27/01/2007

Farrapos de Sonho- Poesia de Maria Ester Torinho...

Carnaval...
festa-delícia
recheada de malícia
temperada com pimenta e sal.

Desfile de escolas de samba:
festa feita por amantes do sonho
gigantes da alegoria
anões da vida real.

Coloridas fantasias
alegres e vadias
abafam a triste poeira
da vida desse povo
escondem as cinzas
que explodem de novo
na quarta-feira.

Para a maioria
a alegria
é somente alegoria:
mágica
onde se esquece o trágico
da realidade paraplégica.

Outras obras da escritora:

26/01/2007

A Loucura na História

Vai para dez anos que assisti de perto o trabalho criador de alguns doentes mentais; neles o processo de criar ou pintar se fazia, realmente sem controle consciente ou intelectual. Vi Raphael traçar em segundos, ou em pouquíssimos minutos, alguns dos desenhos mais belos de nosso tempo e estimados por um Breton, como superiores aos de Matisse. E é, ainda agora, com verdadeiro fascínio que o vejo lá na casa de sua velha mãe, numa ladeira de Santa Tereza, sair do brinquedo em que se misturavam as crianças da redondeza e concentrar-se, em relâmpago de tempo, em si mesmo, ou sorrindo, misterioso e alegre, não sei para quem, num jogo maravilhosos e autêntico, no curso do qual passava por vezes, pelas costas, o lápis ou picel de uma mão para a outra, e com o mesmo movimento deixava o outro braço, agora armado, correr livremente pelo pincel, conclusão de um gesto que vinha de longe, nesse momento sim, tudo era jogo, expressão, autenticidade.

(PEDROSA, Mário. Percepção e Estética: textos escolhidos II. São Paulo: editora da USP, 1996. p.327.

Antes de ser definida como patologia, a loucura experimentou outras formas de relação com a cultura. A história reflete como os homens ao longo do tempo lidaram com o inivitável, com o seu medo de perder a 'razão', com o diferente e com as diferenças. Em cada época da história a sociedade introjetou e lidou com a loucura de uma forma. Valmir Adalmor da Silva no livro História da loucura, nos diz que na Grécia antiga a loucura tinha um lugar de "saber divino", ou seja, os loucos eram vistos como mensageiros dos deuses, oráculos que aproximavam os homens das ordens do Olimpo. Além dos filósofos, os seguidores de Esculápio, deus grego da cura, também chamado de Asclépio, se dedicavam aos estudos dos segredos das enfermidades mentais. Neste contexto, a loucura encontrou um lugar social possivel, não era preciso baní-la ou controlá-la, visto que era necessária como instrumento de decodificação da vontade divina.

As crendices e superstições, a morte e a peste que marcaram a idade média, assim como o medo do apocalípse, fez com que, para o cristão devoto, a saúde e a salvação estivessem alegóricamente ligadas. A medicina cuidava do corpo que perecia e a religião da alma imortal. Qualquer que apresentasse sintoma de alienação mental era condenado a fogueira, não havia escapatória, nem apelar para a 'santa inquisição', para qualquer atitude suspeita, a terapêutica era a fogueira. Os loucos eram novamentes seres "possuídos", mas agora não mais pelos deuses, mas pelo demônio, e ai de quem se interessasse por suas pertubações. Foi um período de silêncio de aproximadamente de 400 anos em matéria de estudos no campo dos transtornos mentais, os poucos que o faziam era às escondidas.

A renascença foi marcada por um tipo de sinistro: o insano. Com o antropocentrismo a loucura passa a expressar as forças da natureza, o inumano, por meio da fala dos loucos o homem renascentista ouve as verdades do mundo e entra em contato com o transcendente. Lembrem-se que tal época traz um revival dos ideais gregos. É o terror e a atração que emanam do sinistro, a loucura é exaltada e não precisa mais ser dominada, podemos perceber este tema expresso nas obras de Bosch, Shakespeare, Cervantes, entre outros.

Mas a relação com a loucura segue se modificando e, num segundo momento do renascimento humanista a loucura deixa de expressar as forças da natureza para confugurar-se o reverso da razão e ganhar caráter moral. Dessa forma a mesma passa a ser vista como um conjunto de vícios: avareza, preguiça, indolência, etc. De substantivo transcendente a loucura passa a ser adjetivo desqualificador.

Meados do século XVII, o crivo moral se intensifica, a loucura torna-se o mundo da exclusão. A burguesia dita as ordens do que é desvio. A relação do homem com o trabalho sofrem mudanças, o artesão passa a perder poder sobre sua produção e seu tempo, acabam tendo que se submeter nas fábricas, esse novo "controle social" gera novos modos de pensar, a autodisciplina torna-se o discurso moralisante do tempo útil e àquele que não consegue tomar lugar na produção, circulação ou acúmulo de riquezas tornam-se os desviantes. Para este criam-se em toda Europa, estabelecimentos de internação que receberão não apenas os loucos, mas os inválidos, pobres, mendigos, portadores de doenças venéreas, libertinos, eclesiásticos em infração, entre outros considerados escória social. Tais espaços não eram concebidos como lugares de tratamento, mas como depósitos humanos, e o trabalho forçado era a maior das punições para o maior pecado, a ociosidade. Essa política de "limpeza" da sociedade por meio da exclusão perdurou por aproximadamente um século.

Meados do século XVIII, presa ao mundo correcional, a loucura agora está intimamente associada a crimes e pecados. A inquietude reaparece, na França as palavras de ordem são liberdade, igualdade e fraternidade, surgem novos questionamentos, o movimento francês repercute e faz-se ouvir dentro dos internatos, que passam a ser vistos como símbolos da opressão e sinal da existência de uma clásse de miseráveis. Uma nova política entra em vigor, e uma forma de administrar tais "necessitados" ressurge por meio do socorro médico e financeiro, que incentiva o retorno destes aos lares. A excessão é para com o louco que permanece internado, pois pode ser perigoso e violento, são os herdeiros da exclusão. Final do século XVIII o internato assume caráter médico e a loucura passa a ser vista como doença.

A loucura ascende ao status de "doença psicológica" apenas no século XIX. É a alma que sofre, a mente precisa ser tratada, o louco passa a ser encarado como um ser humano em conflito com sua própria desordem. A corrente alienista, tendo como expoente Pinel, na França, e Tuke, na Inglaterra, retomam práticas médicas do século XVII, acrescentando-lhes um novo caráter, trata-se de conhece-la para dominá-la. O médicos são os "possuidores da razão", podendo legislar sobre os sujeitos despossuidos da mesma, surge a psiquiatria com uma função ambígua de tratar o louco e defender a sociedade do mesmo. Ao louco é suprimido o valor de sua fala.

No Brasil instalam-se os primeiros hospitais psiquiátricos, que propositalmente são construídos longe das cidades, na Europasurgemmovimentos de contestação a estas estruturas institucionais. O século XX inicia-se tendo como marca as condições desumanas a que os sujeitos sob custódia e tratamento psiquiátrico eram mantidos, foram necessários maos algumas décadas para que a crítica ao asilo não tivesse apenas como carater a desumanidade, mas também a ineficiencia terapêutica. Entre os anos de 1950-60, pós-guerra, as discussçoes se intensificam e surge o movimento antipsiquiátrico, buscando romper com a sinomínia cuidado/exclusão. Países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, surgem as primeiras comunidades terapêuticas, na França, o questionamento aos asilos faz surgir a psiquiatria setorizada e a análise institucional, que tinham como foco propor novas relações de acolhimento e reconhecimento da loucura e de seu discurso.

Na Itália, Franco Baságlia criticará a lógica da exclusão, apontando que o enlouquecimento é um produto social e propondo a abertura dos hospitais psiquiátricos. No Brasil, Dra Nise da Silveira ( década de 40) inicia no Hospital Psiquiátrico Pedro II um movimento de resistencia aos tratamentos vigentes, propondo a inserção da Arte como tratamento terapêutico, assim como abrindo o campo restrito da saúde mental a profissionais de outros campos de saber, com o intuito de inclusão social. Segundo Cooper: " Jovens sensiveis, frequentemente universitários, se permitiam à aproximação à experiência dos pacientes desintegrados". Com o advento da ditadura, as comunidades terapêuticas chegam ao fim.

Os ventos que soprava ares de democracia ( 1970-80) balançam as estruturas dos atendimentos de saúde mental. Em 1979 um grupo multidisciplinar de profissionais cria em São paulo o Hospital Dia " A Casa". No Espírito Santo não há como falar em reforma psiquiatrica e saúde mental sem citar o Programa de Extensão da Universidade Federal do ES "Cada Doido Com Sua Mania" que inicou sua trajetória no Hospital Adauto Botelho em 1984 e sendo responsável pela implantação do primeiro Centro de Atenção Psicossocial no ES entre outras conquistas importantes neste que continuam até hoje com a idealização e implantação do CACIA- centro de Atenção Continuada a criança, adolescente e adulto, que atua no campus universitário da UFES.

Site do CDSM: (www.cdsm.ufes.br)

Imagem de aberturade Carla Muaze- acervo do Museu de Imagens do Inconsciente: (http://www.ccs.saude.gov.br/Cinquentenario/carla.html)

Este texto é o capítulo I da minha monografia da Pós em Psicossomática, cujo tema é "A construção de uma nova clínica em saúde mental".
Eu dei uma resumida pois tive que digitar.





25/01/2007

Andressa Zoi Nathanailidis- Poesia ao Piano


Andressa Zoi Nathanailidis
Bacharel em Comunicação Social /Jornalismo pelo Centro Universitário Vila Velha (UVV); Bacharel em Música (com habilitação em piano), pela Faculdade de Música do Espírito Santo; Bacharel em Direito pelo Centro Universitário Vila Velha e
Mestranda em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo.


Vida Articulada

A Arte de Articular a Vida
Vem da Virtude de se Fazer Forte
De se Fazer Suporte
Firme, Frente às Fortalezas do Tempo!

Tropeços, Temores, Tormentos
Hão de Sempre Aparecer!
É Preciso Ser Isento,
Insistir, Não Perecer!

Profecia “Quinquiana”
Machado “Darwiniou”
Sábios?
Donos Das Batatas!
Fracos?
A fome matou!


Primavera

Parte o nove da cidade
A cor alegra e invade
A moça deixa a balança
Sorrisos da mocidade

Borboletas exultantes
Flutuam em nossos jardins
Pássaros dançam, no céu,
Quase anjos Serafins!

Depois de mais de onze meses,
Chega a Vera Colorida
Flores para os namorados,
Traz a prima, tão querida!
O verde fica mais vivo,
É uma doce despedida!


Pequena Oração


Que Deus me dê forças para suportar o mundo
E sabedoria no brilho do olhar
“Crescer” é difícil e por isso sofro
Em busca do todo, início e lugar!
Quisera na vida, viver numa bolha...
Sem fazer escolhas, sem ter que chorar!
Mas vem o destino e diz:
“ Vai moleque! Aprende a ser triste,
Vai fundo e persegue, o seu caminhar”!
O dia, lá fora, persiste...Ingrato!
Já não sei de nada, nem quero enfrentar!
De fato, pergunto, por que vim ao mundo?Mistério profundo, de um triste pensar!

www.noticiasdagreguinha.weblogger.com.br

24/01/2007

POESIA- Luis Eustáquio Soares



difícil e fácil

1

Fugados fungando fungidos fodidos fugidos fingidos não sei se existe e se insiste e se persiste e se consiste e se resiste e se desiste e se acaricia a face de sua língua com minha língua desfacelada, molhada, transpira, respira, delira na lira da ira cantada no registro verboso desse gesto, olhar, falar, na dicção modulada desse ritmo existente afeminado feminino homoheterossexual e um lado esquerdo de veste vertebrada da folha entre muitas de uma fronde frondosa das gentes mulheres dessa mata vaginal no púlpito altar da terra púbica, brejenta, os sapos coaxam e uma perereca de detalhe retalha metralha talha tralha na ínfima fímbria desse verde ponto-fêmea me lembra o artifício artificioso cioso de sua arte em pincelar o infinito da beleza alegre agromultigeotemporal faminta coloreando a íris o belo a pálpebra os olhos os óculos o nariz as narinas as maçãs as orelhas os aos lábios os dentes a língua a garganta as cordas vocais o esôfago o estômago o intestino delicado na corrente sangüínea a textura da pele o pescoço os bicos dos olhos vermelhos pulsantes do coração dos seios eito forte fálico do umbigo redondo no ventre descendo em torno entorno do vulto carnoso a roupa nua


2


epidérmica desejante desejosa passeia na várzea da xoxota e brinca respira pela bunda opalescente no vinco abismado suado os beijos os beijados as facetas incéticas me mostram que o mundo o abismo tudo do fundo/raso das galácticas o mínimo o máximo nem o mínimo nem o máximo o cisco o ciscado o ciscante o ciscando pervive em cada ponto desse corpo dessa alma nos dedos dos pés já prelibo o gozo o toque o olhar o olhando o lambendo a lambida face da maciez formante o amante o querendo em cada parte dessa mulher as outras mulheres não jazem, renascem, as outras formas de amar não somem, emergem, os outros lugares de biscoitar a oralidade a penetração as mão dadas a felicidade da presença a agoridade de cada qual individua na umidade da força ouço um secreto segredo segredado degredo sensitivo que já não é o sexto o sétimo o oitavo ou qualquer número código símbolo ícone de coisa que se veja se ouve se tateie se infere se goste se idéie ou mesmo se fale expresse não existe nem degredo nem segredo não existe e nem persiste e nem insiste e nem consiste a voz voz desse outro existente invisível sem nome sem identidade sem tempo sem matéria sem etéreo sem nada o nada que nada no peixe impossível dessa onda muda/falante que está atrás na frente no lado no mesmo lugar na obliqüidade na diagonal no dentro no fora em todos os lugares em lugar nenhum e sei não sabendo sabendo além/aquém de mim sabendo em companhia solitária com todos os viventes a vida não ida no id dessa estrela platônica o simulacro já é o infinito das idéias e a cópia scópica abraço acendo apago morro no início o ígneo cio pio:


3


transcendo, latejo minhas trepadas todas na obra finita perdida fungida fodida fungada de tagarelar ouvindo o barulho dos dedos no corpo do teclado do círculo/périplo de seus corpos nesse corpo que pode falar falar fazer fazer querer querer sem parar, matando como se para viver não quisesse a vida nascida além de continuar potencializando seu ponto-vida como se fosse o único o todos para todos para si para ninguém nesse complexo de felicidade e só sou eu na hipérbole de meu gostar ou só você no eufemismo de seu exagero? como é difícil e fácil dizer que amo.



Luís Eustáquio Soares


Nasci em Rio Pomba, Minas Gerais, onde passei minha infância. Nesse perturbado meio tempo entre a infância e a adolescência, mudei para Belo Horizonte, onde fiquei até maio de 2004. Atualmente moro em Vitória, Espírito Santo, onde sou professor adjunto de Teoria da Literatura, na Universidade Federal do Espírito Santo. Não tenho prêmio algum, literário, em meu currículo, nada de epopéias líricas de fotos e resenhas em jornais de circulação nacional, embora, publicados, tenha os seguintes livros: Paradoxias, romance, 1999, Cor vadia, poesia, 2002, Silvo de Luis Caixeiro, biografema, 2003, co-autoria com o poeta mineiro Wilmar Silva.

Maria Lúcia Dal Farra: Poesia e sensibilidade

Gente, tenho dedicado algumas palavras à mulheres que, de alguma forma, marcaram minha vida. Freda Jardim, Florbela Espanca, Dra Nise da Silveira, entre outras, assim, não poderia deixar de falar desta, Maria Lúcia Dal Farra.
Crítica literária, poeta, estudiosa de Florbela Espanca, gatófila, o que demonstra sua sensibilidade felina e, com muito orgulho, minha co-orientadora no mestrado de Estudos Literários da UFES.
Agradeço pelo incentivo constante e por acreditar no meu trabalho.
Maria Lucia Dal Farra nasceu em Botucatu, São Paulo, a 14 de outubro de 1994. É professora titular de Literatura Portuguesa e pró-reitora de Pós-graduação e Pesquisa da Universidade Federal de Sergipe. Publicou, entre outros, O narrador ensimesmado, Editora Ática, São Paulo, 1978; A alquimia da linguagem, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa, 1994; e Livro de auras, Editora Iluminuras, São Paulo, 1994.


Olhem o que Carlos Graieb escreveu sobre ela:
http://www.revista.agulha.nom.br/graieb.html#dalfarra


Os frutos do bem

Atenção para o nome de Maria Lúcia Dal Farra: ninguém no Brasil é melhor poeta do que ela


No interior de Sergipe, a Fazenda Lajes Velha desfruta de bastante fama. Sua sede, das mais antigas, remonta à época colonial. Ela é, dizem, assombrada por um fantasma, cujos passos ressoam noite adentro. Também abriga 150 gatos, todos eles descendentes de uma mesma antepassada. Finalmente, a fazenda é o lar de um casal de escritores. Francisco Dantas, dono do lugar, escreve austeros romances regionalistas, como Coivara da Memória. Enquanto isso, sua mulher, Maria Lúcia Dal Farra, vai registrando seu nome no rol das melhores poetas brasileiras. Sua estréia, Livro de Auras, data de 1994. Na semana passada, ela lançou Livro de Possuídos (Iluminuras; 144 páginas; 24 reais) e confirmou que é dona de uma voz poética altamente original e depurada.
Talvez a melhor maneira de compreender o que há de especial na poesia de Maria Lúcia seja compará-la à da já consagrada Adélia Prado. Em boa parte, o universo de ambas coincide: a casa e seus afazeres, a vida de província, o erotismo no âmbito do casamento, a família. São autoras que tematizam a "condição feminina". Maria Lúcia, contudo, tem uma disposição analítica que está ausente em Adélia. "Ela se aproxima de seus temas com o olhar de um ensaísta", observa o crítico José Miguel Wisnik. Isso se torna claro na segunda – e notável – seção de Livro de Possuídos. São poemas com títulos como Melancia, Maçã ou Espinafre. Eles não expressam somente o contato de uma mulher (e de uma cozinheira) com as frutas e os vegetais, mas o pensamento de alguém capaz de retroceder até Plínio, o Velho, no século I, para buscar informações sobre história natural e incorporá-las ao poema. Maria Lúcia é também dona de um ouvido privilegiado. Poucos autores mostram um domínio comparável do ritmo do verso livre. Quanto às suas referências, são das mais variadas: há algo dos surrealistas e de Federico García Lorca nas imagens que compõe, um pouco da aspereza de João Cabral de Melo Neto e da doçura de Cecília Meireles em seus versos. Mas são sempre ecos, que não prejudicam a independência da autora.
Embora esse Livro de Possuídos seja apenas sua segunda obra, a paulista Maria Lúcia não é uma novata no trato com a poesia. Ela tem 57 anos e aposentou-se há quatro, como professora de literatura. Tem estudos importantes sobre poetas portugueses, como Florbela Espanca e Herberto Helder, além de uma tese sobre as relações entre o pensamento esotérico e a poesia de autores franceses do século XIX, como Charles Baudelaire, autor de As Flores do Mal. Redigida no começo dos anos 80, a tese permanece inédita. "Quando pensei em publicá-la, a reação da universidade foi negativa", conta ela. "Estávamos na ditadura e os colegas me tacharam de alienada."
Amigo da escritora, assim como leitor de sua obra, José Miguel Wisnik acredita que a palavra extravagante se aplica bem a ela. "Extravagância significa sair dos trilhos. Isso é algo que Maria Lúcia sempre teve coragem de fazer", diz Wisnik. O desvio mais importante certamente aconteceu em 1983, quando ela deixou seu posto na Unicamp e foi morar no Nordeste. O episódio, da maneira como Maria Lúcia o relata, teve algo de folhetinesco. Durante um seminário em Aracaju, ela foi apresentada a Francisco Dantas. Antes mesmo de trocar as primeiras palavras, concluiu que, dali em diante, só seria feliz ao lado dele. No dia seguinte, ela confessou ao marido, com quem estava casada havia treze anos, que se apaixonara por um outro homem. Dois dias depois, telefonou a Dantas para confessar-lhe o seu arrebatamento. O sentimento era recíproco. "Francisco é belo e áspero", diz, enlevada. "Exatamente como o cáctus do poema de Manuel Bandeira." Maria Lúcia Dal Farra é uma poeta em tempo integral.

ALCACHOFRA

Não é em altura que seu arbusto
se ombreia com o pinheiro:
é pela fruta.
Íntima amiga da geometria,
do pinho tão só se distancia
pela recusa à agreste armadura.
Nenhum lampejo de indiferença
machuca-lhe a vestimenta:
antes a luz emprega no fabrico da alma
tenra (que lateja),
parente do alegre bem-me-quer,
do espelhante girassol.
Pertença da floricultura e da boa
mesa, ornamenta o paladar
com a lembrança das nascentes:
não são de lâmina as escamas,
mas (degustáveis) dádivas mediterrâneas
dispostas no coração em tranca.
Apenas pequenas setas mantém
(em íntima contenda)
a provocar torneios entre língua e dentes.
– Cota de cavaleiro andante,
em que terna demanda atuas?
Poema de Livro de Possuídos
Silêncio de bronze
sobre as teias de aranha das pupilas.
Nada palpita no rosto tátil _
nem mesmo um poro.
Deslizo pela superfície imberbe
a gana de eriçá-la:
mas (munida apenas da arremetida suicida do touro)
sua mudez desarma o esforço.
Urna cerrada como o sol,
fui, foste, fomos,
e tudo ficou retido na divisa
(no escudo)
na nitidez desse rosto acuado
- dessa carranca com que hoje enfrento os mares.
poema da antologia Fui Eu

Qual o sentido dos sonhos?



QUAL O SENTIDO DOS SONHOS?

Escutar o que dizem os nossos sonhos é escutar a própria Alma. Uma noite sonhei que recebia uma chave das mãos de uma pessoa desconhecida, e esta pessoa me dizia: -Vê esta chave?- Com ela você pode abrir qualquer porta. Acordei, senti um misto de felicidade e de inquietação, era como se eu tivesse ganho um talismã. Agora, só dependia de mim, eu podia abrir todas as portas, afinal, tinha a chave.
Este sonho serviu como um impulso para que eu pusesse em prática alguns projetos, que a algum tempo estavam engavetados.
Em muitas civilizações e religiões, os sonhos são considerados via de ligação entre o mundo cotidiano e um outro mundo, ao qual nossa consciência não tem acesso.
Tanto no Antigo, quanto no Novo Testamento, os sonhos desempenham funções muito importantes. No antigo Egito os intérpretes de sonhos ocupavam posições de destaque na corte e eram solicitados para interpretar os sonhos do Faraó; São José recebeu através de um sonho, a mensagem de que deveria fugir para o Egito com a virgem Maria e o menino Jesus, afim de que não fossem mortos pelo Rei Herodes; a Mãe de Buda teve um sonho que anunciava seu nascimento, e muitos outros registros de sonhos nos foram deixados, provando a importância do mesmo para o homem e a para sociedade.
Por que será que a sociedade moderna negligencia e até mesmo banaliza os sonhos?
Na concepção Junguiana, os sonhos são uma representação simbólica do estado da Psique, e pensando a humanidade como um indivíduo, vemos como esta sociedade capitalista e de consumo, valoriza mais o ter que o ser, e negligencia os anseios da alma.
Muitas vezes a expressão de sentimentos como amor, solidariedade e afeto são confundidos como demonstração de fraqueza. C. G. Jung, pensador contemporâneo que desenvolveu uma teoria psicológica voltada para a busca da realização do indivíduo (individuação) foi vítima deste pensamento, e sua psicologia, confundida com “Místicismo”, veja o que ele disse a respeito dos sonhos: “Os sonhos não são nem criações deliberadas, nem arbitrárias; são fenômenos naturais, e nada mais daquilo que pretendem ser. Não enganam, não mentem, não distorcem ou mascaram... Estão invariavelmente procurando expressar algo que o Ego não conhece e que não compreende. Todo trabalho onírico é essencialmente subjetivo e o sonho é um teatro no qual o próprio sonhador é a cena, o ator, o ponto, o produtor, o autor, o público e o crítico”.
Os Sonhos trazem à tona informações importantes sobre nós mesmos, nossos anseios e desejos mais profundos, nossas alegrias, nossos medos, nossos traumas, nossas projeções, lembranças que (propositalmente) esquecemos, e que são causadoras de angústias, ansiedades, e doenças, eles nos dão uma possibilidade de auto-análise.
A linguagem dos sonhos são os Símbolos. O Símbolo é a expressão de algo desconhecido, e não deve ser definido (a palavra definir significa “dar fim”). Vemos muitos livros de interpretação de sonhos definindo e matando as possibilidades de transformação do indivíduo, impedindo-o de estar reescrevendo sua história (ex: sonhar com isso, significa aquilo).
Ao analisarmos nossos sonhos, nosso intuito deve ser o de extrair deles a essência, um combustível impulsionador, lembrando que sonhar com morte, por exemplo, não significa que você ou alguém de sua família vai morrer, mas pode ser uma mensagem que traga a lembrança o fato de que morremos e renascemos a cada instante, como nos diz a música do Gil, “O Amor da gente é como um grão, tem que morrer pra germinar”.
Nunca leve um sonho ao pé da letra, lembre-se que sua mensagem é simbólica e individual, afinal você é um ser único, não existe outro igual a você no mundo. Agora te convido a escutar com mais atenção os seus sonhos, coloque um caderninho ao lado da cama, e quando algo do sonho mexer com você, anote ou desenhe, mesmo que a princípio você não entenda nada, nosso inconsciente é atemporal, aespacial, imaterial e plástico, em algum momento tudo fará sentido para você.
Muita Paz, Amor, Saúde e bons Sonhos.
Artigo que publiquei no site da Excelsanet em 2002

23/01/2007

O poder encantatório das histórias

Quem não teve a infancia marcada por uma história?

Desde criança gosto de ouvir histórias, acordava cedinho para ouvi-las no rádio. Vou compartilhar com vocês uma história muito especial, foi a partir do momento que a escutei que decidi me tornar uma " contadora de Histórias". Perdi a conta de quantas vezes a recontei, e para grupos muitos diferentes, a aceitação é sempre muito boa... Esta história é uma injeção de ânimo, de fé na vida, de persistencia.
Ao final da história convido todos a darem um final feliz para Fátima, afinal a moça merece.... é sempre divertido e comovente.
Desde 2005 faço parte do Projeto de Extensão Grupo Experimental de Contadores de História da UFES, este grupo tem possibilitado um espaço interessante para troca de experiencias e laboratório de histórias.
Surpreende-me a cada dia o poder das histórias e da poesia no meu trabalho como arteterapeuta. As histórias são, como diz Pierre Hélias "um concentrado de toda cultura", não possuem contra- indicação, aquecem o coração.
Vai aí pra vocês esta história de origem árabe que é tão antiga, mas ao mesmo tempo tão atual.
Espero que desperte algo legal em você.

Fátima a fiandeira


Em uma ilha perto de Creta vivia Fátima e seu pai um grande fiandeiro que trabalhava para o rei da Grécia. Eles eram muito felizes e tinham um padrão de vida muito bom .Um dia o pai de Fátima recebeu um chamado do rei para irem até Creta a fim de executarem alguns serviços para ele. Então o grande fiandeiro disse "Fátima nosso patrão nos aguarda em Creta preparasse para viajarmos e encontra-lo".O barco então parte da ilha e os dois vão de encontro ao rei. Mas o mar é traiçoeiro e uma grande tempestade atinge a embarcação e Fátima fica naufraga indo parar em Alexandria e seu pai vem a falecer.Fátima então pensa "O que farei agora meu pai esta morto e eu naufraga aqui nesta terra desconhecida".Mas a sorte sorri para Fátima e ela é encontrada por um casal de tecelões que a adotam como filha. Então podemos dizer que Fátima mas uma vez encontra a felicidade, agora aprendendo o ofício de tecelã e com seus novos pais.Fátima, então recebe mas uma virada em sua vida. Ela passeava alegremente quando bárbaros , invadem sua aldeia e a seqüestram-na vindo ela a ser levada para o mercado de escravos em Istambul.O mercado de escravos era um lugar sujo mas com muitas tendas e pessoas. Havia então um grande e próspero serralheiro que construía mastro para navios e viu Fátima sendo vendida como escrava e sentiu grande pena dela.E pensou "Essa menina não me parece uma escrava; vou comprá-la e faze-la de criada para minha esposa". E assim o fez.Mas chegando na ilha de Java onde morava o serralheiro descobriu que estava falido , pois um grande carregamento de seus mastros havia sido roubado. E então Fátima , o serralheiro e sua mullher começaram a trabalhar sozinhos para reconstruir sua fortuna; pois o serralheiro não tinha mais dinheiro e seus antigos empregados o abandonaram.Fátima trabalhou com tanta vontade que seu patrão lhe devolveu a liberdade e ela se tornou seu braço direito. O serralheiro conseguiu se reerguer e Fátima estava de novo feliz e realizada.Um dia o patrão pediu a Fátima "Você é meu braço direito leve um carregamento de nossos mastros até a Índia e negocie-os pelos melhores preços pois confio em você".E ela carregou o navio e partiu para seu destino.Mas o traiçoeiro mar mas uma vez usou seus poderes e numa enorme tempestade o navio naufragouvindo Fátima vir parar na China.Mas uma vez sem nada Fátima pensou: "Porque só comigo toda vez que estou feliz vem algo e destrói minha felicidade. " Mas sem desistir continua andando até chegar numa aldeia chinesa.Mas acontece que na China havia uma profecia que chegaria uma mulher estrangeira que construiria uma grande tenda para o imperador.Chegando a aldeia uma aldeã diz para Fátima marcar uma audiência com o imperador e assim ela o faz.Chegando o dia o imperador pergunta:"você pode me construir uma tenda."E Fátima diz que podia.E então começa a tarefa.Mas para construir a tenda ela precisava de uma corda hiper-resistente, mas não havia este tipo de corda na China. E então relembrando o tempo que vivia com seu pai , o grande fiandeiro ela recolhe o material necessário e ela mesma fia a corda.Para se construir a tenda ela precisava de um tecido muito resistente.Mas naquela época não existia tal tecido na China. Então relembrando o tempo que viveu com o casal de artesões recolheu o material necessário e ela mesma teceu o tecido de grande resistência.A tenda precisaria de mastros para poder ser levantada. Mas nesse tempo não existiam mastros resistentes na China. Ela relembrou que sabia fazer tal mastros pois havia trabalhado com um grande serralheiro; e assim ela mesma os construiu.Mas qual o formato da tenda. E então ela relembrou do formato das grandes tendas do mercado de escravos e assim ela por fim ergueu uma grande e imponente tenda para o imperador .O imperador muito agradecido por ela ter cumprido a profecia perguntou-lhe o que queria; e esta respondeu que apenas queria viver na China.Então ela encontrou um grande príncipe e casou-se com ele vindo então a encontrar a sua verdadeira e douradora felicidade.Fátima então entendeu que todos os sofrimentos de sua vida lhe serviram para ela aprender e enfim levantar a grande tenda que era sua verdadeira felicidade.

Quem gosta de bicho sofre...


É isso aí meu povo, a gente que gosta de bicho sofre muito nesta vida...
Estava colocando ração pra pretinha que fica lá no centro de Letras da UFES e um cabra passou e gritou:" eta esse gato no espeto", não pensei, pois se pensasse não responderia, lhe disse que bela iguaria não seria a mãe no mesmo espeto. Se me orgulho disso? claro que não, mas estou com o pavio curtinho, curtinho... Não sou boazinha, mas tenho uma certa humanidade...
na época do vest UFES deram uma paulada na cara de um gatinho branco da UFES que o bichinho não morreu na hora, mas vagou ferido e sofrendo, sem tirar outras barbaridades que com cada vez mais frequencia tomamos conhecimento.
Tem um cabra por aí, não sei o nome dele, que construiu uma palestra onde ele faz uma comparação entre o homem tipo cachorro e o homem tipo gato, nessa palestra ele baixa a lenha nos felinos, diz um monte de besteiras, coisas de quem não conhece os animais, e se conhece de quem não se responsabiliza pelo efeito de suas palavras.
Ele diz que o gato gosta da casa e não do dono, isso é uma maluquice, na natureza o gato é um animal territorialista, para ele é dificil mudar de lugar pois outros lugares são territorios de outros bichos, mas se adaptam bem a mudanças assim como nós, quando nos mudamos.
Diz também que o gato não ta nem ai para o dono, que não vem receber o dono na porta... isso mostra que ele ou nunca teve gato, ou se teve não foi capaz de cativar o bichano...
Vou contar pra vocês, eu morava numa casa e lá comecei a cuidar de uns gatinhos, logo, as pessoas descobriram que tinha uma "louca" que gostava de gato, e começaram a jogar ninhadas no meu quintal...
Cuidei de todos, dei muitos para doação, entre outras ações como levar ao veterinário, castrar para que não nascessem mais outros... mesmo assim eu tina por volta dos 40 gatos.
Quando eu chegava do trabalho, eles ficavam me esperando na entrada da rua e vinham atras de mim... era a coisa mais linda linda do mundo.... Diz que gato não é bicho amoroso?
Bem...
Ninguém precisa beijar o gato e nem alimentar , é so não fazer-lhe mal...
Voltando lá ao cara da palestra, o estigma que os animais sofrem, não só o gato, de que não pensam, de que não tem sentimentos, de que foram feitos apenas para serem alimentos para os humanos, são reforçados com as nossas ações, com as nossas palavras, com o nosso silêncio.
se queremos uma sociedade mais justa, mais humana, mais equilibrada, precisamos começar por algum lugar, quem não tem a capacidade de respeita e quem dirá amar um animal, jamais será capaz de respeitar e nem de amar um outro ser humano.
Portanto, não se calem, existe lei de defesa dos direitos dos animais, só não funciona pois não cobramos as autoridades.Depois conto pra vocês o episódio da corrocinha que entitularei "O dia que toquei pedra na carrocinha e xinguei até a quarta geração de seus ocupantes" , mas lógico que isso é uma metáfora. Agora que sou mestranda de Letras estou abusando da tal da "licença poética" ehehehehe
Essa gatinha da foto eu cliquei na biblioteca da UFES.
Aos que amam os animais como eu, um presente,
Ode ao gato,
e todo o meu respeito e consideração.

Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso. Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece.
O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis.
Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu. Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor?
Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do Mago Merlin, soprando-me o artigo? Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo.
O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso.
"Falso", porque não aceita a nossa falsidade com ele e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser.
O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige.Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém sem derramar-se.
O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano mas se comporta como um lorde inglês.Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério.
O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende do afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro, que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento.
O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Nada diz, não reclama. Afasta-se. Quem não o sabe "ler" pensa que "ele não está ali". Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.
O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores.
O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério.
O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber.Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado.
O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.
O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precise de promoção ou explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato!
Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração ioga. Ensina a dormir com entrega total e diluição recuperante no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata.
Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase 15 minutos) se aquecendo para entrar em campo.
O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, a qual ama e preserva como a um templo.Lição de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias.
Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio. Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, com o escuro, com a sombra. Lição de religiosidade sem ícones.Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gosto e senso de oportunidade. Lição de vida, enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências, sem exigências.
O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo mistério à disposição do homem."

Nise da Silveira : Uma mulher extraordinária, uma inspiração


Em 1999 ingressei no universo da saúde mental por meio do programa CDSM/ UFES. Fui trabalhar como aluna extensionista na Oficina Terapêutica de Pintura do CAPS- Ilha de Santa Maria, oficina que em 2003 eu seria convidada para coordenar.
Muitos eram os desafios propostos por este novo trabalho, e logo ficou evidente a necessidade de estudar e de conhecer um pouco mais sobre os processos da psique, sobre psicopatologia e de que forma uma artista poderia atuar neste campo.
Sem maiores pretenções eu buscava uma forma de tornar minhas intervenções cada vez mais eficazes junto aos pacientes, ou pelo menos não lhes trazer nenhum prejuizo ao tratamento, ou seja, não fazer bobagem. Eu havia iniciado em 1998 um curso de formação em psicologia analítica Junguiana, o que ajudou bastante na compreensão da obra da Dra Nise, visto que ela é de orientação junguiana.
O trabalho da Dra Nise da Silveira me deu suporte teórico para entender um pouco mais sobre a psicose e as possibilidades de intervenção por meio das artes nesta clínica.
Em 2000 fui para o Rio de Janeiro fazer pós-graduação em Arteterapia e, num destes nestes maravilhosos giros que a terra dá, fui parar como estagiária dentro do Museu de Imagens do Inconsciente. Lá tive a possibilidade de assistir aos filmes do acervo do museu, participar de oficinas junto aos pacientes, ver o acervo com as pinturas de Fernando Diniz, as esculturas de Adelina, que emoção...
Não posso deixar de relatar o prazer de estar entre aproximadamente 200 gatos e alguns cachorros. Dra Nise além de inserir as técnicas artisticas na terapêutica, iniciou um trabalho que hoje é difundido em larga escala em paises onde a saúde é melhor desenvolvida, ela inseriu os animais como co-terapêutas. No seu livro O Mundo das Imagens ela conta como tudo começou quando encontrou uma cadelinha faminta no pátio do hospital. Dra Nise pegou a cadelinha e um interno se aproximou, ela perguntou-lhe se gostaria de tomar conta do animal e cuidar dela, ele respondeu que sim. Ela perguntou-lhe também como poderiam chamá-la e sugeriu o nome Caralâmpia, que aparece como seu apelido em Memórias do Cárcere, de Graciliano júnior. Dra Nise relata que os resultados terapêuticos da relação entre a cadelinha e o paciente foram surpreendentes, o que levou a ampliação da idéia.
Desde o primeiro contato que tive com os pacientes na oficina de pintura do CAPS percebi que meu caminho seria este, o campo da saúde mental e da arteterapia. Gostava tanto de estar entre os pacientes que num dado momento não tinha muita paciência com gente "normal", achava-os chatos, óbvios, mas isso ficou para traz, hoje consigo perceber que alguns se salvam.
Em 2003, fruto de um sonho, nasceu o Rosa Rubra Espaço Terapêutico, uma proposta de trabalho interdisciplinar que a cada dia cresce e revela o quanto é importante uma clínica mais integrada onde os saberes se complementem. www.rosarubra.com.br
Infelizmente o Museu de Imagens do Inconsciente é muito conhecido e conceituado no exterior, ou melhor é referencia,, e aqui no Brasil muitos alunos de psicologia, de artes, medicina, etc, nunca ouviram falar. Esperamos que este quadro extremamente patológico melhore.

Biografiada Dra Nise

Nise da Silveira nasceu em 1906 em Maceió, Alagoas. Formada pela faculdade de medicina da Bahia em 1926, dedicou-se à psiquiatria sem nunca aceitar as formas agressivas de tratamento da época, tais como a internação, os eletrochoques, a insulinoterapia e a lobotomia.
Presa como comunista, é afastada do Serviço Público de 1936 a 1944. Anistiada, cria em 1946 a Seção de Terapêutica Ocupacional no Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, posteriormente conhecido como Centro Psiquiátrico Pedro II (CPPII).
Em 1952, funda o Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de estudo e de pesquisa que reúne obras produzidas nos ateliês de pintura e modelagem. Por meio deste trabalho, introduz a psicologia junguiana no Brasil.
Alguns anos mais tarde, em 1956, mobilizando um grupo de pessoas motivadas pelas mesmas idéias, Nise realiza mais um projeto revolucionário para a época: a criação da Casa das Palmeiras, uma clínica destinada ao tratamento de egressos de instituições psiquiátricas, onde atividades expressivas são realizadas livremente, em regime de externato.
É reponsável pela formação do Grupo de Estudos C.G. Jung, do qual foi presidente desde 1968. Suas pesquisas deram origem, ao longo dos anos, a exposições, filmes, documentários, audiovisuais, simpósios, publicações, conferências e cursos sobre terapêutica ocupacional, com destaque para a importância das imagens do esquizofrênico. Foi também pioneira na pesquisa das relações afetivas entre pacientes e animais, aos quais chamava de co-terapeutas.
Como reconhecimento da importância de sua obra, Nise da Silveira recebeu condecorações, títulos e prêmios em diferentes áreas do conhecimento: saúde, educação, arte e literatura. Foi membro fundador da Sociedade Internacional de Psicopatologia da Expressão, com sede em Paris, França. Seu trabalho e seus princípios inspiraram a criação de Museus, Centros Culturais e Instituições Psiquiátricas no Brasil e no exterior.
Nise faleceu em 30 de outubro de 1999, na cidade do Rio de Janeiro.
No ano de 2000, o Centro Psiquiátrico Pedro II é municipalizado e em homenagem à fundadora do Museu passa a chamar-se Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Siveira.

Site do Museu de Imagens do Inconsciente- passa lá, faz uma visita

22/01/2007

Artigo publicado na Revista Científica de Arteterapia "Cores da Vida"

A Construção de uma Nova Clínica em Saúde Mental: O Programa de Extensão da UFES Cada Doido Com Sua Mania, o CACIA e a inserção da Arteterapia nestes serviços.

Renata O. Bomfim[1]

Resumo: O dualismo cartesiano dividiu mente e corpo colocando-os como unidades que funcionam separadamente. Esta dicotomia marcou a sociedade refletindo-se em vários campos do saber humano. Mas mudanças podem ser sentidas e os indivíduos novamente buscam reconhecer-se BIOPSICOSSOCIAIS, ou seja, seres que inter-relacionam suas partes psíquica, física, social e espiritual. As instituições de saúde mental durante muito tempo reproduziram o paradigma da exclusão, promovendo a doença e perpetuando estigmas e preconceitos. Hoje, caminhamos para uma nova forma de assistência e tratamento, e as instituições podem lançar mão de variados recursos que possibilitem que fenômenos tão humanos como a angústia, a loucura e as doenças psicossomáticas, possam tornar-se não somente um transtorno, mas um dizer mais estruturado e direcionado ao tratamento e a reinserção social. Este artigo versa sobre as a trajetória do Programa de Extensão Cada Doido Com Sua Mania da Universidade Federal do Espírito Santo, e sua busca na construção de uma clinica pública gratuita de qualidade, culminando com a estruturação do CACIA - Centro de Atenção Continuada a Infância adolescentes e adultos e sobre a inserção da Arteterapia neste serviço.
Descritores: Saúde mental, Arteterapia, equipe inter e muiltidisciplinar, extensão universitária.

The Construction of a New Clinic for Mental Health: An Extension Program at UFES (Federal University of Espírito Santo) named “Each Crazy One with its Madness”, the CACIA-Center (Continuous Attention Center for Childhood, Youth and Adulthood) and the inclusion of Art Therapy as a resource for both.

[2]
Abstract: The Cartesian dualism split man in two halves: mind and body - two separate units, each one with its own particular function and hole. Such dichotomy influenced the various professionals, while working in the different fields of human knowledge. However, as time passed by, men started to integrate the bio-psycho-social-spiritual aspects of their lives. For a long time the Mental Health Institutions had treated their patients based on the premise of “exclusion”, they produced the old paradigm that promoted the concept of “disease”, and the progress of stigmas and prejudice. Nowadays, many have based their clinical practice seeking for new alternatives in treating and assisting their patients.
It can be noticed that many of this kind of institution utilize several resources when dealing with anguish, madness and psychosomatic symptoms, so that patient can re-structure their lives, not being a nuisance, but becoming a real citizen in the society.
This article shows the trajectory of an extension program - “Each Crazy One with its Madness” - and the creation of CACIA (Continuous Attention Center for Childhood, Youth and Adulthood) carried on the University of Espírito Santo. Its main goal is to offer free and qualified clinical service to the general public and gives a special attention to ART THERAPY as a strong and useful source as part of the treatment for those seeking help there.
Key-words: Mental Health, Art Therapy, Inter- and Multidisciplinary Professional Teamwork, University Extension Program.

Resumen: La mente y el cuerpo divididos dualism cartesiano que los colocan como unidades que funcionan por separado. Esta dicotomía marcó a sociedad que se reflejaba en algunos campos de saber el humano. Pero los cambios pueden ser sentidos y los individuos buscan otra vez para reconocer BIOPSICOSSOCIAIS, o cualquier, los seres que correlacionan sus piezas psíquicas, físicas, sociales y espirituales. Las instituciones de la salud mental durante mucha hora habían reproducido el paradigma de la exclusión, promoviendo la enfermedad y perpetuando los estigmas y las preconcepciones. Hoy, caminamos para una nueva forma de ayuda y de tratamiento, y las instituciones pueden lanzar la mano de los recursos variados que hacen posibles que los fenómenos tan humanos como la angustia psicosomática, locura y enfermedades, no pueden convertirse en solamente una agitación, pero una para decir más structuralized y dirigió al tratamiento y al reinserção social. Este artículo gira una trayectoria del programa de la extensión cada uno la loca con su manía de la universidad federal del Espirito Santo, y su búsqueda en la construcción de un clinica público gratuito de la calidad, culminando con el estruturação del CACIA - el centro del adolescente y del adulto continuó infancia de la atención y en la inserción del Arteterapia en este servicio.
Describers: Salud mental, Arteterapia, inter equipo y muiltidisciplinar, extensión de la universidad.


Programa Cada Doido Com Sua Mania - Ideologia e trajetória

Este Programa teve seu inicio em 1984, como projeto de extensão que atendia os pacientes do Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, por meio de grupos operativos e oficinas de artes. Criado pela Professora Tânia Mara Alves Prates, do departamento de Psicologia da UFES e alunos do curso de psicologia movidos pelo desejo de construir uma nova clínica em saúde mental. O CDSM, desde sua criação, trabalha por uma clínica cujas práticas interdisciplinares gerem uma cultura profissional mais humanizada e adequada ao contexto da saúde pública articulada à formação profissional em diferentes níveis, a saber, ensino, extensão e pesquisa.
O instrumento fundamental da prática desta ideologia é o aperfeiçoamento contínuo do trabalho em equipes interdisciplinares, com repercussões na formação de profissionais de várias áreas, a partir dos seus efeitos multiplicadores. Em consonância com esta proposta agregaram –se ao projeto, profissionais e estudantes de variados campos do saber e pessoas da comunidade. O impacto deste trabalho sobre pacientes e equipe do Hospital psiquiátrico Adauto Botelho foi grande, e em 1996 o Programa CDSM foi convidado para estruturar o primeiro Centro de Atenção Psicossocial do ES, o CAPS Ilha de Santa Maria, em parceria com a prefeitura Municipal de Vitória. Agora, agora, em instituição aberta, as oficinas terapêuticas e os serviços multiplicam-se.
A experiência adquirida pelo CDSM possibilitou a criação do Primeiro Ambulatório em Saúde Mental para Crianças e Adolescentes no Hospital Universitário Cassiano Antônio Morais- HUCAM, em 2002 e 2003, em parceria com a equipe de saúde mental do hospital, da Secretaria Estadual de Saúde (SESA) e do Programa de Saúde da Família (PSF). Em 2004 surge um novo desafio, estruturar um serviço de saúde mental no campus universitário, que atendesse a demanda universitária, alunos, funcionários e filhos de funcionários, assim como, contemplando a parceria estabelecida com a Secretaria Estadual de Saúde, atendesse crianças e adolescentes encaminhados pelo Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória. Assim nasceu o CACIA - Centro de Atenção Continuada a Criança, Adolescente e Adulto.

O CACIA
Este serviço é sustentado pelo Programa CDSM, nele são recebidos pacientes com sofrimento na esfera afetiva, transtornos mentais graves e fenômenos psicossomáticos. Este espaço público gratuito visa à promoção da Saúde Mental, a valorização do servidor da UFES e a transformação dos alunos e profissionais trabalhando a Inclusão social e familiar, por meio de tratamento interdisciplinar.
Num recorte de vinte e um anos de trabalho na clínica da psicose o CDSM abre-se aos desafios da clínica da neurose. Tal compromisso implica na responsabilidade em reafirmar o trabalho em Rede de Saúde, proposto pelo SUS, envolvendo a pesquisa e a produção de novos saberes. Esta forma de funcionamento, mais horizontalizado e comprometido com uma ética comum a todos os seus membros, tem favorecido uma maior implicação de todos; fundamental para a ‘trans-formação’ de cada um envolvido, para que não recuem diante da neurose, da psicose e dos fenômenos psicossomáticos.

O CACIA tem como sustentáculo das suas ações uma rotina que consistem em:
Reuniões semanais da equipe geral;
Supervisão das ações em oficinas terapêuticas e atendimentos em serviços, com avaliação dos procedimentos e resultados;
Reuniões quinzenais de projeto terapêutico;
Reuniões mensais dos serviços e oficinas do CACIA;
Análise institucional do Programa;
Reuniões eventuais com as parcerias.
Avaliação:
Avaliação, em supervisão, dos procedimentos em oficina terapêutica;
Avaliação, em supervisão, dos atendimentos realizados pelos serviços;
Discussão clínica dos casos nas reuniões do projeto terapêutico;
Produção de relatório anual;
Serviços:
Serviço de Atendimento Grupal;
Serviço de Atendimento Individual;
Serviço de Atendimento Familiar;
Serviço de atendimento Psicofarmacológico;
Serviço de acolhimento;
Projeto Terapêutico e
Oficinas Terapêuticas:
Oficina Terapêutica de Arteterapia;
Oficina Terapêutica de Expressão Corporal;
Oficina Terapêutica de Comunicação Social;
Oficina Terapêutica Construindo a Cidadania;
Oficina Terapêutica de Contos;
Oficina Terapêutica de Eventos;
Oficina Terapêutica de Imaginação;
Oficina Terapêutica de modelagem;
Oficina Terapêutica de Música;
Oficina Terapêutica de Pintura;
Oficina Terapêutica de Psicodrama;
Oficina Terapêutica de Métodos e Técnicas de Utilização - Sucata + Mosaico.
Grupos de estudo:
O eu e o sujeito na psicanálise;
Caso Dominique - A clínica com adolescentes;
Psicodrama;
A arte e a loucura;
Arteterapia - Grupo de estudo teórico vivnecial;
Nise da Silveira - Estudo das Obras de Dra Nise da Silveira e de Carl Gustav Jung;
A história da loucura;
A psicose em Freud e Lacan.

O CDSM busca Promover programas que visem à prática em Saúde Mental, de acordo com a demanda da população; diagnosticar situações que venham a interferir no bem estar em nível individual, familiar e institucional com a finalidade de tratamento; buscar o desenvolvimento e aprimoramento de formas adequadas de tratamento em Instituições Públicas; promover a formação adequada de novos profissionais de saúde.
A construção de uma rede de atendimentos, integrada e multidisciplinar, objetiva alcançar alguns resultados, como por exemplo, uma maior adesão dos pacientes ao tratamento; prevenção de conseqüências maiores das doenças psíquicas; diminuição de riscos sociais e de suicídios em jovens; melhoria das relações familiares na população em atendimento; participação da rede pública de assistência à saúde mental;

A Inserção da Arteterapia no programa no Programa CDSM
A experiência aqui retratada iniciou-se em 1999, pelo ingresso desta autora no Programa de Extensão Cada Doido Com Sua Mania. Nesta época, o Programa atuava no CAPS – Ilha de Santa Maria. Em 2002, como profissional especialista em arteterapia, passou a ministrar vivencias de arteterapia nos encontros do grupo de estudos Dra Nise da Silveira, eram intercalados os estudos das obras da Dra Nise e as vivências de arteterapia, logo a arteterapia tornou-se um grupo de estudos e esta prática culminou na inserção desta nova modalidade ao programa CDSM sob forma de oficina terapêutica para os pacientes.
A Oficina Terapêutica de Arteterapia constitui-se num espaço singular de produção espontânea, onde variados materiais e técnicas da arte servem como facilitadoras de uma expressão subjetiva. Assim, Contos, mosaico, pintura, desenho, modelagem, música, entre outras modalidades expressivas atuam como veículos para que imagens possam ser produzidas e conteúdos inconscientes plasmados a partir da matéria. Esta prática lúdica - terapêutica explora a espontaneidade e a criatividade do indivíduo e viabiliza sua expressão pessoal, auxiliando-o na elaboração e estruturação psíquica.
A oficina soma entre suas atividades: supervisão e encontros que objetivam integrar a equipe e construir um espaço de troca de experiências. Ao chegarem à oficina os participantes conhecem a proposta de funcionamento da mesma, e são convidados a participar de forma efetiva por meio de opiniões e sugestões. Esta forma de condução faz com que a adesão ao tratamento e a implicação dos pacientes seja positiva, repercutindo na motivação da equipe.

Conclusão:
Trabalhar com saúde mental é um desafio. A busca para se construir uma clínica integrada, onde o indivíduo seja contemplado em sua humanidade, e não visto como um corpo vazio ou uma mente alienada são árduos. Não existe manual, este trabalho deve ser realizado levando-se em conta as especificidades culturais e as demandas pelo atendimento.
Neste campo faz-se necessário que os profissionais se coloquem num questionamento constante de sua técnica, esta postura ética promove mudanças na sua prática sem que seja necessário abandonar sua especificidade, isso possibilita que o conhecimento não se esgote na sua própria identidade, mas vá além de si mesmo, a fim de estabelecer uma articulação mais ampla transcendendo as barreiras de seu domínio epistêmico.
Ser capaz de abandonar o conforto e a segurança que traz um saber supostamente conseguido e se aventurar a escutar outros discursos vai de encontro com o a idéia desta nova clínica que desejamos. No campo da interdisciplinariedade o que está em questão é um novo saber, gerado pelo trabalho conjunto das diversas especificidades em cada intervenção. Assim, torna-se possível uma ética comum constituindo um olhar transdisciplinar do saber.
A coragem é fundamental neste momento de transição em que vivemos, para rompermos padrões que nos forma impostos, bem como persistência. Aos profissionais de saúde mental resta também o desafio de lidar com seus maus estares e limitações e sua saúde mental. Em “A Prática da psicoterapia” (1986), Carl Jung afirma que “ninguém pode levar ninguém além do lugar onde consegui chegar”.
No CACIA, a cada dia, a demanda formada por funcionários e estudantes da UFES cresce propondo novos desafios éticos e clínicos, percebeu-se um corpo administrativo adoecido, refletindo o alto índice de casos de depressão, transtornos alimentares e psicossomáticos que nos chegam, que levam ao afastamento do trabalho, conflito entre equipe, falta de estímulo e motivação para a vida.
O hospital Infantil Nossa Senhora da Glória tem encaminhado crianças com quadros clínicos variados, é surpreendente o alto índice de tentativa de suicídio e depressão, o que vem reforçar nossa crença na necessidade de unir forças em busca de intervenções mais assertivas e abrangentes extensivas às famílias.
A prática adquirida nestes vinte e um anos de trabalho assim como no CACIA, tem mostrado a equipe do CDSM à necessidade de se reinventar a cada dia, aí, ferramentas para se trabalhar criatividade são essenciais.
Podemos perceber como a Arte contribui para uma clínica mais criativa, fundamentada num olhar menos comprometido com a patologia e mais implicado com o humano. As Oficinas Terapêuticas, ferramentas privilegiadas de intervenção e tratamento terapêutico, estão ao alcance de todos, prova disso é a diversidade de oficinas oferecidas pelo CDSM, que junto a outros serviços permitem uma cobertura ampla, não somente do paciente, mas também de sua família.
Trabalhando no campo da saúde mental desde 1999, experimentei momentos de extrema alegria, o contato com os pacientes é um privilégio, as oficinas apresentam-se originais e, especialmente, inusitadas. A interação com a equipe enriquece e renova as forças, muitas vezes tão desgastadas pela falta de recursos, a falta de apoio e pela burocracia. Hoje, num movimento de luta contra a correnteza, continua-se remando, não digo incansavelmente, pois muitas vezes nos sentimos cansada, e isso é do campo do humano. Mas esta causa não é uma causa vã e nem insana. Cremos na continuidade deste trabalho e na busca pela construção dessa clinica que desejamos.

REFERÊNCIAS:
BOMFIM, Renata; BRIGNOL, Ana Ofélia. Rosa Rubra Espaço Terapêutico. Disponível em: .
JUNG, C. G. O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1964.
OSTROWER, F. Criatividade e Processos de Criação. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
PHILIPPINI, A. Cartografias da Coragem- Rotas em Arteterapia. Rio de Janeiro: Pomar, 2000.
SILVEIRA, N. O Mundo das Imagens. São Paulo: Ática: 1992.
a) ___________ Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.
URRUTIGARAY, M. C. Arteterapia A transformação Pessoal pelas Imagens. 2ºed. Rio de Janeiro: WAK editores, 2004.



[1] Renata O. Bomfim – Bacharel em Artes Plásticas pela UFES. Especialista em Arteterapia na Educação e Saúde - UCAM/ RJ. Especialista em Psicossomática – FACIS - IBEHE/ SP. Membro da Coordenação Geral do Programa de Extensão CDSM - UFES e Coordenadora da Oficina de Arteterapia e do Grupos de Estudo Arteterapia desde 2002. Membro do Grupo Experimental de Contadores de História da UFES – GECHUFES e do Grupo “Tecelãs da Palavra” – Contos e Poesias. Cursos e Atendimentos terapêuticos no Rosa Rubra Espaço Terapêutico (www.rosarubra.com.br).