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24/02/2023

Medusa´s Heart (Poems by Renata Bomfim Translated by Silvia Siller)

 

Renata Bomfim- Mata Atlântica no Espírito Santo/ Brasil.

Medusa´s Heart

 

Medusa's heart

(forged in lava, filled with fury)

loves who wants to decipher it 

 

The goddess, snakes mane, offers herself to the male who penetrates

on the wet and narrow path

(initiatory cave):

seduction, pleasure, and ecstasy 

 

So far fatal from the sweet and deep glance,

The time stops.

The virgin breaks the deathly silence

shakes the bell,

but, nobody certifies

the miracle of miracles:

The eternal voluptuousness

That lives in a statue that is sculpted

in Carrara marble.


 ***

Mary Wollstonecraft's granddaughter


From my grandmother, I inherited

the taste for unstable men and

the nerve of those who have nothing to lose

I still remember her deep eyes, suicidal;

Of how she liked to feel overwhelmed

because of work and painful endeavours ...

How much pleasure it gave her to dig her fingers in the inkwell abyss,

To then, stain the soft, blank sheets of paper ...

Aristocratic woman on the pier ...

Her grief charted my destiny.

Today, in every street corner,

they sell copies of her book of misery and loneliness

(at popular prices). Ah! If my grandmother saw me now,

How proud she would be of her lineage: 

Women more broken than embroidered

Condemned to be separated

Irretrivably divided and dry,

prideful, like beasts grazing

ln wastelands.

***


Nicanor Parra's fiancee      

                                      Dedicated to the great Chilean antipoet   

Look at me tenderly 

It's time to retreat of drought and suffering.

I can't dream anymore

I can't sing anymore

The stories lose their meaning

My heart is withered

Contemplate me with affection. 

My hands touched (in dreams) the mountain ranges,

as if the mountains were toys of gods, me, that girl with smiles and braids ...

-They will never be able to reproduce such remarkable beauty

 They will never understand the mysteries of minerals. 

Listen to the abandoned rocks, I know the genealogy of these ancient stones

I climbed the highest hands, searching for myself

The hands show that granite approximation 

 

Look at me sweetly.

Pay attention to the voice coming from the caves.

Echoes of our forgotten humanity. 

Lamentations for the fall of the gods,

Cry that shakes the earth.

Lovingly stimulate the forehead of the poem,

Recreate (against the mythology, the unreleased song,

Only you, poet, are capable of doing it.)

 

Treat me with tenderness

To me, the most infertile of females,

Pursuer of salvation, esteem, love,

Longing to be reborn

Marry this creature capable of conceiving

something more than sunrises and utopia

***


Medusa's eyes 

 

Medusa's eyes

beyond their admired and loved

object of desire

they are not guilty,

 

In a desperate attempt to interrupt

the corrosive action of time,

and perpetrate their beauty.

The serpents dance exalted

over the head.  They are like lira strings

of that Muse's out of tune

banished,

disowned and sad,

she only asks one thing from life:

To be loved.

***

The song of the Harpy

I got tired of being a mermaid. I cut my hair, my nails grew. Instead of the scales, indecent and strong feathers in shades of white and ash. At the head´s top, the eroticized crest bristles at the slightest noise. I spread huge wings, I exhale a scream. The eyes, suddenly, see beyond. I got tired of drowning sailors, of singing the death of cliffs and frozen rocks. Like a child, emerged from the womb, I glorify life! I immersed myself in the depths of the deep blue sprinkled with the last lilos of day and I am reborn by morn, intoxicated by the yellow gold of that universe wildly new.

 

(Poems by Renata Bomfim Translated by Silvia Siller)

Renata Bomfim

Born in Vitória, Espiritu Santo, Brazil. She has a PHD in Languages awarded by the Federal Univiersity of Espíritu Santo (UFES) and she is a University Professor. She is also a poet, enssayist, researcher and environmentalist. She is the creator and manager of the Reluz Nature Reserve, located in the Espíritu Santo's mountains, where she works to preserve a remaining area of the Brazilian Atlantic Forest, a biome that shelters a vast biodiversity, one of the greatest on the planet, and that is highly threatened. Lastly, she is the authore of the Literary Journal " Letra e Fel" (Letter and Gall).

Silvia Siller

Poet, polyglot and radio host. She teaches Spanish and has taught Latin-American poetry at the New York Public University (CUNY). She studied a Master’s in International Relations at Columbia University,  has a Master’s in French and has completed several Diplomas in Contemporary Literature. Finalist of the Entreversos contest (2017) of the Mar Azul Foundation in Venezuela, poems that have been published by New York Poetry Press. Her collections of poems have been recognized in the International Latino Book Award 2015 and 2016 with the translation of Walter Krochmal. Received the G. Mistral, J. Burgos and F. Kahlo award from the Galo Plaza Committee in New York for her contributions to Latin American culture (2015). She has multiple collections of poems. Voice of cultural radio program –Cultural Dialogues with Silvia Siller on CalleVieja Radio. She has also danced flamenco and has written flamenco theater plays with poetry.  Her poetry accompanied the exhibition Man(o)rar by Luciana Corres at the Franz Mayer Museum (2018) and at the Oaxaca Textile Museum (2017). Fully fluent in English, French, and Spanish. Professional knowdelge of Portuguese and Italian. Learning basic Náhuatl.

21/08/2019

LITERATURA PRODUZIDA POR MULHERES NO ESPÍRITO SANTO: JUDITH LEÃO CASTELLO RIBEIRO E A AFESL

www.afesl.com 
Durante muito tempo um silêncio ruidoso pairou sobre a produção intelectual das mulheres capixabas. Maria Stella de Novaes, na obra A mulher na História do Espírito Santo (História e folclore), escrita entre 1957 e 1959, denunciou que essa “omissão de referências às mulheres” remontava os registros históricos da comitiva de Vasco Fernandes Coutinho, donatário da Capitania. Dona Stelinha, como carinhosamente era chamada, é uma personalidade importantíssima da historiografia do ES, pois, contribuiu para manter viva a memória de muitas mulheres, como a esposa do índio Maracaiaguaçu, batizada como Branca Coutinho e a viúva de Guajaraba (Cabelo de Cão) que guiou o seu povo na descida do Sertão para a aldeia dos Reis Magos. Não ficou de fora de seu relato a importância histórica de Dona Luísa Grimaldi, que governou o Espírito Santo com êxito entre os anos de 1589 e 1593 e de Maria Ortiz, heroína capixaba, filha de espanhóis que defendeu a Capitania da invasão holandesa, em 1625. Os séculos passaram e “humildes e ignoradas, alheias, mesmo aos resultados sociais e econômicos dos seus esforços”, as mulheres capixabas chegaram ao século XVIII ainda condicionadas por conceitos patriarcais religiosos, sociais e legais que as caracterizavam como inferiores ao homem. Dona Stelinha registra: “fadas incógnitas que salvaguardavam as bases da sociedade”, as capixabas eram consideradas “máquinas de trabalho doméstico”, mesmo assim, as alunas da professora Maria Carolina Ibrense protagonizaram a primeira publicação pública feminina no ES, poemas no Correio de Vitória (29-12-1849).  No século XIX as mulheres começaram a conquistar novos espaços sociais e as senhoras do Espírito Santo se organizavam em torno de novos interesses, como o jornal de moda parisiense A Estação e surgem clubes literários como o de São José do Calçado, denominado “Amor às letras” e temos registros das primeiras escritoras capixabas: Orminda Escobar Gomes, Cecília Pitanga Pinto, Silvia Meireles da Silva Santos, minha patrona na AFESL,, e Maria Antonieta Tatagiba. Em Vitória e Vila Velha as rendas, parte do aprendizado de trabalhos manuais das moças, eram famosas. Porém, esses novos espaços conquistados se devem muito à escolarização das mulheres e à emergência de suas ações coletivas. Nesse sentido, no século XX, podemos perceber a relevância da vida e da obra da homenageada da 6ª Flic-ES, Judith Leão Castello Ribeiro. O Brasil viveu e vive um obscurantismo com relação às questões de gênero, exemplo disso é que o tema vem sendo subtraído das metas da educação nacional. Acreditamos que resgatar a história das resistências das mulheres como Judith Leão é essencial, pois nos inspira a continuar lutando pela educação e pelo direito à livre expressão. Judith Leão se insere nesse contexto de luta e resistência das primeiras sufragistas capixabas. Ela estudou, tornou-se professora e o seu interesse por política levou-a a se engajar no movimento de mulheres. Vale recordar que a exclusão das mulheres da categoria de cidadãs, na constituição inglesa de 1791, levou a escritora Mary Wollstonecraft a escrever Reivindicação dos direitos da mulher e essa obra, que denunciava a opressão no tempo do iluminismo, ecoou no Brasil e, insuflado por Nísia Floresta com o seu Direito das mulheres e injustiça dos homens, de 1832, floresceu o movimento feminista brasileiro. Berta Lutz, na década de 1920, liderou a criação da FEDERAÇÃO BRASILEIRA PELO PROGRESSO FEMININO e esse feminismo de primeira hora, que tinha como foto a melhoria das condições da mulher na sociedade e a conquista do direito ao voto feminino, só alcançou o pleito em 1932. Segundo Maria Stella de Novaes, o movimento feminista capixaba delineou-se, paralelamente ao movimento nacional, liderados por Silvia Meireles da Silva Santos, em Vitória. Nessa época, a organização das mulheres em entidades fomentou importantes debates políticos e, em vários estados da federação, o feminismo se fortaleceu. No Espírito Santo não foi diferente, as intelectuais capixabas já chamavam a atenção pela atuação destacada no cenário cultural local, mesmo assim, alguns espaços ainda lhes eram negados, e um desses espaços era o político. Judith foi uma defensora ardorosa dos direitos políticos das mulheres, mas, o ambiente conservador da época exigiu uma sensibilização das capixabas para a luta política. Maria Stella de Novaes expõe as dificuldades das mulheres que ousavam desafiar a ordem patriarcal adentrando espaços públicos, relata que ela mesma sofreu para ingressar como catedrática no corpo docente do Ginásio do Espírito Santo e na Escola Normal do Estado, e que “as escritoras e as poetisas margaram” da mesma forma, “bebendo o cálice da crítica ferina e da oposição implacável”. Em 1933 um grupo de senhoras vitorienses fundou a FEDERAÇÃO ESPÍRITO-SANTENSE PELO PROGRESSO FEMININO, buscando incentivar o alistamento de mulheres e, sem compromisso partidário, fundou-se também a CRUZADA CÍVICA DO ALISTAMENTO, cuja presidente foi Silvia Meireles da Silva Santos, vice-presidente, Judith Castello Leão Ribeiro, e tesoureira Maria Stella de Novaes. Judith já era professora, desde o ano anterior, quando tinha sido aprovada em concurso público e ingressada como professora no Grupo Escolar Gomes Cardim. Foi como mestre que, em 1934, pela primeira vez, ela se candidatou como deputada estadual não filiada a partido, mas não se elegeu.Em 1936, o direito ao voto das mulheres foi mantido sem restrições na Constituição Federal e a sessão capixaba da Federação, no Rio de Janeiro, então capital Federal, contribuiu com uma mobilidade para esse episódio. A movimentação feminista vitoriense repercutiu no interior do estado e uma delegação da UNIÃO CÍVICA FEMININA, de Cachoeiro de Itapemirim, em 1936, enviou uma delegada para participar do Congresso Nacional Feminino. O “esforço titânico” para o êxito do movimento feminista, ¾ como diria Maria Stella de Novaes ¾, de Judith Leão e de muitas outras mulheres capixabas, entre elas Guilly Furtado Bandeira, Ilza Etienne Dessaune, Maria Antonieta Tatagiba, Lidia Besouchet, Virgínia Tamanini, Yponéia de Oliveira, Zeni Santo e Haydée Nicolusse, precisa ser conhecido pelo público. A Flic-Es busca criar espaços para que os escritores do passado e do presente possam ter visibilidade. Em 18 de julho de 1949, um grupo de mulheres uniram forças com Judith Leão e fundaram a ACADEMIA FEMININA ESPÍRITO-SANTENSE DE LETRAS (AFESL). Francisco Aurélio Ribeiro, dedicado pesquisador da vida e da obra das escritoras capixabas, nos faz saber que apenas muito recentemente as mulheres foram aceitas nas academias de Letras, e destaca da extemporaneidade da capixaba Guilly Furtado Bandeira que, em 1913, ingressou como acadêmica na Academia de Letras do Pará. A escritora é, também, a primeira capixaba a publicar um livro, em 1913, Esmaltes e Camafeus. A acadêmica da AFESL Ailse Therezinha Cypreste Romanelli destacará que, no ES, era “um despautério”, na década de quarenta, uma mulher como Judith cumprir quatro legislaturas como deputada e, ainda, tentar entrar para a Academia Espírito-santense de Letras. Judith se candidatou para uma cadeira da AEL, mas, não foi aceita. Ailse Romanelli destaca, ainda, que “as academias eram exclusivamente masculinas”, então num movimento de afirmação feminina, Judith fundou a Academia Feminina Espírito-santense de letras (AFESL) e foi a sua primeira patrona. Participaram dessa primeira diretoria Arlette Cypreste de Cypreste, como vice-presidente, como secretárias Zeni Santos e Iamara Soneghetti e Virgínia Tamanini como bibliotecária, a elas se juntaram Ida Vervloet Finamore, Hilda Prado e outras escritoras e a instituição foi se firmando no cenário cultural capixaba. Temos o registro de que a querida escritora e acadêmica Maria Filina Salles de Sá declamou o poema “Mãe Negra”, de Colares Júnior, na reunião da AFESL do dia 11 de agosto de 1949 e que Beatriz Monjardim participou pela primeira vez de uma sessão no dia 25 de agosto de 1951. Maria Filina e Beatriz Monjardim continuam participando ativamente das atividades da AFESL, fica aqui registrado o meu carinho e o de todas as acadêmicas por ambas. Beatriz Monjardim lançará o seu mais recente livro, “Nas contas do meu terço”, na 6ª Flic-ES. Maria Stella de Novaes participou da comissão que escreveu o primeiro estatuto da AFESL, juntamente com Ida Vervloet Finamore e Hilda Pessoa Prado e muitas outras personalidades femininas do Estado passaram pela AFESL dignificando a instituição. No dia 16 de agosto de 1949, estiveram presentes no Salão de honra da Escola Normal Pedro II, onde aconteceu a Sessão solene de Instalação da AFESL e posse da primeira diretoria, o Governador Carlos Fernando Monteiro Lindenberg, que falou sobre a “feliz iniciativa” de criação da Academia, o representante da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, Dr. José Rodrigues Sette, e o Presidente da AEL, Dr. Eurípedes Queiroz do Vale, pessoa que muito incentivou e contribuiu para com a fundação da AFESL. Nos seus setenta anos de existência, a AFESL continua lutando para ser um espaço de criação de livre produção para as intelectuais capixabas, desde os seus primórdios quando Annette de Castro Mattos, em 1950, organizou a “Vitrine literária”, fazendo um importante registro das escritoras do Espírito Santo, passando pelo programa “Mulher e perfume”, dirigido por Arlete Cyprete de Cypreste na Rádio Capixaba e que deu voz a muitas escritoras e artistas, a escritora Zeny Santos, que fundou a “Casa do capixaba”, o apoio dado pela AFESL ao Instituto Braile na sua criação, a criação do “Lar da Menina”, por Beatriz Nobre de Almeida e tantas outras ações das nossas acadêmicas. O emblema da nossa academia é Ubi Plura Nitente, que significa “onde todas brilham”, ele ilustra o sentimento que nos norteia. Assumi a presidência da AFESL consciente da responsabilidade de dar prosseguimento a esse legado de luta feminina/feminista e sinto-me honrada em presidir a AFESL no ano do seu Jubileu. A trajetória dessas e de outras grandes mulheres, muitas delas ainda desconhecidas, mostra a importância de que tenhamos consciência do nosso papel no âmbito da cultura, assim como no da política, da pesquisa, etc. A realidade atual exige, de nós, posicionamento com ações concretas. Poucas instituições culturais completam setenta anos ativas e com um histórico de conquistas. Dedico essas linhas a Judith Leão Castello Ribeiro, a Ester Abreu Vieira de Oliveira, destacando duas em especial, Carmélia Maria de Sousa e Haydée Nicolussi, que nas suas épocas, não foram aceitas no quadro de acadêmicas da AFESL, mas que hoje nos honram sendo nossas patronas. Renata Bomfim - Presidente da Academia Feminina Espírito-santense de Letras e da 6ª Flic-ES

29/03/2019

A Academia Feminina Espírito-santense de Letras e a atividade das feministas da primeira hora no ES


Maria Stela de Novaes

A Academia Feminina Espírito-santense de Letras  completa setenta anos de existência e de resistência, e hoje, honramos a memória das mulheres que nos antecederam e o oito de março celebrando a luta das mulheres que nos antecederam e afirmamos o compromisso de trabalhar em prol da igualdade de gênero e por uma sociedade sustentável e justa.

Enquanto membros de uma instituição de mulheres, a nossa produção deve estar alinhada com os ideais de emancipação e com valores como a liberdade e a coragem.  Fazem parte da nossa Academia Feminina expoentes de uma geração de intelectuais capixabas que sentiram na pele o preconceito, mas que não se mantiveram alheias aos desafios do seu tempo.

Em 1934 a Carta Constitucional da República deu à mulher tanto o direito ao voto, quanto o direito à elegibilidade. A conquista do sufrágio feminino foi uma das reivindicações das feministas capixabas, que também exigiam para o sexo feminino o direito à educação e ao trabalho. Os registros mostram que em 1926, sob a organização de Silvia Meireles da Silva Santos (Patrona da cadeira nº 16), foi feito um banquete em Vitória para se celebrar a graduação da primeira mulher em medicina, a Dr.ª Adalgisa Fonseca. Esse encontro foi importante na articulação das mulheres.

Em 1928, Guilly Furtado Bandeira escreveu o artigo “A mulher o e voto”, que prontamente gerou estranheza e a resposta dos intelectuais capixabas, um deles escreveu: “Deus, certamente, em suas cogitações, nunca pensou em fazer da mulher eleitora”.

Passados três anos, em 1931, Judith Leão Castello Ribeiro escreveu um artigo com o mesmo título, levantando importantes questionamentos sobre os direitos civis e políticos das mulheres. Em março de 1932, Lídia Besouchet escreveu o artigo “feminismo”. No ano de 1933, as feministas capixabas fundaram a sua primeira organização, a FEDERAÇÃO ESPÍRITO-SASNTENSE PELO PROGRESSO FEMININO (FESPF). Vale destacar que, em 1922, Bertha Lutz e suas companheiras haviam criado a FEDERAÇÃO BRASILEIRA PELO PROGRESSO FEMININO (FBPF), reivindicando sociais e políticos, o que mostra que as capixabas estavam atentas ao fluxo do movimento feminista em outras federações. Ainda em 1933 foi criado no Espírito Santo, também, a CCA, CRUZADA CÍVICA DO ALISTAMENTO, da qual Silvia Meireles da Silva Santos (Patrona da cadeira nº 16) foi a presidente, Judith Castello Leão (Patrona da Cadeira 1) foi vice-presidente e Maria Stella de Novaes foi tesoureira.

Em 1937, o golpe do Estado Novo fez retroceder muitos dos direitos conquistados em 1934. Judith Leão Castello Ribeiro foi eleita deputada, a primeira mulher a ocupar esse cargo político no ES.

A trajetória dessas e de outras grandes mulheres, muitas delas ainda desconhecidas, nos mostra a importância de que tenhamos consciência do nosso papel no âmbito da cultura, assim como no da política, da pesquisa, etc. A realidade atual exige, de nós, posicionamento e ações concretas!

12/02/2021

Confira a programação do XVII Festival Internacional de Poesia de Granada, na Nicarágua (entre 14 e 21 de fevereiro de 2021).

 

14 de febrero/ February 14th 

Francisco de Asís Fernández (Nicaragua), RaúL Zurita (Chile), María Ángeles Pérez López (ESPAÑA), José Ángel Leyva (México), Víctor Rodríguez Núñez (Cuba), Marisa Daniela Russo (Argentina), Rafael Soler (España), Alfredo Fressia (Uruguay). 

 

15 de febrero/ February 15th


 Gioconda Belli (Nicaragua), Jotamario Arbeláez (Colombia), Alberto López Serrano (El Salvador), Krystyna Dabrowska (Polonia), Aleyda Quevedo (Ecuador), Maarten Inghels (Bélgica), Zingonia Zingone (Italia), Francisco Morales Santos (Guatemala). 

 

16 de febrero/ February 16th 


Gloria Gabuardi (Nicaragua), Renata Bomfim (Brasil), Luis Alvarenga (El Salvador), Kirsti Blom (Noruega), Álvaro Gutiérrez (Nicaragua), Husain Habash (Siria), Itsván Turczi (Hungría), Erick Blandón (Nicaragua).

 

17 de febrero/ February 17th 


Pedro Enríquez (España), Anastasio Lovo (Nicaragua), Lana Derkac (Croacia), Yolanda Castaño (España), Mateo Morrison (República Dominicana), Marta Leonor González (Nicaragua), Liliana Popescu (Rumania), Berman Bans (Nicaragua), Silvia Siller (México).

 

18 de febrero/ February 18th 


Timo Berger (Alemania), Sasha Pimentel (Filipinas), Francisco Larios (Nicaragua), Mario Noel Rodríguez (El Salvador), Sonja Manojlovic (Croacia), Juan Sobalvarro (Nicaragua), María Palitachi (República Dominicana), Silvia Elena Regalado (El Salvador).

 

19 de febrero/ February 19th 


Bei Ta (China), Daisy Zamora (Nicaragua), Rolando Kattán (Honduras), Miguel Ángel Zapata (Perú), Chary Gumeta (México), Aminur Rahman (Bangladesh), Madeline Mendieta (Nicaragua), Javier Alvarado (Panamá), Chantal Danjou (Francia), Daniel Araya (Costa Rica). 

 

20 de febrero/ February 20th 


Ana María Rodas (Guatemalani), Ario Salazar (El Salvador), Alejandro Bravo (Nicaragua), Andrea Cote (Colombia), Antonio Miranda (Brasil), Lorna Shaughnessy (Irlanda), Rei Berroa (República Dominicana), Ernesto Valle (Nicaragua), Lourdes Espínola (Paraguay), Silvio Ambrogi (Nicaragua), Lucía Alfaro (Costa Rica), Nicasio Urbina (Nicaragua), Renato Sandoval (Perú).

 

21 de febrero/ February 21th 


Rebecca Sharp (Escocia), Nelson Cárdenas, Carlos Fonseca Grigsby (Nicaragua), Vania Vargas (Guatemala), Christie Williamson (Escocia), Ela Urriola (Panamá), Julio Francisco Báez (Nicaragua), Miroslava Rosales (El Salvador), Carlos Alemán Rivas (Nicaragua).

12/04/2021

Mulheres e Política no Espírito Santo: o pioneirismo de Judith Leão Castello Ribeiro (Prof.ª Dr.ª Renata Bomfim)

 

Judith Leão Castello Ribeiro

Falar acerca da força e da coragem das mulheres espírito-santense é algo que nos comove, mas também nos desconforta, pois, infelizmente é uma história ainda pouco conhecida pela sociedade capixaba e marcada pelo silenciamento. A pesquisadora Maria Stella de Novaes, personalidade importantíssima da historiografia do Espírito Santo e autora da obra A mulher na História do Espírito Santo (História e folclore), escrita entre 1957 e 1959, chamou a atenção para essa “omissão de referências às mulheres”. Dona Stelinha, como carinhosamente era chamada, denunciou que esse silêncio sobre a produção intelectual feminina e suas ações de resistência remontam os registros da colonização. Segundo registros, o donatário Vasco Fernandes Coutinho, quando veio tomar posse da Capitania no dia 23 de maio de 1535, não trouxe mulheres na sua comitiva e a epistolografia dos padres Jesuítas atesta que os portugueses se casavam com as índias. 

As mulheres indígenas das tribos que habitavam o Espírito Santo na época da colonização exerciam autoridade na tribo, tanto que nos chegam relatos como o da esposa do índio Maracaiaguaçu (Gato grande), batizada como Branca Coutinho, em homenagem à mãe do donatário, e da viúva de Guajaraba (Cabelo de Cão), que guiou o seu povo na descida do Sertão para a aldeia dos Reis Magos. As índias foram as primeiras mães dos cidadãos nascidos na terra recém-batizada e o papel fundamental e marcante da mulher indígena na indústria caseira e na arte manual, deu forma a uma das tradições mais destacadas do ES, ¾ a tradição da panela e das paneleiras¾. Não ficou de fora do relato de Dona Stelinha a importância histórica de Luísa Grimaldi, que governou o Espírito Santo com êxito entre os anos de 1589 e 1593.

A literatura produzida por mulheres no Espírito Santo tem preenchido muitas lacunas deixadas pela história, exemplo disso é a obra A Capitoa, da escritora barrense Bernadette Lyra, que fala da coragem dessa mulher que foi uma das primeiras da comandar um estado brasileiro no século XVI. Outra personalidade feminina de grande relevo para o Brasil é Maria Ortiz, heroína capixaba filha de espanhóis que defendeu a Catania da invasão holandesa, em 1625. Em um artigo intitulado “Cadê a Maria Ortiz?”, Francisco Aurélio Ribeiro relata que visitou a exposição “Brasil feminino”, no Rio de Janeiro, e pode ver entre as personalidades cronologicamente destacadas, Dora Vivacqua, mais conhecida como Luz Del Fuego; a cantora Nara Leão e a escritora Marly de Oliveira, mas, aponta para a ausência de referência a Maria Ortiz que é, inclusive, alguns séculos anterior a revolucionária Maria Quitéria e a Ana Néri, pioneira da enfermagem no Brasil. Dona Stelinha destacou que os séculos passaram e “humildes e ignoradas, alheias, mesmo aos resultados sociais e econômicos dos seus esforços”, as mulheres capixabas chegaram ao século XVIII ainda condicionadas por conceitos patriarcais religiosos, sociais e legais que as caracterizavam como inferiores ao homem: “fadas incógnitas que salvaguardavam as bases da sociedade”, as capixabas eram consideradas “máquina de trabalho doméstico”.

A mulher oitocentista teve a sua liberdade fortemente cerceada e as jovens eram criadas e educadas para o casamento, mas, a escolarização foi essencial para que esse cenário começasse a mudar. Em 1827, Dom Pedro I outorgou a lei que criou escolas nas vilas e cidades mais populosas do império, entretanto, as escolas para meninas seriam permitidas apenas se aprovadas pelo conselho, e caso fossem aprovadas, a elas não se ensinaria aritmética e nem geometria, apenas as quatro operações básicas, ficando o programa restrito às prendas da economia doméstica. Essa realidade estendeu-se até meados do século XIX, quando as mulheres começaram a conquistar espaços sociais fora de casa e as senhoras do Espírito Santo se organizavam em torno de novos interesses, como o jornal de moda parisiense A Estação. Em Vitória e Vila Velha as rendas, parte do aprendizado de trabalhos manuais das moças, eram famosas.

No Espírito Santo, a primeira escola pública primária para meninas, foi fundada em Vitória, em 1835, mas ficou dez anos sem funcionar por falta de professora, até que em 1845 a primeira professora foi contratada, o seu nome é Maria Carolina Ibrense. A escolarização feminina associada à emergência de ações coletivas abriu horizontes para as mulheres no século XX. Maria Stela de Novaes afirmou que o século XIX poderia ser chamado de “O século das mulheres”. A partir de então as mulheres passaram a ser professoras e diretoras de escolas primárias e normais, bem como escritoras, mas, o direito ao voto e a elegibilidade ainda lhe eram negados. Nesse sentido, podemos perceber a relevância da vida e da obra de Judith Leão Castello Ribeiro, professora, escritora e primeira deputada estadual no Espírito Santo. Judith Leão Castello Ribeiro nasceu na Serra, no dia 31-08-1898, seu pai João Dalmácio Castello e sua mãe Maria Grata Leão Castello, primaram pela educação dos filhos e da fizeram questão que a filha também estudasse. Judith Leão se insere no contexto de luta e resistência das primeiras sufragistas capixabas. Vale recordar a importância do feminismo emergente na luta pelos direitos das mulheres e que a exclusão dessas da categoria de cidadãs, na constituição inglesa de 1791, levou a escritora Mary Wollstonecraft a escrever Reivindicação dos direitos da mulher e essa obra, que denunciava a opressão no tempo do iluminismo, ecoou no Brasil e, insuflado por Nísia Floresta com o seu Direito das mulheres e injustiça dos homens, de 1832, floresceu o movimento feminista brasileiro. Berta Lutz, na década de 1920, liderou a criação da FEDERAÇÃO BRASILEIRA PELO PROGRESSO FEMININO e esse feminismo de primeira hora, que tinha como foco a melhoria das condições da mulher na sociedade e a conquista do direito ao voto feminino, só alcançou o pleito em 1932. Segundo Maria Stella de Novaes, o movimento feminista capixaba delineou-se paralelamente ao movimento nacional, liderados pela Sra. Silvia Meireles da Silva Santos, em Vitória. Nessa época, a organização das mulheres em entidades organizadas fomentou importantes debates políticos e, em vários estados da federação, o feminismo se fortaleceu. No Espírito Santo não foi diferente, as intelectuais capixabas já chamavam a atenção pela atuação destacada no cenário cultural local, mesmo assim, alguns espaços ainda lhe eram negados, e um desses espaços era o político.

O interesse de Judith pela política possui raízes profundas, pois, nascida em uma família tradicional da Serra, o seu bisavô, Manoel Cardoso Castello, avô dos educadores Kosciuszko e Aristóbulo Barbosa Leão, foi vereador na época que a localidade era conhecida como freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Serra, antes de ser elevada à condição de Vila, em 1822. Ela foi, também, casada com Talma Rodrigues Ribeiro, que foi prefeito da Serra entre 1945 e 1946 e que a apoiava incondicionalmente.   

Judith foi uma defensora ardorosa dos direitos políticos das mulheres, mas, o ambiente conservador da época exigiu uma sensibilização das capixabas para a luta política. Maria Stella de Novaes expõe as dificuldades das mulheres que ousavam desafiar a ordem patriarcal adentrando espaços públicos, relata que ela mesma sofreu para ingressar como catedrática no corpo doente do Ginásio do Espírito Santo e na escola normal do Estado, e que “as escritoras e as poetisas amargaram” da mesma forma, “bebendo o cálice da crítica ferina e da oposição implacável”. Em 1933 um grupo de senhoras vitorienses fundou a FEDERAÇÃO ESPÍRITO-SANTENSE PELO PROGRESSO FEMININO, buscando incentivar o alistamento de mulheres e, sem compromisso partidário, a CRUZADA CÍVICA DO ALISTAMENTO, cuja presidente foi Silvia Meireles da Silva Santos, vice-presidente, Judith Castello Leão Ribeiro, e tesoureira Maria Stella de Novaes. Judith Leão já era professora desde o ano anterior, quando tinha sido aprovada, em concurso público, e ingressado como docente no Grupo Escolar Gomes Cardim. Segundo João Luiz Castello, sobrinho de Judith, são vários os exemplos de que Judith mostrava interesse em trabalhar em prol do coletivo, tanto que desejando estimular o aprimoramento cultural de seus alunos fundou o Museu Pedagógico (1930-1946), na Escola Normal Pedro II, e iniciou  o jornal “Folha escolar”, de circulação interna na mesma instituição. A arte e a cultura sempre foram considerados, por Judith Leão, um instrumento de transformação social, de forma que, enquanto professora, estabeleceu um tempo para os seus alunos terem iniciação literária e musical. Foi como professora que Judith, em 1934, candidatou-se a deputada estadual pela primeira vez, mas como não estava filiada a nenhum partido, acabou não se elegendo. Judith Leão optou por disputar sem legenda por apoiar o Movimento Revolucionário Constitucionalista de São Paulo, de 1932, e por discordar da política estadual em vigor na época. A sessão capixaba da Federação contribuiu para com o movimento no Rio de Janeiro, te esse esforço coletivo fez com que, em 1936, o direito ao voto fosse mantido sem restrições na Constituição Federal.

A movimentação feminista vitoriense repercutiu no interior do estado e uma delegação da UNIÃO CÍVICA FEMININA, de Cachoeiro de Itapemirim, em 1936, enviou uma delegada para participar do Congresso Nacional Feminino. O “esforço titânico”, ¾ como diria Maria Stella de Novaes ¾, de Judith Leão e de muitas outras mulheres capixabas, entre elas Guilly Furtado Bandeira, Ilza Etienne Dessaune, Maria Antonieta Tatagiba, Lidia Besouchet, Virgínia Tamanini, Yponéia de Oliveira, Zeni Santo e Haydée Nicolussi, precisa ser conhecido pela sociedade, precisa ganhar destaque na historiografia. Um grupo de mulheres uniu forças com Judith Leão para a fundação da ACADEMIA FEMININA ESPÍRITO-SANTENSE DE LETRAS (AFESL), no dia 18 de julho de 1949. Francisco Aurélio Riberio, dedicado pesquisador da vida e da obra das escritoras capixabas, nos faz saber que apenas muito recentemente as mulheres foram aceitas nas academias de Letras, e destaca a extemporaneidade e o pioneirismo da capixaba Guilly Furtado Bandeira que, em 1913, ingressou como acadêmica na Academia de Letras do Pará. A escritora é, também, a primeira capixaba a publicar um livro, em 1913, Esmaltes e Camafeus.

A acadêmica da AFESL Ailse Therezinha Cypreste Romanelli salienta que era “um despautério”, na década de quarenta, uma mulher como Judith cumprir quatro  legislaturas como deputada e, ainda, tentar entrar para a Academia Espírito-santense de letras e não ser aceita. Judith se candidatou para uma cadeira da Academia Espírito-santense de Letras (AEL), mas “as academias eram exclusivamente masculinas”, então num movimento de afirmação feminista, Judith, fundou a Academia Feminina Espírito-santense de Letras (AFESL) e foi a sua primeira patrona. Participaram dessa primeira diretoria Arlette Cypreste de Cypreste, como vice-presidente, Zeni Santos e Iamara Soneghetti como secretárias e Virgínia Tamanini como bibliotecária, a elas se juntaram Ida Vervloet Finamore, Hilda Prado e outras escritoras e musicistas, o que fez com que a instituição fosse se firmando no cenário cultural capixaba.

Nos seus setenta anos de existência, a AFESL vem lutando para ser um espaço de livre produção para as intelectuais no Espírito Santo, desde os seus primórdios quando Annette de Castro Mattos, em 1950, organizou a “Vitrine literária”, primeiro registro das escritoras espírito-santenses, passando pelo programa “Mulher e perfume”, dirigido por Arlete Cyprete de Cypreste, na Rádio Capixaba, e que deu voz a muitas escritoras e artistas; a escritora Zeny Santos, que fundou a “Casa do capixaba”, o apoio dado pela AFESL ao Instituto Braile na sua criação, a criação do “Lar da Menina”, por Beatriz Nobre de Almeida e tantas outras ações das intelectuais capixabas.

É preciso criar espaços para que as mulheres do passado e do presente possam ter visibilidade, é fato. Graças ao esforço e a luta dessas pioneiras, as mulheres capixabas brilham hoje nos mais variados âmbitos da sociedade, no parlamento, nas academias, mas, ainda há muito pelo que lutar contra o preconceito de gênero e a violência. A representatividade das mulheres no espaço político ainda é pequena e o debate sobre questões importantes como a (des)igualdade e a cidadania das mulheres, especialmente das mulheres negras, devem ganhar o cotidiano.

Abraçar o legado deixados por essas mulheres excepcionais é necessário, especialmente em um momento histórico como o atual, no qual o Brasil vive um obscurantismo com relação às questões de gênero, exemplo disso é que o tema vem sendo subtraído das metas da educação nacional, acreditamos que resgatar a história de luta e conquistas de mulheres como Judith Leão Castello Ribeiro inspira os cidadãos e as cidadãs a militarem em prol da educação e pelo direito à livre expressão.

 Minibiografia

Renata Bomfim é mestre e doutora em letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Professora, escritora e ativista ambiental é gestora e proprietária da Reserva Natural Reluz, RPPN localizada em Marechal Floriano. Presidente da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, ocupando a cadeira de nº 16; Membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do ES e Diretora técnica da Associação Capixaba do Patrimônio Natural (ACPN). Representou o Brasil em Festivais de poesia no exterior e presidiu a 6ª Feira Literária Capixaba, em maio de 2019. Possui artigos e ensaios publicados, é autora da Revista Literária Letra e fel (www.letraefel.com) e dos livros de poemas Mina (2010); Arcano dezenove (2012), Colóquio das árvores (2015) e O Coração da Medusa (no prelo). 

29/02/2020

A MILITÂNCIA FEMININA CAPIXABA E O PIONEIRISMO DE JUDITH LEÃO CASTELLO RIBEIRO NA POLÍTICA (Prof. Drª. Renata Bomfim)



RE - REVISTA ELETRÔNICA                                                              

                             DA ALES-ES Seção 01 artigos

Renata Bomfim é mestre e doutora em letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Professora, escritora e ativista ambiental é gestora e proprietária da Reserva Natural Reluz, RPPN localizada em Marechal Floriano. Presidente da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, ocupando a cadeira de nº 16; Membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do ES e Diretora técnica da Associação Capixaba do Patrimônio Natural (ACPN). Representou o Brasil em Festivais de poesia no exterior e presidiu a 6ª Feira Literária Capixaba, em maio de 2019. Possui artigos e ensaios publicados, é autora da Revista Literária Letra e fel (www.letraefel.com) e dos livros de poemas Mina (2010); Arcano dezenove (2012), Colóquio das árvores (2015) e O Coração da Medusa (no prelo). 


Falar acerca da força e da coragem das mulheres espírito-santense é algo que nos comove, mas também nos desconforta, pois, infelizmente é uma história ainda pouco conhecida pela sociedade capixaba e marcada pelo silenciamento. A pesquisadora Maria Stella de Novaes, personalidade importantíssima da historiografia do Espírito Santo e autora da obra A mulher na História do Espírito Santo (História e folclore), escrita entre 1957 e 1959, chamou a atenção para essa “omissão de referências às mulheres”. Dona Stelinha, como carinhosamente era chamada, denunciou que esse silêncio sobre a produção intelectual feminina e suas ações de resistência remontam os registros da colonização. Segundo registros, o donatário Vasco Fernandes Coutinho, quando veio tomar posse da Capitania no dia 23 de maio de 1535, não trouxe mulheres na sua comitiva e a epistolografia dos padres Jesuítas atesta que os portugueses se casavam com as índias. 

As mulheres indígenas das tribos que habitavam o Espírito Santo na época da colonização exerciam autoridade na tribo, tanto que nos chegam relatos como o da esposa do índio Maracaiaguaçu (Gato grande), batizada como Branca Coutinho, em homenagem à mãe do donatário, e da viúva de Guajaraba (Cabelo de Cão), que guiou o seu povo na descida do Sertão para a aldeia dos Reis Magos. As índias foram as primeiras mães dos cidadãos nascidos na terra recém-batizada e o papel fundamental e marcante da mulher indígena na indústria caseira e na arte manual, deu forma a uma das tradições mais destacadas do ES, ¾ a tradição da panela e das paneleiras¾. Não ficou de fora do relato de Dona Stelinha a importância histórica de Luísa Grimaldi, que governou o Espírito Santo com êxito entre os anos de 1589 e 1593.

A literatura produzida por mulheres no Espírito Santo tem preenchido muitas lacunas deixadas pela história, exemplo disso é a obra A Capitoa, da escritora barrense Bernadette Lyra, que fala da coragem dessa mulher que foi uma das primeiras da comandar um estado brasileiro no século XVI. Outra personalidade feminina de grande relevo para o Brasil é Maria Ortiz, heroína capixaba filha de espanhóis que defendeu a Catania da invasão holandesa, em 1625. Em um artigo intitulado “Cadê a Maria Ortiz?”, Francisco Aurélio Ribeiro relata que visitou a exposição “Brasil feminino”, no Rio de Janeiro, e pode ver entre as personalidades cronologicamente destacadas, Dora Vivacqua, mais conhecida como Luz Del Fuego; a cantora Nara Leão e a escritora Marly de Oliveira, mas, aponta para a ausência de referência a Maria Ortiz que é, inclusive, alguns séculos anterior a revolucionária Maria Quitéria e a Ana Néri, pioneira da enfermagem no Brasil. Dona Stelinha destacou que os séculos passaram e “humildes e ignoradas, alheias, mesmo aos resultados sociais e econômicos dos seus esforços”, as mulheres capixabas chegaram ao século XVIII ainda condicionadas por conceitos patriarcais religiosos, sociais e legais que as caracterizavam como inferiores ao homem: “fadas incógnitas que salvaguardavam as bases da sociedade”, as capixabas eram consideradas “máquina de trabalho doméstico”.

A mulher oitocentista teve a sua liberdade fortemente cerceada e as jovens eram criadas e educadas para o casamento, mas, a escolarização foi essencial para que esse cenário começasse a mudar. Em 1827, Dom Pedro I outorgou a lei que criou escolas nas vilas e cidades mais populosas do império, entretanto, as escolas para meninas seriam permitidas apenas se aprovadas pelo conselho, e caso fossem aprovadas, a elas não se ensinaria aritmética e nem geometria, apenas as quatro operações básicas, ficando o programa restrito às prendas da economia doméstica. Essa realidade estendeu-se até meados do século XIX, quando as mulheres começaram a conquistar espaços sociais fora de casa e as senhoras do Espírito Santo se organizavam em torno de novos interesses, como o jornal de moda parisiense A Estação. Em Vitória e Vila Velha as rendas, parte do aprendizado de trabalhos manuais das moças, eram famosas.

No Espírito Santo, a primeira escola pública primária para meninas, foi fundada em Vitória, em 1835, mas ficou dez anos sem funcionar por falta de professora, até que em 1845 a primeira professora foi contratada, o seu nome é Maria Carolina Ibrense. A escolarização feminina associada à emergência de ações coletivas abriu horizontes para as mulheres no século XX. Maria Stela de Novaes afirmou que o século XIX poderia ser chamado de “O século das mulheres”. A partir de então as mulheres passaram a ser professoras e diretoras de escolas primárias e normais, bem como escritoras, mas, o direito ao voto e a elegibilidade ainda lhe eram negados. Nesse sentido, podemos perceber a relevância da vida e da obra de Judith Leão Castello Ribeiro, professora, escritora e primeira deputada estadual no Espírito Santo. Judith Leão Castello Ribeiro nasceu na Serra, no dia 31-08-1898, seu pai João Dalmácio Castello e sua mãe Maria Grata Leão Castello, primaram pela educação dos filhos e da fizeram questão que a filha também estudasse. Judith Leão se insere no contexto de luta e resistência das primeiras sufragistas capixabas. Vale recordar a importância do feminismo emergente na luta pelos direitos das mulheres e que a exclusão dessas da categoria de cidadãs, na constituição inglesa de 1791, levou a escritora Mary Wollstonecraft a escrever Reivindicação dos direitos da mulher e essa obra, que denunciava a opressão no tempo do iluminismo, ecoou no Brasil e, insuflado por Nísia Floresta com o seu Direito das mulheres e injustiça dos homens, de 1832, floresceu o movimento feminista brasileiro. Berta Lutz, na década de 1920, liderou a criação da FEDERAÇÃO BRASILEIRA PELO PROGRESSO FEMININO e esse feminismo de primeira hora, que tinha como foco a melhoria das condições da mulher na sociedade e a conquista do direito ao voto feminino, só alcançou o pleito em 1932. Segundo Maria Stella de Novaes, o movimento feminista capixaba delineou-se paralelamente ao movimento nacional, liderados pela Sra. Silvia Meireles da Silva Santos, em Vitória. Nessa época, a organização das mulheres em entidades organizadas fomentou importantes debates políticos e, em vários estados da federação, o feminismo se fortaleceu. No Espírito Santo não foi diferente, as intelectuais capixabas já chamavam a atenção pela atuação destacada no cenário cultural local, mesmo assim, alguns espaços ainda lhe eram negados, e um desses espaços era o político.
O interesse de Judith pela política possui raízes profundas, pois, nascida em uma família tradicional da Serra, o seu bisavô, Manoel Cardoso Castello, avô dos educadores Kosciuszko e Aristóbulo Barbosa Leão, foi vereador na época que a localidade era conhecida como freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Serra, antes de ser elevada à condição de Vila, em 1822. Ela foi, também, casada com Talma Rodrigues Ribeiro, que foi prefeito da Serra entre 1945 e 1946 e que a apoiava incondicionalmente.  

Judith foi uma defensora ardorosa dos direitos políticos das mulheres, mas, o ambiente conservador da época exigiu uma sensibilização das capixabas para a luta política. Maria Stella de Novaes expõe as dificuldades das mulheres que ousavam desafiar a ordem patriarcal adentrando espaços públicos, relata que ela mesma sofreu para ingressar como catedrática no corpo doente do Ginásio do Espírito Santo e na escola normal do Estado, e que “as escritoras e as poetisas amargaram” da mesma forma, “bebendo o cálice da crítica ferina e da oposição implacável”. Em 1933 um grupo de senhoras vitorienses fundou a FEDERAÇÃO ESPÍRITO-SANTENSE PELO PROGRESSO FEMININO, buscando incentivar o alistamento de mulheres e, sem compromisso partidário, a CRUZADA CÍVICA DO ALISTAMENTO, cuja presidente foi Silvia Meireles da Silva Santos, vice-presidente, Judith Castello Leão Ribeiro, e tesoureira Maria Stella de Novaes. Judith Leão já era professora desde o ano anterior, quando tinha sido aprovada, em concurso público, e ingressado como docente no Grupo Escolar Gomes Cardim. Segundo João Luiz Castello, sobrinho de Judith, são vários os exemplos de que Judith mostrava interesse em trabalhar em prol do coletivo, tanto que desejando estimular o aprimoramento cultural de seus alunos fundou o Museu Pedagógico (1930-1946), na Escola Normal Pedro II, e iniciou  o jornal “Folha escolar”, de circulação interna na mesma instituição.
A arte e a cultura sempre foram considerados, por Judith Leão, um instrumento de transformação social, de forma que, enquanto professora, estabeleceu um tempo para os seus alunos terem iniciação literária e musical. Foi como professora que Judith, em 1934, candidatou-se a deputada estadual pela primeira vez, mas como não estava filiada a nenhum partido, acabou não se elegendo. Judith Leão optou por disputar sem legenda por apoiar o Movimento Revolucionário Constitucionalista de São Paulo, de 1932, e por discordar da política estadual em vigor na época. A sessão capixaba da Federação contribuiu para com o movimento no Rio de Janeiro, te esse esforço coletivo fez com que, em 1936, o direito ao voto fosse mantido sem restrições na Constituição Federal.


A movimentação feminista vitoriense repercutiu no interior do estado e uma delegação da UNIÃO CÍVICA FEMININA, de Cachoeiro de Itapemirim, em 1936, enviou uma delegada para participar do Congresso Nacional Feminino. O “esforço titânico”, ¾ como diria Maria Stella de Novaes ¾, de Judith Leão e de muitas outras mulheres capixabas, entre elas Guilly Furtado Bandeira, Ilza Etienne Dessaune, Maria Antonieta Tatagiba, Lidia Besouchet, Virgínia Tamanini, Yponéia de Oliveira, Zeni Santo e Haydée Nicolussi, precisa ser conhecido pela sociedade, precisa ganhar destaque na historiografia. Um grupo de mulheres uniu forças com Judith Leão para a fundação da ACADEMIA FEMININA ESPÍRITO-SANTENSE DE LETRAS (AFESL), no dia 18 de julho de 1949. Francisco Aurélio Riberio, dedicado pesquisador da vida e da obra das escritoras capixabas, nos faz saber que apenas muito recentemente as mulheres foram aceitas nas academias de Letras, e destaca a extemporaneidade e o pioneirismo da capixaba Guilly Furtado Bandeira que, em 1913, ingressou como acadêmica na Academia de Letras do Pará. A escritora é, também, a primeira capixaba a publicar um livro, em 1913, Esmaltes e Camafeus.

A acadêmica da AFESL Ailse Therezinha Cypreste Romanelli salienta que era “um despautério”, na década de quarenta, uma mulher como Judith cumprir quatro  legislaturas como deputada e, ainda, tentar entrar para a Academia Espírito-santense de letras e não ser aceita. Judith se candidatou para uma cadeira da Academia Espírito-santense de Letras (AEL), mas “as academias eram exclusivamente masculinas”, então num movimento de afirmação feminista, Judith, fundou a Academia Feminina Espírito-santense de Letras (AFESL) e foi a sua primeira patrona. Participaram dessa primeira diretoria Arlette Cypreste de Cypreste, como vice-presidente, Zeni Santos e Iamara Soneghetti como secretárias e Virgínia Tamanini como bibliotecária, a elas se juntaram Ida Vervloet Finamore, Hilda Prado e outras escritoras e musicistas, o que fez com que a instituição fosse se firmando no cenário cultural capixaba.
Nos seus setenta anos de existência, a AFESL vem lutando para ser um espaço de livre produção para as intelectuais no Espírito Santo, desde os seus primórdios quando Annette de Castro Mattos, em 1950, organizou a “Vitrine literária”, primeiro registro das escritoras espírito-santenses, passando pelo programa “Mulher e perfume”, dirigido por Arlete Cyprete de Cypreste, na Rádio Capixaba, e que deu voz a muitas escritoras e artistas; a escritora Zeny Santos, que fundou a “Casa do capixaba”, o apoio dado pela AFESL ao Instituto Braile na sua criação, a criação do “Lar da Menina”, por Beatriz Nobre de Almeida e tantas outras ações das intelectuais capixabas.

É preciso criar espaços para que as mulheres do passado e do presente possam ter visibilidade, é fato. O Centro de Memória e Bens Culturais da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, em maio de 2019, realizou uma exposição de fotos e telas sobre a vida de Judith Leão Castello Ribeiro em comemoração aos 120 anos do nascimento da escritora e ex-deputada. Judith Leão foi também, a homenageada da 6ª Feira Literária Capixaba, presidida pela Academia Feminina Espírito-santense de Letras, na UFES, ocasião na qual o seu sobrinho, João Luiz Castello, ofereceu como doação à AFESL e hoje em exposição na ALES, uma estátua em bronze da escritora realizada pelo artista plástico capixaba Hipólito Alves. João Luiz doou para o acervo permanente da ALES todas as fotografias da exposição. A mostra foi uma iniciativa das Deputadas Iriny Lopes (PT), Janete de Sá (PMN) e Raquel Lessa (Pros) e idealizada pelo fotógrafo da Casa Antônio Carlos Sessa, em parceria com a AFESL. Foi graças ao esforço e a luta dessas pioneiras que as mulheres capixabas brilham, hoje, nos mais variados âmbitos da sociedade, no parlamento, nas academias, mas, ainda há muito pelo que lutar contra o preconceito de gênero e a violência. A representatividade das mulheres no espaço político ainda é pequena e o debate sobre questões importantes como a (des)igualdade e a cidadania das mulheres, especialmente das mulheres negras, devem ganhar o cotidiano.


Abraçar o legado deixados por essas mulheres excepcionais é necessário, especialmente em um momento histórico como o atual, no qual o Brasil vive um obscurantismo com relação às questões de gênero, exemplo disso é que o tema vem sendo subtraído das metas da educação nacional, acreditamos que resgatar a história de luta e conquistas de mulheres como Judith Leão Castello Ribeiro inspira os cidadãos e as cidadãs a militarem em prol da educação e pelo direito à livre expressão.