19/06/2008

"Sem foco o indivíduo não consegue produzir nada"




Amigos, estou tirando férias.
Pois vou me dedicar (focar) à escrita da minha dissertação de mestrado. Vocês tem o meu e-mail, sintam-se à vontade para fazer comentários no blog, logo estarei de volta! Meu carinho a todos, até 19/07
MEU POVO, VOLTEI!

deserto

Há uma ferida que não sara
e sangra sempre que
o vento bate à lembrança,
sempre que vejo no espelho,
minha alma despida/refletida,
e revivo os pesadelos de criança.
Busco auto-liberação das desculpas e
dos ressentimentos, então percebo
uma fonte jorrar de dentro
do deserto de mim.

Só a palavra me conforta
e livra da morte em vida,
do estado de ser zumbi.
Re-nascida pelo batismo no Léthes,
vejo o sol brilhar mais uma vez.

Há sonhos que nos nutrem por uma vida,
não sabemos de onde eles vem, mas
são tão vívidos e nos dirigem resolutos para
lugares novos e inusitados.
Quem sabe eles nascem da ferida que sangra?
ou do grande espelho meu que, impiedoso,
reflete na cara verdades mascaradas?

É desse deserto extenso que
meu olhar vislumbra o mundo.
Incertezas, dúvidas e
dores se agregam a sonhos reluzentes
formando um rio profundo e caudaloso
que em curso sinuoso
corre para além de mim.

18/06/2008

Bravos companheiros e fantasmas: III Seminário sobre o autor capixaba (mais fotos)

O encontro foi enriquecido com a presença do autor Sérgio Blank.


Mesa com vários tópicos
14:00h/ auditório do IC-II
Mediador: Douglas Salomão
temas:
Pedro Antônio Freire- Ironia
Carla Simone vasconcelos- Sérgio Blank
Emanuel Pazini Fernandes- Waldo Motta
Josely Bittencourt Gonçalves- Sérgio Blank
A literatura do Espírito Santo de Afonso Cláudio a Renata Pacheco:
por: Francisco Aurélio Ribeiro
mediadora: Ester Vieira de Oliveira
dia: 13/06- 9:00h/ auditório do IC-II.
Esta conferência realizada pelo professor e crítico literário Francisco Aurélio Ribeiro fez uma leitura diacrônica dos principais autores, obras e momentos literários da literatura produzida no ES e/ou por autores capixabas, no período de 1907 a 2007.




14/06/2008

Literatura produzida no Espírito Santo: Achilles Vivacqua (por Andressa Nathanailidis)


Resumo de artigo apresentado por Andressa Nathanailidis no III Seminário sobre o autor capixaba- Bravos Companheiros e Fantasmas (dia 13/ 06/ 2008, mesa 16- 16:00h- Sala Guimarães Rosa)


Achilles Vivacqua nasceu no dia 02 de janeiro de 1900, na cidade de Rio Pardo (ES), atual Muniz Freire. Filho de Etelvina e Antônio Vivacqua, era descendente de italianos e fazia parte da primeira geração de um grandioso grupo de 15 filhos: composto por nove mulheres e seis homens.
Aos 20 anos de idade, foi acometido pela tuberculose e então mudou-se para Belo Horizonte, onde pretendia encontrar a cura para o seu mal.
Felizmente, a doença não o impediu do exercício literário. Na capital mineira, logo o escritor juntou-se a outros intelectuais da cidade. Sua residência, inclusive, tornou-se conhecida por atuar enquanto palco de reuniões sociais que reuniam a intelectualidade mineira. O ambiente de cultura e saber ficou conhecido como Salão Vivacqua e contava com a presença de assíduos freqüentadores, como: Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Abgar Renault,dentre outros.
Em 1927, Achilles Vivacqua colaborou com a Revista Verde, de Cataguases (publicação de caráter interiorano, porém que conservava certa agressividade. Muitas vezes, ao publicar nesta revista, Achilles fazia uso do pseudônimo Roberto Theodoro).
Neste mesmo ano, também atuou como redator chefe da revista Cidade Vergel e foi redator-secretário da Semana Ilustrada, periódico que divulgava ‘matéria urbana belorizontina’ e promovia projetos culturais, como o da criação do Centro de Cultura Teatral Mineira, em 1927.
A Semana Ilustrada representou um importante espaço no desenvolvimento da carreira de Achilles Vivacqua. Porém, foi no ano de 1928 que o escritor consagrou-se enquanto tal. Isso porque, neste ano, foi lançado seu primeiro e único livro: Serenidade. Dedicado à memória da avó paterna, dona Margarida, a obra reúne seis textos poéticos, de tamanho mediano. São eles Arrebalde, Noturno de Belo Horizonte, Frade de Saburgo ; Serenidade, Sentimental e Peregrino do Sonho.
De uma maneira geral, o livro reflete o olhar bucólico de Achilles, sobre a cidade de Belo Horizonte; seu encanto pela paisagem (geralmente florida) e saudosismo face às recordações da infância. Em Noturno de Belo Horizonte, o escritor declama seu olhar admirado, sobre o anoitecer capital mineira: “Bello Horizonte adormece, numa atitude comovida, aureolada nas longas tranças da Serra-do-Curral, onde a lua vae Subindo, como um Trepa Moleque de Marfim” (VIVACQUA, 1997, p.30).
No ano seguinte à publicação de Serenidade, o jornal Estado de Minas lança o suplemento Leite Criôlo, sob a direção de Achilles Vivacqua, João Dornas Filho, e Guilhermino César.
De linguajar fácil, Leite Criôlo reunia intelectuais filiados ao movimento antropofágico de Oswald de Andrade. O suplemento era irreverente e defendia o ultranacionalismo, através da exaltação à existência do negro. Em seu lançamento, no dia 13 de maio de 1929, o suplemento trazia um pitoresco editorial, assinado por Aquiles Vivacqua. O texto destacava o caráter extorsivo da colonização lusa, enquanto exploradora de negros e índios e propunha a mudança desse quadro, marcado pela cultura da escravidão.
A atuação em Leite Criôlo proporcionou a Achilles Vivacqua a oportunidade de publicar seus escritos na revista Antropofagia. Em carta remetida por Antônio Alcântara Machado, Achilles Vivacqua recebeu o honroso convite de colaboração, que resultou nas seguintes publicações: Indiferença, no nº 3 e Dança do caboclo, no nº 10. Posteriormente publicou, também, o artigo A propósito do homem antropofágico, que saiu no Diário de São Paulo, em 1º de maio de 1929.
Enquanto viveu, Achilles Vivacqua agarrou com unhas e dentes os propósitos da antropofagia; difundindo os ideais oswaldianos em revistas e jornais de todo território nacional. Além das já citadas, participou, também das revistas Phenix, Para Todos, Careta, Fon-Fon, além dos jornais Diário de Minas, Folha de Minas, Correio Mineiro, etc.
No Espírito Santo, inclusive, após a inauguração da sessão De Arte e De Literatura, do jornal Diário da Manhã, Achilles publicou o texto Convite, através do qual incitava todos os leitores a promoverem uma mudança social, de forma que pessoas da raça negras não estivessem mais fadadas à condição marginal.
Assim como o alagoano Jorge Lima (1893- 1953), autor da obra Poema Negro, e a capixaba Haydée Nicolussi (1905-1970), autora do poema Zabumba; Vivacqua registrou na imprensa, e também fora dela, sua admiração pelo povo afro-descendente; descrevendo seus hábitos, sua sina e história. Prova disto é um dos originais que encontrei, intitulado Bailarina de Macumba. Trata-se de um poema inédito, acerca do ritual religioso negro. Em cada estrofe, o poema expõe toda a musicalidade, crença, e, sobretudo, beleza negra, muitas vezes escondida nas fronteiras de um povo; fadado à marginalidade social.
Ao longo do poema, Achilles menciona como se dá o “soluçar conquiquo dos negros” classificando-o como um “brando coro que dentro da noite vai caindo no soturno bojo do urucungo”. E, neste contexto sombrio, eis que surge a figura da mestiça que, “pelo chão batido do mocombô” e “rodando pelas pontas dos pés”, dança em “rápidos movimentos”, “como um piorrão”; destacando-se, também, a presença do “pai-de-santo”, que caminha de “braços erguidos para o céu”, e lida com elementos típicos do candomblé, como a “galinha preta” e os “macabros orixás”.
Infelizmente, a doença não permitiu que sua carreira de escritor se estendesse em maior grau. Achilles Vivacqua acabou por falecer em dezembro de 1942; vítima da tuberculose.
O corpo do escritor está enterrado no cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte. No túmulo, está a última homenagem do autor à própria mãe: o poema Minha última oferenda a ti. Esculpido conforme vontade pré-designada, por Achilles.

“Colhe, na palma branca,
Da tua mão, enquanto é tempo, estas lágrimas que
Brotam no canto dos meus
Olhos. Receio que elas se derramem pela minha face
E se percam, para sempre, na poeira, antes que tu consigas
Ver a tua imagem debruçada
Sobre o brilho polido delas...
A tua imagem que é a forma
Da minha vida...Colhe-as
Na palma quente da tua
Mão, sem demora ó Mãe.
Como minha última
Oferenda a ti...”
Andressa Nathanailidis é Músicista e Jornalista. Especialista em Estudos Literários pela UFES. Mestranda em Estudos Literários (UFES).

13/06/2008

Eus

Dedico este poema a Luis Eustáquio Soares, professor que me arrancou do século XIX e apresentou aos estudos da alteridade e da pós-modernidade.

Meus duplos
querem tudo!
O doce e o azedo
o prazer e a dor.
me querem toda
devorada
reduzida.
Eus de mim que não
se entedem e se deixam possuir.
Camadas de peles nuas
peles por sobre os pêlos
suores e agonias.
Saudades da unidade perdida
eu ovo
Ova!
guardada no saco
do escroto
batizada n'agua da bacia
purificada
dos pecados dos outros.

Esse negócio de ter esperança faz milagres!

Amigos, hoje de manhã recebi um e-mail do biólogo do IBAMA Jacques Passamani dizendo que depois que saimos, eles decidiram não fazer eutánasia no sagui, estão tentando de tudo para salvá-lo. É uma noticia maravilhosa! Esse negócio de ter esperança pode dar certo!!! Interpretei também esse fato como sendo um milagre, afinal esse macaquinho não foi encontrado em qualquer lugar, ele estava no quintal de Nossa Senhora da Penha! A escelsa já nos escreveu dizendo que repassou nossa solicitação de revisão dos fios do convento para o setor responsável. Todo o nosso carinho e admiração aos profissionais do IBAMA de Vitória, em especial ao Jacques e ao Vinícius, essa atitude demonstra o espírito de luta e comprometimento que possuem com a causa ambiental. Como madrinha do macaquinho eu o batizei com o nome de Cândido. Vamos torcer para que ele sobreviva.Um dia feliz e esperançoso para todos vocês sob as bênçãos de Nossa Senhora das Alegrias.
Povo, o Cândido morreu hoje (16/06). Deus sabe de todas as coisas. O Frade me ligou e disse que toda fiação do Convento da Penha é subterrânea, então, o Cândido deve ter vindo da mata do Morro do Moreno ou do Jaburuna.
Triste, eu duvido que a Escelsa vai fazer revisão em toda rede por causa de um macaco queimado. Se pelo menos as pessoas prestassem queixa, reclamassem, exigissem, se mobilizassem para cuidar da natureza como eu vi se mobilizarem para o Fla/Flu... eita, a terra seria o paraíso...

12/06/2008

Progresso pouco é bobagem...

"Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa" (Adélia Prado)

Amigos, hoje o Lu e eu estivemos no Convento da Penha, fui acender algumas velas, agradecer por umas coisas e pedir por outras... Ao descermos as ladeiras do convento nos deparamos com este macaquinho ferido (vou resumir a história). O pessoal do convento entrou em contato com o IBAMA que não tinha como buscá-lo em Vila Velha, nos prontificamos em levá-lo. Ao chegar no IBAMA, o biólogo e o veterinário constataram que o macaquinho havia se queimado num fio de alta tensão, como se pode ver na foto. O bracinho dele estava esturricado e possivelmente alguns órgãos internos tinham sido atingidos. Bem, o pobrezinho estava nessa situação a pelo menos um dia e sofrendo muito. Os profissionais do IBAMA não tiveram outra alternativa senão sacrificá-lo. Já escrevemos para o convento e para a escelsa, pedindo uma revisão na rede. Pedimos para encaparem os fios que estão desencapados, para que situações assim não se repitam. Temos fé que alguma ação será tomada nesse sentido. É triste ver como a cada dia o "progresso" torna dificil a coexistencia entre o homem e a natureza. E quem paga o pato, nesse caso quem pagou foi o mico... mas é isso mesmo, sofre sempre a parte mais fraca... Sinceramente, desisti de ser pessimista, é verdade... decidi acreditar que tudo vai melhorar, vai mudar, vai dar certo, e que o ser humano ainda tem jeito... Era isso ou a danação eterna... Lá no IBAMA, quando fui fotografar o macaquinho (porque vivemos num mundo onde imagens valem mais que palavras) foi como se o seu olhar me atravessasse.

11/06/2008

Bravos Companheiros e fantasmas III- fotos

Mesa 4- Crônica
Mediador: professor Lino Machado

Crônica- Mesa 4
Renata Bomfim - Carmélia Maria de Souza
Kamila Bragatto Bergamini - Ivan Borgo
Alessandro Darros Vieira - Fernando Tatagiba

Conferência I: As relações dramáticas entre José de Anchieta e Gil Vicente
com: Márcio Ricardo Coelho Muniz
Mediador: Professor Paulo Roberto Sodré

Abertura do evento no Auditório do IC IV (Centro de Educação da UFES)
da direita para esquerda o professor Luis Eustáquio Soares, o escritor Reinaldo dos Santos Neves e Marcelo Paiva, coordenador do Mestrado de Estudos Literários.

A data do nascimento de Carmélia

Amigos, percebi que em algumas fontes disponíveis acerca da vida e obra de Carmélia há um erro quanto a data de seu nascimento. O site Estação Capixaba faz referência ao nascimento da cronista como sendo 1936, bem como o livro póstumo de carmélia, Vento Sul. Já alguns outros documentos que tive acesso, bem como uma reportagem da revista capixaba CUCA, faz referência ao ano de 1937. Bem, se carmelia faleceu com 37 anos, só pode ter nascido em 1937. Mas optei por manter nos meus textos a data que consta no livro Vento Sul.

10/06/2008

Carmélia Maria de Souza: cronista do povo


“Não tenho queixas da vida, porque ela ainda me dá razões
para olhar as estrelas e repetir em silêncio o nome de Deus”
(Carmélia Maria de Souza).

Carmélia Maria de Souza: cronista do povo

Renata O. Bomfim – UFES

Vento Sul [1]
, obra póstuma de Carmélia Maria de Souza (1936- 1974), traz como texto de abertura do seu primeiro capítulo, intitulado Esta ilha é uma delícia, um auto- perfil da escritora. Nele, Carmélia define a sua profissão: “cronista do povo” (SOUZA, 2002, p. 31). Tal afirmação pode ser comprovada quando observarmos a trajetória jornalística de Carmélia, que é considerada uma das mais importantes vozes da crônica capixaba. Carmélia Maria de Souza nasceu na Fazenda Rodeio, Município de Rio Novo do Sul, ES. Em seus escritos a cronista definia-se como sendo uma pessoa “trágica, dominadora e hostil” e advertia:
Não vem que não tem. [...] Olha, somos grossíssima, péssima companhia noturna, diurna ou vespertina; devemos a Deus e ao mundo, mau-caráter, desgraçada, temperamental, neurótica, falsa, inconstante, cínica e debochada. Favor não ficar sentado em nossa mesa quando não for convidado, não. Nós somos o fim da picada, se você quer saber
[1]
[1] Vento Sul é uma obra póstuma, única da escritora e foi publicado dois anos após a morte de Carmélia em 1974 pela Fundação Cultural do Espírito Santo, com notas e introdução escritas pelo jornalista e amigo pessoal Amylton de Almeida. Em 1994 o livro foi reeditado, resultado de uma parceria entre a Rede gazeta de Comunicações e a Universidade Federal do Espírito Santo, integrou o segundo volume do projeto Nossolivro, sendo apresentado sob a forma de encarte no jornal A Gazeta, nela, Amylton de Almeida reduziu substancialmente a introdução que havia feito à primeira edição, e alguns textos foram suprimidos. A terceira edição, que servirá como aporte para a elaboração deste artigo, apresenta-se como “um meio termo” entre as edições anteriores, nela permanece, na íntegra, a introdução feita por Amylton, bem como algumas supressões de textos. Esta edição traz como novidade “toda a matéria em homenagem à Carmélia publicada na revista Você, n. 24, de junho de 1994 (SOUZA, 2002,p.5).
[1] Texto retirado do folder da exposição intitulada “Carmélia, Félia, Magnólia”, de fotos escritos de Carmélia Maria de Souza. Divisão de Memória do DEC.

Embora Carmélia tenha escolhido a “marginalidade” quanto lugar de observação e vivência para seus escritos, era estimada por seus amigos e chamada carinhosamente por eles de Félia, Magnólia, entre outros nomes bastante referenciados nos seus textos.
E descrita como uma pessoa afetuosa. Reinaldo Santos Neves, escreve acerca da cronista:
[Carmélia] não fixava fronteiras para a troca de calor humano. Se dava bem com a esposa do magnata e com o pescador fodido que afogava as mágoas na pinga, não tinha preconceitos: não fazia distinção de sexo, credo, cor, nem pedigree social ou econômico - nem muito menos de idade (SOUZA, 2002, p. 183).
Essa abertura para o outro, marca registrada da personalidade de Carmélia, possivelmente tenha influenciado no sucesso que alcançou no campo da crônica. Massaud Moisés destaca que neste gênero literário, “o cronista pretende-se não o repórter, mas o poeta ou o ficcionista do cotidiano” (1998, p. 104). Este gênero detém seu foco narrativo sobre a primeira pessoa, o “eu”, que expressa à visão de mundo do cronista.
A década de 40 foi marcada pela efervescência cultural e literária no Espírito Santo. A escrita feminina capixaba se solidificou, culminando na criação, em 1949, da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras. Após a excitação da década de 40, as mulheres se acomodaram aos papéis que os homens lhe reservaram e a vidinha provinciana, seguia embalada “ao som das orquestras dançantes” do Clube de Vitória, Praia Tênis Clube e do Saldanha da Gama (RIBEIRO, 1996, p. 46).
Carmélia faz parte da geração de 50, “anos dourados, início dos anos rebeldes” (RIBEIRO,1996, p. 46). A cronista aflorou no cenário literário capixaba em 1958, foi considerada por Agostinho Lázaro, uma das melhores cronistas do Espírito Santo, segundo Ribeiro, foi à responsável por popularizar a crônica escrita por mulheres capixabas, “ao retratar com fidelidade, o espírito de contestação [que seria a marca] dos anos 60 e da desilusão dos anos 70” (1996, p. 48).
Sua escrita ganhou visibilidade por meio do semanário Sete Dias, sua incursão por este gênero, “nacionalmente dominado por nomes como Antônio Maria [...] e Rubem Braga”, segundo Amylton de Almeida, aconteceu num tempo quando “a juventude capixaba imitava a do resto do país, em conduta e espírito” (SOUZA, 2002, p. 22).
Carmélia foi Funcionária Pública Federal, trabalhou no Museu de Arte Histórica de Vitória, situado no Solar Monjardim, na Biblioteca da FAVI, e durante dezessete anos de vida jornalística, colaborou com jornais e revistas estudantis, trabalhando nos principais jornais da capital: Sete Dias, O Diário, Vida Capixaba, A Tribuna, A Gazeta, O Debate e Jornal da Cidade (acesso em 23 de fev. 2008). Parte do acervo que continha seus escritos foi destruído em um incêndio na década de oitenta, eram crônicas publicadas em A Tribuna e O Diário.
A escrita carmeliana tem como marca principal a irreverência, postura que refletia a sua vida. Pellerano (SOUZA, 2002, p, 179) nos diz que “[Carmélia] passou a vida derramando poesia pelas mesas dos bares, nos papéis de blocos pedidos aos garçons”.
Por meio das crônicas de Carmélia é possível vislumbramos o quotidiano vitoriense da época, ela explorava as experiências que vivenciava na “ilha” de uma forma livre e muitas vezes irônica, como se pode observar na crônica intitulada O deletério
[1] do povo capixaba, que diz:
[1]
Deletério: nocivo à saúde, nocivo, desmoralizador.
“Apesar de eu não topar muito esta palavra - deletério – confesso que não encontrei outra mais expressiva para dizer o que penso do honrado povo capixaba que empesta[1] a minha terra. É, decididamente, um povo deletério, este. O povo mais deletério do mundo, talvez. E, embora a gente até goste mesmo deste povo (porque a gente nem sempre tem vergonha na cara...), Sou obrigada a espinafrar com ele de vez em quando, porque assim também não há quem agüente: a barra anda pesando demais. [...] é bastante alguém pensar em fazer alguma coisa que preste nessa Ilha (ô Ilha!), para que os chamados “pés-frio” comecem logo a engrossar. Ao invés de darem o necessário incentivo [...]. E vão em frente os deletérios do inferno, apostando a própria mãe como ninguém será capaz de fazer coisa nenhuma. É uma desgraça, enfim” (SOUZA, 2002, p. 75).
[1] Empesta: infecta com peste, infecciona, contamina.
A ironia é uma estratégia de linguagem utilizada por Carmélia para desvelar valores sociais e aspectos da cultura capixaba. Brait afirma que esta modalidade de humor, revela um “ponto de vista”, “um olhar sobre o mundo”, e seu entendimento “requer tanto do produtor, quanto do destinatário uma competência discursiva especial” (BRAIT, 1996, p. 13).
Ainda na crônica O deletério do povo capixaba, encontramos outra temática recorrente nos escritos carmelianos, o amor pela cidade de vitória. A cronista utiliza mais uma vez o procedimento irônico para denunciar a valorização que muitos capixabas faziam do Rio de Janeiro em detrimento de Vitória, ela diz que “a Ilha, também é uma cidade maravilhosa, à sua maneira”, e que quem não presta é o indivíduo que não lhe dá o devido valor. A crônica segue dizendo:

O diabo é que vocês não aprendem a enxergar a coisa como ela é. E estão sempre prontos a me chamar de doida todas as vezes em que eu escrevo que a rua Duque de Caxias é linda, bárbara, importantíssima, [...] é uma rua com alma é coração, capaz de comover a gente por causa de seu lirismo, de sua beleza antiga, de sua poesia. Vocês não alcançam a importância de uma cidadezinha como Santa Tereza [...] o turista é capaz de sair daqui completamente gamado, [...] é capaz até de sentir inveja da gente. Enquanto vocês seus bobocas, não sabem valorizar as coisas que têm. Só querem mesmo é bagunçar o coreto, ficam aí reclamando e se esquecem de que nosso estado- especialmente Vitória[1]- possui coisas lindíssimas. Se esquecem de que a Ilha, também é uma cidade maravilhosa, à sua maneira.[...] A ilha está pedindo para que você a deixe crescer. [...] Não seja tão espírito- de –porco: [...] mesmo que você não acredite, não compreenda, seja uma besta quadrada, tenha um pouco de humildade e reconheça que o que não presta mesmo aqui, é você meu chapa (SOUZA, 2002, p. 76- 79. Grifo nosso).
[1] Carmélia criou para a cidade de Vitória o slogan "Esta ilha é uma delícia", que foi utilizado, durante muitos anos como título de sua coluna.
A crônica intitulada Os dez mais idiotas, publicada no Jornal A Tribuna de 04 de fevereiro de 1968, revela o olhar crítico da escritora, que satiriza a tendência dos suplementos de domingo, de louvarem os gostos da “pequena burguesia”, a cronista diz:
O tempo presente não é apenas de margaridas, nem tão pouco de LSD, muito menos é tempo somente de alegria, alegria. Ou de reações psicodélicas, provocando convulsões da mesma cor. O tempo, este tempo que passa na janela e só Carolina não vê, é um tempo também de lista de dez mais. [...] No presente momento, ando com vontade de fazer a lista dos dez mais idiotas. E se ainda não fiz é porque estou com medo de que a coisa acabe em pancadaria- o que está na mais completa escala das possibilidades, ainda que eu botasse, só para despistar, o meu nome no topo da lista. O melhor mesmo é tirar o quadrúpede de baixo da atmosfera. [...] Lá vai pois. Coisas que eu detesto; caviar, champanha, festa estilo soçaite, soçaite, Jorge amado, programa “um instante maestro”, praia, telenovela, reunião com muita mulher, mulher (em geral), livro best- saller, dona bibi ferreira, muqueca de peixe, o samba “apelo”, homem bonito (só abro exceção para o alain delon- ele é demais) e almoço em família. Coisas que eu adoro: inverno, vento sul, café sem açúcar, frescura, desgraça alheia, jiló, música clássica, noite, irmãos metralha ltda., trocadilho infame, homem feio, simplicidade, pinga, gripe e sogra (SOUZA, 2002, p. 49- 50. Grifo nosso).
Amylton de Almeida, na introdução de Vento Sul, fala sobre a geração “fim de álcool”, formada pela “legião dos bem intencionados, [...] limpos de dinheiro como de coração”. Para este crítico, Carmélia apresentava um “agudo senso de humor, ironia e sarcasmo e um estilo de vida, seguido pela ‘corja’, que escandalizava a Tradicional Família Capixaba” (SOUZA, 2002, p. 24).
Outro personagem de destaque na obra de Carmélia é Dindi. Imagem feminina homônima da personagem da música criada por Tom Jobim, e interpretada por Silvinha Teles. Este nome foi adotado pela cronista como um símbolo romântico. À Dindi a escritora recorre nos momentos de angústia e solidão, como vemos na Crônica com endereço errado, de fevereiro de 1968 que diz:

Além do mais Dindi, este é um momento dos mais importantes e de coisas graves. [...] Eu nunca soube falar as coisas que deveria falar, você me conhece bem, você sabe como sou imbecil, tímida, completamente desajeitada [...]. Sou, enfim, sou uma pessoa distraída e tresloucada, um caso perdido, uma pobre diaba. Viver, para a pessoa que sou hoje em dia, é esta aflição imutável, é este desespero de perder tudo, de repente descobrir que tudo voltou aos devidos lugares. Este viver de abrir os braços e dar a impressão muito falsa de que estou sempre preparada para o que der e vier. No fundo, você sabe, sou medrosa e covarde como o diabo. E, embora não pareça, tenho a alma atormentada e não me conformo com nada. [...] Todavia não irei embora. Vou agüentar firme aqui mesmo, enquanto puder e você me quiser perto, assim como estamos agora (SOUZA, 2002, p. 134).
A personagem Dindi é afirmada como depositária de grande confiança por parte da escritora, como podemos comprovar na crônica intitulada Testamento, nesse texto Carmélia confia a Dindí o seu espólio quando for “embora para alguma estrela”. A narradora deixa também recomendações claras para a recolha de cartas e versos, bem como de “todos os sonhos que encontrar perdidos”. (SOUZA, 2002, p. 173)
Dindi é também a herdeira dos livros e das crônicas “publicadas ou inéditas”, e das personagens de um livro que, segundo ela, jamais terminaria de escrever, a cronista pede que Dindí termine o livro, e que este deve ser intitulado Vento Sul (SOUZA, 2002, p. 174).
Carmélia tinha um amor declarado pelo seu ofício, escrever. Ribeiro (SOUZA, 2002) nos dá ciência de que a cronista era uma “apaixonada pela palavra”, que “escrevia com paixão, o coração, mais do que com a razão [...]”. Na crônica Algumas considerações outonais chatas, Carmélia discorre sobre esse seu gosto pela escrita que nem alguns “detalhes pequenos e sem importância”, que a levavam a “ser obrigada a defender o pão de cada dia”, e noutros momentos a se perguntar, “onde foi que eu amarrei a minha égua”, são capazes de enfraquecer. A cronista dizia que escrever ainda era a única coisa que conseguia “fazer muito bem nesse mundo de Deus” (SOUZA, 2002, p. 51).
Outro tema recorrente na escrita de Carmélia é o amor, que quase sempre é margeado pela poesia. Este tema impregna os textos carmelianos, como podemos observar na crônica intitulada Declaração de amor , de outubro de 1972:

E depois de tudo isto, veio a chuva – Você se lembra? E então eu te pedi que não tivesse medo. Você riu. Riu de medo. Eu fiquei com pena de te querer tão sem medo e tanto que te cobri com minhas mãos, com meus braços, com minhas palavras com meu silêncio, enfim.
E depois , a gente passou a respirar juntos.
A dizer, calados, as mesmas palavras.
A ouvir as mesmas palavras.
Te lembras?
[...]
- Diz que me ama – eu te pedi.
- Não tenho certeza – você falou.
- Diz que me ama.
- ...
Olha, não tenho medo, não tenho nada. Eu tenho tudo e tudo isso é nosso, porque é meu e porque o que eu sou é você, e o que você é sou eu.
Então, tudo o que a gente tem, consequentemente, é de um e é do outro. É de nós. Por exemplo: esse amor. Esse medo. Esse desespero. Essa aflição. Esse mar. Essa Maria Betânia cantando. Essa casa cheia de amor, esse vento que vem do mar e do mundo. Essa desordem gramatical. Essa saudade.
[...] Eu não te vejo agora, meu amor. [...] Então – imagine- eu te vejo e te sinto do meu coração. Do meu sorriso. Do meu pranto. Do barulho do mar indo e vindo. Eu te vejo e te sinto em tudo o que está em volta e dentro de mim. De mim- eu que não sou gaveta, nem barco parado, sem rumo. Eu, que sou apenas Carmélia Maria de Souza. E te amo. Te amo baixinho à beça (SOUZA, 2002, p. 168, grifo nosso).

A “fossa” também é tema que atravessa todo o corpus da obra de Carmélia. No texto Fossa & amizade ela diz: “já se tornou tradicional o me ouvirem dizer de vez em quando que estou numa fossa desgraçada. Isso dá para entender quando não me envergonho de confessar que a vida me tem maltratado, que vou aprendendo a sofrer quando é preciso” (SOUZA, 2002, p. 34). A dor e o sofrimento são importante alavanca criativa e levam a escritora a desenvolver a Teoria geral da fossa e A Fossa (II.) Logo de saída Carmélia declara:
A minha fossa é linda. Lírica. Poética. Profunda. Imutável. Colorida.Muito mais festiva que revolucionária. Uma fossa assim, destas de fazer inveja ao próprio Baudelaire, que em matéria de fossa ameaçava jamais encontrar rival. Ou ao finado Kafka, que entre um e outra crise carpitiva costumava suspirar dizendo: Comigo ninguém pode! Eis, pois, que resolvo entender e falar de fossa, começando por classificar, de acordo com a atualidade, os mais diversos tipos (SOUZA, 2002, p. 38).
Dando seqüência a sua “teoria”, ela classifica vários tipos de fossa: a “fossa pororoca”, a “fossa- de- não- ter- fossa”, a “fossa matrimonial”, seguindo-se algumas recomendações do tipo “como evitar” a fossa e como “dar cabo da bruta”. E para não se contradizer, adverte: “não pretendo mais ser confidente de fossinhas mixurucas: só aceito drama de alto gabarito, [...] e não tente, principalmente, curar as minhas [fossas], são heranças [...] (SOUZA, 2002, p. 39- 40). Os escritos sobre a fossa continuam, em Fossa II, novos tipos emergem: a “fossa financeira”, a “fossa balneária”, a “fossa íntima”, a “fossa jornalística”, mas, para além das teorias da fossa, em novembro de 1967, a cronista escreve a crônica É tempo de otimismo acho eu, que diz:
[...] Descobri que sou bárbara, dona de um estilo verdadeiramente universal, preciso urgentemente me mandar para Guanabara, pois Vitória não está a altura de receber minha genialidade, nem por aqui haveria horizontes dignos e devidamente alargados onde eu pudesse caber. A mim me cabe, portanto, dar uma banana para todos vocês e me mandar de mala e cuia para o Rio de Janeiro. Lá eu não terei a menor dificuldade em desbancar o Rubem Braga, nem em botar no maior chinelo o Carlinhos de Oliveira. [...] A quem confiar minhas ambições, e onde abrigar minha poesia provinciana, a saudade desgraçada que eu teria acumulada em mim a uma altura dessas? [...] Não, meu chapa. Nessa jogada eu não me meto (SOUZA, 2002, p. 55).
Carmélia personificou através de seus escritos o espírito das décadas de 50 e 60. A “musa da crônica bossa nova” descrita por Coutinho é, para Reinaldo Santos Neves, difícil, talvez impossível de definir, mas, foi, certamente, “alguém que abriu caminhos – principalmente para as mulheres de Vitória”, e isso, “sem lágrimas nem dor. A não ser para ela mesma” (SOUZA, 2002, p. 183).
Carmélia declarou ter consciência de ser uma pessoa “perdidamente feliz”. Ela faleceu no dia 13 de fevereiro de 1974, de embolia pulmonar. Deixou um texto endereçado aos seus amigos, que diz:

[...] Eu parti feliz: me esperavam os braços do meu pai e a ternura de minha mãe que tão pouco tive... Diga aos que me amaram que eles me fizeram feliz. O seu amor justificou o meu amor e a ternura dos meus gestos, quando eu esperava por eles com as minhas mãos estendidas. É assim que eu os espero, nas esquinas dos astros, em alguma nuvenzinha azul...[1]
[1] 20 anos sem Carmélia, a cronista da Ilha. Kátia Bóbbio. UFES/ DEC/SEDU.
Certamente Carmélia não imaginava o legado que deixava para as próximas gerações. Sua crônica não se tornou “crônica do dia seguinte”, ela sobreviveu à efemeridade de seu suporte, o jornal.
Carmélia recebeu várias homenagens foi eleita Patrona da Academia Feminina Espírito- Santense de Letras e em 16 de setembro de 1986. O Governo do Estado do Espírito Santo inaugurou o Centro Cultural Carmélia Maria de Souza, com o objetivo de se tornar um pólo de incentivo à atividade cultural. O bairro República, possui uma rua com o seu nome.
Na crônica intitulada Minha Félia ela lança um olhar sobre si e seu tempo:

Quando nada, vou cumprindo a tarefa de aperfeiçoar a ferramenta para os outros, que certamente virão. Quando nada, é possível que eu me saiba um pedaço desta ponte que deverá conduzir a humanidade até um mundo melhor. Tenho pena de não haver esperado para nascer no ano de 2050. Porque até lá, a imortalidade seja possível e a vida seja feita de colaboração e não de competição. Todavia isso não passa de uma conjetura, apenas desejável. No momento, a disputa por um pedaço de pão atirado no lixo, a dura luta contra a escravidão [...] é o que constitui a presente e amarga realidade que me foi dada para contemplar. [...] Mas ela passou a ser minha preocupação maior, a minha verdade, a minha poesia. Ela é hoje a minha consciência – a minha clara e nítida consciência, minha promessa única de realização nessa vida (SOUZA, 2002, p. 95).

Referências:
-BRAIT, Beth. Ironia em perspectiva polifônica. Campinas: Unicamp, 1996, p.13- 111.
-NEVES. Reinaldo Santos. Mapa da literatura brasileira feita no Espírito Santo. Disponível em: <
http://www.estacaocapixaba.com.br/escritor_es/visao/mapa/mapa_5.html>. Acesso em 23 de fev. de 2008.
-POETAS Capixabas. Disponível em <
http://www.poetas.capixabas.nom.br/Poetas/detail.asp?poeta=Carmélia%20M.%20de%20Souza> Acesso em 23 de fev. de 2008.
-MOISÉS, Massaud. A Crônica: a criação literária Prosa II. Ed. 16. São Paulo: Cultrix, 1998. Cap. III, p. 101- 120.
-SOUZA, Carmélia Maria de. Vento Sul. Vitória: Conselho Editorial da Gráfica Espírito Santo, 2002.


Texto apresentado no III Seminário sobre o Autor Capixaba:
Bravos Companheiros e Fantasmas.
dia 11 de junho (quarta-feira) / 16:00h / Sala Guimarães Rosa / Mesa 4
PS: apesar da polemica, mantivemos a data de nascimento da cronista como sendo 1936, como consta em seu livro póstumo Vento Sul.