que afirma que “cada elemento de uma obra nos é dado na resposta que o autor lhe dá” (BAKHTIN, 2003, p.3). Podemos, dessa forma, conhecer algumas das vozes que compõem o coro da poética de Miguel Marvilla.
XXXA polifonia da obra de Marvilla pode ser observada, por exemplo, no diálogo estabelecido com o poeta português Fernando Pessoa, com o mito e com variadas formas poéticas (a quadra, o soneto, o verso livre) e nas suas labirínticas possibilidades de leitura: Em Dédalo o eu vivencia a esquizofrenia e a angústia contemporânea, errante, busca a si mesmo e encontra-se com o outro:

Assim estou, em um onde que não sei,
Atado, em frágil teia, ao voo sobre o canyon,
Uma parte de mim querendo a asa
E outra buscando o sol.



A qual dos meus destinos dou ouvidos?
A qual dou por vencido?
A qual me rendo?



Livrar-me de um quem sou, por um momento,
Pode apagar o risco
Da vingança de mim contra si mesmo.
Mas, no enfim, tudo me leva ao precipício.
(MARVILLA, 1996, p. 57).

XXXNesse poema intitulado Dédalo: asa ou sol, o eu poético, hábil artífice das palavras, se vê mortificado pela dúvida, mas sabe que o fim é certo, o precipício, a queda. Ora, nenhum indivíduo pode construir o mundo das significações dos sentido a partir do nada, de acordo com Zigmunt Bauman (1998), “caímos” em um mundo “pré-fabricado” que se prepara para uma vida sob condição permanente e irredutível de incerteza (BAUMAN, 1998, p. 32). Certo da queda o eu argumenta com seu “júri”, ou aqueles que lhe julgam, buscando absolvição. Cair faz parte d condição humana, afinal, ele é um criatura que está “a duas letras de Deus”:

Não tenho culpa de ser culpado por estar aqui
Quando tantos já morreram:
Sou inocente de carregar a história
De homens tão obstinadamente extintos:
Eu me defrontante comigo,
Vítima de que tudo era por minha causa
Com a alma pulverizada
Adiando o cansaço por pura preguiça;
Eu, outro amanhã que não o ontem adormecido;
eu,
eu,
eu,
a duas letras de Deus.
(MARVILLA, 1998, p. 25).

XXXEm Dédalo, podemos acompanhar a trajetória do eu poético, que experimenta diferentes máscaras. Seguindo seu destino (fado), ele “foi se construindo ao léu”, é “um desconhecido para o próprio umbigo”, fugindo em direção a si para, no outro dia, levanta-se outro, portanto, além da certeza da queda, há também a de que “tudo o que existe é errante”. A errância do eu poético pode ser acompanhada no decorrer de cada poema, ela engendra outro motivo mitológico, o da jornada interior, o da busca por adaptação, essa é uma experiência que reforça o eu poético, este nomadismo ou ‘não-lugar’ torna possível ao eu à ocupação de variados outros lugares e a experimentação:

Mas eu vim em direção a este outro futuro.
Eu fiz essa viagem inesperada no escuro,
Com não-malas,
Não-heranças,
Não-cartas de apresentação,
E um casaco apertado que mal me cobria os cotovelos.
Eu fugi em direção a mim, destino.
(MARVILLA, 1996, p. 23)

XXXEm entrevista ao Jornal A Gazeta (1996), o poeta disse que “Dédalo significa hoje o labirinto, o cruzamento confuso de caminhos”, e que “o livro trata justamente disso, da confusão do ser e do não ser”, mas o poeta adverte: “Dédalo está cheio de referências, imagens e metáforas”, caberá ao leitor “decifrar estes labirintos”.
XXXFernando Pessoa é considerado por Miguel Marvilla um “grande inspirador”, afinal, “ninguém melhor que ele fala dessa dicotomia”. Este poeta também recorreu à potência da linguagem poética na estruturação de sua obra. Carl Gustav Jung (1991) afirma na obra O espírito na arte e na ciência (1991), que a linguagem mitológica possui muita força e se caracteriza pela intensidade emocional. Quando ela aparece em uma obra de arte:


É como se cordas fossem tocadas em nós que nunca antes ressoaram, ou como se forças poderosas fossem desencadeadas de cuja existência nem desconfiávamos. [...] Em tais momentos não somos mais indivíduos, mas uma espécie; pois a voz de toda humanidade ressoa em nós.

XXXO mito de Dédalo é estruturador e bússola de leitura da obra em questão, nele encontram-se imbricados variados temas e sentidos que um artigo não daria conta de abordar ou elaborar. Dentre eles destacamos o ‘fingimento’, que pode ser entendido também como: mentira, artifício, armação, artificialidade, casca, simulacro, ficção. Este motivo permeia toda a obra e é outro tema que coloca Dédalo no centro dos estudos da pós-modernidade, onde o sujeito é mais performance que competência. Ora, de acordo com o mito grego, o labirinto foi a grande obra de Dédalo, artífice reconhecido por sua habilidade e criatividade.
XXXO labirinto foi construído a pedido do Rei Minos para abrigar o Minotauro. Escaparam dele apenas o próprio Dédalo, seguido por seu filho Ícaro, e o herói Teseu, este último, graças a um fio de lã que lhe foi dado por Ariadne, filha de Minos. Acredito que, o leitor que se habilita a percorrer os “labirintos da palavra” em Dédalo, necessita apegar-se a algum fio, para que não se perder nas múltiplas possibilidades de leitura, e aos perdidos, resta serem encontrados, nesse caso, por ninguém menos que o Minotauro.
XXXDa mesma forma como Ariadne ofereceu ao herói Teseu o fio que lhe conduziu á saída do labirinto, Marvilla oferece aos heróicos leitores, fios para que não se percam durante a leitura, são eles, as epígrafes. A primeira epígrafe é de James Joyce, autor da obra Ulisses , personagem que também foi castigada por Posseidon. O herói Ulisses foi o idealizador do cavalo oco, artimanha que definiu a guerra de Tróia dando a vitória aos gregos. Ulisses foi condenado a vagar pelo labirinto mar. A segunda epígrafe, um fragmento do poema Isto, de Fernando Pessoa que diz: “Dizem que finjo ou minto/ tudo o que escrevo/ Não./ eu simplesmente sinto/ Com a imaginação./ Não uso o coração”. Presumimos que o percurso de leitura exigirá coragem por parte do leitor, que não deve se deixar iludir pelas aparências e nem se deixar levar pela emoção desmedida, pois, toda desmedida, ou hybris, é passível de punição por parte dos deuses.
XXXO mito de Dédalo se realiza no simulacro, foi por meio do fingimento que a rainha Pasifal, esposa do Rei Minos, conseguiu satisfazer o desejo ardente de se unir ao touro de Posseidon, e foi Dédalo o construtor do objeto da enganação: uma vaca de madeira em tamanho natural, oca, onde a rainha pôde se esconder e acasalar com o referido touro. Dessa estranha união nasceu o Minotauro, monstro metade humano e metade animal que se alimentava de carne humana. Minos quis usufruir da mesma coisa que o deus, ou podemos dizer, quis se igualar ao deus, e por isso foi castigado. Antes de ser enganado por Pasifal, Minos acreditou que poderia enganar o deus dos mares, quis o touro que estava destinado a ser sacrificado a Posseido para si e sacrificou, no lugar deste, outro touro.
XXXO termo Personae, que nomeia a primeira parte de Dédalo, é uma designação que originalmente, diz respeito às máscaras que eram utilizadas pelos atores para indicar o papel que desempenhavam. As máscaras são imprescindíveis para o jogo poético, especialmente, no processo de despersonalização do eu, observemos o poema de abertura do livro Dédalo, A minha alma, partida:

A Minha alma, partida, vai por uma
Alameda de sombras inclementes.
Eu a vejo, por vezes, na penumbra
De um soslaio ― eu excessivamente este
Que assim sou. Nos baldios de mim s’tando
Num granítico silêncio a descoberto
E um comboio de angústias, eu náufrago
Nos sargaços de um mar de pensamentos.
(MARVILLA, 1996, p. 13)

XXXEste texto nos remete, também, a um trecho do poema de Álvaro de Campos que diz: “A minha alma partiu-se como um vaso vazio,/ Caiu pela escada excessivamente abaixo” (PESSOA, 2008, p. 174). Essa fragmentação/ destruição, pode ser observada, no poema O cupim (MARVILLA, 1996, p. 61, grifo nosso), onde o inseto se realiza mergulhando no livro de Miguel Marvilla que é o livro de Fernando Pessoa, e indo “até o fundo”, corroendo “folha por folha/ e a emoção − esta capa usada” é o que resta ao poeta. Aqui retomamos um fio da meada, relembrando a advertência dada por Marvilla via epígrafe: “Eu simplesmente sinto com a imaginação/ Não uso o coração”, assim, a emoção é “capa usada”. A palavra capa também se ‘reveste’ de variados significados: roupagem, manto, cobertura protetora, pretexto. Outra leitura, esta feita por Dalmaschio (apud HERKENHOFF, 2001, p. 25) declara que a ação do cupim pode ser entendida como a “ação do tempo” que “destrói o eu poético e Pessoa, junto com o livro”, dessa forma os poetas (Marvilla e Pessoa) são amalgamados por meio da troca que é a leitura.
XXXEnfim, é a emoção o que resta ao poeta, pois “O cupim, em sua fome,/ destrói/ A celulose e o homem,/ a cola, o corante,/ o amante,/ e não tem fim”, mas o poeta e Pessoa, sim. Vemos surgir a imagem do devorador de ‘Pessoas’, o Minotauro metamorfoseado em cupim, mas, não menos cruel e destruidor. Inclino-me a pensar no prazer gerado por esta destruição, visto que a morte, o fim, possui ligações estreitas com com seus opostos, o amor e o renascimento. Ora, o poema Cupim, está localizado ainda na primeira parte do livro, seguido apenas pelo poema Eu te Amaria. Na segunda parte, denominada Fons amoris ou ‘fontes de amor’, outro adentramos outro tema de grande relevância na obra de Miguel Marvilla, o amor. Em Dédalo, o eu poético se entrega ao desejo e, deste, não há quem o salve:

Porque, amiga, dos longes do desejo.



Que se instalou em mim nos arrebaldes
Não há jeito que me Salve (nem novena),
Regina, Ave Maria, gratia plena.
(MARVILLA, 1996, p. 75)

XXXEm fons amoris o eu transita em um universo onde as convenções são questionadas, o corpo e o desejo nos são apresentados como matéria prima para a poesia como podemos observar em trechos dos poemas Desenlace e Fruto proibído:

A noite, respingada de estrelas,
Com espectros
Recortados contra restos
De luz dos lampiões a gás
E mulheres que vestem lingeries sensuais
E homens que as despem lentamente;
A noite em que alguém lê poemas
E alguns ensaiam uma peça de teatro
E um bêbado inveterado
Bebe a mesma garrafa de cerveja;
A noites em que estudantes abandonam livros
E cuidam de sorrisos;
A noite em que se fala de amor,
Em que se beija sem querer porquês;
A noite regada a vinho francês e a palavras úmidas
Longe no calendário, espia nossa desigualdade.
(MARVILLA, 1996, p. 81, grifo nosso)



Se era pra não comer,
Por que havia essa fruta
Ao léu de um pegar,madura?


[...]



Se era pra não comer,
Porque estava essa mulher
Ao alcance de obter?



Não! Era pra ser comida,
Porque era vida e não morte
− o resto é tudo mentira.
(MARVILLA, 1996, p. 83)

XXXPercebe-se que a hybris permeia o mito de Dédalo enquanto transgressão, o eu marvilliano é transgressor e trava um embate ideológico com a tradição cristã, desafiando as leis morais e as proibições que impedem o prazer e a alegria do encontro com o outro. A respeito do poder aglutinador do amor, Waldermar Magaldi Filho, apoiado no mito do nascimento de Eros, afirma:

O amor, em todas as suas fases evolutivas, paradoxalmente, inclui todas as necessidades do ser, acompanhada de todas as suas potencialidades. Por isso, o amor possibilita o surgimento da dimensão criativa, da plenitude da beleza e do maravilhamento pela vida. Entregar-se ao amor é entregar-se ao numinoso e a si mesmo. Pois o amor une as dualidades geradoras de angústia presentes nas antinomias, por isso é a sua própria beleza e o seu próprio fardo. [...] pois, na dimensão do herói, vale muito mais a glória de uma morte violenta, que preserva a dignidade e o próprio ser integral, do que o gozo de uma liberdade maldita (MAGALDI FILHO, 2006, p. 74).
XXXVislumbramos o maravilhamento do eu frente à mulher “com fragmentos” e “de Eliot nos olhos”, motivo pra poesia. Essa dama é motivo também para que aconteçam “festas, exorcismos, divórcios, sete guerras, mil concertos”, e aos seus pés ele se prostra como um vassalo medieval “versos a fio”, e nem sabe “a quantos pés de um soneto”. O amor se realiza: “a amei”, mas, depois de tanto barulho, o poeta confessa a encenação, vale tudo “pra não perder um alexandrino” (MARVILLA, 1996. p. 87).
XXXNo poema Quando beijo Cláudia (MARVILLA, 1996, p. 89), Claúdia encarna todas as mulheres, beijando-a o poeta beija a todas, das “ancestrais”, “as italianas, sarracenas e neandertais”, O eu, beijado por Cláudia, não resiste ao amor, essa ‘mulher total’ já fez “uso-capião” do seu destino. Aqui justifico a citação acercada do poder aglutinador do amor, este se realiza no encontro de diferentes e não na homogeneidade, o eu canta o amor que se realiza de forma plural e sem exclusões É dessa forma que o eu poético, durante o seu percurso, se encontra com o tu “nos baldios” do ventre da mulher, que abriga “palavras úmidas”. Nesse chão o poeta se reconhece. Observemos as quadras:

Teu beijo a repetir-se
Em minha boca devastada:
Memória do que não tive?
Outra saudade inventada?
(MARVILLA, 1996. p. 101).



Nas circunstancias da letra,
Nas cercanias do som,
O amor, em geral, é onde
Encontramo-nos sem pressa.
(MARVILLA, 1996. p. 101).



São esses olhos, amiga,
Que me tiram a razão.
Não penso mais. Só existo
Por causa do coração.
(MARVILLA, 1996. p. 101).

XXXNo poema Tudo era por minha causa (MARVILLA, 1996, p. 21), o eu poético declara que “a ninguém caberia pressentir/ que eu seria o não-sido”, que “houve um tempo de estar escondido em lacunas”, e justifica: “era preciso que eu me protegesse”. Eis outra função essencial da persona, considerada por Carl Gustav Jung uma ferramenta de adaptação social, protetora do eu. Mas, esse mesmo poema abre-se ao inesperado e surge Beatriz, o outro (melhor dizendo, a outra), a primeira namorada (seria sua Eva?), para quem o poeta “teria inventado/ não apenas um país,/ mas também um passado” (MARVILLA, 1996, p. 25). Quantas possibilidades de criação por meio da palavra: (re)inventar o tempo ou, em um “arroubo de poesia”, enraizar na fraude o parentesco: “nascença aventureira”, e criar “um passado de argonauta” para os pais “ignotos mineiros das Minas Gerais” (MARVILLA, 1996, p. 53).
XXXEis uma pequena mostra da complexidade da poética de Miguel Marvilla, nada nela é desprovida de intenção, seria um engano imaginar que os poemas são propriedade privada do poeta, recorrendo a uma analogia com o mito, Dédalo não produziu para si além de asas para escapar do labirinto, ele é alguém a serviço, um operário. Dessa forma Miguel empenha-se para produzir um texto com multiplicas camadas de leitura, que podem ser captadas de acordo com a possibilidade de cada leitor. Bakhtin esclarece que:
XXXTudo o que é dito, tudo o que é expresso por um falante, por um enunciador, não pertence só a ele. Em todo discurso são percebidas vozes, as infinitamente distantes, anônimas, quase impessoais, quase imperceptíveis, assim como as vozes próximas que ecoam simultaneamente no momento da fala. [na linguagem poética] a autoridade do autor é a autoridade do coro. A possessão lírica é, em seu fundamento, uma possessão pelo coro (BAKHTIN, 2003, p. 156)
XXXÀs interlocuções já descritas juntam-se outras, como por exemplo, as vozes trovadorescas presentes tanto nas temáticas que lhe são peculiares: o amor, a louvação da amada, quanto na forma, que integra a tradição lírica popular, a quadra . Há quadras tanto na primeira parte do livro (quadras 1), quanto na segunda parte (quadras 2). Sigismundo Spina (s.d., p. 110) explica que as quadras foram as formas matrizes do raciocínio poético dos trovadores populares, assim como o dístico, elas têm como objetivo comunicar um estado sentimental a um destinatário, nelas, o tratamento do tema amoroso baseia-se numa conexão mítico-mágica do mundo. Denis de Rougemont (1998, p. 58) complementa informando que a poesia dos trovadores nasceu entre os séculos XI e XII, falando a língua provençal e cantando o amor livre, dela nasceu a poesia européia. Em resumo, nossa linguagem passional vem da retórica dos trovadores.
XXXNas Quadras, parte1 é possível observar o eu poético mergulhado em questionamentos acerca de si e da própria poesia, amparado no diálogo com a tradição Portuguesa:

Só sinto o que me é dado

Sentir. Mas, se, por um lado,
O que sinto não é meu,
Quem sente, outros ou eu?
(MARVILLA, 1996, p. 29).



Escrevo para mentir
De público o que pra mim
Há muito sinto − e refuto:
De tantos, não sou nenhum.
(MARVILLA, 1996, p. 29).



Eu sou excesso de outros,
Não sendo outros, tampouco.
E deito-me em pensamentos
Que nem sempre reconheço.
(MARVILLA, 1996, p. 29).

XXXJosé Carlos Mattedi, em um artigo publicado no Jornal A Gazeta intitulado Labirintos de um poeta, destaca que para Miguel Marvilla “o amor é um lugar aonde se vai-se só com a própria sombra, e o resto na estrada se abandona”. Abandono é outra palavra que rima bem com amor, Ariadne ajudou o herói Teseu a sair do labirinto porque estava apaixonada por ele. O herói que, por sua vez, havia prometido corresponder ao amor da princesa, a deixa dormindo e parte após cumprir a missão de matar o Minotauro. Joguete nas mãos dos deuses, Teseu também cumpre o seu destino de enfretamentos, além do Minotauro, lutou com o Monstro que ameaçava matar Andrômeda e com a Medusa. Ariadne se casaria, mais tarde, com o deus Dionísio, que foi quem a consolou do abandono pelo herói.
XXXO mito de Dédalo não possui hapy and, Ariadne fica desolada, Dédalo pede seu filho amado, Ícaro, Minos é traído e vê sua vergonha revelada com a morte do Minotauro, talvez, apenas o deus sinta-se satisfeito com a tragédia e a vingança completada. Miguel Marvilla explora em Dédalo, muitas temáticas que precisam ser, melhor, desenvolvidas, como por exemplo, a questão do tempo, esta é uma obra que possui inúmeras camadas de leitura, e cuja multiplicidade, é capaz de traduzir as inquietações do nosso tempo.
XXXFrancisco Aurélio Ribeiro em A literatura do Espírito Santo (2010, p. 119) destaca que: o nosso estado “sempre foi um celeiro pródigo de escritores e escritoras, [...], não só a terra de Rubem Braga e de Roberto Carlos, mas de muita gente boa, em busca de um futuro esperançoso”. Este crítico literário esclarece às pessoas que ainda se perguntam se existe uma “Literatura Capixaba” e que “preferem ignorar a produção local, embevecidos com os EUA, Europa ou, pior, o eixo Rio-São Paulo”, que basta ler os “livros de Miguel”, pois estes “são uma resposta bastante concreta” para estas indagações. No meu caso, fica a admiração pelo poeta, a saudade do amigo e a lembrança de uma pessoa generosa, sempre pronta a ajudar, o nosso Dédalo, produzindo arte com as palavras.


Referências:
• BAUMAN, Zigmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeio: Jorge Zahar, 1998.
• BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (coleção biblioteca universal).
• COUTINHO, Educardo f.; CARVALHAL, Tânia F. Literatura comparada: textos fundadores. Rio de janeiro: Rocco, 1994.
• JUNG, Carl Gustav. O espírito na Arte e na Ciência. 3.ed. Petrópolis-RJ: Cultrix, 1991.
• MARVILLA, Miguel. Dédalo no centro do labirinto: Miguel Marvilla Vida e obra. Seleção e estudo crítico por Joana D’Arc Baptista Herkenhoff. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura, 2001.
• Você- Ano V, nº 45, maio de 1997.
• MARVILLA, Miguel. Dédalo. Vitória: Florecultura, 1996.
• PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
• RIBEIRO, Francisco Aurélio. Estudos críticos de literatura capixaba. Vitória, 1990.
• RUGEMONT, Denis de. O amor e o Ocidente. Tradução de Paulo Brandi e Ethel Brandi Cachapus. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988
• SPINA, Sigismundo, Na Madrugada das Formas Poéticas: manual de versificação românica medieval. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002. (coleção estudos Universitários, no. 3).


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