10/01/2016

Centenário de morte de Rubén Darío é celebrado poetas e pesquisadores (Renata Bomfim)


No dia 06 de fevereiro de 1916, em León, na Nicarágua, morria Rubén Darío (1867-1916), representante máximo do Modernismo hispano-americano. Uma festa cultural com poesia, mesas redondas, apresentações musicais e de dança celebram, em 2016, o centenário de morte do “Cisne da América”, como também é conhecido o poeta.
Despertei para a poesia do nicaraguense Rubén Darío durante as pesquisas de mestrado, enquanto investigava a poesia da portuguesa Florbela Espanca. Observei que, além de Florbela, Darío marcou uma geração de poetas hispanos e lusófonos, o seu nome figura entre os mais importantes da lírica de língua espanhola.
A Vanguarda hispano-americana, de 1925, e os movimentos continentais que buscaram construir uma poesia contemporânea, encontraram em Rubén Darío o seu fundamento. Octávio Paz defendeu o lugar central do poeta no Movimento Modernista, de forma que ele se tornou uma espécie de “ponto de partida ou de chegada, um limite a se alcançar ou ultrapassar”. Jorge Luis Borges chamou-o de “libertador” e Federico Garcia Lorca assinalou: Pablo Neruda, chileno, e eu espanhol, coincidimos no idioma e no grande poeta nicaragüense argentino chileno espanhol: Rubén Darío”.
O Modernismo hispano-americano foi a resposta da América hispânica aos processos de modernização do mundo ocidental e teve características próprias, diferindo do Modernismo brasileiro (1922) e português (1915). Foi com o Modernismo que a poesia hispano-americana revelou o seu primeiro traço, a sua primeira distinção da poesia espanhola. Com a obra Azul... (1888), Darío voltou o olhar para o Simbolismo francês e para o procedimento temático e estilístico dos chamados “poetas decadentes”. Azul... revelou a rebeldia e a inconformidade do  jovem poeta com relação à rigidez linguística que ameaçava engessar a liberdade de seus versos. Essa obra introduziu variações métricas na poesia, de forma que os versos ganharam maior musicalidade, além de trazer á luz temas americanos, como o poema “Caupolicán”, que narra a heroica façanha do índio Toqui que se tornará chefe de sua tribo. Este poema é representativo da evolução da consciência poética dariana, indicando uma transição que se concretizará nas suas obras posteriores, entre elas Prosas profanas y otros poemas (1897) e Cantos de vida y esperanza (1905), quando os valores hispano-americanos emergirão de forma mais contundente. Rubén Darío foi intérprete das inquietações continentais, militando pela renovação da língua e exigindo maior liberdade para o labor poético. O poeta proclamou que os americanos, de idioma castelhano, conquistaram independência mental frente à Espanha, assim, a corrente modernista conseguiu unir destacados grupos que cultuavam a arte cosmopolita e universal.
Ninfas, faunos, bacantes, marquesas, princesas, deusas e deuses criam uma atmosfera mítica na obra dariana, que também é marcada pelo sincretismo religioso e por um erotismo transcendente. Nela, vemos emergir a “selva sagrada” e “suntuosa”, onde o amor sempre triunfa e onde os prazeres da carne e do espírito vencem os desgostos da vida ordinária e cotidiana.  O paganismo sincrético e variadas doutrinas esotéricas como o budismo, tantrismo, platonismo e pitagorismo permeiam a obra de Darío, como mostra o poema “Ama teu ritmo”. Nesse soneto clássico endecassílabo é possível perceber ecos do pitagorismo, que define o número como a lei do universo. A doutrina pitagórica e neo-pitagórica, já descrita por Plotino, foi retomada pelos modernistas, que preconizaram que o ritmo interior deveria estar harmonizado com o ritmo celeste para que a alma pudesse penetrar na harmonia universal: “Ama teu ritmo e ritma suas ações/ sob sua lei, assim como teus versos;/ és um universo de universos/ e tua alma uma fonte de canções.// Escuta a retórica divina/ do pássaro do ar e a noturna/ irradiação geométrica adivinha”. “Moderno, audaz e cosmopolita”, assim se define o eu lírico dariano em Cantos de vida y esperanza.
Darío, que em 1914 esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo preferindo palestras, se apresentou como o poeta da América (“Sou um filho da América e um neto da Espanha”), militando pelo destino e identidade hispânicos. O eu lírico dariano aspirou compreender a sua natureza híbrida e fragmentária e, mediante a constatação da fragilidade da vida, tornou-se contemplativo. Autor de uma obra monumental que abarca poesia, contos, crônicas, cartas e romance, Darío chega à contemporaneidade sendo apreciado pelo público leitor e estudado por pesquisadores de todo o mundo. Em 2014 defendi, na UFES, a pesquisa de doutorado intitulada “A flor e o Cisne: diálogos entre as poéticas de Florbela Espanca e Rubén Darío”, na qual pude constatar a riqueza e a relevância da poesia dariana também no campo da lusofonia. No centenário de morte do grande poeta nicaraguense, fica o nosso desejo de que ele seja cada vez mais lido pelo público brasileiro.

Renata Bomfim


04/01/2016

A noiva de Nicanor Parra (poema Renata Bomfim)


Dedicado ao grande antipoeta chileno

Olha-me com ternura.
É tempo de estiagem,
De secura e de dor.
Já não posso sonhar,
Já não posso cantar,
As histórias perdem o sentido,
Meu coração está ressequido,
Olha-me com ternura.

Minhas mãos tocaram
(em sonho), as cordilheiras,
como se elas fossem um brinquedo divino,
e eu, uma menina de sorrisos e tranças...
 − Nunca poderão reproduzir Tamanha beleza! 
− Jamais alcançarão os mistérios das pedras.

Escutei as rochas solitárias,
Conheço a linhagem dessas pedras milenares.
Escalei as paredes mais elevadas, em busca
de mim mesma.
As mãos revelam essa intimidade granítica.

Olha-me com ternura.
Escuta a voz que vem das grutas,
Ecos de nossa humanidade perdida.
Lamento pela morte dos deuses,
Clamor que faz tremer a terra.
Rega com amor a matriz do poema,
Recria a mitologia (ao avesso),
Reproduz uma canção inédita,
Somente tu, poeta, pode fazê-lo.

Olha-me com ternura.
Eu, a mais infértil das mulheres,
Em busca de redenção, de afeto,
Ansiando renascimento.
Desposa essa criatura capaz de gerar,
apenas, utopias e alvoradas. 


*
Renata Bomfim.
Vitória, ES/ Brasil. 
Jan. 2015

*Poema foi traduzido para o castelhano por Pedro Sevylla de Juana e publicado na Revista Centro americana DECENIO. 

Luz (Renata Bomfim)

afasto de mim 

toda humanidade
para me fazer 
humana: energia.
nem homem,
nem mulher,
nem planta...
apenas partículas
invisíveis,
potentes geradoras
de luz.
faço de mim lugar
(ermo)
passos construindo devires,
transformo sonhos
em não sonhos:
           sou toda para ti,
           sou toda para o Nada
           sou toda... Luz.
          

Ensaio crítico: Renata Bomfim, Retrato Activo (Pedro Sevylla de Juana)


En el principio era el símbolo, y el símbolo estaba cargado de energía. El símbolo global albergaba símbolos más pequeños y, estos, símbolos individuales. El conjunto era un mosaico simbólico de una belleza sublime.
 El Demiurgo se complacía en la sublime visión del mosaico de símbolos. Lo imaginó real y obró en consecuencia. Al símbolo del sol le dio masa y lo llamó Sol. Procedió del mismo modo con todos los símbolos. Los llamó Tierra y Luna, y Cielo y Suelo, y Día y Noche, y Mar y Río y Peces, y Aire y Águila, y Caballo y Árbol y Roca, y Mujer y Varón.
Terminada esa tarea ingente, el Demiurgo enunció unas normas destinadas a mantener el Equilibrio y la Armonía. Las llamó Leyes Naturales, y se sintió satisfecho. El paso del Tiempo con su roce constante, ese Devenir dinámico, ocasionó holguras entre los pedacitos que formaban el Mosaico; y ya nada fue como al principio.




RENATA BOMFIM, RETRATO ACTIVO

Se miraba Renata Bomfim, joven poetisa capixaba, en el agua del manantial donde lava su cara; y el agua se movía mostrando un rostro móvil, un retrato activo. Conoció, la joven artista brasileña el origen del mosaico universal y, en busca de la belleza primigenia de los símbolos, se dirigió al principio. Del símbolo hizo pieza de su mosaico poético, de su mosaico artístico, y embelleciendo su entorno avanza: Transitei por mundos ignorados. /Abracei, com amor, os corpos celestes,/ Reencenei a criação do mundo…/Vi uma imagem refletida/ Na superficie dolente de um lago,/ (Era a minha).
Buscadora de oro en los cauces auríferos, sabe Renata Bomfim que no es oro todo lo que reluce: Le pregunto acerca del proceso artístico y poético seguido, y me dice:“Estou muito encantada e feliz em ter o seu olhar sobre a minha arteGeralmente as pessoas esquecem que também sou artista plástica. Embora neste momento me dedique apenas a poesía, entre os anos de 1995 e 2000 eu trabalhei como mosaicista e design de joias. O mosaico “alegria” é feito com cristais e ágatas brasileiras, ele é uma ode ao momento, um altar para Chronos, deus do tempo. As jóias mosaico são uma tentativa de colocar o cosmo no colo das mulheres, uma evocação ás formas e a energia da natureza… Eu sofri um acidente automobilistico (um big bang que sobrevivi), e fiquei impossibilitada por dois anos de fazer mosaicos. Então, passei a estudar teorias que não exigissem tanto do meu corpo, estudei arteterapia, psicologia junguiana, psicossomática; e todos os caminos que arrisquei seguir me levaram a poesia. Hoje estou completamente recuperada. Bem, eu pinto por prazer mas me sinto mosaicista, e fui aluna e amiga de uma grande mestre, que é considerada a mãe do mosaico brasileiro, o nome dela é Freda Cavalcanti Jardim: morreu em 2000. Me dediquei ao mosaico, e dentro do mosaico, ao vitral e a joalheria., le encaminho um link com alguns trabalhos, uma parte muito pequena do que produzi. Tenho joias espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Mas, isso tudo me parece tão distante, não sei dizer o por quê…Tudo o que faço é mosaico, até mesmo os poemas são poemas-mosaico”.
La poesía es para Renata Bomfim el estaño que une las piezas en el colorido vitral de su vida: ir, abarcar, progresar, dejar huella, mejorar lo existente, trasformar, crear, amar y ser amada: Poesia é / a palavra / dando cria,/ germinando,/brotando…Sou um soneto/que aquela poeta cantou/ fazendo vibrar a alma…. Vem buscar a palavra./ As letras estão espalhadas/ pelo meu ventre… Busco alento na poesía… Transita no ritmo/ Explode e goza num grito: Poesia!…Ser poeta é cantar alto/mesmo com a voz embargada/…El poeta, ser plural, asume su propio papel y lo desarrolla con todo el saber y entender: É um mago condenado./ É tantos e todos que é ninguém. Por eso necesita: Banhar-se na chuva mansa, regozijar na tempestade/ e dormir ao relento, onde o frio adensa;buscar veios de ouro e água doce no deserto.
Renata Bomfim parte de la consciencia de Ser, de Existir; punto de apoyo de su palanca. Es y existe integrada en el Universo en expansión, piedrecita del mosaico universal, mas piedra viva y pensante: Eu sou pedra bruta/ girando na ciranda viva… Sou toda bruma/ rio a deslizar pelos penhascos…Amo cada centímetro desse chão,/cada fungo, cada inseto… raízes brotam do meu peito e/ saem pela minha boca…Ó felicidade de entender, maior que a de imaginar ou a de sentir! Se esfuerza a diario para ser esa piedra diferenciada que encaje a la perfección en el lugar previsto del mosaico; diseño predefinido entre la naturaleza y ella. Para la poetisa y artista capixaba, primero fue el mapa, y con él se trazaron los caminos entre montañas, bordeando ríos: Sigo, amor, numa luta ferrenha/ para ser eu mesma. Encaixando os meus fragmentos/ nas partes do mundo que cabem… Sou eu buscando ar, espaço, acolhida,/ tentando ser gente, precisando de amor…Sou toda dissonância/ Mas busco harmonia/ equilíbrio,/ beleza, cor…
Es río Renata Bomfim, río que discurre hasta el mar. Un mar que puede no ser el fin sino el principio de lo nuevo que busca: As ondas me constituem… Bebi sonhos,/Me alimentei de ternura,/ O Sol se curvou por um momento/ O tempo sorriu para mim… A minha alma anseia,/ ao som do mar, e a luz do céu profundo, ver brotar de ti poesía…Estive olhando o mar/ no horizonte./ Uma linha perfeita/ como jamais serei. Camina, navega, explora y, en las bifurcaciones, quisiera abrir un atajo nuevo en medio de las sendas existentes: mas logo me interroga/a bifurcação…Voo inaugural para uma nova existência.Rehacerse, reinventarse sin dejar de ser ella, sumando a lo ya conseguido: Adquiri habilidades:/Me disfarço,/ Me misturo,/Posso até desaparecer…
Es consciente de existir siendo mujer; más aún, siendo hembra: pieza esencial de la continuidad humana: Sou mulher, portanto,/ a minha alma cintila/, comunga e dialoga / com todas as estrelas ….Nem esposa nem amante,/Namorada!/ É o quero ser/ Sonho com o estado de graça/ da mulher que não tem dono,/ que tem asas/ que deliciosamente ameaça voar. Cumplidos en ella los designios de quien todo lo propicia, descansará: até que a noite a cubra /com seu manto de prata. Se une a las iguales por pura hermandad: E eu amo a todas elas!…Nos unem os ciclos da lua,/ a terra do corpo que vibra… Mãe e amante de tudo que vive e respira

El hombre, fecundador imprescindible, con frecuencia se erige en dueño y señor: Mas o homem não entendeu…Finjo ser…Aquela que precisa ser protegida… Pero ella le quiere amante, compañero, colaborador, amigo: Quero abraçar teu desamparo./Ser tua gêmea, invertida… Arrancas de mim a máscara / sem que eu tenha medo…Companheiro,/ Vamos conjugar verbos…Subverter o alfabeto…Gozar nas texturas plurais.
Canta a la sensualidad y su canto es apremiante. Cava o meu chão e/ planta a tua semente…Habitei o templo da luxúria…O tátil se apoderou de mim!…Te submeto aos meus desejos mais indecentes…Sou terra úmida/ à espera da tua semente, como se fosse a última….lascivos e exaltados,/ nos devoramos até não sobrar nada…Mulher, fêmea, / meu nome/ é prazer….
La soledad y la búsqueda en la artista integradora, se hacen cuestión vital. Busca fuera lo que tiene dentro; y lo busca para llenarse de lo que ya está llena: Sinto fome de infinito…O vazio me invade:/ Resto plena de tudo o que não sou eu…Ser poeta…É buscar o outro/ e encontrar a si mesmo… A solidão é um abismo/ e guarda uma paz preciosa!…Busco Ítaca!/ Busco a minha alma/ na alma daquela que tece à espera… En ocasiones, alcanza consciencia de su propia diversidad y, aunque en broma, se siente completa: Confeccionei bibelôs em gesso,/ elaborei mosaicos dos infernos,/ tão belos que Gaudí invejaria./ Criei joias, contei histórias, pintei, / bordei, toquei violão, fiz mandingas,/ macumbas. Aprendi dança de salão, /dança do ventre, escrevi versos.
La autora del poemario Mina, ama al otro, al congénere, al amigo fraterno, al desconocido sospechado: onde o amor impera, o/ sacrifício é sacro, é santo,/ ofício de doação per se./ Que surja uma nova era,/a era das rosas, era de ouro, /era de mim e do outro, era de nós….Despertar os sentidos/ adormecidos/ ser um deles…ser um com ele/ um com ela…Somos um todo!… Quero abraçar teu desamparo, sim! / Acolher a dor que mora dentro,/ curar as chagas, deixar ir. Sufre con el oprimido, con él se resiste; y pide a quien corresponda el cese del dolor inútil: Tememos!/ Trememos!…Alivia-me dessa dor!/ Seca o sangue que escorre e corre…Alivia-me do grito que está preso nas entranhas! Liberta-o!…Prefiro a morte à sujeição.
Necesitada de sostén y agarradero, está dispuesta a creer. Ve un Dios inconcreto, plural, avalado por su obra y la moral del respeto generalizado: Respeitosamente espero a chuva cair…Tenho uma sede insaciável/ De Deus…/Por isso bebo a flor e o orvalho…Preces e rogos e oferendas / Para um deus pagão…Mulher peca nua,/ santamente./ Seu gozo resgata do purgatório…Visto roupas brancas e puras/ e ouço mantras transcendentais…Neste caminho que é a vida/ sou levado a buscar o nirvana,/ a estar com todos os chakras alinhados…Vou mandar rezar uma missa/ Para que me deixes descansar/ e para que também descanses…Dios está: onde se tangenciam natureza e poesía.

El paso del tiempo vacío, la temida rutina, llevan a renata Bomfim a hacer, a transformar:Assim o cotidiano invade a carne,/ um dia após o outro:mata as células, esmaga os sonhos. Mas dos dedos brotam letras/ que não se repetem jamais! Las manos, al servicio de la mente, sirven para dar vida a mosaicos y vitrales, diseñar joyas, unir pedazos de vida: Rompeu-se o que era de ouro e fino e delicado./ Brocado de oníricas texturas.., Catedral envidraçada,/ Templo óptico… ouro e mercúrio/ Amalgamado no espelho cruel de Narciso… ser fragmento/ no mosaico cósmico…
Su espacio es lugar de acogida para piedras, árboles, animales; y todos con sus derechos. Los gatos merecen poemas y dedicatorias: A Lili, Verinha, Elvira, Elvis,/Elvis Júnior e Dedo…Busco o natural/ nos escombros e resquicios/ do animal que sou… Acredito que você é um anjo/ uma gatinha-querubim./ Eu a quero pra sempre perto de mim…Amigo macio e misterioso,/ o que anima a tua essência?/ Qual motivação divina te fez assim:/ Astúcia, graça e beleza? Se considera Renata Bomfim parte de un todo universal, sufre en lo profundo el daño que la naturaleza recibe del hombre y sabe que herir a una parte es herir el todo, el hombre incluido: É obsceno produzir lixo em profusão,/ degradando a natureza. Letargia/ Consumo/ A terra agoniza,/ o gemido é visceral…De tanto arranhar a Terra e violar os Rios/ ofendendo o grande Nada.
La poetisa nacida en la Ilha de Vitória, capital de Espírito Santo, consciente de la ingrata realidad social, se ríe con las cosas más serias; y con las menos. Juega con las palabras, sonidos y significados. Mote/ o trote/ o xote/ vou seguindo/ sou essa alma que grita/ Inspirada!/ cobra pronta a dar o bote.
Humana hasta la médula y persona social, se mueve entre el temor y la esperanza, entre la aceptación de la realidad y el deseo de cambiarla: Dores e lágrimas, / medos inexplicáveis/ até mesmo da plenitude e/ da felicidade…. O homem se pega em desatino,/ a sua vida será labor e sacrificio… Sigo vencendo o medo da morte…¡Oh, Dios! ¿Qué dolor es ése que/ parte de lugar que desconozco/ y viene a alojarse aquí dentro,/ haciendo de mi pecho cuna, celda, cementerio?…Experimentei da dor, da violencia/ da solidão…da amizade e de incontáveis alegrias….E amei, amei…
Creativa inteligente, halla modo de contarnos que hasta en sus preferencias hay grados: Com Freud e Lacan, muito sexo./ Flerte com Foucault. /Com Bakhtin, pura amizade./ Mas com Jung, amor./ Com Deleuze, um chá a tarde, /Com Baudelaire, cigarro, rapé, campari./ Conselhos, tomo com o Jameson, /Mas sigo sempre as dicas do Paz./ Sedutores pirados, visionários, poetas, / Combinam bizarrices e genialidade, / Roubam meu tempo, minhas letras e /Partem falando de mim. Fica a saudade.
De cuando en cuando, nos deja unas pinceladas de su poética: Sonhei escrever um poema/ impossível, marcante e forte/ cujas letras estivessem prenhes de espírito/ a musicalidade fizesse vibrar a carne e, o metro,/ reproduzisse a perfeição do infinito…./ Mas como cantar a beleza bruta,/ que se revela apenas em lampejos?…..A natureza escreveu o meu poema:/ Traçou nas linhas da roseira/ metrificou o caminho da formiga/ e às rosas perfumadas/ foram embaladas pelo ritmo do vento…
Hay una ventana abierta en su vida que ella llamaLetraefel; un diario que escribe para emocionar. En las páginas virtuales de ese blog, junto a las entregas de otros, deja retazos de sí: piel, carne y hueso arrancados de su ser más íntimo. En ellos y en sus libros de poemas se encuentra la poetisa de nervio, artista y creadora diversa.
Pieza del mosaico poético, es preciso situar a Renata Bomfim en el contexto cultural al que pertenece. La poesía en portugués, en opinión tan autorizada y experta como la del carioca universal Ivan Junqueira, es superior a la que se escribe en otras lenguas. No es sólo cuestión de lengua, aunque la lengua portuguesa, por su estructura y morfología, da facilidades a la lírica. También influye la oportunidad histórica y la trayectoria de los poetas anteriores. La pedagogía será otro elemento favorable; y el número de practicantes.
Abundan los poetas en Brasil. Mujeres y varones por igual; baste mirar la extensa nómina de poetas capixabas. El fenómeno internet y la consiguiente facilidad de publicación, permiten que el concepto de poesía se amplíe y quepan en él poemas que antes no tenían hueco. De la cantidad también proviene la calidad. Las revistas de poesía y los blog personales, están siendo promovidos por poetas que gozan de pasión poética y generosidad para con los afines. Todos los estilos, todas las tendencias y corrientes conviven. Puede apreciarse la lucha intemporal entre renovación y permanencia. La traducción a otras lenguas nunca ha sido tan dinámica. Es un fenómeno que está siendo positivo para la divulgación. Caso excepcional es la simbiosis entre la poesía en portugués y la poesía en español. Lenguas hermanas, permiten una convivencia y un trasvase inimaginable hace décadas.
Renata Bonfim es una poetisa agitada y mecida por su tiempo. Nada natural le es ajeno. Su mitología está formada por elementos del Zen, del Cristianismo y los enigmas del comportamiento humano en relación con lo intangible. Hay conocimientos, en su poesía; sentimientos, belleza y universalidad. Piedra, agua, viento, fuego: los cuatro elementos en permanente interacción. La necesidad de trascender su hit et nunc, es una constante en la obra de esta poetisa brasileña; y el fuerte deseo de alcanzar las estrellas desde las raíces de sus pies.
Su poesía bebe en El Cantar de los Cantares, en Virgilio, Horacio, Fray Luis de León, Bodelaire, Verlain y fuentes muy diversas. Sus pensamientos, sus intuiciones, ese deseo irrefrenable de ir hacia lo desconocido, se expresan mejor en lo simbólico: mosaicos circulares que tienden a la elipse sin ella saberlo, joyas que adornan mujeres de cualquier país. Siente admiración por el gran Rubén Darío: agudeza, brío, arrebato, osadía y rebelión. Admira a la valerosa, crecida y capaz Rosalía de Castro, y las coincidentes miradas sobre lo propio: tierra y gente. Ahí se encuentra con la inmediatez de Juan Ramón, la oscura acuarela de Bécquer y las soledades inconclusas de Góngora. Desea una charla imposible con Octavio Paz. Lorca le sirve de enlace con otras poesías. Los místicos la atraen: Teresa de Ávila y Juan de la Cruz. Fernando Pessoa y José Régio forman parte de sus poetas esenciales.
Referencia aparte merece la prolongada relación de Renata Bomfim con la obra de Florbela Espanca, la voz femenina más importancia de la lírica portuguesa del siglo XX, en su opinión. Orgullosa se siente la brasileña de las influencias recibidas. Seguramente es así, porque el profundo estudio y los trabajados publicados sobre la portuguesa, vida y obra, siendo causa también serán consecuencia. No obstante, es indudable que ambas mujeres coinciden en la manera de abrir camino a la feminidad, en el deseo de emancipación y en el enfrentamiento a las convenciones sociales. Y una curiosidad: fue la relación estrecha entre Florbela Espanca y Rubén Darío, lo que llevó a Renata Bomfim a la poesía del nicaragüense y a continuar la investigación sobre Florbela.
Lo ibérico, hispano y luso tan iguales y tan distintos, resulta esencial para la poetisa capixaba. Ella lo amalgama y lo funde con lo recibido, sentido y amado de los poetas brasileños: Castro Alves, Manuel Bandeira, Cecília Mireles, Drummond de Andrade, Dos Anjos, Raul Bopp, Guimarães, Coralina, Guilherme de Almeida y tantos otros. Aunque, es preciso destacar, que bebiendo en fuentes de cualquier lugar y época, no sigue corrientes establecidas ni modas temporales. Los ríos poético y artístico de la volitiva Renata Bomfim, labran su propio cauce de manera espontánea: hace ella lo que desea hacer, y va adonde, en cada momento, quiere ir.

31/12/2015

Feliz 2016! (Renata Bomfim)


Desejo aos leitores do Letra e fel um 2016 cheio de amor, saúde e oportunidades!
abraços dessa poeta
Renata Bomfim

I CONACSO - Congresso Nacional de Ciências Sociais: desafios da inserção em contextos contemporâneos (por Renata Bomfim)

Resumo:
Entre agosto de 2014 e abril de 2015 integramos a equipe do Projeto Terapêutico e Social do Centro de Acolhimento para Pessoas com Dependência Química do ES. Nesse trabalho nos deparamos com o desafio de desenvolver um plano de Atividades Lúdicas Terapêuticas (ALT) junto a dezesseis comunidades terapêuticas (CTs) credenciadas pelo Governo do Estado. Lançamos um olhar sobre alguns textos poéticos produzidos durante essa experiência, refletindo sobre a importância da inserção das práticas de leitura e de escrita de poesia (e outros gêneros) nas grades de atividades das CTs.  Nossa inserção nesse serviço tinha como objetivo criar condições para que o Outro, enquanto alteridade, falasse e que a sua voz fosse ouvida. Refletimos sobre essa experiência tendo como aportes teóricos basilares a Teoria Pós-colonial, a Teoria da linguagem segundo Bakhtin e contribuições de pensadores como Michael Foucault, Jacques Rancière, Marcuse, Boaventura de Sousa Santos e Alfredo Bosi. As oficinas de poesia nas CTs trouxeram à cena questões sociais relevantes no âmbito dos Direitos Humanos, ratificando a proposição de Marcuse, para quem a arte, na sua autonomia perante as questões sociais, é capaz de romper com a consciência dominante, revolucionando, dessa forma, a experiência.  

Palavras-chave: Poesia; Oficinas terapêuticas; Comunidades terapêuticas.

Abstract:
Between August 2014 and April 2015 we integrated the Therapeutic and Social Project team Shelter for People with Addiction ES. In this work we face the challenge of developing a plan Therapeutic Lúdicas Activities (ALT) next to sixteen therapeutic communities (TCs) accredited by the State Government. We launched a glimpse into some poetic texts produced during this experience, reflecting on the importance of integrating practices of reading and writing of poetry (and other genres) in the grids activities of the CTs. Our inclusion in this service aimed to create conditions for the other while otherness, speak and that their voice heard. We reflect on this experience with as fundamental theoretical contributions to Postcolonial Theory, the Theory of language According to Bakhtin and contributions of thinkers like Michel Foucault, Jacques Rancière, Marcuse, Boaventura de Sousa Santos and Alfredo Bosi. The poetry workshops in CTs brought to the scene relevant social issues in the context of human rights by ratifying the proposition Marcuse, who art in its autonomy from social issues, it is able to break with the dominant consciousness, revolutionizing thus, the experience.

Keywords:
Poetry; Therapeutic; workshops; Therapeutic communities .


30/12/2015

Achei que bastaria (Renata Bomfim)

Achei que bastaria
O amor imaginado
A tua mão na minha.
Achei que bastaria
Esse canto errante endereçado.
Mas, não bastou e o fim se insinua
Dança nu, convida para o coito.

Abastados e amantes
Devires e misérias submersas.
Achei que bastaria a ilusão de mim mesma

Sob o manto de uma noite estrelada.

Vitória, 30-12-2016

29/12/2015

Oito Ventos, produção audiovisual capixaba que perfaz um circuito ficcional transitando entre a dor, a fé e a esperança (por Renata Bomfim)



“Mantenha-se inabalável diante do sopro dos oito ventos!”, orienta o tratado sobre o Sutra do Estágio do Estado de Buda. A fartura, a glória, o prazer, assim como a derrota, o sofrimento e a decadência são descritos na tradição budista como “ventos” aos quais o ser humano é exposto durante a vida, devendo perante eles manter-se impassível. Mas, nem sempre a alma resiste, e o ser acaba sendo arrastado para lugares de onde é difícil retornar. É assim que, muitas vezes, o mundo das drogas, esse vento bravio e impiedoso, arrasta não apenas a pessoa dependente da substância psicoativa, mas também familiares, amigos, conhecidos.

Oito Ventos é uma obra capixaba da gema, digo isso com orgulho mátrio, constatando a qualidade técnica e estética das produções que vem surgindo no nosso Estado, seja nas artes plásticas, na literatura, na música, etc. Essa obra híbrida, − produção audiovisual que mescla música, entrevistas, fotografia, ficção, performance e poesia −, é um curta-metragem que descortina perante nossos olhos o sensível de um mundo obscuro, cercado por estigmas e preconceitos.

O videoclipe teve cenas gravadas na Avenida Carlos Lindenberg, em Vila Velha. Nele foram utilizados os pontos de luz dos postes para criar uma atmosfera urbana e pouco definida, padrão estético e visual que segue a linha documental, captando a luz ambiente e incorporando cenas externas gravadas com lentes próprias. Segundo o diretor Luiz Eduardo Neves, busca-se um “visual cru, que se aproxima das produções do diretor José Padilha”.

Transformar a dor em poesia é apanágio dos artistas. É isso que encontramos nessa obra lançada em maio deste ano. O diretor entrevista mães de dependentes químicos auscultando seus medos, ansiedades, esperanças. É comovente ver a força e a fé dessas mulheres que vivem orando, lutando, que se propõe a descer ao inferno para resgatar seus filhos das garras da morte: luta muitas vezes inglória.

As relações vivenciadas na trama são conturbadas, conflituosas, mas, num átimo, o caos cede e sentimos, dentro de nós, raiar um fiapo de esperança, afinal, como diz a composição do rapper Aliado Jota “Demorou, mas eu dei valor a minha esperança, minha mãe me ensinou como se enxerga à distância”. O papel das mães, nessa obra, é preponderante. Depoimentos verídicos das senhoras Maria Deia da Costa, Josefa Maria da Silva, Doralice Pereira dos Santos e Rita Santos, captam de forma sensível, aflições, medos, questionamentos e esperanças que são também a de milhares de outras mães espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.

A letra de Oito Ventos é contextualizada a partir dessas múltiplas vozes femininas potentes em amor e resiliência. Dona Maria Deia da Costa, de 68 anos, compartilha com o expectador a luta para manter uma casa, visto que é arrimo de família, e a apreensão de que algo de pior acontecesse com Joberth da Costa, seu filho: “Eu sou uma mãe muito preocupada, porque a gente cria um filho assim, sem um pai presente é complicado. É muito difícil mesmo”; já Dona Rita Santos, de 51 anos, mãe de Rafael e Rafela, ressalta a importância do perdão após a decepção: “Depois de pensar onde você errou é hora de dar outra oportunidade. Filho é sempre filho. Independente que o mundo não acredite nele”.

É assim, de passo em passo o amor vai rasgando a grossa camada da indiferença social e do medo e o protagonista passa a perceber que há possibilidade de recuperação, que “a fé cicatriza as feridas”, que é possível, embora não seja fácil, outra forma de viver: “Ame a você mesmo, sempre fique de pé, a maldade está aí pra testar a sua fé. (...) A vitória começa a partir de agora, o que passou, passou, o mundão tá lá fora”.

Oito Ventos revela um semblante diferente, e pouco conhecido, da pessoa portadora de dependência química, geralmente desumanizada pela sociedade, “um lokão no submundo”. Vislumbramos um impulso que surge impelindo-o a buscar a vida: a parte do seu ser não adoecida. Como bem destacou o sociólogo Zigmunt Bauman, em uma sociedade narcótica, de consumidores, onde “ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria” a subjetividade está constantemente ameaçada, mas, segundo esse pensador, já deveríamos ter aprendido que “o transe existencial humano é incuravelmente ambivalente, que o bem está sempre combinado ao mal, que é impossível traçar com segurança a linha entre a dose benigna e a venenosa de um remédio para nossas imperfeições”.


A arte articula humanidades concretas, por meio dela as determinações sociais podem ser transcendidas, o caráter da arte é emancipatório, pois ela evoca imagens e necessidades de libertação que penetram e tocam a profunda dimensão do nosso ser.  É por isso que são bem vindas produções que adejam novos devires, contestando a “pureza” da civilização contemporânea, criando um “barato” diferente: o prazer estético que é gerador de uma satisfação artística integradora. A arte se imbrica na vida, é por isso que o autor do rap que empresta o nome ao videoclipe declara: “uma nota, uma prece, vamos para a guerra, meu paraquedas, irmão, não tem reserva. (...) Se eu cair mil vezes, me levanto mil e uma”. 

Renata Bomfim
Poeta e arteterapeuta

Ensaio publicado no Caderno de Cultura "Pensar", do Jornal A Gazeta/ES
dia 26/12/2-15

24/12/2015

Feliz Natal! (Letra e fel/ Renata Bomfim)

Amigos

 leitores-internautas

desejo a todos um

 Natal  cheio de alegria e de paz!

Que, independente das diferenças,

nos façamos iguais na esperança e na

 solidariedade.São os votos dessa amiga

 poeta capixaba-brasileira 

Renata Bomfim

23/12/2015

Ao heroico defensor da palavra (Pedro Sevylla de Juana)


Desconozco su nombre:
solo sé
que ayer murió
en São Paulo
un bombero defendiendo la palabra.

Pudo salvarse con solo cumplir
el protocolo de su oficio
y salir a la calle subido al sentimiento
placentero
del deber cumplido.

Pero su tarea consistía
en apagar las llamas que devoraban
edificio y contenido,
y llegó más allá de lo obligado
arriesgando su vida
no Museu da língua portuguesa
dedicado a la palabra.

Palavra em português,
ese idioma que amo como propio.
Pero da igual el idioma en que la palabra
se formule:
la palabra es la expresión
y el entendimiento de los hombres todos:
de aquí y de allí
de ayer y de hoy
de hoy y de mañana,
guardada en la memoria del museo
para que el hombre conozca su punto de partida
y la evolución del pensamiento que le guía
expresado en la palabra.

Gloria al bombero que ayer
dio su vida defendiendo la bella arquitectura,
mezcla de lo antiguo y lo nuevo,
destinada, en la Estação da Luz
de São Paulo, a la historia rica y difícil
de la PALAVRA.

PsdeJ, El Escorial, 22 de dezembro de 2015