17/11/2016

ATOS (IN)TENCIONAIS (Renata Bomfim)


I
En todo este tiempo no conociste mi color verdadero,
Ni sentiste ese olor mío tan especial
Nunca me sabrás del todo.
Esta soy en verdad:
Siempre otra, otra, otra, y otra distinta,
Desde que el mundo es mundo
Fui y continuaré evolucionando.

En todo este tiempo no acariciaste mi curva espinal
No sentiste la sacudida de mi soplo
El pinchazo seco del puñal: la cuchilla.
Son de hierro mis vértebras.

II
No estoy destinada a ti
Ni a tu placer siquiera.
No soy un florero de tu casa
estímulo en la cama, ¡no!
Esa mula incansable y obediente
Es solo una ilusión tuya.

No existo.
No vine para ti.
Quizá por eso solo sientas el deseo
Y no te interese yo ni las cosas del mundo.
Acaso por eso no percibas
La esencia viva de mi vida.

No lo comprendes:
Soy el vacío grávido.

III
Fértil y activa.
Nací dotada de vientre,
Entrañas, carne, sangre, escupiendo símbolos.
Estoy ante ti.
¿Me descubres ahora?
Sinuosa y cantando verdades, sigo

Fecundada por el vacío en la grieta,
En el interior,
(lugar que desconoces)
Fui, soy la dueña de los espacios ambiguos.
Ocupas el centro o lo ignoras todo
Del hueco y de lo que le llena.

IV
No deseo desvelarte esos secretos femeninos
Ignoras las sombras vivas que nos
Acompañan.
Desconoces la oscuridad que nos envuelve,
Pobre criatura!
No comprendes que el canto con sus ondas cortas y largas
            causa los malos tiempos.
Pobre de ti!
Observa: el tiempo abre fisuras en la existencia.
¿Desconoces el canto y sus ondas?
Pobre de ti!
Descubre el camino de regreso.

V
Una razón para vivir

Vivo porque el aire manda en mis pulmones.
Porque mi cuerpo sigue los dictados de su propia voluntad.
Aunque el sol encienda mi existencia y torne todo luz
Yo prefiero la luna, las sombras y lo oscuro.

Una sombra va conmigo.
Es espesa y desprecia los obstáculos.
La sombra no necesita razones para avanzar.


Yo preciso volar tras una noche de insomnio
Quisiera tener alguna certeza al abrir los ojos.
Nada de certezas!

VI
Voces conflictivas.
Alguien me toca
Despiertan los demonios del recuerdo
Necesito olvidar.
Necesito olvidarte una vez más.
Quiero ser derrotada en la lucha de los inocentes.
Fui mujer de muchos hombres
Conservo la pureza
Como el lirio abierto bajo
El manto de la Aurora.

VII
El hombre que amé se burlaba de mis bostezos
El hombre que amé se burlaba sin parar.
Hoy hace un día que perdí las llaves
esas llaves que te abrían.

VIII
Usted sospecha la existencia de la vida
Que crece dentro de mí?
Reconoce la vida de mi vida?
Con razón no me vislumbras,
Con razón.
Solo ves aquello que tus ojos imaginan ver,
Tu deseo te ciega.

Tuve una paciente llamada Norma,
La vida íntima de Norma parecía bonita, ella era libre.
Pero, cuántas medicinas,
Se esforzaban para que viviera así!
Norma vivía una vida artificial inconsistente.


La vida secreta de mi vida cuenta con legislación propia.
Vivo enviciada de poesía.
Ayer esnifé a Walt Whitman,
Después me inyecté unos románticos y, por fin,
Camões, cantos encapsulados.

Acaso las voces que nos orientan
En el paso de la vida íntima a la vida mostrada
Permanezcan comunicándose a través de la mente
Trasvasando conocimientos.

IX
A ocultas planté un jardín.
Nada de simetría.
Cultivo las flores del desorden.
En secreto, la vida de mi vida se expresa
En mis entrelíneas, mías o de esa que imagino ser.
Todo normal, pero no soy aquella Norma.

X
Me encuentras, áspera
Grosera,
Mala.
Soy esa.

Ridículamente ruda y asocial,
Leo las palabras que balbuceas
A contrapelo.

Soy un despeñadero, soy cizañadora,
Hija de Saturno soy, desvariada,
Sí, eso soy.

Exageradamente solemne, eléctrica,
Orgásmica, dramática.
Nada Rococó,
No suavice los hechos,
Me gustan las consecuencias:
Soy una depresión y un montículo,
Abismo y cima,
Vamos a deshojar los afectos
Soy un barranco
Soy otra, otra, y otra distinta.

Esa soy yo.


***Tradução de Pedro Sevylla de Juana

A Academia Feminina Espírito-Santense de Letras perde uma de suas estrelas. Morreu, no dia 14/11/2016, a escritora capixaba MARGARIDA LENA PIMENTEL (Cadeira nº 15)


Amigos, a escrita de autoria feminina capixaba perde uma de suas estrelas, a escritora Margarida Lena Pimentel. A acadêmica da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras (AFESL), cadeira nº15, cuja patrona é Ailsa Alves Santos faleceu no dia 14 de novembro de 2016, foi velada na sua residência na Praia do Canto e enterrada no Cemitério Santo Antônio, em Maruípe.

Margarida Lena Pimentel nasceu no dia 8 de fevereiro de 1938, em Vitória (ES). Filha de Pedro Benatti Lenna e Eliza Sodré Lenna,  nasceu em Vitória – Espírito Santo. A escritora se destacou na prosa com as obras Apenas um homempublicado em português, Edições do Val, 1965, Rio de Janeiro e mantido por 18 Bibliotecas mundiais; Adultério sem flagrante, com 2 (duas ) edições publicadas entre 1969 e 1970, em português e inglês, Livraria Eldorado, Rio de Janeiro, mantido por 28 (vinte e oito) bibliotecas em países diferentes; Vento macho, (duas) crônicas, cujas edições foram publicadas em 1967, em português, pela Livraria São José, Rio de Janeiro, e são mantidas por 31 (trinta e uma) bibliotecas mundiais) e crônicas publicadas em Revistas e Jornais: A Gazeta, A Tribuna e o Diário. Participou da antologia da AFESL, Múltiplas vozes (2010).A escritora foi "Destaque Especial" no Concurso Nacional de Contos, 1993 e 1994, recebeu  a Medalha Cultural na Revista Brasília. Participou do Anuário de Escritores 2005Casa do Novo Autor, Editora São Paulo. Além de ter produzido contos e crônicas que foram premiados em vários concursos literários e é Sócia do Clube Literário Brasília.

Compartilho com vocês alguns escritos da nossa saudosa confreira Margarida Lena Pimentel.

 O OUTRO LADO DA COLINA
O outro lado da colina é uma ótima expressão para definir a meia-idade. É uma fase que, sem dúvida, tem os seus contras. O vento não sopra tão forte, nem as pernas são tão ligeiras como na subida. O passo encurta e, na medida em que vamos descendo o outro lado da colina, temos de ter cuidado onde pomos os pés, porque a experiência já nos ensinou a não pisar nas armadilhas. Na subida a visão estava bloqueada pelas vertentes, e não havia panorama para ver, a não ser que olhássemos para trás. Agora a viagem, felizmente está adaptada às pernas menos ágeis, podemos, então, parar e refletir, uma vez que o cimo já foi ultrapassado, e há um vasto mundo à nossa frente. Apesar de haver sombras e nevoeiros no horizonte, o sol também nascerá todos os dias, por mais trinta, quarenta anos, quem sabe? Tudo é possível... é só saber viver.
O outro lado da colina é mais tranqüilo. A juventude é um turbilhão de emoções, arroubos, loucuras, sem tempo de reflexão. Depois dos cinqüenta anos tudo se adapta, se encaixa, se ajeita. O trabalho deixa de ser uma máquina, para ser um cérebro. O fogo da paixão se transforma em amor e se divide em mil centelhas quando a família cresce: — Filhos, netos, noras, genros... e a vida vira uma festa com tantos aniversários, casamentos, formaturas e há muito mais a comemorar do outro lado da colina. Algumas tristezas, é claro, mas na maturidade a gente aprende a lidar com elas.
Engano quem pensa que ao chegar ao cimo tudo acabou. Acabou sim, de plantar, construir, correr atrás dos valores materiais. Agora, chegou a hora de colher o que plantamos e aí, entra o velho e sábio provérbio: Quem semeia vento colhe tempestade... do outro lado da colina pode ter flores, frutos ou espinhos, depende de nós ... é só saber viver.
Precisamos, urgentemente, de mais esclarecimentos para vivermos a idade madura, para que possamos ser preparados para a segunda metade da vida. Assim as pessoas aprenderiam que as metas da mocidade como dinheiro, conquistas e posição já não são as que deveriam procurar e sim o alvo seria: adquirir sabedoria, no sentido da experiência vivida e da avaliação de valores apropriados e explorar os tesouros de beleza que nossa cultura nos legou.
Em vez de aceitarem com resignação as frustrações e decepções, numa monótona solidão, o homem ou a mulher devia procurar novos encontros do outro lado da colina até mesmo o romantismo de um amor de outono..


ESTADO MAIOR
Vivemos em confusão constante em presença da Justiça do mundo moral. Por quê? É a pergunta, eterna, universal, tão velha quanto a primeira lágrima, tão recente quanto o último noticiário da televisão. Pode-se encontrar uma razão pra o rápido sucesso de certas pessoas nos negócios, na vida social e outras áreas mais? Capacidade, inteligência, talento? Não sei! Tem tanta gente com tantos predicados e competência, e nada consegue.
Incrível é o prestígio dessas pessoas. Em solenidades, até mesmo oficiais, esses ilustres desconhecidos ocupam os melhores lugares, estão sempre nas primeiras filas, reservadas para eles. Os mais dignos não encontram lugar no recinto. Já imaginou ouvir um longo discurso em pé? Se não havia lugares para todos, por que convidam tantos? É pura deselegância dar distinção a poucos e até mesmo fazendo as pessoas que já  estavam sentadas cederem seus lugares a outras para as quais os lugares estavam reservados.
Aliás, essa história de lugar reservado é antiga. Quando nos transportamos em imaginação à estalagem de Belém na noite de Natal, verificamos que não havia lugar para Ele, logo Ele? E constatamos que todos os lugares na estalagem estavam ocupados pelos homens do Governo e ricos mercadores. E assim, o menino chamado Jesus nasceu numa manjedoura, mas os seus sábios ensinamentos acharam lugar no coração da humanidade.
Isso me faz lembrar de uma festa numa cidade do interior, quando meu marido era juiz da comarca. Festa popular, alegre e bonita, mas destaque mesmo só para as autoridades, políticos e “aqueles” que os organizadores da festa achavam importantes. Entre risos e palmas, beijos e abraços, os figurões circulavam no meio do povo. Entretanto, as barracas com toldos coloridos e as mesas com toalhas brancas estavam reservadas aos ilustres convidados que, aos poucos, ocupavam seus lugares.
Depois de uma estafante caminhada pelos caminhos da roça, bem longe da cidade, onde foi levar a comunhão a um doente, o padre da paróquia chegou à festa. Suado, cansado, empoeirado. Observou tristemente que todos os lugares estavam tomados, exceto ao redor de uma esplêndida mesa isolada numa pequena elevação ao lado da praça. Foi ali que o padre se instalou.
Imediatamente, correu agitado ao seu encontro o secretário do prefeito da cidade.
—Desculpe, senhor padre, mas estes lugares estão reservados para o Estado-maior.
—Quem é o Estado-maior? — perguntou o padre.
— Ora, senhor padre, são os homens do Governo, a Justiça, Exército, política...
— Meu filho — respondeu o padre — eu pertenço ao Estado –maior do Senhor Jesus Cristo, e até que apareça alguém que seja mais graduado do que Ele, vou ficando por aqui mesmo!


CHÁ DE CATUABA
Na encosta dos Andes, no Peru, existe um verdadeiro vale, envolvido numa amena temperatura — 18 graus no inverno e 22 no verão. Nesse vale a velhice demora a chegar. Ninguém adoece. Seus habitantes vivem em média de oitenta a cem anos. A maioria em perfeita condição física e psicológica. As doenças, quando raramente aparecem, são tratadas com ervas e raízes. E usam e abusam de uma infinita variedade de chás.
O festival de fantasia que o vale oferece na milagrosa cura dos seus chás, encanta o visitante, mas na cidade moderna parece um pouco fora de moda. Entretanto, essa milenar sabedoria é uma espécie de elo entre um tempo passado e a geração presente, porque todos nós sabemos que as plantas medicinais curam muitas doenças. Muitas dessas ervas vieram para o Brasil, trazidas pelos imigrantes. Aqui se adaptaram ao clima, solo e juntaram-se a centenas de outras que nossos indígenas já conheciam. Hoje o Brasil dispõe de amplo conhecimento sobre sua flora medicinal e nossa geração adora chá. Os irmãos orlando e Cláudio Vilas Boas, passaram quarenta anos entre os índios brasileiros aprenderam a conhecer matas, o segredo da nossa flora e valor medicinal de cada folha.
No Japão, o cerimonial do chá é uma arte. Tem características da mais profunda religiosidade. Cada gesto deve ser aprendido nos seus menores detalhes. Na Inglaterra é pura tradição. Chineses e indianos conferem ao chá os mais altos significados e o seu cultivo vem desde as eras mais remotas. O gaúcho dorme e acorda tomando chimarrão, seu ritual só perde para os japoneses.
O chá é a segunda bebida que mais se consome em todo  mundo. Só perde para a água. Digestivo, refrescante, estimulante, os chás não são todos milagrosos, mas muito são de inegável utilidade para todo o corpo e para todas as idades. Afinal, quem não se interessa em manter por perto a plantinha que ajuda aliviar cólicas, ores, infecções e até impotência? Aliás, a impotência masculina é tratada na flora medicinal com chá de catuaba que contém um grande poder afrodisíaco, infalível no combate a doença que minha avó chamava de “vergonha do homem”. Não há, porém, comprovação científica dessa imposta propriedade ao chá de catuaba. Mas muita gente acredita... Não custa nada tentar ...
E muitos homens quando ouvem o “canto do cisne”, recorrem ao milagroso chá de catuaba, numa esperança de cura. Talvez, influenciados com o apelo bem-humorado de propagandas como a do “Poema do Homem Quando Envelhece”.
Esse porém, muito divulgado, diz mais ou menos o seguinte:— “quando o homem envelhece/ o cabelo embranquece/ a musculatura desce/ o vigor desaparece/ a mulher oferece/ e ele diz: — Ah! Se eu pudesse!/ Mas tomando chá de catuaba isso não acontece!”
Será?...

09/11/2016

A língua dos anjos (Renata Bomfim)


Gruta escura e misteriosa,
onde vivem seres inumanos.
Ouvi palavras inescrutáveis,
línguas cortavam o vento 
como se lambessem
espumas marítimas.
Elas envolveram o meu corpo
sugando-o com as suas ventosas. 
O som podia ser apalpado
de tão real:
     agudo,
    estridente
Dissonância enroscada
formava novelos
cujos fios estavam a meio caminho
da lã e do arame farpado.
Dentro da gruta, eu.
Solidão, detalhe singelo.
Estar só sempre foi rotina na minha vida.
Mas, acabar nesse buraco estranho?
Isso, eu não compreendia.
Porque me foi dado escutar as palavras que ouvi?
Por que me foi permitido sentir mais que os outros e sofrer mais.
Ter a dor por companheira?
Pior é a dor de quem se reconhece só.
Estou dentro do começo do que posso chamar existência,
Dentro do que não tem começo.
TU és o início no fim de mim mesma, talvez o caminho para fora,
ou um contorno na face esquecida pela luz. 
Apalpo letras difusas e as línguas me rodeiam ainda.
Ululantes labaredas de fogo frio e azulado me circundam.
- Deus! é lindo!
Graças! graças! graças por todos esses infortúnios!
Agora posso sentir os ossos rangendo dentro do meu corpo,
Agora sinto o que a vida significa na matriz.
A minha insignificância brilha como o ouro, cintila, e as trevas 
cedem esbranquiçadas como se trombetas da alvorava anunciassem:
O dia vai raiar!
Aleluia! bendita exaustão!
Estou em contato com o pó,
Sou amiga da poeira
Tão nada, nada, nada...
Levei uma vida inteira para compreender
Que o cricrilar do grilo mais miúdo tem a potência
Da nona sinfonia.


RB, Vitória, nov. 2016

  

10º Aniversário Vegano Renata Bomfim (21/11/2016)

Olá amigos,
enfim, chegou novembro e a hora de soprar mais uma velinha. Esse ano o "aniversário vegano" completa a sua décima edição. Nos primeiros anos ele acontecia apenas entre as pessoas mais   próximas, depois de um tempo resolvi abrir a ideia na internet. O pedido dessa poeta amiga de vocês é que no dia 21/11 não comam carne.

A ideia de "um dia sem carne", em 2016, choca menos que há dez anos atrás, especialmente porque hoje estão sendo divulgados de forma mais ampla os benefícios da dieta vegana, assim como os malefícios da ingestão da carne, não apenas mas para a saúde, mas para o planeta.

É sabido que a cada minuto milhares de animais são mortos das maneiras mais terríveis, muitos sangram até morrer, morrem sozinhos, em estado de pânico, afastados de seus familiares e amigos, alguns são moídos vivos ou sufocados até a morte. 

 Diferente do querem que acreditemos, a carne tem pouquíssima proteína, ao contrário dos vegetais que, comprovadamente, são fontes potentes das mesmas. Dados indicam que 100 acres de terra produzem carne para 20 pessoas, enquanto a mesma quantidade de terra produziria grãos para 240 pessoas.

Hoje não podemos deixar de pensar nas reservas de água. Muitas delas são contaminadas com as criações de boi, frango, etc, os desmatamentos seguem essa esteira.E ainda precisamos atentar para o fato de que os animais são seres sencientes, ou seja, capazes de sentir afeto, amor, dor, medo, tem pensamento lógico, memória.

Enfim, é isso,
agradeço desde já os muitos presentes!
beijos da poeta
RB

AGRADECIMENTOS:
Obrigada aos amigos que, mais este ano, aderiram a minha campanha! Eu almocei como uma rainha, um delicioso cogumelo recheado, com salada ao vinho e os indispensáveis arroz e feijão. Enfim, um dia de muita alegria!




30/10/2016

O Bicho (poema Renata Bomfim)

Não como
carne,
Sou de carne.

Executado
nos matadouros,
Todos os dias eu morro,
sou desossado,
ensacolado,
depois vendido,
(barato)
comido
sem cerimônia.

Como eu admiro
os índígenas antropófagos.

La frontera móvil (Alfredo Fressia)

CORTO. Alfredo Fressia. La frontera móvil. from Los Pájaros Ocultos on Vimeo.

Amigos, compartilho esse curta com o amigo poeta Alfredo Fressia.
Um trabalho poético de extrema sensibilidade. RB.

28/10/2016

Verde abacateiro (poemas Renata Bomfim)


 Dedicado ao poeta venezuelano Adhely Rivero 

I- O anjo

Sol do meio-dia,
Quente como o inferno.
Vejo anjos descansando,
Sob a copa do abacateiro.

Suados,
Faces pessegadas,
Saudosos do céu.

Mas, lindo,
Lindo mesmo é o anjo
Negro. Num átimo,
Os movimentos ligeiros.
Produzem frescor.

A visão extasia:
Invergadura, brilho,
Maciez das 
translucidas asas,
Fazem com que eu reze desejosa
Para que ele seja
O meu anjo da guarda.


II- Fome

Quero a tua carne
Tenra.
Sorver o teu dentro,
Conhecer o doce e o azedo.

Digerir certezas
Desfazendo-as uma a uma.
Até que não saibas  nada.

Ah! o choque de sentir
A matéria sutil e bruta
Pelo avesso.

Ouvir a canção decantada
Captar o esplendor
De tua humanidade,
Vê-la emanando das sombras.

Desejo, desejo, 
desejo não desejar nada 
Além do absoluto.



I-                  III - O eterno é contraditório

Uma mesa com objetos.

Há máquinas fotográficas (a)guardando
Imagens magnificas.
- Só interessam a mim.

Ninguém quer saber
     De mim
     Das imagens
Carregadas de afetos.

Há canetas celibatárias.
Anos sem sentir o prazer da folha.

Eu sou o demônio das canetas.

Prefiro rasgar o branco do papel
Com o grafite.
Risco temerário fadado
Ao desaparecimento.

Quando chega o verdugo
(O tempo)
O traçado cede, foge, desaparece.

Essa mesa esteve em outra casa.
Paredes eram amarelas,
Quartos cuidadosamente decorados.
Dos objetos não recordo.
Eu naquele tempo? 
Vácuo!

Fomos assassinados pela memória.


II-                IV- Beijaste a minha boca

Ontem lembrei que um dia
Beijaste a minha boca
Sob o sol
Escaldante
Eu brilhava, você brilhava.
O calor penetrava as nossas carnes
E a brisa do mar temperava as línguas
Com o sal da alegria.

Ontem lembrei
Beijaste a minha boca.
Eu era todas as mulheres,
Era como se empreendesse
Uma viagem por dentro 
Dos órgãos.
Senti conhecidos os tecidos
De minha casa interior.

Por fora eu era apenas
Casca dura de mim mesma.

Beijaste a minha boca
Sob o sol escarlate e lilás:
A tarde eu era tua.
Deitei sobre o leito de rosas
E fizemos amor.

A noite brilhava o difuso
a noite reluziam e latejavam, 
Espinhos de ouro
Cravados nas minhas costas.


III-             V- Somente a ti devo palavras

Aos desafetos
O silêncio do inferno.

Salivei palavras doces quando
O fígado amargava o ódio
Do abandono.
Salivei palavras doces quando
Perdeste o meu nome
Pelas vielas do imemorável.

A semente do abacateiro rachou,
Partiu-se em duas e, do centro,
Uma haste:
O broto desafiou a gravidade.

É grave amar,
É grave desamar,
É grave.

Nasceste dentro de mim
E cresceste para além de mim:
Abacate.

Salivei palavras,
O ódio desapareceu entre as folhas,
Os primeiros frutos trouxeram esperança.

A ti dedico todas as palavras
Macias, delicadas,
Polpudas, excitantes,
Verde-amareladas.

Aos desafetos,
O silêncio do inferno.


IV-             VI- Por que nascemos para amar?

Se essa caixa
Feita de blocos e cimento
Pudesse conter sonhos,
Decifrar desejos,
Se essa caixa pudesse dar
Ao que não tem forma
Um grão de materialidade,
Eu saberia ter uma casa.

Olho para cima,
O infinito indecente se abre
Sobre a minha cabeça,
Mistérios indecifráveis
Pesam e
Sou apenas esse isso:
Empurrada para baixo,
Prensada entre a terra
E o imensurável.



VII- A traça

Meu Deus, que fantasma era aquele
Que subia comigo as escadas da biblioteca,
Deslizando para as estantes de literatura
Devorando livros de poetas?



VIII- Redução

Meus gestos ensaiam
A expressão perfeita.
Olhos e ouvidos buscam
O poema perfeito
     Ritmo, forma...
Mas, os versos se rebelam
Querem o deformado, o feio.
Os versos estão revoltados
Impregnam a folha do papel
Sem o menor respeito,
Fazem com que eu me sinta
Puta barata.
Barata
Rata.



IX- Redução II

Tua carne
Veludosa,
Gracejo
Forma
Mutante
Moldada
Pelo meu desejo.

Corpo âmbar
Quente
Sôfrego
Exalando
Sabores
Aromas
No céu
Da boca.

Tua
Sem ser tua
Minha
Sem me pertencer
Deixo de ser.

Ah! Não peças
Que eu enfeite a mesa
Com flores.
Não queira que
Meus lábios cantem
Canções populares.
Não!

Alegre-se,
Desapareceremos, meu amor!



RB, Vitória, ES, out, 2016.





24/10/2016

El ángel (poema/ Renata Bomfim)

Sol del medio-día,
Ardiente como el infierno.
Veo ángeles descansando,
Bajo la copa del aguacatero.
 
Sudorosos,
Rostros cercanos a la perfección,
nostálgicos del cielo.
 
Pero, qué bello,
Qué hermoso es el ángel
Negro. A cada instante,
Los movimientos ligeros,
Producen frescura.
 
La visión embelesa:
Envergadura, brillo,
Morbidez de las alas, me incitan
A pedir, deseosa,
Que ese ángel sea
Mi ángel de la guardia.



*tradução de Pedro Sevylla de Juana

Fome

Quero a carne tenra:
Teu corpo.

Sorver o teu dentro,
Conhecer a doce e o azedo.

Digerir as tuas certeza
desfazendo-as uma a uma.
Até que não saibas de mais nada.

Ah! o choque
de sentir
a matéria sutil e bruta
pelo avesso.

Conhecer o esplendor:
A tua humanidade.
Vê-la emanando das sombras.

Desejo, desejo, desejo não
Desejar nada além do absoluto.



RB. Vitória, ES, out 2016

José María Zonta foi o ganhador do premio de poesia Manuel Acuña 2016

confira a do poeta ao ao La Nación
Foi com alegria que recebi a noticia que o amigo poeta José María Zonta havia vencido o Prêmio Nacional de poesia Manuel Acuña. Um reconhecimento pelo seu trabalho na divulgação da poesia e também da qualidade do seu lirismo.
Zonta é natural da Costa Rica, doutor em direito e autor de obras em variados gêneros, o poeta também contribui para jornais e revistas de vários países. 
Tive a alegria de conviver com Zonta em três Festivais Internacionais de Poesia em Granada e observar a sua atuação em oficinas e recitais. Seu livro premiado Antología de la Dinastía del Otoño: Poetas de la Dinastía Tang  estende o olhar  para a filosofia oriental e participam dele variados heterônimos criados pelo escritor. 
Zonta não acredita em inspiração, ele estipula tempo para a sua produção como se faz com outros tipos de trabalho, assim, a sua poesia vai sendo construída no dia a dia. 
VOY A HACER EL FAVOR DE AMARTE
yo
nunca me traté con amabilidad
que no me quejé si las botas me apretaban
ni protesté por los millones de desayunos fríos

a partir de ahora
me haré el dulce regalo de besarte
tal vez eso no signifique
que duelan menos las palavras que duelen

ni dejar de cortarme al afeitarme el alma
no importa
yo com mis favores me alcanzo
me pongo una mano en el hombro
un abrigo si llueve
y me ofrezco así a los demás
sin el apoyo del gobierno
pero con el aplauso de las flores
voy a hacerme el favor
de bajar del tren
encender el fuego
y amarte.