21/03/2012

Faluas do Tejo: “O mundo, amor?..., As nossas bocas juntas!...”: A epistolografia de Florbela Espanca

"Meu verdadeiro pensamento I e II". Obra do artista plástico capixaba Rosindo Torres, inspirada  em poemas de Florbela Espanca
Meu marido é oficial de caçadores, e eu... sou feliz. Bem vê, como não o havia de ser? Conhece-me, sabe perfeitamente que eu sou sempre feliz, desde que tenha a quem me dedicar e por quem me sacrificar” (Florbela Espanca) 

Florbela Espanca (1894-1930) veio ao mundo numa das datas mais importantes do calendário português, 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal. A poeta que nasceu em Vila Viçosa, região do Alentejo, terra de Mariana Alcoforado e suas cartas de amor, é considerada, hoje, a voz lírica feminina portuguesa mais importante do século XX.
                Fruto de uma relação extraconjugal, Florbela e seu irmão, Apeles, foram gerados por Antônia da Conceição Lobo, moça humilde que trabalhava em casa de família. Como não podia ter filhos, Mariana do Carmo Inglesa consentiu na relação entre Antônia e João Maria Espanca, posteriormente, criou os irmãos e foi madrinha de Florbela.
                Precoce, aos nove anos de idade, Florbela escreveu seu primeiro poema, intitulado A vida e morte: “O que é a vida e a morte/ Aquela infernal inimiga/ A vida é o sorriso/ E a morte da vida a guarida”. Foi aos vinte e dois anos, em 1916, que a poeta começou a carreira como escritora, a partir da estruturação do manuscritoTrocando Olhares (1915- 1917). Em vida, Florbela Espanca publicou dois livros de sonetos: Livro de Mágoas (1919) e Livro de Sóror Saudade (1923), póstumos vieram a lúmen: Charneca em Flor (1930), Reliquiae (1931) e Juvenília(recolha de poemas juvenis, muitos deles parte do manuscrito Trocando Olhares). Florbela Espanca também possui uma obra ficcional em prosa que compreende os livros de contos intitulados O Dominó Preto (1982) e As Máscaras do Destino (1931).
A artista plástica Selma Weissmann  produziu duas obras inspiradas em um poema sem título de Florbela: “Dama emVermelho” e “Anna Karenina”, em acrílica sobre tela.   
                A morte, com a sua tentação plena, o suicídio, consagrou a tragédia florbeliana, assim como consagrou as de Inês de Castro, de Julieta, de Isolda, de Sylvia Plath, de Grace Kely, e de tantas outras mulheres que, repentinamente, desapareceram deixando uma aura de mistério no ar: “Deixai entrar a Morte, a Iluminada”, escreveu Florbela no soneto Deixai entrar a morte. O suicídio, ritualisticamente realizado no dia em que completaria 36 anos de idade, não passou despercebido (família católica, interdição da palavra ‘suicídio’ na imprensa, receio de falatório), e Florbela, que em vida conheceu o silêncio da mídia, tornou-se, depois de morta, um fenômeno literário. Esse fato desviou o olhar para da sua obra e muitos escritores passaram a estudar a sua vida e o seu comportamento, fato que está sendo superado. Novos olhares têm sido lançados, não apenas sobre a poesia, mas também, sobre os contos e epistolografia de Florbela Espanca.  
                Extemporânea, Florbela carregou o estigma de ser mulher numa sociedade patriarcal e falocêntrica. A poeta tinha consciência do seu desenquadramento e em uma carta dirigida a amiga Júlia Alves relatou: “Eu não sou em muitas coisas nada mulher; pouco de feminino tenho em quase todas as distrações de minha vida. Todas as ninharias pueris em que as mulheres se comprazem, toda a fina gentileza duns trabalhos em seda e oiro, as rendas, os bordados, a pintura, tudo isso que eu admiro e adoro em todas as mãos de mulher, não se dão bem nas minhas apenas talhadas para folhear livros que são, verdadeiramente, os meus mais queridos amigos e os meus inseparáveis companheiros. [...] Que desconsolo ser assim, minha Júlia!”.
                Florbela Espanca imaginou, por meio de sua poesia, variadas subjetividades em diálogo, e por meio dos seus escritos, ela trabalhou variados aspectos do universo feminino. A poética florbeliana abarca aspectos como o amor, a dor, a desilusão por buscar e não encontrar o amado, a tristeza e o destino que arrasta os seres independente de sua vontade. O eu lírico, sedento de infinito, se metamorfoseia e joga com as formas do mundo, convidando o leitor à experimentação das emoções. Com uma sedução própria da alteridade a obra de Florbela traz em si o germe do encontro com o outro: “Procurei-O no seio de toda gente./ Procurei-O em horas silenciosas!/ [...] E nunca O encontrei!... Prince Charmant”.
                Conhecida como a “poetisa da melancolia e da saudade”, Florbela Espanca é uma persona dramatisque ainda não teve todas as máscaras reveladas. Recentemente a editora portuguesa Quasi, de Matosinhos, publicou a correspondência amorosa de Florbela Espanca, cuja organização, fixação de textos e notas foram assinados pela pesquisadora Maria Lúcia Dal Farra. A obra Florbela Espanca Perdidamente reúne uma série de correspondências trocadas entre a poeta e o seu amante que, posteriormente, tornou-se o segundo marido, Antônio Guimarães. Essa epistolografia de Florbela Espanca, escrita entre os anos de 1920 e 1925, lança luz sobre uma zona até então obscura da vida da poeta, revela uma “Florbela inaugural”, “em estado de amante”, que escreve a partir de uma zona silenciosa e solitária onde tudo é “sigiloso e dito em sussurro”, como afirmou Dal Farra.
                Florbela estava separada do primeiro marido, Alberto Moutinho, porém, ainda oficialmente casada com ele, e acabara de publicar o seu primeiro livro, o Livros de Mágoas, quando, num baile de carnaval, em Lisboa, conheceu Antônio Guimarães. Os seus olhos de pantera pousaram sobre o jovem bem apessoado, magro, de cabeleira lisa e loira, que trajava uma farda cor de avelã: “Olhos do meu amor! Infantes loiros/ Que trazem os meus presos, endoidados!”, cantaria a poeta no soneto Teus olhos, da obra Charneca em Flor.
                Florbela estava com 25 anos e atravessava por uma fase difícil, experimentava a sensação de desamparo por estar afastada da família, e se considerava uma “desterrada”. A personalidade singular da poeta, bem como, o fato de ela ser estudante de Direito na Universidade de Lisboa, destacava-a dentre as outras mulheres. Exposição pública que se agravou com a sua estréia no mundo das letras, e deu margem a variados comentários maliciosos. Segundo Ana de Castro Osório, o atributo de “literata” era “o mais desagradável que podia ser dito de uma senhora, que era vista com um livro na mão”. O fantasma da infâmia assombrou a relação entre Florbela e Antônio e foi um dos motivos da separação do casal.
                O romance entre Florbela Espanca e Antônio Guimarães, que era alferes da Guarda Nacional Republicana, sofreu com as intempéries políticas. O Portugal Republicano do inicio do século XX com seus atentados, assassinatos na “Noite Sangrenta” e crises de autoridade, exigiam a presença constante dos seus Guardas Nacionais, dentre os quais estava Antônio, esse fato agravou, além do sentimento de solidão e impotência, a saúde de Florbela.
                Embora Florbela ainda estivesse oficialmente casada, ela se considerava a “noiva” de Antônio, que lhe acenava com promessas de amor e de um lar, “um ninho”, onde seriam felizes. O amor vivido sob signo da clandestinidade e da ilegalidade levou os amantes a buscar estratégias para ficar juntos. Florbela só podia se encontrar com Antônio na companhia de seu irmão, Apeles, que sempre a defendeu das más línguas, e por quem a poeta nutria um amor quase maternal. Porém, ocupado, ou não querendo se comprometer, o jovem não mais acompanhou o casal que, desesperado, passou a pegar junto o transporte público. A bordo do elétrico, porém sempre sobressaltados com a possibilidade de encontrar alguém conhecido, trocavam olhares e pequenas frases. Acerca desses episódios Florbela escreveu: “Então, Vossa Mercê digna-se mostrar satisfeito do passeio à conchinchina? Eu estou fartíssima, e nem as extravagantes viagens de Júlio Verne, nem mesmo a da lua ou a das cinco semanas em balão, me poriam mais estafada e me dariam mais vontade de criar raízes num qualquer sítio”.
                Noutros momentos Florbela ficava a janela de sua casa e Guimarães ao longe, ficavam se olhando e se desejando, porém, logo as más línguas fizeram com que Florbela escrevesse para Antônio um bilhete dizendo: “Quando por aqui passares não pares nunca. Depois te direi porquê. Passa a pé ou a cavalo, de trem, de automóvel ou de aeroplano mas vê-me de longe sempre”. Vivendo em casa alheia, Florbela ansiava legalizar a sua situação com Antônio para que pudessem viver felizes, em uma casa só deles, ela ansiava um lar. Esse desejo pode ser observado expresso no poema A nossa casa:

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que nesse mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro − tão bom! − dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...

                Variadas cartas revelam a importância de ter uma casa para Florbela: “Não sei o que esperas para alugar casas, dizes que a questão é eu ir, pois eu digo que a questão é ter lá um buraco por modesto que seja. Palácio ou tenda na praia, o que eu preciso é casa minha”, noutra carta a poeta diz: “Muito depressa arranja a nossa casinha seja como for. Na Foz ou no Porto ou em casa do Diabo”. 
Ainda no poema A nossa casa (ESPANCA, 1996, p. 224), observamos o eu poético questiona sobre um lugar compartilhado: "A nossa casa, Amor, a nossa casa!/ Onde está ela, Amor, que não a vejo?".
                Em abril de 1920, o casal passou cerca de dezesseis dias em uma “lua-de-mel clandestina”, que logo foi interrompida com a convocação de Antônio para o quartel de Lisboa. Sozinha novamente a poeta passou a abordar uma toalha de mesa: “Acabei agora o meu eterno bordado, acabei por hoje.... Dá-me já a ideia da célebre Penélope, feita de dia, desfeita de noite, enquanto o bem amado, ao longe, vagueava pelo mundo afora. A célebre toalha estafa-me, e bem grande será o prazer de ver o meu desastrado homem amarrotá-la e enchê-la de chá ou cinza de cigarro”. Este período foi de grande ansiedade para Florbela, porém, as cartas mostram, também, uma Florbela irônica e possuidora de um aguçado senso de humor, como afirmou a poeta, “felizmente, todas as tragédias têm o seu lado cômico”.
                Florbela e Antônio casaram-se no dia 29 de junho de 1921 e seus padrinhos foram Apeles e Buja, que foi amiga de Florbela durante toda a vida, e que após a morte da poeta lutou pela reabilitação do seu nome. Florbela economizava o dinheiro ganho com a venda das galinhas que criava para comprar um colar de pérolas, porém, pediu-o a Antônio como presente de casamento. Possivelmente, seja este o colar que vemos sendo exibido pela poeta nas suas fotos mais conhecidas e que tanto admiramos.
                Florbela e Antônio viveram uma relação de grande cumplicidade sexual: “os nossos mimos, a nossa intimidade, as carícias são só nossas; no nosso amor não há cansaços, meu pequenino adorado! Como o meu desequilibrado coração de artista se prendeu a ti”. Nas noites solitárias, calvário que a poeta subia “devagarinho”, e em dores, nos chegam os relatos da falta que o amado lhe fazia: “Uma grande noite sem ti! Quantas horas terá ela, a noite que vem, a noite que desce sobre a terra e dentro de mim? Tenho saudade das carícias dos teus braços carinhosos que me apertam e que me embalam nas horas alegres, nas horas tristes. Tenho saudades dos teus beijos, dos nossos grandes beijos que me entontecem e me dão vontade de chorar. Tenho saudades das tuas mãos, tão más as vezes, como ontem à noite... Tenho saudades da seda amarela tão leve, tão suave, como se o sol andasse sobre o teu cabelo, a polvilhá-lo de oiro. Minha linda seda loira, como eu tenho vontade de te enfiar entre os meus dedos. Tu tens me feito feliz, como eu nunca tivera esperança de o ser”. Em carta datada de 14 de janeiro de 1921, a poeta se despede do amado desejando “muitas festas ao pirilau”; já noutra, a poeta chega a perguntar ao amante se o seu “pirilau” não estaria “cheio de saudades”, e que viesse logo, pois, haveria “muito licor” a esperá-lo.
                O casamento trouxe para o casal, além da realização sexual, a rotina e uma fase de grandes dificuldades financeiras. Sempre em busca de autonomia, Florbela criava galinhas e coelhos. Eis outra faceta da poeta que, no seu Diário de ultimo ano afirmou: “o olhar dum bicho comove-me mais profundamente que um olhar humano”. Amorosa, Florbela cuidava da criação com desvelo, especialmente dos “pintainhos” e, em meio aos versos rascunhados, ou em uma caderneta, anotava a quantidade de ovos postos e quantos estariam por chocar. Numa carta a poeta mostrou-se muito “escamada” com a morte de sua galinha que “tão boa era”.
                Afastada de Antônio, que servia à pátria, volta a comparecer nas cartas de Florbela a nostalgia do lar, do paraíso perdido “O lembra-me de ti, da nossa casinha, da nossa tão doce intimidade, é como se um lindo raio de sol me iluminasse toda. Pensar que em alguns dias vou encontrar o meu paraíso perdido é o bastante para me fazer sorrir”. Em carta datada de 19 de janeiro de 1920 a poeta chama a atenção de Antônio: “Toma cuidado, meu amor, lembra-te que a tua pátria e que a tua república sou eu, é a tua Bela!”.
                Apenas seis meses após o casamento, Florbela já pensava em se separar de Antônio. A ascensão profissional do marido foi o inicio do fim do relacionamento entre ambos. No inicio de 1923, o manuscrito que Florbela intitulara Claustro das quimeras se transformou no segundo livro publicado pela poeta, o Livro de Sóror Saudade. Quando esta obra veio a público, Florbela estava mudada. Quando conheceu Antônio ela dedicou a ele um exemplar do Livro de Mágoas com a inscrição:

Ofereço-te o meu livro, que é a minh’alma de outrora: cheia de mágoas − ela anda hoje cheia de quimeras, do sonho com que a encheste, com as ilusões com que a deslumbraste... Ela é outra, agora! Vai toda nesta página... e nem se lembra sequer que foi, um dia, aquela que sonhou, em horas de tortura, o pobre e triste Livro de Mágoas...”
Florbela Espanca
Ano de 1920
            O projeto poético Claustro da quimeras, guardou a apaixonada dedicatória “A Antônio Guimarães”:

Àquele que é na vida toda a minha vida, àquele que é na amargurada noite da minh’alma, a deslumbradora luz que tudo ilumina e aquece, ao meu único amor de verdade, maior que todos os amores de quimera e ilusão que tão cedo passaram...”.
Bela

Porém, este projeto poético, materializado no Livro de Sóror Saudade, trouxe uma dedicatória diferente, em tom comedido, e que já não revelava paixão, mas amizade por Antônio. “Ao Tónho” ela escreveu:

O primeiro exemplar de o Livro de Sóror Saudade pertencia-te. Ofereço-to pois com muito afeto e muito reconhecimento por tudo que te devo de bom e feliz na minha vida.
Tua amiga, muito amiga.
Bela
A dedicatória da nova obra já não exaltava o amor por Antônio, mas revelava agradecimento e amizade por parte de Florbela. A poeta escreveu que se um dia alguém se julgasse com direito a perguntar a Antônio o que ele fez por ela, que ele respondesse que fez dela “uma mulher” e da sua vida “um sonho”. Como Florbela própria disse Antônio Guimarães “conseguiu domar a insubmissa Miss América, e transformá-la numa burguesinha pacata”. Enquanto esteve apaixonada por Antônio Guimarães Florbela produziu muitos e belos versos, como os sonetos AnoitecerDa minha janela, que diz: “Amor! Teu coração trago-o no peito.../ Pulsa dentro de mim como esse mar/ Num beijo eterno, assim, nunca desfeito”. O poema A vida que, posteriormente, Florbela intitulou Inconstância: “Amar-te a vida inteira eu não podia/ A gente esquece sempre o bem dum dia/ Que queres, ó meu amor, se é isto a vida!”, e o soneto O nosso mundo, que transcrevo na íntegra, e que a poeta dedicou ao seu “homem querido”: 

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu olhar eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos…


Os meus sonhos agora são mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno…
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!


A vida, meu Amor, quer vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…
O mundo, Amor?… As nossas bocas juntas!…            
 (Lisboa, 2-6- 1920)

                Em 1921, residindo com Antônio no quartel da Foz, há um silêncio entre os amantes, já não se comunicam mais como antes, há um silêncio com relação à gravidez e ao filho que Florbela perdeu por conta de um aborto hemorrágico. Nessa época, janeiro de 1921, na casa de seu pai, Florbela compôs o poemaCaravelas: “Eu sempre fui assim este Mar Morto:/ Mar sem marés, sem vagas e sem porto/ onde velas de sonhos se rasgaram!”.
                De volta a Lisboa, como quem cumpre uma sina, Florbela está em casa emprestada. A relação com Antônio se deteriora a cada dia e, em 1924, a poeta compõe para Antônio um soneto que será conhecido apenas em 1931, na obra Charneca em Flor, ele intitula-se Supremo enleio e diz:

Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!


Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta…
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!...


Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!


E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás de encontrar ainda!      

(8-2-1924)

Em abril de 1924, dois meses após Florbela ter escrito este soneto, outra ironia do destino, Antônio iniciou um processo de divórcio litigioso contra ela, alegando “abandono de lar”.  Antônio que fora “Tonho, Toninho, Urso pardo, preto”, converteu-se, nas palavras da própria poeta, em “bicho mau”. Adoentada, possivelmente por outro aborto involuntário, no dia 3 de dezembro de 1923, Florbela escreve a derradeira carta para Antônio e nela se despede assinando: “Saudades de tua mulher”. Ainda nesse mês, Florbela escreverá ao seu irmão dizendo: “[...] eu estava a me transformar na mais vulgar das mulheres, e por orgulho, e mais ainda por dignidade, olhei para frente, sem covardias e nem fraquezas, o que aquele homem estava a fazer da minha vida, e resolvi liquidar tudo simplesmente, sem um remorso, sem mais pequenas mágoas. Estou a divorciar-me para me casar novamente”.
                O soneto Supremo enleio mostrou-se profético, pois, quando Antônio Guimarães morreu, em 1981, deixou para a posteridade um rico acervo de recortes de jornal com tudo o que havia sido publicado sobre Florbela Espanca, com noticias de antes e de após o seu falecimento. No famoso baú de Fernando Pessoa foi encontrado um poema que hoje está depositado no espólio do poeta (ESP. E3/ 66ª-39) na Biblioteca Nacional de Lisboa. O poema intitulado À memória de Florbela Espanca diz:

Dorme, dorme, alma sonhadora,
Irmã gêmea da minha!
Tua alma, assim como a minha,
Rasgando as nuvens pairava
Por cima dos astros,
À procura de mundos novos,
Mais belos, mais perfeitos, mais felizes.

Criatura estranha, espírito irrequieto,
Cheio de ansiedade,
Assim como eu criavas mundos novos,
Lindos como os teus sonhos,
E vivias neles, vivias sonhando como eu.
Dorme, dorme, alma sonhadora,
Irmã gêmea da minha!
Já que em vida não tinhas descanso,
Se existe a paz na sepultura:
A paz seja contigo.

Referências:
- ESPANCA, Florbela.
Poemas Florbela Espanca
. Estudo introdutório, edição e notas de Maria Lúcia Dal Farra. Martins Fontes. 1996.
- DAL FARRA, M. L. ; ESPANCA, Florbela ; PEDROSA, Inês . Florbela Espanca, Perdidamente. Correspondência amorosa. Porto: Quasi/Câmara Municipal de Matosinhos, 2008. v. 1. 311p .


Exposição "Faluas do Tejo": Comemoração do ano de Portugal no Brasil e dos 30 anos da Galeria de Artes Ana Terra

Olá amigos, tenho a alegria de convidá-los para a exposição  "Faluas do Tejo", em comemoração ao ano de Portugal no Brasil e dos 30 anos da Galeria de Artes Ana terra. Esta exposição está sendo organizada pelo artista plástico,  Professor do Departamento de Artes Visuais/ CAR/ UFES, Attílio Colnago.  Agradeço ao Attílio o convite para participar deste projeto, é sempre muito bom compartilhar minhas pesquisas e minha paixão pela poeta Florbela Espanca. Seguem algumas palavras de Attílio sobre a exposição

Quando do convite da Ana Terra Galeria de Arte para colaborar na organização dessa mostra vislumbramos duas importantes datas que não poderiam ser olvidadas. A primeira, para a qual devemos entoar loas, está na persistência – em territórios pouco afeitos à cultura – desta galeria resistir e insistir em se manter como um espaço ativo que abriga um multifacetado universo, oferecendo possibilidades de deleites vários e plurais – as peça de antiquariato abrem caminho para o mais novo design de arte wear, a presença de obras clássicas possibilita diálogos com a produção contemporânea e a troca entre artistas já consolidados e em formação. Esse perfil, por ser vário, cria conversas por vezes estranhas, por vezes mais fluídas, mas na busca pelo equilíbrio se torna uma constante que a faz se manter sempre ativa neste longo percurso que completa agora trinta anos como um dos marcos nas artes plásticas capixabas. 
O segundo motivo esta relacionado com o Ano de Portugal no Brasil e de Brasil em Portugal. Adiantando-nos aos eventos que por certo virão, pois essa comemoração terá início formal na data maior do Brasil – 07 de setembro – e se encerrará na data nacional de Portugal – 10 de junho de 2013. O evento ora proposto certamente se constituirá numa forma de contribuir com comemorações que se revestem de grande importância: o momento de se reportar à terra-mãe, de onde herdamos nossa língua, nossa forma de ser, de amar, sofrer e criar... É hora de rever, de refletir sobre as trocas entre esses dois países e quem sabe, redesenhar e reinventar esses laços. Iniciamos nossa contribuição pelo que nos é mais caro – a cultura , representada aqui pelas artes plásticas e literatura. 
O título da mostra vem emprestado do “Madredeus”, grupo português que para além do fado tradicional tem cantado e encantado o mundo com sua forma particular de cantar seu amor por Portugal. O termo “falua” se refere à uma antiga embarcação de boca aberta mas com popa e proa afiladas , com dois mastros e velas latinas triangulares. Foram usadas inicialmente para recreio dos reis portugueses do século XVIII, e mais tarde se popularizou, transportando pessoas e mercadorias. O Madredeus canta as saudades que delas ficou, as lembranças de seu delicado balouçar nas marolas do Tejo, e num exercício de liberdade poética, nos apropriamos dessas ondulações como entidade feminina, a seduzir em seus passeios pelo rio. Esse elemento feminino como musa inspiradora real ou abstrata, vai tomar corpo na poesia dos poetas escolhidos como fio condutor para os trabalhos, Florbela Espanca (1894/1930) e Fernando Pessoa (1888/1935), considerados dentre os maiores poetas da língua portuguesa, que num desdobrar de vidas e personalidades criaram em verso e prosa o que foi vivido/sofrido ou sentido/sofrido. Essa mostra, em sua maior parte, reflete a produção advinda da UFES. Na área artística com professores e ex-alunos do Centro de Artes e na produção literária com a participação do professor Paulo Roberto Sodré, poeta pesquisador e apaixonado pela Literatura Portuguesa e Renata Bomfim, poetisa, doutoranda em Literatura Portuguesa e uma “florbeliana“ assumida e, como a organização do evento do mês de março nessa galeria, tem sempre como objeto uma exposição dedicada às mulheres, o texto neste catálogo sobre Florbela Espanca, vem, com a permissão de Fernando, ampliar a elas nossas homenagens. 
Dado o mote, ficou para os artistas a tarefa prazerosa de mergulhar no universo desses poetas. Como uma música dolente, realizar um mergulho quase sem volta, pois havia aqui a necessidade de permitir encharcar-se do fel e da paixão contidos em tantos versos. Cada um seduz com o que melhor sabe fazer, o exercício estava em criar uma amálgama entre nossas vivências e fazeres com o cantar apaixonado desses poetas. O exercício estava em inventar caminhos dos quais não temos bem o controle de seu caminhar, nem sabemos ao certo seu terminar. Como bem disse o poeta “viver não é preciso”, por certo fazer e viver na arte também não o é...
Attílio Colnago

Fonte do texto: 

18/03/2012

eu canto o Amor

eu canto o Amor
canhestra, acanhada e
reverentemente
meus lábios vibram
quando evoco a força
desse mantra: Amor!

de diferentes formas
tento arrancar de dentro
as letras do nome,
uma a uma:
A- M- O- R
para  depois fazê-las voar,
por aí, por qualquer lugar

arrisco ficar de fora
dos catálogos, antologias nacionais e
internacionais, dos jornais, dos púlpitos e anuários
pois, os eruditos e os cientistas implicam
com o amor, e com quem ousa evocar
a sua potência de produzir vulnerabilidade
peço desculpas aos cínicos
sinceramente, eu não queria causar constrangimentos
não queria ser essa mulher que deita e rola
na mísera narrativa de suas ausências e faltas
mas sou inacabada, precária, fugaz

eu canto o amor porque desejo sentir o amor
do pássaro pela montanha
da montanha pelo rio
da terra pelo céu e do infinito,
(que anseio tocar com a ponta dos dedos)
por todos nós

Eu canto o amor
para oxigenar o ser que sou  e
imantá-lo de utopia
para vislumbrar o porvir
para fazer o que é mais banal reluzir
como o ouro, ou o sol

eu canto porque existe a noite escura
as estrelas e o vento
os insetos e os pássaros:
todos eles mestres do silêncio
Eu bebo o silêncio!
por isso canto as mãos unidas
do monge que medita
canto o perto e o longe
canto o olhar da criança para o seio materno
ela quer beber vida
eu também quero beber a vida
as árvores me alimentarão

falta algo
por isso eu canto o amor
em meu nome e
em nome de ninguém e do nada
canto para aquilo que desconheço
para que, na precariedade
e no efêmro dos minutos que se atropelam,
algo tremendo aconteça

Para que meus olhos vejam
a Paz concretizada:
animais livres da agressão
todos com agua, vinho, pão e casa
as florestas preservadas
os rios fluindo saudáveis
livres de contaminação
a Paz!

Paz!
Eu quero beber da Paz!

Eu canto por um milagre
Canto para que haja uma conversão coletiva
e que os povos celebrem o encontro
com as suas linhagens perdidas:
elo que tanto buscam:
o ancestral
pai/mãe transpessoal
de todos e de ninguém
o Amor

renatabomfim

16/03/2012

árvores e internautas...

Olá amigos, observei no nosso " globo-marcador" que tenho recebido no blog a visita de internautas de Arvorezinha, Rio Grande do Sul. Achei esse nome bonito, adequado para uma cidade e agradeço  aos amigos (arborenses?) as visitações, espero que curtam os poemas, os vídeos, artigos, etc. Espero que esta arvorezinha seja sempre verdejante e o nome da cidade reflita o amor de seus habitantes por essas entidades/formas de vida  fantásticas que são as árvores.
Particularmente, acredito que sabemos pouco, ou quase nada sobre as árvores, esse habitantes do planeta que estão aqui, evoluindo, ha milhares de anos antes de nós, ou melhor, antes de todos os animais. Quem sabe um dia, depois de milhares de anos de evolução (não digo evolução tecnológica, mas de consciência) nós possamos ser parecidos com as árvores que desafiam a lei da gravidade, e estendem os braços para o céu, ou para o sol... 
Não sabemos muita coisa sobre as  árvores, mas, assumindo essa ignorância/desconhecimento sobre elas, nada, nos impede de amá-las.
Aproveito a oportunidade para agradecer aos internautas brasileiros (capixabas, cariocas, nordestinos, a turma do sul, a turma do Brasil central, do Amazonas, do Tocantis, enfim...) de cada cantinho do Brasil, pelas visitas, pelo carinho, tenho aprendido muito sobre o nosso país  por meio de vocês.
Agradeço também aos amigos portugueses (de Coimbra, Lisboa, Braga, Faro, Viseu, Leiria, Évora, e dos países Africanos de língua portuguesa), aos internautas dos EUA (Georgia, California, Washington, New York, North Carolina, Iowa, Florida, Oregon, New Jersey, Texas, Massachusetts, Colorado, South Carolina, Pennsylvania, Wisconsin, District of Columbia, Oklahoma, Kansas, Illinois, Michigan,Virginia, Missouri, Indiana), e aos internautas da Alemanha, Espanha, França, Nicarágua, México, Itália, Angola, Canadá, e outros países, enfim, sintam-se todos abraçados e que este diálogo possa, como uma árvore, criar novos ramos e tomar novos rumos.
Não deixem de indicar nosso blog para os seus amigos, ok?
Abraços dessa  poeta do Espírito Santo, do Brasil e de todos vocês
Renata Bomfim

15/03/2012

A questão animal (trailler)


Um filme de Todd Southgate diretor/cinegrafista de documentários ambientais, já fez mais de 30 vídeos, conquistou diversos prêmios importantes, e acompanhou James Cameron (produtor do filme AVATAR) em visita à Amazônia. Segundo Todd Southgate quando você enxerga um problema e você sabe que esta errado, você tem mais força para fazer algo.
A história do Bem-Estar Animal documenta o triste problema dos animais de rua no Brasil, a crueldade contra eles e a conexão entre esta crueldade e a violência doméstica. Destaca também o trabalho de uma cidade, em particular, que ousou romper esta cadeia de crueldade, implantando soluções que romperam com os antigos paradigmas, obtendo importantes resultados. O Bem-Estar Animal de Florianópolis oferece às populações mais carentes o atendimento veterinário e a esterilização de cães e gatos de forma gratuita, evitando assim, o sofrimento desnecessário de tantos animais e controlando a população de animais abandonados nas ruas.
Mais de 30 mil animais já foram esterilizados nos últimos 6 anos e o resultado já é visível nas ruas da idade. Ao contrário da maioria das cidades brasileiras, Florianópolis encontrou uma solução ética para um problema endêmico. Agora as pessoas mais carentes da cidade podem recorrer ao Bem-Estar Animal quando seus animais de estimação necessitam de atendimento médico-veterinário, o que até então lhes era negado pela impossibilidade econômica.
O Bem-Estar Animal não é a solução mágica para resolver todos os problemas relacionados com os animais no Brasil, mas é um passo importante e progressivo que trouxe novas idéias, novas esperanças para os animais, e, principalmente, abriu o debate sobre o progresso moral do Brasil como nação. O filme é um documentário e também uma campanha institucional contada pelos que a tornaram realidade, como forma de demonstrar que é possível construir uma sociedade mais justa para os animais. Da perspectiva de um documentário o filme salienta as leis, a crueldade cometida contra os animais no Brasil e a dedicação dos voluntários que lutam pelos seus direitos, focando particularmente na cruzada pessoal de Maria da Graça Dutra para romper o status quo e melhorar as condições dos animais em Florianópolis e no Brasil. O vídeo também tem a finalidade de mostrar a outras cidades do brasileiras, a outros prefeitos e autoridades sanitárias, que as medidas adotadas em Florianópolis beneficiam não apenas os animais abandonados nas ruas, mas à saúde humana, trazendo benefício para a sociedade como um todo.

Raúl Xavier Garcia, el poeta carpintero

Conheci o poeta Raúl Xavier Garcia no Festival Internacional de Poesia de Granada. Fomos apresentados pelo amigo, também poeta, Victor Echevarria. Aos poucos eu fui compreendendo que estava diante de um dos mais queridos e reconhecidos poetas de Granada. Raúl está com 80 anos e sua história na poesia é singular.
Foi o poeta Pablo Antônio Cuadra quem deu a Raúl o epiteto  "poeta carpinteiro", e ele é carinhosamente chamado assim por amigos e fãs de sua poesia. O poeta herdou de seu pai essa profissão, e a exerceu por muitos anos, mas, aos 50 anos se apaixonou pela poesia e, desde então, passou entalhar e dar formas aos belos versos.
Em uma entrevista para o periódico El nuevo diario de Nicarágua, o poeta declarou:  "Estudié hasta Primaria, pero como soy autodidacta me fui perfeccionando, y el estar “codeándome” con grandes de la literatura me dio la oportunidad de conocer a Pablo Antonio Cuadra, PAC, quien me recomendó prepararme para mejorar mi técnica, y como él era rector de la UCA en los años 60, me dio la oportunidad de estudiar ahí. Estuve cuatro años de oyente en clases de literatura”.
Raúl possui três livros de poesia publicados: Poemario, de 1962; La Noche en Llamas, de 2010; e El Cielo Puede Esperar, lançado no VIII Festival Internacional de Poesia de Granada. Segundo Raúl os poemas da sua obra mais recente, além de inéditos, "tienen como tema común la muerte, el abandono, las diferencias de las clases sociales, además de estar llenos de madurez por los años que tengo de vida". A obra de Raúl já foi traduzidos para o inglês, o italiano e o russo e ele participou de variadas antologias. O poeta fez parte do grupo "Los Bandoleros", que surgiu em Granada na décadas de 60.
A obra El cielo puede esperar está dividido em dois cantos, o primeiro "Canciones existenciales/íntimas", com 31 poemas, e o segundo, "Canciones diversas", com 14 poemas. Para Fernando López Gutiérraz essa revela um  "grande desejo de transcendência", por parte do eu poético que, intimista, transita entre "a esperança, a luz, os sonhos, o riso, as cores, a paixão, elementos decisivos para se cantar, também, a morte". El cielo puede esperar é o titulo do poema de abertura do livro, uma ode ao instante. Neste poema  o ser peregrina  e cumpre Un largo viaje hacia la noche, animado pelo desejo irrestrito de "seguir vivendo" e participando do teatro da vida, onde "Tú e yo, somos los que actuamos".
Em uma palestra na Universidade de Cartago, Costa Rica, o poeta carpinteiro declarou desejar que "un día desaparezcan nuestras diferencias, las cortinas, los muros, para que nos unamos todos un día y que nos amemos dos pueblos que tenemos la misma idiosincrasia". Foi com este espírito de fraternidade e de carinho que o amigo Raúl Xavier Garcia me dedicou o seu livro:  "para Renata Bomfim, do Brasil, a quem amo como só é capaz um coração humano".
Raúl me presenteando com o livro El cielo puede esperar
Ema recordação do amigo poeta
Deixo aqui registrado a minha adimiração por este poeta e pelo seu percurso literário, e o agradecimento por ter me acolhido com carinho e atenção durante a minha estada na Nicarágua.  Transcrevo um poema da obra El cielo puede esperar:

Por el amor subimos

Si mi hubieses dicho antes
que amas los furiosos rugidos
de un vulcán,
las espigas doradas del arroz
creciendo
o las fugitivas aguas que rompen
llanuras para luego llamarse Rio Coco
más que a mim. No es extraño
Solo este país que subió del fondo
del mar como venus
a cantar
y luego destroza con sus alas el sonido
de los relámpagos que hieren
para que por el amor subamos.

13/03/2012

José Castello fala sobre a obra "Ribamar", ganhadora do jabuti 2010, no café literário Sesc/ Vitória-ES

Olá amigos internautas, Boa noite! tenho noticias fresquinhas para vocês...
Acabo de chegar do Café Literário Sesc e o convidado da noite foi o escritor José Castello, ganhador do Prêmio Jabuti 2010 com o romance "Ribamar". O bate papo foi mediado pelo escritor carioca, capixaba de coração, Caê Guimarães. filmei alguns fragmentos da entrevista para quem não pode estar no evento, especialmente os colegas do doutorado que estudarão essa obra.
José Castello é jornalista e escritor, colunista do suplemento Prosa & Verso, de O Globo, autor de "Vinicius de Moraes: O poeta da paixão" (Companhia das Letras, 1993), "Inventário das sombras" (Record, 1999) e "A literatura na poltrona" (Record, 2007), entre outros. Vale a pena conhecer a obra, eu já estou com o meu exemplar autografado e assim que lê-lo postarei algumas considerações.Abraçosssss...
O blog do escritor chama-se A literatura na poltrona


O diabo está de férias

O diabo está de férias!
Não temos mais a quem culpar
Pelo leite derramado
Pelo lixo acumulado na esquina
Que entope os bueiros e
Leva tristeza ao meu coração.

A criança têm fome, e chora
Há dor  no corpo do desamparado
Há medo nas entranhas dos orfãos
O nada brilha como um sol negro
No horizonte da mulher violada.
Há mãos encharcadas com o sangue
De animais inocentes que
Nem deram ainda os primeiros passos
XXXXXXXXXXXXXXXX na jornada da vida
E foram brutalmente assassinados.
Essas mãos não são as do diabo!

O diabo está de férias!
As igrejas já não podem culpá-lo pelo
descaminho das vidas alheias.
Já não podem encher os cofres em seu nome.
Deixemos o diabo descansar!
Possivelmente ele não suporte mais carregar
Esse  fardo, a eterna culpa de ter que
Nos aliviar da vergonha de sermos
Quem  somos.

renatabomfim

11/03/2012

AÇÃO DE REPÚDIO CONTRA A EXPORTAÇÃO DE JEGUES NORDESTINOS PARA SEREM EXECUTADOS NA CHINA

Queridos amigos internautas,

O mestre Sidharta Gautama, ou Buda, disse que  "o homem implora a misericórdia de Deus mas não tem piedade dos animais", nossos companheiros na jornada da vida, seres que tem direitos, são sensientes,  depositam no ser humano a sua confiança e acabam sendo mortas por mãos criminosas. O mestre Buda disse ainda que "ninguém purifica seu espírito com sangue". Bem, estamos diante de mais um "mercado" que se abre, os capitalistas carniceiros comemoram mais uma forma de acumulação de riquezas por meio da exploração e do sofrimento. Esta é mais uma entre muitas práticas mercadológicas, não preciso descrever o desastre ambiental causado pela pecuária, pela monocultura, pelo tráfico ilegal de animais, entre eles o animal humano (especialmente mulheres e crianças, seres duplamente subalternizados). E a sociedade enche as igrejas numa verdadeira pororoca da fé, quanta hipocrisia!
Enchemos o peito para gritar nas passeatas que queremos PAZ, mas amigos, a paz que tanto almejamos  borta do silêncio, das pequenas escolhas que fazemos no nosso dia a dia, nasce das perguntas: "e se todos os seres humanos fizessem isso que eu pretendo fazer?, ou se adotassem a postura que pretendo adotar, como seria o mundo?". Esse é mais um "negócio da China". Até quando, amigos, esse tipo de coisa acontecerá? Onde vai dar esse estrada, esse caminho? Eu digo NÃO! BASTA! Vamos nos maniefestar e exisgir que esse tipo de coisa não mais aconteça. Segue um abaixo assinado para os Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. Vamos utilizar as ferramentas que temos, a nossa voz, o nosso poder de voto e de escolha, isso é cidadania! Isso é construir uma cultura de Paz!

Vamos protestar  veementemente contra a exportação de 300 mil jegues do Brasil para a China, país que, assim como o Brasil, não prima pelo bem estar de seus animais, sejam os domésticos ou os selvagens. Esperamos que o Ministério da Agricultura e o Ministério do Meio Ambiente VETEM essa verdadeira carnificina, pois temos comprovações de como animais são tratados na China: ursos tem sua bile extraída SEM ANESTESIA para que seja usada para fins medicinais. Vamos por um fim à vivissecção! Os jegues sempre foram os verdadeiros companheiros do Nordestino.
QUEM CALA É CONIVENTE, VAMOS DIZER, NÃO A ESSA E A OUTRAS BARBÁRIES, VAMOS NOS MANIFESTAR.

Você não é obrigado a ver, pode fingir que esse tipo de coisa não acontece, mas ele é problema nosso:
Crueldade contra porcos em festival vietnamita
Apetite insaciável pelo cozido de cachorro
Empresa da Califórnia faliu e abandonou 50 mil galinhas
Ursos confinados por 10 anos para extração da Bilis

Chamada para publicação: Revista Diálogo das Letras, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN)

Olá amigos internautas, a Revista Diálogo das Letras, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), está recebendo trabalhos para a publicação  das edições 01 e 02 de 2012, enviem  seus artigos científicos e resenhas, vamos tirar a papelada da gaveta e compartilhar as pesquisas.
O objetivo da revista é publicar textos originais e inéditos (que não tenham sido publicados em periódicos ou livros) resultantes de pesquisa e de trabalhos acadêmicos, teóricos ou empíricos, qualitativos e/ou quantitativos, vinculados à temática da produção e ensino do texto e é editada no formato eletrônico.

Outras informações no Site da Revista 
ou pelo E-mail

10/03/2012

Literatura nicaraguense em destaque no "Cuadernos Hispanoamericanos" de nº740

A revista internacional "Cuadernos Hispanoamericanos", que é dirigida pelo escritor Benjamín Prado, dedicou a sua edição de nº 740 a poesia nicaragense. Foram escolhidos os poetas:
Ernesto Cardenal, Claribel Alegría, Sergio Ramírez, Gioconda Belli, Blanca Castellón, Pedro Javier Solís, Nicasio Urbina, Javier Padilla, Yaoska Tijerin, Emila Persona, Martha Leonor González, Francisco de Asís Fernández, Edwin Iyescas, Carlos Fonseca Grysgby, Juan Sobalvarro e Ulises Juárez Polanco.
A revista também publicou obras de Ron Whitehead y George Evans (Estados Unidos.), Marjora Evasco (Filipinas), Oswaldo Sauma (Costa Rica), Oswaldo Romero (México), Daniel Rodríguez Moya (España), Henrik Nilsson (Suecia), Luis Alberto Ambroggio (EU- Argentina), Eugenio Evtchensko (Rusia) Hildebrando Pérez (Perú), entre outros. As edições dos "Cuadernos Hispanoamericanos " podem ser baixados em PDF no site da  Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes

06/03/2012

Fogo/ Fire

No dia Internacional da Mulher...
A luta pelo direito de existir e de viver em paz continua...
Fogo

O homem descobriu o fogo.
Um dia, teve uma idéia maldita:
Queimar as mulheres.

No labirinto do silêncio,
Rasgando as entranhas do medo,
A mulher descobriu formas de resistir.

Aprendeu sobre o poder abrasivo da palavra,
Com as palavras descobriu o seu tom de voz
Se livrou das mordaças, desintegrou grilhões.

Homens e mulheres manipulam o fogo!
Um dia descobrirão meios de
Emergir das cinzas transmutados.

Nesse dia Joana D'arc colherá flores e
as trabalhadoras da fábrica de Nova York
tecerão um estandarte dourado.

Fire

One Day men discovered the fire
But in the other, they had a very bad idea:
They will start the burning of women!

In the labyrinth which was called silence,
Ripping the entrails of fear,
The women discovered ways to resist.

Learned about the abrasive power of words
And with them found their tone of voice
They got free of gags and destroyed shackles.

Men and women know how to manipulate the fire!
One day they transmute and will discover
all the ways to ermerge from the ashes

That day Joana D´arc will pick flowers
And factory workers in New York
Will construct a golden banner.


Tradução para o inglês: Sônia Sanzio Lóra

O conselho

Filho, acorda!
Abre os olhos e vê, sente,
A tua terra respira liberdade:
Ja não está doente!
Já não sangra!

Os rios correm tranquilos e
os peixes formam mosaicos coloridos
saltando, gratos, olhos fitos no horizonte.
Os passaros, vivas notas
desenhando melodias no infinito,
Muitas delas inaudiveis.

Mas, filho, não esquece
O passado!
O sangue derramado sobre o jardim,
as possibilidades que não se concretizaram
os sonhos que viraram fumaça.
Lembre dos que se perderam
para que você se encontrasse.

Não esqueça, filho, para muitos
a vida foi um pesadelo!

Quantos nos trouxeram pelas mãos
Benditas mãos! 
Pega o fio de história e tece
uma outra história:
Trama, desfaz os nós, cria laços.
Não deixa que esse tecido esgarçado
se desfaça, e com ele desapareça
os sinais dessas subjetividades obliteradas.

É vital que não nos esqueçamos
como chegamos até aqui.

renatabomfim

05/03/2012

Poetas do mundo, vamos apoiar a candidatura do Festival Internacional de Poesia de Granada ao Prêmio Principe de Asturias 2012

O FIPG concorre ao premio de Concórdia

Olá amigos poetas e instituições literárias e de cultura, a indicação do Festival Internacional de Poesia de Granada ao Prêmio Principe de Asturias é uma iniciativa da Embaixada da Espanha na Nicarágua.
É importante que votemos nessa indicação para o fortalecimento da poesia e para um maior entendimento de que esta é uma expressão que anda de mãos dadas com as mudanças que tanto desejamos ver no mundo, como afirmou Octávio Paz, "a poesia é revolucionária por natureza". Vamos votar no Festival e depois comemorar juntos!
Abraços
Renata Bomfim

04/03/2012

"Outros 300": entrevista com a poeta Renata Bomfim


Foto: Jove Fagundes

Olá amigos internautas,
O blog "Outros 300" fez uma entrevista com essa amiga de você, quando puderem passem lá para conferir.
Abraços
Renata Bomfim

03/03/2012

Bispo do Rosário: Tecendo para encontrar Deus (artigo publicado no Caderno pensar do jornal A Gazeta/ES)

Olá amigos internautas, 
O Caderno de Cultura Pensar, do jornal A Gazeta, trouxe hoje (03/03/2012) o artigo Bispo do Rosário: a expressão de um visionário, escrito por mim. Eu sempre admirei Bispo do Rosário, um cara extraordinário que transformou muitas impossibilidades em potência e arte. Segue o "Pensar" digitalizado, além do meu texto, nas páginas 10 e 11, vocês poderão conferir outros, todas da melhor qualidade!
TECENDO PARA ENCONTRAR DEUS
(P. 10-11)
Foto de Bispo e de algumas obras suas:
Bispo do Rosário por Fernando Gabeira
XXXÉ uma aventura lúdica adentrar o “mundo” criado por Arthur Bispo do Rosário, ícone da arte contemporânea brasileira. Comparado com Andy Warhol e Marcel Duchamp, Bispo do Rosário representou o Brasil na 46ª Bienal de Veneza, um dos mais prestigiados eventos internacionais de artes plásticas do mundo, juntamente com o artista Nuno Ramos, suas obras continuam sendo expostas em variados países. As 802 obras deixadas por Bispo do Rosário foram produzidas sob condições adversas e motivadas por uma fé inflexível, ele acreditava estar cumprindo uma missão divina: representar tudo o que existe no mundo. O artista recriou um mundo em miniatura, mantos bordados, estandartes, assemblages (técnica que consiste na justaposição de elemento), e reuniu, em séries, muitos objetos. Segundo o próprio Bispo do Rosário este novo mundo seria apresentado ao Todo Poderoso no dia do juízo final, e seria um mundo “sem trevas, planalto ou precipício”, “sem miséria e nem pobreza”.
XXXA criatividade era abundante, enquanto os materiais eram escassos. Bispo improvisou os recursos de que necessitava para a realização de sua obra, ele desfiou o próprio uniforme azul da colônia, símbolo máximo da despersonalização, para bordar com os seus fios uma arte de vanguarda, irmanada com movimentos como a Pop Art e o Novo realismo. As sucatas recolhidas pelo artista nas suas perambulações pela Colônia Juliano Moreira, sobras e restos, ironicamente, colocariam o Brasil no mapa-múndi das artes plásticas. As palavras também desempenharam um importante papel na obra de Bispo do Rosário, elas foram pintadas, escritas, e emergiram, especialmente e em profusão, em bordados, na forma de nomes de pessoas célebres e anônimas, registros de idéias, e extratos poéticos.
XXXBispo do Rosário foi um homem de origem humilde, nasceu em 1909 em uma cidadezinha sergipana chamada Japaratuba. Filho de Adriano Bispo do Rosário e de Blandina Francisca de Jesus, o artista foi marinheiro, pugilista e, entre outros trabalhos, prestou serviços para uma família tradicional carioca, os Leoni. Bispo se recusava a receber salário, trabalhava em troca de moradia e alimentação.
XXXA “outra” origem de Arthur Bispo do Rosário, não a do nordestino negro e pobre, mas, a do “eleito”, “Filho do homem”, começou às vésperas do natal de 1938, quando a cortina que revestia o teto do mundo se rasgou e ele recebeu, por parte de sete anjos, o chamado para se apresentar. Bispo vagou por dois dias pelas ruas do Rio de Janeiro seguindo o exército angelical e chegou ao Mosteiro de São Bento. Ao adentrar a capela ele anunciou que era “o juiz dos vivos e dos mortos, o Cristo”. Bispo esperava ser reconhecido pelos religiosos, porém, enquanto os sinos das igrejas dobravam para receber “o enviado de Deus”, arquetipicamente, tal como aconteceu com o Cristo, Bispo caiu nas mãos da autoridade terrena. Preso por policiais militares foi enviado para o hospício da Praia Vermelha. No dia 25 de janeiro de 1939, Bispo do Rosário adentrou o portão da Colônia Juliano Moreira, que continha na entrada a profética frase: praxix omnia vincit (o trabalho tudo vence).
XXXClassificado pela psiquiatria como esquizofrênico-paranóico, Arthur Bispo do Rosário conheceu a realidade nua e crua da vida no sistema manicomial. A Colônia Juliano Moreira, instituição destinada a abrigar “expurgados da sociedade”, doentes considerados crônicos, “casos irreversíveis” auscultados pela psiquiatria carioca da década de 30, foi a morada de Bispo por cinco décadas. As visões “místicas” e os “delírios de grandeza” fizeram com que o artista fosse encaminhado para o pavilhão 11 do Núcleo Ulisses Viana, lócus privilegiado da geografia da exclusão que era ocupado pelos internos considerados mais “perigosos”.
XXXOs limites geográficos da colônia compreendiam uma área verde de cerca de sete milhões de metros quadrados, com grutas e cachoeiras que integravam a antiga Fazenda Engenho Novo, desapropriada para abrigar o hospício. Em meio à mata atlântica havia uma raridade arquitetônica do século XIX, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios.
XXXOs portadores de transtorno mental greve colhem, hoje, os frutos da luta antimanicomial em prol da desospitalização. Os manicômios, cujo modelo de assistência teve a sua ineficiência comprovada, estão sendo substituídos por Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e por Casas lares, e a legislação, se não é perfeita, reconhece os direitos dos portadores de transtorno mental grave. Mas em 1938 a situação era bem diferente, pois as técnicas psicanalíticas propostas por Freud na virada do século XIX, só chegaram à Colônia Juliano Moreira em 1981, antes disso, esta reproduzia as experimentações que chegavam de centros psiquiátrico europeus, ricas em perversidades. O eletrochoque, por exemplo, aparato desenvolvido na década de 30 pelo italiano Ugo Cerletti, a partir da visita a um matadouro de porcos, foi muito bem recebido na Colônia, tanto que havia uma máquina em cada Núcleo. O dramaturgo Antonin Artaud, em 1945, escreveu ao seu psiquiatra pedindo a interrupção do eletrochoque, ele disse: “o tratamento apaga a minha memória, entorpece meu pensamento e meu coração, faz de mim um ausente que se vê durante semanas em busca do seu ser”. A lobotomia foi um “tratamento” recebido na Colônia como a “salvação da lavoura”. Inventada em 1936 ela rendeu ao seu criador, o neurologista português Egas Moniz, o Prêmio Nobel de Medicina. Bispo, como por milagre, safou-se de muitas destas armadilhas da psiquiatria de sua época.
XXXEx-lutador de boxe e possuidor de grande força física, Bispo do Rosário passou a ajudar os enfermeiros na contenção dos pacientes mais violentos, conquistando assim, um lugar para si na Colônia, ele era o “xerife”. O artista fez amigos no manicômio, ele empreendia algumas tarefas e usufruía de pequenos privilégios como o de “tomar café com os guardas nos bastidores do poder”. Com o passar do tempo os enfermeiros passaram a respeitar os períodos nos quais Bispo submergia no oceano particular de vozes que lhe diziam o que precisava fazer, eram épocas de recolhimento e produção frenética.
XXXO cunho místico que orientou o processo criador de Bispo do Rosário exigia o isolamento. Foi do seu mundo particular que a ele confrontou o poder opressor do sistema psiquiátrico vigente. Uma infinidade de artigos de consumo do hospício segregados em blocos: galochas, colheres, fivelas de cintos, cabides, seringas, pentes, ferramentas, pipas, chapéus, rodos, bolas, capacetes, foram reunidos e utilizados numa ação criativa, uma “obra-escudo”, esta foi, de certa forma, uma expressão de resistência.
XXXA visada psicanalítica chegou a Colônia após 1981 e os pacientes passaram a ser estimulados a falar. Foi nesse período que Rosângela, estudante de psicanálise, chegou à Colônia, e um forte vínculo se estabeleceu entre ela e Bispo. Nessa época o artista passou a construir as miniaturas em dobro para presenteá-la, Rosângela tornou-se para Bispo uma personagem idealizada, ela era o seu anjo redentor, tanto que ele escreveu: “Rosângela Maria Diretora tudo eu tenho”.
XXXEnquanto, na clausura do seu “quarto-forte” (cubículo minúsculo que abrigava um colchonete e um buraco no solo), e longe dos olhares curiosos, Bispo do Rosário escondia os mistérios do seu “novo mundo” em formação, no mundo, a arte explodia em novos conceitos. Na Itália de 1962, Piero Manzoni seguia a tendência do New Dada explorando a desordem dos materiais e expondo, em galerias, objetos do cotidiano. Pães e ovos cozidos deram forma a obras que, depois de expostas, eram consumidas pelo público. Manzoni expôs caixas com as próprias fezes numa obra denominada Merde d’artiste. Obras de Manzoni, como a assemblage de paezinhos, encontrou eco nas obras de Bispo do Rosário, tanto nas peças que agrupavam “bugigangas” em série, quanto nas garrafas plásticas preenchidas com fezes e urina, organizadas pelo artista.
XXXO sistema social opressor era confrontado por obras escatológicas e improváveis e muitos artistas se engajaram na tentativa de enterrar a tradição. O francês Arman, por exemplo, artista plástico representante do Novo Realismo, passou a tomar os bens de consumo da sociedade moderna para reorganizá-los em repetições aleatórias, suas obras mais conhecidas intitulam-se Latas de lixo e Montes de detritos. Outro francês, Íris Clert, produziu obras como Retrato de Sonny Liston (1963), que consistia num amontoado de ferros de passar roupas que alcançava 85 centímetros de altura. Um ferro de passar roupas, daqueles antigos e pesados, também integrou as assemblages de Bispo do Rosário. Ironicamente, enquanto os artistas denunciavam a compulsão capitalista no mundo, Bispo estava alheio a movimentos artísticos, galerias de artes, marchands e mecenas, ele era um excluído do sistema.
XXX“O senhor do labirinto” não gostava de falar sobre a sua história de vida, quando lhe perguntavam sobre a sua origem, ele respondia apenas: “Um dia eu simplesmente apareci”. Muito do passado do artista emergiu na sua obra do recôndito da memória: signos da infância e tradições de um lugar (Japaratuba) que tem como centro a Igreja de Nossa Senhora da Saúde. Os bordados, as fantasias do Dia de Reis, a coroação do Rei e da Rainha em vestes cravejadas de bordados e franjas, ambos negros, nos Folguedos, bem como, a pressão cultural representada no nome que reúne dois termos imantados pela religiosidade católica (Bispo + Rosário). Em um dos bordados do artista aparece a inscrição “Missão Japaratuba”, fragmento que comprovam a riqueza cultural herdada, que foi poeticamente trabalhada em fardões tecidos, adornos, rebordos costurados. Variações estéticas também incorporaram temas marítimos; embarcações com mastros, bóias, botes salva-vidas, âncoras e bandeiras, reminiscências da época de marujo. Bispo se designava “Rei dos Reis” e, para si, teceu um manto avermelhado, salpicado de bordados com o qual seria coroado, o “Manto da Apresentação”, peça considerada a sua obra-prima.
XXXBispo esperava que os mesmos sete anjos que lhe transmitiram “o chamado” viessem buscá-lo “com poderes e glórias” para levá-lo “para cima”, e visando a salvação do mundo ele construiu uma obra intitulada “A arca de Noé”, um barco feito com papelão e pano. O sagrado e o profano perpassam toda a obra de Bispo: bandeirolas juninas, a bandeira do Brasil, signos religiosos como um coração de Cristo (entalhado na madeira), imagens de santos, medalhinhas da Virgem Maria, cruzes e crucifixos ilustraram a sua via-crucis estética.
XXXBispo realizava jejuns sazonais para ficar “todo brilhoso, dos pés a cabeça”, até tornar-se “transparente” e “subir aos céus na hora da passagem”. Entre delírios e momentos de lucidez, Bispo do Rosário construiu uma obra monumental, que “possui vocação para a vitória”, ao tecê-la, o artista elevou o seu eu para além da condição de “louco e asilado”.
XXXBispo, já idoso, passou atrair olhares forasteiros, especialmente dos jornalistas. Foi a partir de 1985 que a sua obra ganhou visibilidade e começou a se projetar nacionalmente. Ele posava altivo para as câmeras, vestindo o “Manto” e empunhando estandartes. Nuances da vida e da arte de Bispo do Rosário tem sido trabalhadas por artistas em filmes, teatros e livros. A Editora Rocco, após 15 anos, reedita obra Arthur Bispo do Rosário: o senhor do labirinto, escrita pela jornalista Luciana Hidalgo, vencedora do Prêmio Jabuti de 1997. Essa obra revela um estudo aprofundado que conta com pesquisas realizadas na Colônia Juliano Moreira e em Japaratuba, bem como, com entrevistas. Luciana Hidalgo afirmou que, após trilhar o “labirinto de palavras, histórias e bordados”, do universo de Bispo do Rosário, saiu “outra”.
XXXA morte de Bispo do Rosário em 1989 suscitou a preocupação com o destino e preservação de sua obra, então foi fundada a Associação de Amigos dos Artistas da Colônia Juliano Moreira. Atualmente, Arthur Bispo do Rosário dá nome ao único Museu de Arte Contemporânea, cujas exposições acontecem em galerias situadas nas dependências de uma instituição psiquiátrica. O acervo do Museu Bispo do Rosário foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio do Rio de janeiro (INEPAC), e as obras ficam expostas permanentemente. Municipalizado, o Hospício Juliano Moreira tornou-se Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira.

 

02/03/2012

El sol (O sol)

Foto tirada no lago Cocibolca/ Nicarágua- 2012

El sol, oro ancestral,
Incide sobre mi cara
En ese instante me olvido de todo
Del frío, de la soledad, de yo misma.
Siento el amparo de la vida que palpita
Despreocupada.
No interesa el día o tampoco las horas.
Interesa saber que los días y las horas
Viajan, cómo nosotros, en la inmensa nave azul.
La claridad se adentra en mi pecho
Derretiendo glaciares seculares.
Mis hijos y mis hijas vibran felices.
Por un momento dejo de ser la mujer que soy
Para me tornar otras mujeres,
Y también Hombres, niños, piedras,
Árboles y pájaros.
No quiero saber de la codicia
Tampoco de la muerte
(sombras que se arrastran detrás de mí)
Interesa sí, que por un instante, el sol y yo
Brillamos juntos.
(Tradução para o espanhol: Michelle Vasconcelos)


O sol
 
O Sol, ouro ancestral,
Incide sobre o meu rosto
Nesse instante me esqueço de tudo
Do frio, da solidão, de mim mesma.
Sinto o aconchego da vida que pulsa
Despreocupada.
Não importa que dia é e nem que horas são.
Importa saber que os dias e as horas
viajam, como todos nós, na imensa nave azul.
A luminosidade adentra o meu peito
derretendo geleiras seculares.
Os meus filhos e filhas vibram felizes.
Por um instante deixo de ser a mulher que sou
Para me tornar outras mulheres,
e também Homens, crianças, pedras,
árvores e pássaros.
Não quero saber da cobiça
Nem da morte
(sombras que se arrastam atrás de mim)
Importa sim, que num átimo, o Sol e eu
Brilhamos juntos.

renatabomfim

29/02/2012

Salutación del optimista, poema de Rubén Darío interpretado por Luis Iglesias

Olá Amigos, Luiz Iglesias é poeta, contista e dramaturgo nicarguense. Agradeço ao Luis ter atendido a um pedido meu e declamado este poema de Rubén Dario. Salutación del optimista é um poema dificil e denso. O vídeo foi gravado no Hotel Darío, em Granada, e teve como platéia, além de alguns hospedes e funcionários, o querido poeta Ernesto Cardenal, que tomava seu café. Obrigada Luis!

Militância poetica

Vou fazer a revolução
Com o peito cheio de amor e,
Nas mãos, um livro de poesia.
Recitarei em pontos estratégicos da cidade
Longe dos olhos dos cínicos,
Para desarticular os maliciosos.
Vou destruir barricadas
com o poder das palavras.
Vou derrubar o governo do medo
Acabar com a corrupção de um sistema
Desumano e cruél.
Vou fazer a revolução, sim,
 Com amor e poesia!

Brilho eterno

Está vendo aquela estrela, amor?
É a prova de que a luz brilha,
Intensamente,
Nos campos da ausência e da morte.

renatabomfim

28/02/2012

Estréia em Portugal o filme "Florbela"



Making of


FLORBELA (pré-estréia ) dia 06 março de 2012, às 21:30
Estréia: dia 08 de março de 2012

O novo filme do realizador Vicente Alves do Ó, "Florbela", sobre a poetisa calipolense está a gerar grande expetativa. Segundo o município local estão esgotadas as cinco sessões de antestreia, que vão rodar nos dias 2 (três sessões), 4 e 5 de fevereiro.


"Florbela" estreia a 08 de março, Dia Internacional da Mulher, e tem exibição garantida em pelo menos 54 cidades, até ao final de maio.Filme de Vicente Alves do Ó, com Dalila Carmo, Ivo Canelas e Albano Jerónimo

Num Portugal atordoado pelo fim da I República, Florbela (Dalila Carmo) separa-se de forma violenta de António (José Neves). Apaixonada por Mário Lage (Albano Jerónimo), refugia-se num novo casamento para encontrar estabilidade e escrever, mas a vida de esposa na província não é conciliável com sua alma inquieta. Não consegue escrever nem amar. Ao receber uma carta do irmão Apeles (Ivo Canelas), oficial da Aviação Naval e de licença em Lisboa, Florbela corre em busca de inspiração perto da elite literária que fervilha na capital. Na cumplicidade do irmão aviador, Florbela procura um sopro em cada esquina: amantes, revoltas populares, festas de foxtrot e o Tejo que em breve verá o irmão partir num hidroavião. O marido tenta resgatá-la para a normalidade, mas como dar norte a quem tem sede de infinito? Entre a realidade e o sonho, os poemas surgem quando o tempo pára. Nesse imaginário febril de Florbela, neva dentro de casa, esvoaçam folhas na sala, panteras ganham vida e apenas os seus poemas a mantém sã. Por isso, Florbela tem que escrever! Este filme é o retrato íntimo de Florbela Espanca: não de toda a sua vida cheia de sofrimento, mas de um momento no tempo, em busca de inspiração, uma mulher que viveu de forma intensa e não conseguiu amar docemente.

Cantares

XXXXXXXXXXXXXXXX   À Wanda Maria Alckmin
Bendita seja a Letra,
Glórias sejam dadas ao Alfabeto,
Cânticos exaltem o prodigioso poder dos acentos,
Louvemos as maravilhas da sintaxe.
Ave palavra!

Que o verbo torne-se carne,
Que cada dito ou escrito seja Poesia
Que cada boca seja um canteiro de rosas
Cada sexo, um cacho de amoras
Que as nossas mãos se encontrem e
Nossos pés caminhem juntos.

Oh! páginas em branco,
Insignes e puras como os lírios,
Que a pena fale em teu nome e
O bem-dizer impere sempre
No Mundo novo criado pelo poeta.

Que toda gramática seja aberta,
Que haja concordância entre as frases,
Línguas, proclamem
A iminência de um novo tempo.
Que ninguém mais sinta fome e
Nem sede de Amor.

Renata Bomfim

27/02/2012

Escucha (Poeta Ruiz/ Manágua)

Te amo, siempre te he amado
mujer perfecta llena de agua ardiente
de volcanes en tú vientre
enemiga de las guerras
amante de las buenas nuevas
amiga de la realidad, de tú piel desnuda
Sudando placer matutino en el preciso momento de mi final…!
Si..! Te amo mujer
¿y porque vos no me podes amar..?


poetaruiz/ Managua
2012

O Sol

Pôr do sol no lago Cocibolca/ Nicarágua (Fev 2012)
O Sol, ouro ancestral,
Incide sobre o meu rosto
Nesse instante me esqueço de tudo
Do frio, da solidão, de mim mesma.
Sinto o aconchego da vida que pulsa
Despreocupada.
Não importa que dia é e nem que horas são.
Importa saber que os dias e as horas
viajam, como todos nós, na imensa nave azul.
A luminosidade adentra o meu peito
derretendo geleiras seculares.
Os meus filhos e filhas vibram felizes.
Por um instante deixo de ser a mulher que sou
Para me tornar outras mulheres,
e também Homens, crianças, pedras,
árvores e pássaros.
Não quero saber da cobiça 
Nem da morte
(sombras que se arrastam atrás de mim)
Importa sim, que num átimo, o Sol e eu
Brilhamos juntos.

RenataBomfim

24/02/2012

Imagens do VIII Festival de Poesia de Granada/2012

Olá amigos, seguem algumas imagens do VIII Festival de Poesia de Granada/2012. Agradeço a organização do evento o carinho com que me recebeu e aos amigos poetas nicaraguenses pelo diálogo poético valioso.
abraços
Renata Bomfim

Visita a casa onde nasceu o poeta Rubén Dario, na cidade Darío, ao Museu-arquivo Rubén Darío e ao túmulo do poeta na Catedral de León (Nicarágua)

XXXXX Cantares

Si el Cantar de Los Cantares
nos da un mensaje profundo,
la inspiración me conceda
superar tal canto excelso,
poder heredar al mundo
una obra que supere todo
cuando ha conocido, escuchado,
disfrutado. Así, voluntad
divina que riges los Universos,
sean para ti esos versos,
todo un hermoso homenaje,
de lágrimas adornado,
y rubricado de Amor!

(Rubén Darío, Paris/ 1907)

* Rubén Darío: Nuevos Poemas inéditos. Museu- Arquivo Rubén Darío.

Olá amigos, estas são algumas imagens da minha viagem a Nicaragua para pesquisar sobre a vida e a obra do poeta Rubén Darío para minha tese de doutorado em letras na Universidade Federal do Espírito Santo. Agradeço, de forma especial, ao meu esposo, Luiz Alberto, pelo apoio precioso.

23/02/2012

Encontro poético no Centro Cultural Brasil-Nicarágua/ fev 2012


Olá amigos internautas, nicaraguenses, e da Embaixada do Brasil na Nicarágua, seguem algumas fotos do nosso encontro poético. Adorei conhecê-los e agradeço o carinho com que me receberam.
Abraços aquecidos pelo sol do Espirito Santo/Brasil
Renata Bomfim
Agradeço a Carlos Henrique Pissardo, Jefe de los Sectores Cultural y de Cooperación Embajada de Brasil en Managua, o apoio durante a minha estada em Granada.

Foto com professores e alunos do Centro Cultural Brasil-Nicarágua. Agradeço a presença do poeta e amigo nicaraguense Francisco Javier Bautista Lara.

Foi emocionante falar da obra de Florbela Espanca na casa do poeta Rubén Darío, visto que a menos de dois meses eu estava falando sobre Rubén Darío na casa de Florbela Espanca, Vila Viçosa-Portugal.
Tive a oportunidade de dialogar com os alunos e convidados acerca das minhas obras publicadas e do meu terceiro livro que se encontra no prelo, o Colóquio das árvores.

Pesquiso as poéticas de Rubén Darío e Florbela Espanca no doutorado de letras da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Nessa tese aprofundo a investigações de alguns aspectos da obra de Florbela, especialmente do diálogo com Darío.