17/07/2010

A REMISSÃO DE CAIM

“Amo o canto do Tzentzontle, pássaro de quatrocentas vozes,
amo a cor do jade e o enervante perfume das flores, mas amo mais
a meu irmão, o homem.” (Fragmento de poesia pré-colombiana
 composta por Acolmiztli-Nezahualcóyotl, Rei de Texcoco).


Caim era jovem e costumava passear
pela vasta terra. O paraíso,
mesmo perdido, não se encerrara.
O jovem ousava, como Eva, queria saber, 
descobrir, desvendar, conhecer...

Seu irmão não vira, também, a exuberância
do antes, nem da terra e dos seus frutos queria saber.
Abel desdobrava-se em atenções, para dar ao Absoluto
a oferenda perfeita,  sangue inocente de animal.
Caim não se importava, mas acidentalmente mata
o mais amado, o filho preferido de Adão e de Deus.

Ele correu desesperado ao ver o sangue do irmão
colorindo a terra virgem.  Abel caíra sobre a  faca
enquanto brincavam perto do rio. Caim foi chamado de
assassino, e seu pai, prenhe de fraqueza
culpou Eva, que suportou  mais esta injúria, qual  fortaleza.
A costela envelhecida de Adão não gerava mais vida,
mal sustentando a  palavra esquecida e a carne preguiçosa.

Caim recebeu da Grande Mãe o apoio e implorou perdão,
Abel havia morrido acidentralmente, ele também sofria,
pois perdera o seu único irmão e com ele a fé, a paz e a alegria.
A pecadora mor o acolheu, enquanto o covarde inexpressivo,
em prantos, o amaldiçoava e exigia que partisse para nunca mais voltar.

Caim aceitou a pena do destino, recebeu a marca do ódio,
e desde então vagaria, a ermo.Por onde  passava era reconhecido,
amado e odiado, buscou abrigo no tempo, descansando na errância
acostumou-se ao desprezo daqueles que, iguais, lhe invejavam a diferença.

Antes de morrer decidiu voltar, tinha então setecentos anos.
O  lar lhe era estranho, ou seria ele a se estranhar?
Lembrou-se que havia conhecido a alegria e a desgraça naquele lugar.
Fechou um ciclo, fechou os olhos e sussurrou baixinho: Obrigado!
A terra ouvindo a oração, abriu devagar os braços
e disse: - Filho, vem! deita e descansa.Caim obedeceu,
se deitou onde um dia tombara o Abel,
lembrou-se do irmão com amor e saudades, olhou o céu,
sentiu a brisa e, desde então, passou a sonhar coisas de criança.
bai renata bomfim

16/07/2010

Entre a luz e a escuridão

Entre a luz e a escuridão
há um rasgo,
uma fissura,
Por onde o tempo espia.
De lá se contrai,
em dores, a ternura.
E já nascemos na bruteza,
com um grito embargado na garganta,
que quando liberto,
revela ecos de outras vidas,
palavras-trama e
somos postos entre
o estro e a afasia.
Sempre em busca da beleza,
a alma, só na arte se encontra,
aprende a plasmar a terra e a si,
sua ferramenta, o coração.
E para valiadar a existência,
transforma o caos em esperança,
recria, se pari fora do tempo,
nas asas da poesia.

bai renata bomfim

Africa Maru

As verdadeiras amizades não tem credo, cor, tamanho, posição social. Yumi, Yuji, Yoneyama, Fujimoto, Tukunaga... quanta saudade de todos!


"Africa Maru", 1961, trazia para nosso convívio Yuji Myaoka, um amigo de 26 anos. Quando ele me mostrou esta foto, há dois anos, fiquei fascinada e lembrava-me de meus antepassados, vindo da Itália há mais de um século.
Convivi com japoneses durante muitos anos. A educação, alegria, sinceridade, amizade e respeito mistura-se à cultura deste povo que temos apenas que fazer "mesuras e reverências". Quantas histórias de vida estão contidas numa foto! Em poucos segundos um filme inteiro rodou no meu pensamento!



Sonia Rita Sancio Lóra (Sunny Lóra) é neta de italianos, "nasceu escrevendo" em Santa Teresa-ES. Bacharel em Direito, Secretária Executiva Senior, Tradutora, Professora de inglês, Voluntária da AFECC, poetisa, cronista, contista e declamadora. Academica da AFESL, membro da AVBL – Academia Virtual Brasileira de Letras, AVSPE – Academia Virtual Sala de Poetas e Escritores, Cônsul de Poetas Del Mundo em ZN-Vitória-ES. Sonia publicou vários livros e participou de Antologias (Brasil e Portugal), dentre eles – "Portais da Alma" – 2005; "Lua Perfeita" – 2008 (GSA Editora) e "Antologia de Poetas Luso-Brasileiros- Portal CEN" – 2008 (Editora Blumenau, "Contos de Saudade"- 2010 - Gráfica A1, em parceria com sua irmã Maria Cecilia Sancio Loss). Contribuiu durante vários anos para a seção "Pra Viver, Poesia", do Diário Oficial do Espírito Santo. Seu site é http://www.sonialora.art.br/ , onde reúne vários e-books e grande parte de seu trabalho.

Obrigada pelo texto Soninha e um brinde à amizade!

O BARROQUISMO DE LAS SOLEDADES DE GÓNGORA

Una literatura difiere de otra ulterior o anterior menos por el texto que por la manera de ser leída
Resumo: Pretende-se apresentar o movimento histórico do século XVII na Espanha e a situação político/social que levou o poeta Luis de Góngora y Argote a compor a obra poética Soledades com uma estética elaborada e com um tema adequado às idéias de desilusão com a vida social e política da época.

Palavras chave: Poesia. Barroco. Góngora. Las soledades. Século XVII.

O século XVII foi para Espanha um período de crise política, militar, social e econômica que levou o Império Espanhol a diminuir a sua hegemonia política dentro da Europa. Felipe II, Felipe IV e Carlos II deixaram o governo da nação nas mãos de ministros, como o duque de Lerma, que procedeu, em 1609, a expulsão dos mouros e que teve entre muitos descalabros a ruína das terras de plantio do Levante, e como o duque de Olivares, que levou a Espanha para uma guerra de Trinta Anos, na qual o país sofreu graves derrotas militares. A produção cultural espanhola desse século, pela peculiar situação histórica, refletirá o desequilíbrio histórico com um desenfreado gozo dos prazeres ou com uma expressão de desilusão e desengano. A expressão da crise ideológica e da multiplicidade de estado de espírito do homem será chamada de arte barroca (barroco – significa pérola irregular ou pérola deformada).Assim, a estética barroca refletirá uma época profundamente angustiada, procurando revelar a procura de novidade, de surpresa, e o gosto pela dificuldade; pregando a idéia de que se nada é estável, tudo deve ser decifrado; mostrando a tendência ao artifício e ao engenho e apresentando a noção de que no inacabado reside o ideal supremo de uma obra artística. O período barroco, do final do século XVI ao final do século XVII, foi um produto da evolução das formas do Renascimento na estilização, dinamismo e excesso decorativo e se estendeu a todas as manifestações culturais e artísticas européias e latino-americanas (música, literatura, pintura, escultura e arquitetura), por uma radial desvalorização da vida presente e da natureza humana, e recebeu formas diferentes nas diversas esferas culturais e diversos países. Nesse período, a Reforma de Lutero e Calvino dividiu os cristãos Europeus e, na tentativa de evitar a perda de fiéis, a Igreja Católica criou instituições florescentes na Península Ibérica, como o movimento da Contrarreforma, que criou a Companhia de Jesus e fortaleceu a Inquisição. Por essas razões, enquanto a Europa evoluiu cientificamente, Portugal e Espanha permaneceram defensores da cultura medieval. E na Espanha, mais que outro país, as idéias da Contrarreforma estiveram profundamente enraizadas. Instalou-se na mente de todos a noção cristã do pecado original, surgiu o sentimento de um radical desengano e o conceito de que o mundo era um conjunto de falsas aparências. Contudo, no meio de idéia de desilusão, desengano e desconfiança, instalou-se um desenfreado deleite pelos prazeres sensoriais. Mas como o Rey Prudente, havia morrido (em 13 de setembro de 1598, no Escorial, que ele havia edificado e tanto havia amado), o freio, que sua presença mantinha, se havia partido. Nesse contexto social de mudanças, brilha a arte e a literatura barroca. Para representar o dinamismo da arte barroca buscam-se elementos truncados, linhas arquitetônicas partidas, arcos incompletos, traços ornamentais que se vão apagando, diferentes das linhas clássicas acabadas e perfeitas, e a literatura barroca, para mostrar a insatisfação social, apropria-se da linguagem expressa no exagero, usando figuras de linguagem (hipérboles, metáforas, anacolutos e antíteses). Se cotejamos a arte do século XVI, a renascentista serena e equilibrada, com a arte do século XVII, observaremos que se contrapõem. Por exemplo, os detalhes esculturais do tipo de Bernin, e a forma irregular das estrofes de Polifemo e de Las soledades (As solidões), de Luis de Gôngora, dentro de estética barroca, estão repletos de dinamismo. Enquanto há equilíbrio medido renascentista, nos 10 cantos de Os Lusíadas, de Camões, ou na ordem pictórica clássica e no fundo de paisagem à maneira de Rafael ou de Rubem, na qual podemos inserir a Égloga, de Camões, construída com elementos serenos e harmônicos,. Nessas obras de Góngora encontram-se violentos contrastes no bosque com forte calor que se opõe à sombra, à presença de fortes ventos, de abundantes e enormes árvores, que provocam a imagem de claro escuro, de alusões mitológicas e de faunos dominando a paisagem. Para que o escritor alcance imagens de movimento, os elementos naturais são metamorfoseados: mar, nuvem, crepúsculo – não do gosto romântico de penumbra e mistério, mas da busca da luz para captar as mudanças de movimento de cor, formas fugitivas a ponto de se desfazer e de se recompor. Mas não há nenhuma idéia de meditação romântica diante do entardecer, nem há o retorno da solidão do homem e nem o recolhimento baudelairiano (simbolista), mas um desejo de admirar o espetáculo do entardecer que se oferece e o desejo de poder reter uma parte da luz que dele emana. A idéia da água é um símbolo associado ao mundo e ao movimento. Em Soledad Primera, Gôngora harmoniza a natureza na imagem do oceano, dragão de ouro que investe com tíbia língua nas vestes do náufrago, lançando-o nas areias da praia, onde receberá os raios do sol do entardecer que o vai secando lentamente. (estrofe 5):
Desnudo el joven, cuanto ya el vestido
Océano ha bebido,
Restituir le hace a las arenas;
Y al sol le extiende luego, que, lamiéndole apenas
Su dulce lengua de templado fuego,
Lento lo embiaste, y con suave estilo
La menor onda chupa el menor hilo.
Na idéia de desequilíbrio e grandiosidade o poeta quer mostra a oposição entre a vida na aldeia e na corte e procura elogiar (“alabar”), a simplicidade, a autenticidade da primeira. São constantes as diferenças hiperbólicas, na descrição da plenitude das formas naturais. São muitos os contrastes como o da cor, na brilhante brancura da neve, na vermelha (“coral”) do sangue derramado das feras, numa paisagem abrupta, de montes nevados, onde um caçador fere animais, como o que se encontram nos versos da segunda estrofe de Soledades da parte em que o poeta dedica ao duque de Béjar (Soledad (Al Duque de Béjar- estrofe 2):
ﺃ O tú que de venablos impedido
―Muros de abeto almenas de diamante―,
Bates los montes que de nieve armados
Gigantes de cristal los teme el cielo,
Del cuerno, de eco repetido,
Fieras le expone, que ― al teñido suelo,
Muertas, pidiendo términos disformes ―
Espumoso coral le dan al Tormes!
No início de Soledade Primera há uma alusão ao engano de Júpiter, ao se transformar em touro para raptar Europa, para falar do mês de abril, principio da primavera, ocasião em que no Zodíaco o sol entra em touro (celeste) com os chifres adornados com uma luminosa meia lua no céu azul estrelado. (Soledad Primera – estrofe 1):
Era del año la estación florida
En que el mentido robador de Europa
― media luna las armas de su frente,
y el sol todos los rayos de su pelo ―,
luciente honor el cielo,
en campos de zafiro pace estrellas.
Há imagens hipérbolicas quando, em Soledad Primera, o poeta narra a acolhida que o peregrino náufrago recebe dos pastores. Ele destaca a vida simples pastoril, valoriza-a, moraliza com os constituintes de Narciso (ecos e fontes, etc) e faz a contrapartida da ambiciosa vida da corte, cheia de inveja., representada pela cobra egípcia. Com humor, com a metáfora da esfinge, símbolo da simulação, do engano, critica a presunção das mulheres da corte que colocam defeitos em todos os rapazes. Essa inclinação ao chiste é uma característica conceitual de Gôngora. (Soledad Primera – estrofe 12):
No en ti la ambición mora
Hidrópica de viento,
Ni la que su alimento
El áspid gitano;
No la que, en bulto comenzando humano,
Acaba en mortal fiera,
Esfinge bachillera,
Que hace hoy a Narciso
Ecos solicitar, desdeñar fuentes;
Gôngora recolhe da mitologia as mais belas imagens para as suas referências do real. Assim é que fala de Júpiter touro para roubar a Europa, mas lhe coloca chifres dourados. (Conf. estrofe 1 – Soledad Primera). São muitas as alusões mitológicas nas obras de Gôngora e essa compreensão para nós, que não mais as utilizamos, torna difícil a leitura de seus versos, pois ele não se contenta em citar o mito, mas o transforma ou lhe dá uma de suas características de mais destaque. Assim, ao falar ao falar da inveja palaciana, de uma pessoa má, alude à áspide, uma serpente (Soledad Primera). Enquanto muitos escritores de sua época compunham numa chave bíblica e católica, Gôngora estabelecerá a sua hermenêutica a partir do mundo pagão. Por exemplo, em Soledad Primera para sugerir a densidade e excelência do leite que os pastores oferecem ao náufrago pela manhã ele se refere à concha (cuchara) de Alcimedón, e para indicar a brancura do leite, coloca um enfrentamento de alvura entre o leite e o rosto da Alba (estrofe 15):
Leche que exprimir vi ola Alba aquel dia
- Mientras perdían con ella
Los blancos lilios de su frente bella –
Gruesa le dan y fría,
Impenetrable casi a la cuchara
Del viejo Alcimedón invención rara.
Em Soledad Primera, para descrever a tranquilidade do amanhecer cita a deusa Alba (Aurora) a de rosto tranquilo (estrofe 18):
Durmió y recuerda al fin cuando las aves
- Esquilas dulces de sonora pluma
Señas dieron suaves
Del Alba al sol que el pabelón de espuma
Dejó, y en su carroza
Rayó el verde obelisco de la choza.
Para reforçar o tema da hipocrisia da vida palaciana e da sinceridade da vida pastoril, aproveita-se da lenda das Sereias (Soledad Primera – estrofe 13):
Tus umbrales ignora
La adulación, Sirena
De reales palacios, cuya arena
Besó ya tanto leño,
Trofeos dulces de un canoro sueño
O nome de Luís de Gôngora y Argote (1561-1627), criticado em sua época, pela afetação do estilo, que gerou o "gongorismo", e admirado pela aristocracia e latinistas, no século XX, alcançou expressiva ressonância em todo o mundo. Desde os escritores espanhóis da Geração de 27, e os estudos aprofundados de Damaso Alonso, e a consagração que dele fizeram os simbolistas Verlaine e Mallarmé, tornou-se um mito do gongórico. Gôngora, senhor de dois estilos, um claro, simples, popular e outro culto, retorcido, obscuro, oriundo da nobreza de Córdoba (Espanha), iniciou os seus estudos aos quinze anos na Universidade de Salamanca, matriculou-se em Cânones e estudou Direito, Humanidades e Matemáticas. Em 1580 foram impressos os seus primeiros versos e começou, pouco depois, a tornar-se famoso. Embora tenha recebido ordens maiores, nos seus costumes, Gôngora não parecia um clérigo, pois se relacionava com a gente do teatro, era homem de paixões, amante do jogo e dos touros.. Quando já obtivera renome na poesia, ordenou-se padre, aos 56 anos de idade (1617), e foi ser capelão do rei Felipe III e cônego da Catedral de Córdova. No final de sua vida ele se desligou completamente da rotina palaciana. Há duas obras primas de Gôngora: uma poesia renovada: Fábula de Polifemo y Galatea (1612), fábula mitológica, em oitava real, que continha o tema das Metamofosis de Ovídio e predominavam o exagero, o dinamismo e o contraste, e Soledades (1613), poema concebido para louvar a natureza que causou um grande escândalo na época pelo seu atrevimento. Também escreveu sonetos, mais de 200, de grande beleza pictórica, canções, odas, composições leves e romances e soube ser simples em seus versos sentimentais ou maliciosos. No seu estilo artístico-popular, ou tradicional, predominam as formas de metro curto, letrilhas, endeixas, romances, letras para cantar em redondilha. Gôngora, como muitos poetas de sua época, não editou a sua obra. Depois de sua morte, em, dezembro de 1627, Juan López de Vicuña, amigo seu, publicou um volume de sua lírica, com os dizeres; Obras en verso del Homero español que recogió Juan López de Vicuña. Depois desta publicação, muitas outras apareceram e muitas delas comentadas. Dámaso Alonso, poeta y crítico espanhol do século XX, fez um estudo da obra de Góngora e apontou as inovações de ordem sintática os hipérbatos, próprios da sintaxe latina, destacando a beleza e o valor de cada palavra, os acusativos gregos e os ablativos absolutos, que oferecerão ao período uma obscuridade que se contraporá com a claridade do tema. Federico García Lorca na conferência “A imagem poética e Góngora”, que fez por ocasião das comemorações do tricentenário pela morte de Gôngora (1980, 1 v, p. 1038) declara que: La originalidad de don Luis de Góngora, aparte de la puramente gramatical, está en su método de cazar las imágenes, que estudió utilizando sus dramáticos antagónicos por medio de un salto ecuestre que da el mito, estudia las bellas concepciones de los pueblos clásicos y, huyendo de las montañas y de sus visiones lumínicas, se sienta a las orillas del mar, donde el viento
Le corre en lecho azul de aguas marinas,
torqueadas cortinas.
Literariamente Gôngora teve dois inimigos: Lope de Vega e Francisco de Quevedo. O último o atacou muito duramente com constantes insultos. Gôngora é o poeta castelhano que melhor consegue a criação de uma linguagem poética, enriquecendo o léxico com palavras latinas e gregas. Ele soube unir a imaginação e a inspiração como poucos. Confere aos epítetos um singular valor evocador da emoção pura e possui um sentido sonoro da palavra que aumenta a sua eficácia ornamental. A Fábula de Polifemo y Galatea, de gosto plenamente culterano, escrita em oitavas reais, desenvolve o tema clássico dos amores do ciclope Polifemo e da ninfa Galateia. É o poema de Góngora que melhor apresenta o seu culteranismo, com base no uso frequente do mais violento hipérbato, descrições exuberantes da natureza, alusões mitológicas, riqueza metafórica e estranhos neologismos.
Quando Gôngora escreveu as Soledades, obra inacabada e considerada pr alguns críticos a mais difícil da literatura universal, estava num retiro campestre. Pretendia escrever um grande poema da natureza composto em silvas (versos heptassílabos - redondilha maior- e endecassílabos que rimam em consoante livre, podendo deixar versos soltos sem rima), dividido em quatro partes, correspondentes cada uma à alegoria a uma idade da vida humana e a uma estação do ano. Ele pretendia chamar essas partes de Soledad de los campos, Soledad de las riberas, Soledad de las selvas e Soledad del yermo. Todavia, Gôngora só compôs a dedicatória ao Duque de Béjar e as duas primeiras Soledades, deixando incompleta a segunda, da qual os últimos 43 versos foram acrescentados bastante tempo depois. A primeira Soledad consta de 1031 versos e, o “fragmento” da segunda, 979 versos. A rima utilizada, em silvas, não era nova, mas era a primeira vez que se aplicava a um poema tão extenso. A sua forma, de caráter antiestrófico, era a que dava maior liberdade ao poeta que, dessa maneira, se aproximava cada vez mais do verso livre, e fazia progredir a linguagem poética até extremos que só seriam alcançados pelos poetas parnasianos e simbolistas franceses do século XIX.
Valbuena Prat (1960, p. 227) considera esse poema como uma grande lição de poesia o tema do solitário era de gosto barroco e derivado dos motivos do renascimento do século XVI, mas renovado na tristeza e evasão, motivo prerromântico. Esse tema é menos importante que o lirismo narrativo e palavras e as imagens evocadas das Soledades. O argumento se inspira num episódio da Odisseia, o de Nausícaa: um náufrago jovem, desprezado pela amada, chega às costas de terra desconhecida e é recolhido por uns cabreiros com simplicidade e cortesia e muito maiores que as encontradas nos palácios entre os nobres. Passa a noite na rústica casa onde viviam e pela manhã continua a sua caminhada e encontra um grupo de montanheses que iam para umas boas e levavam muitos presentes.
Para narrar a chegada do náufrago à noite numa praia, o poeta, na segunda estrofe da Soledad Primera, menciona Arión, poeta e músico grego que foi jogado ao mar por piratas e salvo pelos golfinhos enfeitiçados por sua lira (Soledad Primera – estrofe 2):
En campos de zafiro pace estrellas,
Cuando el que ministrar podía la copa
A Júpiter mejor que el garzón de Ida,
- Náufrago y desdeñado, sobre ausente –
Lagrimosas de amor dulces querellas
Da al mar, que condolido,
Fue a las ondas, fue al viento
El mísero gemido
Segundo de Arión dulce instrumento.
Gôngora pinta a aldeia de pescadores como um paraíso terrestre, louva a vida simples e a fartura que nelas havia com as mesas fartas de alimento. Com esse recurso, destaca a diferença das mesas vazias de alimento da cidade, comum na época de crise e, muito a seu gosto, enumera a vida benfazeja dos pescadores.(Soledad Segunda – estrofe 28):
La comida prolija de pescados,
Raros muchos, y todos no comprados,
Impidiéndole el día al forastero,
Con dilaciones sordas le divierte
Entre unos verdes carrizales, donde
Armonioso número se esconde
De blancos cisnes, de la misma suerte
Que galinas domésticas al grano
A la voz concurientes del anciano.
Descreve a hospitalidade dos pescadores, compara o pai familiar a Nereo e para descrever a beleza de suas filhas (as seis Nereidas), numa metáfora oposicional, na qual o mar é estrela e a estrela, mar, as compara a estrelas e a espumas do mar, numa alusão a Vênus, filha da espuma (Soledad Segunda - estrofe 26):
[...] En la plancha los recibe
el padre de los dos, émulo cane
Del sagrado Nereo, no ya tanto
Porque a la par de los escolhos vive,
Porque en el mar preside comarcano
Al ejercicio piscatorio, cuanto
Por seis hijas, por seis deidades bellas
Del cielo espumas y del mar estrellas.
Gôngora vai colocando, nas silvas, os versos italianos, uma sobrecarga de imagens visuais e auditivos, para valorizar o estético decorativo e para destacar o contraste . entre o humano e a natureza. Nota-se, nesse louvor à vida da aldeia, que houve uma intenção de escrever um poema pastoril que Gôngora se alimentou nas Bucólicas de Virgilio, nas Metamorfoses de Ovídio e, principalmente na Égloga II de Garcilaso de la Vega. A maravilhosa natureza arcádica onde o homem é feliz, que Gôngora recria é materialista e epicúrea. Com o recurso da ilusão e do poético, Gôngora procura fazer desaparecer os elementos feios e desagradáveis da vida, dando a ela a atmosfera pastoril da idade dourada virginiana. Em Las Soledades, Gôngora desenvolve o culteranismo com base no uso freqüente do hipérbato e de descrições exuberantes. O valor dessa obra reside no fausto de seus adornos, no brilho de suas metáforas, nos efeitos de luz, de cor e de música e na elegância de sua linguagem e, logo, pelo amor ao belo objetivo, puro e inútil.
Já terminando, ilustramos com o que opina Federico García Lorca sobre a estética gongórica (1980, p. 1037):.
Mientras que todos piden el pan, él pide la piedra preciosa de cada día. Sin sentido de la realidad real, pero dueño absoluto de la realidad poética. ¿Qué hizo el poeta para dar unidad y proporciones justas a su credo estético? Limitarse. Hacerse. Hacer examen de conciencia y, con su capacidad crítica, estudiar la mecánica de su creación.
Un poeta tiene que ser profesor en los cinco sentidos corporales. Los cinco sentidos corporles, en este orden: vista, tacto, oído, olfato y gusto. Para poder ser dueño de las más bellas imágenes tiene que abrir puertas de comunicación en todos ellos y con mucha frecuencia ha de superponer sus sensaciones y aun de disfrazar sus naturalezas. Así puede decir Góngora en su Soledad Primera:
Pintadas aves – cítaras de pluma...
coronban la bárbara capilla,
mientras el arroyelo para oílla
hace de blanca espuma
tantas orejas cuantas guijas lava.
Concluímos que acertado é o aforismo de que o meio modifica o homem, pois a conturbada situação socio/política do século XVII, sem dúvida, foi a alavanca que provocou a estética elaborada, ou o barroquismo, de Gôngora.

REFERÊNCIA
ALONSO, Damaso. Poesia espanhola. Ensaio de métodos e limites estilísticos. Direc. Celso Cunha. Madrid: Instituto Nacional do Livro, 1960, p.287-295.
GARCÍA LORCA, F. OBRAS COMPLETAS. Recopilación, cronología y notas de Arturo del Hoyo. Prólogo de Jorge Guillén. Madrid: Aguilar, 1980, 1 v.
GONGORA Y ARGOTE, Luis. Disponível em: http://www.cervantesvirtual.com
VALBUENA PRAT, Ángel. Historia de la Literatura Española. Barcelona: Gustavo Gili, 1960. 2 v..

Ester Abreu Vieira de Oliveira
Ester Abreu Vieira de Oliveira nasceu no município de Muqui, no Estado do Espírito Santo, em 31/01/1933. Veio para Vitória onde obteve os títulos de Bacharel e Licenciado em Letras Neolatinas. Recebeu votos de louvor em 1981, 1995, 1997 e 1999 da Câmara Municipal de Vitória; 1985 do Centro de Artes da UFES; 1986 e 1988 do Colegiado do Departamento de Línguas e Letras; 1994 dos Formandos do Curso de Letras - Português; 1995 da Embaixada de Cuba e do Conselho Universitário - UFES; 1996 do DLL-Ceg-UFES, Nome ao Prédio de Idiomas - Ester Abreu Vieira de Oliveira; 1996 e 1997 da Câmara de Pesquisa PRPPG - UFES; 1997 do Departamento de Admissão à Graduação - DAG/Prograd; 1997 da Câmara Municipal de Vitória Estado do Espírito Santo - Departamento de Atividades Legislativas, 1125/97; 1998 do CNPQ, Of. Pre 1597/98 Brasília 26 de outubro, como pesquisadora; 1998 da Casa da España do Estado do Espírito Santo. Recebeu homenagens de várias entidades em: 1983 - Prêmio Publicação DEC - para o livro Momento; 1985 - Menção Honrosa da Academia Espírito-santense de Letras no Concurso de Poesia Alvimar Silva para o livro Momentos; 1986 - Prêmio Publicaçãoda Shogum Arte para a antologia Poetas Brasileiros de Hoje - poema "Pássaro na gaiola"; 1987 - Medalha de Ouro - UFES pelos serviços prestados; 1992 - Prêmio "Miguel Hernández", instituído e promovido pela Consejería de Educación da Embaixada da Espanha no Brasil e da Associação de Professores de Espanhol do Estado do Rio de Janeiro, sob o pseudônimo de Josefina Nogueira com o trabalho monográfico "Miguel Hernández": aspectos de sua vida e época; 1995 - Indicação como candidata da UFES para o Prêmio Internacional da Universidade de Salamanca "Elio Antonio de Nebrija"; 1996 - Participação no IX Concurso de Poesia; 1996 - Academia Petropolitana de Poesia Raul de Leoni com a poesia "Saudade em uma fria madrugada; 1996 - Medalha Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo por participar da Comissão Julgadora do Concurso de Monografias; 1999 - La Presa de la Tortuga de don Juan, "símbolo de la paciência en el difícil arte de la seducción" recibida da Fundación Cultural Don Juan, A.C. Zapopam, Jal. México; 1999. Participou de vários encontros, jornadas e seminários, como debatedora, coordenadora, de mesas redondas, conferencista, representando o Espírito Santo, a Universidade, no país e no estrangeiro. Assumiu cargos administrativos: de direção, chefia, e coordenação. Participou em Bancas examinadoras no Estado e fora dele. Idealizou e coordenou vários cursos e congressos, oferecidos à comunidade. É membro fundador da Associação de Professores do ES e sua Presidente por três biênios. Faz parte de instituições internacionais e capixabas , tais como Academia Feminina Espírito-santense de Letras onde ocupa a cadeira n.31 cuja patrona é Vilma Almada é também membro da Academia Espírito-santense de Letras onde ocupa a cadeira nº 27 cujo patrono é Afonso Cláudio de Freitas Rosa, do Instituo Histórico e Geográfico do Espírito Santo e membro fundador da Associação de Professores de Espanhol - ES, Associação Brasileira de Hispanista, Associación de Lengua y Filologia de América Latina,da Associação Brasileira de Literatura Comparada, de Trois Culture Méditérranée, da Associação Internacional de Hispanista e é titular da Câmara de Literatura do Conselho Estadual de Cultura e da Comissão de História na Lei Rubem Braga. Recebeu o título de cidadã vitoriense em 1995. Colaborou intensamente em livros, revistas e jornais com textos didáticos, ensaios e poesias.

Essa super poderosa é a orientadora do meu doutorado!!!
Obrigada Ester por ter disponibilizado este estudo maravilhoso para as postagesn do dia do amigo.

Wanda

Wanda,
Anda,
Canta,
Conta,
Conta uma história ,
Aquela da fada
que vive escondida,
Canta a cantiga
prá eu dormir.
Wanda,
Anda,
Canta,
Conta,
Deixa eu sonhar
que sou pequenina,
Que pulo em teu colo
e me enches de amor.
Deixa eu vibrar
com reis e rainhas,
duendes e lobos
e não sentir dor.
Wanda,
Anda,
Canta,
Conta,
Não deixa eu te ver
Perder-se num mundo
Escuro e secreto,
Um mundo só teu.
Olha de novo
Pr’ aquela menina
Que chora de longe
Por não te ver mais.
Anda
Wanda
Canta,
Conta,
Levanta daí
Não apronta!
*Tributo a uma doce amiga que se foi: minha avó Wanda Gattai

Silvana Sampaio
Silvana Sampaio nasceu em São Paulo, capital do Estado de São Paulo, em 18/10/1952. Formada em Artes Plásticas pela FAAP - SP, e pós-graduada pela Universidade Cândido Mendes, RJ. Atua como professora de Artes. Descendente de uma linhagem de contadoras de histórias dedica-se a essa prática desde adolescente, com seus alunos, e em bibliotecas, livrarias, congressos, clínicas psiquiátricas e de quimio-dependentes, praças e museus. Membro do PROLER (incentivo à leitura) da Biblioteca Nacional, participou do projeto Viagem pela Literatura, pela Secretaria Municipal de Cultura de Vitória e da I Bienal Capixaba de Livros. Publicou crônicas nos jornais A Gazeta e A Tribuna de Vitória, nas revistas Dois Pontos e Você (UFES), e na série Escritos de Vitória. Participou, com poemas,nas IV e V Coletâneas Capixabas do Varal de Poesias. Recebeu o 1º Prêmio de Literatura Infantil promovido pelo Departamento Estadual de Cultura - DEC, com o livro Aventuras de um Vermelho Inquieto. Membro da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, onde ocupa a cadeira n. 37, cuja patrona é Léa Penedo.

Texto enviado em comemoração ao dia do amigo... Valeu Silvana!

Soneto do Amor III

(ou SONETO DO AMOR DE AMIGO)

Amo-te assim, mas tão especialmente
Que às vezes só em ti encontro abrigo
Coisa tão sublime e tão diferente
É a ágape do amor de um amigo!

Eu sinto um bem-querer de ser amado
Que se confunde até com uma irmandade
Gosto de ter-te sempre do meu lado
E desfrutar assim da tua amizade!

Posso confiar em ti - até a morte!
Meu escudeiro pela eternidade
Pois sei que em ti amigo encontro norte

E para ti, não prometo – eu juro!
Que tens em mim amigo de verdade
Que tens em mim também porto-seguro



Anaximandro Amorim:
Anaximandro Oliveira Santos Amorim nasceu em Vila Velha-ES, a 14/12/1978. Advogado, bacharel em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), pós-graduado em Direito pela Escola da Magistratura do Trabalho (EMATRA) e Mestrando em Planejamento Tributário pela Fundação Instituto Capixaba de Pesquisas em Contabilidade e Economia (FUCAPE). Membro da Associação dos Professores de Francês do Estado do Espírito Santo (APFES). Recebeu a 4a. Menção Honrosa na Antologia da SSR Editores -Porto Alegre-RS, em 1997, com o poema "Hai-kai de papel". É membro-fundador da Academia Jovem Espírito-santense de Letras desde 23/06/2001, ocupando a cadeira n. 03, cujo patrono é Atílio Vivácqua. Membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras - ACL. Membro do Conselho Estadual de Cultura, na câmara de Literatura e Biblioteca (gestão 2010 - 2012). Ex-membro da câmara de Literatura da Lei Rubem Braga (gestão 2004). Ex-apresentador do programa "Jovens Escritores", no canal a cabo DTV, primeiro programa local dedicado à literatura capixaba. Membro da Academia Espírito-Santense de Letras (cadeira 40, patrono Antônio Ferreira Coelho).

Texto enviado pelo amigo poeta em comemoração ao dia do amigo! Obrigada!!!!

A mulher na sociedade portuguesa: o caso de duas alentejanas: Florbela Espanca e Adelaide Cabete

O Alentejo, uma das maiores e menos habitadas regiões de Portugal, revela-se, no começo do século XX, (em meio a um grande analfabetismo feminino) com duas grandes figuras alentejanas, no meio cultural português: uma nas Letras e outra na Medicina. Na medicina nos deparamos com a figura de Adelaide de Jesus Damas Brazão (Adelaide Cabete), que nasce na freguesia de Santa Maria de Alcáçova, concelho de Elvas, a 25 de Janeiro de 1867, tornando-se uma defensora pela implantação da República Portuguesa.

Porém, sofrendo com a falta de expressão e liberdade parte para Angola, em 1929, como quem almeja à liberdade nas suas mais profundas raízes. Vale destacar que apesar das poucas condições de sua família alentejana Adelaide Cabete (apelido que herda do marido Manuel Ramos Fernandes Cabete) sempre se mostrou apta aos estudos e desenvolve, mesmo a viver na pobreza, quase como um auto-ditatismo, uma formação escolar, tornando-se uma das primeira médicas a exercer a profissão em Lisboa. Segundo Isabel Lousada , Adelaide Cabete defende que se não for possível à mulher grávida ter uma profissão menos fatigante deveria a sociedade, no mínimo, prover para que as mulheres grávidas pobres tenham repouso durante uma parte da gravidez. Esta defesa faz com quem possamos considerá-la como a pioneira na defesa pela licença de maternidade e assistência pré-natal, na esteira do combate contra a elevada taxa de mortalidade infantil. Republicana fervorosa, feminista consciente, maçónica por opção, Cabete torna-se assim uma das mulheres pioneiras em Portugal e uma alentejana que superou todas as dificuldades para construir uma carreira sólida e de grandes lutas ideológicas, vindo a morrer em pleno Estado Novo, de ataque cardíaco, em sua residência em Lisboa, no ano de 1935.
É justamente no ano de 1930, em Matosinhos, que vem morrer, possivelmente por uma dose excessiva de anti-depressivos, também outra alentejana ilustre: Florbela Espanca.
 Mas o que diferencias essas mulheres alentejanas, além da profissão, é a estabilidade emocional e amorosa. Florbela, como se sabe, nasceu em Vila Viçosa, em 1894, e desde o seu nascimento notamos, através de sua estrutura familiar, as dificuldades e tragédias que permeariam sua vida. Observada a estrutura da família e sociedade alentejana Agustina Bessa-Luís refere-se que a base desse meio parece debater-se sobre dois conceitos de duas sociedades que prevaleceram no inconsciente colectivo da região:
a sociedade céltica, baseada no domínio comum das terras, e a sociedade romana, baseada na posse de terras por um ou vários donos. Ainda que inserida numa sociedade patriarcal, a mulher desfruta duma influência manifesta dentro da lei jurídica celta. Podia escolher marido, e o próprio casamento não tinha carácter sagrado; era um simples contrato, cujas clausuras, uma vez desrespeitadas, permitiam um divorcio fácil. Era a face o que simbolizava o pudor. Actualmente, tanto no Alentejo, como no Algarve, ainda se usa a expressão «perder a cara» como significado de perder a hora. Nas mesmas províncias subsiste certa ausência de preconceitos sexuais, que nos reporta à primitiva moral celta. Hesitantes entre a monogamia e a poligamia, explica-se desse modo a sua propensão ao divórcio. Até uma espécie de casamento colectivo era consentido. Mergulhando nas profundezas dos costumes dos velhos grupos tribais, em que se inscreve possivelmente a tendência duma libido e o que nos parece a heresia duma ética, podemos ver mais claro o círculo familiar dos Espanca.
Ou seja, é exactamente este situação do pai de Florbela: João Maria Espanca, era um “Dom Juan”, e matinha com a mãe de Florbela um relacionamento amoroso, tendo como outro fruto mais um filho, Apeles Espanca (10 de Março de 1897). Este relacionamento extra-matrimonial era conhecido por sua esposa “oficial”, Mariana Inglesa, que não podia lhe dar filhos. Desta forma, Florbela foi criada passando meses com a mãe biológica (que trabalhava como empregada na casa de seu pai) e outros com o pai e a madrasta. A perfilhação só acontecerá após a morte da poetisa, e do seu irmão, em 1949.
Florbela Espanca destacou-se tanto em suas produções que até houve uma suspeita de plágio ao considerarem os seus versos cópias. Assim responde a poetisa numa carta endereçada à directora do Suplemento Modas & Bordados de O Século, Madame Carvalho: “Tenho a consciência absoluta dos versos serem meus, sim, Madame, pois que a meu ver é uma indignidade revoltante firmar, com o próprio nome, versos alheios;” Neste caso fica clara a suspeita de plágio: uma mulher poderia escrever, em Portugal, no começo do século XX, algum texto de qualidade literária?
Entre malogros na vida de Florbela sucede-se três casamentos mal fadados e ao contrário do que aparenta, o casamento para Florbela não se constituía uma leviandade. Basta lembrarmos uma das cartas da poetisa endereçadas ao seu irmão, Apeles, em 1923, na qual relata que seu segundo casamento, com o alferes da artilharia, António Guimarães, se baseava numa relação de convenção social e de muito sofrimento, por isso recusa o papel de submissão que é dado às mulheres e viola as normas sociais vigentes, desejando pela segunda vez a separação:
Eu deixei que tivesses da minha vida certeza de felicidade que ela de forma alguma possuía; nunca me ouviste uma queixa, nunca ninguém me viu uma lágrima, e no entanto a minha vida há 2 anos foi um calvário que me dá direito a ter razão e a não envergonhar de mim. Sofri todas as humilhações, suportei todas as brutalidades e grosseiras, resignei-me a viver no maior dos abandonos morais, na mais fria das indiferenças; mas um dia chegou em que eu me lembrei que a vida passava, que a minha bela e ardente mocidade se apagava, que eu estava a transformar-me na mais vulgar das mulheres, e por orgulho, e mais ainda por dignidade, olhei em frente, sem covardias nem fraquezas.
Apesar de todo o carácter repressivo e preconceituoso da sociedade portuguesa, sua dignidade enquanto mulher, que não quer se sujeitar às brutalidades do marido, e o aparecimento de um novo amor (o seu terceiro marido, o médico Mário Lage) falam mais alto e Florbela se justifica ao irmão da seguinte forma:
Pensei na sociedade, pensei na família, nas relações, nos amigos e principalmente em ti, mas que queres? Eu não podia sacrificar-me a isso tudo que é muito, mas que é nada comparado a isto que eu sinto.
Tanto Florbela Espanca, como Adelaide Cabete foram pioneiras ao enfrentar o preconceito masculino: tanto em relação ao trabalho médico, quanto em relação às produções literárias que eram quase que funções masculinas. As duas alentejanas, cada uma a seu modo, tiram o “véu” com o qual a sociedade veste a mulher, tornam-se assim mulheres activas, pensadoras, produtoras. Florbela foi mais além, ao pôr fim a três casamentos infelizes, não aceitando estar ao lado de um homem sem o amar. Pioneiras tanto na vida, como o que deixaram de herança em escritos, observamos que essas mulheres alentejanas ultrapassaram às barreiras históricas do seu tempo, projectando-se séculos à frente, como quem almeja a busca pelo infinito, pela igualdade entre os sexos, pela justiça da sociedade e pela dignidade feminina.

Referências:

LOUSADA, Isabel, Adelaide Cabete (1867-1935). Colecção fio de Ariana. N.º 6. Lisboa: Comissão para a Cidadania e Igualdade de Gênero, 2010.
SILVA, Fabio Mario da, "A mulher na sociedade portuguesa: o caso de duas alentejanas", in Diário do Sul, ano 41, n.º 11.160, Évora, 18 de março de 2010, p.6.

Fabio Mario da Silva é graduado em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru(Pernambuco), mestre em Estudos Lusófonos e doutorando em Literatura pela Universidade de Évora (Portugal). Também é pesquisador do CNPq, com um projeto intitulado "Aproximações regionais: Alentejo Português e Nordeste Brasileiro - Florbela; romanceiros e romance sergipanos", sediado na Universidade Federal de Sergipe, sob a orientação da Professora Doutora Maria Lúcia Dal Farra. É Membro do grupo de pesquisa - avaliado pela Fundação de Ciência e Tecnologia de Portugal - CEL (Centro de Estudos em Letras), pela Universidade de Évora e Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Atualmente leciona, na Universidade de Varsóvia(Polônia), como Professor Convidado, as disciplinas de Literatura Brasileira, Portuguesa e Africana em Língua Portuguesa. Com uma formação interdisciplinar vem dedicando-se também ao estudo/ensino da história da língua portuguesa e do português instrumental, bem como da pesquisa metacrítica da obra de Florbela Espanca. Atualmente aprofunda-se no estudo da teoria da poesia, da autoria feminina, da literatura africana em língua portuguesa, tendo como objetivos atuais pesquisar a literatura de cordel. É o prefaciador das obras de Florbela Espanca, Basílio da Gama, Mario de Sá-Carneiro e Bocage pela Editora Martin Claret (São Paulo), como também é responsável pelos estudos e biografias de literatura portuguesa da Editora Claret.

TEXTO ENVIADO PELO AMIGO PESQUISADOR EM HOMENAGEM AO DIA DO AMIGO

14/07/2010

Novas acadêmicas da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras/ES

Olá amigos ontem (13/07) foram eleitas três novas acadêmicas para  as cadeiras de n° 16, 39 e 40 da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras,  e tenho a felicidade de ser uma delas. As amigas e escritoras Maria Esther Tourinho  e Sônia Rita Sancio Lóra, que eram acadêmicas correspondentes, foram efetivadas e completaram o quadro. Deixo aqui o registro da minha alegria por integrar este grupo de mulheres que tanto admiro pelo trabalho que realizam produzindo e divulgando a literatura. Meu agradecimento às amigas Karina, a professora Ester, a Thelma, a Silvana, a Fernanda, enfim... grandes incentivadoras . Um agradecimento especial ao elemento masculino (que não pode faltar), a Luiz Bittencourt, esposo querido, que apoia todas as minhas idéias até mesmo as mais loucas, dedico a ele mais essa conquista! A posse será na primeira quinzena de novembro. Na foto da esquerda para a direita: Ester, eu e Soninha

10/07/2010

Terra

Amo a Terra,
 das entranhas ao infinito, 
e aos seus arabescos
conflitantes
divinamente pintados
em aquarela.

09/07/2010

A solidariedade chega aos animais flagelados do nordeste

Humanos e Animais , vítimas de uma mesma tragédia, sofrendo as mesmas dores, sentindo o mesmo frio, o mesmo medo, a mesma fome.... Mais de uma tonelada de ração animal, doada pela Mars,fabricante da marca Pedrigree e 500 doses de vacina Recombitek,doadas pela Merial já chegaram às principais áreas atingidas. Em parceria com a WSPA, entidades de proteção animal das regiões(com destaque para AADAMA) junto com as secretarias de saúdes dos estados, estão fazendo chegar até os animais vitimados, os primeiros socorros. A ajuda humanitária chega atrazada, mas chega. Muitos animais terão mais uma oportunidade de se manterem vivos e aguardarem dias melhores que certamente virão. Tragédias como essas nos levam a pensar sobre a nossa imponderável fragilidade perante uma natureza poderosa e agredida, que na verdade apenas se defende....A AMAES, relatando esses fatos para todo nosso mailing, deseja convencê-los de que nossa civilização ainda tem a chances de construir uma sociedade melhor e justa para Todas as Formas de Vida do Planeta. Temos vivos em nossas entranhas o vírus da fraternidade. E isso é alentador. Todos nós merecemos: Humanos, Animais e Natureza !!!

AMAES-ASSOCIAÇÃO AMIGOS DOS ANIMAIS DO ES
Diretoria de Comunicação
http://www.amaes.org.br/

04/07/2010

Semana de Letras da Faculdade CESV

Olá amigos internautas, parodeando Tzvetan Todorov, "eu amo a literatura porque ela me ajuda a recriar a vida". Bem, nesse encontro na CESV encontrei escritores e alunos de letras/literatura muito empenhados em repensar a literatura sob variados aspectos. Tive a alegria de ministrar uma palestra sobre a importância das narrativas na contemporaneidade, ou seja, repensar a contação de histórias no século XXI? E pude também falar do Mina, meu livro de poemas. Agradeço a Fernanda Hott (Coordenadora do curso de letras da CESV e escritora) pelo convite e espero que espaços desta natureza se abram cada vez mais.
abraços
Renata Bomfim

02/07/2010

CARTA A PILAR

Amigo internauta, este texto me foi enviado por Maria Lúcia dal Farra, amiga e crítica literária, foi escrito por Inês Pedrosa outra estudiosa da literatura. Ele é dirigido à Pilar, viúva de Saramago, e encanta tanto pelo conteúdo, quanto pela forma poética e sensivel com que foi escrito. Espero que apreciem esta maravilha.


CARTA A PILAR
Só isso se guarda: o amor e as palavras

Cariño. Na hora da morte a língua some-se-nos para falar aos vivos mais amados por aquele que acaba de morrer. Ao lado do corpo de José contavas que uma amiga te dissera: «Faltam-me as palavras: Saramago levou-mas todas». A mim sobrou-me uma palavra da tua língua: cariño. Em português esta palavra não é um vocativo, uma declaração de presença – é um sentimento abstracto, uma espécie de amor de segunda, um pedido de desculpas por não ser mais do que isso. Exageramos nos sentimentos fracos e nas desculpas, deste lado da Ibéria. Nisso, o teu José era muito espanhol, mesmo antes de te conhecer. O amor começa sempre antes.

A televisão, que desdenha a literatura, convocou um desfile de escritores para falar de Saramago. Disseram-se coisas belas e verdadeiras: que este escritor recuperou o barroco do Padre António Vieira de uma forma moderna, em alegorias transbordantes de imaginação, instigando o desassessego do pensamento. Mas estas coisas belas eram sempre interrompidas pela pequena história da politiquice e da beatice: o sub-secretário que entendeu vetar um livro do Escritor para um prémio, escandalizado com o seu Cristo demasiado humano. Que interessa a sub-pessoa diante da grandeza da obra? Que interessa a aflição das hierarquias do poder terreno da Igreja – penoso, vergonhoso, o texto do jornal oficial do Vaticano sobre o Nobel português, nesta hora que pedia respeito e compaixão - diante do entusiasmo divino com que milhares de católicos leram O Evangelho Segundo Jseus Cristo e Caim? Que interessa a mesquinhice humana na hora da morte do criador de Ensaio Sobre a Cegueira? Que importa o lugar onde hão-de ficar as cinzas? Os grandes escritores não se desfazem em cinzas, é isso que os pequenos poderes não lhes perdoam: o facto de serem imortais, e de continuarem a apontar-lhes o dedo e a desmanchar-lhes as poses, página a página, palavra a palavra.

José Saramago não tinha medo das palavras. Foi através delas que, como leitor, se fez homem, e depois – muito depois – como escritor, se fez livre. Creio que o facto de morar parte do tempo em Espanha, por amor a ti, o ajudou a ser cada vez mais livre. Mais do que isso: tenho a certeza de que o amor que viveu contigo, em ti, por ti, o tornou mais livre. Via-se nos olhos dele. Via-se que te amava com orgulho e admiração pelo teu percurso humano e jornalístico, pela solidez e autonomia da tua voz – porque tu, Pilar, nunca foste a mulher-sombra. Nem ele, honra lhe seja, alguma vez gostou de mulheres assim. Por isso as mulheres dos seus livros vivem entre nós como heroínas que nos incitam nos momentos de fraqueza – enérgicas, lúcidas, luminosas, buscadoras incansáveis da justiça e da alegria. Admiravas o escritor, correste para Lisboa ao seu encontro depois de leres essa elegia à cidade de Pessoa que é O Ano da Morte de Ricardo Reis. Olharam-se e ficaram um do outro, de imediato e para sempre. Esse vosso romance – que acenderia, de muitas maneiras e através de variados enredos, muitos livros de Saramago – tem-me servido de sol de recurso através dos variados temporais da existência. A própria biografia de Saramago, em particular o seu trajecto de escritor - tardio, lento e feliz – é uma lição e um exemplo, em tempos de pressas sôfregas e génios quinzenais.

Lembro-me desse momento fulgurante em que o Nobel foi anunciado, lá na Feira de Frankfurt – lembro-me das lágrimas de felicidade de Lídia Jorge, abraçando-me. Lembro-me de Agustina pedir lagosta e champanhe para comemorar esse Nobel – Agustina sobre a qual, como tu recordaste publicamente, Saramago escrevera páginas de louvor na Seara Nova, nos idos de sessenta, quando era politicamente incorrecto dizer que ela era uma escritora de génio. Lembro-me da forma como José partilhou o Nobel, dizendo-se herdeiro de uma tradição de grande Literatura e mencionando vários outros nomes de escritores de língua portuguesa seus contemporâneos que o mereceriam. Ele continuará a existir em ti, porque o amor tem o dom de permanecer debaixo da pele e no brilho dos olhos de quem o guarda. Só isso se guarda: o amor e as palavras. A coragem de os viver por inteiro. O amor e as palavras exigem coragem, cariño. Tu sempre o soubeste, como ele.

Inês Pedrosa

01/07/2010

O Evangélio segundo Saramago e Portugal e Saramago

Se o Paraíso for aquele Spa eterno que os seus promotores divulgam, os escritores ateus estarão entre os seus primeiros condóminos – não só pelo inferno que já viveram na Terra por causa dos céus alheios  (Salman Rushdie que o diga) mas também porque não podem, honestamente, confessar-se pecadores. Prevaricadores, insubmissos, revoltados, enganados, equivocados – talvez. Mas nunca pecadores. Sendo o pecado um filho subjectivo da culpa, a culpa uma filha objectiva do verbo pecar, necessitando os verbos de sujeito para se poderem conjugar, aqueles que não se tenham sentido jamais sujeitos do verbo pecar podem declarar-se, em verdade e consciência, livres de pecados na fronteira do Céu – até porque não acreditam nele. Nesse Paraíso possível, José Saramago será condecorado com a medalha de mérito S.Tomé: escrever para crer. Além do avassalador Evangelho Segundo Jesus Cristo e do fulminante Caim, Saramago publicou duas excelentes peças de teatro, hoje muito esquecidas, em torno do tema religioso : A Segunda Vida de Francisco de Assis (Caminho, 1987) e In Nomine Dei (Caminho, 1993).

A primeira destas peças é uma parábola: Francisco funda uma Companhia e lança-se ao mundo, pregando o despojamento. Quando regressa encontra donos em vez de companheiros e uma empresa ferozmente rica no lugar da pobre Companhia. In Nomine Dei anuncia grande tema do início do milénio: o fanatismo religioso. Desta vez, o escritor preferiu recorrer à força metafórica do documental: reconstituiu teatralmente a guerra santa que dizimou a cidade de Münster, na Alemanha, entre 1532 e 1535. O texto demonstra-nos como o Deus Uno pode escaqueirar-se e servir de pretexto à vontade de matar oculta sobre a vontade de poder.

Ateu? Exactamente, com a dor do cruel a – prefixo de negação, instaurador de um sentimento de inacessibilidade – que afasta o arroubo dessa desistência de ser: teu. Os verdadeiros ateus não se proclamam nem se dão ao trabalho de buscar nos olhos dos homens reflexos de céu. Em José Saramago - Entre a História e a Ficção: Uma Saga de Portugueses (Dom Quixote, 1989) Teresa Cristina Cerdeira da Silva anotava que o narrador de Memorial de Convento « não desacredita em milagres, mas são, esses, milagres do homem, e não de Deus.» Todavia, Blimunda via através dos corpos e depois Joana Carda riscou o chão e a terra fendeu-se. Amén.

Em verdade vos digo que Saramago foi – com Vergílio Ferreira, embora por caminhos opostos – o interlocutor literário de Deus no Portugal contemporâneo. Ambos colocaram no centro do seu altar reflexivo as relações do homem com Deus, ou com a sua divina ausência. Não se trata aqui de recordar o postulado romântico segundo o qual a escrita é sempre uma forma de religião. De muitos pecados poderá ter sido José Saramago acusado ( embora acusar, como o próprio Saramago repetidas vezes nos lembrou, seja um acto indigno de cristãos), mas nunca de perfilhar os princípios do romantismo. Os românticos desenham o passado como um mito côncavo onde moram. Saramago era marxista: sabia que a matéria se transforma para sobreviver, que é preciso destruir as correntes da antiquíssima morte que fabrica o presente para criar o fim da História. Saramago era feminista, como acabam sempre por ficar os seres humanos inteligentes depois de lerem a Bíblia com atenção. Elas estão-lhe antes do Verbo, nesse silêncio de liberdade absoluta onde os livros insolentemente principiam. Elas representam sempre a margem da ordem estabelecida; esquecidas pela acção dos homens, tornaram-se guardiãs da inutilidade que é a única balança fiel no pesar de pensamentos e justiças. Não se trata, nunca, em José Saramago, de considerar as mulheres como seres biologicamente programados para a Ética, a Intuição, as Rendas & Bordados e os Grandes Valores. Trata-se sempre de parar o olhar sobre o que resiste ao tempo, o que a velocidade da História esconde. E de verificar, através do simples método intelectual do bom senso, que o poder é o mais eficaz corrosivo. É só por isso que as almas em bom estado de conservação, nos seus livros, pertencem quase sempre a mulheres. Sem paternalismos, graças a Deus.

PORTUGAL E SARAMAGO

A língua é a única pátria que um escritor digno desse nome pode reconhecer como sua – Saramago pertence à Língua Portuguesa, é essa a sua terra. Terra que, aliás, nunca abandonou; mantinha uma casa no centro de Lisboa, onde estava muitas vezes; ainda há meses ali conversei com ele e com Pilar, a sua mulher, que o Escritor amava com esse amor raro e imorredoiro, que é o que inclui a profunda admiração. O encontro com Pilar – fulgurante encontro, que se seguiu à publicação de O Ano da Morte de Ricardo Reis – tornou-o também espanhol, é certo, porque amar alguém é deixarmos que nos entre na pele e no sentimento a inteligência singular dessa outra pessoa, o seu modo de estar no mundo, a sua língua. Muitas vezes Espanha acolheu Saramago melhor do que Portugal. O provérbio que diz: «ninguém é profeta na sua terra» nasceu precisamente dessa sombra perversa que o patriotismo gera, uma espécie de nuvem de afronta, ressentimento e complexo de inferioridade que o génio, por si só, provoca.

Saramago, ainda por cima, fazia de facto sombra, porque não era um escritor ensimesmado, alheado do mundo que o rodeava. Diz-se que foi por causa de O Evangelho Segundo Jesus Cristo vetado para um Prémio Europeu por uma sub-pessoa

( as pessoas censurantes nunca são pessoas inteiras) que fazia de sub-secretário de Estado da Cultura que Saramago se zangou com Portugal. Mas isto é falso: José Saramago nunca confundiu o país com os seus mandaretes, coisa que os mandaretes, aliás, fossem de que cor política fossem, nunca lhe perdoaram. Os políticos estão sempre inchados de si mesmos e dos seus interesses e Saramago sabia-o bem. Por isso nunca se deixou utilizar, nem calar. Dizia o que pensava e pensava com uma liberdade cada vez mais ampla. Os seus romances provam-no. Nos livros que devorou, como autodidacta puro, na juventude, o Escritor aprendeu a conhecer-se e a tornar-se Escritor. Nos livros que escreveu, já homem maduro, aprendeu a conhecer o mundo e a libertar-se de si mesmo e dos limites das suas próprias ideias. Nenhum país aguenta a liberdade dos artistas que gera, quando essa liberdade é inteira – há-de sempre tentar domá-los, domesticá-los, encolhê-los à dimensão das suas fronteiras.

Em Espanha, dizem-me, Saramago era felicitado nas ruas, uma pop-star. Em Portugal não temos o hábito de abordar as estrelas quando nos cruzamos com elas – em grande parte por pudor, o que nos fica bem. A outra parte é feita de inveja e despeito, o que nos fica muito mal. Mas durante a última década, ano a ano, eu vi Saramago receber banhos de multidão na Feira do Livro de Lisboa - para desgosto de outros colegas de letras, muito pouco camaradas, mas isso é igual em todas as geografias. Nunca faltava às Feiras do Livro portuguesas, como nunca deixou de ir onde o chamavam, de Norte a Sul do país, para debater o que quer que fosse com quem quer que fosse. Nunca se recusou a debater os seus livros ditos «polémicos» em termos religiosos com católicos ou padres. E o povo portufuês gosta de quem é frontal e não se furta ao diálogo. Uma mulher anónima que esperava a chegada do seu caixão dizia: «Ainda não li nenhum livro dele, porque me dizem que são difíceis e eu tenho poucas letras, mas era um homem que não tinha medo de pensar sozinho, e isso a mim faz-me bem». A mim também.

Inês Pedrosa
Meus agradecimentos à Maria Lúcia Dal Farra por compartilhar este material precioso

29/06/2010

Cadê o uru?

Cadê o uru ?
sumiu,
caçador pegou,
ninguém viu,
e se viu,
não se importou.
E o peixe-boi?
Desse, só lembranças,
Vi um, dias desse, em um livro.
Morreu, certamente,
para aumentar alguma pança.
E o corocoró?
Nem có, có e nem piu, piu
sumiu também.
Deve estar empalhado
em algum canto da sala de ciências.
E a Cutia, o papagaio-moleiro,
o sagui-da-serra, o guigó,
o macaco-prego, o caititu e o catatau?
Se escondendo por aí, talvez,
em buracos e fendas
de sítios e fazendas pois,
terra sem dona não há.
Rezam, cada um na sua língua,
ensaiando sobreviver
mas, sabem que o caçador
logo vai chegar.

renatabomfim

Oração

Jesus Cósmico,
fonte de misercórdia,
nos ajude a trilhar
o caminho do teu amor.
Desperta os nossos sentidos
para a beleza, abre nossos ouvidos
para teus discípulos:
as árvore e os animais:
emissários divinos que
assassinamos com crueldade,
assim como fizemos contigo,
quando estavas encarnado.
Quebra as certezas arrogantes
nos ensina a desaprender
para que possamos mudar e romper
as barreiras do ódio e da indiferença.
Reaviva a fé em nós mesmos
e a esperança de que podemos
ser e fazer diferente.

renatabomfim