05/01/2012

Maria Lúcia Dal Farra analisa a obra Arcano Dezenove, da poeta Renata Bomfim

O tratamento literário do Tarot, pelo menos a partir do século XIX, passa pelo seu próprio renovador: Eliphas Lévi. Contemporâneo de Baudelaire, o ex-Abade Constant é o autor de “Les correspondances”. Publicado em Les trois harmonies (1845), o poema entremostra similaridades de composição com o “Correspondances” de Baudelaire. O tipo de analogias praticadas em ambos é uma manifestação da tradição hermética e esotérica que, na altura, comparece, para os horizontes da literatura, como uma via alternativa de afronta e resistência aos discursos dominantes e às leis de consumo decorrentes do nascente capitalismo.

Composto mais ou menos na época que o de Constant, entre 1845 e 1846 (embora só publicado em 1857, no Les fleurs du mal), o poema de Baudelaire expõe, como o do Abade, a crença num simbolismo universal, em que tudo participa de tudo. Em ambos, a busca da unidade primordial é, portanto, notável¹ . Mas é em Dogme et Rituel de la Haute Magie (1855) que, pelas mãos de Lévi, o Tarot se atualiza inaugurando-se na chamada escola moderna. O (agora) Mago acrescenta, pois, à interpretação dos Arcanos (dos segredos e dos mistérios), a Cabala Hermética e certa contribuição da Alquimia: a simbologia dos quatro elementos.

No mesmo ano de publicação dessa obra, Gérard de Nerval, extraordinário e contumaz leitor do Ocultismo, e, por isso mesmo, decisivo escritor francês (divisor de águas entre o Romantismo e a Modernidade) se suicida. No ano anterior ele havia publicado o volume de sonetos Les chimères, que estampava “El desdichado”, poema nascido da leitura de uma carta do Tarot, a do Arcano 16, carta determinantemente premonitória do seu fim² . O Tarot mostrava, assim, a sua face divinatória à literatura. Mas o compêndio simbólico-oracular, em que o Tarot também fora se transformado ao longo do tempo, exporá, depois, o seu sortilégio, na promessa que Nerval firmara ainda naquela obra: malgrado a morte, ele retornaria.

Se a “torre derrubada” e a “destruição”, contidas no dito Arcano, esculpiram, para o escritor francês, o seu destino pessoal, André Breton tomará para si, quase cem anos mais tarde (entre 1944 e 1947), a missão de rediviver o estimado escritor e comparsa esotérico. Em Arcano 17, Breton elege tal carta como objeto da última de suas obras em prosa - justo o Arcano que promete o prodígio do renascimento. A tetralogia em prosa de Breton tivera início em 1928, com Nadja, seguida de Les vases communicants (em 1932), de L´amour fou (em 1937), culminando, dez anos depois, com o Arcane 17. Desde Nadja, entretanto, Nerval pulsa na obra de Breton, e agora, em 1947, ele toma definitivamente lugar nela.

Lançando como seu guia a “Estrela da Manhã”, Breton conserva a perspectiva hermética da tradição literária incrementada pelo compatriota, simbolicamente explicitada na tomada do Arcano seguinte ao manipulado por Nerval; Breton trata, pois, da carta redentora. É dessa maneira que o surrealista ritualiza o regresso de Nerval – o seu retorno prometido. A “Estrela” é indício de nascimento, de esperança no futuro, de conhecimento e gnose, de luz; luz que se exerce por meio de três vias: a poesia, a liberdade e o amor, apanágios dessa marcante obra de 1947³ .

Creio que é nessa linhagem que cabe inserir o presente livro de poemas de Renata Bonfim, Arcano Dezenove 4 , visto que, além do mais, ele é todo armado sobre o tripé das mesmas palavras de ordem de Breton: poesia, liberdade, amor. Se, da sua parte, se trata ou não de determinação consciente, sequer importa; o célebre “acaso objetivo” surrealista é para mim suficiente para justificar tais curto-circuitos da analogia, essa rede de ecos que, sob a descontinuidade, é capaz de descortinar uma outra ordem que, ocultamente, lhe dá sentido e seguimento. E esse me parece ser deveras o caso.

Se o livro de Renata tem por título o Arcano 19, a primeira ansiedade (na sequência da minha cogitação) seria a de tentar entender o salto do dezessete bretoniano para o dezenove bomfiniano. Por que Renata, para chegar ao dezenove, não passa pelo Arcano intermediário?

Pra já, se nos ocupamos do Tarot, temos de tomar como ponto de partida a Lâmina do baralho, de suma importância para a decodificação simbólica - primeira riqueza especulativa para o ingresso no jogo que é, como se sabe, nem um pouco linear. Cada carta só adquire real valor na disposição em que se encontra no contexto de outras tantas: como as palavras, como a língua (também objeto do livro de Renata), seu significado é absolutamente relativo, ganhando força e convicção na medida em que entretém, com as outras cartas, laços de atração e repulsa que formulam a sua própria linguagem, o discurso da vez - o que enuncia a jogada atual, a tiragem do acaso.

Pois não é que o volume de Renata, que tem por título o arcano seguinte, ostenta, como sua apresentação e cobertura, o arcano anterior? Melhor dizendo: não é que o volume de Renata, que anuncia o Arcano 19, se expõe como uma decisão interpretativa do Arcano 18?

A capa de Arcano Dezenove estampa, como constato, a Lâmina que resulta da leitura que a consulente (diante de um cenário eventual de cartas ligadas por tais parentescos conflituosos e harmônicos) elaborou do Arcano anterior. É ao desvendamento pessoal do Arcano 18 que a capa do presente Arcano Dezenove faz alusão - ou melhor dizendo: é essa chave, essa decifração, que o invólucro do livro definitivamente espelha. O que faz com que, ali mesmo (e por antecipação, já que a posição da Lâmina nos é frontal), o 18 conviva com o 19 - como pressuposto para a leitura do volume que o receptor desvelará ao virar a primeira página: como condição mesma para a travessia dele.

É como se, para entrarmos no domínio do que a cobertura do livro anuncia ao cimo, ou seja, para conhecermos esse território do Arcano 19, tivéssemos necessariamente de entender as circunstâncias impostas, pela sua autora, à carta anterior. De maneira que a capa se exibe enquanto pórtico, enquanto senha - como um código para o compartilhamento daquilo que o livro de poemas enfeixa.

Tento ler, portanto, o recorte que essa ilustração de entrada faz sobre a Lâmina 18. A “Lua”, indecisa entre a face máscula e a fêmea, põe a tônica sobre a mulher, sem desvencilhá-la do seu lado noturno, presente nas suas vestes mas quebrado pelo aspecto positivo indicado no arminho que desliza da consulente (e da Figura) para o chão, para a terra - para o ouro alquímico 5 . Os dois cães, ou o cão e o lobo da lâmina original estão confluídos e catalisados no cachorro de duas cores que essa mulher dubiamente domina e acaricia, posse sua e agente ou guia seus. Na capa, a única torre erguida no cenário é a da vegetação, coluna de rosas, uma vertical corbeille vermelha (versão das várias plantas que compõem a carta referencial), que faz pendant com a cortina de veludo, de igual tonalidade e quentura erótica, e que salpica (ampliando os matizes) o cabelo da Figura. O escorpião não está à mostra, mas sabê-lo imerso no vaso hermético (no Vaso de Hermes) da poetisa: é o seu signo astrológico.

A Lâmina que a capa compõe é toda luz e sombra, magia branca e negra, incerteza melíflua: basta reparar no sorriso ambíguo da Figura (ou da consulente – a luz da “Lua” é reflexiva, e, portanto, as duas mulheres refletem a mesma: a poetisa) que, dessa forma, disfarça a luta que se trava entre as forças tenebrosas, entre a porta do Inferno e a do Céu (conforme o solstício seja do inverno ou do verão), entre a Lua e o Sol – “Sol” que anuncia o Arcano que nomeia o livro.

A Lâmina explicita, portanto, essa caçadora celeste, essa divindade lunar (Artemisa, Diana, Hécate) – imagem que se aglutinará durante a leitura do livro, graças mesmo a esse simbolismo de trânsito, de passagem, de viagem heróica que o Arcano 18 encerra. Do plano iniciático da via úmida lunar nascerá a Feiticeira, a Maga e a Poetisa que, viajando em corpo etéreo (o “corpo cósmico” tão referido no volume) da Noite para o Dia, da Luz Noturna para a Luz Solar que o Arcano 19 encerra, buscará despertar, com suas palavras, aquilo que dorme. Aliando-se ao Sol, ao Fogo Criador e à Pedra Filosofal próprias do Arcano 19, a Poetisa procurará representar o Centro da Consciência capaz de abranger e dar voz ao Universo.

É sob o sortilégio dessa Lâmina que passo a ler os poemas de Renata Bomfim, que se dividem em sessenta e um organizados em torno de cinco seções: “Arcano Dezenove”, “Memória”, “Quintessência”, “Onde os tempos se encontram” e “Rituais”.

No primeiro, a predominância da metalinguagem é palpável: interessa especular sobre o papel do poeta, da letra, da poesia, da escrita e da sua missão, enfim, sobre os milagres da palavra. O mundo é visto como manifestação lingüística e permanente festa (“Dionísio”) e a poesia, “palavra/dando cria” (“Poesia I”), compreende milhares de existências simultâneas, aquilo que é comum e é diverso, lugar onde triunfa a palavra insurrecta, espaço oculto, messiânico, árvore que deve brotar por todo o canto.

Acerca da poesia, portanto, o processo de mutação do estranho e distante em componente familiar e doméstico (a poesia se encontra, afinal, em sua Casa) é obtido por um regime de deglutição, exposto com muita graça e ironia neste pequeno poema intitulado “Poesia II”:

O grego e o latim
encharcam a minha língua
com veneno,
produzindo a poesia
que desce redondilha
garganta abaixo. (p.30)

Veja-se que o nobre e o alto (o “grego” e o “latim”), pressentidos enquanto “veneno” para a “língua” (esse órgão de degustação), uma vez assimilados pela “garganta” que os vai emitir a fim de transformá-los em “poesia” - resultam em “redondilha”, ou seja, na justa medida do... feminino. Assim, é de se convir, que a poética daí criada (e derivada das línguas primordiais do português) é popular, buscando apresentar uma outra versão das formas ilustres (certamente pertenças do mundo masculino). Estas, uma vez ingeridas forçadamente (visto que descem redondas garganta abaixo – e esse é o trocadilho com o qual o poema brinca), acabam alterando por inteiro a forma com que foram impostas à garganta. A “redondilha” torna-se, portanto, uma conquista particular da Poetisa.

Todavia, homem ou mulher (Ruben Dario e Florbela são o casal guardião dessa poesia), o poeta está sempre à mercê de tudo. É muitos e ninguém, é tudo e nada, é um paradoxo; alimenta-se de si e dos outros, é um ser que se perpetua através dos tempos, que se encarna em alheios, em busca do mistério da outridade. Assim, a letra é concebida como a Eva primordial, cuja pena é, na verdade, a palavra escrita, em seu trabalho de nomeação e perpetuação do mundo. Eis como o “Poeta Adâmico” cogita tal origem:

No paraíso da linguagem,
O poeta, com desvelo,
Inclina-se para amar a letra.
Nesse momento, ele é Adão,
Ansiando companhia, à espera
De que a fêmea se submeta.
Cometidos os pecados,
Do outro lado, a pena:
“Ganharás o pão com trabalho,
Com o suor de tuas mãos,
E também, com teus pulmões,
Rins, fígado e coração”.
O homem se pega em desatino,
A sua vida será labor e sacrifício,
Mas estava escrito:
Havia de ser assim
Para que pudesse seguir nomeando
As coisas e povoando a terra
Com Abéis e Cains. (p.20)

Na segunda parte de Arcano Dezenove, é a condição feminina e a biografia literária que assumem o primeiro plano. A tonalidade mística, que já se manifestara em “Nossa Senhora dos Raios Multicoloridos”, da primeira seção, reaparece aqui em “Saturnais: mito de origem”, e depois retornará abertamente em “Gente da Era da Luz”, poemas em que o Sol é reverenciado, como cabe ao Arcano que nomeia o livro e que, aliás, já havia transmutado a Poetisa no seu “cálice”, tornando-a depositária de todas as coisas diante de “um sol de sétima grandeza” (“Arcano Dezenove”). Tais poemas tendem a explicitar, assim, o ponto-de-vista do qual emana a crítica (a dita Consciência concernente ao referido Arcano) aos destemperos da atualidade, à destruição do planeta, que peças como “Guernica Hoje”, “Tara moderna”, “Humanóide”, “Eu Canto a Pátria-Planeta”, “Terra Santa”, etc, exercem.

É deste naipe a bandeira ecológica da Poetisa, batalha socioambiental que ganha fortes raízes do misticismo oriental, que transparecerão, em seguida, em poemas como “Cristo Cósmico”, “Terra Santa”, “Prece”, “Terra”, “Semear”, etc. Veremos, em seguida, de que maneira esta temática se entrelaça com o feminino para adensar a imagem de mulher, a que a Lâmina faz referência.

A condição feminina, que se ampara em Florbela Espanca (em poemas diretamente afeitos à portuguesa ou que implicitamente passam por sua obra), é identificada como “Cicatriz” – nome da peça que inaugura essa “Memória“. Mas esse gênero também fica apontado na imagem daquela que se faz acompanhar do gato, animal que é perfeição, que é a letra chet (“Gato”), letra cujo desenho encerra a Casa cerrada (aberta somente por baixo), felino cuja falta, no momento da partida, torna os “poemas encharcados” (“Despedida”) e faz da Poetisa apenas a sua “humana de estimação” (“Gato Rei”).

Feiticeira, essa mulher é também telúrica, é vegetal (“Orgânica”), é natureza: pedra, água, planta, paz, solidariedade, novo tempo – lugar onde o saber, ao contrário do Éden, jamais será proibido (“Não Materialidade”). Por tudo isso, a poesia de Renata se apresenta como uma das maneiras de resgatar aquelas mulheres que foram silenciadas pelo tempo (é o que nos assegura o poema “Brutal Singeleza”, de “Quintessência”), procedendo, assim, a uma espécie de justiça poética. De maneira que também as prostitutas têm aqui voz (“Há Vagas”). Em “Humanidade Nata” (de “Onde os tempos se encontram”, a quarta parte do livro), o buraco aberto no tempo e no espaço, pela flauta que soa, permite que a Poetisa viaje nas asas do vento, numa espécie de transmigração, e se torne muitos, “Ulisses nos braços de Circe”,

Eva cantando triste
(desejosa) pela fruta de que tanto gosta.
Ah! Se eu pudesse beber do Letes
e ser inaugural como a alvorada,
ser Divina,
e não essa fêmea bruta,
mulher em construção,
alterada
e mesquinha
trazendo a humanidade nata. (p.77)

O desejo de conter em si essa “humanidade”, ato simbólico do Arcano 19, lhe dá a sensação e a certeza de que “somos flechas,/mirando o infinito.” (p.78). Mas, para tal, será preciso “libertar a borboleta aprisionada”, buscar a luz que ainda não se conheceu – muito embora tais anseios não sejam senão sonhos (“Efeito Borboleta”).

De resto, a mulher é ao mesmo tempo aquela que, morta, retorna ao lugar de onde veio (“Post Mortem I”), que prefere o inferno à sujeição, e que não abdica da irreverência: a Poetisa importa-se apenas com o risco de não arriscar (“Poema Inacabado”). Fala-se então daquela cujos pés e mãos constroem o seu próprio buraco (“Versos de Orgulho e Solidão”), irreverência e marotice ainda ilustradas pela imagem da não-convencional, daquela que confessa abertamente o quanto aprecia fazer “uma cena” (Post mortem II)...

A sublinhada erótica, já entrevista na Figura da Lâmina da capa deste livro de poemas, está em tudo e mais acintosamente em “A Fúria de Eros” e em “Antes do Éden”, respectivamente de “Quintessência” e de “Onde os tempos se encontram”, terceira e quarta partes da obra. Em “Carnaval” (de “Quintessência”), o corpo fica autorizado e a mulher se entrega à orgia, sendo quem não é; e a carne é santa e “vibra e goza até o pranto”. O Carnaval se revela, então, uma forma coletiva de existir. Por fim, é na derradeira secção, em “Rituais”, que a Maga, a Feiticeira e a Poetisa se mostram contraditoriamente una e plural. É ali também que a defensora do planeta, a erótica e a mística se consubstanciam num “Transluzir” – numa “aquarela”:

O que fui, sou e serei
Aquarela! (p. 61)

É nos rituais que as mensagens poéticas se tornam mais palpáveis – e mais úteis! – e é neles que, por meio do preceito, são transferidas aos leitores. As infusões, os encantamentos, os patuás, os filtros para o amor e para a liberdade universal, salvaguardando sempre o respeito à natureza (sequer a erva daninha pode ser arrancada; a poesia é vegetal), misturam curiosidades, em torno de plantas, com receitas certeiras para curar dores, acordar espíritos, lançar bênçãos e... “olhares de secar pimenteira” (“Desejos de Feiticeira”). Eis onde a vegetação do Arcano 18 encontra a sua síntese e desemboca na peleja ecológica. “É preciso coragem para abraçar/o inesperado”, para pluralizar - é o que nos ensina, por exemplo, a “Cerimônia do Chá”. Dúbia, hesitante entre a treva e a luz, entre o Arcano 18 e o 19, entre a “afasia” e o “estro”, entre espalhar imprecações ou bênçãos, a Poetisa descobre – e nos ensina! - que há “uma fissura” por onde o tempo espia. Afinal, a “alma”, essa dádiva de Luz do Arcano 19, só na arte se encontra (“Entre a Luz e a Escuridão”)!

Notas:

1 A propósito, remeto o leitor a dois textos meus que apreciam essa questão: “Anotações de uma bibliógrafa: Baudelaire e o esoterismo” (Remate de Males. Campinas: Unicamp/IEL, 1984), e “Surrealismo e esoterismo: a alquimia da poesia”. (O Surrealismo (org. Jacob Guinsburg e Sheila Leirner). São Paulo: Perspectiva, 2008).
2 Não esquecer que Julia Kristeva consagra um capítulo a Nerval em sua obra Sol negro – depressão e melancolia (Rio de Janeiro: Rocco, 1989, trad. Carlota Gomes), título que, aliás, toma emprestado ao poema em questão.
3 Claudio Willer refere esta retomada esotérico-literária da parte de Breton, num texto publicado no número 59 de Agulha. Revista de Cultura, de setembro/outubro de 2007, intitulado “André Breton, Nadja e Gérard de Nerval: estranhas relações”. A propósito, leia-se também sua elucidativa e extraordinária obra Um obscuro encanto. Gnose, gnosticismo e poesia moderna (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010)
4 BOMFIM, Renata - Arcano Dezenove .Vitória: Flor&Cultura Editora, 2011, 100 páginas.
5 Não esquecer que o modelo que compõe a referida Lâmina congrega, numa só, a consulente e a Figura do Arcano, ou seja: aquela que consulta e a que é consultada que, por fim, são a mesma, visto que é a imagem da poetisa a que a capa ostenta.

Maria Lúcia Dal Farra é poeta, critica literária, e professora de Literatura da UFSE.
Autora da obra o narrador ensimesmado.

04/01/2012

Vitória e Lisboa

Há mar em Vitória e em Lisboa
Há também um coração divido a palpitar,o meu.
A matéria do mar de Vitória é o sonho
Nas suas águas nadam sereias sedutoras
As ondas quebram macias e espumosas
Há cardumes em abundância
Os homens se alimentam de beleza.
Não há mais matança, a pesca foi abolida
Há liberdade e as águas fervilham celebrando a vida.
No mar de Vitória os barcos navegam até perderem o juízo,
Os marinheiros são fiéis as suas mulheres.
Ouve-se  cantos guerreiros que vinham
dos barcos negreiros, vozes que o tempo não sufocou.
Em Lisboa o mar é o da saudade,
Lindo como nunca se viu
Nele há garças milagrosas
O seu verde é espesso e sonolento
A sua praia branca é, também, cor de rosa.
Na sua orla caminhou Sophia de Mello Breyner.
Pessoa, Florbela e Pascoaes navegaram nas suas águas.
Desenhei o mar de Lisboa e ainda o estou colorindo.
Reivindico a sua posse, sendo meu, ninguém mais pescará
Sardinhas, tubarões, e as baleias poderão cantar livres dos arpões.
Esse mar de saudade jamais será dividido ou explorado,
Ele integra os domínios do meu desejo, é sagrado.
O mar de Lisboa, amigo leitor, é um presente para você,
Ame-o como eu o amo.
O mar de Vitória é um futuro, é possibilidade,
Busque conhecê-lo, faça dele o seu sonho também.
Eu canto da Ilha todas essas verdades.

03/01/2012

FLORBELA (filme de Vicente Alves do Ò)

TRAILER DO FILME


MAKING OF DO FILME

FLORBELA (Longa-metragem de Vicente Alves do Ò)
Dalila  Carmo, interpreta Florbela Espanca
Amigos, o treiler e o making of do filme FLORBELA foram apresentados ao público no Colóquio Internacional Florbela Espanca, em Vila Viçosa (dezembro de 2011) e logo após a exibição houve uma mesa redonda com toda a equipe envolvida no longa- metragem. Para mim foi emocionante ver a cena na qual o pai de Florbela toma das mãos da mãe biológica da poeta o pequeno Apeles, esta é uma parte da história da poeta que, acredito, pouco se aborda. Imaginem se Antônia Lobo entregou os filhos de bom grado? Penso que não. Então, abre-se uma janela para esta personagem silenciada (subalternizada tripla ou quadruplicadamente), uma moça pobre, doméstica, que foi nessa história, nada mais que uma reprodutora, mas será? Lacunas que apenas a arte pode responder...
O filme centra-se num período específico da vida da poetisa portuguesa Florbela Espanca. Além do filme haverá também uma minissérie de três episódios, que se centrará na infância da poetisa em Vila Viçosa. Dalila Carmo representará Florbela Espanca. A narrativa pretende distanciar-se da imagem estereotipada da poetisa Florbela Espanca, que se suicidou através de ingestão de barbitúricos, focando-se especialmente no período em que deixou de escrever e oscila entre fantasia e realidade. A estréia do filme está prevista para março de 2012.

assista entrevista com Vicente Alves do Ò

Melodia íntima

Bendita sejas
Entidade fora do tempo
Vendedora da morte.
Te louvo a cada movimento
Desse corpo que carrego e
Sobre o qual pouco sei.
Nesse leito de febres e de tormentos,
A minha alma é rebento
Busca as tuas águas para crescer
Sob os auspícios do contentamento.
Dou graças por tuas mãos grandiosas e ágeis,
Por tua boca suculenta e doce,
Pelas tuas palavras que me invadem e,
Pelos não e desgraças que me arremeçam longe.
Benditas sejam todas as tuas partes
Visíveis e invisiíveis, bem como,
As notas tuas notas agudas e graves
Ressoando potentosas e sublimes
Quando sussuras o meu nome.
Melodia íntima que apenas eu escuto.

02/01/2012

A Primeira Morte de Florbela Espanca (Drama mágico escrito por Antônio Cândido Franco)

Olá amigos,
Foi uma alegria de conhecer pessoalmente, no colóquio Internacional Florbela Espanca (Vila Viçosa/Portugal), o crítico literário Antônio Cândido Franco. Atualmente Antônio Cândido é professor na Uévora, e além de estudioso da obra de Florbela Espanca, dedica-se ao estudo da obra de poetas como Teixeira Pacoaes, Fernando Pessoa, entre outros. Poeta, romancista e dramaturgo, Antônio, como insistiu que eu o chamasse, escreveu, entre outros títulos, a Arte Régia (poesia), 1987; O Mar e o Marão (ensaio), 1989; Surrealismo e Anarquismo na obra de António Maria Lisboa, 1989; Memória de Inês de Castro (romance), 1990; Eleanor na Serra de Pascoaes, de 1992, (ensaio que recebeu o Prêmio Revelação Ensaio, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores/Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro); Teoria da Literatura em Álvaro Ribeiro, 1993; A Epopéia Pós-camoniana em Guerra Junqueiro, 1996 e A Primeira Morte de Florbela Espanca, obra com que fui presenteada pelo escritor.
Encenação da Peça "A primeira morte de Florbela Espanca"
A primeira morte de Florbela Espanca foi publicada em 1999 e, agora, foi reeditado pela Editora Licorne. O drama mágico é inspirado em um momento da vida de Florbela Espanca que foi descrito em uma carta por Mário Lage, terceiro marido de Florbela, no dia 28 de agosto de 1928. Lage explicava ao seu pai, sogro de Florbela, que a mesma encontra-se “num estado de sonolência, sem falar, e parece que sem ouvir”. O Lócus privilegiado da cena é quarto de Florbela Espanca na sua casa em Matosinhos.
O drama faz interagir personagens interessantes como Florbela Espanca, Mário Lage e a empregada do casal, Albina, bem como, São Pedro, um Anjo, Satanás, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, a Virgem Maria e o Psicopompo.
Nessa obra Florbela é, como foi em vida, julgada pela igreja católica, desta vez depois de morta. A Instituição é representada pela maior parte das personagens, inclusive por Satanás, “capataz do maioral” e, dentre todos eles, o menos perverso.
Albina, desesperada, reza para o “Bom Jesus de Matozinhos” e chama o médico e marido de sua “rica senhora que é tão boazinha”, pois, esta parece morta, está “inerte e fria”. A alma de Florbela está farta do mundo e deseja a morte, mas, antes de alcançá-la, é preciso que esta seja “averbada”. São Pedro e o Anjo começam a inquisição da poeta para decidir qual o seu destino. Ambos avaliam a sua vida, lhe perguntam sobre o seu pai e a sua mãe, e logo encontram um agravante à sua salvação, ela é “filha do pecado”, fruto de uma relação “pecaminosa”, bem como o seu irmão, Apeles. Antônia Lobo, mãe biológica de Florbela, é considerada pelo anjo “uma desgraçada”. O seu irmãos, Apeles, já fora condenado ao inferno, assim como, Antônia Lobo, mas, à Mariana do Carmo, esposa legítima de João Espanca e madrinha de Florbela, foram abertas as “portas do Céu”, afinal, esta levou Florbela “ao batismo na igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição”, o que a teria limpado “de todos os pecados mortais dos pais” e do “erro monstruoso do nascimento”.
O status quo terreno é reproduzido pelo coro celestial, os santos especulam sobre o casamento da poeta, com destaque para a ação que moveu contra o primeiro marido em um Tribunal em Évora. “Florbela estava “farta do ambiente simplório” da vila de Redondo”, tanto que, quando foi decretado o seu divórcio, “já estava amancebada com um Alferes da Guarda Nacional Republicana”, destacou são Pedro, horrorizado. Mas, pior que isso era o fato de Florbela “escrever e publicar escândalos”, irmanada a corrente estética saudosista ("a mais perigosa"), que era liderada pelo blasfemo Teixeira de Pascoaes, cujo riso era “tão pérfido como o da cobra do paraíso”. Florbela gostava de Jazz, “a música dos pretos”, e de freqüentar bailes e cafés, os santos concluem então que a poeta havia herdado de Pascoaes “o gênio e a escola”.
Muitas foram às iniqüidades de Florbela encontradas no julgamento, então surge Satanás, o “dandi do Chiado” ou, o “banqueiro da rua do ouro”, resmungando: “eu só fico com as escórias”. Chega a hora de Florbela falar, de se defender, e a poeta responde como “princesa desalento”, mas não é compreendida. São Pedro pergunta ao Anjo sobre o que a poeta fala e o Anjo lhe responde que a Sóror Saudade é a “fala” de um outro poeta “blasfemo” da escola saudosista. A poeta tem pressa de passar para o outro mundo, mas, afirma “não ter pressa de ser julgada”.
Assim como Joana D’arc, Florbela acreditava ser inocente das acusações levantadas sobre ela. Ela considerava que os seus versos foram as suas orações, mas estes, foram interpretados como “descaramento”, e logo os santos lhe lembraram da “vergonha licenciosa” com o qual os escreveu, especialmente, o soneto Renúncia, que até fala da “sedução de satanás”. “Nunca me senti tão inocente”, afirmou a poeta, mas o anjo lhe repreendeu, pois o soneto pecava por “sensualismo, orgulho e ateísmo”.
Ao final do julgamento Florbela foi condenada ao Inferno por seus atos e por seus versos. Mas ela logo descobriu que a igreja previa outros recursos, como a revisão da pena por dois Doutores: Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Desenrolou-se então uma peleja saborosa entre os postulados filosóficos e as crenças de Florbela que, corajosa e criativamente, ela se defendeu das acusações feitas pelos “doutores” que, se quisessem, bem poderiam tê-la defendido e salvo.
A poeta perguntou como poderia ter “uma sensibilidade demoníaca”, visto que mostrou piedade pelos “animais indefesos e pobrezinhos”? Ela então pediu para que Maria Madalena viesse defendê-la, porém, o Anjo lhe advertiu que a santa estava “ocupada”, Florbela clamou, então, por Maria, “que foi Mãe”, esta logo lhe perguntou se havia seguido os mandamentos da igreja. “Os meus versos não me salvam, Mãe?”, perguntou Florbela à Virgem que lhe respondeu: “Foram eles que infelizmente te desviaram da igreja do meu Filho. [...] Nunca pude aceitar as suas orações. Eu pertenço a Igreja e não ao livre devaneio de cada um”. “As tuas orações, minha filha? Os versos que escreveste? Os bailes em que te divertiste? Os amantes que beijaste”? Florbela responde que são apenas “Pecadilhos”:
Que importância tem isso? [...] Escutai. Um dia, ao subir a Rua do Carmo, em Lisboa, encontrei um homem a chicotar brutalmente um pobre animal carregado de fardos. Não suportei o sofrimento do bicho. Arranquei das mãos do verdugo o chicote, uma vergata dura de sola velha. [...] Não o poupei, chamei-o chibante, algoz e carniceiro. Só o deixei quando o homem alijou a carga do pobrezinho.
A atitude da poeta foi censurada por São Tomás de Aquino, que a considerou fruto de uma “sensibilidade doentia”, afinal, “Deus é razão”. Florbela Espanca, então, retruca, e lhe diz que os “dois livros enfadonhos e sem beleza” que ele escreveu não eram sinal de santidade, mas, a atitude de Aldebrando, beato que deu vida a uma perdiz assada, essa sim, o era. Florbela passou então a apontar as hipocrisias da igreja, como a arrogância de São de Pedro que, segundo a poeta, foi amado por Cristo sendo um pescador “sujo e maltrapilho”, e ironicamente perguntou ao santo: “Não te aborrece, Pedro, um Céu mendigado a hóstia e um Inferno decretado pelos livros? Os diálogos de Florbela nessa peça são inquietantes e poéticos.
Exausta, Florbela foi regatada do limbo pelo Psicopompo (um deus pagão) que lhe perguntou do que a poeta mais se lembrava, a poeta afirmou ser “o olhar dos animais”: “Há mais calor numa andorinha que num homem público”. A partir da elaboração da experiência da morte a poeta analisa a figura “tristemente maçadora” de Pedro como papa, nas suas vestimentas “ridículas”; lembra do “vazio tão balofo” e do “fastio” que encontrou em Agostinho e Tomás, “barril de escolástica estéril”, para Florbela ambos não se distinguiam de Satanás; quanto à Maria, “prefiro-a errante e doída”, afirmou. O Anjo, para ela, era “um carrasco cego”, e o seu julgamento, foi uma “comédia suja”, “a pior farsa” que ela já assistiu.
Florbela recordou-se da vida e lamentou “nunca mais ver o olhar de um bicho, nunca mais sentir a presença de uma pedra e a fremência de uma flor ou de um caule”. Ela decidiu que iria “alimentar a esperança da vida com a revolta”, antídoto contra “a farsa da falsidade e da hipocrisia”. Florbela se lembrou também de que foi feliz, de que foi “pantera”. Lembrou do seu amor pelas “formigas” e que consolou as toupeiras, saudou os sapos, protegeu as aranhas, criou pardais e andorinhas na roupa de sua cama. E o mais importante, que a sua felicidade foi “o Amor”. Acreditou na Morte, também, porém, essa “derradeira ilusão” e “pior burla da vida”, era uma “ilusão”. Apenas o amor interessa, disse a poeta.
O final da peça eu não vou contar, sugiro que leiam o livro, vale a pena. O Psicopompo, “morte que há na morte” e “Saudade”, destacou que “há cada vez menos gente que saiba se comover com o sofrimento que há no olhar de um bicho”, e por isso, a lira de Florbela “contribuirá para amansar as feras”, pois, Florbela é “a revolta e a esperança, [...] eterna e imortal como a saudade”.
Deixo o meu abraço carinhoso aos leitores e, concluo com uma fala de Florbela Espanca: “Eu amo muito a vida. Não há morte enquanto houver saudade. Eu estou cheia de saudades da vida”.

Abraços
Vitória, 02 de janeiro de 2012
Renata Bomfim

01/01/2012

Louvação

Não me canso de cantar
Embora a carne esteja lacerada,
as mãos vazias e os pés descalços.
Canto por estar aqui e não ter nada
além da voz que insiste em ir para além de mim.
Não sei de onde vem essa luz
que me impulsiona apesar da dor e
das ruínas ofensivas.
Encontro alegria!
Louvo o humor de Deus e a irreverência
de sua paleta divina.
Louvo o dia cinzento e chuvoso,
os raios luminosos que riscam o céu.
Louvo as nuvens leves que passeiam displicentes
para depois se precipitarem
sobre as flores, as pedras e as gentes.
Louvo o vento feroz que comunica o seu poder
e louvo, especialmente, a dádiva de não ser.

31/12/2011

Feliz 2012

Olá amigos queridos, mais um ano se aproxima e desejo a todos vocês que prestigiam o nosso blog,
pessoas espalhadas por todo o Brasil e por mais 50 países, um Ano Novo cheio de
Paz, Saúde, Harmonia,
Sucesso, Amor e Felicidades.
Abraços Fraternos
Renata Bomfim

O Muiraquitã

Muiraquitã
Ola amigos,
Vou entrar 2012 com super poderes, pois, acabei de receber de presente (da amiga Sonny Lóra) um Muiraquitã original, feito pelos índios da floresta amazônica.

A lenda do Muiraquitã
Diz a lenda amazonense que nas águas do Rio Tapajós, mais precisamente na lagoa do Muiraquitãs, que fica perto de Santarém , no Pará, A rainha das águas, Iara, lança aos céus, em noites de lua cheia, pedras verdes em forma de animais e depois mergulha sob uma chuva de muiraquitãs. As índias que esperam ansiosas por este momento se jogam nas águas límpidas da lagoa para procurar as pedras, que são os muiraquitãs. As pedras recolhidas pelas índias serão ofertadas aos seus prometidos, pois possuem poderes mágicos e dão especial poder ade atrção a quem as possuir. Mário Andrade cita a lenda do Muiraquitã no livro macunaíma. Obrigada Sonny, amiga querida!

24/12/2011

Eu

Eu sou toda misturada
feita de sol e de chuva
sou doce, salgada,
santa e puta.
Sou carne e vento
anjo sem aura e sem asas.
Senhora da minha casa:
convento, pocilga, taverna,
a minha cama arde em brasas.
Imploro redenção aos quatro ventos,
um unguento, um elixir, um remédio
ou simplesmente agulha e linha
para fazer remendos.
Preciso me costurar toda,
emendar as partes puídas,
juntar num mosaico as mulheres partidas
pelo tempo, pelos homens, pela solidão,
pela morte, pela doença, e por felicidades fortuitas.
Sobre a minha cabeça repousa
a coroa de Montezuma exalando perfumes tropicais,
Meu olhos são ônis refletidas em águas claras
misturada sou força pura que chega aos confins da Terra
nascida de uma sensibilidade bruta.
Eu sou toda misturada.
Nem sei mais as proporções de cada coisa,
de tanto ser isso e aquilo e nada,
não sei mais quem sou.
Tanto mais diluída, eis o que me conforta,
realizada.

Évora

Caminhei por tuas ruas,
Calmamente.
Respirei o perfume frio
De tua charneca.
De tanto amor o meu peito se abriu:
Desabrochou o coração.

Atravessei o portal de tua muralha e,
A cada passo, murmúrios e vozes
se misturavam formando
Cantos claros e brilhantes:
— Bem vinda! Princesa Capixaba.

(Évora, 09/12/2011)

22/12/2011

O valor de uma promessa (Conto de natal)

Pretinha
Olá amigos,
Conheci pretinha quando ingressei no mestrado de Letras da UFES e logo ficamos amigas. Sempre que tinha aula, e também quando não tinha, eu levava uma raçãozinha para ela e ficávamos juntas, conversando, durante muito tempo. Pretinha é dessas gatinhas conversadeiras e, logo que eu chegava, já vinha na maior rapidez me contar as novidades, era miau pra cá, miau pra lá e, de alguma forma, nos entendíamos.
Pretinha sempre foi alvo de muita violência na Universidade Federal do Espírito Santo, mas também, conquistou amigos que a defendiam dos agressores.
Os anos foram passando e eu concluí o mestrado, ingressando logo em seguida no doutorado. Lembro que um dia cheguei na Ufes e vi Pretinha redonda, eu não sabia, mas ela estava preparando para mim, qual ostra, uma pérola, aquele que seria um dos maiores presentes de aniversário que eu receberia. Pretinha passou a ser perseguida e a apanhar de uma funcionária da Ufes, e quando o seu filhitinho nasceu (dentro da secretaria de mestrado de Letras) ela o carregava pra lá e para cá, sem ter onde cuidar dele. Devo detacar que Vander, funcionário da secretaria do mestrado de letras da Ufes, deixou Pretinha ficar na secretaria e sempre foi muito carinhoso com ela, mas não pode evitar que a tirassem dali, ou melhor, que a despejassem.
Um certo dia cheguei para a aula com uma certa antecedência e Pretinha foi me receber com o carinho de sempre, e me levou até a caixa de lixo. Ali atrás ela mantinha seu filhote escondido e sempre que este ensaiva sair ela, amorosamente, dava um jeito de escondê-lo. Sentei perto da caixa de lixo, ela troxe o filhote e colocou-o ao meu lado. Eu fiquei emocionada com o gesto de carinho e confiança de Pretinha e muito comovida com a sua situação. Pretinha estava magrela e não sei por quanto tempo conseguiria proteger o seu filhote, então, eu lhe fiz uma promessa, que em nome da nossa amizade eu cuidaria do pequenino, que não tinha completado nem um mês de vida. Pedi a pretinha que segurasse as pontas, que eu a ajudaria, e assim que o filhote desmamasse eu o adotaria.  Durante este tempo o grupo de cuidadores da Ufes já se preparava para encaminhar Pretinha para a castração e adoção. Faltavam algumas semanas para o meu aniversário (21/11/2010) então preparei uma caixinha, furei ela toda para a passagem de ar, coloquei um paninho quantinho dentro e fui para Ufes cumpri a minha promessa.
Ao chegar na Ufes encontrei a funcionária que batia em Pretinha e no filhote e ao perguntar sobre ambas ela respondeu: "Graças a Deus levaram aquelas pestes daqui". Amigos, não consegui segurar o choro sai deseperada atrás de noticas, soube que Pretinha e o filhote haviam sido encaminhados para o Clínica veterinária Prondog. mais que depressa rumei para a clínica e encontrei mãe e filha juntas, pela primeira vez vi pretinha amamentando o filhote e combinei com a veterinária que assim que o filhote desmamasse viria buscá-lo.
Pretinha foi adotada e está sendo muito bem cuidada, começou uma nova vida, infelizmente não pude ficar com ela.  No dia do meu aniversário que fui buscar Joaninha, o maior presente que já recebi,  presente da minha amiga Pretinha. Joaninha. Joana D'arc, a Joaninha, é linda, meiga, educada, e muito erudita, ela é realmente uma gatinha das letras... Cumpri a minha promessa e levarei a amizade de Pretinha, para sempre, dentro do coração.
Abraços,
Renata
Joaninha
Os olhos de Joaninha
Céu azul clarinho
Poucas nuvens
Apenas dois passarinhos
Voam sem compromisso
Desenhando arabescos
no espaço dos meus sonhos.

*
Os olhos de Joaninha são o céu,
Eu sou a pluma desgarrada
da asa esquerda do patinho feio.
Quando sinto medo e solidão,
me embriago no azul juju
e plaino leve...

Natal Vegetariano

 "Somente uma nova consciência poderá promover a tão almejada cultura de paz"
(Instituto Nina Rosa)

Amigos, mais um NATAL se aproxima e o clima de festa se espalha pela cidade, por entre grupos familiares, empresariais, religiosos... Afinal, é a comemoração do aniversário de nascimento de CRISTO, o cara que veio ao mundo para pregar o Amor, a Paz, a Compaixão, a Solidariedade... Embora o espírito evoluidíssimo do Cristo tenha encarnado com as melhores das intenções, salvarnos de nós mesmos, ele já chegou sendo rejeitado, e mesmo antes de nascer houve um complô para assassiná-lo. Mas ele resistiu, sobreviveu, mostrou como se faz, como se luta e como se vence, e numa cartada final e espetacular sacrificou-se para que não houvesse mais a necessidade de sacrifícios. Antes de morrer crucificado o Cristo chamou a atenção da humanidade para um fato importantissimo, ele disse que entraríamos numa NOVA ERA, mas que era preciso que deixássemos para traz os costumes e hábitos do velho testamento, as "Leis" que tinham como princípio a intolerância, e que nos alegrássemos, pois agora só haveria uma Lei, o AMOR.
Bem, espero viver para ver, um dia, a consumação das palavras do Cristo, pois tantas atrocidades são realizadas em seu santo nome: guerras, roubos, indiferenças... Espero viver para ver um Natal onde o aniversariante seja, realmente, homenageado, e que o "cristo mercadológico", ou melhor, o "anti-cristo", seja, enfim, derrotado. Espero viver para ver as pessoas comemorarem a Vida e não Morte no dia do nascimento do Cristo, no Natal.
Milhares de animais inocentes morrem nessa época, após terem nascido e vivido em condições miseráveis, deploráveis e cruéis, nunca haverá um verdadeiro "FELIZ NATAL" enquanto este tipo de coisa acontecer. Peço a Deus iluminação para os corações e mentes que ainda vivem na ignorância, fechando os olhos para aquilo que acontece ao seu redor, bem embaixo do seu nariz, e acredita piamente na fantasia vendida pela mídia, animais humanos (o que somos) que vivem tendo os olhos continuamente ofuscados pelo brilho das "luzinhas coloridas", embalados pelas belas músicas e coros e que não escutam os gritos de DOR, de SOCORRO, não escutam as muitas vidas que imploram por PIEDADE, MISERICÓRDIA..., estas vidas são preciosas, acreditem, não foi à toa que o CRISTO nasceu entre elas... "Triste de quem é feliz", escreveu o sábio poeta Fernando Pessoa, triste de quem fecha os olhos para tudo isso e acredita que é feliz... Desejo a todos um Feliz Natal com um ponto de interroção (?). Este ponto é uma chave que pode abrir muitas portas, especialmente a do esclarecimento... Amigo, duvide da felicidade que se compra nos Shoppings, duvide da felicidade que nasce da dor alheia, afinal, nada nos é alheio quando nos apercebemos que estamos no mesmo barco, ou melhor, na mesma nave estelar, navegando, rumo ao  CRISTO CÓSMICO!


A TV Gazeta alega que a campanha contém cenas de violência. Defendemos que essas cenas no filme de 30 segundos nada mais são do que uma ínfima parte da realidade cruel que os animais sofrem nos matadouros.


Deixo aos amigos a sugestão de um natal sem carne. Se isso é possivel? Não é o mais importante sabermos se é possivel ou impossivel, o que importa é que nos empenhemos em tentar.
O caminho do boi até a mesa da ceia de natal
Caminho do pernil de natal
O Brasil desmata e produz grãos para alimentar bovinos da Europa e EUA
O franguinho de "A a Z"

A carne é fraca, mas o vegetal é forte!

20/12/2011

11ª Festa da Imigração Polonesa: um pedacinho da Polônia preservada em Àguia Branca, no Espírito Santo (ES)

Acompanhado pelo Cônsul Geral da República da Polônia em São Paulo, Jacek Such e pelo Cônsul Honorário em Vitória, Adam Czartoryski, o Embaixador da República da Polônia, Jacek Junosza Kisielewski, visitou a Comunidade Polonesa em Águia Branca, nos dias 29.09 a 01.10.2011. Na ocasião, o Embaixador fez a entrega das condecorações nacionais concedidas pelo Presidente da República da Polônia aos ativos merecedores da Comunidade Polonesa do Estado do Espírito Santo. Ele condecorou o Cônsul Adam Czartoryski com a Cruz ao Mérito da Ordem de Cavaleiro da República da Polônia e o Sr. Luiz Carlos Fedeszen, tesoureiro da Associação Polonesa em Águia Branca, com a Medalha de Ouro ao Mérito. Durante a visita, o Embaixador e sua comitiva também estiveram no Museu do Imigrante Polonês, participaram da inauguração da 11ª Festa do Imigrante Polonês, da missa sagrada celebrada por ocasião do Feriado do Imigrante e também da tradicional marcha pelas ruas com o grupo de dança folclórica. A visita do Embaixador a Águia Branca foi precedida pela sua visita oficial ao Estado do Espírito Santo, onde ele foi recebido, entre outros, pelo Governador Renato Casagrande.

fonte:  Boletim da Embaixada da República da Polônia, v.2
http://www.brazylia.polemb.net/

Grupo de pesquisa do CNPq que estuda a obra de Florbela Espanca se encontra em Portugal



Michele, Maria Lúcia Dal Farra (Pesquisadora responsável pelo grupo), Clêuma, Isa, Suilei, Ana, Fábio e eu
 (da esquerda para a direita)
Olá amigos,
Era noite do dia 21/11 de 2007 quando recebi um e-mail da professora Maria Lúcia Dal Farra me convidando para integrar um grupo de pesquisa do CNPq que objetivava analisar o obra de Florbela Espanca de forma multidisciplinar, estudando, especialmente, uma série de documentos e recortes de revistas e jornais das décadas de 20, 30 e 40. Eu poderia esperar um presente maior? Iniciamos as pesquisas e logo passamos a trocar informações, idéias, e um vinculo de amizade foi surgindo entre os membros do grupo. A orientação da professora Maria Lúcia Dal Farra foi fundamental para que eu e meus companheiros de pesquisa (Fábio, Clêuma, Adriana, Suilei, Isa, Leda) pudessemos concluir os nossos mestrados. No início de 2011 o grupo de pesquisa acolheu novos componentes e ampliou o seu campo analitico a partir do estudo das relações da obra de Florbela com a de outros escritores, como, no meu caso, estudo no doutorado as relações entre a obra de Florbela e a de Rubén Darío. Pois é amigos, depois de 4 anos de amizade virtual nós nos reunimos em Vila Viçosa, terra de Florbela, para o I Colóquio Internacional Florbela Espanca, intitulado "O espólio de um mito". Este encontro reuniu estudiosos da obra de Florbela Espanca do Brasil e de vários outros países.  Conhecer a terra natal de Florbela Espanca e as imagens que povoam a sua poesia: a charneca, os castelos, os cláustros, etc., ampliou o meu olhar para a sua obra, e a dimensão afetiva de tudo isso, acredito, comparecerá nos meus escritos.

Quero parabenizar aos estuduiosos que participaram do Colóquio, foi maravilhoso observar que um novo olhar está sendo lançado sobre a obra de Florbela Espanca. Foi muito bom conhecer grandes nomes dos estudos de Florbela e da literatura portuguesa e brasileira como Antônio Cândido Franco, José Carlos Seabra Pereira, Nuno Judice, Christopher Gerry, Derivaldo dos Santos, Concepción Delgado, Gonçalo Piolti, Cid Ottoni Bylaardt, Antonio Carlos Cortez, José Bettencoutr da Câmara, entre outros, não menos importantes...

Agradecimentos:
Só tenho que agradecer a forma carinhosa como eu e os demais participantes desse encontro fomos recebidos em Vila Viçosa pela organização do evento: a Câmara Municipal de Vila Viçosa, o Grupo de amigos de Vila Viçosa, o Centro de Estudos em Letras da Universidade de Évora e pela coordenadora do evento, a professora Ana Luiza Vilela, da Uévora. A Maria Lúcia Dal Farra nem tenho como agradecer o apoio, a amizade, o incentivo precioso, enfim... é uma verdadeira mestre! Quero agradecer ao amigo Fábio Mário, "o anjo vingador de Florbela Espanca", como o denominou MLDF, pela amizade constante e por compartilhar comigo as inquietações inerentes à pesquisa. Foi muito bom curtir Lisboa com as amigas florbelianas Clêuma e Suilei, descobrimos juntas os segredos do Chiado: poesia, fado e vinhooooo... Quero agradecer ao meu marido, Luiz, a companhia preciosa e o apoio constante. Agradeço a Simone, a Nei e a Lândia por terem cuidado das minhas jóias mais preciosas, os gatinhos: Elvis, Elvis Júnior, Dedo, Abelardinho, Leléia e joaninha, e da bassê Evita Perón, cadelinha que pensa que também é gato. Obrigada a minha universidade, a Ufes e a FAPES, pela bolsa e pelo meu SANDUICHE  (vegetariano) que vem por aí!!!! Ao Cristo Cósmico tudo e sempre!!!! Guardarei estes dias dentro do meu coração!

19/12/2011

Ana Maria Machado é eleita Presidente da Academia Brasileira de Letras

Olá queridos amigos, Ana maria Machado, escritora carioca de nascença e capixaba de coração, tomou posse como presidente da Academia Brasileira de Letras no dia 08/12/2011 (eleita por unanimidade). Ana Maria Machado é a segunda mulher a ocupar este cargo em 114 anos de existencia da instituição, a primeira acadêmica foi Nélida Piñon, eleita em 1997, ano do centenário da Casa.
A acadêmica Ana Maria Machado, considerada pela crítica como uma das mais completas e versáteis escritoras brasileiras contemporâneas, ocupa, desde 2003, a cadeira numero 1 da ABL. Ganhou, em 2001, o mais importante prêmio literário nacional– o Machado de Assis, outorgado pela ABL, pelo conjunto de sua obra como romancista, ensaísta e autora de livros infanto-juvenis. Um ano antes, recebera do IBBY (International Board on Books for the Young) a Medalha Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da Literatura Infantil, por ser o mais alto prêmio internacional do gênero, conferido a cada dois anos a um escritor, pelo conjunto da obra. Registro aqui a minha alegria por mais esta conquista alcançada por Ana Maria Machado e estou certa que ela contribuirá de forma singular com a ABL e enriquecerá ainda mais a nossa literatura.

Literatura e ressocialização: 7º Concurso literário da SEJUS/ 2011

Olá amigos, foi uma alegria ter participado da comissão julgadora do 7º Concurso literário do Sistema prisional do ES, realizado pela SEJUS, representando, juntamente com a amiga karina Fleury, a AFESL. Participaram deste concurso os 2.483 alunos matriculados no Programa “Portas Abertas Para a Educação”, implantado em 22 unidades prisionais do Estado. Neste ano, o tema das redações foi “Em que mundo você quer viver?”. Até o final do ano, a meta da Sejus é alcançar o número de 3.000 internos em sala de aula. Foram avaliados cerca de 1200 textos e, de acordo com a diretora do Núcleo Educacional, Regiane Kieper do Nascimento, "O projeto do Concurso Literário não visa apenas a confecção de textos, mas busca discutir com o aluno, antes da produção das redações, a relação do tema com sua vida, qual a sua importância para a construção da cidadania e para a sociedade”. A professora Ester Abreu Vieira de Oliveira, Presidente da AFESL, discursou destacando o valor da escrita no processo de autoconhecimento e de superação de desafios, ela disse que: "os pensamentos afluem e voam livremente como papéis levados pelo vento, chegam às palavras e nascem os sentimentos concretizando no papel os sonhos. Tudo ele recebe: paixões recolhidas e segredos guardados a sete chaves, incertezas e amores incompreendidos, mas no fim uma linda mensagem". Acredito que a literatura é uma ferramenta importante no trabalho de ressocialização dos detentos, observei em um grande número dos mesmos que quem os escreveu  fez uma imersão dentro de si mesmos e refletiu atitudes, escolhas e desejos. Sabemos que não existe uma fórmula mágica capaz de solucionar os problemas do sistema prisional e da violência, mas sabemos que a ARTE, mais especificamente, a LITERATURA, tem o poder de mudar muitas vidas!
Abraços a todos
Renata

16/12/2011

Luzes para Florbela Espanca...

No aniversário de nascimento e morte de Florbela Espanca, dia 08 de dezembro, realizei o desejo antigo de homenageá-la. Acendi uma vela ao pé de sua sepultura (duas outras velas já estavam acesas), luzes para a minha poeta, que ha anos me ilumina com seus escritos...

15/12/2011

O busto de Florbela Espanca


Olá amigos,
Tive a oportunidade de visitar, em Évora, o busto de Florbela Espanca. A história da instauração deste busto, desde o inicio de sua confecção em 1932, até quando ficou pronto, em 1935, pelas mãos  do artista Diogo Macedo, a pedido de intelectuais como Celestino David e Antônio Ferro, tem rendido leituras interessantes nos estudos florbelianos. Eu apenas tangenciei este tema na minha dissertação de mestrado mas pretendo discorrer mais sobre ele, agora, no doutorado. Foucault nos fala que força do discurso é tanta que foram criados  mecanismos de delimitação e de controle do mesmo, no caso, o controle do discurso feminino. Entre tais mecanismos alguns funcionam como sistemas de exclusão e isso se aplica a questão do busto de Florbela. É de conhecimento público que a igreja católica portuguesa classificou Florbela Espanca como sendo uma pessoa "moralmente perniciosa", e mais, considerou-a um "péssimo exemplo", o que fez com que a leitura de seus livros passasse a ser "moralmente" desaconselhável. 
O caso da instalação de um busto em homenagem a poeta ocupou por muito tempo as páginas dos jornais, foram muitas confusões que contaram, infelizmente, com o auxilio de vários estudiosos da obra de Florbela Espanca (na década de 30)  e contribuíram para com a formação de uma imagem mítificada da poeta. Esse mito foi sendo alimentado com prováveis e, muitas vezes inventados, aspectos curiosos, anedotários e tétricos sobre sua vida e sobre sua morte, como a calúnia de ela ter sido ninfomaníaca, ou o de ela ter sido praticante de incesto, informações que ajudaram a montar um perfil de mulher extemporânea, capaz de incomodar a estamental sociedade católica portuguesa. Não é circunstancial que Florbela tenha se tornado uma importante referência para o movimento feminista. Pode-se observar que Florbela Espanca carregou o estigma de ser mulher numa sociedade patriarcal e falocêntrica
Possuio documentos que mostram que a Sra. Aurélia Borges, em 28 de janeiro de 1947, pediu ao Presidente da Direção do Grupo Pró-Evora, Antônio Bartolomeu Gromicho, uma posição sobre a instalação do busto, (que seria instalado apenas dezenove anos depois da morte de Florbela), este respondeu que o [...] Grupo Pró Évora observou uma “má vontade”, [assim como a] inesperada e violenta resistência de alguns vereadores. [o caso do busto envolveu o ministro da Educação que] foi amável e elogioso para o valor da poetisa, mas terminou por me dizer que “a sepultura estava ainda muito quente” para que a homenagem pudesse se realizar. Portanto, não consentia a homenagem, “nem em Évora, nem em qualquer ponto do império português”. [movidas altas influências tanto a favor, quanto contra a instauração do busto eis que surge] uma nota do Governo civil explicando que o busto não podia ser colocado no jardim. [Instalado o busto, após anos de luta, não foi demolido porquanto] um vereador , da nova geração, [...] conseguiu inteligentemente levar à Câmara a resolver que se tapasse ou “camuflasse” o plinto com benévolas e discretas trepadeiras. [O Sr. Gromicho finaliza o documento afirmando que] exoste pois o monumento incompleto de Florbela Espanca, tal qual a Célebre Sinfonia Incompleta vibrando altissonante dos seus admiradores (GROMICHO, 1947). O mecanismo de exclusão perpetrado à obra e a memória de Florbela Espanca mostra como defendeu Foucault (2006), que dentro de uma determinada sociedade, é preciso conjurar os poderes e perigos do discurso feminino e “dominar seu acontecimento aleatório”, afim de esquivar sua pesada e temível materialidade. O poder hegemônico masculino delimitou o lugar e as funções do sexo feminino, assim, definitivamente, o lugar de Florbela Espanca não seria o de homenageada em praça pública. Quem quiser ler a dissertação completa basta baixa-la em pdf

Wisława Szymborska: a poesia do cotidiano sob a marca da dor (publicado no Caderno Pensar de A Gazeta)

Olá amigos, segue um comentário que fiz acerca da obra da poeta polonesa Wisława Szymborska para o Caderno pensar do jornal A Gazeta/ES, está na página 03. Vocês podem conferir também outros textos interesantes sobre artes plásticas, música, cinema, etc., espero que curtam a leitura. Reproduzo abaixo o texto publicado.

Wisława Szymborska:
a poesia do cotidiano sob a marca da dor

A poeta polonesa Wisława Szymborska nasceu em 1923 na cidade de Bnin e aos oito anos se mudou para Cracóvia, onde reside até hoje. Wisława Szymborska conquistou variados prêmios literários, entre eles, o prêmio Goethe, na Alemanha, em 1991, o prêmio Herder, na Áustria, em 1995, e o Prêmio Nobel de literatura, em 1996. Aos 88 anos de idade a poeta busca preservar a sua vida privada, possui uma personalidade pacata, é discreta, e pouco afeita a viagens e badalações literárias.
A obra poética de Wisława Szymborska totaliza doze volumes. A editora Companhia das Letras lançou em 2011 o livro Wisława Szymborska: [poemas], que reúne uma mostra da produção da poeta no seu idioma original, o polonês, com tradução para o português realizada por Regina Przybycien. Este lançamento agrega poemas recolhidos nos livros Por isso vivemos, de 1952; Perguntas feitas a mim mesma, de 1954; Chamando por Yeti, de 1957; Sal, de 1962; Muito divertido, de 1967; Todo caso, de 1972; Um grande número, de 1976; Gente da ponte, de 1987; Fim e começo, de 1993; Instante, de 2002; Dois pontos, de 2005, e Aqui, de 2009.
Wisława Szymborska integra uma safra de poetas que testemunhou as agruras da II Guerra e o Holocáusto. A poeta viu a terra natal ser ocupada pelos nazistas e repartida entre potências socialistas, acontecimentos que resultaram na morte de mais de seis milhões de poloneses, muitos deles judeus. Poemas como Vietnâ, no qual ressoam muitos “Não sei” e, Certa gente, que desnuda o silêncio daqueles que “deixaram para trás certo tudo o que é seu” e, “quanto mais vazios tanto mais pesados a cada dia”, revelam o tom político de sua escrita.
Para o eu poético szymborskiano tudo é político, observemos um trecho do poema Filhos da época: “Somos filhos da época/ e a época é política. [...] Querendo ou não querendo,/ teus genes têm um passado político./[...] Não precisa nem ser gente,/ para ter significado político,/ basta ser petróleo bruto.” A inquietação e variados questionamentos, muitos deles de ordem filosófica, marcam a escrita poética de Szymborska. Poéticamente, o cotidiano, o passado, a sujeição do homem ao tempo, a vida precária e breve, são abordados entre outros temas. Malgorzata Baranowska, ressaltou que o senso de humor da poeta é fruto de um “paradoxo filosófico muito refinado com uma linguagem extremamente simples, cheia de expressões do cotidiano”. Estes aspectos podem ser observados no poema Primeira foto de Hitler: “E quem é essa gracinha de tiptop?/ É o Adolfinho, filho do casal Hitler”! O crítico Nelson Ascher destacou que a escrita poética de Szymborska “é a da contenção”, da “economia”, aspectos que conferem “intencionalidade” a cada poema.
O eu lírico szymborskiano repensa o mundo como quem reedita uma obra, ele dá voz a sujeitos subalternizados e silenciados pela história abrindo espaço para “a fala dos bichos e das plantas”, deixando falar A mulher de Lot, personagem bíblica transformada em estátua de sal. O tempo, senhor onipotente, no universo poético de Szymborska “não terá poder sobre os amantes”, como descreve o poema Repenso o mundo, e o grotesco e o sublime buscam harmonia para embalar a morte, algo como “Bach/ tocado por um instante num serrote.”
Os poemas explicitam a transitoriedade da vida, “Cena sem ensaio”, espécie de teatro “onde o mais sublime é o baixar da cortina”, o eu poético confessa: “Não sei o papel que desempenho,/ Só sei que é meu, impermutável”, estes são trechos dos poemas Impressões do teatro e A vida na hora. Se “a vida e a arte não devem só arcar com a responsabilidade mútua, mas também com a culpa mútua”, como afirmou o linguista Mikhail Bakhtin, Szymborska, no poema Sob uma estrela, toma sobre os seus ombros a culpa do mundo e se desculpa perante tudo e todos, especialmente “as grandes perguntas pelas respostas pequenas”, “por não poder estar em toda parte”, e “por não saber ser cada um e cada uma.”
A obra poética de Wisława Szymborska é rica de significados e, ainda, pouco conhecida no Brasil. Acreditamos que a poeta encontrará, cada dia mais, espaço entre os leitores da boa poesia.

Poemas:

Vietnã


Mulher, como você se chama? ― Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? ― Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? ― Não sei.
Desde quando está aqui escondida? ― Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? ― Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? ― Não sei.
De que lado você está? ― Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. ― Não sei.
Tua aldeia ainda existe? ― Não sei.
Esses são teus filhos? ― São.

O quarto do suicida


Vocês devem achar, que o quarto estava vazio.
Pois havia ali três cadeiras de encosto firme.
Uma boa lâmpada contra a escuridão.
Uma mesinha, e sobre a mesinha uma carteira, jornais.
Um Buda alegre, um Jesus aflito.
Sete elefantes para dar sorte, e na gaveta um caderninho.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Pois lá estava o trompete consolador nas mãos negras.
Saskia com sua flor cordial.
Alegria, centelha divina.
Na estante Ulisses num sono reparador
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas, seus nomes inscritos em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Ao lado, também os políticos perfilados.
Não parecia que o quarto fosse
sem saída, pelo menos pela porta,
nem sem vista, pelo menos pela janela.
Os óculos para longe largados no parapeito.
Uma mosca zumbindo, ou seja, ainda viva.

Devem achar que ao menos a carta explicasse algo.
E se eu lhes disser que não havia carta ―
éramos tantos os amigos e coubemos todos
No envelope vazio apoiado no lado do corpo.

10/12/2011

Colóquio Internacional Florbela Espanca: o espólio de um mito (dezembro 2011)

Pesquisadores da obra de Florbela Espanca
Amigos,
O Colóquio Internacional Florbela Espanca: O espólio de um mito terminou, fica a saudade...Eu só tenho que agradecer a todos por tudo de bom que me proporcionaram. Cheguei hoje em Lisboa e no dia 14/12 estarei de volta à Ilha, então postarei com calma muitas fotos e informações sobre este evento inesquecivel para mim e marcante para os estudos da obra de Florbela Espanca.
Abraços mil

29/11/2011

Programa do Colóquio Florbela Espanca: O espólio de um mito (Vila Viçosa/ 2011)

Olá amigos, estou arrumando as malas para voar para Portugal. Após a apresentação do meu artigo irei publicá-lo na íntegra, enquanto isso, segue o resumo, espero que gostem. Segue também o link do Colóquio com os resumos das demais apresentações que, diga-se de passagem, estão interessantissimas... Estou muito feliz por reencontrar a professora Maria Lúcia Dal Farra e conhecer pessoalmente os amigos do grupo de pesquisa do CNPq entre outros colegas florbelianos. Não posso deixar de destacar e agradecer o apoio irrestrito que recebo da minha orientadora do doutorado Professora Ester Abreu Vieira de Oliveira, amiga e mestre e do meu marido, o Luiz.
Abraços fraternos e florbelianos...

Poética e política: diálogos intercontinentais entre Florbela Espanca e Rúben Darío

Renata Bomfim- doutoranda em letras pela UFES/ FAPES

A poeta portuguesa Florbela Espanca (1894-1930) e o poeta nicaraguense Rúben Darío (1867-1915) são personalidades literárias cuja relevância das obras e legado de resistência aos discursos autoritários, via poesia, têm despertado na contemporaneidade o interesse, tanto do público leitor, quanto de pesquisadores. Embora tenham nascido em continentes diferentes e cumprido percursos literários singulares, Florbela e Darío compartilharam da mesma modernidade, tempos de autodestruição criativa, aspecto que pode ser observado no desejo de ambos em romper com a tradição e com o status quo. Se a poética de Florbela Espanca transgrediu com o ideário feminino de sua época, encontraremos na poética de Rúben Darío uma ruptura com o cânone literário, que contribuirá para com a renovação das letras hispano-americanas e marcará o surgimento do primeiro movimento genuinamente hispano-americano, o Modernismo. A relação entre as poéticas de Florbela Espanca e de Rúben Darío são, ainda, pouco estudadas, o que nos causa estranheza, pois o conhecimento da obra deste poeta é relevante para uma compreensão da lírica hispano-americana e, no caso em questão, para o entendimento da obra Charneca em Flor, de Florbela. Proponho, por meio deste estudo que denominei Poética e política: diálogos intercontinentais entre Florbela Espanca e Rúben Darío, refletir de que forma a obra de Florbela Espanca dialoga com a obra de Rúben Darío, bem como, analisar possíveis motivações que fizeram com que ambos fossem acusados pela crítica, durante muito tempo, de não terem envolvimento político. Mas, se a “uma sociedade dividida corresponde uma poesia em rebelião”, como destacou Octávio Paz, é possível observarmos nas poéticas de Florbela e de Darío formas singulares de engajamento que põem em xeque essa alienação. Dois biomas diferentes que se complementam sob a filosofia de Eros, a selva sagrada de Rúben Darío e a Charneca rude de Florbela Espanca, um encontro entre a “princesa das quimeras” e o “príncipe das letras castelhanas”, interlocução que, a nosso ver, demanda investigação.

ASOCIACIÓN INTERNACIONAL DE TEATRO ESPAÑOL Y NOVOHISPANO DE LOS SIGLOS DE ORO (EL TEATRO BARROCO: TEXTOS Y CONTEXTOS/2012)

CONGRESO EXTRAORDINARIO DE LA AITENSO
3, 4 y 5 de octubre de 2012
Vitória (Espírito Santo - Brasil)

La Asociación Internacional de Teatro Español y Novohispano de los Siglos de Oro (AITENSO) y la Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), se complacen en informar que durante los días 3, 4 y 5 de octubre de 2012 se celebrará en la ciudad de Vitória (Brasil) un congreso extraordinario de la AITENSO titulado El teatro barroco: textos y contextos.
La idea es atraer al evento a todos los miembros de la Asociación que lo deseen, así como a los investigadores brasileños que actualmente trabajan sobre el teatro barroco producido tanto en España como en Hispanoamérica. Con esta convocatoria se pretende trazar puentes y despertar el interés hacia las investigaciones realizadas por estudiosos brasileños o de otras nacionalidades. En tiempos de globalización es muy importante contextualizar e incluir a Brasil como centro productor de estudios siglodoristas y temas afines, con el objetivo de dar visibilidad a tales aportes. Creemos que la realización del Congreso, que tendrá lugar por primera vez en Brasil, será un hito fundamental para establecer nexos y vasos comunicantes entre aquellos colegas que se ocupan del teatro clásico.
Así, convocamos e invitamos a todos los investigadores del mundo a que acudan al Congreso y presenten sus trabajos, en la confianza de que el evento resulte productivo y brillante. En tiempo oportuno se facilitará más información, así como detalles prácticos sobre hoteles y enlaces entre el aeropuerto de Vitória, la Universidad y la zona hotelera.
Atentamente:
El Comité Organizador
Dra. Ester Abreu Vieira de Oliveira (Universidade Federal do Espírito Santo - Brasil)
Dr. Jorge Nascimento (Universidade Federal do Espírito Santo – Brasil)
Dra. Lygia R. V. Pérez (Universidade Federal Fluminense – Brasil)
Dra. Maria Mirtis Caser (Universidade Federal do Espírito Santo – Brasil)
Dr. Miguel Zugasti (Universidad de Navarra)

José Augusto Carvalho lança a Gramática Superior da Língua Portuguesa

Olá amigos, o professor José Augusto Carvalho acabou de lançar a Gramática Superior da Língua Portuguesa. Convido vocês para assistirem ao vídeo onde o professor (amigo e revisor dos meus livros de poemas) fala sobre essa obra e sobre o desafio de renovação e compreensão de um idioma tão lindo e complexo como o nosso.
Parabéns por esta conquista, professor!
Abraços a todos
Renata