04/03/2008

mentiras sinceras

Eu finjo e minto, sim!
Finjo ter o que não tenho e
ser a pessoa que não sou.
Finjo que sou a mais feliz,
e se me convém, àquela cuja a vida,
é puro amargor.
Amar você, finjo também,
e delicio-me com a brincadeira.
Finjo múltiplos orgasmos,
finjo sentir dor, emoção.
Finjo ser flor casta,
purinha, em pleno botão.
Finjo ser aquela que
precisa ser protegida.
O choro, puro fingimento.
São cenas e imagens que nascem
das camadas profundas da Mente,
verbo-mentirinhas sinceras que
vão encharcando a terra da poesia,
e gerando fios e linhas
para que eu trame.
A verdade?
Essa dama obcena,
ela que se dane!
O importante é atuar com primazia.
Se todo poeta é um fingidor,
Erga-se, então, uma forca coletiva!
Mas na fila para o enforcamento
serei das últimas,
talvez até se quebre a corda puída.
Enforquem primeiro o Pessoa,
em seguida o Nobre, a Hilda,
Os irmãos Campos devem vir na sequência,
e façam o Pignatari assistir.
Mas advirto, não adianta!
Poeta morto é o que mais fala.
Não acredita?
Pega um livro da Espanca, lê,
e respeitosamente, te cala.

29/02/2008

corpoesia

Vem buscar a palavra escondida.
As letras estão espalhadas
pelo meu ventre.
Acentos exclamam extasiados:
_ "Verbo!"
Minha anca vibra.
Nas esquinas da minha anatomia,
as vogais,
reunidas uma a uma,
celebram conso(n)ates,
e fazem sentido no meu coração.

28/02/2008

Rogo

Vem, amor,
entra aqui de mansinho e
conheça o meu mundo,
revelado só para ti.
Desliza por entre os lençóis,
senta à mesa.
São teus os meus espaços,
os meus sonhos e embaraços.
Entra, traz contigo braços fortes,
me abraça e cobre com beijos ardentes,
traz também,
o teu sorriso de luz.
Cava o meu chão e
planta a tua semente,
rega com amor essa terra,
ressequida de solidão.
Faz cair sobre mim, maná,
faz jorrar, abundantemente,
o teu leite e mel,
e me sacia com o teu pão.

REVERSO

Por baixo da pele,
ao avesso,
eu sou mais Eu.
Virada, pirada, tarada,
sob a tez dominada,
explícitos desejos,
lúbricos segredos.
Exaltações que
o orifício delata.

26/02/2008


Eu busco na palavra, abrigo e,
contemplo o tempo perdido
nos sulcos de minha face,
nas minhas mãos estendidas.
Busco amores esquecidos,
rosas murchas,
meu coração
está prenhe de saudade.
Sou a lua adolescente
vista por olhos seculares,
esferas constituintes
das formas elementares,
ameba, átomo, fractal,
espetáculo de cores.
Sou um soneto
que àquela poeta cantou
fazendo vibrar a alma.
E choro baixinho
deslumbremocionada
porque sou tudo,
em mim habita o uni-verso,
e porque sou pó,
sou nada.

18/02/2008

Núpcias de Arpe

Vou fermentar
minhas uvas na tua boca, provar desse vinho,
curtir o barato e a doçura.
Ser o sumo a colorir a taça pura,
e me apurar com o tempo que passa.
Quero em êxtase absoluto, os apuros
dos teus beijos, sorvidos agora,
diretamente da garrafa,
e depois de tudo, do amor agri-doce e
desmedido, totalmente embriagada,
ser (a)colhida nessa safra desavergonhada.
E descansar madura em teus braços,
sob os olhos e as bênçãos de Baco,
que também bebe, a dar risadas.

Jornada

Viajando nessa nave,
pelo universo afora,
faço versos e teço sonhos.
Me abisma esse fora,
que estremeço,
e contemplo esse gigante
conduzido pelo tempo.
Sigo o fluxo, não resisto,
fluo e regozijo com a jornada.
Sou conduzida por caminhos
que nunca imaginei existirem,
veredas por onde meu corpo
se experimenta e o meu espírito
agradece e vibra.
De fora sou o centro da ciranda,
do dentro sou criança e ansiã,
sou desejo e doçura e esperança.
Acalento segredos
que me eternizam,
e digo sim à vida
e a todos os seus mistérios.
Não busco respostas.
Não defina a mim ou a outrem,
não defina o amor,
ou a loucura, ou o ódio,
não pesquise as asas da borboletas,
não mate o dragão guardião de Maia,
a ilusão.
Apenas viaje comigo,
me dê a tua mão,
se solte, sorria, chore,
cante e vibre.
Pois é assim que sinto
o meu espírito agora,
preso a ti por um fio de sangue
e liberto pelos laços infinitos do amor.


(Dedico este poema a meu irmão Emanuel que vai se casar.
Segue com ele o meu carinho e desejos de felicidade.
Segue também um beijo da irmanzinha que tanto o ama)

ciclos

E do limbo eu canto a canção do esquecimento.
Desse lugar plástico, sem dono, fora do tempo,
meu eu desabrocha em camadas e, sou muitos
homens e mulheres.
Meu ser está leve, e flutuo no fimamento passeando
por entre as estrelas, brilho com elas.
Cantando o esquecimento re- lembro que um dia,
ecoei no abismo, fluí com o rio, fui, talvez, uma fera,
uma planta, uma mulher, pedra bruta.
Trago dentro de mim, adormecidas, imagens, dores e delícias
de muitas existencias, transmutadas em sensações, pulsões.
Das feridas já não me lembro, dos nãos brotam hoje muitos sins.
E do limbo parto seguindo a tragetória que me foi reservada
desde que o sol lançou seu primeiro raio.
Alma liberta, rumo ao encontro de outras almas,
para cantarmos em coro o
germe de novas lembranças.

13/02/2008

Entre a luz e a escuridão
há um rasgo,
uma fissura,
por onde o tempo espia,
de lá se contrai,
em dores, a ternura.
E já nascemos na bruteza,
com um grito embargado na garganta,
que quando liberto,
revela ecos de outras vidas,
palavras- trama,
e somos postos entre o estro e a afasia.
Sempre em busca da beleza,
a alma, só na arte se encontra,
aprende a plasmar a terra e a si,
sua ferramenta, o coração.
E pra validar a existência
transforma o caos em esperança,
recria, se pare fora do tempo,
nas asas da poesia.


bairenata