27/01/2012

Maria Helena Varela: À Procura de Ìtaca


Olá amigos internautas,
Em dezembro, quando estive em Portugal para o Colóquio Internacional Florbela Espanca, fui presenteada pelo casal de amigos Manuel Serrano e Noêmia Serrano (do Grupo de Amigos de Vila Viçosa) com a obra, À procura da Ítaca perdida, da escritora e filósofa Maria Helena Varela.

Natural do Porto (Portugal) Maria Helena Varela morou no Brasil por cerca de sete anos, onde publicou, pela editora Espaço e Tempo, os  livros Heterólogos em Língua Portuguesa, em 1995, e Labirintos e Mapas, 1999, poesia. Posteriomente, em Portugal, a escritora publicou os livros Poetobiografia (2000) e Microfilosofia(s) Atlântica(s), 2001. Pela Fundação Lusíada publicou a obra Conjunções Filosóficas Luso-Brasileiras, em 2002. Maria Helena Varela era doutora em filosofia e lecionava Estética e Filosofia da Cultura na Universidade de Évora.

A obra À procura da Ítaca perdida foi publicada pela Editora APPACDM de Braga em 2003 e desde o prefácio, escrito pela prórpia autora, revela um nomadismo inquietante, questão ontológica e prenhe de devires: "O nômade é um peregrino do fora, passageiro da terra mais do que habitante da territorialiedade". Marai Helena no seu livro canta a busca de Ítaca "pela portugalidade" pelo abissal dos mares, a "lonjura" até onde podem chegar os sonhos dos marinheiros. Para a poeta as nossas cartografias serão sempre "líquidas, nômades utopias" que mergulham "num tempo oceanico" um "mar saudade no entardecer autoral" dos dias " ofídicos percursos". A obra está subdivida em oito partes: Pórtico, Partidas, Partituras, Pensar, Habitar, Sentir, Fluir, Post Scriptum. Cada parte desvela imagens de viagens atemporais, como no poema LIsboa revistada, onde no presente, o rio Tejo torna-se um "hesitante lugar em tempo incerto" e a poeta segue, intrépida "na estréia do global sem infinito" em peregrinações e epopéias.

Manuel e Noêmia me falaram do amor de Maria Helena pela poesia e pelo Brasil, e eu percebo esse amor fluindo através da lira de Maria Helena, que no poema Confições de Anteu diz:

[...]
Aos viscerais sertões
Presto homenagem.
Aqui me arrimo
E arrisco nos convés,
Brasileira de mim,
Terceira margem.

Brasil que me ensinou
A lei e a sorte,
O jogo, o acaso e a tutopia,
Sua antropofagia
Além da morte.
Os Rosas, Riobaldos e herdeiros,
Sussurrando-me a gesta
Dos terceiros
No rasgar de solos e sertões,
Bandeirantes,
Cruzados e cruzeiros.

Aqui me conservei,
Vária e mutante,
Rocei o acontecer,
Colhi o instante.
tremor de terra,
A língua me ditou
camadas arcaicas e futuras
No trovar sem traição
Doutras misturas,
O império fluido
que ficou.

Diadorim hermes, Afrodote,
Hermafrodita,
Coito e conjunção,
Chave anfíbia
Do nosso ser terceiro,
matema de poeta
E marinheiro.
Língua de curumim,
Cravo e canela,
Peregrina de meios e miragens.
[...]

É um deleite navegar pela zona fronteiriça da poesia de Maria Helena. Nòs, brasileiros, não podemos ignorar os traços deixados por Portugal no corpo da linguagem, da mãe terra, uma leva de conhecimentos e consequencias que ainda estão sendo processados. É para essa viagem de reconhecimento que Maria Helena nos convida por meio da sua poesia. Ítaca é uma utopia possivel, pelo menos foi para Ulisses, herói representante da modernidade por excelência, que no fim dos seus dias pode repousar no seio da sua amada e na companhia do seu filho. Essa obra engendra um desejo de pertencimento, o que só se concretizará por meio do abandono absoluto e do cumprimento de um circuito simbolico e arquetipico, onde o ponto de partida e de chegada se encontram. segue na íntegra outro poema de Maria Helena, intitulado Habitat:

A errância presumida,
O ensaio e o erro,
Temores tentativas,
Tentações,
A vida entre silêncios,
Sem guarida,
A língua como lastro
Em convulções.
E os brasis que passaram
Desse jeito,
Surpresa sem saudade
Nem conceito.

O regresso,
Um retorno
Em branda errância,
A hora sem hábito
Nem ânsia
habitadas em fonemas
De ficar.
O lócus prometido
Na lonjura,
Do ponto aproximado de morar
Na ponta mais extrema
E insegura.

Os laços que nos atam
Sem liame,
A língua que ora sobra
Em seu ligar,
Os cheiros da infância
E dos começos
No gesto infundado
De fundar.
E a terra marítima
refeita,
Em naus de ser
Ainda insatisfeita,
No hímen da viagem
A rimar.

Minha canção de amigo
jamais finda,
Mensagem doutro cabo,
Doutra Índia,
Saudade de algum porto
P'ra aportar.
No cansaço dos deuses
E das pátrias,
A casa onde balançam
Mil viagens
É a letra além das línguas
E linhagens,
O enigma sem fundo
Deste mar.

Lindo, não? Registro aqui a minha admiração por essa poeta e pesquisadora que é lembrada por seus amigos com carinho, e recomendo a leitura das suas obras, especialmente da obras de "A procura da Ìtaca perdida".
Abraços
Renata Bomfim

26/01/2012

Amo, amas

Abri o peito para arrancar um poema
Rasguei as camadas de seda fosca
que encobriam o coração
busquei palavras imemoriais.
Minhas mãos tremiam
e o poema resistia em vir à luz.
Acendi uma vela e evoquei
(com um fiapo de fé)
as benditas letras.
Pedi que viessem por amor
em repeito a minha dor
pela humanidade perdida.
Logo um coro de vozes viscerais se formou
Ecoaram  cantos  tristonhos:
Desgostos, mágoas e assombros.
Fechei, com pressa, o peito pasmado
Emendei os mantos rasgados,
Fechei cada fenda.
Vi algo estranho do outro lado
de fora acenavam, lúcidas,
as palavras que busquei:
amo, amas.

renata bomfim

25/01/2012

Antologia de poetas alentejanos (Publicação da Câmara Municipal de Vila Viçosa)


Olá amigos, a Câmara Municipal de Vila Viçosa, além da Revista Callipole, que reúne textos de pesquisadores portugueses e de outros países sobre a arte de cidadãos alentejanos, publicou também, um volume intitulado Antologia de poetas Alentejanos, que integra a II Série de Cadernos Culturais. Essa obra possui um texto introdutório escrito por Orlando Neves.

Integram a antologia os poetas:
Azinhal Abelho (1916-1979); Jorge de Aguiar (Séc. XV e XVI); Luis Amaro (1923); Jacinto Freire de Andrade (1597- 1657); Mariana Angélica de Andrade (1840- 1882); Luisa Bagão (1960); Mário Beirão (1892- 1965); Mercedes Blasco (1870- 1961); Raul de Carvalho (1920); Frei Antônio das Chagas (1631- 1682); Oliveira Charrua (?); Antônio Ribeiro Chiado (1520- 1591); Hernani Cidade (1887- ?); José Duro (1878- 1899); Florbela Espanca (1894- 1930); baltasar Estaço (1570- ?); Chistóvão Falcão (1515- 1577); Manuel da Fonseca (1911); João Fortunato (1914); Francisco Galvão (Séc. XVI); Joana da Gama (?/ 1686); Manuel Geraldo (1943); Miguel do Couto Guerreiro (1720- 1793); José Agostinho de Macedo (1761- 1831); Manuel João Mansos (1916); Fernando J. B. martinhos (1938); Prates Miguel (1949); Conde de Monsaraz (1853- 1913); Joaquim Namorado (1914); Orlando Neves (1935); Eduardo Olímpio (1933); Carlos Parreira (1890- 1950); Sebastião Penedo (1945); Frei Antônio de Portalegre (?/ 1593); D. Francisco de Portugal (1585- 1632); J. O. Travaganca-Rego (1940); André falcão de Rezende (1528- 1598); Garcia de Rezende (1470- 1586); Tomás Ribas (1918); Bernadim Ribeiro (1482- 1552); Loy Rolim (Évora- 1941); Antônio Sardinha (188?/ 1925); Curvo Semedo (1766- 1838); Antunes da Silva (1921); Manuel da Veiga Tagarro (Séc. XVI- XVII); Silva Tavares (1893- 1964); Maria Amália Vale (1911); Francisco Ventura (1910); Vidal (Séc. XII- XIII) e Conde de Vimioso (1500- 1549).

Joaquim Namorado (1914), poeta de Alter do Chão, escreveu  Lenda para a vida de um vagabundo:

Nasci vagabundo em qualquer país,
Minhas fronteiras são as do mundo,
Esta sina vem-me no sangue:
Não me fartar! Um desejo morto,
mais de dez a matar.

O caminho é longo!...
-Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente...
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais não se possa dar.

Carlos Parreira (1890- 1950), de Serpa, escreveu  Moças de Portugal:

Moças de Portugal, Ah que tristura
Quando cantais assim pelo poente
Se eu compreendo a história de amargura
D'essas canções que falam tanto a gente...

Se quando vindes pela estrada e quando
Ergueis a voz n'uma canção dolente
Como que escuto o coração rezando
dentro do peito comovidamente...

Ai, quando um dia, todo engelhadinho,
Eu tiver de partir, deixar a vida,
deixar as minhas afeições antigas...

Vinde embalar o trêmulo velhinho...
Dizei-lhe uma canção enternecida,
Ó suaves e tristes raparigas!

24/01/2012

Juventude Sandinista promove Concurso Nacional de Expressão Escrita Rubén Darío/ 2012

Olá amigo internauta, o colega de faceboock Julian Gutierrez me passou essa informação. Registro aqui a minha admiração a estes jovens que promovem a leitura e incentivam a arte dos poetas que estão iniciando. A Nicarágua é uma país que tem a poesia no sangue, que fez e faz a revolução, também via poesia!
Viva Rubén Darío!
"No dejes apagar el entusiasmo,
virtud tan valiosa como necesaria;
trabaja, aspira, tiende siempre
 hacia la altura". (Rubén Darío)
Olá amigos, a juventude Sandinista da Nicaragua promove o "Concurso Nacional de Expresión Escrita, Rubén Darío 2012". Este evento comemora os 145 anos de nascimento de principe da letras castelhanas, o poeta Rubén Darío. Esta iniciativa visa promover a leitura de talentos nicaraguenses .

22/01/2012

Crueldade nunca mais! o Brasil se une e exige punição para os criminosos que torturam e matam animais

Crueldade nunca mais! Esse foi o nosso refrão. Exigimos punição para os assassinos de animais e criminosos ambientais.


Olá amigos, a manifestação contra a crueldade para com os animais, pela posse responsável e pela cultura de paz foi um sucesso! participaram mais de duzentas pessoas. O Evento foi promovido pelo grupo GALA e contou com a participação de várias entidades capixabas de proteção animal: a Amaes, gatinhos da Ufes, Patinhas carentes, entre outras. Evita Peron foi comigo protestar e exigir justiça, punição para os criminosos que não respeitam a Lei de proteção dos animais. Bem, vocês podem me ver de costas no incio do vídeo   
gritando as palavras de ordem, e podem ver as orelhinhas de Evita, que está no meu colo.
Este material foi produzido por Lobo.

20/01/2012

Rubén Dario: tradução do conto "La ninfa"

Olá queridos amigos internautas, seguindo as comemorações do aniversário do "Cisne das Américas", Rubén Darío, publicamos a tração deste conto, e desde já registro o meu agradecimento à Michelle, amiga florbeliana e pesquisadora muito competente. Espero que vocês curtam.
Abraços,
Renata Bomfim

O conto selecionado “La ninfa” pertence ao livro Azul..., de Rubén Darío, considerado o marco do modernismo hispano-americano, e em cujos contos se percebe as vertentes da nova estética. O conto “La ninfa” é um conto erótico, rico em elementos míticos e referentes artísticos tanto clássicos quanto recentes, além de contemporâneos a Darío. O clássico e o moderno se mesclam neste conto em uma atmosfera sensual e erótica, em que os personagens, todos artistas, participam desse encontro, tal como num “banquete” grego, em que comem, bebem, conversam, riem, se divertem e se deixam seduzir por sua Lesbia parisiense. A descrição do ambiente requintado, luxuoso e intimista do conto, nos apresenta o impressionismo de forma mais latente na obra dariana. Rubén Darío (1867-1916) é o poeta mais expressivo e representativo do modernismo hispano-americano. Nicaraguense, o poeta teve contato com o “novo” e o “velho” mundo, e tem na poesia francesa uma de suas grandes inspirações, principalmente o romantismo de Victor Hugo e a poesia simbolista de Verlaine. O gosto pelo exótico marcou suas obras de juventude. Azul… (1888) é uma obra de referência desse período, em que erotismo, simbolismo e impressionismo se reúnem. Mas foi com a publicação de Cantos de vida y esperanza (1905), que nos apresenta um Darío mais maduro, que consolidou sua poesia e seu prestígio na Europa. Texto traduzido: Darío, Rubén. Azul... Costa Rica: Educa, 1979.
LA NINFA
CUENTO PARISIENSE

En el castillo que últimamente acaba de adquirir Lesbia, esta actriz caprichosa y endiablada que tanto ha dado que decir al mundo por sus extravagancias, nos hallábamos a la mesa hasta seis amigos. Presidía nuestra Aspasia, quien a la sazón se entretenía en chupar, como una niña golosa, un terrón de azúcar húmedo, blanco entre las yemas sonrosadas. Era la hora del chartreuse. Se veía en los cristales de la mesa como una disolución de piedras preciosas, y la luz de los candelabros se descomponía en las copas medio vacías, donde quedaba algo de la púrpura del borgoña, del oro hirviente del champaña, de las líquidas esmeraldas de la menta.

Se hablaba con el entusiasmo de artistas de buena pasta, tras una buena comida. Éramos todos artistas, quién más, quién menos; y aun había un sabio obeso que ostentaba en la albura de su pechera inmaculada el gran nudo de una corbata monstruosa.

Alguien dijo:

— ¡Ah, sí, Frémiet!

Y de Frémiet se pasó a sus animales, a su cincel maestro, a dos perros de bronce que, cerca de nosotros, uno buscaba la pista de la pieza, y otro como mirando al cazador, alzaba el pescuezo y arbolaba la delgadez de su cola tiesa y erecta. ¿Quién habló de Mirón? El sabio, que recitó en griego el epigrama de Anacreonte: «Pastor, lleva a pastar más lejos tu boyada, no sea que creyendo que respira la vaca de Mirón, la quieras llevar contigo.»

Lesbia acabó de chupar su azúcar, y con una carcajada argentina:

— ¡Bah! Para mí los sátiros. Yo quisiera dar vida a mis bronces, y si esto fuese posible, mi amante sería uno de esos velludos semidioses. Os advierto que más que a los sátiros adoro a los centauros; y que me dejaría robar por uno de esos monstruos robustos, sólo por oír las quejas del engañado, que tocaría su flauta lleno de tristeza.

El sabio interrumpió:

— Los sátiros y los faunos, los hipocentauros y las sirenas, han existido, como las salamandras y el ave Fénix.

Todos reímos; pero entre el coro de carcajadas, se oía irresistible, encantadora, la de Lesbia, cuyo rostro encendido de mujer hermosa estaba como resplandeciente de placer.

— Sí — continuó el sabio —: ¿Con qué derecho negamos los modernos, hechos que afirman los antiguos? El perro gigantesco que vio Alejandro, alto como un hombre, es tan real como la araña Kraken que vive en el fondo de los mares. San Antonio Abad, de edad de noventa años, fue en busca del viejo ermitaño Pablo, que vivía en una cueva. Lesbia, no te rías. Iba el santo por el yermo, apoyado en su báculo, sin saber dónde encontrar a quien buscaba. A mucho andar, ¿sabéis quién le dio las señas del camino que debía seguir? Un centauro, “medio hombre y medio caballo”, dice el autor. Hablaba como enojado; huyó tan velozmente que presto le perdió de vista el santo: así iba galopando el monstruo, cabellos al aire y vientre a tierra. En ese mismo viaje, San Antonio vio un sátiro, hombrecillo de extraña figura; estaba junto a un arroyuelo, tenía las narices corvas, frente áspera y arrugada, y la última parte de su contrahecho cuerpo remataba con pies de cabra.

— Ni más ni menos — dijo Lesbia —. ¡M. De Cocureau, futuro miembro del Instituto!

Siguió el sabio:

— Afirma San Jerónimo, que en tiempo de Constantino Magno se condujo a Alejandría un sátiro vivo, siendo conservado su cuerpo cuando murió. Además, viole el emperador en Antioquía.

Lesbia había vuelto a llenar su copa de menta, y humedecía la lengua en el licor verde como lo haría un animal felino.

— Dice Alberto Magno que en su tiempo cogieron a dos sátiros en los montes de Sajonia. Enrico Zormano asegura que en tierras de Tartaria había hombres con sólo un pie, y sólo un brazo en el pecho. Vincencio vio en su época un monstruo que trajeron al rey de Francia; tenía cabeza de perro (Lesbia reía); los muslos, brazos y manos tan sin vello como los nuestros (Lesbia se agitaba como una chicuela a quien hiciesen cosquillas); comía carne cocida y bebía vino con todas ganas.

— ¡Colombine! — gritó Lesbia. Y llegó Colombine, una falderilla que parecía un copo de algodón. Tomóla su ama, y entre las explosiones de risa de todos:

— ¡Toma, el monstruo que tenía tu cara!

Y le dio un beso en la boca, mientras el animal se estremecía e inflaba las narices como lleno de voluptuosidad.

— Y Filegón Traliano — concluyó el sabio elegantemente — afirma la existencia de dos clases de hipocentauros: una de ellas come elefantes.

— Basta de sabiduría — dijo Lesbia. Y acabó de beber la menta.

Yo estaba feliz. No había desplegado mis labios.

— ¡Oh! — exclamé —, ¡para mí las ninfas! Yo desearía contemplar esas desnudeces de los bosques y de las fuentes, aunque, como Acteón, fuese despedazado por los perros. ¡Pero las ninfas no existen!

Concluyó aquel concierto alegre con una gran fuga de risas, y de personas.

— ¡Y qué! — me dijo Lesbia, quemándome con sus ojos de faunesa y con voz callada, para que sólo yo la oyera —, ¡las ninfas existen, tú las verás!

Era un día de primavera. Yo vagaba por el parque del castillo, con el aire de un soñador empedernido. Los gorriones chillaban sobre las lilas nuevas, y atacaban a los escarabajos que se defendían de los picotazos con sus corazas de esmeralda, con sus petos de oro y acero. En las rosas el carmín, el bermellón, la onda penetrante de perfumes dulces; mas allá las violetas, en grandes grupos, con su color apacible y su olor a virgen. Después, los altos árboles, los ramajes tupidos llenos de abejeos, las estatuas en la penumbra, los discóbolos de bronce, los gladiadores musculosos en sus soberbias posturas gímnicas, las glorietas perfumadas cubiertas de enredaderas, los pórticos, bellas imitaciones jónicas, cariátides todas blancas y lascivas, y vigorosos telamones del orden atlántico, con anchas espaldas y muslos gigantescos. Vagaba por el laberinto de tales encantos cuando oí un ruido, allá en lo oscuro de la arboleda, en el estanque donde hay cisnes blancos como cincelados en alabastro, y otros que tienen la mitad del cuello del color del ébano, como una pierna alba con media negra.

Llegué más cerca ¿Soñaba? ¡Oh, Numa! Yo sentí lo que tú, cuando viste en su gruta por primera vez a Egeria.

Estaba en el centro de estanque, entre la inquietud de los cisnes espantados, una ninfa, una verdadera ninfa, que hundía su carne de rosa en el agua cristalina. La cadera a flor de espuma parecía a veces como dorada por la luz opaca que alcanzaba a llegar por las brechas de las hojas. ¡Ah!, yo vi lirios, rosas, nieve, oro; vi un ideal con vida y forma y oí, entre el burbujeo sonoro de la linfa herida, como una risa burlesca y armoniosa que me encendía la sangre.

De pronto huyó la visión, surgió la ninfa del estanque, semejante a Citerea en su onda, y recogiendo sus cabellos, que goteaban brillantes, corrió por los rosales, tras las lilas y violetas, más allá de los tupidos arbolares, hasta perderse ¡ay! Por un recodo; y quedé yo, poeta lírico, fauno burlado, viendo a las grandes aves alabastrinas como mofándose de mí, tendiéndome sus largos cuellos en cuyo extremo brillaba bruñida el ágata de sus picos.

Después, almorzábamos juntos aquellos amigos de la noche pasada; entre todos, triunfante, con su pechera y su gran corbata oscura, el sabio obeso, futuro miembro del Instituto.

Y de repente, mientras todos charlaban de la última obra de Frémiet en el salón, exclamó Lesbia con su alegre voz parisiense:

— ¡Té!, como dice Tartarin: ¡el poeta ha visto ninfas!...

La contemplaron todos asombrados, y ella me miraba, me miraba como una gata, y se reía como una chicuela a quien se le hiciesen cosquillas.


A NINFA
CONTO PARISIENSE

No castelo que recém acabava de adquirir Lesbia , esta atriz caprichosa e endiabrada que tem dado muito o que falar ao mundo por suas extravagâncias, encontrávamo-nos à mesa em até seis amigos. Presidia nossa Aspasia , quem, à ocasião, entretinha-se a chupar como menina gulosa um torrão de açúcar úmido, branco entre as gemas rosadas. Era a hora do chartreuse. Via-se nos cristais da mesa como uma dissolução de pedras preciosas, e a luz dos candelabros se desfazia nas taças meio vazias, onde ficava algo da púrpura da Borgonha, do ouro fervente do champagne, das líquidas esmeraldas da menta.

Falava-se com o entusiasmo de artistas de bom garfo, depois de uma boa comida. Éramos todos artistas, alguém mais, alguém menos, e ainda havia um sábio obeso que ostentava na alvura de uma camisa imaculada o grande nó de uma gravata monstruosa.

Alguém disse:

— Ah, sim, Frémiet !

E de Frémiet passou-se a seus animais, a seu cinzel mestre, a dois cães de bronze que, perto de nós, buscava um o vestígio da peça, outro, como que olhando o caçador, alçava o pescoço e erguia a magrez de sua cauda tesa e ereta. Quem falou de Mirón ? O sábio, que recitou em grego o epigrama de Anacreonte : “Pastor, leva tua boiada para pastar mais longe, a não ser que, crendo que a vaca de Mirón respira, queiras levá-la contigo.”

Lesbia acabou de chupar seu açúcar, e com uma gargalhada argentina:

— Bah! Para mim, os sátiros. Eu queria dar vida a meus bronzes, e se isso fosse possível, meu amante seria um desses vilosos semideuses. Advirto-os que, mais que os sátiros, adoro os centauros , e que me deixaria roubar por um desses monstros robustos, somente para ouvir as queixas do enganado, que tocaria sua flauta, cheio de tristeza.

O sábio interrompeu:

— Bem, os sátiros e os faunos, os hipocentauros e as sereias existiram, como as salamandras e a ave Fênix.

Todos ríamos, mas entre o coro de gargalhadas ouvia-se irresistível, encantadora, a de Lesbia, cujo rosto inflamado, de mulher bela, parecia resplandecer de prazer.

— Sim, continuou o sábio, com que direito negamos aos modernos feitos que afirmam os antigos? O cão gigantesco que viu Alexandre, alto como um homem, é tão real, como a aranha Kraken que vive no fundo dos mares. Santo Antônio Abad , com a idade de noventa anos, foi em busca do velho ermitão Paulo que vivia em uma caverna. Lesbia, não rias. Ia o santo pelo deserto, apoiado em seu cajado, sem saber onde encontrar a quem buscava. De muito andar, sabeis quem lhe deu os sinais do caminho que devia seguir? Um centauro, “meio homem e meio cavalo”, disse o autor, com voz aborrecida; fugiu tão velozmente que logo o santo o perdeu de vista; assim ia galopando o monstro, cabelos ao ar e ventre a terra. Nessa mesma viagem, Santo Antônio viu um sátiro, “homenzinho de estranha figura, estava junto a um arroio, tinha o nariz curvo, a fronte áspera e enrugada, e a última parte do seu corpo malfeito terminava com pés de cabra.”

— Nem mais nem menos, — disse Lesbia. — M. de Cocureau, futuro membro do Instituto!

Seguiu o sábio:

— Afirma São Jerônimo que nos tempos de Constantino Magno um sátiro vivo foi conduzido a Alexandria, sendo conservado seu corpo quando morreu. Além disso, o imperador o viu em Antióquia .

Lesbia voltou a encher seu copo de menta e umedecia a língua no licor verde como faria um animal felino.

— Alberto Magno disse que em seu tempo pegaram dois sátiros nos montes da Saxônia. Enrico Zormano assegura que nas terras da Tartária havia homens com um só pé e um só braço no peito. Vicêncio viu em sua época um monstro que trouxeram ao rei da França; tinha cabeça de cão (Lesbia ria); as coxas, braços e mãos sem pelos como os nossos (Lesbia agitava-se como uma garotinha a quem tivesse sido feito cócegas); comia carne cozida e bebia vinho com toda a vontade.

— Colombine! — gritou Lesbia. E chegou Colombine, uma cadelinha que parecia um floco de algodão. Sua ama a pegou e entre as explosões de riso de todos:

— Pega, o monstro que tinha sua cara!

E lhe deu um beijo na boca, enquanto o animal se estremecia e inflava as narinas cheio de voluptuosidade.

— E Filegón Traliano — concluiu o sábio elegantemente — afirma a existência de duas classes de hipocentauros: uma delas come elefantes.

— Chega de sabedoria — disse Lesbia. E terminou de beber a menta.

Eu estava feliz. Não havia despregado meus lábios.

— Oh! — exclamei — para mim as ninfas! Eu desejaria contemplar estas desnudas dos bosques e das fontes, ainda que, como Acteón , fosse despedaçado pelos cães. Mas as ninfas não existem!

Concluiu aquele espetáculo alegre com uma grande dispersão de risos e de pessoas.

— E daí! — disse-me Lesbia, fuminando-me com seus olhos de faunesa e com voz baixa, a fim de que só eu a escutasse. — As ninfas existem, verás!

Era um dia primaveril. Eu vagava pelo parque do castelo, com o ar de um sonhador petrificado. Os pardais chilreavam sobre as lilases novas e atacavam os escaravelhos que se defendiam das bicadas com suas couraças de esmeralda, com seus peitos de ouro e aço. Nas rosas, o carmim, o vermelhão, a onda penetrante de perfumes doces; mais adiante, as violetas, em grandes grupos, com sua cor aprazível e seu odor virginal. Depois, as altas árvores, as ramagens densas, cheias de abelhas, as estátuas na penumbra, os discóbolos de bronze, os gladiadores musculosos em suas soberbas posturas atléticas, os alpendres perfumados cobertos de trepadeiras, os pórticos, belas imitações jônicas, cariátides todas brancas e lascivas, e vigorosos telamões da ordem atlântica, com largas costas e gigantescas coxas. Vagava pelo labirinto de tais encantos quando ouvi um ruído, lá no escuro do arvoredo, no lago onde há cisnes brancos, como que cinzelados em alabastro, e outros que têm a metade do pescoço da cor de ébano, como uma perna alva com meias negras.

Cheguei mais próximo. Sonhava? Oh, Numa ! Eu senti o que tu sentiste quando viste Egeria , em sua gruta, pela primeira vez.

Estava no centro do lago, entre a inquietude dos cisnes espantados, uma ninfa, uma verdadeira ninfa, que submergia sua carne rósea na água cristalina. O quadril, a flor de espuma, parecia, às vezes, dourado pela luz opaca que chegava pela brecha das folhas. Ah, eu vi lírios, rosas, neve, ouro; vi um ideal com vida e forma e ouvi, entre o borbulhar sonoro da linfa ferida, uma espécie de riso burlesco e harmonioso, que me fez arder o sangue.

De repente, fugiu a visão, surgiu a ninfa do tanque, semelhante a Citerea em sua onda, e recolhendo seus cabelos, que gotejavam brilhantes, correu pelos rosais, por detrás das lilases e violetas, mais além dos densos arvoredos, até se perder, ai, numa curva! E fiquei eu, poeta lírico, fauno burlado, vendo as grandes aves alabastrinas zombando de mim, estendendo-me seus longos pescoços em cuja extremidade brilhava brunida a ágata de seus bicos.

Depois, aqueles amigos da noite passada, almoçávamos todos juntos; e entre nós, triunfante, com sua camisa e sua grande gravata escura, o sábio obeso, futuro membro do Instituto.

E de repente, enquanto todos falavam da última obra de Frémiet no Salão, exclamou Lesbia com sua alegre voz parisiense:

—Chá!, como disse Tartarín, o poeta viu ninfas!...

Contemplaram-na todos assombrados, e ela me olhava, me olhava como uma gata, e ria como uma menina a quem fizeram cócegas.

A TRADUTORA: Michelle Vasconcelos Oliveira do Nascimento é Mestre e Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde estuda literatura portuguesa e hispano-americana do início do século XX. Entre seus interesses está a poesia erótica, poesia feminina e mitocrítica. Atualmente conclui graduação em Língua Espanhola na Universidade Federal de Rio Grande, onde reside desde 2007.

CRUELDADE NUNCA MAIS! Evento Nacional de combate à violência contra animais (dia 22/01/2012)


Para os capixabas a manifestação será na
Praia de Camburi, no calçadão em frente
 ao Banco do Brasil de Jardim da Penha.
(10 horas da manhã)
Eu apoio essa ação! Estarei lá! 
Renata

Rubén Darío: Canto de Esperança

Homenagem a Rubén Dario no seu aniversário de nascimento (18 de janeiro de 1867)

Aniversário de 145 anos de nascimento de Rubén Darío, o "Principe das letras castelhanas"


18 de janeiro, aniversário natalício de Rúben Darío (1867-1915).
Rubén Darío nasceu em um pequeno povoado Nicaragüense chamado Metapa. O poeta é considerado o príncipe das letras castelhanas, e foi um escritor que afirmou o papel do artista nas discussões a respeito da sociedade e da cultura moderna denunciando de forma irreverente os valores laicizados da sociedade burguesa emergente. Ele registrou poeticamente a desarmonia relacionada à perda dos valores e dos ritos. Darío lançou mãos de suportes como a pintura, a música, a ciência e o pensamento filosófico na tessitura de seus poemas, lançou mão, também, dos mitos. Estes aspectos contribuíram para com a renovação estética que culminaria com o movimento modernista hispano-americano e a renovação das letras castelhanas.Darío possui uma vasta obra que percorre a poesia clássica e metrificada, á prosa poética, novela, contos e crônicas. Ele foi embaixador da Nicarágua em variados países e correspondente em jornais como o La Nacion de Buenos Aires. Seus livros mais conhecidos são Azul, publicado em 1888, Prosas profanas e outros poemas, em 1896, e Cantos de Vida e Esperança. Os cisnes e outros poemas, publicados em 1905. O poeta Cosmopolita abriu os versos castelhanos à poesia francesa que, processada pelo simbolismo, possibilitou uma renovação dos mesmos.Eu venho pesquisando a obra poética desse poeta extraordinário na minha tese de doutorado, e no dia do seu aniversário de nascimento deixo aqui registrada a minha admiração.

X Simposio Internacional Rubén Darío: Rubén Darío y su pensamiento social

Rubén Darío
Queridos amigos, fiqui super inquieta quando abri o La Prensa, jornal Nicaráguense, e vi anunciado esse evento fantástico sobre Rubén Dario, o meu poeta querido. Eu queria fazer uma mágica e aparecer lá na Nicarágua. Fiz contato com o Consulado da Nicarágua e nem me deram bola, nem a pesquisa de doutorado que faço sobre Rubén Darío, e busco na net Nicarguenses para dialogar, fiz até uma chamada especial, e nada... mas estou certa que, de onde o bardo estiver, ele vai me ajudar!

"Quero retificar a informação anterior. Estou de malas prontas para ir para a Nicarágua e estou recebendo apoio irrestrito da Embaixada do Brasil na Nicarágua, registro aqui  o meu agradecimento!!! A gradeço também as instituições as quais tenho contactado e que tem se mostrado abertas para minhas pesquisas, especialmente a UCL". Valeu!!!!! Viva a Nicarágua!!!

 El X Simposio Internacional Rubén Darío: Rubén Darío y su pensamiento social

La Alcaldía Municipal de León, el Instituto Cultural Rubén Darío, el Instituto Nicaragüense de Turismo, Instituto Nicaragüense de Cultura, la Asociación Amigos del Teatro “José de la Cruz Mena”, la Universidad Nacional Autónoma de Nicaragua UNAN-León, el Banco Central de Nicaragua y la Promotora Cultural Leonesa están invitando al X Simposio Internacional Rubén Darío que se realizará bajo el lema: “Rubén Darío y su pensamiento social”.

El Simposio se efectuará en la ciudad de León, del 17 al 20 de enero de 2012. Las inscripciones se realizarán el día 16 de enero de 2012 a partir de las 8:30 de la mañana en el Teatro Municipal José de la Cruz Mena. Los Simposios Internacionales se crearon para rendirle homenaje a Rubén Dario, fundador del modernismo. También es un espacio para dar a conocer las nuevas creaciones poéticas por medio de recitales y presentación de libros. También se imparten talleres literarios y se realiza la mesa. Se realiza en la ciudad de León y se inició con la colocación de la ofrenda floral en la tumba de Rubén Darío, en la Basílica de Catedral. Viene a unirse a las celebraciones del Bicentenario de la UNAN-León.

El tema del simposio es Rubén Darío y su pensamiento social, que trae a debate crítico y académico la preocupación del poeta, entre la creación poética y el mundo contextual, que va desde lo político hasta la realidad misma de la sociedad, y que en la actualidad sociocultural es un punto vital, en la comprensión de nuestra historia y nuestra identidad. Rubén Darío mantiene en toda su vida una postura progresista y social, rechazando todo aquello que va en contra de su ideal. Don Edgardo Buitrago afirma: “Rubén Darío reacciona contra la sociedad burguesa de su tiempo, tanto en su utilitarismo económico, como en su chatura intelectual”.
Roberto Aguilar Leal en su ensayo Esteticismo y crítica social en la cuentística dariana posterior a Azul, señala: “Desde su época chilena (1886-1889), Darío dejó expresado en términos estéticos el conflicto que como escritor le planteaba la compleja realidad social de la época: por una parte sentía la necesidad ética de denunciar el creciente proceso de enajenación y deshumanización de una sociedad basada en relaciones mercantilistas”.
Haciendo un recorrido retrospectivo por los simposios, María Manuela Sacasa, coordinadora general, dice que ha tenido el apoyo de muchas instituciones donde sobresalen la UNAN-León, el Banco Central, la Asociación Amigos del Teatro José de la Cruz Mena, la Alcaldía de León y el Instituto Nicaragüense de Cultura”, Intur, el Instituto Nicaragüense de Cultura Hispánica y el Museo Archivo Rubén Darío.
También dijo que el simposio abre a los artistas y escritores, la oportunidad de presentar sus libros y recitales, funciones danzarias y teatrales.

Por Isidro Rodríguez Silva
fonte: La Prensa
Acadêmico Enlace Centroamericano

19/01/2012

As delícias e as dores da teoria pós-colonial

Pois, é amigo internauta, estou aqui em meio ao maior embate teórico. Faz pouco tempo que tive contato com a teoria pós-colonial, e gostei muito, especialmente pelo seu caráter questionador e multidisciplinar, e ainda porque trouxe algumas repsostas as minhas proposições na tese. Mas já ouvi, mais de uma vez, que é para eu tomar cuidado, pois esta é uma teoria contraditória, ou também que é uma "moda acadêmica", mas eu não ligo, foi assim com os estudos culturais, depois com o comparativismo, etc. A gente está na chuva mas pode usar uma sombrinha, não é? Estou escrevendo um texto sobre esse tema e logo postarei aqui no Letra e Fel, ok?
Abraços
Renata

16/01/2012

A literatura de luto: morreu Bartolomeu Campos de Queirós

Bartolomeu Campos de Queirós
Amigos, a morte é a afirmação máxima da vida, porém, sempre lamentamos a morte de outro ser humano, pois ela pressupõe a nossa propria morte. Mas existem mortes e mortes, alguns seres humanos partem dessa para uma melhor deixando, além de saudades, grandes contribuições para o coletivo, uma herança que não pode ser mensurada em moeda. Eu sempre fico tocada quando morre um artista, seja ele cantor, escritor, dançarino, músico, enfim... A literatura brasileira está de luto com o falecimento do grande escritor e critico de arte mineiro, Bartolomeu Campos de Queirós, o cavaleiro das sete luas. Diz o jornal mineiro que o escritor faleceu de insuficiencia renal. Fica aqui o registro do meu carinho por este artista, que nunca conheci pessoalmente, apenas através da escrita, e votos de que Deus leve consolo aos amigos e familiares
Renata Bomfim

13/01/2012

Herberto Helder: poesia, encantamento e pós-modernidade

Herberto Helder

Olá amigos, a partir da poesia Poemacto de Herberto Helder, teci algumas reflexões sobre a pós-modernidade.  Acredito que, via poesia, Helder percorre um caminhos que levam a um  re-encantamento do mundo "desencantado da pós-modernidade". Espero que curtam o texto.

Herberto Helder: poesia, encantamento e pós-modernidade

Vivemos uma época marcada pelo desencanto. Esta sensação de queda do paraíso, de perda da unidade mítica, é uma marca no homem contemporâneo e uma das principais características da pós-modernidade.Terry Eagleton define o pós-modernismo como “uma linha de pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a noção de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação” (EAGLETON, 1998, p. 07). A pós-modernidade, tempo “diverso”, “instável”, marcado pela presença de “um conjunto de culturas ou interpretações desunificadas”, tem gerado ceticismo em relação à coerência das identidades. Desencantados e fragmentados, somos sujeitos diversos do sujeito iluminista, cuja identidade tinha o eu como centro. Experienciamos um tipo de “esquizofrenia”, tal argumento é ratificado por Stuart Hall que anuncia, “as velhas identidades” que durante muito tempo estabilizaram o indivíduo socialmente estão “ruindo”, estão sendo “fragmentadas”, “deslocadas”, originando um sujeito de identidades múltiplas, enfim, para este autor vivemos, deliberadamente, uma “crise de identidade” (HALL, 1998, p. 14).
O pós-modernismo brota da sociedade industrial moderna, que trouxe avanços em variados campos do saber, mas trouxe também mazelas humanas como guerras, genocídios, e o emparedamento das alteridades. Entenda- se como alteridades o conjunto de diferenças seja de gênero, de etnia, de classe, geopolítica, etc. , cujas identidades são negadas, são os “não seres” da sociedade, os que não se rendem ao instituído, cuja história é marcada pela força de resistência. Uma alteridade pressupõe uma singularidade, valor que se eleva acima do da diferença, e detém a potência de despertar encantamento por ser o Outro, e o encantamento é fator indispensável para a vida. Esta sociedade industrial moderna, machista e patriarcal, impôs o seu domínio colonizando as alteridades, para tal, lançou mão de um poderoso arsenal bélico, os artefatos do cristianismo. Culpa, pecado, castigo, penitência, etc., esta forma de colonização, teve como referência o corpo em suas variações podendo compreender o corpo humano, geográfico, étnico,entre outros, a partir da criação de mecanismos de controle e confinamento. Este quadro foi decisivo para a geração de ceticismo na sociedade e as alteridades, impossibilitadas de expressão, de diálogo e troca, passaram a se reunir e formar guetos, é a época das bandeiras. O sociólogo polonês Zigmunt Bauman, em Vida líquida, traça um perfil da sociedade contemporânea que, em consonância com o pensamento de Hall e Eagleton, é composta por indivíduos atormentados pelo problema da identidade. Para este pensador a “vida líquido- moderna”, ou seja, a vida “precária” e “vivida em condições de incerteza constante”, alimenta a insatisfação do eu consigo mesmo, favorecendo a negligência para com a vida comum, para com a instância pública, impedindo o diálogo e a troca entre as alteridades. A cultura que norteia a sociedade “liquido- moderna” não se percebe mais como uma “cultura do aprendizado e do acúmulo”, [...] mas, inversamente, “uma cultura do desencorajamento, da descontinuidade, e do esquecimento” (BAUMAN, 2007, p. 84). O esquecimento, ou a falta de memória social é um dos fatores que geram desencanto, pois ele anula a origem comum dos indivíduos, apagando sua referência, tornando-os terra fértil para a monocultura da ideologia dominante. Designado pela negativa, o ser da alteridade, este outro acometido de “amnésia histórico-social”, ou seja, o “não ser”, passa a ser considerado e a se considerar um “coitado”. O poder instituído torna-se seu tutor e define qual será o seu status, a sua casta. Desmemoriada e desencantada, esta sociedade de consumidores, ironicamente vai sendo consumida, o medo e a insegurança tornam-se companheiros onipresentes. Passam a serem erigidas verdadeiras “fortalezas defensivas”, “comunidades fechadas”, ensimesmadas, sociedade de “condomínios fechados” e de alteridades gueteadas (BAUMAN, 2007, p. 97). O encontro pessoal pode ser vivenciado como crise, e toda crise traz em si o germe da mudança. Roberto Mangabeira Unger, nos diz que “em qualquer tempo considerado, somos em grande parte, a soma de nossas práticas fundamentais. Mas somos também a permanente possibilidade de revisá-las” (UNGER, 1988, P. 46). Este pensador propõe uma revisão nos valores sociais vigentes, e a busca da instauração de uma dimensão a que denominou comum. Ele aponta para as paixões como um possível farol a indicar uma direção, uma saída para a crise, pois esta compreende a possibilidade de vínculos entre os indivíduos. Unger destaca que “uma paixão individual pode incorporar a polaridade unificadora das paixões”, e indica a “lascívia” e o “desespero” como emoções proto- sociais subversivas, capazes de nos iluminar e de irromperem na sociedade forças que ameaçam a estabilidade e a autoridade. Segundo ele, tais emoções “podem revelar verdades a respeito de nós mesmos”, ampliando nossa visão de mundo (UNGER, 1998, p. 168- 169). A priori, Unger define que apenas a vulnerabilidade pode nos salvar, ou seja, apenas estando predispostos à troca simbólica e abertos ao diálogo, mudanças poderão acontecer. Esta abertura, a vulnerabilidade, só ocorre sob a égide do amor.
Desgastada na pós-modernidade, a palavra amor é re- significada por Unger que lhe confere o devido valor. A abertura para a “diversidade radical” preconizada, que apenas o amor é capaz de realizar, abertura inclusive para a “diversidade de fortunas morais e poderes criativos”, graças sua visão redentora, torna-se o “impulso para a aceitação da outra pessoa”. A existência do Outro só é possível “quando experimentamos a existência da deste como uma afirmação de nós mesmos”. A aceitação da alteridade em nossa individualidade ajuda-nos a descobrir e a fortalecer o nosso ser distinto. Pela afirmação do Outro, entramos mais plenamente na posse do nosso eu. (1998, p.207- 209). Para Unger todo ato de amor implica um ato de fé. “O amante deve [...] expor-se à emoção perigosa e ao gesto ridículo [...] quanto maior o amor, mais ele implica um desvio de todo o seu ser” (UNGER, 1988, p. 222). Um aprofundamento no amor leva á esperança, segundo este autor, mais uma solução para o dilema do desencanto:“uma pessoa esperançosa é colorida pela percepção de um futuro em que as condições capacitadoras de auto– afirmação serão mais plenamente reconciliadas” (UNGER, 1988, p. 231). Waldemar Magaldi Filho, a partir de uma leitura jungueana, nos diz que o amor “possibilita o surgimento da dimensão criativa, da plenitude, da beleza e do maravilhamento pela vida”. Entregar-se ao amor é entregar-se ao numinoso e a si mesmo, pois o amor une as dualidades geradoras de angústia presentes na antinomia” (MAGALDI FILHO, 2006, p. 74. grifo meu).
Para Magaldi Filho, Eros, a alma, quer vida, quer relação, pois só pode ser no outro, mas para que isso aconteça, o ego não pode temer a morte que toda a relação de amor impõe e conclui dizendo que “onde o poder ocupa a vaga do amor, onde predomina o poder, Eros sucumbe. [...]. O poder [...] é a tentativa angustiada e iludida do ego de negar os aspectos misteriosos e imponderáveis da nossa vida. O patriarcado é encastelado no poder e este fato inviabiliza o diálogo com as alteridades” (MAGALDI FILHO, 2004, p.167-184). O medo que o patriarcado hierarquisante e racional tem de abrir mão do poder [segundo Unger, de ser vulnerável], para se entregar a Erro, é uma possível justificativa para as perseguições que nossa cultura androcentrica infligiu às alteridades. E o resgate destas injustiças pode principiar pelo resgate do princípio feminino, este, deve ser incluído na dinâmica social para que se escreva uma história diversa da que conhecemos de violação e opressão. A arte emerge neste cenário caótico ocupando o patamar de alteridade, ela é desejante e com potencia de gerar encantamento. Em El arco y la lira, Octávio paz, descreve a poesia como um caminho de “conocimiento” e “salvación”, esta é examinada de perto como elemento íntegro, dual, tendo como destaque o seu caráter revolucionário, ele nos diz: [a poesia é] operación capaz de cambiar al mundo, la actividad poética es revolucionaria por naturaleza; [...] La poesia revela este mundo; crea outro. [...] regreso a la tierra natal. Inspiración, respiración [...] diálogo com la ausência [...]. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimación, compensación, condenación del inconciente. Expressión histórica de razas, naciones, clases. Niega a la historia [...]em su sieno se resuelven todos los conflictos objetivos y el hombre qdquiere al fin conciencia de ser algo mas que tránsito.[...] Locura, éxtasis, logos. Regresso a la infância, coito, nostalgia del paraíso, del infierno, del limbo. [...] enseñanza, [...] diálogo, monólogo. Pura e impura, sagrada y maldita, popular y minoritária, colectiva y personal (PAZ, 1986, p. 13). E assim, se nos apresenta a poesia de Herberto Helder, encantatória, viva, fascinante e subversiva. Este escritor, nato em 1930, na Ilha da Madeira, é considerado uma das mais importantes vozes da poesia portuguesa contemporânea, sua obra é extensa e complexa, e data desde a década de 50. Analisaremos trechos de Poemacto, de 1961, cuidando em especial, de destacar a potência que a escrita herbertiana possui de estabelecer interseção e relações entre as mais variadas formas, fator defendido nesta análise como gerador de encantamento. O poema inicia-se assim: “Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar” (HELDER, 2000, p.35), este verso é emblemático e surge como um farol prenunciando o que virá, o poeta apresenta-se como um arauto, um Orfeu da pós-modernidade. Deus grego da música, Orfeu é quem com sua lira tem o poder de encantar os seres viventes e até mesmo a própria morte. Para o eu lírico herbertiano não há crise, o poeta canta ciente de que as antinomias fazem parte da totalidade, e que os opostos são complementares, que a vida pressupõe a morte num ciclo ininterrupto, num jogo de androginia onde não há sistemas de vassalagem e nem de senhorio:

Agora eu sei que as estrelas são habitadas.
Vossa existência dura e quente
é a massa de uma estrela.
[...]
Estou inquieto e cego. Canto.
A morte canta-me ao fundo.
É um canto absoluto.
[...]
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.

O encontro pessoal apregoado por Unger encontra expressão máxima na união do homem com as coisas e os seres. Os reinos hominal, vegetal, animal e mineral, mesclam-se e estão sempre em constante metamorfose, numa visão panteísta do mundo. Este jogo mandálico e sem centro de analogias, configura a própria linguagem e possibilita o encontro com o outro, este encontro, pressupõe o encontro com Deus:
“A preocupação metafísica considera a natureza como um teatro onde um drama do espírito universal está sendo representado; para o místico, o mesmo espírito de que o homem participa é subjacente à natureza e transforma as suas variações em parábola,. [...] por meio dessa vitória torna-se possível uma contemplação mais serena do nosso lugar na natureza” (UNGER, 1988, p. 217). Octávio Paz, descreve “lãs semejanzas entre el amor y la experiencia de lo sagrado”, para este autor o amor e o sagrado são “actos que brotan de la misma fuente”, “manjar sagrado” que nos alimenta e transforma. O amor na poética herbertiana se realiza na alteridade, ela resgata a memória comum. João Déscio nos diz que “a presença dos aspectos inerentes ao jogo [comparecem] no plano do arrebatamento, do entusiasmo, do sagrado ou do festivo” na poesia de Herberto Helder (HELDER, 2000, p. 18. grifo meu), tal como o encontro numinoso descrito por Magaldi Filho: “queimai as vossas noites em honra/ Do meu amor./ O amor é forte (HELDER, 2000, p. 36). A loucura, que “tem espinhos como uma garganta”, é um estado psíquico cujo status é definido socialmente, a modernidade confinou seus loucos em instituições, na sua grande maioria construídas bem afastado das cidades, Já na pós-modernidade, esta alteridade específica ainda sofre variados tipos de apropriação por parte do poder, como por exemplo, tendo suas bandeiras colonizadas. Mas nem sempre foi assim, na antiguidade os poetas, assim como os loucos, eram considerados semelhantes, devido à inspiração, dizia-se:“a loucura é a visita dos deuses” . Herberto Helder fala-nos sobre a loucura que perpassa todo o poema como um personagem:

Que coisa mais forte é a loucura.
Porque a loucura canta minada de portas.
Nós saímos pelas portas, nós
Entramos para o interior da loucura.

[...]
Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
(HELDER, 2000, p. 36-40).

Não apenas a loucura, mas a presença da mulher, da casa, da rosa, da morte, da mãe, representantes do principio feminino, se “batem contra o grande dia masculino do pensamento”:

As casas são fabulosas quando digo;
Casas. São fabulosas
As mulheres, se comovido digo:
As mulheres.

[...]

Ah, mãe louca a volta, sentadamente
completa.
(HELDER, 2000, p. 40).

Octávio Paz salienta que “los primeros em advertir el origen comum de amor, religigión y poesía fueron los poetas”, esta ciência nos possibilita “um recobrar nuestra naturaleza o condición original” (PAZ, 1986, p. 135, grifo meu). Desta feita, o poeta apresenta-se como um visionário, um homem de fé, como descreveu Unger, alguém capaz do ato de amor. Este caráter metafísico da poética herbertiana, eleva- se acima da ciência ortodoxa abrindo-se para a sabedoria ancestral da terra, para o refinamento do sentimento, como “uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,/ e as maçãs centrípetas/ e as uvas pendidas sobre a maturidade” (HELDER, 2000, p. 40). O poeta visionário sabe que não canta sozinho, porque “tudo canta e cantar é enorme”. É a celebração do olhar que acolhe a totalidade do mundo, um canto com tom de teogonia , onde Eros, força primordial, tem liberdade de atuar para compor novos mundos, reconstruindo o ser ritualisticamente, desde as vozes imemoriais do tempo mítico:

Imagino meu corpo, uma colina.
Meu corpo escada de estrela
Nata. Flexa. Objecto cortante.
Corpo com sua morte que canta.
[...]
Porque cantar é um subterrâneo.
Depois é um pátio.
O canto é o meu corpo purificado.
[...]
A morte- diz o canto- é o amor enorme.
(HELDER, 2000, p. 37).

Em Poemacto podemos acompanhar as formas se metamorfoseando, nada é rígido, estático, e a tradição fantástica, a fantasia, é resgata por meio dos elementos, João Décio chama esta faceta da poesia de Helder de “elemental”, pois nela perpassam aspectos comuns da natureza animal, vegetal, mineral, para este autor, esta característica compreende uma “verdadeira redescoberta do mundo”(DÉCIO, 2002, p.14). Podemos perceber este sentimento “heróico” por parte do poeta nos versos:

Eu agora mergulho e ascendo como um corpo.
Trago para cima esta imagem de água interna,
- caneta do poema dissolvida no sentido
primal do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
Atravessando seu próprio impulso,
Poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
Uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
(HELDER, 2000, p. 41).

Acerca da poesia, esta feminina vênus sedutrix, Paz argumenta: “la poesia no es juicio ni uma interpretación de la existência humana. El surtidor del ritmo-imagen expresa simplemente lo que somos; es uma revelación de nuestra condición original, cualquiera que sea el sentido inmediato y concreto de lãs palabras del poema (PAZ, 1986, p. 148). Em face a tais exposições, concluímos que a formação de guetos e ilhas surgiram como resposta ao emparedamento das alteridades, privando os indivíduos da sensação de pertencimento, contrinuindo para que estes perdessem a memória de sua origem comum, como afirma Helder “porque o amor das coisas no seu/ tempo futuro/ é terrivelmente profundo, é suave/ devastador” (HELDER, 2000, p. 39). Como pensar no futuro sem as lembranças do passado histórico? Se no presente há um profundo sentimento de desencanto e de indiferença, o que vislumbrar? É preciso relembrar as origens, fazer um “espólio” e recuperar as referências, pois somente este passado comum é capaz de trazer de volta a alegria. Ao puxarmos os fios do passado veremos que estamos no mesmo patamar, os homens e o planeta na sua diversidade e multiplicidade. Quantas catástrofes do espírito e ambientais poderiam ser evitadas se o homem despertasse para esta outra realidade? Como nos diz Paz, a poesia “es conciencia de la separación y tentativa por reunir lo que fue separado” (PAZ, 1986, p. 284). Eis o que a poesia de Herberto Helder nos apresenta, uma fórmula para esta utopia, ela nos incita à paixão, nos aponta a natureza dual do universo e do amor, o poeta reencantando- nos com o seu canto, despertando desde nossas sensações mais evanescentes ás emoções mais elaboradas, abrindo espaço para o sentido íntimo da esperança.


Referências:
1. DÉCIO, João. Poesia e arte poética em Herberto Helder e outros estudos. Blumenau: Edifurb, 2002.
2. EAGLETON, Terry. As ilusões do pós-modernismo. Tradução de Elisabeth Barbosa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
3. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 2.ed. Rio de Janeiro: DP&A, 1998.
4. HELDER, Herberto. O corpo o luxo a obra. Seleção e apresentação de Jorge Henrique Bastos e posfácil de Maria Lúcia Dal Farra. São Paulo: Iluminuras, 2000.
5. MAGALDI FILHO, Waldemar. Dinheiro, saúde e sagrado: Interfaces culturais , econômicas e religiosas à luz da psicologia analítica. São Paulo: Edicta, 2006.
6. PAZ, octávio. El arco y la lira: el poema, la revelación poética, poesia e historia. México: Fondo de Cultura Econômica, 1986.
7. UNGER, Roberto Mangabeira. Paixão: um ensaio sobre a personalidade. São Paulo: Boitempo, 1998.


ps: escrevi este artigo em 2007, publiqueio-na Revista portuguesa Callipole, mas não sei se já o postei no blog, acho que ainda não, ele estava perdido no hd externo.

10/01/2012

Verses

From the verses of Poetry,
I envy the capacity of the ones who know how to make them.
The breath they take to enter in the ocean of the memory
The lust they kiss the alien ears.
I envy the freedom they have to come and go
How they are plastic and changeable people.
I am a raw material, woman who fight
Between the discouragement and hope
I would like to be one of their words
A single letter coming out from their
Immemorial lips
I do not have a past and wave for
An uncertain future, as if I knew something
But I do not know anything!
I am a decadent, I bleed, I suffer and I am not sure
If I am made of insanity or in flesh and bones
I am thirsty of life and knowledge
I feel my broken heart of homesickness
And miss the images my eyes did not see.
I am a thing posted in time.
The poems, yes they are happy, strong and resolute
They seem to be self solved, they do not fear death
When they cry it is not there is a lack of ink to write
Or because there is no one to listen to them or feel them in the inside
When they make a very silent prayer, millions of angels
Testify their devotion
I am all the questions of the vocations of the poet
The women who take me to the paper
Are demanding and obstinating, sometimes
However they do not give up of drinking my blood
And appoint the pen to my direction.
Some men also take me in the writing and in the reading
They do paralyze me, make me declare things
And tell me secrets and lies. I become an involuntary actress.
Then I keep going forward, letter by letter
Searching the perfect form and metrics
Which – by luck or misfortune
They Will reveal to me this lack of everything.
Then I will be able to know the source of my evil
The real desire of sharing multiple existences
And to translate the non-spoken words.

Renata Bomfim

tradutora: Sonia Lóra

06/01/2012

versos

Invejo dos versos
a capacidade que possuem de dizer,
o fôlego com que mergulham no mar da memória,
a volúpia com que beijam os ouvidos alheios.
Invejo a  liberdade que eles tem de ir e vir
como são plásticos e passiveis de mudança.
Eu, matéria bruta, mulher que se debate
entre o desânimo e a esperança,
gostaria de ser uma de suas palavras,
letra que sai de bocas imemoriais.
Eu, que não tenho passado e que
aceno para um futuro incerto como quem sabe de algo,
 XXXXXXXXXXXXXXXX  Xmas não sei de nada!
Sou decadente, sangro, sofro e não estou certa se
sou feita de delírios ou de carne e osso.
Tenho sede e fome de saber e de viver e
sinto o coração apertado de saudade
das imagens que meus olhos ainda não captaram.
Eu, coisa situada no tempo.
Os poemas, esses sim, são felizes, são fortes, decididos.
Parecem bem resolvidos, não tem medo da morte.
Quando eles choram não é por falta de tinta ou porque
não exista alguém que os ouça e os sinta por dentro.
Quando eles rezam baixinho, miríades de anjos
testemunham a sua devoção.
Eu sou todas as interrogações da vocação de poeta.
As mulheres que me  arrastam para o papel
são exigentes e voluntariosas, as vezes,
até são amáveis e caridosas, mas, não abrem mãos
de beber o meu sangue e me obrigam a manter a pena em riste.
Alguns homens também me possuem na escrita e na leitura,
eles me paralisam, me fazem declarar coisas,
contar segredos, mentir. Eu me torno uma atriz involuntária.
Vou seguindo, assim, de letra em letra em busca
da forma perfeita e da métrica que, por azar ou por sorte,
me revelarão ao motivo desse oco, desse vazio.
Então conhecerei a fonte do meu mal
do desejo incontido de partilhar múltiplas existências
e de traduzir o indizivel.

Procura-se poetas nicaraguenses...

Olá queridos amigos nicaraguenses, poetas e amantes da literatura. Estou procurando por vocês na internet e não os estou encontrando. Nosso blog já foi visitado por pessoas de 50 países, mas, ainda não veio nenhum nicaraguense me alegrar com a sua visita. Estou fazendo uma pesquisa de doutorado sobre a obra de Rubén Darío, expressão máxima da poesia deste país, e gostaria muito de conhecer melhor a sua gente, os seus costumes, trocar informações. Pretendo, assim que puder, fazer uma visita a esta terra linda. Façam sinal de fogo...
Abraços fraternos
Renata Bomfim