05/04/2007

Salvem Chapeuzinho vermelho!!!


Sempre nutri certa simpatia pelo lobo mal. A chapeuzinho, sempre achei uma chata, e olha que eu já pensava assim antes dos 10 anos.
Hoje, algumas décadas depois, vou além, ao bloco da chatice ambulante incluo a vovozinha, a mamaezinha, o caçador, só vou poupar o coelhinho porque amanhã é páscoa.
Amigos, por favor, salvemos a chapeuzinho (essa inocente) da mesmice, da monotonia, do tédio, desse gorrinho idiota que impede que a chamem pelo nome! vamos lhe presentear com uma viagem, quem sabe para uma grande metrópole, bem poluida, acho que esses ares do campo não tem lhe feito muito bem... lhe ofereçamos um cigarro e uma bagaceira, estou certa que ela vai gostar...
O Lobo (afinal) não é mal, e nem é bom, o lobo simplesmente É. acho que lá no fundo a chacha queria virar comida... mas sempre tem um caçador pra atormentar, encher o saco, roubar a cena!
E o pobre lobo, lá na floresta, só queria paz....
é isso aí!
by Renata Bomfim

30/03/2007

Prato principal: eucalipto, sobremesa: cana de açúcar...

Viajando pela br 101 norte é de cortar o coração ver a infestação da monocultura...
De Vitória até Sergipe só se vê eucalipto, a perder de vista, e de Sergipe até Pernambuco a praga é a cana, pra lá depois eu não sei... fui só até aí.
O cenário parace daqueles do filmes Med Max, as usinas de cana soltando aquela fumaceira miserável e fedida, e o povo respirando toda àquela miséria e o pior que de barriga vazia... cadê riqueza que o presidente disse estar sendo distribuida? está sendo distribuida em outra freguesia....
Nunca vi tantas pessoas na senda da miséria, pedindo esmola na beira da rua... e eu que saí de férias pra não pensar!!!
Ah! anestésica ignorância, como eu te desejo...

não vi uma plantação de nada, ou melhor, nada que se coma, pra dizer que não estou mentindo vi uns pezinhos de café, mas esta monocultura impera mais forte ao Sul, e uns pezinhos de aimpim.
É isso...
É o preço do progresso, as nossas vidas...
Babau fauna e flora... Quando se incendeia o solo pra plantar essa merda, quantos animais não morrem?
leiam aí em baixo o pacto com capeta
que vai levar o restinho de mata atlântica que temos...
E por falar nisso, putz que calor... e eu nem to no climatério.

by Renata Bomfim




Reportagem do Terra:
Lula diz que ameaça ambiental de etanol é mito
Em artigo assinado nesta sexta-feira no diário Washington Post, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende a parceria Brasil-Estados Unidos para produção de etanol, e diz que o dilema entre biocombustíveis e preservação ambiental é um "mito".
» Fidel critica política de Bush do etanol
"É um primeiro passo importante no sentido de comprometer nossos países a desenvolver fontes de energia limpas e renováveis (garantindo) a proteção ambiental", afirma Lula.
O artigo é publicado um dia antes da visita que Lula fará ao seu colega americano, George W. Bush, em Camp David, e um dia depois de o líder cubano Fidel Castro ter criticado a iniciativa no jornal oficial do Partido Comunista cubano, Granma.
Lula disse que a parceria "é uma receita para aumentar a renda, criando empregos e reduzindo a pobreza entre os vários países em desenvolvimento onde colheitas de biomassa são abundantes". "Essas fontes alternativas (de energia) ajudam a reduzir a dependência global em relativamente poucos países fornecedores."
Aludindo à intenção dos dois presidentes de anunciar investimentos para produção de etanol no Haiti, Lula acrescentou que "o acordo entre o Brasil e os Estados Unidos permite a diversificação da produção de biocombustíveis através de alianças triangulares em países terceiros".
O presidente brasileiro aproveitou o espaço para criticar os subsídios agrícolas americanos: "o etanol, e depois, o biodiesel só se tornarão commodities globais se o comércio de biocombustíveis não for obstruído por políticas protecionistas", escreveu.'Mito'
Lula rejeitou a tese de que a produção de cana-de-açúcar para uso em biocombustíveis ameaça as florestas tropicais, afirmando que se trata de um "mito".
"O solo amazônico é altamente inapropriado para o plantio da cana-de-açúcar. Além do mais, no contexto do compromisso inabalável do Brasil com a proteção ambiental, o desflorestamento caiu 52% nos últimos anos", justificou.
No artigo, o presidente brasileiro rejeita ainda a acusação - feita por críticos como os presidentes venezuelano, Hugo Chávez, e cubano, Fidel Castro - de que as plantações de cana-de-açúcar para fabricação de etanol impedirão a criação de alimentos que poderiam ser utilizados no combate à fome.
"Menos de um quinto dos 340 milhões de terras aráveis do Brasil é utilizado para colheitas. Apenas 1%, ou 3 milhões de hectares, é usado para cana-de-açúcar para etanol", escreveu Lula.
"Em contraste, 200 milhões de hectares são pastagens, onde a produção de cana está começando a se expandir. O desafio real de prover segurança alimentar está em superar a pobreza dos que regularmente têm fome."
Mas o presidente brasileiro disse que as condições de trabalho dos plantadores de cana, normalmente bóias-frias, precisam ser melhoradas no Brasil. "A agricultura provê não apenas alimento, mas uma maneira de vida para milhões de pequenos produtores em todo o mundo."
"A disseminação da cana-de-açúcar, soja e outras colheitas de oleaginosas para uso em biocombustíveis vai assegurar que as famílias em necessidade tenha os meios financeiros para se sustentar."
Na quinta-feira, a produção de etanol foi criticada pelo presidente cubano, Fidel Castro, em artigo no jornal oficial cubano. Nele, Fidel afirma que 3 bilhões de pessoas serão "condenadas à morte prematura por fome e sede no mundo".
BBC Brasil
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Fonte: http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1517819-EI300,00.html


29/03/2007

Ode a Wilson


Ode a Wilson

Leve no jeito
Livre na essência
Wilson desliza
Nem sempre tranqüilo
Pelo Centro de Letras.
Wilson é a própria letra
Em forma de gato
Em forma de poesia
No antigo Egito foi
Conselheiro dos Faraós
Sua sabedoria felina
Dos gatos exilados de Capela.
Encarna contemporâneos branco e preto
Na alma traz as cores do arco-íris
Nem todos conhecem Wilson
A maioria nem o vê
É preciso sensibilidade
É preciso enxergar infravermelho
Para poder vê-lo em toda sua glória.
Ou uma lente mágica
Que apenas almas de artistas
e poetas trazem quando nascem
Com esta lente, além do Wilson,
Vêem-se os seres elementais.
Os elemetais do fogo, do ar e da água
São seus amigos
Juntos eles contam histórias
e relembram as canções
De um tempo quando
natureza e homem eram um só
E a força das substâncias era a matéria prima do espírito
Dinamizando o encontro e a vida.
Wilson também é contradição
é completude
é aquilo que o homem deseja, mas,
raramente pode ter
a liberdade em todos os idioma
inclusive o sânscrito.
É amor incondicional
É poesia sussurrada pelo vento
Pelos pássaros generosos
Que se oferecem em alimento.
Wilson é uma lição animal de humanidade
É o espaço e o tempo condensados
Num salto perfeito
Num romronar...
É a constatação de que a vida
simplesmente É!
Milagre e esperança.

by Renata Bomfim
Singela homenagem a Wilson, meu amigo felino do Centro de Letras da UFES.

24/03/2007

No reino sensivel das frutas

Eu quero Rebentar!
No reino plantae frutíferus
Quero voltar fruta- amaru

Eu quero amargar
Ter o caroço roxo
E por cima da casca fina
Uma penugem dourada.

Ser daquela que você quer
morder
chupar
e que só de imaginar sorver o líquido
carmim
começa a salivar

Na hora H
Vou te ferrar!
Meu pelo- espinho vai furar a palavra
Camuflada- entalada na sua garganta
E a tua inflorescência será revelada
Fantoche barato.

Vai ser engraçado
Vai ser cômico
Vai ser bizarro
Ver –te como és
Ver-te como ex
Ver-te quebrado
In vertebrado

Vingança, vingança de fruta-floral...
Ninguém te avisou do perigo?



By Renata Bomfim

23/03/2007

Desejo que consome!
A mulher
com a boca cheia
de mel.

Escorriam de sua boca, fluídicas,
Já alcançavam os seios
àquelas gotas douradas....
pareciam armadilhas
prontas para capiturar o Ávido

olhar
visgo
Uma doçura... melaço negro,
spectrum
Sabor de abismo
De morte

Ela estava predestinada.

Seu corpo exalava, agora
perfume de rosa
podre aroma de adeus
Belo e triste...


Ela, a noiva funesta,
fechara os olhos.

Seu amante estava lá.
Amou-a por toda vida,
A cada lágrima derramada
a lembrança
viagens gozozas e frustradas
Naquele corpo
Inerte e fúngico.

Desesperado
Lança-se sobre o corpus
Quer renovar seus votos

obsoletos
Do casamento inplicito

Noiva de Éter
Holometabólica
Bilateral
Quem sabe o seu destino?

Seu corpo
Doce...
Derrama-se,
Agora, Cada vez mais
Manacial.

E dizem que...
E choram e
HIPOCRISAM

Cheiro de crisântemos
A vida ex vai-se

O desejo não morre
Viaja com suas asas ferrugíneas
Mandaçaia
Para além de nossa compreensão.



Poesia funesta

Renata Bomfim







17/03/2007

Florbela "A Poeta"- Por Manuel Francisco Serrano


Florbela Espanca- "A Poeta"
Por Manuel Francisco Serrano

As vicissitudes do percurso biográfico de Florbela Espanca em muito têm contribuido para a lenda que se criou à sua volta, quase sempre, porém em deterimento de uma análise mais profunda do conteudo da sua obra o que é de lamentar. Convidamo-lo então a conhecer esta Poeta Calipolense que muito contribuiu para o enriquecimento do "Pensar/Sentir na Cultura portuguêsa.



A realização desta Webquest permite aprofundar o conhecimento sobre a obra e vida de Florbela Espanca, dando outros contornos à lenda e ao mito criado. Torna possivel o contacto com o espaço em que ela viveu e tambem com parte do seu espolio depositado à guarda do Grupo Amigos de Vila Viçosa.
Ao mesmo tempo esta webquest para a divulgação da obra de uma das grandes Poetas da Cultura portuguesa.


O Webbquest pode ser conhecido na íntegra no endereço:


O Sr. Manuel Francisco Serrano é Presidente da Associação de Amigos de Vila Viçosa, e presta um importante serviço junto a pesquisadores de todo mundo, recolhendo trabalhos sobre Florbela e divulgando sua obra. O Grúpo de Amigos de Vila Viçosa zela de parte do acervo de Florbela além de promover palestras, exposições, entre outras atividades que divulgem a obra da grande Poeta Calipolense.
Meu sincero agradecimento ao amigo Manuel pelo apoio que tem me dado referente à pesquisa sobre Florbela.
Abraço,
Renata

15/03/2007

Luz e Sombra: Maria Antonieta Tatagiba- por Karina Fleury



Amigos.
Hoje é o Dia Nacional da Poesia. Segue um texto que escrevi em homenagem a nossa primeira poeta a ter um livro editado: Maria Antonieta Tatagiba.
Tive a pretensão de vê-lo publicado em meio oficial, porém o mesmo foi descartado, antes mesmo de ser lido, sob as seguintes alegações: "data quebrada [79 anos de falecimento da poeta] não vende jornal" e "não tem nada de original falar de Antonieta". Entendi que é assim que o poder vai enterrando a memória do nosso povo. Não me dei por abatida e a prova disso é que insisto em aproveitar a ocasião para falar aos que a conhecem e aos que ainda não. Espero que colaborem comigo nesta minha/nossa (e falo pelos outros que já vêm fazendo isso) tarefa de dar voz à Antonieta.
Agradeço-lhes a atenção e abraço-lhes.


LUZ E SOMBRA

13 de março de 1928: morre, aos 32 anos, a primeira poeta capixaba editada: Maria Antonieta Tatagiba.
“Patrona Espiritual” da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, é também patrona da cadeira 32 da Academia Espírito-santense de Letras. Antonieta Tatagiba era o nome de uma rua, em Jucutuquara - Vitória. Do Clube de Leitura “Maria Antonieta Tatagiba”, que funcionava na Escola Municipal Padre Anchieta, também em Jucutuquara, já não há mais vestígios.
Em 08/03/1941, no Clube Vitória, José Vieira Tatagiba, viúvo de Antonieta, revela seu anseio de ver reeditado Frauta agreste (1927), “com poesias que dele não constam”. No dia em que a poeta completaria 62 anos, 17/09/1957, A Gazeta publica um artigo de Annete de Castro onde se lê: “A nossa Academia [Feminina] tem um desejo e um projeto – restaurar o seu [de Antonieta] túmulo”. Depois, é a vez de Mesquita Neto, em 14/03/1959 (Dia Nacional da Poesia), registrar seus sentimentos pelos 31 anos de falecimento da “maior poetisa capixaba”. Ao final, diz: “‘Frauta Agreste’ deveria ser reeditado para conhecimento das novas gerações de intelectuais e amantes da boa poesia. É possível que, um dia, quem sabe?”.
Ao longo desses 79 anos, a poeta tem sido lembrada por estudiosos da literatura capixaba, pois seu nome faz parte de algumas antologias como as escritas por José Vitorino, Mendes Fradique, Assis Brasil, Elmo Elton, Agostino Lazzaro, Francisco Aurélio Ribeiro. Em 2006, por ocasião do II Bravos companheiros e fantasmas, promovido pelo Programa de Pós-graduação em Letras/ Mestrado em Estudos Literários-UFES, Reinaldo Santos Neves, em entrevista ao jornal A Gazeta, destacou como “jóia rara” do evento a Mesa Especial: Maria Antonieta Tatagiba.
É uníssono o coro dos que reconheceram o valor literário da obra de Antonieta e sua importância como representante feminina da poesia capixaba do século passado. Mas, ainda assim, verificamos, estranhamente, um jogo de luz e sombra oscilando sobre seu vulto, sobre sua obra. A nosso ver não há uma outra saída senão nos tornarmos multiplicadores, divulgadores, leitores e amantes de sua poesia. “Acreditar nos capixabas, lê-los com prazer e gostar deles” apontou, certa vez, Francisco Aurélio. Para tanto, Frauta agreste precisa ser retirado de vez do ostracismo, precisa ser reeditado.
13 de março de 2007: renasce o “Sonho – eucharistia e vida dos poetas” e o desejo de ver brilhar, “altiva, ao vento, ao sol, á luz, / O teu manto florido de rainha...” (Frauta agreste).

Karina de Rezende Tavares Fleury
Mestranda em Estudos Literários (UFES)



Sugestão do Letra do e Fel:
http://www.poetas.capixabas.nom.br/Poetas/detail.asp?poeta=Maria%20Antonieta%20Tatagiba

10/03/2007

... uma tristeza que brota do fundo da Alma: Texto dirigido.

Queridas, neste 08 de março fui convidada para dar uma palestra na Associação de Aposentados da Vale do Rio Doce. Lá fui eu, escovada, maquiada, perfumada, vestida da persona "a palestrante"...
Levei um trabalho intitulado" Mulheres que Tecem seus destinos", brincando com a metafora da tessitura e fazendo alguns links entre o ato de "tecer a vida" a partir dos desejos e escolhas de cada um, entre as atividades que elas(as aposentadas) desenvolvem na instituição como bordados, tapeçaris, etc, e sem esquecer de co-relacionar o evento que deu origem a comemoração do dia internacional da mulher, quando um grupo de tecelãs foi queimado nos EUA por reinvindicar melhorias nas condições de trabalho.
A temática foi regada a contos de Marina Colassanti (que recito na íntegra e de cor) e de um conto Sufi, da tradição árabe.
Nesta palestra deixei em suspenso para a platéia (+ ou -150 mulheres) algumas perguntas, entre elas quantas mulheres ainda morrerão queimadas? queimadas em todos os sentidos, inclusive o literal. Como melheres contemporâneas, qual a nossa responsabilidade para com as mulheres que virão? entre outras questões...
A noite, em casa,assisti no noticiário, vários casos de violencia contra a mulher, entre eles uma moça , mãe de três filhos, assassinada pelo namorado a sangue frio na porta do trabalho, a cena foi exibida umas três vezes, o assassino depois de ter disparado quatro tiros à queima- roupa contra a moça, de apenas 23 anos, saiu andando como se nada tivesse acontecido. Outro caso onde a mulher havia sido queimada pelo marido,naquele mesmo dia 08/03, possivelmente na hora em que eu palestrava, uma senhora linda, cheia de vida, a TV depois mostrou o depoimento do filho dela aconselhando às mulheres não se calarem frente a agreções e ameaças de qualquer natureza...
Olha gente, foi dificil dormir... um sentimento de revolta, de impotência... que me suscitaram outras perguntas... até quando, nós mulher ocuparemos este famigerado lugar de "vitimas"? que ganhos primários ou secundários estamos tendo, que não nos deixa sair deste lugar? será que o "tear" está realmente na nossa mão?
__Cacete!... ou melhor, buceta,fico indignada... o que eu posso fazer para não continuar sendo queimada e me queimando por dentro, queimação que consome, e me leva a refletir minha prática como terapeuta,minha existência como mulher,e minha postura frente a muitas outras questões... qual o unguento para essa ferida podre e mal cheirosa?
Renata Bomfim
Seguem poemas da amada Florbela Espanca:
(Trocando Olhares/ 1915- 1917)
A MULHER I
Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimentos cheios, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!
Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta; sê em Vênus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão de pisar-te!
Se as vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arninho
Eles deixam pra sempre maculada;
E gritam então os vís: "Olhem, vejam
É aquela a infame!" e apedrejam
A probrezita, a triste, a desgraçada!
A MULHER II
Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

25/02/2007

RABISCO



Rabisco

amor é algo em que se é indistinto e distingo os traços aços do seu rabisco e você me apresenta sem se apresentar sua poesia, seu eros da distância, seu eros da proximidade, e vejo borboletas entrelaçadas no ar, saltando, e são pássaros, e são insetos, e são folhas, e são gentes, e são seu tesão em vinho transfigurado nos sonhos que vejo, que desejo, que toco, que retoco, que ouço, que remoço, que degusto, que te gusto, que cheiro, que recheio, e você é minha extensão, os tatos atos de meus sentidos, e a saudade não tem idade, parece muito antes de mim, como se antes do ovo, antes do óvulo, do esperma, do gozo, algo-ouro-diamante-música-alegria-utopia-ressurreição-feto-paraíso-já e, antes de nascer, de escrever, de ser texto, de existir o mundo, antes/depois de Deus, no remotíssimo agora de não tê-la tendo, na tela-pintura de pintar-nos, a dois, a um, a mil, imagens em estrelas de nos darmos, de sermos dados, acaso do caso de um lance de dados e você não abolirá o acaso absoluto de fingir-se e fugir-se para as íris dos olhos da lua de seu estado de loba, e só quero ficar perto, e a distância não tem longe e a trago, porque no antes não tem depois, não tem tempo, não existem lugares, não tem o haver algo que haja, só o emaranhado de te ver com o sexo, te gozar com o olhos, te abraçar com a língua, te escutar com seu odor, te desejar com a saliva de seus poros, e seu cérebro é meu coração, e estou encouraçado, e quero, quero, quero, do jeito-livre, panteros, sua mordida, loba faminta, no clitóris do meu nome no seu nome: lume, lama, alma, no círculo de nosso circo, o curto-circuito, no cisco do risco, seu abdômen : é o rastilho da pólvora no barbante e, ante o volume deste instante, explodimos, diante da fúria dessa eternidade inconstante: .

Luís Eustáquio Soares
Nasci em Rio Pomba, Minas Gerais, onde passei minha infância. Nesse perturbado meio tempo entre a infância e a adolescência, mudei para Belo Horizonte, onde fiquei até maio de 2004. Atualmente moro em Vitória, Espírito Santo, onde sou professor adjunto de Teoria da Literatura, na Universidade Federal do Espírito Santo. Não tenho prêmio algum, literário, em meu currículo, nada de epopéias líricas de fotos e resenhas em jornais de circulação nacional, embora, publicados, tenha os seguintes livros: Paradoxias, romance, 1999, Cor vadia, poesia, 2002, Silvo de Luis Caixeiro, biografema, 2003, co-autoria com o poeta mineiro Wilmar Silva.

Caro amigo poeta, seu livro Cor Vadia passou a fazer parte dos meus livros de cabeceira. Obrigada por ter enviado mais este poema para o nosso blog.
Abraços
Renata

03/02/2007

Thálassa Thálassa (Haroldo de Campos)


O poema Thálassa Thálassa, foi escrito por Haroldo de Campos em 1952, no volume 1 da revista Noigandres, fase anterior ao lançamento da poesia concreta que ocorreu em 1956. Thálassa Thálassa, segundo as palavras do próprio Haroldo:

Significa “O mar ! O mar”. Provém de Anábasis, de Xenofonte (430 c.a – 355 a.C.), da cena em que descreve a retirada de dez mil gregos, sob seu comando, e registra a exclamação de suas tropas quando, após árduas peripécias, os soldados defrontam-se finalmente com o Mar negro ( Ponto Euxino). (1992, p. 147):

Thálassa Thálassa

1
Não sabemos do Mar.
O Mar varonil com seus testículos de ouro
O Mar com seu coração cardial de folhas verdes
E suas imensas brânquias de peixe aprisionado
O Mar, não esse que dá as nossas costas
Pantera de espuma que as mulheres domesticam
Em suas redes de látex
Rei de Bizâncio e ungüento movendo entre as esposas
As mãos manicuradas.

Não sabemos do Mar
O dia nos confina entre a pobre matéria da madeira calada
Entre os pássaros ocos, os cavalos de força e a mucosa eletrônica
E à noite adoramos ao Sol de Galatite e o Poderoso Às de Espadas
Enquanto os cinocéfalos correm sobre os nossos telhados
Aguardando a mulher- Nua que há de aparecer com seus pequenos seios
Bela como o almíscar, que rói as pituitárias
E as zibelinas que mortas em torno de suas nádegas de prata.

2
Não sabemos do Mar.
Ó trombeta de osso!
Pífaros surdos emboscados na areia!
_ Um pássaro que se perdeu no céu de celofane
Esquece o seu grito de gaivota marinha.

É aqui a morte de sete- palmos- de- terra
E tríplice coroa de chumbo sobre a fronte
A morte, o grande cão montando um asno negro
E tangendo à sua frente os zabumbas do luto.

É aqui a terra- Firme e os navios- ancorados
A Madeira-de lei e as Construções- de pedra
_ O homem que lê a sorte nas vísceras sagradas
Suspende à sua porta o bucrânio dos loucos.

... E falam de uma Cidade antiga
Como essa moeda de argila
E viva como o odor dessa rosa.
Dos seus mercados onde se bebia o vinho de lótus
Dos seus destinos confinados a Anciãos de barbas de papirus

De suas leis, de seus Deuses, e de suas Virgens, seus Reis:
E o imenso dique de pedra erguido por seu povo
Para deter o Mar
_ São essas torres de prata que vemos à vasa da maré-
E Ele agora a recobre como um verde morcego
Recolhendo a membrana das asas e às avessas
Suspenso
Como um verde morcego em sua sesta lunar.

3
Eu também praticando os Ritos Fúnebres da Rosa
Quando os amigos – Os templários de um mistério sem templo-
Cruzam as lanças e se afastam num adeus melancólico
Eu nada sei do Mar, mas o poema o supre,
E um escaravelho de esmeralda pousado em minha fronte
Fala-me em sua rude algaravia marítima:

_ O Mar, Galo Sultão com seu clarim de Espanha
Seu triunfo de trezentos potros de ametista
Quando belo e animal rói as próprias entranhas
E um punho de sal se abate no horizonte.

_ O Mar em seu decúbito dorsal de folhas verdes
Sargão de uma longínqua dinastia de púrpura
Dom Diniz lavrador de suas lavras de espuma
Falconeiro, e no ombro o seu falcão – a lua.

_ O Mar,
Não esse leão de pedraria que dá as nossas praias
Sol hidrópico, tigre
De tornassol que as mulheres amansam com o triângulo
Núbil em seu ventre de benjoin e eletro- imã.

_ O Mar, mancebo hirsuto
Com peixe nas virilhas
_ O Mar, coração cardial
Crivado de espadartes
E no peito de dura substância marinha
Como imensa tatuagem a fósforo e santelmo
O esqueleto de coral de todos os seus mortos.

4
E um menino ergue-se entre os homens e senta-se entre os sábios
(Teu signo, ó mistério, o carbúnculo sobre a testa dos linces!)
Um menino de orfandade magnífica, como o ultimo de uma raça.
Entre o povo das cavernas, o povo da terra firme
Os Comedores- de- terra
Cujos primogênitos apodrecem em cântaros de barro
E são os deuses- do- alicerce, os padroeiros, os lares
Das Construções- de- pedra e dos Bens- de raiz.

Um menino sentado entre os sábios e erguido entre os homens!

O Bastardo, o Herdeiro
Presuntivo de uma Linguagem a extinguir-se
(como os híbridos nas espécies carregando a semente infecunda)
E fala do Mar e de ancestrais de límpida
Geração marinha
Aos doutores que escrevem sobre placas de adobe
As mulheres que tingem as unhas dos pés com um esmalte de múrex
E a um homem que enterra os seus mortos nas manhãs de domingo
Colocando-lhes sob a língua uma pequena moeda
E recheando-lhes o ventre de natrão e especiarias..

5
Um menino e sua fronte
Como a asa de um pássaro de marfim
Um menino, e sua voz como a têmpera de uma espada
E uma isolação de vogais restaurando a língua- de- d’oc dos vaticínios!

6
_Tu, Deusa- Leoa
Ó morte de esporões de bronze
- Morte marítima, não essa de sete- palmos- de- palmos... _
Ergue o tridente de ouro, favorece
Também os alísios do Poema
- Virgem barroca, figura
Na proa dos navios
Sacode a cabeleira abissal profunda de pólipos
Quando o Mar almirante Te empolga e o tatuas no peito
Com o esqueleto de coral de todos os seus mortos

Sustém a andança do Poema, ó Favorita,
De fúnebre nudez sitiada por eunucos
Enquanto sobre Ti os dátilos claros como digitális
Se abrem
E nada á Tua ilharga ou cardume aguerrido dos delfins.

_ E TU, Árvore da Linguagem,
Mão do Verbo
Cujas raízes se prendem no umbigo do Mar
Ergue Tua copa incendiada de dialetos
Onde a Ave- do- Paraíso é um Íris de Aliança
E a Fênix devora os rubis de si mesma
Recebe este idioma castico como um ouro votivo
E as primícias do Poema, novilhas não juguladas
Te sejam agradáveis!
Tu, Mãe do verbo cercada de hespérides desnudas,
Cuja fala é sinistra qual a voz dos Oráculos,
E bífida como a língua dos dragões...

7
Um menino e seu canto
Como um pouco de sal nos ritos de amizade...
... Mas um dia o Povo se cansará de ouvi-lo,
O Povo se cansará de chamá-lo “O Justo”!
(Nesse dia os telefones serão pássaros de gargantas ocas
repetindo para sempre os nomes pérfidos do Exílio
E escorpiões domesticados devorarão a língua dos rouxinóis
Para que todos possam ouvir a irretrucável
Dialética do Encéfalo Eletrônico).
_ E como os Dez Mil que viram o Mar e disseram “O Mar”
_ E como o Doge de Arnês de prata no Bucentauro de núpcias
_ Ou essa criatura _ a medusa _ de pura substância marinha
Tão límpida que a retina não filtra – azul sem tara,

Um homem desce das Terras- Firmes e procura
O Mar
_ O Mar varonil com seus testículos de ouro
_ O Mar paternal de tórax iracundo
E sonoros pulmões de búfalo encerrado,
E àquele imenso coração filial rodeado de ametistas.

_ É esse elmo de púrpura que vemos na vasante das águas.