18/06/2017

O BARROQUISMO DE LAS SOLEDADES DE GÓNGORA (Prof.ª Dr.ª Ester Abreu Vieira de Oliveira)

Una literatura difiere de otra ulterior o anterior menos por el texto que por la manera de ser leída
Resumo: Pretende-se apresentar o movimento histórico do século XVII na Espanha e a situação político/social que levou o poeta Luis de Góngora y Argote a compor a obra poética Soledades com uma estética elaborada e com um tema adequado às idéias de desilusão com a vida social e política da época.

Palavras chave: Poesia. Barroco. Góngora. Las soledades. Século XVII.

O século XVII foi para Espanha um período de crise política, militar, social e econômica que levou o Império Espanhol a diminuir a sua hegemonia política dentro da Europa. Felipe II, Felipe IV e Carlos II deixaram o governo da nação nas mãos de ministros, como o duque de Lerma, que procedeu, em 1609, a expulsão dos mouros e que teve entre muitos descalabros a ruína das terras de plantio do Levante, e como o duque de Olivares, que levou a Espanha para uma guerra de Trinta Anos, na qual o país sofreu graves derrotas militares. A produção cultural espanhola desse século, pela peculiar situação histórica, refletirá o desequilíbrio histórico com um desenfreado gozo dos prazeres ou com uma expressão de desilusão e desengano. A expressão da crise ideológica e da multiplicidade de estado de espírito do homem será chamada de arte barroca (barroco – significa pérola irregular ou pérola deformada).Assim, a estética barroca refletirá uma época profundamente angustiada, procurando revelar a procura de novidade, de surpresa, e o gosto pela dificuldade; pregando a idéia de que se nada é estável, tudo deve ser decifrado; mostrando a tendência ao artifício e ao engenho e apresentando a noção de que no inacabado reside o ideal supremo de uma obra artística. O período barroco, do final do século XVI ao final do século XVII, foi um produto da evolução das formas do Renascimento na estilização, dinamismo e excesso decorativo e se estendeu a todas as manifestações culturais e artísticas européias e latino-americanas (música, literatura, pintura, escultura e arquitetura), por uma radial desvalorização da vida presente e da natureza humana, e recebeu formas diferentes nas diversas esferas culturais e diversos países. Nesse período, a Reforma de Lutero e Calvino dividiu os cristãos Europeus e, na tentativa de evitar a perda de fiéis, a Igreja Católica criou instituições florescentes na Península Ibérica, como o movimento da Contrarreforma, que criou a Companhia de Jesus e fortaleceu a Inquisição. Por essas razões, enquanto a Europa evoluiu cientificamente, Portugal e Espanha permaneceram defensores da cultura medieval. E na Espanha, mais que outro país, as idéias da Contrarreforma estiveram profundamente enraizadas. Instalou-se na mente de todos a noção cristã do pecado original, surgiu o sentimento de um radical desengano e o conceito de que o mundo era um conjunto de falsas aparências. Contudo, no meio de idéia de desilusão, desengano e desconfiança, instalou-se um desenfreado deleite pelos prazeres sensoriais. Mas como o Rey Prudente, havia morrido (em 13 de setembro de 1598, no Escorial, que ele havia edificado e tanto havia amado), o freio, que sua presença mantinha, se havia partido. Nesse contexto social de mudanças, brilha a arte e a literatura barroca. Para representar o dinamismo da arte barroca buscam-se elementos truncados, linhas arquitetônicas partidas, arcos incompletos, traços ornamentais que se vão apagando, diferentes das linhas clássicas acabadas e perfeitas, e a literatura barroca, para mostrar a insatisfação social, apropria-se da linguagem expressa no exagero, usando figuras de linguagem (hipérboles, metáforas, anacolutos e antíteses). Se cotejamos a arte do século XVI, a renascentista serena e equilibrada, com a arte do século XVII, observaremos que se contrapõem. Por exemplo, os detalhes esculturais do tipo de Bernin, e a forma irregular das estrofes de Polifemo e de Las soledades (As solidões), de Luis de Gôngora, dentro de estética barroca, estão repletos de dinamismo. Enquanto há equilíbrio medido renascentista, nos 10 cantos de Os Lusíadas, de Camões, ou na ordem pictórica clássica e no fundo de paisagem à maneira de Rafael ou de Rubem, na qual podemos inserir a Égloga, de Camões, construída com elementos serenos e harmônicos,. Nessas obras de Góngora encontram-se violentos contrastes no bosque com forte calor que se opõe à sombra, à presença de fortes ventos, de abundantes e enormes árvores, que provocam a imagem de claro escuro, de alusões mitológicas e de faunos dominando a paisagem. Para que o escritor alcance imagens de movimento, os elementos naturais são metamorfoseados: mar, nuvem, crepúsculo – não do gosto romântico de penumbra e mistério, mas da busca da luz para captar as mudanças de movimento de cor, formas fugitivas a ponto de se desfazer e de se recompor. Mas não há nenhuma idéia de meditação romântica diante do entardecer, nem há o retorno da solidão do homem e nem o recolhimento baudelairiano (simbolista), mas um desejo de admirar o espetáculo do entardecer que se oferece e o desejo de poder reter uma parte da luz que dele emana. A idéia da água é um símbolo associado ao mundo e ao movimento. Em Soledad Primera, Gôngora harmoniza a natureza na imagem do oceano, dragão de ouro que investe com tíbia língua nas vestes do náufrago, lançando-o nas areias da praia, onde receberá os raios do sol do entardecer que o vai secando lentamente. (estrofe 5):
Desnudo el joven, cuanto ya el vestido
Océano ha bebido,
Restituir le hace a las arenas;
Y al sol le extiende luego, que, lamiéndole apenas
Su dulce lengua de templado fuego,
Lento lo embiaste, y con suave estilo
La menor onda chupa el menor hilo.
Na idéia de desequilíbrio e grandiosidade o poeta quer mostra a oposição entre a vida na aldeia e na corte e procura elogiar (“alabar”), a simplicidade, a autenticidade da primeira. São constantes as diferenças hiperbólicas, na descrição da plenitude das formas naturais. São muitos os contrastes como o da cor, na brilhante brancura da neve, na vermelha (“coral”) do sangue derramado das feras, numa paisagem abrupta, de montes nevados, onde um caçador fere animais, como o que se encontram nos versos da segunda estrofe de Soledades da parte em que o poeta dedica ao duque de Béjar (Soledad (Al Duque de Béjar- estrofe 2):
ﺃ O tú que de venablos impedido
―Muros de abeto almenas de diamante―,
Bates los montes que de nieve armados
Gigantes de cristal los teme el cielo,
Del cuerno, de eco repetido,
Fieras le expone, que ― al teñido suelo,
Muertas, pidiendo términos disformes ―
Espumoso coral le dan al Tormes!
No início de Soledade Primera há uma alusão ao engano de Júpiter, ao se transformar em touro para raptar Europa, para falar do mês de abril, principio da primavera, ocasião em que no Zodíaco o sol entra em touro (celeste) com os chifres adornados com uma luminosa meia lua no céu azul estrelado. (Soledad Primera – estrofe 1):
Era del año la estación florida
En que el mentido robador de Europa
― media luna las armas de su frente,
y el sol todos los rayos de su pelo ―,
luciente honor el cielo,
en campos de zafiro pace estrellas.
Há imagens hipérbolicas quando, em Soledad Primera, o poeta narra a acolhida que o peregrino náufrago recebe dos pastores. Ele destaca a vida simples pastoril, valoriza-a, moraliza com os constituintes de Narciso (ecos e fontes, etc) e faz a contrapartida da ambiciosa vida da corte, cheia de inveja., representada pela cobra egípcia. Com humor, com a metáfora da esfinge, símbolo da simulação, do engano, critica a presunção das mulheres da corte que colocam defeitos em todos os rapazes. Essa inclinação ao chiste é uma característica conceitual de Gôngora. (Soledad Primera – estrofe 12):
No en ti la ambición mora
Hidrópica de viento,
Ni la que su alimento
El áspid gitano;
No la que, en bulto comenzando humano,
Acaba en mortal fiera,
Esfinge bachillera,
Que hace hoy a Narciso
Ecos solicitar, desdeñar fuentes;
Gôngora recolhe da mitologia as mais belas imagens para as suas referências do real. Assim é que fala de Júpiter touro para roubar a Europa, mas lhe coloca chifres dourados. (Conf. estrofe 1 – Soledad Primera). São muitas as alusões mitológicas nas obras de Gôngora e essa compreensão para nós, que não mais as utilizamos, torna difícil a leitura de seus versos, pois ele não se contenta em citar o mito, mas o transforma ou lhe dá uma de suas características de mais destaque. Assim, ao falar ao falar da inveja palaciana, de uma pessoa má, alude à áspide, uma serpente (Soledad Primera). Enquanto muitos escritores de sua época compunham numa chave bíblica e católica, Gôngora estabelecerá a sua hermenêutica a partir do mundo pagão. Por exemplo, em Soledad Primera para sugerir a densidade e excelência do leite que os pastores oferecem ao náufrago pela manhã ele se refere à concha (cuchara) de Alcimedón, e para indicar a brancura do leite, coloca um enfrentamento de alvura entre o leite e o rosto da Alba (estrofe 15):
Leche que exprimir vi ola Alba aquel dia
- Mientras perdían con ella
Los blancos lilios de su frente bella –
Gruesa le dan y fría,
Impenetrable casi a la cuchara
Del viejo Alcimedón invención rara.
Em Soledad Primera, para descrever a tranquilidade do amanhecer cita a deusa Alba (Aurora) a de rosto tranquilo (estrofe 18):
Durmió y recuerda al fin cuando las aves
- Esquilas dulces de sonora pluma
Señas dieron suaves
Del Alba al sol que el pabelón de espuma
Dejó, y en su carroza
Rayó el verde obelisco de la choza.
Para reforçar o tema da hipocrisia da vida palaciana e da sinceridade da vida pastoril, aproveita-se da lenda das Sereias (Soledad Primera – estrofe 13):
Tus umbrales ignora
La adulación, Sirena
De reales palacios, cuya arena
Besó ya tanto leño,
Trofeos dulces de un canoro sueño
O nome de Luís de Gôngora y Argote (1561-1627), criticado em sua época, pela afetação do estilo, que gerou o "gongorismo", e admirado pela aristocracia e latinistas, no século XX, alcançou expressiva ressonância em todo o mundo. Desde os escritores espanhóis da Geração de 27, e os estudos aprofundados de Damaso Alonso, e a consagração que dele fizeram os simbolistas Verlaine e Mallarmé, tornou-se um mito do gongórico. Gôngora, senhor de dois estilos, um claro, simples, popular e outro culto, retorcido, obscuro, oriundo da nobreza de Córdoba (Espanha), iniciou os seus estudos aos quinze anos na Universidade de Salamanca, matriculou-se em Cânones e estudou Direito, Humanidades e Matemáticas. Em 1580 foram impressos os seus primeiros versos e começou, pouco depois, a tornar-se famoso. Embora tenha recebido ordens maiores, nos seus costumes, Gôngora não parecia um clérigo, pois se relacionava com a gente do teatro, era homem de paixões, amante do jogo e dos touros.. Quando já obtivera renome na poesia, ordenou-se padre, aos 56 anos de idade (1617), e foi ser capelão do rei Felipe III e cônego da Catedral de Córdova. No final de sua vida ele se desligou completamente da rotina palaciana. Há duas obras primas de Gôngora: uma poesia renovada: Fábula de Polifemo y Galatea (1612), fábula mitológica, em oitava real, que continha o tema das Metamofosis de Ovídio e predominavam o exagero, o dinamismo e o contraste, e Soledades (1613), poema concebido para louvar a natureza que causou um grande escândalo na época pelo seu atrevimento. Também escreveu sonetos, mais de 200, de grande beleza pictórica, canções, odas, composições leves e romances e soube ser simples em seus versos sentimentais ou maliciosos. No seu estilo artístico-popular, ou tradicional, predominam as formas de metro curto, letrilhas, endeixas, romances, letras para cantar em redondilha. Gôngora, como muitos poetas de sua época, não editou a sua obra. Depois de sua morte, em, dezembro de 1627, Juan López de Vicuña, amigo seu, publicou um volume de sua lírica, com os dizeres; Obras en verso del Homero español que recogió Juan López de Vicuña. Depois desta publicação, muitas outras apareceram e muitas delas comentadas. Dámaso Alonso, poeta y crítico espanhol do século XX, fez um estudo da obra de Góngora e apontou as inovações de ordem sintática os hipérbatos, próprios da sintaxe latina, destacando a beleza e o valor de cada palavra, os acusativos gregos e os ablativos absolutos, que oferecerão ao período uma obscuridade que se contraporá com a claridade do tema. Federico García Lorca na conferência “A imagem poética e Góngora”, que fez por ocasião das comemorações do tricentenário pela morte de Gôngora (1980, 1 v, p. 1038) declara que: La originalidad de don Luis de Góngora, aparte de la puramente gramatical, está en su método de cazar las imágenes, que estudió utilizando sus dramáticos antagónicos por medio de un salto ecuestre que da el mito, estudia las bellas concepciones de los pueblos clásicos y, huyendo de las montañas y de sus visiones lumínicas, se sienta a las orillas del mar, donde el viento
Le corre en lecho azul de aguas marinas,
torqueadas cortinas.
Literariamente Gôngora teve dois inimigos: Lope de Vega e Francisco de Quevedo. O último o atacou muito duramente com constantes insultos. Gôngora é o poeta castelhano que melhor consegue a criação de uma linguagem poética, enriquecendo o léxico com palavras latinas e gregas. Ele soube unir a imaginação e a inspiração como poucos. Confere aos epítetos um singular valor evocador da emoção pura e possui um sentido sonoro da palavra que aumenta a sua eficácia ornamental. A Fábula de Polifemo y Galatea, de gosto plenamente culterano, escrita em oitavas reais, desenvolve o tema clássico dos amores do ciclope Polifemo e da ninfa Galateia. É o poema de Góngora que melhor apresenta o seu culteranismo, com base no uso frequente do mais violento hipérbato, descrições exuberantes da natureza, alusões mitológicas, riqueza metafórica e estranhos neologismos.
Quando Gôngora escreveu as Soledades, obra inacabada e considerada pr alguns críticos a mais difícil da literatura universal, estava num retiro campestre. Pretendia escrever um grande poema da natureza composto em silvas (versos heptassílabos - redondilha maior- e endecassílabos que rimam em consoante livre, podendo deixar versos soltos sem rima), dividido em quatro partes, correspondentes cada uma à alegoria a uma idade da vida humana e a uma estação do ano. Ele pretendia chamar essas partes de Soledad de los campos, Soledad de las riberas, Soledad de las selvas e Soledad del yermo. Todavia, Gôngora só compôs a dedicatória ao Duque de Béjar e as duas primeiras Soledades, deixando incompleta a segunda, da qual os últimos 43 versos foram acrescentados bastante tempo depois. A primeira Soledad consta de 1031 versos e, o “fragmento” da segunda, 979 versos. A rima utilizada, em silvas, não era nova, mas era a primeira vez que se aplicava a um poema tão extenso. A sua forma, de caráter antiestrófico, era a que dava maior liberdade ao poeta que, dessa maneira, se aproximava cada vez mais do verso livre, e fazia progredir a linguagem poética até extremos que só seriam alcançados pelos poetas parnasianos e simbolistas franceses do século XIX.
Valbuena Prat (1960, p. 227) considera esse poema como uma grande lição de poesia o tema do solitário era de gosto barroco e derivado dos motivos do renascimento do século XVI, mas renovado na tristeza e evasão, motivo prerromântico. Esse tema é menos importante que o lirismo narrativo e palavras e as imagens evocadas das Soledades. O argumento se inspira num episódio da Odisseia, o de Nausícaa: um náufrago jovem, desprezado pela amada, chega às costas de terra desconhecida e é recolhido por uns cabreiros com simplicidade e cortesia e muito maiores que as encontradas nos palácios entre os nobres. Passa a noite na rústica casa onde viviam e pela manhã continua a sua caminhada e encontra um grupo de montanheses que iam para umas boas e levavam muitos presentes.
Para narrar a chegada do náufrago à noite numa praia, o poeta, na segunda estrofe da Soledad Primera, menciona Arión, poeta e músico grego que foi jogado ao mar por piratas e salvo pelos golfinhos enfeitiçados por sua lira (Soledad Primera – estrofe 2):
En campos de zafiro pace estrellas,
Cuando el que ministrar podía la copa
A Júpiter mejor que el garzón de Ida,
- Náufrago y desdeñado, sobre ausente –
Lagrimosas de amor dulces querellas
Da al mar, que condolido,
Fue a las ondas, fue al viento
El mísero gemido
Segundo de Arión dulce instrumento.
Gôngora pinta a aldeia de pescadores como um paraíso terrestre, louva a vida simples e a fartura que nelas havia com as mesas fartas de alimento. Com esse recurso, destaca a diferença das mesas vazias de alimento da cidade, comum na época de crise e, muito a seu gosto, enumera a vida benfazeja dos pescadores.(Soledad Segunda – estrofe 28):
La comida prolija de pescados,
Raros muchos, y todos no comprados,
Impidiéndole el día al forastero,
Con dilaciones sordas le divierte
Entre unos verdes carrizales, donde
Armonioso número se esconde
De blancos cisnes, de la misma suerte
Que galinas domésticas al grano
A la voz concurientes del anciano.
Descreve a hospitalidade dos pescadores, compara o pai familiar a Nereo e para descrever a beleza de suas filhas (as seis Nereidas), numa metáfora oposicional, na qual o mar é estrela e a estrela, mar, as compara a estrelas e a espumas do mar, numa alusão a Vênus, filha da espuma (Soledad Segunda - estrofe 26):
[...] En la plancha los recibe
el padre de los dos, émulo cane
Del sagrado Nereo, no ya tanto
Porque a la par de los escolhos vive,
Porque en el mar preside comarcano
Al ejercicio piscatorio, cuanto
Por seis hijas, por seis deidades bellas
Del cielo espumas y del mar estrellas.
Gôngora vai colocando, nas silvas, os versos italianos, uma sobrecarga de imagens visuais e auditivos, para valorizar o estético decorativo e para destacar o contraste . entre o humano e a natureza. Nota-se, nesse louvor à vida da aldeia, que houve uma intenção de escrever um poema pastoril que Gôngora se alimentou nas Bucólicas de Virgilio, nas Metamorfoses de Ovídio e, principalmente na Égloga II de Garcilaso de la Vega. A maravilhosa natureza arcádica onde o homem é feliz, que Gôngora recria é materialista e epicúrea. Com o recurso da ilusão e do poético, Gôngora procura fazer desaparecer os elementos feios e desagradáveis da vida, dando a ela a atmosfera pastoril da idade dourada virginiana. Em Las Soledades, Gôngora desenvolve o culteranismo com base no uso freqüente do hipérbato e de descrições exuberantes. O valor dessa obra reside no fausto de seus adornos, no brilho de suas metáforas, nos efeitos de luz, de cor e de música e na elegância de sua linguagem e, logo, pelo amor ao belo objetivo, puro e inútil.
Já terminando, ilustramos com o que opina Federico García Lorca sobre a estética gongórica (1980, p. 1037):.
Mientras que todos piden el pan, él pide la piedra preciosa de cada día. Sin sentido de la realidad real, pero dueño absoluto de la realidad poética. ¿Qué hizo el poeta para dar unidad y proporciones justas a su credo estético? Limitarse. Hacerse. Hacer examen de conciencia y, con su capacidad crítica, estudiar la mecánica de su creación.
Un poeta tiene que ser profesor en los cinco sentidos corporales. Los cinco sentidos corporles, en este orden: vista, tacto, oído, olfato y gusto. Para poder ser dueño de las más bellas imágenes tiene que abrir puertas de comunicación en todos ellos y con mucha frecuencia ha de superponer sus sensaciones y aun de disfrazar sus naturalezas. Así puede decir Góngora en su Soledad Primera:
Pintadas aves – cítaras de pluma...
coronban la bárbara capilla,
mientras el arroyelo para oílla
hace de blanca espuma
tantas orejas cuantas guijas lava.
Concluímos que acertado é o aforismo de que o meio modifica o homem, pois a conturbada situação socio/política do século XVII, sem dúvida, foi a alavanca que provocou a estética elaborada, ou o barroquismo, de Gôngora.

REFERÊNCIA
ALONSO, Damaso. Poesia espanhola. Ensaio de métodos e limites estilísticos. Direc. Celso Cunha. Madrid: Instituto Nacional do Livro, 1960, p.287-295.
GARCÍA LORCA, F. OBRAS COMPLETAS. Recopilación, cronología y notas de Arturo del Hoyo. Prólogo de Jorge Guillén. Madrid: Aguilar, 1980, 1 v.
GONGORA Y ARGOTE, Luis. Disponível em: http://www.cervantesvirtual.com
VALBUENA PRAT, Ángel. Historia de la Literatura Española. Barcelona: Gustavo Gili, 1960. 2 v..

Ester Abreu Vieira de Oliveira
Ester Abreu Vieira de Oliveira nasceu no município de Muqui, no Estado do Espírito Santo, em 31/01/1933. Veio para Vitória onde obteve os títulos de Bacharel e Licenciado em Letras Neolatinas. Recebeu votos de louvor em 1981, 1995, 1997 e 1999 da Câmara Municipal de Vitória; 1985 do Centro de Artes da UFES; 1986 e 1988 do Colegiado do Departamento de Línguas e Letras; 1994 dos Formandos do Curso de Letras - Português; 1995 da Embaixada de Cuba e do Conselho Universitário - UFES; 1996 do DLL-Ceg-UFES, Nome ao Prédio de Idiomas - Ester Abreu Vieira de Oliveira; 1996 e 1997 da Câmara de Pesquisa PRPPG - UFES; 1997 do Departamento de Admissão à Graduação - DAG/Prograd; 1997 da Câmara Municipal de Vitória Estado do Espírito Santo - Departamento de Atividades Legislativas, 1125/97; 1998 do CNPQ, Of. Pre 1597/98 Brasília 26 de outubro, como pesquisadora; 1998 da Casa da España do Estado do Espírito Santo. Recebeu homenagens de várias entidades em: 1983 - Prêmio Publicação DEC - para o livro Momento; 1985 - Menção Honrosa da Academia Espírito-santense de Letras no Concurso de Poesia Alvimar Silva para o livro Momentos; 1986 - Prêmio Publicaçãoda Shogum Arte para a antologia Poetas Brasileiros de Hoje - poema "Pássaro na gaiola"; 1987 - Medalha de Ouro - UFES pelos serviços prestados; 1992 - Prêmio "Miguel Hernández", instituído e promovido pela Consejería de Educación da Embaixada da Espanha no Brasil e da Associação de Professores de Espanhol do Estado do Rio de Janeiro, sob o pseudônimo de Josefina Nogueira com o trabalho monográfico "Miguel Hernández": aspectos de sua vida e época; 1995 - Indicação como candidata da UFES para o Prêmio Internacional da Universidade de Salamanca "Elio Antonio de Nebrija"; 1996 - Participação no IX Concurso de Poesia; 1996 - Academia Petropolitana de Poesia Raul de Leoni com a poesia "Saudade em uma fria madrugada; 1996 - Medalha Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo por participar da Comissão Julgadora do Concurso de Monografias; 1999 - La Presa de la Tortuga de don Juan, "símbolo de la paciência en el difícil arte de la seducción" recibida da Fundación Cultural Don Juan, A.C. Zapopam, Jal. México; 1999. Participou de vários encontros, jornadas e seminários, como debatedora, coordenadora, de mesas redondas, conferencista, representando o Espírito Santo, a Universidade, no país e no estrangeiro. Assumiu cargos administrativos: de direção, chefia, e coordenação. Participou em Bancas examinadoras no Estado e fora dele. Idealizou e coordenou vários cursos e congressos, oferecidos à comunidade. É membro fundador da Associação de Professores do ES e sua Presidente por três biênios. Faz parte de instituições internacionais e capixabas , tais como Academia Feminina Espírito-santense de Letras onde ocupa a cadeira n.31 cuja patrona é Vilma Almada é também membro da Academia Espírito-santense de Letras onde ocupa a cadeira nº 27 cujo patrono é Afonso Cláudio de Freitas Rosa, do Instituo Histórico e Geográfico do Espírito Santo e membro fundador da Associação de Professores de Espanhol - ES, Associação Brasileira de Hispanista, Associación de Lengua y Filologia de América Latina,da Associação Brasileira de Literatura Comparada, de Trois Culture Méditérranée, da Associação Internacional de Hispanista e é titular da Câmara de Literatura do Conselho Estadual de Cultura e da Comissão de História na Lei Rubem Braga. Recebeu o título de cidadã vitoriense em 1995. Colaborou intensamente em livros, revistas e jornais com textos didáticos, ensaios e poesias.

13/06/2017

TRANSLUZIR (Renata Bomfim)

Tudo se dissolve ao sabor do momento
No instante, tudo se desfaz.
O que era, já não é mais
O que fui, sou e serei
aquarela!

Elogio da sombra em dez atos concretos (Renata Bomfim)

I
É demais!
O que?
Essa dor parece rasgar as entranhas.
Toma um remédio e vai dormir.
Dormiria, sim, se pudesse.
Fecharia os olhos e voltaria a abri-los, apenas,
Quando fosse outro o mundo.
Você só fala bobagens! A gente é o que é, acabou!

Sombras. 
Passo pela cidade observando as sombras.
O sol desenhou no pinheiro uma bastante engraçada, parecia uma peruca de palhaço.
Caminhei pelo centro observando os casarios, vi memórias
Projetadas na rua, nos prédios vizinhos que se erguiam felizes e fumês.

As sombras.
Elas passam despercebidas aos demais, por que se impõem aos meus olhos?
Senti um calafrio. Pensei que poderia ser alguém que não está mais aqui.
Mas como isso pode ser possível?
Claro que é possível.
Mas...
Mas nada, mas tudo. Dissolvemo-nos, entretanto, permanecemos aqui, é uma desgraça, porém, uma condenação merecida. Precisamos aceitar a sombra antes que ela nos renegue.
Mexo nos cabelos. As madeixas e as sombras, nesse momento, se tornaram o centro da minha vida. As sombras não podem ser pintadas, mas os cabelos sim, por isso eu os coloro sempre, como se esse gesto simples e estúpido pudesse mudar a cor da mente (densa e cinzenta como as sombras).

II
É preciso coragem para enxergar a sombra. Ela sabe, aproxima-se sorrateira como um crocodilo grande. 
Para com essa história de sombra, cansei de escutar.
Tudo bem, mas que as sombras estão vivas, ah! Estão sim. 
Ok, já entendi, vou perguntar para a minha sombra se ela deseja ir a Camburi, certamente recusará. 
Olho para esse ente que enxerga apenas a densidade e sussurro: você é uma sombra!

III
O sol rasgou o céu essa manhã, lindo!
Já não acredito em prelúdios e vivo, agora, no ritmo do acaso: samba do caos. 
Penso em plantar feijões que brotem e se elevem para além das nuvens, onde existe um castelo cheio de riquezas, e um gigante bobo. Logo vem à mente a imagem da sombra projetada do gigante. Imagino que ela cobriria parte da terra (sinto uma excitação), talvez essa sombra toda cubra a Ilha. Direi ao gigante onde vivo e ele se inclinará da nuvem para ver Vitória: o povo capixaba não vai entender o fenômeno. 
O céu matutino já foi alinhavado, agora é tarde, hora de eu me desdobrar como um origami, de deixar as leituras fantásticas, me despedir de Goya: Saturno venceu! Viu, estimado pintor, não adiantou pintar sombras sobre o muro, a fantasia sempre vence, a tela aprisiona as imagens selvagens alimentando-as com branco e ocre. Vou cuidar do muro da minha casa, na verdade esse muro é feito com grades, a sombra pode passar, mas, nunca se projetará inteira. Vou cozinhar feijão.


IV
Preciso de ti,
De tua mão sobre a minha,
Preciso de ti.
As cantigas de criança rondam o meu coração,
Os ouvidos estão encharcados de melodias saudosas.
Um torrão de açúcar derrete na boca,
A garganta só conhece o amargor.
Preciso de ti sem precisar de ti.
Escolhi te desejar por medo do vazio.

Olho as mãos movidas pelo tempo,
Os dedos ensaiam atos concretos de vazio.
Tuas mãos projetam lindas sombras
Imagino o espetáculo de imagens que se formariam se elas soubesse bailar, se não fossem tão duras. Sim, não são apenas os pés que dançam, as mãos são dançarinas natas. As tuas estão endurecidas porque estás surdo para as cantigas de criança.
O quanto lamento. Perdeste as carnes e o sangue, te tornaste Carrara.
Lamento, mas, ainda assim, te admiro.

V
Abri a última gaveta do guarda-roupa e achei um lenço rock end roll  comprado numa feirinha no Chiado. Lisboa é considerada uma cidade de luz. As pedras são tão brancas que parecem templos. Parece que os lisboetas vivem num eterno exercício de adoração ao sol e exorcismo das sombras.
Sempre fui mulher das sombras, enamorada da luz. Os cantinhos dos cristais, velas, incensos, orações dobradinhas, cartas queimadas em oferenda aos senhores do Karma, o espelhinho na parede violeta. Tudo isso de um lado, do outro, o tercinho, a bíblia, os cânticos: um mimo!
O meu lenço de caveirinhas é lindo: imita seda, é de um rosa meio século XIX, tem algo de aristocrático e decaído. O lenço é lindo e é meu! Lembro que passeei com ele na Espanha e no Marrocos, ninguém viu, acredito, mas passeei com os cabelos pintados, o lencinho rock end roll meio século XIX e a mente cinzenta e fértil. Gaveta fechada. 

VI
A sombra dos poderosos é o desassossego do grande vazio. Não o vazio prenhe de possibilidades, mas o oco, o buraco, boca que nunca se sacia. Sim, o poder é a fome insaciável de tudo. Entre quatro paredes, para os poderosos, a mulher é um banquete, fruição dos sentidos, presa. Fora da intimidade eles rechaçam a mesma mulher: a fome é a mesma. Pulsão, pulsão, pulsão... tudo explicado, menos o buraco insondável que arrasta os poderosos que nos arrastam para o buraco.

VII
Vai buscar o raio de luz,
Vai buscar o pêssego maduro.
Anda e canta pelo caminho,
Os pássaros te acompanharão.


VIII
Sou uma mulher barroca, pictórica e trágica.
Por isso comprei uma matriosca. Sempre quis ter uma dessas bonecas russa. A minha matriosca é um tanto difícil de abrir,¾ rio enviesado¾, talvez por isso ela se pareça tanto comigo. Pego delicadamente a bonequinha (eternamente grávida de si mesma) e a torço com um jeitinho. Eis que ela reaparece, menor, mas igual (filhotinho de si mesma): oca, oca, oca... Novamente, torção delicada e, opa, que lindinha, outra, depois outra, depois outra, até que chego a uma versão miudinha e maciça, que não se abre mais (o sorriso agora é miúdo e maciço como a boneca). Sinto como se chegasse ao fundo de mim mesma. A razão está imobilizada, percebo algo profundamente estranho, indefinível (compaixão, talvez), não sei, é como se essa matriosca fosse eu, ou como se eu fosse essa matriosca, talvez ainda, uma camada oca gestando outras camadas num sem fim. 

IX
Tem um casario antigo no centro da cidade. Sempre que passo por ele aceno para a moça na janela. Nunca a conheci pessoalmente, ela deve ter cerca de dezesseis anos. Há mais de vinte anos passo na frente dessa casa, a moça continua com dezesseis anos. As vezes ela usa um colar de pérolas. Imagino que a vida deva ser tranquila para essa amiga misteriosa, mas temo que ela se vá quando o casario for demolido pelo tempo. A imagem dessa desconhecida me persegue, é como se ela quisesse me dizer algo, mas o que? Será que apenas eu a vejo? É uma sombra serena, transparece inocência e solidão.
Deve estar cansada de bordar e tocar piano. A sombra por traz da janela tem algo a dizer, agora estou certa. O casario é antigo como nós.  

X
Jorge Luis Borges deu uma matriosca para a namorada bem mais nova que ele, mas,
deu-a escondido de sua mãe: para evitar ciúmes desnecessários entre as mulheres.
A jovem (“inocentemente”) esqueceu a bonequinha em cima da cômoda: incômodo!
A senhora adorou o mimo, sempre admirou o filho.
O "tempo da felicidade" é um mistério!
A felicidade é o raio de luz que atravessa a sombra viva e pensante, é o momento delicado da torção, da abertura e da exposição. Sorrio atravessado porque apenas o coração é capaz de dar sorrisos largos. Quando resta apenas o homem e sua alma, o coração sorri e todas as coisas do mundo fazem sentido.
Borges nunca conheceu a escuridão. A matriosca, misteriosamente, milagrosamente, se duplicava sempre que o escritor a desenroscava com um sorriso enviesado no rosto e outro largo no coração. Foi assim que as mulheres de Borges ficaram felizes e criaram uma irmandade capaz de construir e desconstruir labirintos. Borges nunca desvendou o segredo da boneca russa, mas, sentiu deleite naquilo que deveria aterrorizá-lo.

É preciso coragem para enxergar a sombra. Ela sabe, se aproxima sorrateira como um crocodilo grande. Eu não temo os animais de sangue frio, embora corra lava pelas minhas veias. Não temo o dia e nem a noite. Estou no centro do mundo, oca e maciça como a matriosca, compartilhando amor e palavras. 

O prazer de Salomé

O prazer de Salomé


X "No fundo não existe nada de realmente 
XXobsceno senão as pessoas castas" 

Depois de dançar
Ao som da lira negra
A réptil inviolada
Fez amor pela primeira vez.
Seu corpo era todo um jardim
Recém nascido da paleta de Moreau
Dos seus seios fatais brotavam
Safiras, ágatas, pérolas e rubís.
Salomé trazia no sangue a fúria
De Herodíade e a morte
Nos olhos de prata.
Naquela noite
Feita de angústias estéreis
(e solitárias)
Dois homens perderam
A cabeça.

renatabomfim

11/05/2017

A Guerra entre os Lunares e os Terrenos (Oscar Gama)

Para Alex e Sil
É eterna e inadiável a guerra,
Nunca se encerra nem erra.

Os anos passam e nós aqui ainda,
Tentando encontrar o sentido da vida.
Pelejando para que o sopro da luta árida
forneça corpo e luz para o que se esvazia.

A dúvida de todo o tempo que passamos juntos
fará perguntas belicosas para a lua que a saúda.

Mas a lua navega, pela Proa cega,
Sem o piloto para mudar sua rota errante.
Mesmo errando todas as respostas, segue avante:
O exército astral, que a persegue, incansável,
Obriga-a a tocar sua vida para adiante.

A lua é a retífica
de sua própria vida,
E, cheia de si mesma, se motiva e brilha
em tom de batalha e de piada.


Se a lua também é a retífica
de nossa alma sofrida,
Como tocá-la sem olhá-la nem matá-la,
Tal como fazemos com a paixão consumida?

A lua brilha e sua paz nos retifica
para algo além da humana lida,
Aconselhando-nos a sobreviver e a manter o bom humor.

Respondem, assim, seus raios descendentes, a nós:
Sem o bom humor, não vale a pena viver.
Se não vivermos, como ter algum humor.
Casamar, 7 de maio de 2017


10/05/2017

Plantar rosas (Renata Bomfim)

Pouca coisa faz tanto sentido
quanto plantar rosas...

Penetrar os dedos na terra úmida
Mergulhando numa ancestralidade
Profunda, obscura-luminosa onde 
Tudo é e não é.

Perfume e cor conjugados 
Arrancam  sorrisos 
mesmo quando os olhos
querem regá-la com lágrimas.
                         
Pouca coisa faz tanto sentido
quanto plantar rosas.

Tímidas, pálidas, pétalas sedosas
A roseira arranha as minhas mãos,
desafia as obras no jardim, as podas,
Resistindo à chuva e ao vento. 


Renata Bomfim
Vitória, 10-05-2017

Palestra na FLIC 2017: "Leitura e Escrita Criativa na Educação Socioambiental" (com a prof.ª Dr.ª Renata Bomfim)


Gostaria de convidá-los para a palestra "Leitura e  Escrita Criativa na Educação Socioambiental", que será ministrada por essa amiga de vocês na Feira Literária Capixaba (FLIC/2017) no dia 20/05, ás 10:30 horas/ auditório do CCE/UFES. Nessa palestra falarei sobre experiências vivenciadas com oficinas terapêuticas em serviços de educação informal e sistema básico de saúde.
Será uma alegria a sua presença!
Link para a programação completa.

Um Psicanalista Gramatical (Oscar Gama Filho*)


Os Estudos Sobre o Pronome, de José Augusto Carvalho, lançados em 2016 pela Thesaurus Editora, apresentam inúmeras colaborações para o complexo problema do pronome na língua portuguesa. De fato, é obra sem igual, de ineditismo que me parece absoluto na área. Desconheço similar que ataque e esgote todos os ângulos do pronome, esclarecendo tudo que as gramáticas comuns relegam a um segundo plano.
Em uma seara onde a impressão é de que se trata de um tema esgotado, há surpreendentes novidades a respeito das funções do pronome. Ele tenta, utilizando uma teoria  chamada "das ondas", ou de "conflito de regras", explicar o emprego de ele e de eu como objetos diretos, o emprego de si-consigo não reflexivo e a confusão entre os demonstrativos este e esse,  a mistura de tratamento como recurso de estilo e o emprego da 3ª pessoa do singular em português, francês e alemão como pronome de tratamento.
O início do livro é uma resenha das obras portuguesas e brasileiras que estudaram o pronome pessoal. Também fala, citando exemplos de textos diversos, da sintaxe complicada  do dialeto caipira, que muita gente pensa que é simples demais, que é só conjugar o verbo de maneira igual em todas as pessoas, exceto na primeira. 
 Após a leitura dos Estudos sobre o Pronome, então enxergo a terrível verdade: por séculos os gramáticos da língua copiaram os erros uns dos outros, perpetuando-os.
Deve ser por causa disso que Guimarães Rosa e Monteiro Lobato desenvolveram uma ortografia própria — a oficial é logicamente incompreensível e insatisfatória, como evidenciam os achados de Zé Augusto.
Já tive a oportunidade de assistir, como ouvinte, a aulas de Zé no segundo grau do Colégio Estadual de Vitória, na companhia do então aprendiz de poeta Miguel Marvilla. Seus exemplos inusitados e cômicos, o improviso, a segurança, a fluência gramaticalmente e teatralmente infalível de frases, transformavam assuntos áridos e insossos em algo tão sensacional quanto um poema de Drummond. Geravam a sensação de estranhamento, que, aprendi também com o professor, consiste na sensação do homem diante do novo, segundo os formalistas russos.
Torna-se, assim, um psicanalista gramatical, na medida em que suas interpretações mudam o sistema gramatical inconsciente que é o motor computacional da língua — tal qual a interpretação psicanalítica estabiliza o sistema psíquico humano. A fala é a expressão consciente dessa massa bruta inconsciente de que (o consciente) é pura expressão em variantes dialetais.
Zé não almeja a beleza da verdade. Pois a verdade da perrengue gramática portuguesa é feia de doer. Ele pretende a verdade da beleza, entrevista pelo cristal quintessencial que vibra com a força do sentido do sistema gramatical dentro de nós. Softwares e programas incompreensíveis, cujo sentido desconhecemos, mas de onde emana a língua.
Um dia, ele me disse na lata: “em nossas origens, eu sou um gramático; e você, um poeta. Você quer ser original no desvio da norma e eu o denuncio. Ambos –gramático e poeta – se  complementam no poema da vida e não existe um sem o outro”. E citou Clarice Lispector: ela contava a história de um crítico que sabia todas e regras e truques e, por isso, não conseguia produzir literatura — o que não é o seu caso, genial e renomado ficcionista também.
A língua (langue), segundo Saussure, é um “tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade, um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro” (apud Jonathan Culler, As Ideias de Saussure, São Paulo, Cultrix, 1979, p. 23).
Quando José Augusto melhora o sistema gramatical, está, na verdade, eliminando vírus no computador humano, estabilizando o sistema por meio de um upgrade e aumentando o alcance do pensamento em português, pois ninguém pensa além da linguagem, que é o código decodificador do real.
É a seguinte operação: o sistema gramatical gera a língua (langue), que possibilita a melhoria da fala (parole) e o alcance da linguagem, que, por sua vez, amplia a abrangência e a penetração do pensamento brasileiro: as sujeiras no sistema gramatical inconsciente impedem a clareza que o raciocínio pleno demanda e requer para expressar o novo e o real.
Quem de vocês, leitores, conhece alguém que, além de ler dicionários — o que já é raro —, encontra erros incontestáveis neles por 40 anos seguidos? Isso tudo sob os meus olhos insipientes, abismados ante o show maravilhoso empreendido por este virtuose durante os quarenta anos de nossa amizade.
Sim, um amigo que é uma máquina de escrever ambulante sustentada por um corpo-cavalo cuja  missão é apenas carregar a mente privilegiada do escritor José Augusto Carvalho: as suas melhorias  no sistema gramatical o eternizam, por  seu projeto ampliar o alcance do pensamento em português. 
Casamar, 26 de março de 2017
*Psicólogo e escritor


Quem Está no Controle? Teorias da Conspiração na sociedade (Oscar Gama Filho*)


Teorias da Conspiração são hipóteses e conclusões que denunciam como falsos e perniciosos os mais diversos eventos. Eles seriam parte ou originados de um plano desconhecido e maquiavélico, com finalidades malignas que a maior parte das pessoas ignora. Muitas de suas ideias e deduções são absurdas, mas algumas de fato acabaram por ser comprovadas com o passar do tempo e com o avanço tecnológico.
         Mas como se formam no inconsciente?
         A sua base estaria em fantasias de perseguição. Considerando o consciente como o lugar psíquico da realidade e da razão, o inconsciente consistiria no domínio contrário, sede do irreal, da fantasia, dos sonhos, das emoções, dos desejos, dos impulsos, dos instintos. Ambos são separados por uma barreira semipermeável e seletiva, que permite a passagem de material do inconsciente para o consciente, em qualidade e quantidade reduzidas. As fantasias persecutórias seriam uma espécie de “pesadelo acordado”, em que um aumento da permeabilidade da barreira permite uma invasão do consciente pelo inconsciente. Esse processo introduz nos indivíduos uma Teoria da Conspiração amoral, alógica e surreal, típica do processo primário que rege o inconsciente.
É interessante observar que as Teorias da Conspiração funcionam segundo o processo primário, que governa o inconsciente de acordo com o princípio do prazer. O discurso do Brasil pretende operar estruturado pelo processo secundário: o princípio da realidade. O que é falso, pois, tal como as Teorias da Conspiração, qualquer país do mundo está localizado na estrutura da psicose, da loucura. Na psicose, entre o ego e a realidade ocorre uma ruptura que deixa o ego sob o domínio do inconsciente. No momento posterior, o do delírio, o ego reconstruiria uma realidade, segundo os desejos do inconsciente, que poderia ser, por exemplo, uma Teoria da Conspiração ou qualquer outra coisa.
Em suma, a Teoria da Conspiração permite a expressão de um material onírico, inconsciente, que ignora, destrói e viola as leis, a razão e a moral características do consciente. Na confusão espaço-temporal que instaura, reúne suprarrealidade e sonho em um novo contexto que possui o corte afiado da paranoia. Marcada pela fantasia que pula de seu esconderijo inconsciente e mascara as faces e os corpos, essa paranoia caricatural  instaura um protetor anonimato, anulando a identidade que o ego, o eu consciente, um dia possuiu.
Na medida em que a criatividade artística surge de nossas fantasias inconscientes, podemos dizer que o produto persecutório se torna personagem de uma arte em que ele é, simultaneamente, o artista, a própria arte e seu público. Em um reino assim, não há lugar para preocupações lógicas, objetivos ou pensamentos: vestida de louca, seu símbolo máximo, apenas mais uma na multidão, alienada em todos os sentidos, a fantasia de perseguição retorna ao útero, saúda a humanidade e pede passagem para as Teorias da Conspiração.
         Elas se multiplicam porque há um contágio psíquico pelo medo e pela paranoia que existem dentro de todos nós. A distinção entre o real e o imaginário é muito tênue. Somos, por certo, manipulados por mensagens subliminares em propagandas, enganados continuamente pelo governo, pelos políticos e pelas instituições e temos essa convicção.
         Seu impacto sobre as pessoas, individual e coletivamente, pode levá-las a uma histeria de massa ou a nada, dependendo do grau de credulidade e da estabilidade psíquica de cada um. Personalidades paranoides, psicopáticas ou psicóticas tendem a sofrer mais, pois seu distanciamento da realidade propriamente dita é maior. 
Mas apresentam uma positividade, pois várias delas desmascaram, de fato, situações que, se não estavam ocorrendo, viriam a ocorrer com o avanço da ciência.
         E agora surge mais uma linha da teia que alimenta as Teorias da Conspiração: a operação Carne Fraca. Ela se completa com a  alimentação cara e podre, a reforma da previdência, a greve da PM, os bandidos soltos, os professores mendigos, a tragédia do Rio Doce, as empreiteiras financiadoras de políticos corruptos. Enfim,  só a Lava Jato e a justiça salvam? “Ninguém respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”, profetizava Renato Russo em Que País É Esse?
          A explicação de sua dinâmica tenta contribuir para diminuir o Caos e o Terror vigentes, bem como a triste condição em que fomos lançados. A intenção é retratar o funcionamento da mente humana, bem como sua cooptação  pela  mesma histeria de massa que criou o nazismo, em que Donald Trump parece se inspirar. A luta é contra esse Caos, mas também pela imprensa livre, pela sociedade aberta e pela liberdade individual.   
         Ninguém pode tomar a lei em suas próprias mãos, nem deixar de cumpri-la, quando é o seu dever como policial ou juiz.  A vida em uma sociedade civilizada não se fundamenta na livre expressão nem na liberdade, mas sim na repressão. Sem ela, tornamo-nos menos que animais, pois eles não roubam, não mentem e  certamente cumprem o dever de sua rotina existencial.
         Freud e Marcuse, na intersecção de suas leituras da realidade, afirmam que a sociedade moderna se tornou possível pela repressão, não pela livre expressão ou pela liberdade sem freios. Um desejo absurdo não pode ser realizado: quem quer ir à Europa a nado e não tem medo de morrer? Os limites protegem o homem. Chegou o momento em que aqueles que lutaram pela liberdade, devem passar a lutar pelos limites, porque a barbárie está solta, e os valores foram perdidos e corrompidos.
         Então, sejamos libertários:  temos que nos posicionar contra tudo que é  libertinagem, contra a corrupção, contra a indiferença diante do próprio escândalo.  Contra a ausência de amor, de fé, de esperança, de educação, de justiça e de saúde. Renovemos, assim, nossos votos por um mundo melhor, para requerermos mais proteção, afeto, segurança, atenção, ética, caráter e valores morais humanistas. Um mundo capaz de aprender com as Teorias da Conspiração, fontes do novo, apesar de tantos erros.
         Contra Hobbes,  para quem “o homem é o lobo do homem”, dizemos que o homem é o anjo e o abrigo do homem, o abrigo da lupina escuridão sombria que nele reside e de que é moradia. Habitantes existem no não dos despossuídos. Somos nossa única esperança de acolher a contradição para crescermos.
         O presente é contínuo, maior do que sempre foi, alcança e altera o passado e o futuro, não nos afastemos tanto, não é necessário, vamos de mãos dadas.



Casamar, 26 de março de 2017
*Psicólogo e escritor