31/10/2007

Cá entre nós...

Cá entre nós
homens, mulheres, crianças,
bichos, plantas e mudas de caqui.
A vida e suas contradições
nos unindo
nos mantendo ligados na
sua gosma...
e nós, amamos essa agonia
de respirar um o ar do outro
E a liberdade não nos interessa
nos faz sentir
claustrofobia
Somos dois loucos
dois tresloucados
poeirinhas cósmicas
se achando gente grande
se achando importante
e não somos NADA!
mas somos tudo um para o outro
O que fazer?
nem quero pensar no amanhã
quero viver o agora
e gozar com toda essa tirania
com que o perverso amor nos
açoita...
que delícia!!!

28/10/2007

felinamente

Mulher pega no ar,
pressente,
e aproveita vezes sete
a vida que tem.
Presente.
Dádiva.
Mulher peca nua
santamente
seu gozo tira do purgatória
sete almas, sua energia
gera bom karma
acalma
acalenta
Atalanta
Lanha o peito do amado
até o coração que
encarnado
sangra
Lá ela descansa
felinamente.

bairenatabomfim

20/10/2007

ser

Ser este ser que é nada e é tudo
contradição, karma
assediada e
incendiada
pelo fogo da inquietude,
desejante e desejosa
hora pedante
hora Cleópatra em sua glória
buscando uma morte cinematográfica
Por hora este ser é
ou talves apenas esteja
em busca de si
e mais Nada.

06/10/2007

Mito e História em Os Lusíadas de Luis de Camões

Renata Bomfim - UFES

Os Lusíadas de Luis de Camões foi publicado em 1572, no auge do renascimento literário português quando houve um despertar dos valores clássicos, e a visão teocêntrica da idade medieval dá lugar ao antropocentrismo, há também o despertar do gosto pela literatura pagã.
O texto camoniano está intimamente ligado ao ímpeto inaugural da expansão marítima e dos avanços científicos. Nos Lusíadas se sobrepõe mito e realidade, Camões canta “o peito ilustre lusitano”, ou seja, o português renascentista e desbravador, que assim como os Argonautas do mito grego desbravam corajosamente o oceano enfrentando vários obstáculos para conquistar seu objetivo. O escritor utiliza, para a construção de sua narrativa, a rota perseguida por Vasco da Gama, seu principal herói, no plano histórico. Para Massaud Moisés:
O fundamento ideológico da visão camoniana não depende da exatidão científica dos acontecimentos descritos no poema, mas numa crença inabalável na razão que eleva o homem acima da natureza bruta, aproximando-o de Deus ou dos deuses. (2006, p. 40):
Moisés em Epopeia do homem moderno destaca que, como bom renascentista “Camões acredita que o homem se tornará senhor absoluto do universo, exercendo domínios que, na antiguidade, eram atribuídos aos deuses”.
Nos Lusíadas o plano real e mítico se sobrepõe. Por ser uma obra essencialmente cristã, foi submetido à apreciação do “santo ofício” que embora abarque uma constelação de deuses pagãos, afirmou não ter encontrado nela, “coisa alguma de escandalosa, nem contrária à fé e aos bons costumes”. (2006, p.40).
Católico, mas também um humanista, para Hernani Cidade “Camões era um cristão enamorado do paganismo”. Este mesmo autor em Luís de Camões: O Épico escreve que Camões canta “outro valor mais alto que se levanta”, que é o cristianismo. Assim, o plano mitológico na narrativa camoniana é descrito por Cidade como “um artifício lúdico criado por suas tendências de artista” (1968, p.134).
Este recurso era também uma possibilidade de tratar de temas e criar ficções que a doutrina cristã não aceitava como, por exemplo, o episódio da ilha dos amores. Tal recurso, também designado “estilo maravilhoso”, permitiu que Camões exprimisse simbolicamente sua visão de mundo, sem que o caráter realista do poema ficasse prejudicado.
Carl Gustav Jung em O homem e seus Símbolos, nos diz que “uma palavra ou imagem simbólica implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato” (1996, p. 20). Dessa forma, os Lusíadas desafia o leitor com uma constelação de símbolos que são representados por variados personagens. Camões já anuncia seu artifício apresentando as façanhas míticas como “façanhas fantásticas, fingidas e mentirosas” e as portuguesas como “as verdadeiras”, que “excedem as sonhadas, fabulosas”:
Ouvi: que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas
Que excedem as sonhadas, fabulosas,
Que excedem Rodamente e o vão Rugeiro
E orlando, inda que fora verdadeiro.
[...]
Dou-vos também aquele ilustre gama.
Que para si, de Enéias toma a fama.
(Canto I, p. 11- 12)
Para Hernani Cidades, o poeta lusitano valoriza como objeto de contemplação estética e fonte de emoção épica e trágica, a própria realidade, se apropria da ficção mitológica para superar, pelo vôo imaginoso, os limites da realidade (1968, p.135). Camões evoca Vênus, “afeiçoada à gente Lusitânia”, por ter as qualidades dos romanos, como àquela que intercederá junto a Júpiter pelos navegadores. E Baco, na trama, será o grande opositor dos portugueses.
Baco é descrito como teimoso e astuto e sua oposição aos portugueses será porque “altamente lhe dói perder a fama”, pois, “esquecerão seus feitos no oriente”, “se lá passar a lusitânea gente”. Baco representa os adversários, as forças opositoras, ou seja, “a ímpia gente”, os não cristãos.
Os Lusíadas ilustra um momento em que Portugal luta para se formar como nação, luta contra o castelhano que lhe nega autonomia e contra o mouro que lhe ocupa o território (CIDADES, 1968, p. 156). O intuito colonialista português que busca conquistar terras e impor sua religião e língua pode ser vista na passagem:
Goa [cidade da Índia] vereis aos mouros ser tomada,
A qual virá depois a ser senhora
De todo Oriente, e sublimada
Co’os triunfos da gente vencedora.
Ali, soberba, altiva e exalçada,
Ao gentio que os ídolos adora
Duro freio porá, e a toda terra
Que cuidar de fazer os vossos guerra.
(CAMÕES, C. II, 51).
Vês Europa cristã, mais alta e clara,
Que as outras em polícia e fortaleza.
Vês África, dos bens do mundo avara,
Inculta e toda cheia de bruteza.
[...]
(Canto. X, p. 92)
Vênus representa para os portugueses o amor pela pátria, o amor é tema muito valorizado por Camões.A viagem do gama, no plano estético é apresentada como uma cruzada de amor, que terá seu ápice no episódio da Ilha dos amores. Até a Ilha dos amores, os deuses pagãos desempenham as ações na trama do texto, mas são invisíveis para os nautas, sendo sempre associados com as forças naturais, assim, estrategicamente, quanto mais discreto o auxílio do divino, mais fica evidente a eficiência do esforço humano.
Moisés em Epopeia do Homem moderno (2006, p. 39), comunica que “os deuses” é que dão sustentação à ação central do poema. Salvo os “infiéis”, ou seja, os africanos, os indianos, que sempre são apresentados pelo poeta em plano inferior, os obstáculos da viagem se resumem a fenômenos naturais como, por exemplo, o mito do Adamastor, é sabido que lendas aterradoras povoavam o imaginário popular antes das grandes navegações.
Adamastor é um titã mitológico, um rochedo, “o segundo do Rodes estranhíssimo colosso”, uma referência do poeta a estátua de Apolo que ficava na cidade de Rodes, uma das sete maravilhas do mundo. Adamastor surge na narrativa como a representação do imaginário dos navegantes, e das tempestades do Cabo das Tormentas:
Eu sou aquele oculto e grande cabo,
A quem chamais vós outros Tormentório.
Que nunca a Ptolomeu, Pompônio
Estrabo, Plínio e quantos passaram fui notório.
Aqui toda costa Africana acabo.
[...]
(Canto. V, p. 50)
A natureza impõe-se ao homem e Adamastor jura vingar-se de quem o descobriu: “aqui espero tomar, se não me engano, de quem me descobriu suma vingança” (canto V, 44), o texto refere-se a Bartolomeu Dias, descobridor do cabo de Boa Esperança.
Outro episódio impregnado de significação é o do Velho do Restelo. Cidade refere-se a esta passagem como sendo “pomo de discórdia entre comentadores”, isso devido à contradição que instaura a primeira vista, com palavras de renúncia, num poema que exalta a ânsia expansionista (CIDADE, 1968, p. 146):
__ Ó glória de mandar, ó vã cobiça,
Desta vaidade a que chamamos fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
Co’ uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldade nele experimentas.
(Canto. IV, p. 95)

[...]
Que promessas de reinos e minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que fama lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
(Canto. IV,p. 97)
O Velho do Restelo que “ficava na praia”, “entre a gentes”, soa como a “voz pesada”, contra a viagem, á a voz das viúvas, dos órfãos, dos agricultores, ou seja, dos que ficaram, mais uma vez história e mito se entrelaçam e o lamento cantado nesta estrofe, justifica-se, Vasco da Gama quando partiu da praia do Restelo para sua jornada, levou com ele 170 homens e retornou com apenas 55 vivos para Portugal:
Qual vai dizendo: __ Ó filho a quem eu tinha,
Só para refrigério e doce amparo,
Desta já cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Porque de mim te vás? Ó filho caro,
A fazer o funério enterramento.
Onde sejas de peixe mantimento?
(C. IV, 90)
Outros episódios entrelaçam de forma poética história e mitos, citaremos alguns:
Camões ao falar da doença “crua e feia” que “morto ficava quem a tinha”, faz uma referência ao escorbuto, doença causada pela falta de vitamina ‘C’ no organismo. O quadro descrito por Camões atingiu a frota de Vasco da gama a caminho de Calicute, na Índia:
E foi que de doença crua e feia,
A mais que eu nunca vi desampararam
Muitos a vida, e em terra estranha e alheia
Os ossos para sempre sepultaram.
Quem haverá que sem o ver o creia,
Que tão disformemente ali lhe incharam
As gengivas na boca, que crescia
A carne e juntamente apodrecia.
Apodrecia co’um fétido e bruto
Cheiro, que o ar vizinho inficionava.
[...]
(Canto V, p. 81- 82)
Muitas são as referências feitas a personalidades européias e da história de Portugal, entre elas:
Martim Lutero, precursor da reforma protestante a respeito deste Camões escreve: “Do sucessor de Pedro revelado, novo pastor e nova seita inventa” (Canto VII, p. 4).
Camões refere-se como “falso rei” e “galo indigno” a Francisco I, rei da França e grande difusor do renascimento, refere-se desta forma por este não “guardar a santa lei”, o cristianismo (Canto VII, p. 6).
Refere-se também ao rei da Inglaterra, Henrique VIII, como “duro inglês que se nomeia rei da velha e santíssima cidade”, e que “para os de cristo tem espada nua” (Canto. VII, p. 5).
Ao sucessor de Vasco da Gama, Henrique de Menezes, dirá: “Virá depois Meneses, cujo ferro, mais na África, que cá, terá provado; castigará de Ormuz [cidade na entrada do Golfo Pérsico] soberba o erro, como lhe fazer tributo dar dobrado” (Canto. X, p. 53).
Camões faz uma referência ao Brasil: “Mas cá onde se alarga ali tereis, parte também, co’o pau vermelho nota. De Santa Cruz o nome lhe poreis. Descobri-la á a primeira vossa frota” (Canto. X, 140).
Assim Camões tece seu poema, unindo ficção e fatos históricos. Do ponto de vista literário, Os Lusíadas não são uma narrativa histórica. No canto V a deusa Tétis denuncia a estratégia camoniana ao declarar que os deuses da mitologia são ficção criada pelo poeta, ou seja, um ornato poético:
Aqui, só verdadeiros gloriosos
Divos estão, porque eu Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos.
Fingidos de mortal e cego engano
Só pra fazer versos deleitosos.
Servimos, e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nesta estrela pôs o engenho vosso.
(Canto X, p. 82).
A trama mítica tem seu desfecho quando Baco e Netuno se rendem e reconhecem a superioridade dos humanos, e Vênus coroa o feito português conduzindo a frota à Ilha dos Amores onde esperam pelos nautas as ninfas “já feridas por Cupido”, ali eles se fartarão dos prazeres carnais, mas com o consentimento divino.
Segundo Moisés (2006, p. 51), “a Vasco da gama destina-se à companhia de Tétis e um prêmio extra, avistar a máquina do mundo”, Tétis lhe explica o sistema planetário e diz que podem “voltar à pátria amada”, para as “eternas esposas”.
A Máquina do Mundo descreve o conhecimento astronômico de Camões, embora o sistema de Copérnico já fosse conhecido, o texto descreve o sistema Ptolomaico. Modesto Camões declara acerca de seu conhecimento:
Mas eu falo, humilde, baixo e rudo,
[...]
Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.
(Canto X, p. 154)
Cidade ressalta também a importância do episódio da Máquina do Mundo e do descerramento do planetário, como uma celebração da aproximação entre oriente e ocidente (1968, p, 154). Não sendo a modéstia um atributo deste poeta português que “luta e canta”.
Para Ronaldo Menegaz “Camões extrapolou os limites de sua proposta, gerando um canto onde se revela uma sabedoria universal e intemporal e uma consciência extremamente alertada para a fragilidade, a falibilidade e a insegurança da condição humana” (2001, p. 260). Os Lusíadas termina com Camões colocando sua obra a altura da Homero:
[...]
A minha já estimada e leda musa
Fico com que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandro [refere-se a Alexandre Mágno, rei da Macedônia]
Em voz se veja
Sem à dita de Aquiles ter inveja.
(Canto. X, p. 153).

Referências:
-CAMÕES, Luis de. Os Lusíadas. São Paulo: Klick.
- CIDADE, Hernani. Luiz de Camões o Épico. 3. ed. [S. L].: Bertrand, 1968.
-MENEGAZ, Ronaldo. Os Lusíadas, do livro à obra: a contribuição de Cesário Verde. SEMEAR: Rio de Janeiro, n. 5. , 2001, p. 259 a 277.
-MOISÉS, Felipe Carlos. Epopéia do homem moderno. Entre Livros, São Paulo, 2006. Edição Especial, p. 39- 41.

Alteridade e Colonialismo em A tempestade de Willian Shakespeare


Renata Bomfim – UFES

A Tempestade é uma peça que foi escrita por Willian Shakespeare por volta de 1611, e apresenta grande complexidade no que se refere à questão da alteridade na relação entre europeus (colonizadores) e nativos (colonizados), trazendo várias visões típicas do novo mundo em sua época.
Resumidamente a peça nos conta que Próspero, duque de Milão, tem o seu ducado usurpado por seu irmão Antônio. Próspero e sua filha Miranda, exilados, são postos em um barco apenas com os livros da biblioteca de Próspero e alguns suprimentos. Vagueiam e vão parar numa ilha “mágica”, onde Próspero estabelece seu domínio, escravizando os nativos e tramando sua vingança contra Antônio, todos os que contribuíram para com sua queda.
Próspero é o protótipo do europeu colonizador. Pode - se perceber que seu poder já é sugerido desde o seu nome, “Próspero” que significa aquele que tem sucesso, que enriquece. O relato da ilha como “mágica” e habitada por espíritos e monstros, reflete o total desconhecimento do colonizador europeu acerca das terras conquistadas. Este aspecto pode ser visto no ato I, onde Próspero demonstra seu poder sobre a natureza e sobre as criaturas. Ele pergunta a Ariel, espírito que mantém escravo, “Você executou, espírito, a tempestade que lhe encomendei? Nos mínimos detalhes?” (cena I, p. 20).
Ao colonizador europeu importava a posse total do território, incluindo os nativos, pois estes eram utilizados como fonte de mão de obra gratuita. Bonnici nos diz:
Sabe-se que o objetivo principal do europeu, no caso os ingleses, era o aumento da extensão de terras que a nação possuía, fato que viabilizou a formação de um império. [...].
A exploração abrangia o controle dos povos e tribos colonizados, terras, natureza, animais, língua, tradições, cultura, hábitos, e tudo mais (BONNICI, 1998, apud BARZOTTO, acesso em 13 out de 2006).
Como representante do poderoso colonizador europeu, Próspero utiliza estratégias para dominar, uma delas é a apresentação do colonizador como superior, civilizado, em detrimento do colonizado, que é selvagem, degenerado e inculto, nota-se o nome do espírito Caliban, que é um anagrama de canibal. Janmorramed (1985, apud Gonçalves e Bonnici, 2005, p.61) afirma que:
Este modelo dominante da relação de poder é de interesse de toda sociedade colonial, é a oposição maniqueísta entre a alegada superioridade do europeu e suposta inferioridade do nativo. Este eixo constitui a característica central da estrutura cognitiva colonialista e da representação literária colonialista: a alegoria maniqueísta – um capo de oposição diversas, porém, intercambiáveis entre branco e preto, bem e mal, superioridade e inferioridade, civilização e selvageria, o eu e o outro, sujeito e objeto.
Este aspecto mencionado pode ser constatado em vários trechos da obra onde Próspero humilha os subalternos, afirmando-se como senhor absoluto destes. No início da peça (ato I, cena II, p. 24), Próspero refere-se à Caliban como sendo “um filho sarnento, um filhote de bruxa”, Miranda, sua filha, também o humilha o espírito quando afirma que “Caliban não é gente”, [...] e que não gosta de olhar para ele (ato I, cena II, p. 25).
Quando Caliban entrada em cena, o faz em resposta a um chamado depreciativo de Próspero: “Tu, escravo venenoso, gerado pelo próprio demônio dentro de sua monstruosa mãe, aparece” (ato I, cena II, p.26).
Caliban é o dono de direito da ilha da expropriada por Próspero, ela era de propriedade da Bruxa Sicoraz, que segundo o texto havia sido expulsa da Argélia e tido sua vida poupada da morte pelo fato de estar grávida, a ilha fora deixada como herança para seu filho.
Muitas vezes, o colonizador tinha a colaboração do colonizado na conquista da sua terra. Na época colonial, sabe-se que o europeu detinha maior conhecimento científico e, aproveitando da ingenuidade dos nativos, astutamente estabelecia um primeiro contato amistoso. Tal aspecto pode ser percebido no trecho onde Caliban se amaldiçoa por ter confiado em Próspero:
“Esta ilha é minha, pois a herdei de Sicoraz, minha mãe, e tu a roubaste de mim [percebe-se em Calibã um lampejo de consciência e ele reflete a sua condição de escravo]. Quando aqui chegaste, me acarinhavas e me tinhas em alta conta; dava-me água com pinhões de cedro, [...] e eu então te amava e te mostrei todas as virtudes da ilha, as fontes de água doce, as salinas, os pontos desérticos, as terras férteis. Maldito seja eu, que assim procedi. No (ato I, cena II, p.23).
Na construção do personagem Calibã, vemos o conceito de monstro e animal sendo utilizado, o que lhe confere o status de selvagem. Próspero acusa Caliban de tentar violentar Miranda, e é este o fato que ele utiliza como motivo para escravizá-lo e ter poder total sobre a ilha: “Tu és o mais mentiroso dos escravos [...], eu te tratei
(imundície que tu és) com humildade e te alojei e te acolhi em minha própria morada até que tentaste violar a honra de minha filha” (ato I, cena II, p. 27).
Caliban representa o outro, o sujeito colonizado, ele é demonizado e encontram na rebeldia uma forma de resistência e protesto, recusando a objetivação a que foi subjugado.
Encontramos em contraponto a Caliban, o espírito subserviente Ariel, que foi libertado por Próspero, após ter ficado por doze anos aprisionado pela bruxa Sicorax. Ariel é citado por Próspero como “meu bom espírito”, pois ele submete-se a próspero que sempre lhe acena com promessas de liberdade:
Suplico-lhe, senhor, lembra-se que lhe prestei serviços valorosos, não lhe menti, não o enganei, servi ao meu amo sem reclamar, sem resmungar; o senhor prometeu abater um ano do meu tempo de servidão (ato I, cena II, p.22).
Próspero irrita-se com a ousadia do escravo e muda o tom, de “meu bom espírito”, Ariel passa a ser chamado de “coisa lerda”, tartaruga”, “coisa maligna”. Ariel busca a liberdade obedecendo e agradando próspero. Para agradar a seu senhor ele metamorfoseia-se em “ninfa dos mares”, entra sempre com “música e cantos”. Ariel é um grande trunfo para Próspero, que utiliza-se de suas potências mágicas para alcançar seus intentos, e Ariel perde a dignidade de ser sobrenatural.
Alinguagem é também uma forte arma de dominação utilizada pelo colonizador, ela é imposta ao colonizado como uma forma de “civilizá-lo”.
De acordo com Stuart Hall:
A língua é um sistema social e não um sistema individual. [...] Falar uma língua não significa expressar apenas nossos pensamentos mais inferiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais. (HALL, 2004, p.40
Junto à língua, costumes e preceitos, encutem no colonizado um sentimento de inferioridade. Terry Eagleton em A Teoria da Literatura, nos diz que:
Só podemos ter os significados e as experiências porque temos uma linguagem, na qual eles se processam. Isso sugere além do mais, que nossa experiência como indivíduos é social em suas raízes, pois não pode haver nada como uma linguagem particular e imaginar uma linguagem é imaginar toda uma forma de vida social. (EAGLETON, 2003, p. 83).
No diálogo com Caliban, Miranda lhe diz “tenho pena de ti, a trabalheira que me deu, fazer-te falar [...], quando ainda grasnavas, como coisa, a mais bruta, facultei palavras aos teus propósitos, o que o tornou compreensível” (ato I, cena II, p. 27). É nessa dimensão que a luta entre dominador e dominado acontece, Caliban apropria-se da língua que lhe é imposta e a utiliza como arma de resistência, devolvendo ao seu senhor os insultos e xingamentos e rogando-lhes pragas e maldições:
Caliban: __ A senhorita me ensinou sua língua,
E o que ganhei com isso foi que aprendi a praguejar. Que a peste vermelha acabe com vocês, por me terem ensinado a sua linguagem.
(ato I, cena II, p.28).
Caliban: __ Que todas as inflamações que o sol suga dos brejos, charcos e pântanos caiam sobre próspero e façam de cada polegada de seu corpo uma doença ambulante.
(Ato II, cena II, p. 53).
E as conspirações não param, Caliban trama junto a Estéfano e Trínculo depor Próspero do poder, desta vez, o espírito submete-se ao bêbado europeu sem questionar seus propósitos, esta atitude por parte de Caliban pode ser interpretada como fruto das condições a que vem sendo submetido, e da introjeção da imagem do europeu como superior. Ele diz: “Eu vos beijarei os pés. Presto juramento e me faço vosso súdito”. Percebe-se que Caliban repete as atitudes como fez com Próspero, ao facilitar sua dominação: “Eu vos mostrarei cada fértil polegada dessa ilha; e beijarei vossos pés, eu vos peço, sede meu deus (ato II, cena II, p.60).
Finalizando abordaremos a estratégia de dominação feita por meio da força, entre elas a tortura, que poder infringida em diferentes níveis. Sofrimento determinado pelo trabalho árduo e não remunerado, o castigo físico, acrescido de ameaças que obrigam os mais fracos a se submeterem às ordens, estão bem representados na peça. Própero utiliza a ameaça como ferramenta de tortura psicológica para que lhe obedeçam, ele diz a Caliban: “Torturo-te com velhas cãibras, ponho dores em todos os seus ossos, te faço uivar tanto que as feras vão estremecer frente aos seus berros” (ato I, cena II, p. 28).
Esse outro, ou seja, essa alteridade, é definida por Bonnici (2005, p. 15), o termo vem do latim alteritas, e significa ser o outro, ser diferente, manter a diversidade. O termo alteridade defendido por Bonnici, refere-se ao outro engajado num contexto político, cultural religioso e lingüístico.
Percebe-se que a alteridade é negada ao colonizado, este é excluído pelo discurso de poder, há a massificação em detrimento da singularidade do sujeito, que passa a ser objeto, coisa. Oliveira (2002, p. 34) nos diz que a igualdade pressupõe necessariamente conceituar e julgar o outro como responsável pela sua identidade. A dialética do escravo e do senhor é uma alegoria do mundo moderno, o que torna a tempestade uma peça atemporal e ainda, passível de muitas leituras críticas.

Referências:

-SAHAKESPEARE. W. A Tempestade. Tradução de Beatriz Viegas Faria. Porto Alegre: L & MP, 2002.
-GONÇALVES, A. A; BONNICI, T. Estratégias de Outremização em The narrative of Jacobus Coetzee.Maringá, PR, v. 27, n.2, p.151-161, 2005.
-BARZOTTO, L, A. Estratégias de sedução em King Solons mine. Disponível em: <>www.dge.uem.br//geonotas/vol16-1/ leone.shtml> Acesso em13 out. 2006.
-HALL, S. A identidade cultural na Pós-modernidade. 9. ed. Rio de Janeiro: DP & A, 2004.
-OLIVEIRA, C.M. de. Pluralidade racial: um novo desafio para a psicologia. Psicologia: Ciência e profissão. Conselho Federal de Psicologia, Brasília, ano 22, p. 34- 45, 2002.

05/10/2007

Rumos...

Nesse momento raizes brotam do meu peito e
saem pela minha boca
Ramos e ramos que se multiplicam,
e com ímpeto, me desviam para outros rumos ,
diversos, plurais,
buscando o Ser da hera de ouro,
tempo fora do tempo,
mítico, místico,
plástico...
Tempo macho e fêmea
que abdicou das armas e dos espartilhos.
caules longos crescem para cima e para baixo,
alcançam grandes proporções,
e meu corpo já está todo coberto
e eu sou o meu avesso
que te alcança e entrelaça.
Quero te enxertar.
Hybridos, nos reproduziremos fora do padrão,
buscando o exercício harmonioso da
alegria e do contentamento.

by renatabomfim

24/09/2007

Tempo e Realidade em Ficções de Jorge Luis Borges

Renata Bomfim - UFES

Jorge Luis Borges (1899- 1986) inovou a narrativa contemporânea pela singularidade de sua escrita ficcional, que influenciou significativamente o movimento vanguardista argentino, como também grandes escritores, cineastas e críticos de todo mundo. Inscrita na primeira etapa do século XX, tempo de problematização e negação de todos os conceitos. Bella Josef, estudiosa da obra borgiana, no Livro Jorge Luiz Borges, nos esclarece que: “A formulação estética de Borges desconstrói o modernismo: transforma a realidade e fragmenta o tempo relativisando a forma em sua crítica do sujeito. Com isso, anuncia a pós-modernidade” (JOSEF, 1996, p. 47).

A obra borgeana tem como característica intrigante à criação outros mundos regidos por leis próprias, sua escrita busca abalar as realidades objetivas, concretas e fixa, presas às leis do tempo, e para tal utiliza elementos variados como o labirinto, vastos espaços que se desdobram infinitamente, caminhos sem fim, rodas e labirinto linear e cíclico.

Tais características podem ser observadas no seu livro de contos intitulado Ficções, editado em 1944. Nesta obra são desfeitos os limites entre o real e o fantástico e, tempo e realidade comparecem conferindo aos contos uma multiplicidade de sentidos que possibilita ao leitor inúmeras interpretações.

Certa vez Borges afirmou: “Durante toda a minha vida cheguei às coisas depois de havê-las transitado nos livros” (JOSEF, 1996, p. 30). Para Borges o livro é uma metáfora do universo. O Conto intitulado A Biblioteca de Babel, apresenta-nos uma biblioteca labiríntica infinita, de galerias que se repetem. Borges aplica a metáfora do labirinto à trajetória do homem, devido sua imprevisibilidade, mostra o homem preso ao labirinto do tempo, peregrino, o labirinto é também uma metáfora da tessitura textual que é inesgotável:

Afirmo que a biblioteca é interminável. Os idealistas argúem que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto ou, pelo menos, de nossa intuição do espaço. Alegam que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (BORGES, 2001, p. 92).

[...] A Biblioteca existe ab aeterno. [...] Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um viajante atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que reiterada seria uma ordem: a Ordem). (BORGES, 2001, p. 93 -100 ).

Ainda no mesmo conto, percebe-se o ser humano buscando respostas para problemas que não tem solução, pois são questões impossíveis de se responder: “[...] também se esperou, então, o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da biblioteca e do tempo”. (BORGES, 2001, p. 100).


A narrativa de Tlön , Uqbar, Orbis e Tertius, nos apresenta a descoberta, ao acaso, de um mundo paralelo e desconhecido construído por meio da linguagem, chamado Uqbar, a partis da conjunção de um espelho e de uma enciclopédia. Este mundo é a imagem inversa do mundo real, é uma imagem em um espelho imaginário, onde as coisas se projetam e duplicam. Acerca desse planeta imaginário criado pelo conhecimento humano, o texto nos diz:

[...] quem são os inventores de Tlön? O plural é inevitável, pois a hipótese de um único inventor [...] fora descartada unanimemente. [...] Esse plano é tão vasto que a contribuição de cada escritor é infinitesimal. [...] Conjectura-se que este breve new Word é obra de uma sociedade secreta de astrônomos, de biólogos, de engenheiros, de metafísicos, de poetas, de químicos, de algebristas, de moralistas, de pintores, de geômatras, dirigidos por um absoluto homem de gênio. (BORGES, 2001. p. 37).

Em Tlön , Uqbar, Orbis e Tertius, Borges cria uma nova realidade que nega o tempo e nos mostra a visão do autor acerca da angústia do homem que pretendem encontrar uma explicação racional para o universo, e a realidade vê-se ameaçada de ser tragada pela fantasia “O mundo será Tlön”.

O conto As ruínas circelares, aborda variados temas recorrentes obra de Borges entre os quais a circularidade captada nos níveis do tempo e do espaço. O conto narra a história de um homem velho, um “mago”, que se refugia nas ruínas circulares de um templo que foi consumido pelo fogo. Seu intento era criar outro homem: “O propósito que o guiava não era impossível, ainda que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade”. (BORGES, 2001, p. 66).

O homem percebeu que moldar a matéria de que é feita o sonho é tarefa árdua, e reviu seu fracasso e buscou outra tática para realizar seu intento, “abandonou toda premeditação de sonhar” e para retornar a tarefa executa um ritual de purificação, [...] e quase de imediato sonhou com um coração que pulsava, [...] cada noite percebia-o com maior evidencia” (BORGES, 2001, p. 68)

A ambição de criar um homem tão perfeito que se impusesse à própria realidade, mostra a busca de Borges de vencer o tempo e a sucessão a que estamos imersos, é alcançar a eternidade. Para Pommer “a eternidade seria uma invenção humana capaz de dar sentido às nossas vidas fugazes, já que o tempo, é algo que nos escapa por completo à compreensão”. (POMMER, 1991, p. 149).

Ao final do conto o mago descobre que também ele é criação do um sonho de um outro. Segundo Bella Josef, Borges recorre ao tempo cíclico em suas narrativas para justificar a permanência de um mesmo fato ou objeto em muitos lugares. Deseja a intemporalidade do tempo, anulado em sua unicidade. [...] a simultaneidade ou repetição cíclica, que leva ao tema da criação e ao tema do labirinto. [...] A fantasia é mais real que a própria realidade e nela tudo se repete. [...] Se o tempo é cíclico deixa de existir o tempo cronológico. (JOSEF, 1996, p. 140).

O filho sonhado vai gradualmente acostumando-se a realidade, mas não sabe que é um simulacro, um fantasma. O mago consegue realizar o intuito de sua vida, e numa espécie de êxtase entrega-se ao fogo para ser consumido. As ruínas circulares mistura planos: “Não ser homem, ser a projeção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem. [mas o mago] com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era a aparência, que outro o estava sonhando. (BORGES, 2001, p. 72).

O mago ao descobrir-se também uma projeção, um simulacro sonhado por um terceiro, sente um alívio, pois há uma desconstrução da individualidade, o sujeito tendo sua individualidade diluída, torna-se parte de algo maior que ele, de um tempo fora do tempo, de um tempo mítico.

Nos conto A forma da espada, o protagonista dirá: “O que faz um homem é como se todos o fizessem”. (BORGES, 2001, p. 133). Ao serem abolidos passado e futuro, resta ao homem o tempo presente. Santos nos diz que “a destruição do tempo, anula conseqüentemente o individuo e dá ao universo um caráter eterno” (SANTOS, 1996, p. 72). Este conto mostra a busca do homem borgiano pela imortalidade, lutando incessantemente contra o tempo.

Enquanto a realidade for regida pelo tempo, e este for o limitador da realidade humana, não haverá nunca uma possibilidade do homem retirar a máscara e descobrir seu verdadeiro rosto. A possibilidade de encontrar-se só pode ser vislumbrada num mundo atemporal, em um mundo não limitado pelo tempo sucessivo e temporal. (SANTOS, 1996, p. 81)

Segundo Cerqueira, na obra de Borges, o tempo é um eterno retorno, e por isso não se pode afirmar que este mundo é real, mas um simulacro, uma máscara. [...] por isso não podemos decifrá-lo. Sendo assim, o homem que o habita é também um simulacro, pois repete os mesmos atos mecanicamente há séculos. Por ser prisioneiro do tempo, o eu, que é Borges, só se pode experimentar no fluir deste, que devora toda a realidade (CERQUEIRA, acesso em 30 nov. 2006).

Fruto de uma imaginação privilegiada, o livro Ficções é uma aventura imaginativa que busca discutir a pretensão da linguagem em ser a expressão fiel da realidade. Nele Borges constrói um caleidoscópio, cujos espelhos, a cada momento, surpreende-nos com novas possibilidades de desdobramento de imagens.

Referências:

- CERQUEIRA, Dorine. Joege Luis Borges e a narrativa fantástica. Disponível em: < http://www.hispanista.com.br/>. Acesso em: 30 nov.2006.
- JOSEF, Bella. Jorge Luis Borges. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S. A., 1996.
- JOSEF, Bella. Uma estética da inteligência. In: Jornal do Brasil, 1999.
- POMMER, Mauro Eduardo. O Tempo Mágico em Jorge Luiz Borges. Florianópolis: Editora da UFSC, 1991.
- PINTO, Júlio Pimental. Uma memória do mundo: Ficcção, memória e história em Jorge Luis Borges. São Paulo: FAPESP, 1998. p. 167- 175.
- SANTOS, Ana Cristina. Algumas reflexões sobre o infinito na obra borgiana. In: anuário brasileiro de estudos hispânicos, n. 6, 1996. p. 71 – 81.
- SANTOS, Ana Cristina. O Tempo e a Morte em Borges: “As Ruínas Circulares”. In: América Hispânica. Ano V, n. 7. 1992.

Metáfora e Política em Poesia Liberdade de Murilo Mendes

Renata Bomfim - UFES

Murilo Mendes (1901- 1975) apresenta uma obra de grande riqueza temática, fortemente influenciada pelas vanguardas européias. O poeta integra a segunda geração do modernismo, que buscava, essencialmente, uma poesia de questionamento de temas acerca da existência humana.

Murilo Mendes vivenciou um momento sócio-político conturbado. Crise econômica, o desabrochar dos ideais e partidos comunistas e socialistas, em oposição a estes, o surgimento do fascismo, do nazismo, do salazarismo, do franquismo, e no Brasil a ditadura Vargas. Foi testemunha das transformações produzidas na sociedade pela segunda guerra mundial. Em Poesia Liberdade, no poema A Tentação, o poeta depara-se perplexo frente a sua fé e a realidade brutal:

Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:
“Já que és o verdadeiro filho de Deus,
Desprega a humanidade dessa cruz”.
(MENDES, 1994, p. 424).

Na década de 30, Murilo Mendes integrou um grupo carioca de intelectuais cristãos que defendiam o cristianismo como uma ideologia capaz de restaurar a justiça, a igualdade social e promover a paz entre os homens.

A religiosidade Muriliana tem cunho filosófico, o que a aproxima dos dilemas concretos de seu tempo e, muitas vezes se apresenta impregnada de rebeldia. Assim como a religiosidade, a influência das artes Plásticas é uma marca forte de sua poética. Este aspecto da obra muriliana, é ratificada por Raimundo Carvalho no livro Murilo Mendes: o olhar vertical, onde ele destaca que: “É preciso atentar que em todas as frases da poesia muriliana há um elemento comum, a relação entre signo verbal e signo plástico” (2001, p.82).

Barbosa e Rodrigues nos empresta uma definição para a poesia de Murilo Mendes, para estes autores:

A poesia muriliana questiona o poetar, o mundo, o amor, a fé, a natureza e a própria linguagem pelas imagens associativas que dão um novo aspecto ao texto, com quebra de regras da sintaxe, da lógica formal do discurso, da ordem da gramática, das imposições dos léxicos, do dicionário ( 2000, p.125).

Poesia liberdade foi escrito entre 1944 e 1945, e reflete o olhar do poeta frente à violência e massacre coletivo promovido pela guerra. No poema Ceia Sinistra mostra há uma crítica aos regimes nazismo e fascismo que se opõem ao comunismo russo. No poema serão convidados para a ceia os “fantasmas”, pois as pessoas estão mortas:

Sentamo-nos a mesa servida por um braço de mar.
Eis a hora propiciatória, augusta,
A hora de alimentar os fantasmas.
Quem vem lá sentado num trator de cadáveres
Com uma grande espada para plantar no peito da Rússia.
[...]
A alma oprimida soluça
Num ângulo do terror. (MENDES, p. 403)

Sua postura política é firme, sua arma de resistência e denúncia é a poesia. Barbosa e Rodrigues,destacam que um outro aspecto da poesia muriliana é “a metáfora visionária que traz para sua obra uma perspectiva surreal” (2000, p. 136). Em Overmundo, podemos perceber o tom surrealista de sua poesia, Murilo propõe relações surpreendentes entre imagens e metáforas: “[...] Amarro o navio no canto de jardim, e bato à porta do castelo da Espanha. Soam os tambores do vento” (MENDES, 1975, p. 413).

Acerca do surrealismo muriliano, Merquior afirma ser “no máximo parte de um todo, uma dimensão expressional embutida na poética moderna e não um fator de filiação estilística” (1976, apud CARVALHO, p. 42). Murilo recebe influencia de mestres da pintura, música, arquitetura. O poema A Jaula descreve os “tesouros” do quarto “verde veronese” [verde veronese é o nome de uma tinta óleo específica para a pintura de tela], o poeta se apropria de signos das artes plásticas e cria uma metáfora onde ele “pinta” uma imagem por meio da poesia:

[...]
O retrato do meu amor
E o de Wolfgang Amadeu.
Poucos livros, todo um mundo,
A bíblia, Platão, Racini, Pascal, Cervantes, Camões.
(MENDES, 1975, p. 413)

A modernidade em que o poeta se inscreve, é descrita por David Harvey, como sendo:

Não apenas um “rompimento impiedoso com toda e qualquer condição precedente”, mas como “caracterizada por um processo sem- fim de rupturas e fragmentações internas no seu próprio interior” (1989, p. 12 apud HALL, 2004, p.16).

O sujeito da modernidade é cindido, Poesia Liberdade evoca para este sujeito fragmentado um sentido de unidade, o poeta percebe-se como alguém capaz de estabelecer relações entre as coisas mais díspares. No Poema Dialético “nada poderá se interromper sem quebrar a unidade do mundo”( MENDES, 1994, p. 410).

Murilo propõe que a unidade se restabeleça a partir da união dos opostos. Em Ofício humano, o poeta assume a missão de fazer com que esta ordem seja reajustada conciliando os contrários:

[...]
O poeta abre seu arquivo- O mundo,
E vai retirando dele alegria e sofrimento.
Para que todas as coisas passando pelo seu coração
Sejam reajustadas na unidade
É preciso reunir o dia e a noite,
Sentar-se à mesa com o homem
Divino e criminoso
É preciso desdobrar a poesia em planos múltiplos
E casar a branca flauta da ternura aos vermelhos clarins do sangue (MENDES, p, 408)

Por meio da linguagem surrealista o poeta elabora uma imagem apocalíptica e, Ofício humano, nos diz que o “Cristo Jesus” aparecerá “arrastando por um cordel a antiga serpente vencida”. A serpente é, na tradição cristã, a responsável pela queda cósmica do homem e por sua expulsão do paraíso.

O mal na poesia muriliana também é representado na forma de um “lobo”, no poema Fábula. O poeta estabelece um diálogo com a natureza, ao modelo das canções galego-portuguesas, e assume uma postura de conselheiro, ele é uma voz que conclama à autonomia de pensamento, à recuperação da singularidade perdida frente a Massificação:

Eu falei à fonte e ao pinheiro
E ao mesmo tempo à pastora dançarina:
“Acautelai- vos contra o lobo,
Tão sombrio quanto cruel” (MENDES, P. 409).

Murilo apropria-se da forma de escrita bíblica, certa vez Jesus advertiu a seus discípulos: “Acautelai-vos do mal”, este poema encerra também uma forte metáfora política, onde os lobos representam os ditadores, que com seus discursos falsos arrastam multidões, ao final do poema mais um conselho para que se “ouça a própria música”, ou seja, a consciência.

Em Poesia Liberdade Murilo Mendes aponta, entre outros temas, para a perda da identidade por parte do sujeito, “o homem morre sem saber quem é”, e aponta para o resgate de valores como a amizade, a compaixão, como possíveis caminhos de saída do caos para um estágio de alteridade.

[...]
Entretanto, cada um deve beber no coração do outro
Todos somos amassados e triturados
O outro deve ajudar a reconstruir nossa forma.
O homem que não viu seu amigo chorar,
Ainda não chegou ao centro da experiência do amor.
(MENDES, p. 407).

Segundo Haroldo de Campos, Poesia Liberdade “abrirá uma janela para o caos”, e o poeta “sentirá” necessidade de ordenar esse caos. Mas, para além do “clarão da catástrofe que contagia os passantes”, o poeta tem esperança e sonha (CAMPOS, 1992, p.69) O poema Murilo Menino, resgata lembranças de infância e recorre à fantasia [única forma de suplantar o real], para a criação de um universo lúdico:

Quero ouvir a flauta sem fim
Do Isidoro da flauta
Quero que o preto velho Isidoro
Dê um concerto com minhas primas ao piano
Lá no salão azul da baroneza.
[...]
Quero conhecer a mãe d’água.
(MENDES, p.409)

A imagem feminina também apresenta - se como um importante elemento da escrita muriliana, Barbosa e Rodrigues destacam-na como sendo:” Iniciadora, promotora do despertar da sexualidade e sensualidade masculina. Porém, mais ainda iniciadora de uma nova visão de mundo” (2000, p. 40).

Em O rato e a comunidade, a mulher aparece como representante dos valores femininos capazes de resgatar o homem, rompendo- lhe “ as grades do coração”:

A mulher que escolhemos,
A única e não outra,
Esta mesma, frágil e indefesa, bela ou feia,
eis o mundo que nos é de novo apresentado
Poe intermédio de uma só pessoa
(MENDES,1994, p.407- 408).


José Guilherme Merquior em A Lira Dissonante em Murilo Mendes, afirma que “Murilo é o músico por excelência, outro Orfeu, canta a vida, o homem e o mundo. Recriando-os no sonho da palavra poética, mágica, harmônica, mesmo que obscura e caótica, Sua poesia repensa o homem, em seu mundo apocalíptico, pelas palavras bacantesque o seu “eu” lírico objetiva e ordena em versos artesanais, assimilando, na transgressão, o novo e a tradição ( MERQUIOR, p. 515).

Metáfora e política estão de certa forma interligados na poética muriliana, em especial no livro Poesia Liberdade. Em uma época em que a literatura expressava pessimismo, Murilo, o “poeta visionário”, consegue projetar seu olhar e ver esperança, para a re-união do que se fragmentou, no Poema Dialético ele nos diz: “tudo marcha para a arquitetura perfeita: a aurora é coletiva”.


Referências:

BARBOSA, M. F.; RODRIGUES, M. T. P. A trama poética de Murilo Mendes. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2000.
CAMPOS, H. de. Metalinguagem & Outras Metas: Ensaio de teoria e crítica literária. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.
HALL, S. A identidade cultural na Pós-modernidade. 9. ed. Rio de Janeiro: DP & A, 2004.
MENDES, M. Poesia completa e prosa. Rio de janeiro: Nova Aguilar, 1994.
MERQUIOR, J. G. A Lira dissonante em Murilo Mendes. In: Congresso ABRALIC, 3, 1992, Niterói. Anais... Rio de Janeiro: Editora da Universidade de São Paulo. p. 507- 515.
Prefácio. In: Murilo Mendes: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

19/09/2007

O tao com cauda de peixe


O grande portal era a entrada do lugar
onde um Tao, com cauda de peixe, adornava a entrada.
Lá, vi pessoas estudando, e ao centro da grande sala,
muitos incensos queimavam em uma espécie de recipiente.
Um homem me acompanhava,
ele não era nem muito moço e nem velho.
Império do silêncio e da meditação, logo percebi que
a minha presença despertava a atenção dos presentes.
Acordei, mas jamais me esqueci daquela experiência,
espero um dia poder novamente visitar
aquele mosteiro do lado de lá.


Essas asas que me carregam para longe
e para o alto, que me arrancam do chão firme
das certezas cartesianas,
e me lembram que a vida é mais, muito mais....
Plena de mistérios
e povoada por fantasias tão reais
que me pergunto se não estaria sonhando,
agora, por exemplo?

Este oco, este buraco sem fundo que as almas possuem,
que a minha alma possui
alma-queijo- suíço, incompleta, labirintos de ar,
serão motores do desejo?
será que terá representação na outra dimensão a
falta? A existência completaria seu sentido lá?
seriam rompidas as correntes que separam o Ser de sua essência?

Não sei! só sei que estive lá, no lugar que descrevi,
minhas asas me levaram, eu sei!
sei também também que tive companhia
e que ao acordar, havia a saudade.

byrenatabomfim

14/09/2007

Rastros



No meu rastro caminham
sombras, lembranças,
vagueiam sonhos precipitados
vestígios dessas andanças.
Por terras vermelhas e pisadas
sigo os rastros do meu destino,
ligada por um fio
sei lá onde ou a quem,
formando uma tessitura que desconheço.
Fio a fio sou a lã
tramada- entrelassada
nódoa maculando a pureza
que também é das mais estranhas.
Continuo andando e deixo
involuntários novos rastros.

byrenatabomfim