25/11/2009

Uma orquestra esquisofrênica: resumo do texto apresentado no XI Congresso de Estudos Literários-Ufes/2009


UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO
XI CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:
PESSOA, PERSONA, PERSONAGEM



Uma orquestra esquizofrênica: a polifonia arquetípica na obra de Florbela Espanca
(autoria de Renata Bomfim)

Este trabalho tem como fontes, dados gerados durante a realização da minha dissertação de mestrado em Estudos Literários, intitulada: Vozes femininas: a polifonia arquetípica em Florbela Espanca, defendida em setembro de 2009, na UFES, bem como, da participação, desde 2007, no grupo de pesquisa do CNPq intitulado: “Aproximações regionais: Alentejo Português e Nordeste Brasileiro- Florbela Espanca; romanceiros e romances sergipanos, da UFS.
A questão da autoria em Florbela Espanca (1894- 1930) nasceu sob o signo da misoginia e da confusão. A crítica literária Maria Lúcia Dal Farra, no livro Trocando olhares (1984) faz um estudo aprofundado sobre a nascente da poética florbeliana, revelando os esforços da poeta junto ao mercado editorial e crítico português, como por exemplo a interlocução que estabeleceu com Madame Carvalho, responsável pelo suplemento feminino da revista Século Diário.
A poeta começou a escrever poesias em 1915, e em 1916 reuniu-as num manuscrito que nomeou: “Trocando Olhares”, ano que Portugal ingressou na primeira guerra mundial. Com 88 poemas e 3 contos, o manuscrito Trocando Olhares foi matriz de outros projetos poéticos como Alma de Portugal, O Livro d’Ele, e Minha Terra, meu amor e das antologias poéticas: Primeiros passos (1916) e Primeiros versos (1917), posteriormente, foi também, matriz de seu primeiro livro publicado em 1919, o Livro de Mágoas.
Em Trocando Olhares pode-se observar que Florbela nutriu sua poesia nascente com a tradição poética popular, através da utilização de quadras. O manuscrito em questão é formado por três conjuntos de quadras em redondilha maior, intituladas, As Quadras d’Ele. Sigismundo Spina (s.d., p. 110) esclarece que as quadras foram as formas matrizes do raciocínio poético dos trovadores populares, assim como o dístico. Rougemont (1998, p. 58) reforça acerca da importância dessa forma poética explicitando que “a poesia européia nasceu da poesia dos trovadores” entre os séculos XI e XII, e falava a língua provençal exaltando o amor infeliz e perpetuamente insatisfeito. Assim, vemos que o diálogo que a poética de Florbela estabelece com as trovas extrapola o campo da forma, estendendo-se para o campo temático.
Para um maior entendimento profundidade do diálogo entre esse gênero poético eminentemente popular e a poética florbeliana, destacaremos algumas de suas características. O trovadorismo exaltou o amor livre das amarras do casamento, pois este pressupunha apenas a união de corpos, enquanto o “amor”, ou seja, o “Eros supremo”, seria a projeção da alma para a “união luminosa”, ou seja, “para além de todo amor possível nessa vida”. O poeta, de joelhos, deve jurar amor eterno a sua dama, tal como se faz a um soberano. Florbela inverterá a vassalagem amorosa e cantará o amado em seus versos, ela será a sua serva. Outra característica importante do trovadorismo é que ele surge trazendo uma nova visão de mulher, contrária à difundida até então pelos costumes tradicionais; ela é elevada acima dos homens, tornando-se assim, o seu ideal nostálgico (ROUGEMONT,1998, p. 58).
Queria ser a erva humilde
Que pisasse algum dia,
Pra debaixo de teus pés
Morrer em doce agonia.
(ESPANCA, 1994, p. 33)
O ímpeto da poeta em experimentar levou-a a misturar gêneros, trocar o masculino pelo feminino, ou seja, ela começou por meio da linguagem poética a promover uma troca simbólica de lugares sociais e, de olhares, como, semanticamente, também sugere o título do manuscrito. Em junho de 1916 Florbela escreveu a amiga Júlia Alves dizendo: “Só o soneto é que me convém; a quadra, dizer muito em quatro versos, torna-se para mim bastante difícil” (DAL FARRA, 1984, p. 28).
O Livro de Mágoas, estréia poética de Florbela, se deu sob o signo da misoginia e do plágio. Florbela Espanca foi acusada de dividir autoria com Antônio Nobre e Américo Durão, influências que nunca foram negadas pela poeta, pelo contrário, eram por ela expostas com orgulho. Diz Dal Farra que:
A jovem poetiza se sabe proibida em seus versos, de levar em conta, como forma poética, a tradição literária, a poesia já produzida, consagrada e apreciada, uma vez que qualquer demonstração de permeabilidade seja à literatura popular anônima, seja a literatura de seus autores preferidos, é sentida como infração. [...] nesse contexto, a intertextualidade é pejorativa e julgada como plágio (ESPANCA, 1994, p. 57, grifo nosso).
O Livro de Mágoas foi visto como “licoroso para homens”, “escrito por um Antônio Nobre de saias” (FERREIRA,1965). Como mulher, ao se apropriar do discurso literário, cuja tradição é, predominantemente, masculina, Florbela recebeu, também, como resposta, para além dos parcos comentários depreciativos, o silêncio. Florbela trouxe para a sua poesia a dor de existir, a saudade e, principalmente a mágoa. Foi também no Livro de Mágoas que a poeta entronizou definitivamente a dor, que passou a ser parte integrante da sua estética.
O Livro de Sóror Saudade veio a lume em 1923 e dialoga, especialmente, com a poética de Américo Durão. Mathias (1998, p. 68) descreve que Florbela “confessa a dominância que a poética do colega e amigo enxerta nela” em uma carta que data de 5 de janeiro de 1920, Esta carta foi cedida pelo próprio Durão à Maria Alexandrina e por ela publicada em 1964, em A vida ignorada de Florbela Espanca. Na carta Florbela diz: “Do seu livro veio o meu livro. Obrigado. Amigo Meu! ”. A estética que marca a poética do Livro de Sóror Saudade é a do saudosismo.
O Alentejo, terra de Florbela, é terra de mulheres poetas, lá viveu, no século XV, Públia Hortência , Mariana Alcoforado e suas cartas de amor, houve também mulheres célebres que fundaram conventos como Margarida Cheirinha ou Maria das Chagas. Estas vozes e suas muitas histórias, de alguma forma, ecoaram a partir do auditório interior de Florbela no Livro de Sóror Saudade. O soneto Alentejo, dedicado à amiga Buja, no fragmento: “A terra prende aos dedos sensuais/ A cabeleira loira dos trigais/ Sob Bênçãos dulcíssimas dos céus.// Há gritos arrastados de cantigas.../ E eu sou uma daquelas raparigas.../ E tu passas e dizes: “Salve-os Deus!”(ESPANCA, 1996, p. 172).
A dor de existir expressa no Livro de Mágoas e no Livro de Sóror Saudade aparece interiorizada e em transformação, a consciência poética de Florbela vai se fortalecendo e “ela adquire estatuto de poetisa”, deixa de ser o “ser sofredor”, abrindo mão de uma postura passiva para uma ativa e recebendo uma ”titularidade merecida”, a partir das escolhas que passa a fazer (MATHIAS, 1998, p. 87).
Charneca em Flor foi o primeiro póstumo de Florbela, lançado em janeiro de 1931 por Guido Battelli. Este livro foi um marco na obra de Florbela Espanca, pois mostra o amadurecimento da consciência poética florbeliana, que encontra a sua voz entre outras vozes e dialoga de forma amplificada tanto com outros autores, quanto com a tradição. O poema de abertura que possui o mesmo título do livro se apresenta como um farol, prenunciando o que se seguirá na obra da poeta:
Enche o meu peito, num canto mago,
O frêmito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosa...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nessa febre ansiosa que me envade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, amel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!
(ESPANCA, 1996, p. 209).
Em Charneca em Flor, a poeta amplia o diálogo, alcançando a tradição hispano americana, através do poeta nicaragüense, Ruben Dario. Em uma carta enviada a Guido Battelli em 3 de agosto de 1930, Florbela diz: “Gosto imenso, imenso do seu grande Ruben Dario. Mas também são dele estes dois belos versos”: Pues no hay dolor más grande que el dolor de ser vivo,/ Ni mayor pesadumbre que la vida consciente” (ESPANCA, 2002, p. 276). Florbela nessa carta diz estar trabalhando muito no Charneca em Flor, o trecho descrito leva-nos a especular que Battelli tenha apresentado a obra de Dario a Florbela. Esta interlocução poética tem início na epígrafe de Charneca em Flor, que traz o poema de Dario, intitulado Amo, Amas, parte integrante do livro Cantos de Vida e de Esperanza, de 1905.
Acreditamos que ao escolher Dario para prefaciar a sua obra, Florbela Espanca ultrapassou o desejo de apenas homenagear ao poeta, até porque seus livros anteriores é possível perceber que os autores escolhidos, para os prefácios, extrapolam este espaço, atravessando toda a obra.
Dentro do livro Charneca em Flor, Florbela separa um bloco formado por dez sonetos os quais ela intitula He hum não querer mais que bem querer, uma referência explicita ao poema do mestre português, Luis de Camões, mais um diálogo que a poeta estabelece, e este com aquele que é considerado o maior poeta português.
A maioria dos estudiosos da poeta concordam que ela é uma persona dramatis e tanto a sua obra, quanto a sua biografia ficcional, trazem como marca a teatralidade. O pensador russo Mikhail Mikhailovitch Bakhtin, diferencia a personagem lírica da do romance, pois no romance a personagem possui inacabamento, possui força, autoridade, a personagem lírica, por sua vez, possui uma “possibilidade virtual de autonomia”. Parece que autor e personagem se fundem numa unidade. O discurso poético tende a ser monofônico (ele nasce da ilusão de individualidade) mas Bakhtin afirma que não há significado literário fora da comunicação social. Para este pensador, a lírica não restringe o personagem e nem lhe dá caráter acabado. O discurso poético mantém o caráter dialógico, mas a forma como a linguagem é utilizada nesse gênero “faz com que o enunciado a sustente e passe a refletir a intenção do eu lírico”.
O poeta é um ser dialógico, ele descobre novos mundos e os manipula no seu reino das palavras, dialoga com a sua realidade e com a realidade do outro, vem daí as vozes que se fazem sentir nos poemas, mas o sujeito poético se comunica sem mediador. Na poesia , o mundo da linguagem está a serviço da voz do poeta, assim, a natureza monológica da autoridade poética está na sua forma, ou estrutura, mas não no seu conteúdo. Bakhtin destacou também que a autoridade do autor é a autoridade do coro, portanto, para que a vivencia do autor ecoe liricamente, ele precisa ouvir o outro nele, ou seja, ele é mais um com o coro.
Buscando desvendar a polifonia arquetípica florbeliana, recorremos ao pensador Carl Gustav Jung , pai da psicologia analítica. No livro O Espírito na Arte e na ciência, alerta para o perigo das leituras reducionistas, que buscam transformar o poeta em caso clínico, importante destacar que Jung considera a formação imagética uma expressão não-patológica, assim, doente ou saudável, o poeta só pode ser compreendido através de seu processo criador. Viu-se o contrário acontecer na comemoração do I centenário de nascimento de Florbela Espanca, em Évora, quando uma pesquisadora especulou: “contraiu uma doença nervosa (seqüelas de sífilis, provavelmente.)”.
Jung concebeu a psique como uma entidade fragmentada, e a realidade psíquica como “o murmúrio de muitas vozes” que produzem contradição da vontade e reflorescimento da fantasia”. O ego não é senhor de si, ele é um complexo. O complexo individual atua no campo da consciência, e complexo coletivo no campo da cultura. Através da teoria dos complexos Jung propôs a existência de uma camada mais profunda da psique, uma cama cultural, o ICS coletivo que é formado por motivos mitológicos. Para Jung toda mitologia pode ser vista como uma projeção do ICS coletivo. É também no ICS coletivo que estão os arquétipos, ou seja, os elementos primordiais e estruturais da psique humana. Os arquétipos são irrepresentáveis, mas seus efeitos podem ser percebidos através de imagens. O arquétipo é uma figura mitológica que expressa milhões de experiências individuais. O mito é a elaboração criativa transcrita de forma compreensível.
Importante ressaltar que, em consonância com o pensamento de Bakhtin, para Jung, uma obra de arte nunca é unívoca e o arquétipo, é uma experiência perturbadora que solta em nós uma voz muito mais poderosa que a nossa. A poesia de Florbela é dialógica, polifônica e prenhe de arquétipos femininos,portanto, arquetípica. Dentre estes arquétipos destacamos em nossas pesquisa os de Lilith, Eva e Maria. Na ânsia de fazer dialogarem aspectos tão díspares do feminino a poeta acaba criando uma criatura síntese, um Frankenstein que deseja mar, (com)viver , mas encontra como devir a morte e a errância. Eis a tragédia moderna, segundo Raymond Willians, a separação que isola e impossibilita a troca, o diálogo.

Amigos, o texto ficou muito grande pra postar inteiro, se alguém se interessar de lê-lo na íntegra é só me escrever que eu envio por e-mail.

18/11/2009

QUEM SÃO O VAMPIRO E A DEBORAH DE MIGUEL MARVILLA

Resumo do trabalho apresentado no XI Congresso de Estudos literários da UFES, que este ano homenageou o poeta Miguél Marvilla. Autoria: Eduardo Selga
Certa vez um dos maiores nomes da literatura praticada no Espírito Santo, Miguel Marvilla, essencialmente poeta, pretendeu a prosa. E nos legou Os mortos estão no living. Trataremos aqui dos personagens de O vampiro, Deborah, um dos contos abrigados no livro do saudoso Marvilla.
À semelhança de Drácula de Bram Stoker, o vampiro, em visita à personagem Deborah, estabelece com ela um colóquio pautado pela sedução em diversos graus de explicitude. Esse exercício de intertextualidade refere-se diretamente ao perfil estabelecido pelos ultrarromânticos que apropriaram-se das narrativas orais pertencentes às tradições milenares espalhadas pelas mais diversas culturas do Planeta acerca da entidade, nas quais ela nada tem de apaixonada ou apaixonante, por estar fortemente vinculada ao conceito cristão de Inferno (VAMPIRISMO, 2009).
Observando as tradições transmitidas pela oralidade, poderíamos considerar despropositada a atmosfera lírica que se dá durante a evolução da trama Tal lirismo desconstrói, paulatinamente, uma possível expectativa de terror. Mas o paradoxo nem chega a se constituir se atentarmos para uma característica em particular da referida escola literária, a junção do grotesco com o sublime e, nas palavras de Vítor Manuel e Silva, numa aprofundada análise das raízes da estética literária romântica, o fato de que
[...] A meditação sobre a noite, os sepulcros e a morte insere-se na temática pessimista [...], e traduz a nostalgia do infinito e a funda insatisfação espiritual que já angustiam os pré-românticos e que hão-de revelar-se mais exacerbadamente nos românticos (SILVA, 1976, p. 468).
Deborah, conforme uma das interpretações possíveis, pode não ser vítima, no sentido estrito do termo. A mesma ambiguidade se dá com o vampiro, uma vez que se ele entregue à paixão é conjectura plausível na perspectiva da escola romântica, não menos o é presumir seu discurso encantador estratégia hábil em pormenores concebida visando a saciar-se em dose dupla: carente de sangue, que é criatura hematófaga, assim nos diz a tradição oral; carente de sexo porque ainda mantém consigo a essência humana, não rigorosamente morto nem exatamente vivo.
Um dos motivos que contribuem para a solidez do vampiro e de Deborah enquanto personagens reside no fato de ambos preexistirem ao texto de Marvilla. Se o primeiro é um bem-sucedido exercício intertextual, Deborah pode ser lida como representação arquetípica do mito Perséfone. Portanto, a intertextualidade, compreendida enquanto prática que alia o texto escrito ao texto oral, aliada ao arquétipo, demonstram a preexistência dos personagens do conto. Como nos diz Wolfgang Iser,
[...] o texto ficcional contém muitos fragmentos identificáveis na realidade, que, através da seleção, são retirados tanto do contexto sócio-cultural, quanto da literatura prévia ao texto. Assim retorna ao texto ficcional uma realidade de todo reconhecível, posta entretanto agora sob o signo do fingimento (ISER, 1983, p. 400).
Considerando que na trama existe um jogo de dupla sedução a envolver ambos os personagens de tal modo que o estado emocional deles se altera à medida que o diálogo, afetuoso e em certa medida melodramático, evolui, parece-nos razoável conjeturar tal elemento da narrativa (quem seduz quem) uma referência à passagem do mito de Perséfone na qual, embora sequestrada pelo Hades a fim de tornar-se soberana do seu reino, a personagem mitológica cria certo vínculo afetivo com ele. Alegoricamente, temos que o vampiro “sequestra” a personalidade de Deborah, que se mostra emocionalmente dependente dele e se apaixona por quem, em tese, seria seu algoz.
Referências
BARROS, Maria Teresa Mendonça de. Mitos e arquétipos femininos na comunicação. NPP Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas. Disponível em: . Acesso em: 17 julho 2009.
BIAGI, Orivaldo Leme. Drácula, de Bram Stoker – o horror e o romantismo de Francis Ford Coppola. Boca do Inferno. Disponível em: Acesso em : 18 fevereiro 2009.
BLANC, Cláudio. O mito do vampiro. Conhecer Fantástico, São Paulo, 2009. Vampirismo, p. 4-7.
BOECHAT, Walter. Arquétipos e mitos do masculino. In:______. Mitos e arquétipos do homem contemporâneo. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. p. 19-40.
ESTUDANDO vampiros. Conhecer Fantástico, São Paulo, 2009. Vampirismo, p. 41-43.
ISER, Wolfang. Os atos de fingir ou o que é fictício. In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da literatura em suas fontes. Vol. II. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983, p. 417-441.
MARVILLA, Miguel. O vampiro, Deborah. In:______. Os mortos estão no living. 2. ed. Vitória: Floricultura, 2006. p. 21-26.
SILVA, Victor Manuel de Aguiar e. Rococó, pré-romantismo e romantismo. In: ______. Teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1976. p. 463-488.
SODRÉ, Paulo Roberto. Carta aos mortos. In: MARVILA, Miguel. Os mortos estão no living. 2. Ed. Vitória: Floricultura, 2006. p. 131-138.

Sobre o autor:
Eduardo Selga é graduando em Letras/Português pelas UFES. Nascido no Rio de Janeiro. Seus primeiros contos surgiram na década de 80, em "A Gazetinha", suplemento infantil de "A Gazeta", jornal de maior influência na sociedade capixaba. O conto "O Estranho Homem de Nossa Sinhorinha dos Incréus" foi premiado com medalha de bronze em concurso promovido pela Revista Brasília e editado em coletânea em 1994. Outra coletânea de contos na qual se faz presente é a "Livres Pensadores", lançada em abril de 2004 pela editora Scortecci na XVIII Bienal Internacional do Livro, em São Paulo. Em 2005 lançou seu livro de contos "A Morte de João Mocinha" pela Papel E Virtual Editora. Durante todo o ano de 2006 foi cronista convidaddo do jornal "Opinião", de Serra (ES). O conto "Breve História do Pretérito do Futuro" foi publicado na edição de estréia da revista cultural capixaba Intelecto, em 2002. Também na publicação A’Angaba, cuja proposta é a mesma da revista anterior, possui, desde 2008, textos publicados. Em abril de 2008 conquistou Menção Honrosa no Primeiro Concurso Cantigários de Letras de Música e Textos de MPB (Editora Guemanisse)com o artigo "A Música Incômoda". Em 2009, pela mesma editora, teve seu conto “Contrato de Namoro” publicado em função de menção honrosa em concurso nacional.

09/11/2009

IV Seminário de Pesquisa e Prática Pedagógica Saberes

Olá amigos, gostaria de convidá-los para o IV Seminário de Pesquisa e Prática Pedagógica da Faculdade Saberes, nos dias 10 e 11 de novembro. Estarei no dia 10 apresentando um minicurso sobre poesia, no qual  proponho estabelecer um dialogo com os pensadores Mikhail Mikhailovich Bakhtin e Carl Gustav Jung, trabalhando questões referentes ao eu poético e a polifonia arquetípica, e no dia 11, às 20:15h, ministrarei uma palestra sobre a Vivência socioambiental realizada no Mosteiro Zen Morro da Vargem. As inscrições podem ser feitas no site: http://semanasaberes.blogspot.com/
Foto: Karina Fleury, coordenadora do curso de Letras da Saberes e moi.

07/11/2009

XI CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: PESSOA , PERSONA, PERSONAGEM- UFES (Dias 05 e 06 de nov. 2009)

O XI Congresso de Estudos Literários desse ano foi dedicado ao poeta, historiador e amigo Miguél Marvilla, falecido no dia 10 de outubro desse ano. Os participantes do evento tiveram acesso a um menu variado, com  trabalhos que revisitaram desde Ovídio e sua obra Metamorfoses e a poesia amorosa latina,   à estudos que abordaram variadas facetas da contemporaneidade, na poesia, no romance e na música, o rap, por exemplo. Vale ressaltar a ótima organização do evento e a qualidade das comunicações. Foi Muito bom rever amigos queridos do tempo do mestrado como Thiago, com quem tive a alegria de compartilhar a mesa, Eduardo, Luciana, Maria Amélia, entre outros, e os queridos pofessores Wilberth, Paulo Sodré, Raymundo, Lino e Luis Eustáquio, que foi meu orientador de pesquisa.




A programação completa do evento e os resumos das apresentações podem ser conferidas no site:

30/10/2009

O drama da (in)sustentabilidade

As cidades ocupam apenas 2% da superfície da terra mas consomem 75% dos seus recursos. Esta estatística me deixou estarrecida, lí-a no Pegada Ecológica, de Genebaldo Freire Dias. Este livro é esclarecedor pois apresenta artigos com estatísticas atualizadas que mostram como o modelo de  desenvolvimento que construímos é suicida e replica-se, infelizmente, por quase todo o mundo.
As cidades possuem um megametabolismo energético e material que demanda, cada vez mais, grandes quantidades de matéria, ao passo que produz uma grande quantidade de lixo, além da emissão de gazes causadores do efeito estufa. Segundo Dias, "estamos destramando os fios de uma complexa rede de segurança ecológica", e a maioria dos seres humanos, ainda desconhece a importancia vital dessa rede. O escritor é claro quando afirma que, ou assumimos uma economia que respeite os limites da terra, ou continuamos como estamos, postura que indica que nos envolveremos numa grande tragédia evolutiva.
Bem, as cidades são hoje responsáveis pela emissão de 3|4 do gás carbônico mundial e elas continuam crescendo em todo o mundo, a população urbana mundial cresce em média 70 milhões de habitantes ao ano, e para sustentar esse crescimento, a cada dia, os sistemas naturais são mais sacrificados, e a sede de consumo contemporânea apresenta-se insaciável. Casais apaixonados não iamginam que, para produzir duas alianças de ouro, gera-se em torno de duas toneladas de resíduos, um exemplo simples que nos faz refletir como deve ser devastador o impacto do crescimento material da sociedade.
O pensador Miller Jr. afirma que as cidades representam o maior impacto do ser huamno sobre a natureza, ela depende de áreas fora de suas fronteiras para manter seu metabolismo, dispensando assim, suas influências por todo o globo, ou seja, "ela importa tudo, e exporta calor e resíduos".
Resolver estes problemas e muitos outros referentes às cidades requer muito esforço, cooperação e visão siatêmica, que dêem conta de seus variados aspectos: população, organização, meio ambiente e tecnologia, não podemos esquecer do aspecto cultural, que também possui metabilismo próprio e peculiar. A cidade moderna é um parasita do ambiente rural, ela produz pouco ou nenhum alimento, polui o ar, recicla pouco a água e os materiais inorgânicos, a terra possui limites para acomodar a tecnologia humana, por exemplo, a Gran Bretanha explora no mundo uma área três vezes maior que a sua para a extração de madeira, 75% dessa madeira vem de países subdesenvolvidos, já na Amazônia, cerca de treze mil hectares de floresta são destruídas anualmente para sustentar o consumo de madeira, inclusive para a produção de papel.
Bem, amigos, o resultado é que 1,1 bilhão de pessoas dos países ricos da terra, consomem 3/4 de seus recursos naturais, enquanto os 4,8 bilhões restantes, que corresponde a 80% da população, sobrevive com 1/4.

26/10/2009

Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias


se tem um cara que, na minha opinião, conseguiu descrever com precisão variados fenômenos contemporâneos,  foi o  Zigmunt Baumam. Já li alguns de seus livros, entre eles o Modernidade líquida, que considero, até agora, o melhor. No livro intitulado Vida para consumo, ele mostra as vicissitudes da nossa sociedade, cada vez mais "plugada", ou seja, "sem fio". esse joguinho de plugado e sem fio foi um achado do escritor e relata a loucura que pode se tornar o consumismo extremo, ele elimina os fios que ligam os seres humanos entre si alienando-o. Bauman destacou que as redes sociais deixaram de ser uma opção para se tornarem o endereço "default",  de um número crescente de pessoas, especialmente dos jovens. A "morte social" espreita aqueles que não cedem aos apelos do cibermercado e da cultura "mostre e diga". Se na primeira modernidade os lugares estavam pré-determinados, na contemporaneidade eles vão se dissolvendo, misturando e confundindo e as barreiras entre o público e o privado estão cada vez mais fracas.
as pessoas revelam o mais íntimo de suas vidas, seus desejos, taras,  e aqueles que zelam por sua invisibilidade, segundo o autor, "tendem a ser rejeitados", como se fossem "suspeitos de um crime".
A "liquidez", pilar da tessitura baumiana, se estende as empresas. Os empregadores optam por empregados "flutuantes", ou seja, "descomprometidos", "flexíveis", "generalistas", e em última instância "descartáveis". Estes empregados desobrigados de família e descomprometidos, são classificados, por exemplo, no Vale do Silício, como "empregados chateação zero", assim, o empregado ideal seria uma pessoa sem vínculos. Concordo com o Bauman quando ele diz que a sociedade de consumidores, ou seja, nós, nunca seremos sujeitos sem primeiro virarmos mercadorias. Sonhamos em ser mercadorias desejáveis, necessárias, estudamos muito para isso, nos deformamos muito para alcançar este objetivo, mas eu pergunto para quê? no que resultará tudo isso? Como é dificil nos desvencilharmos do apelo da mídia, acreditamos que não podemos passar sem o celular da hora, sem provar novos sabores, novas emoções, tudo novo, tudo novo... e é assim que vamos sendo consumidos...

impre(visibilidade)




Recebi estas imagens e repasso para vocês, nem mesmo na natureza tudo tem que ser como geralmente é, estas imagens me lembraram o Mangabeira Unger que diz: "se as instituições são assim, é porque foram feitas assim". A gente é muito conformado com as coisas, precisamos abraçar a impre-visibilidade.

25/10/2009

Programação cultural da Biblioteca Estadual do ES: imperdível



23/10/2009

Mote

Mote
o trote
o xote
vou seguindo
Sou essa alma que grita
cobra pronta à dar o bote
Sou a nuvem punida pelo vento
arrastada, banida
pro norte
pra morte
viro chuva
água bonita
Vejo o arco-íris e
re-nasço
parte dessa cadeia vital
dando energia
pra roda gigante azul
Salve a vida!


bairenatabomfim

17/10/2009

Maus tratos de animais sempre envolve outros crimes...

Amigos, primeiramente quero parabenizar o belissimo trabalho feito pela policia militar ambiental do ES, é que o osso é bem duro de roer, a extração ilegal de areia é uma atividade ilegal que envolve muito dinheiro,  materiais de construção e carroceiros daquie e de outros estados. Os cavalos são maltratados, muitos trabalham com feridas abertas, éguas grávidas, enfim.... até quando minha gente? Vamos denunciar...

15/10/2009

Florbela Espanca por Vanda Luiza...

Olá caros, Vanda é responsável pelas capas dos livros da coleção Roberto Almada, que trata do resgate e divulgação da obra de escritores capixabas de variados tempos. Essa é uma publicação da Academia Espíritosantense de Letras e conta com a seleção, biografia e estudo critico da obra de autores como Lídia Besouchet, Rubem Braga, Maria Antonieta Tatagiba, entre outros. Eu não publiquei nessa coleção mas, como quem tem amigo, tem tudo, ganhei uma capa de presente com a minha "Flor(mais)Bela"... eheheh...  Obrigada Vandinha!

Ações de amor e respeito aos animais

Noite dos Caldos

Amigos, a AMAES está promovendo este evento maravilhoso!!!! vamos prestigiar!!!

Feira de adoção no CCZ (centro de zoonoses) de Vitória

A feira de adoção do CCZ (centro de Zoonoze) de Vitória será realizada nos dias 22, 23 e 24 de outubro. A feira está precisando de doações de fitas, gravatinhas, lacinhos, etc... e de ajuda também... quem desejar e puder ajudar entre em contato com as senhoritas Ludimila (9843-2804) e/ou Paula (9944-9773).
Vamos ajudar!

abraços
Renata Bomfim

site da AMAES: http://www.amaes.org.br/

Lei Chico Prego: entrega de certificados

Olá amigos, estaremos lá para receber o certificado referente a aprovação do nosso livro intitulado Mina.

12/10/2009

DESVAIRADOS E RACIONAIS: DOIS MOVIMENTOS E UMA CIDADE INSPIRAÇÃO (Andressa Zoi Nathanailidis)

Amigos, no dia 09 a nossa amiga Andressa defendeu a dissertação de mestrado  intitulada: Desvairados e Racionais: dois movimentos e uma cidade inspiração, este texto mostra a riqueza da pesquisa:

Ao promover um estudo acerca da importância de Mário de Andrade na constituição do legado identitário brasileiro, deparei-me com um vídeo que me chamou bastante atenção. Nele, um grupo paulista de rap (Urbanos MC’S), se apresentava “cantando” poemas de Mário de Andrade. Ao assistir o vídeo, percebi então que, na voz rapper, o texto modernista, produzido há quase um século, parecia bastante atual.  Instigada a compreender o que ambos os discursos (rapper e poético) continham em comum, ao ingressar no curso de mestrado, decidi conceder um recorte ao tema; promovendo uma análise comparativa sobre o “olhar da cidade”, em textos esparsos produzidos por Mário de Andrade e Racionais MCS; este último considerado um dos maiores expoentes do rap paulista. Devido à amplitude do “corpus literário”, concentramos nosso estudo em duas obras, produzidas em momentos diferentes da carreira do autor modernista: Paulicéia Desvairada (1921) e Lira Paulistana (1941). Já em relação a Racionais MCS, foram selecionadas canções avulsas, cuja temática versasse sobre “a cidade”. Após uma breve introdução na qual expusemos nossos objetivos e algumas considerações acerca da cidade e do fazer literário, formulamos questionamentos que ajudaram a determinar as divisões capitulares da dissertação; como por exemplo: como ocorreu o processo histórico que envolve a criação e o desenvolvimento de São Paulo; sob quais bases foram instituídos o Hip-Hop e o Modernismo; de que maneira a linguagem é trabalhada nos textos destes dois movimentos; como eles se estabeleceram em São Paulo, que objetivo continham e a que público se destinavam? Dividimos a dissertação em quatro capítulos, sobre os quais falaremos brevemente. São Paulo: Breve Histórico, o primeiro capítulo, traz um pouco da história da metrópole. Fundada em 1553, São Paulo é fruto da fusão de dois conglomerados: a Vila Histórica Santo André da Borda do Campo (governada por João Ramalho) e o Colégio Jesuíta (fundado por Manoel de Nóbrega). Cidade modesta até os fins do século XVIII, São Paulo atravessou momentos políticos e econômicos que transformaram seus aspectos físicos e sociais. No século XIX, por exemplo, à época do Império Brasileiro, tivemos o “Ciclo do Café” que trouxe à cidade um aumento populacional (através dos imigrantes), a expansão do comércio e de seus limites. A essa época, foram inaugurados os primeiros marcos da urbanização paulista, como por exemplo: Cemitério da Consolação (1858), Estrada de Ferro Santos-Jundiaí (1867), Avenida Paulista (1891), Viaduto do Chá (1892), etc. Em função de crises diversas, a economia cafeeira precisou ser substituída pela atividade industrial, que alterou ainda mais a cidade. Atraídos pela possibilidade de emprego, muitos migrantes chegaram ao local, aumentando consideravelmente o número de habitantes. A cidade, que antes não contemplava muitas divisões sociais, adquire agora novos elementos em sua estrutura física e social. Surgem os operários e “suas” periferias, caracterizadas pela precariedade de serviços oferecidos. No decorrer do século XX, os níveis paulistas de segregação social aumentaram cada vez mais, culminando no surgimento das favelas, na década de 1940. Sobre esse novo elemento, há que se dizer que era geralmente habitado por descendentes de negros que, encontravam muitas dificuldades para se inserir no mercado de trabalho e ter condições de pagar o aluguel, ainda que de casas mais simples ou cortiços. A história do povo negro, ganha neste capítulo, uma seção especial, na qual estudamos um período extenso, que vai desde o início do tráfico de escravos (1530) até a abolição da escravatura e conseqüente exclusão social deste povo (1888). Ao final do primeiro capítulo notamos ter percorrido a trajetória de uma cidade que se tornou, ao longo dos anos, cada vez mais “guetizada”, senhora de muitas realidades capazes de inspirar releituras diversas, acerca da mesma. No segundo capítulo, São Paulo Inspiradora das Artes, procuramos verificar as origens das releituras analisadas na dissertação. Para compreender um pouco mais sobre o Modernismo e o movimento Hip-Hop, foi necessário caminhar até suas essências. Constatamos que o Modernismo, na verdade, decorre de outro movimento artístico, nascido na Itália: o Futurismo, cujos princípios (exaltação à guerra, ao poder da palavra, às máquinas, combate ao academicismo, inovação artística, etc.), não foram adotados em sua totalidade no Brasil. Já em relação ao Hip-Hop, também foram descobertas origens distantes. Resultado de tradições jamaicanas, o movimento passou pelos Estados Unidos; sofrendo um percurso considerável de modificações até que ocorresse sua disseminação mundial e conseqüente chegada a São Paulo. Ainda neste capítulo, pesquisamos acerca da ligação histórica existente entre música e poesia; destacando os primeiros indícios ainda no século VII a.C., seu desenvolvimento na Idade Média (por meio dos jograis e trovadores), o surgimento do Teatro Musical (no Séc. XIX), dentre outros. Procuramos, também, compreender de que maneira é constituído o RAP, suas influências, peculiaridades sonoras e lingüísticas; bem como sua aceitação no meio acadêmico e social. Estivemos diante de opiniões totalmente contraditórias, provenientes de personalidades do campo da música e das letras; como Chico Buarque, Júlio Medaglia e Marcelo Mirisola. Após termos constatado ser o rap uma manifestação bastante polêmica, passamos, então, ao terceiro capítulo, destinado à compreensão e análise da obra de Mário de Andrade. Intitulado A poesia de Mário de Andrade: o Arlequim, a Lira e a cidade, o capítulo traz uma breve biografia do autor, seguida, primeiramente da análise de Paulicéia Desvairada. Lançado em 1922, o livro demonstra a consciência do autor acerca do poder da palavra. A análise dos poemas revelou características, como um caráter sensorial muito grande. O poeta, que vive os primeiros anos da industrialização na capital paulista, mergulha na literatura: ele é o narrador- arlequim que, como um flâneur, desvenda a cidade, tomando para si, as características de um ambiente múltiplo. O caráter humanitário dos poemas e a alegria de viver em São Paulo são confrontados com a ameaça industrial, a indiferença burguesa e as críticas ao sistema. Na linguagem, a utilização seqüenciada de termos contraditórios (como “luz” e “bruma”) é também uma constante evidência. Se tivemos em Paulicéia Desvairada a esperança de evitar o crescimento dos primeiros problemas oriundos da industrialização na capital paulista, o mesmo não ocorre em Lira Paulistana. Publicada em 1945, a obra fora escrita num período onde os números relativos ao índice de segregação sócio-espacial da capital paulista, já eram elevados. Apesar de guardarem em si características de ampla musicalidade, os poemas de Lira Paulistana retratam um “eu” sombrio, cuja postura niilista já não dá lugar à esperança de uma sociedade mais justa. Ao ver “sua” São Paulo transformada, o narrador-poeta que ainda é consciente do poder de suas palavras, vê-se como elemento frágil diante de um poderoso sistema, responsável por modificações contínuas, tanto na cidade física, quanto nos habitantes que a ocupam. O livro contém a certeza da existência de um sistema que cultiva, em meio à população, a apatia e automação de comportamentos indiferentes. Nesse aspecto, chama atenção, no livro, a utilização do elemento “garoa”, enquanto metáfora da desigualdade (“garoa sai dos meus olhos”). Eis que, então, chegamos ao último capítulo da dissertação: O Rap de Racionais MCS. Assim como no anterior, após breves considerações sobre o grupo, passamos à análise das letras, cujo resultado é o retrato de uma metrópole completamente segregada, cujos graus de automação e indiferença parecem ter atingido seu estopim. A análise das letras reflete um simulacro do cotidiano. A cidade é colocada na condição de campo de guerra, sendo as criticas ao sistema e à indiferença social, fatores constantes. Mais uma vez, a garoa aparece na condição de metáfora da desigualdade (“a garoa rasga a carne”) e diante do “holocausto urbano”, a “palavra” surge como saída e elemento de orientação. Ela resgata identidades, persuade e convoca seus “fiéis” a uma postura cívica, distante da apatia instituída pelo sistema capitalista, ao longo de tantos anos. Uma postura cujo objetivo é resgatar não só o destino de pessoas, mas também do espaço físico, que tanto é “espaço-caos”, quanto “espaço-amado” (“Porque esse é o meu lugar... mas eu o quero mesmo assim”...) Ao passarmos para a conclusão de nosso trabalho, constatamos que as manifestações poéticas nele estudadas mantém um diálogo intenso com a realidade (à semelhança do que nos diz Bakhtin, em sua teoria do dialogismo) e acompanham, de certo modo, o desenvolvimento histórico da capital paulista (desde a chegada da industrialização à segregação total da mesma). Lançamos alguns questionamentos ousados, como: teria o rapper, em sua condição de pobreza, a capacidade de agir como um flâneur (já que enquanto as camadas mais abastadas permanecem confinadas em seus “guetos” de segurança, esse por falta de condições, percorre as ruas da cidade, explorando, conhecendo e sentindo mais o seu espaço. )? Seria ele agente de um novo movimento estético que, de certa forma retoma à sua maneira princípios futuristas de Marinetti, como a exaltação da guerra por meio da palavra e o agir coletivo dos jovens? Sem pretensões de responder a tais perguntas, concluímos, pois nossa pesquisa; na esperança de termos realizado uma abordagem diferenciada que talvez, futuramente, possa servir como referencial para outros trabalhos.

Banca Examinadora:
Prof. Dr. Jorge Luiz do Nascimento – UFES (Orientador)
Prof. Dr. Wilberth Claython Ferreira Salgueiro – UFES (Membro Titular)
Profª. Drª. Janice Caiafa Pereira e Silva – UFRJ (Membro Titular)
Prof. Dr. Sérgio da Fonseca Amaral – UFES (Membro Suplente)

Se este tema te interessou entre em contato com Andressa:
http://letrasaopiano.blogspot.com/

10/10/2009

Miguél Marvilla: perdemos um grande escritor, perdi um amigo

Amigos, é com muita tristeza que eu publico este post. Morreu Miguél Marvilla, nosso estado perdeu um dos seus maiores escritores e eu o revisor, o editor, e o amigo querido. Miguél foi uma pessoa que acreditou no meu trabalho, na minha poesia e disso eu não me esquecerei nunca. Eu sempre saía da casa do Marvilla com novas idéias e uma vontade louca de escrever, a paixão dele pela escrita e pelos livros era contagiante. Meu carinho à querida Priscila que perdeu um esposo dedicado e apaixonado, e aos demais parentes.
OBRIGADA  Milguél pelo privilégio de ter convivido com você!
Saudades da amiga,
Renata

Esta foto eu tirei no Congresso de Estudos Literários do ano passado, quando a obra de Miguél foi tema de uma mesa redonda.