09/11/2016

A língua dos anjos (Renata Bomfim)


Gruta escura e misteriosa,
onde vivem seres inumanos.
Ouvi palavras inescrutáveis,
línguas cortavam o vento 
como se lambessem
espumas marítimas.
Elas envolveram o meu corpo
sugando-o com as suas ventosas. 
O som podia ser apalpado
de tão real:
     agudo,
    estridente
Dissonância enroscada
formava novelos
cujos fios estavam a meio caminho
da lã e do arame farpado.
Dentro da gruta, eu.
Solidão, detalhe singelo.
Estar só sempre foi rotina na minha vida.
Mas, acabar nesse buraco estranho?
Isso, eu não compreendia.
Porque me foi dado escutar as palavras que ouvi?
Por que me foi permitido sentir mais que os outros e sofrer mais.
Ter a dor por companheira?
Pior é a dor de quem se reconhece só.
Estou dentro do começo do que posso chamar existência,
Dentro do que não tem começo.
TU és o início no fim de mim mesma, talvez o caminho para fora,
ou um contorno na face esquecida pela luz. 
Apalpo letras difusas e as línguas me rodeiam ainda.
Ululantes labaredas de fogo frio e azulado me circundam.
- Deus! é lindo!
Graças! graças! graças por todos esses infortúnios!
Agora posso sentir os ossos rangendo dentro do meu corpo,
Agora sinto o que a vida significa na matriz.
A minha insignificância brilha como o ouro, cintila, e as trevas 
cedem esbranquiçadas como se trombetas da alvorava anunciassem:
O dia vai raiar!
Aleluia! bendita exaustão!
Estou em contato com o pó,
Sou amiga da poeira
Tão nada, nada, nada...
Levei uma vida inteira para compreender
Que o cricrilar do grilo mais miúdo tem a potência
Da nona sinfonia.


RB, Vitória, nov. 2016

  

10º Aniversário Vegano Renata Bomfim (21/11/2016)

Olá amigos,
enfim, chegou novembro e a hora de soprar mais uma velinha. Esse ano o "aniversário vegano" completa a sua décima edição. Nos primeiros anos ele acontecia apenas entre as pessoas mais   próximas, depois de um tempo resolvi abrir a ideia na internet. O pedido dessa poeta amiga de vocês é que no dia 21/11 não comam carne.

A ideia de "um dia sem carne", em 2016, choca menos que há dez anos atrás, especialmente porque hoje estão sendo divulgados de forma mais ampla os benefícios da dieta vegana, assim como os malefícios da ingestão da carne, não apenas mas para a saúde, mas para o planeta.

É sabido que a cada minuto milhares de animais são mortos das maneiras mais terríveis, muitos sangram até morrer, morrem sozinhos, em estado de pânico, afastados de seus familiares e amigos, alguns são moídos vivos ou sufocados até a morte. 

 Diferente do querem que acreditemos, a carne tem pouquíssima proteína, ao contrário dos vegetais que, comprovadamente, são fontes potentes das mesmas. Dados indicam que 100 acres de terra produzem carne para 20 pessoas, enquanto a mesma quantidade de terra produziria grãos para 240 pessoas.

Hoje não podemos deixar de pensar nas reservas de água. Muitas delas são contaminadas com as criações de boi, frango, etc, os desmatamentos seguem essa esteira.E ainda precisamos atentar para o fato de que os animais são seres sencientes, ou seja, capazes de sentir afeto, amor, dor, medo, tem pensamento lógico, memória.

Enfim, é isso,
agradeço desde já os muitos presentes!
beijos da poeta
RB

AGRADECIMENTOS:
Obrigada aos amigos que, mais este ano, aderiram a minha campanha! Eu almocei como uma rainha, um delicioso cogumelo recheado, com salada ao vinho e os indispensáveis arroz e feijão. Enfim, um dia de muita alegria!




30/10/2016

O Bicho (poema Renata Bomfim)

Não como
carne,
Sou de carne.

Executado
nos matadouros,
Todos os dias eu morro,
sou desossado,
ensacolado,
depois vendido,
(barato)
comido
sem cerimônia.

Como eu admiro
os índígenas antropófagos.

La frontera móvil (Alfredo Fressia)

CORTO. Alfredo Fressia. La frontera móvil. from Los Pájaros Ocultos on Vimeo.

Amigos, compartilho esse curta com o amigo poeta Alfredo Fressia.
Um trabalho poético de extrema sensibilidade. RB.

28/10/2016

Verde abacateiro (poemas Renata Bomfim)


 Dedicado ao poeta venezuelano Adhely Rivero 

I- O anjo

Sol do meio-dia,
Quente como o inferno.
Vejo anjos descansando,
Sob a copa do abacateiro.

Suados,
Faces pessegadas,
Saudosos do céu.

Mas, lindo,
Lindo mesmo é o anjo
Negro. Num átimo,
Os movimentos ligeiros.
Produzem frescor.

A visão extasia:
Invergadura, brilho,
Maciez das 
translucidas asas,
Fazem com que eu reze desejosa
Para que ele seja
O meu anjo da guarda.


II- Fome

Quero a tua carne
Tenra.
Sorver o teu dentro,
Conhecer o doce e o azedo.

Digerir certezas
Desfazendo-as uma a uma.
Até que não saibas  nada.

Ah! o choque de sentir
A matéria sutil e bruta
Pelo avesso.

Ouvir a canção decantada
Captar o esplendor
De tua humanidade,
Vê-la emanando das sombras.

Desejo, desejo, 
desejo não desejar nada 
Além do absoluto.



I-                  III - O eterno é contraditório

Uma mesa com objetos.

Há máquinas fotográficas (a)guardando
Imagens magnificas.
- Só interessam a mim.

Ninguém quer saber
     De mim
     Das imagens
Carregadas de afetos.

Há canetas celibatárias.
Anos sem sentir o prazer da folha.

Eu sou o demônio das canetas.

Prefiro rasgar o branco do papel
Com o grafite.
Risco temerário fadado
Ao desaparecimento.

Quando chega o verdugo
(O tempo)
O traçado cede, foge, desaparece.

Essa mesa esteve em outra casa.
Paredes eram amarelas,
Quartos cuidadosamente decorados.
Dos objetos não recordo.
Eu naquele tempo? 
Vácuo!

Fomos assassinados pela memória.


II-                IV- Beijaste a minha boca

Ontem lembrei que um dia
Beijaste a minha boca
Sob o sol
Escaldante
Eu brilhava, você brilhava.
O calor penetrava as nossas carnes
E a brisa do mar temperava as línguas
Com o sal da alegria.

Ontem lembrei
Beijaste a minha boca.
Eu era todas as mulheres,
Era como se empreendesse
Uma viagem por dentro 
Dos órgãos.
Senti conhecidos os tecidos
De minha casa interior.

Por fora eu era apenas
Casca dura de mim mesma.

Beijaste a minha boca
Sob o sol escarlate e lilás:
A tarde eu era tua.
Deitei sobre o leito de rosas
E fizemos amor.

A noite brilhava o difuso
a noite reluziam e latejavam, 
Espinhos de ouro
Cravados nas minhas costas.


III-             V- Somente a ti devo palavras

Aos desafetos
O silêncio do inferno.

Salivei palavras doces quando
O fígado amargava o ódio
Do abandono.
Salivei palavras doces quando
Perdeste o meu nome
Pelas vielas do imemorável.

A semente do abacateiro rachou,
Partiu-se em duas e, do centro,
Uma haste:
O broto desafiou a gravidade.

É grave amar,
É grave desamar,
É grave.

Nasceste dentro de mim
E cresceste para além de mim:
Abacate.

Salivei palavras,
O ódio desapareceu entre as folhas,
Os primeiros frutos trouxeram esperança.

A ti dedico todas as palavras
Macias, delicadas,
Polpudas, excitantes,
Verde-amareladas.

Aos desafetos,
O silêncio do inferno.


IV-             VI- Por que nascemos para amar?

Se essa caixa
Feita de blocos e cimento
Pudesse conter sonhos,
Decifrar desejos,
Se essa caixa pudesse dar
Ao que não tem forma
Um grão de materialidade,
Eu saberia ter uma casa.

Olho para cima,
O infinito indecente se abre
Sobre a minha cabeça,
Mistérios indecifráveis
Pesam e
Sou apenas esse isso:
Empurrada para baixo,
Prensada entre a terra
E o imensurável.



VII- A traça

Meu Deus, que fantasma era aquele
Que subia comigo as escadas da biblioteca,
Deslizando para as estantes de literatura
Devorando livros de poetas?



VIII- Redução

Meus gestos ensaiam
A expressão perfeita.
Olhos e ouvidos buscam
O poema perfeito
     Ritmo, forma...
Mas, os versos se rebelam
Querem o deformado, o feio.
Os versos estão revoltados
Impregnam a folha do papel
Sem o menor respeito,
Fazem com que eu me sinta
Puta barata.
Barata
Rata.



IX- Redução II

Tua carne
Veludosa,
Gracejo
Forma
Mutante
Moldada
Pelo meu desejo.

Corpo âmbar
Quente
Sôfrego
Exalando
Sabores
Aromas
No céu
Da boca.

Tua
Sem ser tua
Minha
Sem me pertencer
Deixo de ser.

Ah! Não peças
Que eu enfeite a mesa
Com flores.
Não queira que
Meus lábios cantem
Canções populares.
Não!

Alegre-se,
Desapareceremos, meu amor!



RB, Vitória, ES, out, 2016.





24/10/2016

El ángel (poema/ Renata Bomfim)

Sol del medio-día,
Ardiente como el infierno.
Veo ángeles descansando,
Bajo la copa del aguacatero.
 
Sudorosos,
Rostros cercanos a la perfección,
nostálgicos del cielo.
 
Pero, qué bello,
Qué hermoso es el ángel
Negro. A cada instante,
Los movimientos ligeros,
Producen frescura.
 
La visión embelesa:
Envergadura, brillo,
Morbidez de las alas, me incitan
A pedir, deseosa,
Que ese ángel sea
Mi ángel de la guardia.



*tradução de Pedro Sevylla de Juana

Fome

Quero a carne tenra:
Teu corpo.

Sorver o teu dentro,
Conhecer a doce e o azedo.

Digerir as tuas certeza
desfazendo-as uma a uma.
Até que não saibas de mais nada.

Ah! o choque
de sentir
a matéria sutil e bruta
pelo avesso.

Conhecer o esplendor:
A tua humanidade.
Vê-la emanando das sombras.

Desejo, desejo, desejo não
Desejar nada além do absoluto.



RB. Vitória, ES, out 2016

José María Zonta foi o ganhador do premio de poesia Manuel Acuña 2016

confira a do poeta ao ao La Nación
Foi com alegria que recebi a noticia que o amigo poeta José María Zonta havia vencido o Prêmio Nacional de poesia Manuel Acuña. Um reconhecimento pelo seu trabalho na divulgação da poesia e também da qualidade do seu lirismo.
Zonta é natural da Costa Rica, doutor em direito e autor de obras em variados gêneros, o poeta também contribui para jornais e revistas de vários países. 
Tive a alegria de conviver com Zonta em três Festivais Internacionais de Poesia em Granada e observar a sua atuação em oficinas e recitais. Seu livro premiado Antología de la Dinastía del Otoño: Poetas de la Dinastía Tang  estende o olhar  para a filosofia oriental e participam dele variados heterônimos criados pelo escritor. 
Zonta não acredita em inspiração, ele estipula tempo para a sua produção como se faz com outros tipos de trabalho, assim, a sua poesia vai sendo construída no dia a dia. 
VOY A HACER EL FAVOR DE AMARTE
yo
nunca me traté con amabilidad
que no me quejé si las botas me apretaban
ni protesté por los millones de desayunos fríos

a partir de ahora
me haré el dulce regalo de besarte
tal vez eso no signifique
que duelan menos las palavras que duelen

ni dejar de cortarme al afeitarme el alma
no importa
yo com mis favores me alcanzo
me pongo una mano en el hombro
un abrigo si llueve
y me ofrezco así a los demás
sin el apoyo del gobierno
pero con el aplauso de las flores
voy a hacerme el favor
de bajar del tren
encender el fuego
y amarte.

22/10/2016

Anjo da guarda (Renata Bomfim)

Sol do meio-dia,
Quente como o inferno.
Vejo anjos descansando,
Sob a copa do abacateiro.

Suados,
Faces pessegadas,
Saudosos do céu.

Mas, lindo,
Lindo é o anjo
Negro. Num átimo,
Os movimentos ligeiros.
Produzem frescor.

A visão extasia:
Invergadura, brilho,
Maciez das asas fazem
Com que eu reze desejosa
Que ele seja
O meu anjo da guarda.


RB, Vitória, out. 2016.



16/10/2016

Casulo (poema Renata Bomfim)

"A vida é esse cacho de lilás... Mais nada. O resto é perfume..." (Florbela Espanca)

Não escrevo para
o hoje.

As palavras são casulos,
introitos.
Mistérios do dentro:
cores indecifráveis,
indecifráveis sentidos,
borboletas virtuais que
podem ser,
podem não ser,
carecem de...,
Tudo sabem.

Não satisfazer:
DESESTABILIZAR,
eis o projeto poético-
-patético-
frágil, frágil...
Não responder!
eis...

Receba o silêncio,
aceite o silêncio:
CASULO.

Acúmulo de subjetividades
sem espaço para expressão.
CASULO-SILÊNCIO.

Não escrevo para o hoje
planto, silenciosa, árvores.
Cada poema escrito no susto,
estranhamento, solidão, loucura,
utopias que se estendem e derramam.
Revolta!
POEMA-CASULO-SILÊNCIO.

A Mata Atlântica é o projeto
final:
poema-tatu
poema-palmito Juçara,
poema-flor da Acácia
Poema-macaco
poema-trinca-ferro,
poema-xaxim,

Não escrevo para o hoje.
O afeto- memória
salvará vestígios desses versos.
Os casulos romperão
longe dos meus olhos.
Outras gerações conhecerão
o poema que escrevi
mas que nunca cheguei a conhecer.


RB. Vitória, 16-10-2016