23/06/2010

A Educação pela pedra, de João Cabral de Melo Neto e a engenharia das palavras

João Cabral de Melo Neto é Pernambucano e nasceu em 1920. Parente de do poeta Manuel Bandeira e de Gilberto Freire, o poeta passou a infãncia nos engenhos de açúcar da família, mudando-se para Recife em 1930. Dão forma à sua obra  poética imagens características do sertão e de sua vivência no engenho: os retirantes, a cana de açúcar, as paisagens secas, animais e pessoas, experiências que  foram acrescidas com o seu trabalho como diplomata e por suas amizades. A educação pela pedra, foi publicado em 1965 e apresenta um rigor estético marcado pelas rimas tonantes, bem como como pela  regularidade dos traços visuais. São 48 poemas divididos em 4 partes , cada uma dessas partes com 12 poemas. A arqueitetura dessa obra reflete o seu planejamento, alguns poemas desdobram-se em outros, revelando contradições, como por exemplo, os poemas O mar e o canavial, e O canavial e o mar. JCMN dividiu-se entre o sertão e a cidade Espanhola de Sevilha, que adotou e cantou em muitos poemas. Os poemas Coisas de cabeceira, Recife e Coisas de cabeceira, Sevilha, há a poetização da vida a partir de objetos que dão forma a guardados da memória, ou seja, a própria memória torna-se responsável por organizar tais objetos para que não se percam e resistam à corrosão do tempo. O crítico Antônio Cândido destaca que "a poesia nasce de uma determinada realidade social". Assim, percebemos que o fazer poético de Cabral está intimamente ligado á memória. O símbolo pedra vincula-se a esta resistência ao tempo que é, também, uma obcessão para o poeta, que as reune para criar formas como em uma construção. JCMN estabelceu variados diálogos, tanto com profissionais do campo das letras, quanto de outras áreas, entre eles: Carlos Drummond Andrade. O poeta repudiava a música como modelo para a construção da linguagem e Drummond, com seu verso seco e contido, lhe abriu novos horizontes dentro da poesia. Murilo Mendes foi outra referência importante, com ele Cabral aprendeu o valor e o poder das imagens, optou pelo plástico ao invés da música, mas o poeta não se deixou levar pelo estado emocional, para ele o fazer poético não se submetia à inspiração e sim à construção sistemática. O rigor de mallarmé auxiliou Cabral na construção de uma linguagem organizada , bem como o construtivismo de Pablo Picasso e obra de Juan Miró, seu amigo pessoal. para JCMN "o poema é escrito pelo olho crítico", o que obriga o leitor de sua obra a racionalizar, o que o tira da condição passiva. O crítico José Catello diz que "JCMN soube herdar influências, mas soube com a mesma facilidade as jogar fora". O poeta possui um estilo único e próprio que pode ser observado na obra A educação pela pedra. Esta é tratada como anti-poesia (anti-lira), e mostra a maturidade do poeta e suas experimentações poéticas, obra marca o rompimento deste com o romantismo e o comprometimento com a arquitetura do poema. O poema Catar feijões, por exemplo, utiliza advérbios (ora, pois, certo) e construções para estruturar o texto. O poeta também utiliza como ferramentasno construto poético as aliterações, ou seja, a utilização de sons semelhantes, para dar ritmo ao poema e fugir da necessidade da musicalidade, um exemplo é o poema Tecendo a manhã. No campo do poema as palavras não se esgotam, elas vão sendo redefinidas e o texto ganha novos contornos, remetendo a outros textos. As palavras são dados concretos a serem trabalhados pelo leitor em um procedimento que se chama permutação: O canavial e o mar, O mar e o canavial. cabral rompeu com o mito da inspiração romantica, a poesia deixa de ser escrava do sentimento do poeta, tornando-se matéria prima que se submete a sua organização e ao rigor da sua construção.
Renata Bomfim
Doutoranda em letras-Ufes

O SEGREDO DO SUCESSO

Não despreze a natureza,
Não pise na grama,
nem arranque a flor, pois,
se você brigar com esses seres,
Será amaldiçoado e perseguido
pela fome, pobreza, dor.

O segredo do sucesso é simples
Semeie, plante, cultive:
amizades, flores, árvores, idéias...
Plante e acredite!
Sem fé, amigo, nada germina,
não há fotossíntese,
tudo morre, definha.

Anota esta dica:
Não arranque nem ervas daninhas,
pense que elas estão aqui
por  razão que desconhecemos
Talvez para nos ensinar que,
a perfeição não existe,
Que jardim bonito é plural:
alegre e triste,
florido na primavera e
sem folhas no tempo outonal.
renatabomfim

22/06/2010

Canção para Rubén Darío

Poeta do Azul quem te cantará?
Quem entrará na selva sagrada
para desembruxar o Fauno que,
surdo, já não escuta Orfeu?
Quem desvendará teus mistérios, eu?
Não! A América te cantará!
Não àquela, hipócrita com dentes de ouro, mas essa, a minha, a sua, a nossa América,central nos nossos corações, periférica
e excitada como os nossos sexos.
renatabomfim

18/06/2010

À sombra do Holocausto (Neida Lúcia Moraes)

Caros, a escritora Neida Lúcia Moraes lançará no dia 15 de julho de 2010 (quinta-feira), às 19 horas, o livro À sombra do Holocausto. A autora dará os autógrafos na Biblioteca Pública Estadual do Espírito Santo. Não percam!

Editora da Ufes lança Prêmio de Teoria e Crítica Literária (01/08 a 30/09)

Nota triste: Morreu Saramago

     Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
(Saramago)

17/06/2010

Gol de placa no Doutorado da Ufes...


Amigos, o bota fora no buteco do Ceará foi demais, Obrigada Eneida, Sofia, Dona Amélia, Ricardo, Fábio, Lu, Carol e Gabi, Ritinha e seu love, a também amiga doutoranda Andressa, a dona Carmem e aos seus convidados, enfim... exorcizamos... eheheh

15/06/2010

Dionísio

Na selva sagrada
os instintos afloram.
Cada planta, cada bicho, o ar,
tudo é vivo, tudo fala.
Do verde brotam
movimentos sinuosos
sussurros, risos...
É a ninfa que, do deus imponente,
bebe o vinho.
Ela se torna a própria taça
transbordante de desejos
Dionísio, a enreda, em desalinho,
arrastando-a, furtivo, por entre a relva,
para que desabroche caprichosa e perfumada.
Ela cede aos seus apelos e se deixa possuir.
Seu corpo agora é fluidez
entre suas mãos ásperas.
Ela se torna gazela, impiedosa,
a sua lança a transpassa.
Fustigada, ela quer mais...
Agora os dentes do deus a carne macia
adentram e marcam, signos são criados
com seus chifres reluzentes.
A ninfa ascende entre agonias
a selva orquestra gemidos de prazer.
Em êxtase comungam contentes.
Ela reverencia o deus pagão
pai dos seres desse reino de beleza
depois, descansa recordando o idílio,
até que a noite lhe cubra
com seu manto de prata.

renatabomfim

Despedida (poema para Lili)

Você está aqui comigo,
mas aos poucos,
como uma vela brilhante,
se apaga...
Quanta luz você fez, chama perfumada!
Quanta luz vertida sobre mim em cascata
sob forma de amor.!
Temo não ter mais fluidos
quando você se for,
apenas poemas encharcados.
Esta é a nossa despedida!

Amar é se esvair, eu acho,
É se esgotar devagarzinho...
me sinto reduzida.
Uma dor lancinante, querida,
parte daqui de dentro e se lança
do meu peito, raios errantes.
O que restará de mim depois de tudo isso?
Matéria seca?

Oh! Deus, por que comigo?
Por que com ela ?
Por que agora?
Porque assim, dessa forma?
Por quê? Por quê? Por quê?
Por que perdemos um amor
e precisamos agüentar, firmes, fortes,
quando a estrutura é frágil e ameaça ruir?

Estou olhando para você,
com doçura e atenção,
arrancando de dentro tudo o que é luz
para te ofertar com alegria,
em agradecimento
pelo tempo que você me dedicou,
pelos sorrisos que fez brotar no meu jardim.

Mesmo em meio à dor
eu te acolho nos meus braços
e canto: “fica, fica, fica...”
Mas o meu poder vai, somente, até aí:
cantar, cantar, cantar...
sou poeta.
Mas ponho no tempo ainda não cantado,
esperanças e novas letras, banho os versos
não criados com utopia e crio um não-canto:
“Vai em Paz, amor”.

renatabomfim

14/06/2010

Transição

Degradação: planeta devastado,
valores corrompidos, a fé só enxerga $.

Milênios de evolução tecnológica
Milênios de involução da consciência

Desaprendemos com as experiências
e depois dizemos: Oh! Deis, por quê?

Trememos frente a verdades simples
Nossas ações constroem o mundo.

Há  fuga em massa para a terra da ignorância
Mas esta também já se abala.

Quando os pólos, experimentais, se inverterem
e o dia chover raios luminescentes:

Vai nascer uma nova gente
Gente da era da luz!

Essas crianças benditas resgatarão o que perdemos
Saldarão as nossa dívidas.

Essa luz de esperança e esclarecimento
rebentará novas sementes.
renatabomfim

13/06/2010

LusoMundo: Entrevista: Maria Lúcia Dal Farra (UFS) fala sobre Florbela Espanca e a primeira república

Amigos, Dal Farra fala sobre a presença de Portugal nos poemas de Florbela, a simbologia da República na sua obra, as correspondências que manteve com intelectuais republicanos como Raul Proença. A crítica fala também da relação de Florbela com Antônio Guimarães, seu segundo marido, que era alferes da guarda republicana. 40 minutos de informação e encamento... IMPERDÍVEL!
2010-06-13 Jornal da República nº 22

12/06/2010

Cicatriz

Meu mundo é violento e com razão:
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.
(Diferença. Poema de Leila Míccolis)

Marca de Caim
De mulher
Sua e de mim
Colher
Flor
Bordado
Filha da puta
Filha da mãe
Clichê
Pavor
Porvir?

renatabomfim

10/06/2010

ARCANO DEZENOVE

Despi-me de tudo!
Foi difícil abrir mão da dor,
esquecer a solidão, o banimento.
Estava olhando o mar...
no horizonte, uma linha perfeita
como jamais serei.
Sou tortuosa!
Com esta visão, garatujei,
tornei-me esboço, cálice.
Estou pronta para a incerteza,
para assumir a imperfeição.
Este despertar é tão misterioso,
não sei como começou,
acho que foi escutando o silêncio.
Inunda a minh’alma
um sol de quinta grandeza,
eu te desejo toda, íntegra,
Terra amada, santa, Natureza!
Despi-me toda, sim!
para recebê-la.
Veste-me de lírios
Lilases e caprichosos,
respiro profundamente.
Quasares, buracos negros, estrelas,
tudo, tudo no céu me leva até você.
Conceda-me o dom de conhecer,
o desejo de saber um pouco mais,
a habilidade de agrupar e conceber,
a paciência para esperar,
e a paz, sim, a paz tão necessária.
Terra amada, a minha matéria,
de você toda feita, vibra e espera.
Não preciso mirar o céu para compreendê-la
chega de esperar redenção de tão longe,
há no teu leito descanso, frescor,
há promessas de amor, esperança, encanto...
Alguns homens não entendem isso.
Por esta razão, sem lógica,
que te oferto meu canto
e por todos nós peço teu perdão.

bairenatabomfim

08/06/2010

Jesus Cósmico

Eu sou Dele e Ele é meu!
Nos conhecemos há muitas eras
quando eu era uma plantinha inquieta
fazendo sombra e alimentando bois.
Nessa época, cada estrela eu conhecia
eu girava, girava...
a cada volta que sol fazia.
Lembro que cada célula vegetal do meu corpo
vibrava com a sua presença angelical.
*
Depois, por entre mistérios e forças,
me encontrei dura e brilhante, pedra,
me chamavam diamante.
Eu precisava aprender tantas coisas...
mas algo em mim resistia,
estranhamente, essa bruteza
encantava e seduzia.
*
Muitas sombras, fluxo, vertigem,
sentia meu corpo flutuando, bailarina,
conheci o mar, entre criaturas irmãs
que cantavam na maré: Água-Viva!
Em sintonia com os ciclos lunares,
seguimos juntos a poderosa voz do oceano,
e conhecemos muitos lugares.
*
Um menino fui também, pobre e alegre.
Nasci na seca, filho do agreste,
não sei bem do verde,
nem ouvi barulho de fonte.
Mas a barriga vazia conheci
aprendi que lutar é preciso,
quando escolhemos viver.
Acho que foi nesse lugar
que comecei a entender o perdão
Então,  perdoei a mim mesmo
por ser fraco, coberto de poeira e solidão,
Sob o sol, me acariciavas os cabelos
Em códigos celestiais sussurrava:
jamias te abandonarei!
Estavas sempre comigo
mesmo que o chão tremesse,
Ardesse o sol ou chovesse,
estavas alí, comigo...
*
Fui tantos e tantas que desconheço...
Trago gostos adquiridos,
alguns procuro esquecer.
Me lembro de coisas que preciso rever
Viva! posso fazer novas escolhas.
*
Anseio decodificar esta existência.
Qual o sentido da busca?
Veja que, a muitos séculos,
fui uma linda moça e passava
horas à esperar, por alguém à janela,
alguém que nunca chegava.
Outra vez, achei um tesouro,
com ele aprendi que a felicidade,
não se compra nem se vende
vale mais que prata e que o ouro.
*
Hoje sou os vestígios dessas vidas
e dessas mortes, vidas e mortes, e vidas...
e vivo e morro a cada dia.
Que privilégio, Ser amado!
Que honra ser este mosaico
ainda em construção,
obra do teu capricho e cuidado.
*
Me reúnes em partes conflitantes,
Me fazes sombra e luz,
assim reflito tudo o que existe
Não sou alegre e nem triste,
apenas sou!
Mistério dos mistérios!
*
Te amo pura e santamente,
Jesus Cósmico!
-Que meu corpo e mente sejam, ainda,
mil vezes plasmados,
que eu seja um rio caudaloso
cujos afluentes invadam outros mosaicos,
regando outras plantinhas e
saciando boi que tem sede.
*
Sinto você aqui, agora, ao meu lado.
De dimensão em dimensão,
seguimos, unidos por este laço sagrado
Me guias!
Te sigo, viajamos pelo infinito,
vou cantando!

06/06/2010

Lilás

Explosões de tons de lilás.
Ela é exibida, invade as retinas
domina os sentidos,
começamos a sentir, a cheirar lilases,
a delirar de estranheza ao seu sabor.
Tudo, tudo, tudo agora é lilás:
a casa, o rio, a montanha,
a árvore, o passarinho, o gato...
Mas é no jardim que ela impera.
Vence o  poderoso verde dos arbustos
com a singeleza de seu manto
com o perfume suave extraído pelo vento.
Ela é legião, uma diaba de mil flores.
Excita os desavisados
com seus micro-pistilos
coloridos e açucarados
não dá paz à grama sobre a qual
se precipita, pois ela jamais cai.
Eis a flor insurrecta do Éden que,
plantada ao lado da árvore da sabedoria,
incitava Eva a provar do fruto proibido:
come, come danada e enxerga o mundo.
A rosa ela despreza, ao cravo  ignora,
é amiga do joio, mas, o bambú ela adora.
A Hortência é assim, excêntrica,
cheia de vontades e manias.
Decifra-a se fores capaz!