09/06/2016

Humor e amor em Carmélia Maria de Sousa, a cronista do povo (palestra pública com a escritora capixaba Renata Bomfim)

“Não tenho queixas da vida, porque ela ainda me dá razões 
para olhar as estrelas e repetir em silêncio o nome de Deus”

(Carmélia Maria de Sousa).



Carmélia Maria de Sousa (1936- 1974), a “cronista do povo”, como ela própria se intitulava, é uma cronista capixaba cuja obra é marcada pelo seu tempo, pois a escritora surgiu no cenário literário em 1958 como a voz da contracultura. Ela foi considerada por Agostinho Lázaro como uma das melhores cronistas do Espírito Santo e por Francisco Aurélio Ribeiro como sendo a responsável por popularizar a crônica escrita por mulheres no Estado. Carmélia possui uma escrita carregada de ironia. Mas, a obra dessa escritora extrapola o seu tempo e se renova, pois, é toda permeada pela poesia e fala de amor, de solidão, de esperança, e de outros temas que evocam vivencias que nos irmanam independente do tempo. De forma engraçada, Carmélia “espinafrou” a alta sociedade em suas crônicas, ela era uma mulher com personalidade forte e coração sensível e bondoso, segundo o depoimento de vários intelectuais que foram seus amigos, entre eles Milson Henriques e Amylton de Almeida. Falar de Carmélia Maria de Sousa, além de uma alegria, é uma possibilidade de compartilhar um olhar sobre a sua obra que está reunida em um único livro chamado Vento sul, publicado postumamente.

Palestrante: Renata Bomfim
Nasceu na Ilha de Vitória/ ES (21/11/1972). Escritora mestre e doutora em letras pela UFES, ocupa a cadeira nº 16 na Academia Feminina Espírito-Santense de Letras e é membro do Instituto Histórico e Geográfico do ES. 

Palestra na Biblioteca Pública do Espírito Santo, dia 14 de junho de 2016, às 17 horas.
Av. João Batista Parra, 165 – Praia do Suá – Vitória – ES
Telefone: (27) 3137- 9351
Facebook: Biblioteca Pública do Espírito Santo

06/06/2016

Solares: poema em dez atos (Renata Bomfim)

I
Fui atriz.
Lembro ainda:
Noites de estreia,
Luzes, cenários.
Podiam ver que eu era
Quem fingia ser.

Atuei nos palcos da ilha mundo
Sendo eu e sendo outras de mim.

Quando as luzes se apagavam
Bebia o sol que trazia escondido
Em um frasco dentro da bolsa.
Bebia a luz densa e flexível sentindo raiar o dia.
Pensava: - hoje o inédito está vulnerável.

Naquele mundo
Mãos ávidas agarravam o resto de brilho
Que se esvaia do sol que se tornara dia.
Sedutor, o astro balançava na minha direção
A ruiva cabeleira.
−Te quero aqui! Te quero!
As palavras brotavam límpidas de minha boca 
Como se um veio d'água nascesse em pleno deserto.
Te quero!

Entre os dedos gotejava, viscoso, o desejo.
Eu era noiva então e seguia
Vestida de luz.
As núpcias.
Nossos corpos serpentearam enroscados
como raios.

II
Sentamos à mesa.

O garçom serviu, quente, a carne de um anjo.
Você, que me prometera o paraíso, me obrigava a comer carne de anjo.
Eu sentia o horror de ter entre os dentes aquele pequeno mimo,
Delicia, transgressão macia e...
Minha língua analisava a textura do santo,
O meu sangue tornou-se vinho. 
Salivei mel e excretei delícias sem nome: 
Ainda éramos inocentes!
O anjo fora preparado com ingredientes frescos
Colhidos no que se tornaria a eternidade.

III
Elevo os olhos para além 
Do conhecido.
O céu fictício, com o sol que carrego penitente,
Existe inexistido.
A fabulação é ofício (árduo e fatídico)
Fabulo para não morrer e canto
Cantiga antiga, de amiga, de amor.

Quero apalpar o amanhã,
O dia é o prolongamento do sonho.
Canto o amor que trouxe desde a célula duplicada
Amor que continua dentro e que grita a minha boca aberta, 
Quentura, ansiedade e desejo por outra boca quente.
O meu ser convulsiona dentro do sistema,
Não me encaixo!
Caixa, coxa, convulsiono!

Estou nua das certezas,
O amor me habita,
Convulsiono!

IV
A vida anda curta.
Os dias não cabem no teu momento de contentamento.
Eu canto como quem grita no escuro e não escuta a própria vida.
O sonho que prolonga a vida e o viver não acorda.
Cegueira.
Levo a mão ao seio, sinto a carne quente que vibra
Sinto o céu como se voasse no vazio.
O céu é um buraco, não há nada além de nuvens.
Desenho no céu com as nuvens!
Imagino e não vejo possibilidade de voltar a cantar.

V
Estava cansada de levar comigo
O sol.
Guardava o astro entre as mãos como se
dele dependesse a vida.
As trevas eram pesadas como pétalas de rosas.
O sol pesava e queimada a palma ressentida de minha mão.

Precisava plantar o astro antes que ele explodisse:
O sol é uma bomba!

Caminho cantarolando a música do pássaro e da aranha.
O sol está rubro como um tudo,
Plantar o sol é a minha maior responsabilidades.
Útero sol.
Razão do amanhã.
Razão do meu ventre parindo alvoradas,
Razões do meu corpo retalhado pelos sonhos.

Cai a noite.
O sol não se arrepende da luz que perdeu.

Sombra amiga, qual a medida do meu ser dia?
Qual o tempo da colheita das rosas?
A estrela gira suas pontas,
Há desespero nos dedos dos meus pés.

VI
Cortei a cebola.
Os olhos percorriam a cozinha.
Cada objeto guarda um segredo.
Há momentos em que o tilintar das colheres
Evoca espíritos.
Cortei a cebola e coloquei na panela quente
Óleo e alho.

O fogo aquecido evocava o frio de uma ausência.
Lembrei da hortelã e da pimenta.
O verde e o vermelho enviaram um tempo
De cores e aromas felizes para a mesa.
A felicidade estava de volta
Como um morto revivido enviado pela memória.

VII
Já fui princesa no devaneio de uma saudade.
Já fui princesa.

Toquei a poesia
Vislumbrei o invejável de uma presença.
As sombras não deixam esquecer a minha filiação.

Caiu a máscara.
Sob o verniz outra máscara e outra e outra.
A solidão desafia, sob o não-rosto, o teu rosto frio.
A luz fraca se projeta no chão que se abre
Sinto o mundo dentro de mim,
Vejo as entranhas da terra.

Fui mulher quando as mulheres não sabiam
Que era preciso carregar o sol.
Fui mulher quando não existiam mulheres e nem homem,
Apenas seres.
A noite possui uma razão desprovida de verdade,
As sombras brincam de volúpia e potência.
Fui mulher ensaiando a delícia de ser esse não ser.
Não sabia que as sombras eram filhas do dia adormecido.

Lembro ainda, fui princesa nos meus sonhos!

Caminhei por lugares distantes repetindo o teu nome,
Desejando pertencer a tua família.
Queria o teu nome junto ao meu.
Assim, garantiria que nossos corpos estariam unidos pela eternidade.
Sonhei, sonhei, sonhei.
A realidade revelou que o dia dura um tempo colossal.

VIII
A casa continua vazia.
O sol está sobre a mesa, ilumina o ambiente,
Um anjo se revira no meu dentro.
Falta algo.
Falta o sol no auge do esplendor,
O sol perdeu a potência.

As ruas estão vazias.
As pessoas desapareceram no labirinto de suas
Solidões particulares.
As paredes das casas guardam as últimas palavra pronunciadas.
Os homens entraram na espiral do esquecimento.

−Te amo!
Ouço uma ruína gemer como se fosse de carne e sangue.
−Te amo!
Vivi o vazio da casa eterna-eternamente vazia,
Necessito do teu estar aqui,
Necessito que o teu corpo etéreo se torne realidade.

IX
O sol é uma saudade dentro de um tempo.
Lutei para ser alguém,
Enchi a cabeça de teorias,
As paredes plenas diplomas mostram
Que fracassei

Sou alguém quando teu corpo raspa as camadas do meu dentro,
Penetrando o meu uno,
Fertilizando o meu simples, 
Pluralizando esse isso que hoje brilha dentro de mim.

X
Saiu da minha boca uma palavra
E voou para o inefável como uma pomba em busca
de outra palavra.
Meus joelhos se dobraram
Rezei sem fé palavras encantadas,
Crente no poder do dizer:
Femeamente celebrei e dancei ao redor
Das palavras: inomináveis!


**Renata Bomfim

Vitória, 06-06-2016

03/06/2016

EN EL CORAZÓN DE BRASIL (Epílogo da obra poética Brasil: Sistoles y Diástoles, de Pedro Sevylla de Juana)


Como has podido ver, lector, “BRASIL, Sístoles e diástoles” es un libro singular, decisivo, concluyente. Originalidad al servicio de una prosa y una poesía hermanadas: relatos autónomos cerrando cada apartado, y un poema con introducción y conclusión explicativas. Destacan en el libro, aspectos como el engarce de los elementos constituyentes, la cimentación de una cosmogonía que convierte al yo lírico en poeta/profeta, poniendo la mirada y la intención en cuestiones sociales como la pobreza y el hambre, de modo que enfrenta a los lectores con sus propios conceptos y sentimientos humanos. El ejercicio convivencial se instaura en la interrelación y en las palabras que la propician, empujando a los humanos -viajeros estelares- por caminos inusitados.
Un texto debe ocultar a la primera mirada, al primer encuentro, “la ley de su composición y las reglas del juego”, como destaca Jaques Derridá en “La Farmacia de Platón”. Así nos encontramos con un Pedro Sevylla muy diferente al de sus obras poéticas anteriores: artífice múltiple, objeto de interpretaciones diversas y complementarias. La especial característica de esta obra me inclinó a optar por una lectura crítica, que no pretende desnudar sus significados más íntimos, ni dominar su entramado; antes bien fluir con el lirismo fluente, degustando el sabor agridulce de la escritura.
El escritor español, al referirse al Brasil, muestra sus vivencias, fruto de la captación de los ritmos, sabores y colores de un País, el mío, que no permite una fácil definición. Para ese cometido, fue preciso que Pedro Sevylla explorase el devenir brasileño, caminando por campos y ciudades, entrando en el pensar de las gentes, lo que permite a las palabras expresar la agitación del corazón. Estoy segura, lector, que como yo, usted sintió la energía que une amorosamente, los campos de trigo de Valdepero, en España; con la Mata Atlántica, en Brasil.
Me siento feliz por haber recorrido la senda creativa del autor en la composición de esta obra. La curiosidad por la cultura, permitió escrutar, como buscador de oro, plata o diamantes, las riquezas de cada región brasileña, hasta llegar a Vitória, ES, atraído por la Ley de la Gravitación Universal; desde cuya Bahía ascendió el “Nova Era”, su velero cósmico.
Estamos ante el creador de un hombre análogo y diverso: pan hecho de las harinas de todos los cereales –igual composición distinta estampa- cuando aún no existía la especie humana. Conformado el hombre, viene la necesidad de crear a Dios. En el poema “El primer principio”, la mente descansada crea un Ser “único y primigenio”, y a partir de ese acto fundacional, puede poner en marcha, con todas las prevenciones posibles, la “Sociedad Global”.
En las “noches mágicas y míticas”, la mujer amada surge en los sueños imprecisos y repetidos del yo lírico. Soñando con el eterno femenino el milagro sucede: “El triunfo de la primavera”. Música, color y bienestar, pasan a formar parte de ese Universo que, antes solo conocía los “hielos invernales”. Al fin, el paraíso está completo y Pedro Sevylla nos facilita la introducción a un nuevo “Génesis”, basado en “parábolas ya olvidadas y viejos símbolos actualizados”.
La “Utopía llega a ser alimento y esperanza de criaturas quebradizas” que, sedientas de amor y justicia distributiva, ansiosas de sembrar ”la paz, el perdón, la valentía, la libertad”, inician un camino en busca de sí mismos. El “economicismo” hace que el corazón del yo poético “se agite de agonías”, la economía de mercado empuja la deriva de los continentes y “acelera el paso del Universo”. El “hambre” dos sílabas tan solo, se vuelve palabra de orden en un “recuento incesante de la realidad trágica”.
Ante ese escenario el yo lírico se posiciona. El poema “Vengo a decir” apunta al origen del problema: “las carencias de los necesitados parten de la mala distribución de la abundancia”, el yo poético exige leyes que acaben con la acumulación y el despilfarro. Es el “grito” del hombre decidido, el que da voz a las criaturas humanas y no humanas. La humanidad necesita avances, ese es el movimiento de Diástoles, expansión que convierte la vida en arte y el arte en vida. La proximidad ansiada acerca al poeta al “Solar da Ester”, Ester Abreu, anfitriona solícita; y al espacio acogedor de los amigos brasileños. Emergen como espacios privilegiados de la inspiración de Pedro Sevylla, Os Sertões, São Paulo, Rio, Bahia, Pernambuco, Espírito Santo y, especialmente, la Isla de Vitória. Es ahí, donde conoce a personas admirables, cargadas de ilusión, visitando las turbadoras Comunidades Verticais; y a esforzados intelectuales de la investigación, la creación y la docencia.
El poema “La Victória del deseo” revela el ambiente plural y misterioso, en el que Leda ama a los Cisnes Blanco y Negro. Quizá el bien y el mal, buscando sintonía, se equiparen en una poética que pide equilibrio y armonía. “La eterna fugacidad” del encuentro y del amor se explicita y, así como la brisa, el objeto amado se va, dejando en el aire solo un rastro perfumado. El yo lírico explaya sus sueños y dialoga con Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Cecilia Meireles, Hilda Hilst, Castro Alves, Gilberto Freyre, Euclides da Cunha, Guimarães Rosa; a quienes ha leído y traducido al castellano como testimonio de admiración y aprecio literario.
Conferenciante, también, sobre su propia obra en la Universidade Federal de Espírito Santo; el conocimiento de sí mismo acerca al poeta a la revelación: momento epifánico en el que vislumbra “El rostro del Universo”: carne, sangre, espíritu; belleza que es el canto del alma innombrada. Pero, esa no es aún la visión concluyente del misterio universal, pues, acercándose a la faz de la belleza, el poema se acerca a la hondura de un beso de eternidad, donde vislumbra también, el imposible fin de ciclo. El poema Morí lidia irónicamente con la Gran Dama de dedos de terciopelo: no hay miedo ni arrepentimiento ante la muerte.
Transmutado por las experiencias vividas a intervalos desiguales: amor, dolor, desilusión y esperanza; siguiendo impulsos razonados y emocionales, el yo lírico cumple su destino. Todo fin presupone un nuevo comienzo. Así, el poeta intensifica “la búsqueda de la cruz de la armonía/ vacilante/ equilibrada/ activa”, lanzando la rúbrica de su firma como una flecha. Da soporte a todo gesto, el propio principio activo: “Lucha hasta el equilibrio es mi divisa”.
“El vuelo del velero Nueva Era”, largo poema épico, da fin a la parte poética del libro. Entre vibrantes ejecuciones musicales, describe la desesperada huída y el esperanzado retorno a este planeta nuestro, herido de muerte por la acción destructiva del hombre. Un hombre que es culpable y víctima inexorable. Un planeta sumido en la angustia de la mayoría, empobrecida por la acumulación extrema de las riquezas. El vuelo del velero recorre el espacio existente entre la escapada del desastre y el regreso a un planeta reverdecido, casi intacto.
Renata Bomfim
Es Mestre e Doutora em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo/UFES. Escritora, ensaísta, poeta e acadêmica da Academia Femenina Espirito-santense de Letras, cadeira 16. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Mateense de Letras. Educadora socioambiental e editora da Revista literária Letraefel.

Rútilo Nada: novela de Hilda Hilst


Hilda Hilst: Caderno de Literatura Brasileira



13/05/2016

Brasil: Sistoles e diástoles, livro de poemas bilíngue de Pedro Sevylla de Juana


Brasil: Sístoles y diástoles
Obra bilíngue (português- castelhano)


Amigos, segue a indicação de mais essa obra poética de Pedro Sevylla de Juana, amigo pessoal e tradutor da minha obra para o espanhol. O bardo espanhol lança sobre o Brasil uma mirada poética desvelando as belezas e os contrastes dessa nossa terra. Como o nome do livro já indica, palpita em cada verso do poemário a emoção de um eu lírico que observa e sente, do Brasil, cada detalhe da geografia, da cultura, dos costumes, dos diversos biomas e do material mais estranho e espetacular que possuímos, o brasileiro. 
Vele destacar o que o Espírito Santo e a sua capital, ocupam um lugar destacado na poética de Pedro, que aqui esteve em 2103 se comunicando em português, viajando para as montanhas, passeando por Camburi antes que o sol despontasse. 
Me alegra muito ter escrito o epílogo de Sistoles e diástoles. lancei um olhar para essa obra como que viajando em um veleiro de papel, sem preocupações com o tempo e nem com espaço, buscando aquilo que ela toca de mais profundo e transcende as barreiras da língua e as fronteiras nacionais, buscando o arquetípico e o eterno.
Renata Bomfim

Cerebro y corazón a partes desiguales, los poemas de Pedro Sevylla de Juana en este su vigésimo cuarto libro, son flexibles. Sístoles y diástoles en la forma, se van conformando a borbotones ordenados. Expansión y contracción del tiempo y del espacio, el poeta persigue un imposible punto de fusión definitivo. Trata de ser su poesía imagen y expresión del Universo íntegro; y el yo poético, sincero como premisa única, persigue expandirse en plena libertad. Sinceridad y Libertad le traen donde está. Y asegura que entre sus convencimientos y él, elije a sus convencimientos. “Conquistó mi reverdecido interés el Universo inconcluso. Trazando van las estrellas su vía esplendorosa hacia la nada inagotable, estadio final que no es más que el principio de una evolución sin término -sístoles y diástoles, rotación y translación- eternizada por la sublime entrega del general convenio, a la euritmia que origina las conocidas músicas estelares, luz de luces titilando.

08/05/2016

A escritora capixaba Renata Bomfim falará sobre sua obra poética na III Feira Literária Capixaba (FLIC)

Amigos leitores, 

A Flic está de volta na sua terceira edição. Esse ano tenho a alegria de participar de vários momentos da Feita. Essa é uma boa oportunidade para nos encontrarmos para um bate papo sobre poesia. Depois de ter participado da banca julgadora do concurso de poesia que teve como tema o chocolate, e me deliciado com os textos, participarei das seguintes atividades:

No dia 12/05 (quinta-feira), às 14:30 horas estarei falando sobre a minha obra poética e sobre o Colóquio das árvores, meu poemário mais recente. No dia  14/05 (Sábado) às 09:30 horas  e no dia 15/05, às 10 horas darei  oficinas literárias. 

Abraços fraternais,
Renata Bomfim
PROGRAMAÇÂO:


21/04/2016

Fora de Órbita: Este Brasil que eu amo (Crônica de Inês Pedrosa)

 No Brasil sinto-me em casa. Essa sensação de intimidade aconteceu desde a primeira vez que aterrei no país (no Rio de Janeiro, em 1999). Foi uma atracção de cheiro, de pele, de vida. Conhecia o país pelos livros (de Drummond de Andrade, de Machado de Assis, de Vinicius, de Erico Veríssimo, de Jorge Amado – na época, ainda apenas estes) e pela música popular (Caetano Veloso, Chico Buarque, Maria Bethânia – sem esquecer o Roberto Carlos da minha infância, que me levou até eles). Temia que o encontro fosse decepcionante; uma das regras da estúpida cartilha do amor impossível em que se educa a contemporaneidade reza que não devemos aproximar-nos daquilo que amamos ao longe. Por causa dessa estupidez passei uma década a evitar conhecer Agustina Bessa-Luís, que, apesar de ser um génio, é uma das pessoas a quem mais alegrias devo. Esta memória não vem desenquadrada do tema da crónica, ao contrário do que pode parecer ao leitor incauto, porque o Brasil é um dos vários lugares do mundo onde fui feliz com ela, e também porque, tal como eu, Agustina sentia-se feliz pelo simples facto de respirar o ar do Brasil. E entendeu-lhe a fundo a História, o drama, a graça e o talento específico, como perceberá quem ler o seu Breviário do Brasil.

Regresso incessantemente a essa imensa nação que Stefan Zweig baptizou como o País do Futuro, sabendo que esse reencontro me tornará mais forte e mais livre. Não são só os livros, as livrarias, as canções, os espectáculos, os filmes, as exposições. Nem é só a variedade da paisagem, a informalidade no trato e no traje, o samba, os sucos, o doce de leite e a qualidade da caipirinha. São as pessoas, sobretudo, sim: o modo como se atrevem a sonhar. O riso feito da mesmíssima cintilante matéria das lágrimas. A velocidade com que o entregam, a eternidade em que o conservam. Na balança do meu coração, o Brasil pesa muito – um peso que dança, levita, ilumina e aquece. Conheço o Brasil de norte a sul, do litoral urbano e sofisticado ao paupérrimo e bravo interior do Sergipe, conheço-lhe as manhas e os mantras, o luxo e o lixo, e, acima de tudo, a sublime arte de dar a volta aos abismos.

No passado domingo, descobri, pela televisão, um Brasil desconhecido, assustador. Um Brasil de deputados urrantes, clamando pelas mãezinhas, votando “pela família”, por “Deus”, ou para que o filhinho “não seja obrigado a mudar de sexo”. Um Brasil que se insulta a si mesmo, louvando os verdugos que torturaram compatriotas, no tempo da ditadura. Não estou sequer ainda a falar de política, mas da ausência dela. Não falo da visível carência de alfabetização da esmagadora maioria dos deputados, mas de uma visão bárbara, vingativa e vingadora da existência, que denuncia a continuidade do Brasil dos coronéis que Jorge Amado cirurgicamente descreveu. Como convive esse Brasil com o da cultura que se impôs ao mundo pela sua fulgurante originalidade? Como pode o Brasil político ser tão distante do seu povo, de Guimarães Rosa a Cartola, de António Cicero à Mãe Menininha da Bahia?

E, no entanto, eu vi o Brasil mudar, mês a mês, ano a ano, do fim do milénio passado até hoje. Vi o fosso social diminuir, os pobres alcançarem direitos laborais e humanos mínimos, a classe média começar a respirar. A mudança não está garantida, porque em vez de leis o governo criou programas (como o Bolsa-Família) que a qualquer momento podem ser revertidos. A perspectiva do PT é assistencialista, a da direita brasileira é neo-liberal; o conceito europeu de socialismo democrático ou social-democracia não criou raízes na maior democracia da América do Sul. O Novo Mundo fez-se do espírito empreendedor e individualista de emigrantes e ex-colonizados, gente que não tinha nada a perder e que aprendeu a desconfiar do Estado. O Estado, no Brasil como em toda a América do Sul, raramente se mostrou de confiança. Para lá de todas as considerações sobre a falta de capacidade demonstrada por Dilma Rousseff, é irónico que o seu processo de destituição, sob pretextos de ética política, seja liderado por um homem indiciado por corrupção. Mas estou certa de que, ao contrário do que vaticinam as cínicas pitonisas europeias, essa força surpreendente que é o Brasil civil se organizará contra qualquer hipótese de ditadura. E acabará por transformar aquela Câmara de Deputados vinda do Paleolítico Inferior em qualquer coisa capaz de respeitar a beleza e a potência futurante do Brasil.  

 Inês pedrosa
Tradutora e escritora portuguesa